O jornalista Miguel Szymanski lançou um apelo à mobilização cívica, defendendo que a gravidade do genocídio do povo palestiniano e o agravamento das guerras exigem uma resposta que ultrapasse fronteiras partidárias, religiosas e ideológicas. Assumindo-se como alguém que nunca encontrou lugar em partidos ou organizações, diz Miguel que chegou o momento em que a inação deixa de ser uma opção e se transforma em cumplicidade perante o sofrimento humano.
A proposta passa pela criação de um amplo movimento de cidadãos, reunindo pessoas de diferentes sensibilidades políticas, religiosas e sociais em torno de princípios universais: rejeição do genocídio e da guerra, defesa da solidariedade humana, da diplomacia e das liberdades. O objetivo é levar as pessoas para o espaço público e exercer uma pressão política que obrigue a mudanças na política do Governo português.
O apelo é válido e urgente. Porém, a experiência mostra que movimentos desta dimensão raramente ganham expressão sem uma estrutura mínima de coordenação, sem pessoas capazes de organizar, convocar e dar continuidade à mobilização. Sim, somos muitos, mas dificilmente se conseguirá transformar a indignação dispersa num acontecimento com verdadeiro impacto político. Por mim, estou disponível, dou um passo em frente. Estou ao teu lado, Miguel.
O Cabo da Roca, visto da Ericeira, num dia azul pleno
Vou lembrar uma parte desse litoral, a que chamarei a Costa da Lua, apesar das múltiplas referências que já fiz ao sol e aos seus efeitos, nem sempre benéficos, uma costa de que o velho Plínio contou uma saborosa história de Sereias e Tritões, algures na zona vizinha do Promontório Magno, o nosso Cabo da Roca, que para os Antigos era o extremo não da Europa, embora Plínio o sugira, mas sim do Monte da Lua, a esplendorosa e ainda algo misteriosa, como então, Serra de Sintra. Assim lhe chamou Ptolomeu, há quase dois mil anos: Σελήνης όρος άκρον.
Para simplificar, precisarei geograficamente a Costa da Lua entre a Roca e as Ilhas Berlengas, Londobris na Antiguidade, as Ilhas do Mar Revolto, topónimo que sugere uma povoação Londobriga nas proximidades. Seja como for, daí para cima entravam Fenícios, alguns Gregos e depois os Romanos, num mar que já nada tinha do pretensamente suave Mediterrâneo, mar de vizinhança como o classificou Pedrag Matijevic, de que Olisipo no estuário do Tejo era, na verdade, o último porto. Para quem duvidar destas presenças, sobretudo da primeira, lá se encontrou um pesadíssimo cepo de âncora em chumbo, de um navio oceânico, do século V ou IV a.C. Nesta costa situa-se um triângulo definido por balizas, para utilizarmos uma linguagem marítima, da minha vida passada: a Praia Grande, Sintra e, um pouco mais a norte, a Ericeira. Deveria lembrar também São Miguel de Odrinhas, e os seus museus, o desaparecido e o actual. Fica para outra oportunidade.
Da Praia Grande as memórias são mais recentes, pois começam em 1952 – afinal já há muito tempo – quando lá passei fugitivamente com meu Pai. Era então um deserto marítimo, que se atingia por um carreiro que corria por cima da arriba, passando junto ao muito famoso – e então de quase ignota localização – santuário do Oceano, do Sol e da Lua, astro associado à deusa Diana, o que imediatamente permite imaginar uma ligação à Serra de Sintra. Hoje, o local tem visitas guiadas, mas deve ser usufruído em solidão. Fazendo aquelas perguntas para as quais não obtemos respostas.
Voltei muito mais tarde, em 1965, e tudo mudara, naturalmente, e depois em 1966, recém-casado em Sintra, com a comissão angolana suspensa pela licença regulamentar. Depois desta visita de alguns dias regressei em 1971 e desde então nunca mais. Perguntar-me-ão se tão reduzidas permanências têm algum significado numa vida. Têm, porque também ali o que contou foi a intensidade daquelas longas horas e o sabê-las únicas, irrepetíveis.
O primitivo Hotel das Arribas, na Praia Grande, em 1966.
