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CABO VERDE E A ESPERANÇA DEMOCRÁTICA PARA A GUINÉ-BISSAU

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As recentes eleições legislativas em Cabo Verde não representam apenas uma vitória da democracia cabo-verdiana. Representam também uma poderosa mensagem de esperança para países africanos que atravessaram períodos de elevada tensão política, institucional e até risco real de fragmentação nacional.

A Guiné-Bissau é um desses países. Durante largos meses, o país viveu sob um ambiente de forte crispação política, institucional e social. Muitos temiam que as tensões acumuladas pudessem degenerar em conflitos internos de natureza perigosa, misturando rivalidades políticas com  antagonismos étnicos, regionais e religiosos, um cenário explosivo que poderia empurrar a Guiné-Bissau para uma crise de consequências imprevisíveis.

Foi precisamente neste contexto delicado que a intervenção de 26 de Novembro pelo Alto Comando Militar acabou por travar uma escalada que muitos receavam poder conduzir o país ao caos institucional e mesmo à violência generalizada.

Independentemente das leituras políticas que cada um possa fazer sobre esses acontecimentos, existe hoje um facto difícil de negar: a Guiné-Bissau escapou a uma situação potencialmente devastadora para a sua unidade nacional.

Mas evitar o pior não basta. Os povos não vivem eternamente em estado de sobrevivência política. As Nações precisam de horizonte. Precisam de instituições credíveis. Precisam de esperança democrática. É precisamente aqui que o exemplo de Cabo Verde ganha uma dimensão profundamente inspiradora para os guineenses.

Cabo Verde mostrou que é possível construir um Estado africano onde as eleições não sejam motivo de medo, a oposição não seja tratada como inimiga, os tribunais funcionem, as instituições eleitorais mereçam confiança, a alternância política seja encarada como normalidade democrática e não como ameaça existencial.

Esse é o verdadeiro desafio que se coloca hoje à Guiné-Bissau. O país precisa urgentemente de transformar a estabilidade provisória em estabilidade institucional duradoura. E isso só será possível através de eleições credíveis, instituições fortes, respeito pela Constituição, justiça independente, forças armadas republicanas e diálogo político sério entre os principais actores nacionais.

A Guiné-Bissau possui recursos humanos, inteligência política, experiência histórica e maturidade social suficientes para trilhar esse caminho. O povo guineense já demonstrou inúmeras vezes uma extraordinária capacidade de convivência entre etnias, religiões e sensibilidades políticas diferentes. Apesar de todas as crises, o país nunca mergulhou numa guerra civil étnica ou religiosa como aconteceu noutras regiões do continente. Isso não é um detalhe menor. É um património nacional precioso que precisa de ser protegido.

Mas proteger essa convivência exige responsabilidade política. Os líderes nacionais devem compreender que nenhum projecto pessoal de poder vale mais do que a paz social, a unidade nacional e o futuro das próximas gerações.

Cabo Verde ensina hoje uma lição simples, mas poderosa: a estabilidade verdadeira não nasce do medo. Nasce da confiança dos cidadãos nas instituições.

Nenhum país consegue construir desenvolvimento sustentável quando cada processo eleitoral é encarado como uma batalha de sobrevivência.

Nenhuma democracia amadurece quando o Estado se transforma permanentemente num campo de confrontação total.

A Guiné-Bissau precisa agora de entrar numa nova etapa da sua história: a etapa da consolidação institucional.

E talvez, paradoxalmente, as crises recentes tenham servido precisamente para mostrar aos guineenses até onde o país não pode voltar a caminhar.

O exemplo cabo-verdiano surge assim não como modelo perfeito ou cópia automática, mas como prova africana concreta de que: instituições fortes são possíveis; alternância democrática é possível; eleições credíveis são possíveis; e estabilidade política sem repressão também é possível em África. A esperança democrática voltou a respirar no continente.

E muitos guineenses começam novamente a acreditar que a Guiné-Bissau também pode um dia tornar-se um exemplo positivo de maturidade democrática, estabilidade institucional e convivência republicana em África Ocidental. O futuro ainda está em aberto. Mas hoje existe novamente algo fundamental: esperança.

