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O MASSACRE DE GAZA E A FALÊNCIA MORAL DO MUNDO

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Não podemos continuar a olhar para as telas iluminadas dos nossos telemóveis e a tratar o sofrimento absoluto de milhões de seres humanos como se fosse apenas mais uma estatística geopolítica passageira ou um debate académico estéril em salas de conferências climatizadas. O que se vive no terreno é a anatomia detalhada de um abandono sistémico, onde bairros inteiros que outrora pulsavam com o riso de crianças, o comércio vibrante e a rotina pacífica de famílias trabalhadoras foram reduzidos a esqueletos de cinza e a uma poeira sufocante que agora cobre os corpos daqueles que perderam tudo o que dava significado à palavra casa.

Caminhar por aquelas ruas desfeitas é testemunhar o funeral público da empatia humana, onde a sobrevivência diária se transformou numa lotaria macabra e injusta, onde o acesso a um copo de água potável ou a um pedaço de pão básico deixou de ser um direito universal para passar a ser um privilégio inacessível.

Esta decadência atroz não é um acidente de percurso ou uma consequência inevitável da história, mas sim o resultado direto das escolhas conscientes feitas por generais, políticos e decisores que, do alto dos seus gabinetes blindados e protegidos pelo cinismo das suas gravatas, optam por perpetuar o ruído das armas em vez de escutar o clamor da decência. Erguemos por isso uma acusação mordaz e implacável contra todos os arquitetos desta barbárie e contra os senhores da guerra que financiam, executam ou legitimam o sacrifício em massa de civis inocentes sob o pretexto de estratégias de segurança nacional ou de xadrez ideológico internacional, porque nenhuma ideologia no mundo tem o direito de se banhar no sangue de uma infância interrompida.

Uma geração inteira de rapazes e raparigas está a crescer em Gaza sem saber o que é um céu pacífico, aprendendo a temer as nuvens porque delas só brota o terror e o estrondo da destruição, carregando no olhar um trauma profundo que nenhuma terapia ou promessa futura conseguirá apagar por completo.

A cumplicidade da comunidade internacional, manifestada através duma paralisia burocrática inaceitável e de discursos vazios que medem as palavras enquanto as bombas destroem hospitais, escolas e redes de saneamento, assina a falência moral das próprias instituições que um dia foram criadas sob o lema solene de nunca mais permitir tais atrocidades. Não há mais espaço para a comoção passiva ou para as lágrimas de conveniência que apenas servem para aliviar a culpa ocidental, pois a dor de Gaza é hoje uma cicatriz aberta na própria face de toda a humanidade e exigir o fim imediato deste bloqueio, o estabelecimento de cessar-fogos permanentes e a entrada livre de ajuda humanitária incondicional não é uma escolha partidária ou uma posição política, mas sim o último reduto de dignidade que nos separa da pura barbárie animal.

Se as leis internacionais que fingimos defender não servem para proteger os mais vulneráveis sob o entulho, então essas leis são apenas papel molhado e o nosso silêncio coletivo transforma-nos a todos em cúmplices silenciosos de um massacre que a história, com toda a sua clareza implacável, nunca ousará perdoar aos cobardes que preferiram desviar o olhar enquanto o futuro de um povo era enterrado vivo sob as pedras da indiferença global.

VIVER E ESCREVER EM TRÂNSITO

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Hoje vou falar de Doris Wieser, professora de Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa na Universidade de Coimbra. Tive o privilégio de a conhecer aqui, em Luanda, e, poucos dias depois, assistir, na sua companhia, à exibição do documentário “Viver e Escrever em Trânsito entre Angola e Portugal” (2021), de que é realizadora.

Há qualquer coisa de especial em ver um filme ao lado de quem o pensou, o escreveu e o realizou. Não vemos apenas as imagens; inevitavelmente relacionamo-las com as conversas da véspera. Tentamos perceber os silêncios, as hesitações, as escolhas e até as perguntas que ficaram por fazer.

