SITA VALLES, o exemplo

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O documentário sobre a vida e morte de Sita Valles é mais uma evidência de como o MPLA se alapou ao poder através da repressão, violência e terror.

É também a evidência de como se manipula uma sociedade através da emoção e da palavra. Camarada, liberdade, igualdade, são palavras que foram utilizadas para discriminar, prender e insultar.

Por fim, é a evidência do cinismo da política. Nunca o MPLA foi um partido de ideologia comunista. Em Portugal, tinha relações privilegiadas com o PPD.  No entanto, tinha lugar marcado nos congressos do Partido Comunista da União Soviética. Podemos dizer que os EUA fizeram o mesmo, ao apoiar a UNITA na guerra civil contra o MPLA para, depois, os deixar cair quando já não eram úteis.

Sita Valles e o irmão Ademar, igualmente fuzilado pelo MPLA na purga de 1977, eram “produto” da lusofonia. Portugueses, filhos de migrantes goeses, nascidos em Angola. Revolucionários, no contexto da queda da ditadura em Portugal e da independência das colónias. Por opção, quiseram manter Angola como pátria. Encontraram lugar numa vala comum. Com eles, terão morrido 70 mil angolanos. Muitos deles, militantes do partido que os mandou matar.

A história de Sita Valles serve como exemplo. É um caso, entre muitos. Mas é a história possível de contar do que se passou naqueles tempos, em Angola. A riqueza deste documentário realizado por Margarida Cardoso está nos depoimentos de sobreviventes dos massacres de 1977. Eles falam com indubitável verdade sobre o sucedido com eles próprios: a prisão, as torturas, o fuzilamento simulado, o terror psicológico.

O documentário é longo e podia ter sido estruturado de outro modo. Tudo o que diz respeito aos acontecimentos em Angola é interessante. A parte sobre a vida de Sita Valles em Lisboa, os estudos na Faculdade de Medicina, a militância no PCP, podia ter tido um critério mais jornalístico. Às tantas, é preciso querer chegar ao fim para não desistir de ver o vídeo que dura 2 horas e 47 minutos.

Interessantes, os depoimentos de ex-militantes do PCP revelam também o pragmatismo cruel de um partido que abandonou os seus quando valores mais altos se levantaram. Ninguém (de partido algum) mexeu uma palha, nem mesmo quando Agostinho Neto disse “não vamos perder tempo com julgamentos”. Uma sentença de morte para dezenas de milhar de angolanos.

O documentário vale a pena.

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