O antigo Hotel das Arribas hoje já não me diz nada de novo e recordo as imagens que dele vi, fustigado pelas vagas que então fizeram desaparecer por completo a praia, creio que em 2016, e que na altura me provocou uma estranha sensação de desconforto, quase uma premonição. Um dia voltarei lá, à praia..
E a Ericeira? Que turbilhão de impressões e memórias! Talvez por isso tardei tanto a voltar a esta praia, depois de um período em que voltámos a frequentá-la. Na verdade temos sempre receio de voltar a esses sítios especiais e nada ou pouco encontrar do que foi o nosso ambiente. E assim foi. Embora sendo, esta Ericeira já não é. Daqui a décadas outros dirão o mesmo e talvez seja esta inconstância que dá o ritmo à História. O café do António, que tinha na parede um grande poster com um salto de pára-quedistas em formação e onde fazíamos uma paragem no regresso da Praia do Sul, desapareceu, assim como os mais urbanos Xico e Morais. O Parque de Santa Marta, onde brinquei e depois os meus filhos, transfigurou-se. É certo que o Jogo da Bola e a sua passarada nas árvores lá continua, o mesmo para o Largo de São Sebastião, com a sua bela capelinha, mas agora urbanizado à moderna.
É decerto o progresso, simplificando, mas a diferença mais vincada é o ambiente sonoro, pois os sons fazem sempre parte de um ambiente, agora demasiadamente nórdico e com tintas de Billabong. Talvez a minha migração para norte, nos anos 90, que me levou a São Martinho do Porto, uma jóia em risco de perda, tenha alguma coisa a ver com um sentimento de irreversível mudança. Talvez, e também neste caso o talvez nos deixe na dúvida. Ao longo da vida há momentos de ruptura irrecuperável enquanto outros sobrevivem e persistem imutáveis, vencendo tempo e distâncias.
Nesta Costa da Lua, astro que na mitologia púnica se identificava com a deusa Tanit, não deixa de ser interessante a hipótese do topónimo Ericeira se relacionar com Ericínia, epíteto tópico de Astarté / Vénus na Sicília, o que afasta a divindade em causa do que a tradição consagra para a região do Monte da Lua. Pelo menos é uma hipótese bonita, superior a relacioná-lo com ouriços ou eiriços, que em tempos idos deram nome a um excelente doce local. Os vestígios antigos na Ericeira são parcos, embora a zona tenha conhecido forte implantação rural na época romana e uma fonte local (de Santa Marta?) tenha merecido árula votiva, dedicada por uma Atília Amena, conservada no Museu da Santa Casa da Misericórdia.
Árula consagrada à Fonte, por Atília Amena, na Ericeira.
Mas há outras histórias na história eiriceirense, como o trágico acto final da Monarquia portuguesa, o embarque na barca Bonfim e o transbordo desta para o iate Amélia, surto ao largo, da família real, a 5 de Outubro de 1910. Ou ainda a vinda de refugiados na Segunda Guerra Mundial e o seu impacte na pacata vida dos banhistas da época, sem esquecer as epidemias de febres tifóides, nunca lembradas, uma das quais me ia vitimando.
A Ericeira, que voltei a frequentar a partir de finais dos anos setenta, é aquela terra que me permite, de olhos fechados, percorrer as ruas antigas, como se as visse realmente. Meus pais passavam longas temporadas na vila, onde festejaram o meu primeiro aniversário, numa casa junto ao Forte, casa que ainda permanece. Na Ericeira brinquei com ricos e pobres, auferindo da vida despreocupada de uma criança da burguesia dos anos quarenta. Tenho muitas fotografias e vagas lembranças.
Eu, na Ericeira, no Verão de 1944, na cadeira do realizador Artur Duarte
A Ericeira foi também, e não menos importante, um lugar de encontro de memórias, minhas e de minha mulher, também frequentadora da praia antes de me conhecer, reunidos pelos acasos (?) da vida em Estremoz.
Delimitei a Costa da Luapor dois acidentes geográficos importantes da geografia antiga, o Promontorium Magnum e a Insula Londobris. Este trecho do finisterra hispânico, aqui sem a conotação étnica que agora atribuem ao termo, mereceu, pelas suas peculiaridades, a distinção do santuário do Alto da Vigia, junto à foz da ribeira de Colares, um dos poucos conhecidos no litoral peninsular, santuário onde os notáveis vinham prestar culto ao Oceano, ao Sol e à Lua, misturando-se com a plebe indígena e aproveitando para exprimir lealdades imperiais. O santuário, de acordo com o que dele conhecemos graças a trabalhos arqueológicos recentes, repetia o modelo oriental dos santuários ao ar livre, uma área sagrada, como o seria o santuário do Cabo de São Vicente, descrito por Estrabão. Mas aqui, ao pé da Praia Grande, no santuário imaginado por Francisco de Holanda sem grande exagero renascentista, havia inscrições votivas, algumas em grego.