No final, a conversa prolonga o documentário, e o documentário prolonga a conversa. O filme reúne os testemunhos de seis escritores cujas vidas se desenham entre Angola e Portugal — Ana Paula Tavares, Aida Gomes, Kalaf Epalanga, Raquel Lima, Yara Monteiro e Zetho Cunha Gonçalves. São percursos muito diferentes, marcados por tempos históricos distintos e por razões diversas para partir, regressar ou permanecer. Mas há um fio invisível que os une: todos habitam esse espaço intermédio onde a identidade deixa de ser um lugar fixo para passar a ser um caminho. Gostei particularmente da palavra escolhida para o título: trânsito. Não exílio, não diáspora -e discutimos muito o significado desta palavra-, não retorno. Trânsito. Uma palavra suficientemente ampla para acolher quem partiu por necessidade, quem escolheu partir, quem regressou, quem nunca regressou e quem, de certa forma, continua a viver entre dois lugares.

Talvez seja essa a grande força do documentário: evitar categorias fechadas e mostrar que as identidades raramente cabem nas etiquetas que lhes queremos colocar.

Gostei muito daquele fim de tarde, já noite cerrada em Luanda. Porque, por algumas horas, a literatura, o cinema e a conversa sentaram-se às mesmas mesas: primeiro no quintal do Hotel Globo, depois à mesa de uma pequena tasca. E também porque fiquei com a certeza de que algumas obras não terminam quando aparecem os créditos finais. Continuam nas conversas que provocam, nas perguntas que deixam e, neste caso, na vontade de descobrir muitos escritores e escritoras angolanos que ainda não conhecia.

E esta, suspeito, será apenas a primeira de várias crónicas que nasceram destes dias improváveis em Luanda.

O documentário “Viver e Escrever em Trânsito entre Angola e Portugal” pode ser visionado neste link.

A HISTÓRIA DAS BELAS DE BELAS

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mapa de Portugal de 1561

Na mais antiga cartografia portuguesa impressa, datável do século XVI, no recanto mais a sudoeste do continente europeu, apenas estão mencionados os nomes de Lisboa, Cascaes, Cintra e Belas.

Compreende-se que Lisboa seja mencionada, por se tratar da capital do Reino de Portugal; Cascais, por seu turno,  primeiro e último porto de pesca para a tomada e largada dos pilotos da barra de Lisboa, também deveria ser referenciado; Sintra, local de um dos paços reais e com torre de vigia sobre o mar para ver as entradas e saídas das armadas, ganhara importância. Mas pergunta-se: Belas, este pequeno aldeamento, ainda hoje pouco conhecido, vem referido porquê?

É que, de facto, a vila se situa no cruzamento de duas estradas romanas: uma que vai de Lisboa para Sintra e a outra, na bifurcação em Belas, segue para as termas romanas das Águas Férreas, em direção às minas do Monte Suíno de que já aqui se falou e daí continuava em direcção a Cheleiros, Mafra, Ericeira e Peniche.

publicado em https://duaslinhas.pt/2026/03/mina-de-pedras-preciosas-em-sintra/

Quem sair da matriz manuelina de Belas e virar à direita percorre poucas dezenas de metros da Estrada Nacional até encontrar o Monte Wimmer, em frente do qual existe a entrada da Quinta da Chicola, conhecida pelas suas águas, já usadas pelos romanos.

A entrada era livre para que a população de Belas tivesse acesso a essas águas férreas. Muitas estalagens e cafés surgiram apenas para servir os hóspedes que vinham de Lisboa, ou de mais longe ainda, para, como as receitas médicas indicavam, beberem as águas férreas de Belas.

Esta entrada servia a Quinta da Chicola e a “Pedreira de Baixo”, de onde a sede do concelho mandava retirar anualmente o saibro para reencher o adro da igreja. Também dava acesso à velha azenha que, até ao século XIX, serviu como prisão.

À volta da vila de Belas vivia-se de forma pacata, trabalhadora e feliz. Uns senhores de Lisboa compraram coutadas de caça e aqui abateram muitos javalis. Outros vinham às termas e recebiam canecas de barro com a célebre água férrea. Havia aguadeiros que entravam com as suas carroças puxadas a burra, com grandes jarrões de barro encaixados de cada lado, que davam de beber a quem quisesse, transportando a água até à vila da Idanha.