O EFEITO TRUMP NO COMENTÁRIO POLÍTICO

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À moda de Trump, apresenta-se uma teoria simplista e coloca-se alguns comentadores a replicar a mesma, para ver se pega. Defender que o Chega e o Partido Socialista são, no essencial, a mesma coisa constitui uma simplificação abusiva e, em termos argumentativos, uma falácia. Essa tese ignora, objetivamente, diferenças estruturais de matriz ideológica, de prioridades programáticas e de linguagem política. Embora em democracia possa haver convergências ocasionais em votos, medidas avulsas ou táticas parlamentares, isso não basta para concluir que dois partidos são equivalentes. Confundir coincidências pontuais com identidade política é apagar aquilo que realmente distingue projetos partidários: a forma como encaram o Estado, a economia, a comunidade nacional, os direitos sociais e o lugar de Portugal no mundo.

As diferenças entre ambos são evidentes, desde logo na visão do Estado e da sociedade. O Partido Socialista inscreve-se, historicamente, numa tradição social-democrata e reformista, defendendo um Estado social forte, a protecção dos serviços públicos e uma lógica de redistribuição com preocupação de coesão social, como se reflecte na valorização do SNS, da escola pública e da segurança social no seu programa eleitoral de 2025. Já o Chega apresenta-se como uma força de rutura com o chamado ‘sistema’, combinando propostas de endurecimento penal, discurso securitário, controlo mais restritivo da imigração e uma retórica de confronto com instituições e elites políticas; o seu programa de 2025 enfatiza precisamente uma justiça mais punitiva, imigração controlada, soberania nacional e reforço da autoridade do Estado. Mesmo quando ambos falam de crescimento económico, fazem-no a partir de pressupostos distintos: o PS tende a articular competitividade com proteção social, enquanto o Chega procura associar a crítica fiscal e burocrática a uma narrativa de ordem, identidade e combate à corrupção.

Também no plano discursivo a distância é significativa. O PS usa, em regra, uma linguagem institucional, moderada e centrada na administração gradual das políticas públicas; o Chega mobiliza uma retórica mais polarizadora, assente na denúncia, na dramatização do conflito e na oposição entre ‘povo’ e ‘sistema’. Por isso, dizer que são iguais não é uma análise séria, mas antes uma forma de desvalorizar distinções fundamentais do debate democrático. Pode ser legítimo criticar ambos, apontar incoerências ou denunciar aproximações pontuais em certos momentos. O que não é intelectualmente rigoroso é apagar as diferenças de orientação ideológica, programática e retórica que os separam. Se a discussão quiser ser honesta, deve começar justamente por dissecar essas diferenças, e não por anulá-las numa equivalência apressada.

AS SAUDADES

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imagem gerada com recurso a IA

Como talvez tenham notado, a Inteligência Artificial da Google construiu um texto engraçado sobre os seis anos do site Duas Linhas. A parte que mais nos tocou foi quando o texto diz que somos “uma comunidade de ideias e pluralidade” e que “a longevidade e a relevância do projeto encontram o seu porto seguro na qualidade do corpo de colunistas”, lembrando que “o Duas Linhas consolidou-se como fórum plural de debate de ideias, reunindo sempre um painel de colaboradores que trazem a sua expertise setorial e regional para as páginas do site.

Hoje, vozes assíduas como as de José d’Encarnação na arqueologia e nas histórias sobre Cascais, Alberto Correia através das suas detalhadas crónicas de província, Margarida MariaHelena Ventura PereiraVítor MartinsVítor Fonseca na análise de atualidade, ou as crónicas de viagem de Vanda Narciso, ilustram na perfeição o ecletismo e a profundidade de pensamento que o site oferece aos seus leitores.” Ficámos vaidosos.

Mas o que a IA da Google não sabe é das saudades que nos assaltam frequentemente. Saudades de notáveis articulistas como, por exemplo, a Alice Marques e o Cândido Ferreira, infelizmente já falecidos. Mas, também, saudades de outros que continuam bem vivos e que esperamos que, um dia, voltem a bater na nossa porta. Falamos do Waldemar Abreu e das suas brilhantes crónicas sobre televisão, da Faty Laouini, do Hélder de Sousa, da Ana Catarina Rocha, do Rui Naldinho, da Sónia Andrade, do querido amigo Vítor Ilharco, entre muitos outros, numa lista de mais de 80 pessoas que já passaram por aqui nestes seis anos.