O santuário do Alto da Vigia, segundo Francisco de Holanda
Um dos vários notáveis que por ali passaram foi C. Iulius Celsus, no século II, alto funcionário financeiro que um dia foi administrador do Mausoléu de Alexandre, na cidade de Alexandria no Egipto, responsável por cargos importantes na Itália, na Dácia e na Gália antes de aportar à Lusitânia. Lugar sagrado para uns, como para mim por razões diferentes, ligado aos dias de ouro de um Setembro longínquo, irrepetível.
Agora, de São Martinho do Porto consigo ver, em dias de bruma apaziguada, ao longe no horizonte com a sua forma de cetáceo gigantesco acompanhado pelos filhotes, o perfil da Berlenga, onde os Romanos construíram um farol antecedendo quase dois mil anos o que lá está agora, pois a zona era perigosa e lá estão os cepos de âncora para o provar. O farol moderno pôs fim a classificação desta costa como costa negra pela falta de sinalização nocturna suficiente, e os naufrágios trágicos do S. Pedro de Alcântara, final de uma viagem iniciada no Chile, e do Roumania a caminho da Índia lembram quanto era perigosa a navegação nocturna na zona. Houve mesmo aquele caso do Highland Hope, em 1930, perdido nos Farilhões alguns meses apenas após o seu lançamento. Assim, consigo ver o que na minha geografia de afectos marca o limite setentrional da Costa da Lua, tentando ouvir vozes que se vão calando e manter as cores em quadros esmaecidos pelo passar dos trabalhos e dos dias.
Às vezes a memória torna-se pesada, quando vai enfraquecendo e se perdem imagens e nomes, criando uma situação vertiginosa de que vivemos em mundos paralelos e que perdemos a possibilidade de voltar a um deles, tornado onírico e que já não é nosso. É particularmente doloroso pensar que já não teremos oportunidade de voltar, não aos tempos passados, que vivem noutro espaço, mas aos sítios sonhados ou vividos, aqueles que nos acompanham teimosamente no quotidiano, a mítica Palmira ou aquela generosa praia angolana do Quinzau. Receio, acima de tudo, as visitas de saudade, aquelas em que se pensa, sem o dizer ou querer admitir, que talvez seja a última vez. Na verdade, como disse o filósofo grego, nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. O que me revolta.
Mas voltemos à Costa da Lua. Ali, o Sol continua a mergulhar no Oceano e a Lua a brilhar num céu que desejamos tranquilo, frente à Praia Grande, onde um dia defrontámos o mistério do amor, talvez sob a égide de Diana. Não muito longe, Sintra perde-se no turbilhão do turismo massificado e distraído, que se pretende representar o futuro desta Lusitânia, alheio à beleza intemporal que ainda subsiste, sobretudo na Serra, ciosamente escondida dos olhos apressados.
Chega-se à varanda e eis a Serra e o seu insistente convite à evasão
Talvez o ciclo do eterno retorno permita, um dia, reencontrar um tempo de equilíbrio em que seja oferecida, aos que podem ver, a visão fugidia de uma deusa caçadora entre a exuberância vegetal do Monte da Lua ou, pelo menos, as Náiades camonianas cantando nas fontes melodias que este século não merece.
recorte da obra A Criação de Adão, de Michelangelo, 1511
A morte física não é o encerramento de uma vida, mas a sua definitiva descentralização. Enquanto respiramos, operamos sob a ilusão de que a nossa identidade termina onde a nossa pele delimita o corpo. Puro engano. A nossa existência real nunca pertenceu a um indivíduo isolado, pois nenhum ser humano é uma ilha. Nós somos o resultado dos laços que tecemos. Existir é ser percebido, ser afetado e, fundamentalmente, afetar. Portanto, quando os seus olhos se fecharem pela última vez, a sua história não deixará de ser escrita; ela apenas mudará de morada, passando a habitar o território emocional daqueles que continuam a caminhar.