Um casal, oriundo da Serra da Estrela, vivia então numa casa junto à fonte, na Quinta da Chicola, com duas lindas filhas e estas aceitavam receber uns trocos por servirem água às senhoras e cavalheiros que a desejassem. Foi no reinado de Dona Maria II que surgiu a rima que viria a tornar-se célebre:

Capa do opúsculo de Rainer Daehnhardt

Ora aconteceu que, tendo um marinheiro contraído a epidemia da febre amarela, o vieram a guardar na azenha. Pediu, pois, ajuda às meninas lindas, cuja casa se situava a cerca de 200 m. E foi assim que tanto elas com outras pessoas ficaram infectadas. Morreram as meninas e os pais, bem como grande parte da população. Muitas estalagens e cafés fecharam, os aguadeiros deixaram de vir e… das belas ficou perpétua recordação!

UM BERÇO DE AMORES

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Viseu. Fonte de S. Francisco

… o qual chafariz e seu espaçoso terreiro fica em frente  da frontaria das casas dos fidalgos Albuquerques cujas vistas servem de recreação a quem espaçosamente está nas janelas vendo as moças que vão à fonte.

                                                 In Memórias Paroquiais, 1758.

Por muito tempo se chamou Terreiro das Freiras à actual praça que se declara, em moderno mapa, Largo Mouzinho de Albuquerque. Às suas espaldas encontra términus a Rua Direita, verdadeiro cardo maximus da urbe romana, que desembocava, a jusante, na porta que se chamou Porta do Arco. Mimética designação, esta, forçada pelo impositivo arco da muralha afonsina, que se desprende do topo de uma face da histórica moradia dos Albuquerques, ora designada Porta dos Cavaleiros.

A deslado se levanta – ora desprendida de velhos usos que tanto poderiam ser o encher dos cântaros como o escutar das falas dos namorados – a Fonte que tomou o nome do tutelar patrono entronizado no elevado nicho do frontão: S. Francisco, o Poverello.

Deve ter sido construída nos começos do século XVIII a graciosa fonte que hoje lá se encontra. Joia de pedra lavrada que, por tão funda, não deixa que o sol revele toda a formosura daquele granito jogando em sombra e luz. Substitui, como consta em documento, fonte mais antiga, estendendo para montante uma mais possante mina, tão alta que por ela um homem de pé caminharia, se dizia. Mina que ali pudesse despejar água bastante da avantajada mãe-de-água cavada no cerne da colina.

Um pouco mais tarde, em 1745, a Câmara decide mandar construir um chafariz de duas bicas num ainda visível recôncavo da muralha, pelo seu lado exterior, o qual antes serviria para dessedentar bestas de almocreves e montadas de cavaleiros.

Uma generosa fantasia liga esta fonte a uma popular história de amor impossível – Amor de Perdição – história inventada por Camilo de Castelo Branco ao longo dos quinze dias que passou na Cadeia da Relação, no Porto, entrecho romanesco que narra os apaixonados amores da fidalguinha Teresa Albuquerque, dezasseis tenros anos, com o enamorado Simão Botelho, dois anos mais velho, que o faz preterir ao primo Baltazar.

Junto à fonte terçarão armas Simão e Baltazar. Este quer vingar afronta, mas cairá inanimado aos pés de Simão, que ficará, petrificado, olhando a janela da amada. Acorre gente do povo e do palácio. Teresa dará entrada no mosteiro, onde irá morrer de amor; Simão, desterrado para as Índias, morrerá no alto mar. Teresa, da janela do convento, terá visto ainda umas mãos a acenar. Simão terá visto ainda um lenço branco a esvoaçar.

Viseu. Solar dos Albuquerques, séc. XVIII

JÁ NÃO SE PODE ACREDITAR NO QUE VEMOS E OUVIMOS

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A campanha presidencial brasileira poderá marcar uma mudança de paradigma. Jair Bolsonaro, impedido de concorrer, participa no debate político através de vídeos gerados por inteligência artificial (IA) em apoio à candidatura do filho, Flávio Bolsonaro.

Isto está a levantar questões que até agora nunca tinham surgido. O recurso a imagens artificiais é fraude política? Em termos legais, se a lei não se opuser, pode ser permitido. Mas, a democracia depende da confiança que depositamos nos políticos. Se não sabemos distinguir entre o real e o fictício, como poderemos confiar, como escolher?

Durante décadas, uma fotografia ou um vídeo eram um testemunho da realidade. Mas isso acabou.  Hoje, temos de perguntar se podemos acreditar no que vemos.

