O futebol construiu a sua dimensão global precisamente por ser um desporto popular, jogado e vivido pelas classes trabalhadoras. No entanto, os jogos mais emblemáticos são hoje comercializados como produtos premium, com preços semelhantes aos de experiências de luxo.
Quando o bilhete mais barato para a final do Mundial custa cinco ou seis mil euros, e os melhores lugares ultrapassam largamente esse valor, as ofertas para se ir à bola deixam de ser gestos de cortesia.
Há poucos dias, o Duas Linhas questionou os custos das deslocações do primeiro-ministro aos três jogos da seleção portuguesa no Mundial. A questão mantém-se. Quem pagou os bilhetes?
Se foram adquiridos pelo Estado, os cidadãos têm o direito de conhecer a despesa. Se foram oferecidos, importa saber por quem e a que título. Porque, afinal, estamos a falar de ofertas de milhares de euros.

A discussão não diz respeito apenas a Luís Montenegro. Vale para qualquer governante, autarca, deputado ou dirigente público. Não podemos aceitar como normal que um político receba bilhetes que custam vários milhares de euros.
A que título o Estado permite que os seus representantes aceitem benefícios desta ordem de valor? Creio que os políticos que se sentam na Assembleia da República deveriam trabalhar no sentido de regular este tráfico. No fundo, se a representação nacional for considerada essencial em determinados jogos de futebol, o Estado tem a obrigação de pagar essa despesa e não aceitar ofertas de milhares de euros.
Acaba de ser criado um novo ditador popular: não há bilhetes grátis para ir à bola.