Olhar para a sua partida sob a lente das relações humanas é compreender que você se transformou em uma herança viva. Ao longo da jornada, você não apenas acumulou dias, mas fragmentou-se positivamente na vida das pessoas ao seu redor. Você dissolveu-se em centenas de lembranças distintas: habita o sorriso de um amigo que se recorda de uma piada partilhada, a resiliência de um familiar que se apoia no seu exemplo e a sensibilidade de quem aprendeu a ler o mundo através dos seus olhos. Nós somos os espelhos uns dos outros. Na ausência do seu corpo, os reflexos que você deixou na alma de quem fica passam a ser a sua face visível.
Essa é a verdadeira filosofia da presença na ausência. A saudade que os outros sentirão não deve ser vista como um abismo de falta, mas sim como a prova física e incontestável de que um espaço sagrado foi preenchido por amor. O maior legado de uma vida não se calcula em posses ou monumentos de pedra que o tempo fatalmente transforma em poeira; calcula-se nos sentimentos que você despertou, nas dores que aliviou com a sua escuta e na coragem que inspirou pelo simples facto de estar presente. Seus conselhos tornaram-se a voz interior de alguém em momentos de dúvida; seus gestos de gentileza moldaram discretamente a forma como os seus pares decidiram tratar o mundo.
A sua imortalidade, portanto, é prática e quotidiana. Você permanecerá vivo sempre que alguém repetir um hábito seu, sempre que defender os valores em que você acreditava ou quando o amor que você investiu nos outros continuar a circular, passando de geração em geração como uma energia que não se extingue, apenas se transforma. A teia social que você tocou jamais voltará ao desenho original. A sua biografia com a humanidade está concluída e é perfeita na sua finitude. Descanse na certeza de que você cumpriu o papel mais nobre da experiência humana: o de se tornar inesquecível para alguém.
A longevidade não é apenas um fenómeno demográfico. É um desafio ético, cultural e civilizacional. Obriga-nos a repensar a forma como organizamos o trabalho, a saúde, as cidades, as famílias e até a maneira como olhamos para nós próprios. Porque todos desejamos viver muito, mas poucos aceitam envelhecer.
Há um paradoxo que nos devia fazer refletir. Admiramos a experiência quando ela está escrita nos livros, mas muitas vezes ignoramos quem a transporta consigo. Procuramos sabedoria em conferências e universidades, mas esquecemo-nos de escutar quem passou uma vida inteira a aprender, a errar, a recomeçar e a vencer.
Uma sociedade que marginaliza os seus cidadãos mais velhos está, na verdade, a empobrecer-se. Está a desperdiçar um património de memória, de conhecimento e de humanidade que nenhuma tecnologia poderá substituir. Quando afastamos os mais velhos, estamos também a ensinar os mais novos a temer o seu próprio futuro.
Talvez a verdadeira revolução da longevidade não esteja apenas em acrescentar anos à vida, mas em acrescentar vida aos anos. Não basta viver mais. É preciso continuar a sentir-se útil, respeitado, ouvido e amado. A dignidade não tem prazo de validade, nem a cidadania termina com a reforma. Importa também perguntar: que sociedade estamos a construir para nós próprios? Porque cada gesto de indiferença para com uma pessoa idosa é, afinal, um gesto dirigido ao nosso próprio futuro. Todos, se a vida nos sorrir, caminhamos na mesma direção. A forma como tratamos hoje quem envelheceu é o retrato da sociedade que encontraremos amanhã.
A revolução da longevidade exige uma nova cultura. Uma cultura onde a idade não seja um rótulo, mas uma etapa da existência; onde o valor das pessoas não seja medido apenas pela produtividade económica, mas pela riqueza humana que transportam; onde as gerações deixem de viver lado a lado para voltarem a caminhar juntas. Mas esta revolução exige coragem. Coragem para derrubar barreiras que nós próprios criámos e que continuamos, teimosamente, a manter. Em demasiados países, e de forma particularmente evidente na União Europeia, persistem mecanismos que, ao atingir uma determinada idade, retiram às pessoas oportunidades, responsabilidades, rendimento, participação e, muitas vezes, até a autoestima. Como se o valor de um ser humano tivesse uma data de validade.