GOVERNO A PÉ E TRABALHADORES DE CARRO

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A ministra da Energia, Maria da Graça Carvalho, saiu-se a dizer que ‘há muitas formas de chegar ao trabalho’, para rejeitar a recomendação de teletrabalho devido à crise de petróleo. E até acrescentou que a questão não está ‘sequer’ em discussão no governo. Pessoalmente, nem sou favorável ao teletrabalho. Penso que os trabalhadores, enquanto vão e vêm, falam com colegas e convivem com outras pessoas, ficam, mentalmente, mais sãos, como, aliás, provam análises e estatísticas.

Também não está à vista a redução das viagens de avião para diminuir a procura, e o executivo afirma que há combustível da aviação até ao fim de Agosto. Refira-se que estas duas recomendações são da Agência Internacional de Energia.

Para a ministra, seguramente mais preocupada com o turismo e outros ‘lucros’, as ‘pessoas têm o direito às suas férias e às viagens’, com a época que se aproxima, em que muitos portugueses querem vir ao seu país e outros que pretendem visitar familiares.

‘Temos uma grande diáspora que tem direito a ver a família e gosta de regressar a Portugal […] e o turismo é 15 por cento do nosso PIB, mas também individualmente, as pessoas gostam de viajar, faz parte de aumentar a sua cultura, e eu não queria estar aqui a fazer uma recomendação a evitar, para já’, disse a ministra.

Não vou aqui contar tudo o que disse a governante. Mas julgo que nos deveríamos ater ao facto de ser claro que as classes mais baixas não irão de férias e as um pouquinho mais altas (que têm vindo a ‘descer’ permanentemente) talvez também não. O aumento brutal do custo de vida, as rendas impossíveis de pagar (em que o primeiro-ministro entende que 2.300 euros é uma renda moderada) e os combustíveis (além do aumento exponencial do preço das viagens de avião), certamente travarão muitos projectos.

Já quanto às ‘muitas formas de chegar ao trabalho’, a ministra acertou. Vemos autocarros cheios, trabalhadores desesperados a chamarem táxis e TVDE porque os transportes públicos não andam a horas. Por exemplo, a Carris, em Lisboa, está numa desorganização tal que passam três autocarros seguidos com o mesmo número, indo os dois últimos vazios, enquanto escasseiam outros com destinos diferentes. Os comboios, nem é bom falar: a abarrotarem de gente e geralmente atrasados.

Portanto, para a ministra e para o governo está tudo bem. Na verdade, eu só vinha aqui sugerir que, à semelhança do que fazem outros governantes europeus, Montenegro, Rangel, e todos os outros, sobretudo a ministra da Energia, deixassem de usar os carros do Estado (pagos por todos nós) e passassem a utilizar os transportes públicos. Na verdade, com o tanto trabalho que desenvolvem (ao contrário dos outros trabalhadores) seria provável que ninguém se importasse que chegassem atrasados. E, quanto às férias, utilizem os tais planos B e C, façam férias cá dentro e conheçam o tal país real.

A CNN E O JORNALISMO DE REFERÊNCIA

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A CNN Internacional sempre ficou associada à figura do seu fundador, Ted Turner. Mas, na verdade, Turner vendeu a CNN em 1996. Tudo o que se passou depois com a CNN não foi da sua responsabilidade.

Seja como for, Ted Turner é considerado o “pai” dos canais temáticos de informação. Dar notícias 24 horas por dia foi uma ideia que, talvez, nunca tenha ocorrido antes a alguém, mas Turner foi o que fez.

Ted Turner, 1980

A CNN foi copiada e franchisada por todo o mundo. Em Portugal surgiram primeiro as imitações SIC Notícias e TVI24, mas tarde surgiu a CNN Portugal, como em muitos outros países. As empresas de comunicação locais compram os direitos de utilização do nome CNN. Em Portugal, essa licença pertence à Media Capital. É um negócio para a Warner Bros Discovery, a empresa proprietária da marca CNN. Esses canais transmitem informação 24 horas por dia, mas boa parte do tempo de antena é ocupado com a chamada “televisão barata” (de baixo custo), programas de estúdio, onde campeiam opinadores, experts de tudo e mais um par de botas. Mas notícias, notícias, nem sempre são muitas e reportagens ainda menos.

Turner morreu em 6 de maio, vítima de uma doença degenerativa de funções cognitivas. Tinha 87 anos. Nas últimas décadas de vida dedicou-se a coisas muito diferentes dos média. Multimilionário, escolheu investir o seu dinheiro no conservacionismo e na defesa dos direitos humanos.

