A ampla avenida, ladeada de nodosas tílias, deixava antever que o palácio ressumbraria a vidas de há mais de um século. Imaginava-se, ao subir a escadaria, o roçagar de longos vestidos, aperaltados para serões de fidalguia, quiçá.
O primeiro baque veio, porém, daquele inesperado esmalte: ENTRÉE INTERDITE. Uma expressão em francês, senhores, em pleno final da terceira década do segundo milénio, quando, impante, a língua inglesa se arvora em idioma universal! Quem diria? Como era tal possível?Era – porque os proprietários souberam deixar-se prender pelo encanto da tradição, pelo sabor da memória.

No alto da porta que dava para outra dependência, outro esmalte: BAINS. nem «toiletes» nem «WC»! Banhos, à francesa! Numa das portas: HOMMES; na outra, FEMMES. Entra-se, pois, devagarinho, como quem vai penetrar num santuário. Abençoados!


Escusado será dizer que o rodapé dos salões se encontrava revestido a azulejos figurativos, azuis, retratos de cenas bucólicas, na comunhão com a Natureza. Damas e donzelas. Cavalheiros galãs. Outros tempos. Outros ritmos. Outro viver.

Já não é o nosso nem poderá voltar a sê-lo, mas que dá consolo apreciar, isso dá!

Foi no Solar de Pancas em Alenquer, vila que, mui celebrado ‘presépio’, se orgulha de preservar tais tradições. E nós, os de Cascais, precisamos também de não esquecer que a Estrada Nacional 9 – http://hdl.handle.net/10316/31284 – vai precisamente de Cascais a Alenquer, a vila onde, com bastante frequência, a Corte Régia procurava repousar.




