Há feridas que nunca saram, mesmo se a carne fecha e a cicatriz suaviza. A bala que se cravou no peito de Maria, tinha ela apenas 5 anos de idade, deixou-lhe para sempre um buraco aberto na alma.
Maria cresceu com a bala alojada a milímetros do coração e da coluna vertebral. Um dos relatórios médicos localiza bem o projéctil:

Será uma localização melindrosa, não somos médicos para discutirmos essa questão. Mas achámos estranho que a bala não tenha sido extraída. Em 40 anos, as técnicas cirurgicas evoluíram, os médicos hoje fazem milagres. E então perguntámos:
– Maria, chegou alguma vez a pedir que se fizesse essa cirurgia?
– Sim, pedi várias vezes. Mas fugi sempre…
– Explique-me o que quer dizer com “fugi sempre”. Pediu para lhe extraírem a bala? Chegou a haver alguma cirurgia marcada, foi a consultas de preparação para a cirurgia? Quando diz que fugiu, foi porque tinha medo de que alguma coisa corresse mal? Alguma vez pediu apoio psicológico? A Maria pode ter um caso de stress pós-traumático (frequente em casos de violência física ou emocional)…

– Quando digo que fugi sempre, refiro-me a uma fuga real e ditada pelo medo mais profundo e instintivo: o medo de morrer. Eu cheguei a receber chamadas do hospital para ir a consultas e falar diretamente com o neurocirurgião. Mas a verdade é que nunca fui. Nunca cheguei a avançar para exames de preparação ou a marcar a cirurgia, porque o pânico me bloqueava. No fundo, cada vez que pensava em ir ou quando me falavam que seria preciso assinar papéis de consentimento, o meu coração recuava. Eu receava o pior e o medo de morrer falava mais alto do que tudo.
Nunca tive apoio psicológico para lidar com isto, mas sei bem que carrego traumas severos. O meu marido foi morto com dois tiros. Por causa disso, qualquer situação ligada a tiros me deixa em estado de choque; a lembrança vem de imediato e a dor é insuportável. Quando o senhor fala em stress pós-traumático, toca exatamente na ferida. A minha dor não é só a da bala que ficou; é a dor de reviver a violência que me levou o marido. Fugi do neurocirurgião e das consultas porque, no meu íntimo, o medo de não resistir à cirurgia era o reflexo do pânico de ter o mesmo fim trágico que ele teve. Hoje vivo de ansiolíticos.
É um relato tremendo. Uma vida em tiroteio permanente. Balas reais que matam gente e não deixam morrer fantasmas. A cicatriz está lá, ligeiramente acima da mama direita, mas a bala não ficou apenas cravada numa zona anatómica complexa.




Compreendo o medo desta senhora, a visão de todos os acontecimentos relacionados com a bala ainda alojada dentro dela, mais a que lhe levou o marido.
O problema dela tem sido a falta de apoio para ajudar a gerir o stress e o receio de morrer, ou um incentivo para sugerir-lhe que corra, ou não, o risco da cirurgia, se lhe garantirem que é fácil extraír a bala.
A vida é toda ela um risco. Morrer no meio de uma cirurgia é a dor menor, a menos que haja crianças para cuidar e a ponderação tenha de ser mais longa.
Maria não tem querido assumir sozinha, e não querendo, ninguém o pode fazer no seu lugar.
Fala quem sabe da gestão de um problema gravíssimo: remoção de um tumor imenso na base do cerebelo e ninguém para ajudar a decidir. Ou melhor: muitas opiniões contraditórias e muito pânico para tomar uma decisão sozinha.
Como no caso de “quem sabe”, às vezes as cirurgias são bem-sucedidas na medida em que salvam vidas, mas a um preço elevado. É preciso muita persistência para contrariar as sequelas, ou como dizia um médico muito sensato, é preciso “estaleca”.
Aqui havia que fazer, ou era a morte certa. Fez-se e fugiu-se da morte, mas foi a corrida para uma vida que todos os dias, durante duas décadas, exigiu a persistência de exercícios, fisioterapia, aprendizagens novas.
Ter que lidar com a surdez irreversível, com o desequilíbrio. E mais…muito mais.
Diria eu que, se ela aguentar a vida como a tem vivido, que não corra o risco, mas se algum dia lhe disserem que TEM de fazer a cirurgia e que não ficará pior do que está, então que não hesite. A medicina existe para ajudar a salvar vidas e a remediar situações.
Grata por trazer este caso, que nos leva a pensar em tantos outros, Carlos.