Ted Turner

Na hora da sua morte, as notícias que dele fizeram, davam conta de inúmeros elogios fúnebres. O Presidente dos EUA também fez o seu. Nem sempre os elogios fúnebres são sinceros. Não estou a ver o atual presidente dos EUA a apreciar um defensor da natureza e dos direitos humanos…

Na rede Truth Social, Trump escreveu que Turner foi “um dos maiores de todos os tempos” e um grande amigo pessoal. O Presidente dos EUA contornou as óbvias incompatibilidades ideológicas com o defunto. No elogio, disse que a sua antipatia pela CNN só aconteceu depois de Turner ter vendido a empresa, ignorou que o fundador da CNN era historicamente um liberal progressista e que defendia abertamente o sistema de saúde universal, o desarmamento nuclear, o ambientalismo, que nunca foi seu apoiante político, aliás, chegou mesmo a apoiar Hillary Clinton na campanha de 2016.

UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL

Cruzei-me com jornalistas da CNN algumas vezes, normalmente em locais de conflito onde os americanos tinham empenhamento militar. Esta história passou-se na Somália.

Cheguei a Mogadíscio em finais de Novembro de 1992. Fiquei lá até ao Natal. Foi um mês completamente louco.

Naquele tempo, a Somália devia ser o sítio mais perigoso do Mundo. Sem governo, a população combatia na mais estranha guerra civil que já vi. Vários clãs matavam-se entre si, numa demência de todos contra todos.

A avioneta alugada em Nairobi aterrou no aeródromo central de Mogadíscio, precisamente no momento em que aquela parcela de chão estava a ser disputada entre duas das facções em conflito. Como não havia comunicação via rádio com alguém em terra, o piloto (e nós) só se apercebeu que havia balas a voar, além do avião, quando já não conseguiu abortar a aterragem. O avião bateu no chão e foi rapidamente conduzido para trás de uma parede, onde sempre havia alguma protecção. Assim que o tiroteio teve uma pausa, o piloto levantou voo e nós ficamos. Eu, um fotógrafo americano e dois tipos alemães da televisão ZDF. A SIC tinha-me enviado sozinho para ali. Eu deveria procurar a equipa da Reuters e trabalhar com eles. Não há nada pior que ir para um sítio destes sem um companheiro.

Arranjar alojamento foi o primeiro tormento. Os tipos da ZDF tinham um contrato com a CNN e iam ficar na casa que a televisão americana tinha comprado. Eles são assim, chegam e compram! Decidi ir com eles, quem sabia se não poderia lá ficar também…

Chegámos às instalações da CNN já de noite. O anchor preparava um directo, com cenário montado. Quando digo cenário, não estou a brincar com as palavras. Era mesmo um cenário, onde figuravam duas pick-up Toyota de caixa aberta, equipadas com metralhadoras pesadas, e vários somalis em pose de rambo… e o anchor americano dizia, no seu directo, “estamos na frente de batalha, atrás de mim os guerrilheiros de Aidid…”, blá blá blá blá… bullshit como se diz na China. Armar aos heróis, a grandes repórteres, dentro dos muros protegidos por guardas privados e com figurantes pagos… e eram aqueles tipos a referência mundial do jornalismo televisivo.

OS PACOTES BRASILEIRO E PORTUGUÊS

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Quando em Portugal o Governo teve a iniciativa de propôr uma reforma da legislação laboral para facilitar a vida ao patronato mais explorador, aquele que não gosta de pagar horas extraordinárias nem trabalho prestado em dias de folga ou feriados, do outro lado do Atlântico acontece um conflito laboral semelhante.

A diferença é que no Brasil a iniciativa do Governo federal é de aliviar a carga horária dos trabalhadores e institucionalizar dois dias de folga semanais. Neste momento, os trabalhadores brasileiros trabalham seis dias por semana, com uma carga de 44 horas semanais. Contra a mudança está uma parte do patronato.

Lá como cá, também há imprensa alinhada com os pontos de vista dos patrões, até porque a imprensa brasileira também é maioritáriamente de iniciativa privada.

Por exemplo, o jornal O Globo publicou há dias um editorial em que acusa de “oportunismo” a iniciativa dos deputados federais que pretendem legislar no sentido de passar a carga de trabalho de 44 para 36 horas semanais. O editorial diz ainda que essa redução seria “nefasta para a economia brasileira”.