É tempo de afirmar, sem ambiguidades, que esta visão é injusta e incompatível com uma sociedade verdadeiramente democrática. A idade nunca pode ser um critério para excluir, afastar ou desvalorizar. A experiência, o conhecimento, a criatividade, a capacidade de trabalhar, de inovar, de ensinar e de servir a comunidade não desaparecem quando se atinge uma determinada idade. Pelo contrário, atingem frequentemente a sua maior maturidade. Precisamos de mudar leis, políticas públicas, organizações e mentalidades. Precisamos de eliminar todas as formas de discriminação baseadas na idade e devolver às pessoas a liberdade de continuarem a participar plenamente na vida económica, social, cultural e cívica, sempre que o desejem e tenham condições para o fazer. A verdadeira inclusão não consiste em proteger os mais velhos da sociedade; consiste em impedir que a sociedade os afaste.
A Revolução da Longevidade será incompleta enquanto milhões de cidadãos continuarem a ser afastados do trabalho, da criação, da decisão e da participação apenas porque atingiram um determinado número de anos. Não podemos continuar a desperdiçar um dos maiores recursos da Humanidade: a experiência acumulada de gerações inteiras. A História julgará as sociedades não apenas pela riqueza que produziram, mas pela forma como respeitaram e valorizaram aqueles que ajudaram a construí-las. A urgência da mudança não é para amanhã. É para hoje. Porque a Revolução da Longevidade só será uma verdadeira revolução quando cada pessoa, independentemente da sua idade, puder continuar a viver com dignidade, liberdade, propósito e plena cidadania.
Há uma imagem que a imprensa europeia repete, um mapa com setas vermelhas a atravessarem o Estreito de Gibraltar, uma mancha densa de corpos anónimos a escalar a cerca de Ceuta. Fala-se em números de pelo menos 50 000, mais de 80 afogados, fala-se em «pressão migratória», em «defesa das fronteiras», mas raramente se fala no que esses braços que nadam procuram, para além da linha imaginária que separa a África da Europa.
Ninguém nada contra as correntes do Mediterrâneo por desporto ou espírito de aventura. A água salgada não é um convite; é um desespero líquido, um último recurso e aqueles jovens carregam nas costas uma história inteira de injustiças, séculos de extração de riqueza, mapas de países traçados por outrem onde os seus recursos naturais e o seu trabalho foram sempre o combustível para o progresso alheio.
Quando Bruxelas ergue o tom e fala em «invasão», comete dois erros fatais porque troca a causa pelo efeito, e a pessoa pela estatística. Mas não se invade aquilo a que se pertence, ainda que por direito de humanidade partilhada. O que vemos não é uma mancha militar, mas o movimento tectónico da pobreza a chocar contra a muralha rica da indiferença.
Por trás da Onda há uma Economia de Exploração e a Atração pelo Abismo
Há uma verdade incómoda que os discursos oficiais evitam: a Europa e os Estados Unidos são os grandes beneficiários de um sistema que mantém o Sul global numa dependência perene. Extraem-se minerais, explora-se a mão de obra, transferem-se lucros e depois, de maneira surpreendente e hipócrita, erguem-se barreiras para impedir que os corpos desses mesmos trabalhadores sigam o caminho do capital.
A solução proposta é quase sempre a mesma: contenção, devolução, dissuasão. Raramente se pergunta: porque é que a Europa é tão atrativa? E a resposta é cruelmente óbvia, porque concentra a riqueza que foi, em boa parte, construída sobre os ombros daqueles que agora batem à porta.
Mas há um caminho alternativo, um caminho de empenho, não de luta. A palavra lutar traz já em si a mecha masculina guerreira. Por isso é melhor falarmos de empenho. Empenho em criar filiais industriais nos países de origem. Empenho em transferir tecnologia e em pagar preços justos pelas matérias-primas. Empenho em reduzir a atratividade da Europa, não a tornando pior, mas tornando o mundo melhor.