Não se percebe como pode ser legal substituir a presença de uma pessoa pela sua reconstrução digital, porque será sempre uma mentira, ao transmitir aquilo que nunca aconteceu. Se já não podemos confiar na imagem, na voz e na evidência visual, que debate político vamos ter num futuro próximo?

A IA pode criar políticos cada vez mais convincentes, com discursos cada vez mais empolgantes, mas será sempre mentira. Até hoje, em campanhas eleitorais ou debates políticos na televisão ou nas redes sociais, acreditavamos no que viamos e ouviamos. Os candidatos foram, muitas vezes, confrontados com declarações que fizeram no passado, com promessas de campanhas não cumpridas. Mas, agora, se é um “boneco” digital que promete, como responsabilizar o verdadeiro candidato?

O problema da IA não é só poder mentir. A propaganda sempre mentiu. O problema é poder ocupar o espaço público sem descanso, sem fadiga, sem erros, sem silêncio e sem a presença do próprio candidato. Pela primeira vez, uma campanha eleitoral pode ser feita por alguém que, na verdade, nunca esteve lá.

CONVERSAS COM PESSOA

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Joaquim: sentou-se à mesa com o peso de quem carrega o mundo nos ombros. Os seus olhos, fixos no horizonte onde o Tejo se confunde com o céu, pareciam ver para além da água. «Sinto-me numa prevista e estranha forma, Fernando», confessou, com a voz embargada pela lucidez. No silêncio daquela tarde, admitiu a sua maior derrota: a mentira que pregava ao estranho que o habitava. Não sentia o que desejava sentir; era, em toda a sua essência, um pecado arrogado perante a própria existência.

Pessoa: (Ajustando os óculos, com um sorriso pálido) Ah, meu caro Joaquim… mentir ao que se sente é a primeira condição para se ser verdadeiro. O erro não está na mentira, mas na crença de que existe um “eu” sólido a quem não se deve mentir. Dizes que és um “pecado arrogado”? Eu diria que és apenas uma multiplicidade que se ignora.

Joaquim: Mas eu dou-me sem sentidos! Reconheço em tudo a consciência de mim, e é nesse reconhecimento em que me perco. Esqueço quem sou… por carácter.

Pessoa: Precisamente! O carácter é a máscara que nos permite esquecer a vacuidade do rosto. Se não esquecêssemos quem somos, como poderíamos suportar a monotonia de ser apenas uma coisa? A consciência de si é uma lucidez que cega. Tu relanças horizontes numa infinidade profunda porque a tua dúvida desperta sem ser vista. É a dúvida, e não a fé, que move os moinhos da alma.

Joaquim: Sim, mas eu assevero o idílico servo pela minha própria vontade. Conservo as razões, Fernando, mas recuso-me a ancorar na dúvida. Quero a obstinada certeza, mesmo que seja uma construção do meu desejo.

Pessoa: (Inclinando-se para a frente, interessado) Queres a certeza? Cuidado. A certeza é um porto, e o porto é o fim da viagem. Tu propões ao medo um segredo — isso é magnífico. Arrancar a alma ao medo é o único modo de viver esse “curto tempo de saber”. Mas dizes que ousas gestos tímidos sem que a vontade seja ousada… porquê o medo da ousadia?

Joaquim: Porque a vontade, quando é demasiado ousada, destrói o mistério. Prefiro o gesto tímido, o “idílico servo” que guarda o segredo. Vivo a vontade de saber, mas temo que, ao saber tudo, não reste nada de mim além de “poucas palavras”, como escrevi outrora sobre a minha cidade.

Pessoa: Compreendo-te. O saber é um deserto. Ficamos com o adorno de tudo, mas por baixo do fato desenhado pelo giz do mestre, o que resta é o sol modesto. Não temas as tuas “poucas palavras”, Joaquim. O universo inteiro cabe num verso curto, desde que esse verso seja a tua Lisboa, a tua “estranha forma”. No final, mudam-se os tempos e as vontades, mas o que definha em nós é o que nos torna eternos.

Joaquim: Então, basta-me o segredo?

Pessoa: Basta-te ser. E, se ser for pouco, basta-te fingir que és, até que a consciência de ti se canse e te deixe, finalmente, ser apenas um verso escrito no fumo deste café.

