No vasto e poeirento deserto da governação lusitana, onde os prazos do Plano de Recuperação e Resiliência passam a voar como arbustos rolantes ao sabor do vento, ergue-se uma lenda viva. Mas esqueçam o herói solitário criado por Maurice de Bévère. O Lucky Luke da banda desenhada franco-belga, que disparava mais rápido que a sua própria sombra, não passa de um amador de feira face ao atual primeiro-ministro de Portugal. O nosso herói político elevou o conceito a um patamar metafísico: ele não dispara mais rápido que a sombra; ele governa sob o pânico constante daquilo que a sua própria sombra possa fazer a seguir.
Se o Lucky Luke original perseguia os temíveis irmãos Dalton com uma calma imperturbável, o nosso primeiro-ministro enfrenta vilões muito mais esquivos: as sondagens de opinião, as comissões de inquérito e as terríveis conspirações que a sua silhueta projeta na parede de São Bento quando o sol bate de lado.
A sua sombra, de facto, tornou-se o maior elemento de oposição ao Governo. É uma sombra de esquerda quando ele tenta agradar à direita, e uma sombra de direita quando ele tenta resgatar a esquerda. Em virtude deste tormento visual, o Conselho de Ministros passou a reunir-se na mais rigorosa penumbra. Fontes próximas de São Bento garantem que os candeeiros foram substituídos por velas de baixa intensidade, tudo para evitar que o chefe do executivo confunda o contorno do seu próprio perfil com uma moção de censura iminente.
O fiel corcel desta epopeia já não é o sarcástico Jolly Jumper, mas sim uma imensa máquina burocrática rebatizada de “Consensus”. Trata-se de um cavalo que não galopa para a frente nem recua; limita-se a marchar no mesmo lugar, fingindo um movimento vigoroso enquanto espera pelo resultado de três relatórios independentes e de uma audição parlamentar para decidir qual das patas deve mover primeiro. Sempre que o primeiro-ministro tenta montar, o animal relincha uma nota de rodapé jurídica, lembrando que qualquer avanço carece de consulta prévia aos parceiros sociais.
E assim, enquanto o Lucky Luke da ficção cavalgava em direção ao pôr do sol a cantar “I’m a poor lonesome cowboy”, o nosso herói termina o dia a assinar despachos de urgência para exonerar a sua própria sombra por quebra de confiança política. No final da história, a planície continua igual, o saloon da Assembleia continua barulhento e o primeiro-ministro respira de alívio: o dia terminou e, na escuridão da noite, finalmente ninguém lhe faz sombra.