Não se trata de uma caridade paternalista nas de inteligência estratégica com rosto humano. Se os jovens da margem sul tiverem escolas, empregos dignos, hospitais e esperança, a travessia mortal deixa de fazer sentido. A pressão migratória não se resolve com arames farpados; resolve-se com estradas, fábricas e universidades. E isto fica mais barato e é mais justo e sobretudo mais eficaz.
capela do Divino Espírito Santo, em Vide, freguesia de Vila da Rua, concelho de Moimenta da Beira
Está embutida na fachada principal da capela do Divino Espírito Santo, em Vide, freguesia de Vila da Rua, concelho de Moimenta da Beira, uma pedra retangular de granito, que ostenta uma inscrição em latim, limitada superiormente por dois filetes paralelos, limitação que também existiria em baixo, ainda que só reste um sulco feito por cinzel. Mede 42 cm de altura, 50 cm de largura; a altura das letras varia entre 6,5 e 9 cm.
Foi referida na Carta Arqueológica de Moimenta da Beira (Câmara Municipal de Moimenta da Beira, 2025, p. 126-127). Era, porém, conhecida desde há muito, na medida em que Frei Bernardo de Brito não deixou de a mencionar no seu livro clássico, Monarchia Lusitana, de finais do século XVI,e também Sousa Viterbo a contempla no seu conhecido Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram… datado da 2ª metade do século XVIII. O alemão Emílio Hübner inclui-a, portanto, no seu Corpus Inscriptionum Latinarum, de 1869, sob o nº 4643.
Lê-se: BONO REI PVBLICE NATO
Que significa: «Ao nado para o bem da República». ‘República’ tem, aqui, o sentido original de res publica, literalmente, a coisa pública, entendida no seu significado mais abrangente: o bem-estar do Povo, dos governantes, de.. tudo!
O que poderá ter acontecido? Os obreiros que encontraram essa pedra numa das obras acharam piada a essa espécie de base, distinta do resto do monumento, que estaria já bastante esboroado e nada se percebia do que lá vinha escrito. Aqui, ao invés, tudo estava ainda bonitinho. Até se poderia avivar um tudo-nada para se ler melhor (e, por isso, é que nem se aperceberam que ficava o nexo Æ e ficou apenas o E). Acharam, além disso, que o importante era deixar o escrito para fora, dissesse ele o que quisesse dizer; por outro lado, a dúvida era essa mesma: seria esconjuro, reza, fórmula mágica? Fosse como fosse, o melhor era preservá-lo e deixá-lo intacto para a posterioridade. Esclarece Frei Bernardo de Brito que a pedra foi «levada das ruínas de junto à ermida de S. João», e se conserva «na parede da ermida de S.Sebastião em Vide»; Viterbo situa-a «em Vide, no frontispício da capela do Espírito Santo», onde efectivamente se mantém.
«Ao nado para o bem da República»
Dois mistérios ainda subsistem, contudo: – A frase, colocada no final do monumento em que se expunha o currículo do imperador, terá sido aplicada, muito provavelmente, a um imperador do século III em diante, época em que se requeria um halo de espiritualidade, para garantir a fidelidade dos súbditos, dado que a subida ao trono nem sempre seguia as regras consuetudinárias. – A pedra andou em bolandas, como se deduz dos testemunhos de Bernardo de Brito e de Viterbo. E foi achada onde? Um monumento deste teor requer, naturalmente, um contexto urbano. Qual? Grande desafio, pois, para os estudiosos e arqueólogos locais.
Publiquei um vídeo nas redes sociais com uma pergunta muito simples: “Alguém viu estas imagens em algum telejornal?” As imagens mostram um funeral coletivo em Gaza. Cento e doze pessoas mortas no mesmo bombardeamento. Três anos depois, as equipas de resgate conseguiram recuperar e identificar as ossadas, permitindo finalmente que as famílias lhes dessem sepultura.
vídeo
Esperava respostas sobre “ver televisão” e sobre aquelas imagens. E obtive-as.
Depois de ter despachado em grande velocidade o lixo deixado por trolls e bots ao serviço do sionismo, fiquei com uma maioria de comentários que dizem praticamente a mesma coisa. Uns confessam que já não ligam aos telejornais há muito tempo. Outros dizem que ainda ligam o televisor, mas garantem nunca ter encontrado aquelas imagens em nenhum canal.
Não retiro daqui uma conclusão científica. A amostra é composta por pessoas que seguem as minhas páginas e, por isso, não representa a sociedade portuguesa. Mas revela qualquer coisa que merece ser pensada.