BANHOS DE REALIDADE

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fotograma alterado graficamente

Uma cirurgia de reconstrução levou Rita a um hospital particular com o voucher do Serviço Nacional de Saúde (SNS), por força da urgência na dita intervenção. Numa primeira abordagem, o médico nem deu tempo para explicações. Interrompeu a paciente dizendo que já tinham passado os 15 minutos para a atender. Marcou a cirurgia e, no dia aprazado, sem qualquer explicação, lá procedeu ‘ao acto’, conforme afirmou.

No dia seguinte, pese embora a acompanhante dissesse que a paciente não estava, de todo, orientada, afirmou que não tinha importância porque ao fim da tarde, já estaria.

Resultado desta cirurgia, Rita foi, durante uma semana, todos os dias à urgência: ou dreno estava mal colocado, ou as dores eram intensas, etc. Ao fim de cinco semanas com dreno e uma semana depois deste ser retirado, deram alta à paciente, ainda com pontos a serem expelidos e sem a cicatrização total.

Um ano depois, as consequências fizeram-se sentir. Teve de fazer nova cirurgia, desta feita num hospital público. Tudo correu bem, sem sobressaltos, com uma equipa médica fantástica e pessoal de enfermagem competente, afável e simpático. No dia em que teve alta, o médico ainda acrescentou: ‘qualquer problema que surja, não hesite em vir ter connosco’.

Bendito SNS. Temos mesmo de nos esforçar para o manter!

Outra história passa-se com Maria que saiu do seu país em busca de uma vida melhor. Para trás, deixou duas crianças que deseja que se juntem a si.

Assim, inscreve-se no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP). Mandam-lhe uma carta para ir trabalhar numa empresa de limpezas. Vai ganhar 500 euros por mês, que se resumirão a 450, feitos os descontos. E pedem que ligue para um número, da dita empresa, a dizer se aceita ou não. Facto: ninguém atende daquele número.

Aceita, então, um emprego numa fábrica, com contrato. Avisam que trabalhará por turnos, a comunicar quais serão os horários. Resultado: são tão aleatórios que Maria tem meses de receber 350 euros.

Finalmente, aparece um trabalho de prestação de serviços com o Estado. É o ordenado mínimo nacional. O problema é que, feitos os descontos a que tem de proceder, restam-lhe pouco mais de 700 euros.

Facto: um quarto na Reboleira custa 650 euros. Facto: Casas com uma renda moderada (a tal de 2300 euros) como se pagam?

E como pode trazer as crianças? Se nem um quarto consegue pagar, nem alimentar-se convenientemente, o que pode fazer?

Teresa e Paulo acabaram os respectivos cursos. Fizeram o mês mestrado e tentaram entrar no mercado de trabalho. O recurso último foram os call-center. Ainda assim, ambos com o ordenado mínimo, não chegava para pagar a renda. Durante um tempo estiveram em casa dos pais dela. Seguiram para casa dos pais dele, esta mais pequena. Não podiam ficar ali muito tempo. Teresa ficou grávida. Resultado, foram viver para fora, a  convite de uns amigos que já tinham abandonado Portugal há três anos…

O neto nasceu fora do País. Registaram a criança no consulado. Passaram sete meses e o registo do bebé ainda não está feito.

Ouvindo o primeiro-ministro a falar, ou o seu companheiro Hugo Soares, ou os seus ministros, ou os amigos do CDS, pergunto-me: em que país vive esta gente?

A EMPREGADA DA LIMPEZA

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fotomontagem, imagem descritiva

Na loucura do dia-a-dia em que vivemos, entre a guerra na Ucrânia, a guerra no Médio Oriente e outras crises, nunca pensámos que Portugal voltasse a ser o lugar de um novo sinal da Virgem Maria para o Mundo. Mas, naquele dia, aconteceu o que ficará marcado, para sempre, no historial da Wikipédia do Palácio de São Bento.

Vejamos os factos: na madrugada de 28 de Julho, um ser misterioso, esvoaçava pelos largos corredores do Palácio. E, tal como Augusto Gil, o guardião-mor do Palácio, um frade beneditino que de noite vigiava o velho Mosteiro interrogou-se: “Será chuva? Será gente? Gente não é, certamente, e a chuva não bate assim… É talvez a ventania, mas há pouco, há poucochinho, nem uma agulha bulia na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho”.