“No atual nível de desenvolvimento do Brasil, a jornada deveria ser maior, não menor”. Esse é apenas um dos trechos em que o editorial do jornal O Globo, ataca as propostas que pretendem acabar com a semana de seis dias de trabalho e de redução da carga horária.

É sempre a mesma lenga-lenga, desde que foi abolida a escravatura, a cada direito trabalhista conquistado corresponde uma alegada ameaça à sobrevivência das empresas que nunca se confirmou.

“Embaraçosa”, “ingênua”, “irrealista”, “distorcida” e “falácia” são algumas das outras palavras usadas pelo Globo para descrever a proposta de alteração da lei laboral.

Enquanto parte da imprensa se empenha em combater a proposta de leis laborais menos penalizantes, economistas e sindicalistas brasileiros garantem que a redução da jornada de 44 para 36 horas poderia criar até 4,5 milhões de empregos e aumentar a produtividade em cerca de 4%.

Se a memória não nos falha, tivemos há alguns anos uma discussão política semelhante, quando o governo de António Costa iniciou a subida anual do salário mínimo. Também os patrões diziam que não iriam aguentar, que as falências estavam ao virar da esquina. Mas não estavam.

No Brasil, não só a imprensa ignora os estudos favoráveis à reforma laboral como se dedica a espalhar mentiras: “Em comparação com o resto do mundo, o brasileiro não trabalha muito. Nem pode ser considerado particularmente esforçado”, publicou recentemente o jornal Folha de S.Paulo.

“É um absurdo o governo encarar o assunto como prioritário”, lamenta-se numa crónica de opinião no jornal Estadão, onde o opinador dizia que em vez de diminuir, a jornada de trabalho deveria ser aumentada.

Em Portugal, o pacote laboral foi rejeitado pelas centrais sindicais mas  o governo insiste nas alterações e será na Assembleia da República que o projeto vai ser discutido e votado. Na imprensa iremos ter a oportunidade de ver copiadas algumas destas ideias mais retrógadas.

Em Portugal, o que o Governo decidiu levar à discussão na Assembleia da República são as seguintes alterações da lei laboral: para contratos a prazo, o Governo quer subir a duração máxima de dois para três anos; passar a ser permitido outsourcing para qualquer área da empresa sem ter de esperar um ano após um despedimento coletivo; reintrodução do banco de horas individual para obrigar o trabalhador a fazer até duas horas a mais por dia sem ser pago; mesmo em caso de despedimento ilícito, a empresa deixa de ter obrigação de reintegrar o trabalhador.

Se toda a direita parlamentar votar a favor, estas medidas serão implementadas. O prejuízo para os trabalhadores é evidente. Tal como no Brasil, também em Portugal há imprensa que dá especial atenção e difusão às posições do Governo e da direita política.

GAIOLA-DE-BRUXA

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– Quem me dera, Professor, ter um jardim!… e uma romãzeira!… – respondeu-me a Isabel, quando lhe mostrei a romãzeira já em flor.

Bem diferente foi, contudo, a reacção de Maria, octogenária, que tem uma quinta e sabe ler as nuvens e quando devem podar-se as videiras e qual a altura melhor para semear griséus… Comentou:

– Alguma razão assiste também ao teu Joaquim, porque, na verdade, os botões da romãzeira não deveriam estar tão desenvolvidos no começo de Maio. Devia o homem alegrar-se, como alegres estão, neste ano, os cultivadores de cerejeiras no Douro? Talvez, é o copo meio cheio, mas ele bem sabe que, para lá das mudanças ocasionais do tempo, como dantes soía num ou outro ano, elas se tornaram agora uma assustadora constante. Este ano, o calor típico de Maio sucedeu em Abril e as águas mil, acompanhadas de chuva e granizo, estão a mimosear os agricultores em Maio. É tão duro viver do trabalho da terra, admiráveis combatentes os que resistem, numa luta que é aceitação da conjugação de elementos que os ultrapassa.

E é bem verdade! Ingénuo e egoísta fui eu, ao não ver além do visível, a não ter aproveitado o ensejo para uma mensagem de solidariedade.

Aceito, porém, que jardim constitua, como sonha a Isabel, fonte de serenidade, na contemplação do crescimento das folhas, do desdobrar das flores… Agradável e sempre surpreendente fonte de aprendizagem também, não nó por dispormos hoje de aplicações informáticas susceptíveis de, rapidamente, nos identificarem as plantas derredor, mas também porque o apoio amigo do botânico nos dá a oportunidade de enriquecer conhecimentos.

