A VALA COMUM E OS FANTASMAS DE 1977

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Quando em Angola se anunciou a descoberta de mais uma vala comum, esta com mais de 500 restos mortais, no Cemitério do 14, em Luanda, percebemos que ali está a prova de um dos muitos episódios sangrentos da história de Angola. Naquela vala podem estar pessoas cujos nomes continuam a atravessar a história contemporânea de Angola e de Portugal. Poderão lá estar os restos de Sita Valles e de José Van Dunem, dois nomes entre milhares de anónimos massacrados em 27 de maio de 1977 pelo regime político angolano. Uma história que a RTP já contou.

Quando Agostinho Neto disse “não vamos perder tempo com julgamentos” ditou uma sentença de morte para dezenas de milhar de angolanos.

Ela era portuguesa, médica, antiga dirigente estudantil em Lisboa, militante comunista formada politicamente no ambiente revolucionário português do pós-25 de Abril. Ele era um dos quadros políticos mais influentes da corrente nitista dentro do MPLA. Casaram-se, tiveram um filho e acabaram executados poucos meses depois do nascimento da criança. Há décadas que as famílias não sabem onde estão os seus corpos.

José Van Dunem
Sita Valles

Mas a história não termina aí. A irmã de José Van Dunem, Francisca Van Dunem, conseguiu escapar ao destino do irmão. Veio para Portugal, estudou Direito, fez carreira no Ministério Público e acabaria por se tornar ministra duas vezes, primeiro da Justiça e depois da Administração Interna, a primeira mulher negra a ocupar uma pasta ministerial em Portugal. Desde sempre que carrega consigo uma história familiar marcada por um drama nunca cabalmente esclarecido.

Há ainda outra figura que liga diretamente a tragédia de 1977 à política portuguesa recente: António Costa Silva. António é um sobrevivente. Foi preso na sequência das purgas desencadeadas pelo regime, torturado e levado perante um pelotão de fuzilamento. O próprio relatou que ouviu os preparativos para a execução e acreditou estar perante os últimos minutos da sua vida. No último instante, a ordem para disparar não foi dada. Décadas mais tarde seria ministro da Economia em Portugal.

António Costa Silva
Francisca Van Dunem

É difícil encontrar um contraste mais impressionante: de um lado, os que desapareceram sem sepultura conhecida; do outro, os sobreviventes que conseguiram reconstruir um percurso de vida.

O jornal Folha 8 tem insistido durante anos que enquanto não forem identificadas as vítimas e abertas as valas comuns, não existe reconciliação na sociedade angolana. A descoberta da vala comum é noticiada pelo jornal como um possível avanço na identificação dos desaparecidos do 27 de Maio.

O que torna esta descoberta particularmente interessante é que ela devolve materialidade a uma história que durante décadas viveu apenas em testemunhos e memórias. Esta vala comum não é um local arqueológico. É um lugar onde podem convergir as histórias de milhares de anónimos que nunca chegaram a ter nome numa lápide.

recorte da publicação em pdf
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Meio século depois, a questão não é apenas saber quantos morreram. É saber quem eram, onde estão e porque foram assassinados. A vala do Cemitério do 14 pode não responder a todas essas perguntas, mas é preciso começar por algum lado.

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