A noite era tropical, seca, serena e quente. Nada bulia e, ao ouvir o barulho, o frade perguntou: Quem és tu? Ninguém! foi a resposta. Erros meus, má fortuna, era a empregada da limpeza que iniciava a sua jorna. Com ela não contavam os criadores do milagre de São Bento.

Por azar dos Távoras, iniciou a sua função pelo gabinete do deputado André Ventura cuja porta estava aberta e não trancada, como era comum, e deparou-se com papéis espalhados pelo chão, sem sentido. Chamou de imediato a segurança que procedeu ao isolamento do local e foi feita a comunicação à Polícia Judiciária.

Gabinete do deputado Ventura “desarrumado”, imagens partilhadas das redes sociais

Pelas 7:00 entrou o deputado Francisco Gomes. Bom dia, o que se passa? Houve um assalto no gabinete do deputado André Ventura! O que faz por aqui a esta hora? Vinha fazer um tik-tok. Os seguranças ficaram estupefactos, mas nem comentaram.

O deputado afastou-se, retirou um telemóvel descartável da algibeira e fez uma chamada: a empregada da limpeza veio mais cedo e deu o alerta. Mas ela não começava às 7:30? Perguntaram do outro lado. Sim, mas hoje veio mais cedo, estamos tramados. E a moldura estava bem? Sim, tudo certo. Bem, deixa-me pensar e não voltes a ligar.

A Polícia Judiciária entrou no gabinete para efectuar a perícia e uma das imagens que espantou os agentes foi a da moldura de Nossa Senhora de Fátima, no chão, incólume, com um crucifixo cuidadosamente colocado sobre o vidro.

” um novo sinal da Virgem Maria para o Mundo”, imagem partilhada das redes sociais

No meio da tempestade de papéis, a moldura e o crucifixo estavam intactos. Milagre! Gritou a empregada de limpeza que tinha ficado por ali. Só pode ser milagre. O deputado Francisco Gomes ajoelhou-se e exclamou ‘o milagre de São Bento’, vai já para o tik-tok.

Entretanto, a trama adensa-se. A notícia correu célere e o criador de factos recebeu um telefonema de um dos patrocinadores. O que se passa? Está tudo controlado, a empregada da limpeza começou a trabalhar antes da hora prevista, mas está tudo controlado. Vê lá o que arranjas, se isto correr mal temos de encontrar uma alternativa para ti, precisamos de controlar a arraia-miúda enquanto é tempo.

O criador dos factos alternativos telefonou a alguns amigos que o projectavam nos media, aos comentadores próximos do partido e depois marcou a sua declaração política. Tinha de seguir em frente, sabia que se falhasse os patrocinadores não lhe perdoariam e seria substituído sem dó, nem piedade. Eles queriam que ele acabasse com o partido do governo e desse cabo do outro partido da oposição. E o criador de factos alternativos tinha garantido que conseguiria os dois objectivos. Por causa da empregada da limpeza tudo correu mal e agora não sabia como descalçar essa bota.

Todos os momentos seguintes à declaração que fez foram confrangedores. O desastre da operação ‘vandalismo na madrugada’ era evidente. Percebeu que a sua carreira de manipulador da verdade poderia estar a acabar. Os dias subsequentes foram ainda mais demolidores com deputados que queriam o seu lugar a exigir explicações. Os patrocinadores, inquietos, não o largavam. Só se lembrava da conhecia frase de Lenine, ‘O que fazer?’ Maldita empregada da limpeza, maldito proletariado que já estava quase convencido a votar nele.

A CORAGEM NÃO TEM IDADE

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Com o tempo, as iniciativas do Palestine Action ganharam grande notoriedade, impulsionadas pela divulgação de vídeos nas redes sociais. À medida que crescia a visibilidade do movimento, aumentava também a preocupação das autoridades britânicas que, provavelmente pressionadas pelo Governo israelita, decidiram catalogar o Palestine Action como organização terrorista, proibiram a sua atividade e criminalizaram qualquer forma de apoio ao grupo, passando esta a ser enquadrada como apoio ao terrorismo.

Desde então, pertencer à organização, prestar-lhe apoio material ou exibir publicamente símbolos de solidariedade tornou-se crime no Reino Unido. Mais de três mil pessoas já foram detidas apenas por manifestarem apoio ao movimento ou por contestarem a decisão de o banir.

