À moda de Trump, apresenta-se uma teoria simplista e coloca-se alguns comentadores a replicar a mesma, para ver se pega. Defender que o Chega e o Partido Socialista são, no essencial, a mesma coisa constitui uma simplificação abusiva e, em termos argumentativos, uma falácia. Essa tese ignora, objetivamente, diferenças estruturais de matriz ideológica, de prioridades programáticas e de linguagem política. Embora em democracia possa haver convergências ocasionais em votos, medidas avulsas ou táticas parlamentares, isso não basta para concluir que dois partidos são equivalentes. Confundir coincidências pontuais com identidade política é apagar aquilo que realmente distingue projetos partidários: a forma como encaram o Estado, a economia, a comunidade nacional, os direitos sociais e o lugar de Portugal no mundo.
As diferenças entre ambos são evidentes, desde logo na visão do Estado e da sociedade. O Partido Socialista inscreve-se, historicamente, numa tradição social-democrata e reformista, defendendo um Estado social forte, a protecção dos serviços públicos e uma lógica de redistribuição com preocupação de coesão social, como se reflecte na valorização do SNS, da escola pública e da segurança social no seu programa eleitoral de 2025. Já o Chega apresenta-se como uma força de rutura com o chamado ‘sistema’, combinando propostas de endurecimento penal, discurso securitário, controlo mais restritivo da imigração e uma retórica de confronto com instituições e elites políticas; o seu programa de 2025 enfatiza precisamente uma justiça mais punitiva, imigração controlada, soberania nacional e reforço da autoridade do Estado. Mesmo quando ambos falam de crescimento económico, fazem-no a partir de pressupostos distintos: o PS tende a articular competitividade com proteção social, enquanto o Chega procura associar a crítica fiscal e burocrática a uma narrativa de ordem, identidade e combate à corrupção.
Também no plano discursivo a distância é significativa. O PS usa, em regra, uma linguagem institucional, moderada e centrada na administração gradual das políticas públicas; o Chega mobiliza uma retórica mais polarizadora, assente na denúncia, na dramatização do conflito e na oposição entre ‘povo’ e ‘sistema’. Por isso, dizer que são iguais não é uma análise séria, mas antes uma forma de desvalorizar distinções fundamentais do debate democrático. Pode ser legítimo criticar ambos, apontar incoerências ou denunciar aproximações pontuais em certos momentos. O que não é intelectualmente rigoroso é apagar as diferenças de orientação ideológica, programática e retórica que os separam. Se a discussão quiser ser honesta, deve começar justamente por dissecar essas diferenças, e não por anulá-las numa equivalência apressada.



