“A descrição técnica indica que o projétil se encontra muito próximo da coluna vertebral, ficou alojado relativamente próximo do plano cutâneo (15 mm). Isto sugere que o projéctil poderá não estar tão próximo do coração como foi explicado à doente durante décadas, mas sim localizado numa região paravertebral posterior torácica. Nessa localização, as dores crónicas descritas por Maria tornam-se ainda mais plausíveis, porque os nervos intercostais podem sofrer irritação contínua; pode existir erosão óssea progressiva; fibrose muscular e aderências profundas podem desenvolver-se; movimentos respiratórios podem gerar microtraumatismos repetidos e a proximidade da coluna pode originar dor neuropática irradiada e incapacidade funcional importante”, diz este médico cirurgião.
João Hagatong diz, ainda, que a opção pela extração da bala deve ser ponderada, à luz das atuais capacidades que a tecnologia fornece à medicina.
“Há 40 anos TAC de alta resolução praticamente não existia, cirurgia torácica minimamente invasiva era muito limitada e o risco cirúrgico era muito superior. Hoje é possível fazer reconstrução 3D, localizar exatamente o projétil, avaliar relação com nervos, vasos e coluna e ponderar remoção cirúrgica muito mais segura.”
Resumindo uma longa apreciação clínica, podemos afirmar que João Hagatong recomenda, antes da cirurgia, um estudo aprofundado da situação. É preciso perceber os efeitos da permanência da bala ao fim de 40 anos dentro do peito de Maria.
“Sem menosprezar eventuais riscos cirúrgicos elevados, o projéctil encapsulado será removível se estiver estabilizado em tecido fibroso e afastado de grandes vasos. Dependendo de avaliação médica, poderá existir indicação cirúrgica, sobretudo perante dor incapacitante e destruição costal. A referência às costelas danificadas merece investigação muito séria, porque erosão óssea crónica, osteíte, pseudoartrose ou inflamação local prolongada podem justificar incapacidade funcional real.”
Segundo este cirurgião, a bala não deverá estar “encostada ao coração”, mas sim alojada perto das vértebras, o que explica “a dor crónica incapacitante”.
João Hagatong conclui que “Maria deveria ser observada num centro hospitalar com cirurgia torácica, cirurgia da coluna, medicina da dor, imagiologia avançada e avaliação médico-legal especializada.”