Durante décadas, a televisão ocupou um lugar muito particular na nossa vida coletiva. Não era apenas uma fonte de informação. Era a primeira testemunha da realidade. Se um acontecimento era suficientemente importante, sabíamos que iria aparecer no telejornal. Hoje, essa confiança parece estar a desfazer-se.
Cada vez mais pessoas começam o percurso informativo ao contrário. Primeiro procuram nas redes sociais, em canais alternativos, em plataformas de vídeo ou em aplicações de mensagens. Só depois, se o fizerem, verificam o que disseram os media tradicionais.
Não significa que as redes sociais sejam mais rigorosas. Não são. Sabemos bem que nelas circula o melhor e o pior. Só que a relação do público com os meios de Comunicação Social alterou-se, as pessoas deixaram de confiar. Essa mudança talvez explique a crise das audiências.
Durante muito tempo, as empresas de televisão competiam entre si, era uma disputa entre canais de televisão. Hoje competem com milhões de telemóveis. Competem com testemunhos diretos, vídeos gravados por cidadãos, jornalistas independentes, organizações humanitárias, investigadores e pessoas comuns que publicam aquilo que veem sem esperar pela autorização de uma redação. A televisão, os jornalistas perderam o monopólio da primeira versão da realidade.
O critério jornalístico dá para tudo e mais um par de botas, no que diz respeito ao alinhamento de notícias ou até à supressão de algumas. Essa é uma decisão editorial, deveria ser discutida no interior das redações, e creio que já não é. Mas o que me impressionou foi a quantidade de pessoas que já nem espera encontrar nas televisões (por maioria de razão também nas rádios e jornais, incluindo respetivos sites e redes sociais), uma ampla cobertura sobre o que se passa no mundo.
Era costume passar por ali à mesma hora, vê-lo colado ao poste do semáforo à espera que mudasse para vermelho, depois correr a coxear para abordar os condutores.
Quasesempre acontecia…o corpo quase transparente…os movimentos quase tolhidos na pressa de apanhar as migalhas do tempo. Só os olhos, de um verde transparente como as águas de uma lagoa, se mantinham acesos, calorosos.
Eram ainda brilhantes. Emitiam sorrisos como os últimos raios de sol. Estendia a mão num gesto que ainda me dói. É tão aviltante um ser humano ter de estender a mão à indiferença dos outros!
Aceitava. Bebia logo. Depois comia durante a ronda de segundos por entre os automóveis parados.
O verde não era esperança para ele. Mal a luz do semáforo mudava, buzinavam-lhe com força enquanto ele corria para o refúgio improvisado: uma tira de passeio à direita para paragem de autocarros, onde acabava de comer a única refeição do dia.
Começava a trazer-lhe um lanche “rezando” para que ainda lá estivesse quando o trânsito na ponte era intenso…que o semáforo funcionasse a seu favor e ele visse o automóvel.
Mas a lucidez dele estava quase intacta. Os seus 20, 22, 25 anos tinham quase a certeza, ou uma esperança remota, de que alguém como eu passasse antes de anoitecer e lhe atirasse o saco, se a luz do semáforo não estivesse de feição.
Era sempre aos sábados.
Na cama não conseguia apaziguar o sono. As perguntas que qualquer um de nós faria, impunham-se à serenidade.
Quem o metera no vício? Seria ele sozinho, curioso pela experiência? Como se aguentava tantos meses, já trôpego, a voz entaramelada? Por que razão, quase morrendo de fome e a sucumbir à dependência, tinha uma cabeleira castanha tão farta e ondulada como a de um anjo… uns olhos puros e brilhantes como estrelas em noite límpida… um sorriso de bondade que nos comovia logo?
A última vez que o via estava mais agitado. Voltava a pedir dinheiro.
E os olhos abriam-se-lhe redondos como dois sóis.
A luz do semáforo mudava. Ele corria para a ilha da paragem. Com o cacho de uvas preso em ambas as mãos, a boca enterrada no meio bem suculento, comia com gula e deleite.
Uma dor atravessava-me o peito: precisaria mesmo do preço de um bilhete para ir ao hospital? Se lho desse, salvava-lhe a vida, ou apressava-lhe a morte?
Não consegui olhar para trás. O trânsito fluía como um rio caudaloso, lamacento.
Quantos dos belos automóveis pertenciam aos barões da droga?
Nunca mais o vi. Os lanches seguintes já não lhe fariam falta.