Enquanto decorrem nos tribunais os recursos destinados a contestar a classificação de terrorismo atribuída ao Palestine Action, as ruas britânicas têm sido palco de sucessivas manifestações. Os seus participantes procuram convencer a opinião pública de que está em causa uma questão de direitos fundamentais, esperando que esse debate tenha reflexo na apreciação judicial sobre o enquadramento legal da organização.

O aspeto mais surpreendente é, porém, a identidade de muitos desses manifestantes. Longe da imagem tradicional do ativista jovem e combativo, são sobretudo reformados, muitos deles já bastante idosos. Alguns chegam às concentrações em cadeira de rodas, outros apoiam-se em bengalas ou no braço de familiares e vizinhos. Formam um improvável exército de cabelos brancos, marcado pelo peso dos anos, dos reumatismos e das limitações físicas, mas determinados na defesa dos direitos cívicos e políticos e na proteção da vida de um povo indefeso.

É um exército onde há mais bengalas do que escudos, mais artroses do que músculos, mas onde continua a existir uma boa reserva da coragem necessária para enfrentar injustiças.

O ENIGMA DO SELO DE CHUMBO

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Tem 8 cm de diâmetro e 440 gr de peso. Para cima, as cordas em vermelho e amarelo; para baixo, estas cores são entrançadas com uma data de outras cores fazendo mesmo nós. Na frente, mostra uma figura sentada, entronizada, de globo terrestre com a cruz na sua mão esquerda e o ceptro real com a flor de lis na sua mão direita levantada. No verso, um enorme escudo, muito dividido, que parece ter todos os reinos de Espanha.

Penso podermos assumir que se trata de um selo de Estado, de uma personagem que chegou a reinar em Espanha.

Nas bordas, mostra um grande número de letras que nos deviam esclarecer de quem se trata. A sua leitura parece, porém, à 1ª vista impossível. Por exemplo, anotei a 1ª metade das letras da frente: 05LAUPHMLTDI:AMNNP:TAMR:PT6IRP. Anotei também a 1ª metade das letras no verso: AUSTMDIUSUREIRAT

A minha tentativa da leitura deve estar cheia de erros, porque nada disto faz sentido. Assim, peço ajuda a quem estiver mais dentro deste tema.

De resto, o mais interessante é de que, ao meu ver, a figura sentada não é um homem mas uma mulher. Também notei de que a sua cobertura da cabeça faz lembrar as representações das Abadessas. Pesquisei quem poderia ter sido a senhora que reinou sobre as Espanhas! Apenas me ocorreu uma, que sei que, de facto, reinou durante cerca de dois a três anos! Foi a princesa Joana de Portugal, mãe do nosso Dom Sebastião. Ela casou com o Infante Dom João, da Casa de Avis, Príncipe Herdeiro da Coroa de Portugal. Deu à luz o filho dos dois, em Lisboa, aos 20 de Janeiro de 1554, precisamente 18 dias apôs o falecimento do seu marido.

Em cumprimento dos termos do tratado pré-nupcial, viu-se obrigada a sair de Lisboa, poucos meses depois e voltar para a Espanha, para aí se integrar de novo, mas como viúva. No ano de 1555, a princesa Joana é, efectivamente, a regente de Espanha, em ausência do seu pai, Carlos I de Espanha e do seu irmão, o futuro rei Filipe II de Espanha. A ausência dos dois levou diversos anos, porque Carlos I de Espanha era também Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico e decidiu, então, abdicar e dividir os seus reinos: entregou o Império Alemão ao seu irmão Fernando e o Reino de Espanha ao seu filho Filipe.

Em conformidade com os pormenores do tratado pré-nupcial, a princesa Joana levou os valores do seu dote do casamento de volta para Espanha. Esperava-se que casasse de novo, mas ela decidiu de outra maneira, mantendo-se viúva para o resto da vida, usando a sua fortuna em prol do Convento das Carmelitas Descalças, que recolhia apenas jovens raparigas das famílias dos grandes de Espanha. Assim, muitos viam-na como uma espécie de Abadessa. De facto, era assim que se vestia. E é precisamente este aspecto que a figura feminina no trono do grande selo nos mostra. Será ou não será? É a questão.