Assim aconteceu.

Intrigara-me aquela coisa, espécie de fungo ou estranho cogumelo que me aparecia, já não era a primeira vez, entre as pedras e junto às plantas, pelos buracos. Erva ruim, pensei. Massacrei-a. Outra me apareceu, dias depois, mais à frente. Matei-a. À terceira, parei. Preciso de saber o que isto é. Esta espécie de armadilha laranja, sem olhos, reticulada, a lembrar o muselet, aquela ‘gaiola’ de arame que prende a rolha do champanhe.

Não hesitei – e mandei mensagem ao João Monjardino, com fotografia.

Veio pronta a resposta:

– Gaiola-de-bruxa! Aparece no jardim pelo Outono, tem vida efémera e exala um odor forte que atrai os insectos de que se alimenta, porque eles entram lá, ficam presos e ela delicia-se com tal manjar, além de eles colaborarem na sua reprodução, espalhando os esporos (com dimensões de 5–6 x 1,7–2 µm )…

Interroguei também a «inteligência artificial» que me explicou:

«Gaiola-de-bruxa (Clathrus ruber) é um fungo notável pelo seu aspeto de rede esférica vermelha ou alaranjada, semelhante a uma gaiola, comum em solos ricos, hortas e florestas. Conhecido pelo odor intenso a carne podre que atrai insetos para dispersar esporos, não é comestível e pode causar distúrbios gastrointestinais».

Não voltei a destruir as gaiolas-de-bruxa. Dão um ar de graça no meio do verde e… deram-me excelente lição de vida!

A RESISTÊNCIA DO JORNALISMO INDEPENDENTE NO ESPAÇO DIGITAL*

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Em maio de 2020, o panorama mediático português via nascer mais uma proposta no ambiente digital: o Duas Linhas.

Fundado e coordenado pelo jornalista Carlos Narciso, o projeto surgiu como um manifesto de desobediência aos algoritmos que condicionam e limitam a distribuição da informação nas redes sociais. Volvidos exatamente seis anos de atividade ininterrupta, o balanço consolida a premissa inicial de que o jornalismo livre encontra sempre o seu caminho direto até ao leitor.

VÍDEO

A LINHA DE RUMO: INFORMAÇÃO SEM FILTROS OCULTOS

O percurso do Duas Linhas ao longo desta mais de meia década destaca-se pela fidelidade ao compromisso editorial estabelecido no seu manifesto de fundação. Num ecossistema digital saturado por conteúdos efémeros e dependente de visualizações fáceis, o portal tem garantido uma dinâmica de atualização diária baseada no rigor, no pensamento crítico e na análise ponderada da atualidade nacional e internacional.

UMA COMUNIDADE DE IDEIAS E PLURALIDADE

A longevidade e a relevância do projeto encontram o seu porto seguro na qualidade do corpo de colunistas. Com o passar do tempo, o grupo tem sido renovado, dos fundadores já poucos sobram. Com o passar do tempo, o Duas Linhas consolidou-se como fórum plural de debate de ideias, reunindo sempre um painel de colaboradores que trazem a sua expertise setorial e regional para as páginas do site.

Hoje, vozes assíduas como as de José d’Encarnação na arqueologia e nas histórias sobre Cascais, Alberto Correia através das suas detalhadas crónicas de província, Margarida Maria, Helena Ventura Pereira, Vítor Martins, Vítor Fonseca na análise de atualidade, ou as crónicas de viagem de Vanda Narciso, ilustram na perfeição o ecletismo e a profundidade de pensamento que o site oferece aos seus leitores.

O FUTURO ESCREVE-SE EM ACESSO DIRETO

Ao celebrar este sexto aniversário, o Duas Linhas prova que a autonomia face às grandes plataformas de distribuição é um modelo necessário. A viabilidade depende da habituação do público em procurar informação diretamente na barra do navegador.  

A equipa que faz o Duas Linhas resgatou o valor da ligação direta, transparente e sem intermediários entre quem escreve e quem lê. Que venham os próximos capítulos desta resistência em forma de palavra digital.

*título atribuído igualmente pela IA do Google

ARDINGA

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desenho com recurso a IA

Ardinga é tão jovem ainda!…

Ardinga tem o sangue da gente mais de sul, cresceu na orla do deserto, a ama-de-leite contou-lhe na tenda as mil e uma histórias do velho conto das mil e uma noites. Histórias quentes de amor lhe contava no calor da tenda, enquanto o pai recrutava guerreiros entre os pastores.