Chamava-lhe anjo, que outro nome lhe poderia chamar…
Quando o meu tempo neste mundo cessar e o silêncio finalmente me acolher, não procures a minha presença na ausência do meu corpo. A morte não é o fim da linha, mas o momento em que a jornada de um pai se transforma, por completo, na fundação da vida do filho.
Tudo o que vivemos, cada conversa, cada abraço e até os nossos silêncios partilhados, deixará de pertencer ao tempo e passará a pertencer à eternidade. Eu não serei apenas uma memória no teu passado; serei a voz que guardas na tua consciência, a força invisível que te empurra nos momentos de dúvida e o reflexo que verás no espelho quando os teus próprios traços começarem a envelhecer.
A física ensina-nos que nada se perde, tudo se transforma. Filosoficamente, o amor de um pai faz o mesmo. A matéria desgasta-se, mas o significado daquilo que construímos juntos permanece intocável. Eu fiz-me raiz para que tu pudesses serárvore. Quando eu já não estiver aqui para te amparar, lembra-te de que as minhas fundações continuam profundas sob os teus pés. Tu és a minha continuidade, o meu pedaço de imortalidade.
Não prendas o teu coração ao luto ou à tristeza estéril. A melhor forma de honrares a minha partida é vivendo com coragem, integridade e paixão. Ama profundamente, aceita as imperfeições da vida e caminha com a cabeça erguida. Quando sentires saudades, olha para as tuas próprias mãos, para as tuas escolhas e para o teu carácter — eu estarei lá.
Eu não te deixo um vazio; deixo-te um legado de amor. Vive por ti, vive por nós e caminha sabendo que o meu amor por ti superou o próprio tempo.
O silêncio, ai o silêncio, é composto por um vento seguro de si próprio, mas que se escapa na brisa. As árvores dançam ao ritmo das poucas folhas caídas que rolam no chão e ao dos carrinhos de bebés que passam sem choro. Há cães, mas não há latidos, também eles descansam ao sol como os banhistas deitados no mar verde. Ninguém fala, todos murmuram.
Acabei o Bukowski, gostei das últimas páginas, mas não me seduziu, irei esquecê-lo. Depois deixo a maré baixa do mar verde, sinto-me abençoada com o sol e o vento, mas, acima de tudo, com o silêncio.
Sento-me na mesa pequena que me dá cabo das costas e cai cinza no chão. Reparo que o chão continua sujo apesar do aspirador. Está com morte anunciada… Vou buscar um copo de água e vejo a loiça suja. Estarei a dar em louca? Lavei-a toda antes de ir ao jardim…
Resolvo refrescar as ideias debaixo de um duche. Quando saio a toalha não está no sítio, vou a pingar até ao quarto, olho para a janela e continua no estendal a boiar ao sabor do vento. Ia jurar que a tinha deixado perto da banheira. Mas é quando abro a porta do frigorífico e não vejo a fruta que comprei de manhã que questiono a minha sanidade mental. O livro continua com o marcador no penúltimo capítulo. Ignoro esse pormenor.
Seco-me, passo a loção corporal que cheira a kiwi, visto a minissaia de ganga, a blusa azul, sandálias também elas azuis e ponho o colar florido. Foi a Isa que mo ofereceu. Por fim, seco o cabelo de trás para a frente para ter volume e pontas espetadas, é o meu novo penteado. Um pouco de perfume e voilá. Sinto-me bonita e olho-me ao espelho. Não vejo a minha figura, não vejo nada. Vou buscar o limpa-vidros e lavo-o com determinação. Continuo sem ver a imagem refletida. Mudo-o de sítio, não está a apanhar luz, é isso. Mas não, não há nada meu no maldito espelho!
Sinto a cabeça a andar à roda e sento-me no sofá. Fumo um cigarro. À medida que este arde lembro-me. De repente, lembro-me de tudo. Fui à Rua do Bem Formoso e uma bala perdida cravou-se-me no coração. Não era para mim. Mas fui eu que tive morte imediata. Rápido, tão rápido! Morri. Só agora recordo.
Corro para a paz do mar verde, caem-me lágrimas, falta-me o fôlego. Quando lá chego, sinto o mesmo silêncio do vento que escapa na brisa. Está tudo exatamente igual, os carrinhos de bebés, as folhas, os cães, os banhistas deitados ao sol. Ninguém fala.