O frade imaginoso trouxe para o seu livro, de entre as muitas histórias, a história de Ardinga que veio com seu pai e os guerreiros mouros que ocuparam Lamego nos finais do século X.

Era tão jovem ainda, Ardinga!…

Já conhecia as histórias todas das mil e uma noites. E outras histórias que contavam os pastores do deserto. O seu pai saía agora com os pastores feitos guerreiros para as batalhas, muitas vezes para além da montanha. Ardinga adivinhava histórias que aconteciam para além dos montes de onde chegavam soldados feridos. E os soldados contavam-lhe histórias da valentia dos cristãos. E do temor de um Cavaleiro-Negro – D. Tedon – que, sozinho, se atirava contra os soldados.

Ardinga gostava de escutar as histórias dos soldados que iam chegando lá de longe. E foi seguindo os passos do Cavaleiro-Negro e aprendeu no contar dos soldados o caminho que a levaria ao herói.

Ninguém sabia o que se passava no peito de Ardinga. E, um dia, a princesa, que era ainda quase menina, ilude a guarda e segue um caminho como quem sabe para onde vai.

Há pousos de sentinelas cristãs que não se atrevem a prender a donzela estrangeira. E levam-na junto de um monge que curava aos soldados as feridas do corpo e da alma. E o monge Gelásio, que assim se chamava, fez nascer no coração da donzela moura o amor do seu deus. E abrigou-a no seu eremitério, a que as águias que, às vezes, o sobrevoavam fizeram dar o nome de S. Pedro das Águias. Eram Terras de Tabuaço.

Que se passava agora que nunca mais chegava o Cavaleiro-Negro, D. Tedon, por quem Ardinga suspirava?!…

Soube o Rei, ao chegar aos seus Paços, a história de Ardinga, que, um dia, o abandonara. Irado com o que lhe contaram, chama os melhores soldados e corre ao lugar onde Ardinga se demorava. E é ela a primeira quem vê assomar no alto dos cerros, de alfange em punho, os soldados de seu pai.

Tardou tanto o Cavaleiro-Negro!…

E Ardinga morreu primeiro de amor antes de morrer sob o golpe cruel do alfange de seu pai. Quando o Cavaleiro-Negro chegou à boca do eremitério, a fronte banhada ainda no sangue da luta, conheceu então a história de Ardinga e só teve tempo de descer ao rio que ali perto corria e de trazer para terra o corpo frio de Ardinga de cuja memória haveria de fazer o seu amor até à morte.

E Ardinga era tão jovem ainda!…

Castelo de Lamego

A FOME DÁ QUE PENSAR

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O Prémio ENSA-Arte é uma antiga e, dizem, prestigiada iniciativa de valorização das artes plásticas em Angola. Num país onde o Estado não perde tempo nem investe recursos na promoção ou valorização do meio artístico, o Prémio Ensa-Arte existe porque tem tido um patrocinador rico. Como o nome indica, esse patrocinador é a companhia de seguros Ensa. De dois em dois anos, a empresa fica bem na fotografia e atribui os prémios às obras que um juri designou.

O prémio é monetário e de valor significativo. Por exemplo, na 18.ª edição em 2026, o primeiro classificado em cada modalidade recebe 6 milhões de kwanzas, um pouco mais de 5 mil e 500 euros, enquanto o segundo lugar é distinguido com 3 milhões de kwanzas.

Também por isso, é um prémio bastante disputado. Começou por ser apenas um concurso de pintura, mas agora engloba escultura e performance artística, também.

Este ano, na categoria de Pintura, Adriano João Gaspar conquistou o 1.º lugar com a obra “Mujikulu”.

Com a pintura “Mujikulu”, Adriano João Gaspar retrata as preocupações que sobrecarregam o povo, no dia-a-dia. A mulher que pensa, dolorosamente, com a mão sobre a cabeça, transmite-nos angústia.

Na escultura, Maiomona Vua destacou-se com a peça “Bocas Abertas, Protestos Sobre a Fome”.

Preocupações sociais, um povo que sofre, arte premiada que contribui para dar voz aos mais desfavorecidos.

Na categoria de Performance Artística, venceu Domingos Miguel “Mussunda”, com uma apresentação intitulada “Currulo-Currulo”, da qual não temos imagens.