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MAIS PAPISTA QUE O CHEGA

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É sabido e consabido que este governo e os amigos do Chega pretendem entregar tudo aos privados. De uma forma mais ou menos subtil, vão criando estratégias para diminuir os utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) entregando-os aos privados, nomeadamente aos seguros. Um trumpismo que querem importar dos EUA. Foi o que sucedeu em Lisboa com o plano Lisboa65+.

O Tribunal de Contas, analisando o plano criado por Moedas em 2022, afirma agora que aquele é ‘redundante e ineficiente’. Resta saber quem beneficiou, efectivamente, com este acordo.

Aquele organismo adianta mesmo que ‘não gerou um valor acrescentado relevante face às respostas já existentes, designadamente, no que respeita à articulação com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e à alegada complementaridade com o SNS’, mostrando ‘ser uma atuação redundante e ineficiente’, como refere o relatório divulgado pela agência Lusa. Portanto, também os mais velhos preferem, apesar de tudo e dos tempos de espera, recorrer ao SNS do que chamar aqueles que lucram com o nosso dinheiro.

O mesmo sucede na área da habitação, com o Estado a vender abaixo do preço de mercado imóveis que poderiam ser habitações para centenas de famílias.

Verifique-se que os oitos imóveis a vender ou já vendidos em Lisboa poderiam ser cerca de 450 casas. O Estado vende-os a valores abaixo do mercado e vai compra outros mais caros, no âmbito dos programas públicos de habitação.

Isto sucede em Lisboa, por exemplo, com a venda de vários imóveis, desocupados com a transferência dos ministérios para o Campus XXI, a antiga sede da Caixa Geral de Depósitos, e que está a ser feita abaixo dos valores de mercado. As hastas públicas geraram lucros de mais de 20 milhões de euros, mas as vendas foram efectuadas a preços significativamente abaixo do valor de mercado.

Enfim, desperdiçam o que nos tiram em impostos, lançam balelas para o ar e querem fazer-nos crer que o País está melhor. Só se for para eles.

Moedas, entretanto, atira atoardas, claramente sem conhecer a realidade. Na vontade de entregar funções da Polícia de Segurança Pública (PSP) à sua Polícia Municipal (PM) e de fazer crer que Lisboa é uma cidade insegura, claramente para agradar ao chefe do Chega, atacou a Justiça por causa da libertação de um suspeito de uma situação de violência em que foi baleada uma turista, aparentemente por uma bala perdida ou em ricochete, na Baixa de Lisboa.

Rapidamente, Moedas, que gosta de holofotes, foi para a televisão dizer que era ‘inaceitável’ que o indivíduo fosse libertado e sujeito a apresentações bissemanais.

A investigação está em curso, mas Moedas já condenou o homem, sem aplicar a presunção de inocência que a Lei lhe confere.

Segundo a PSP, o homem foi detido ao abrigo de um mandado de detenção fora de flagrante delito por violência doméstica. Terá estado envolvido nos desacatos em Lisboa, mas só a investigação dirá se efectou algum disparo e se a arma disparada é ou não da sua propriedade. O presidente da autarquia, apressou-se a condená-lo…

Cá por mim, condeno Moedas pelo lixo em Lisboa e pelo cheiro nauseabundo que se sente na capital. Condeno Moedas pelo tráfico de droga de algumas zonas onde deveria estar a PM a fiscalizar o que se passa. Condeno Moedas pelo abandono dos parques infantis e florestais. Condeno Moedas pelas ruas em que passar de carro é uma aventura, enquanto alguns (raros) ciclistas se passeiam em piso de luxo. Condeno Moedas pelos sem-abrigo na capital do País. Condeno Moedas por falar de mais e fazer (bem, já agora) de menos.

NINGUÉM PÁRA TRUMP

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cartaz de campanha política onde se sugere que Trump vai recandidatar-se em 2028

Donald Trump acaba de anunciar que, depois de “derrotar o Irão”, pretende declarar o estreito de Ormuz território dos Estados Unidos. Disse-o num comício, com o tom descontraído de quem corta uma fita na inauguração de um hotel pintado de amarelo. Mas é uma declaração de uma gravidade extraordinária.

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Uma coisa é uma potência militar controlar temporariamente um território no outro lado do mundo durante uma guerra. Outra, muito diferente, é dizer que, porque conseguiu controlá-lo pela força, passa a ser seu. É a velha lógica da conquista colonial, em pleno século XXI, exercitada por uma potência que passou décadas a explicar ao mundo que a ordem internacional deveria assentar em regras.

A questão seguinte, nesta conversa, é saber quem pode impedir os EUA de colonizarem o Estreito de Ormuz, de passarem a ser o portageiro dos petroleiros e graneleiros que por ali navegam.

O problema da ordem internacional contemporânea não é a ausência de normas. Normas existem. Tratados existem. Tribunais existem. Resoluções da ONU existem. O que frequentemente não existe é uma força capaz de impor essas normas a quem dispõe de poder suficiente para ignorá-las.

Se os Estados Unidos conseguirem controlar militarmente o estreito e, posteriormente, tentarem transformar esse controlo numa realidade política permanente, que mecanismo internacional terá capacidade para os obrigar a recuar? É aqui que aparece a impunidade.

A impunidade não significa necessariamente que um crime ou uma violação do direito nunca será reconhecido como tal. Significa que quem toma a decisão sabe, antecipadamente, que a probabilidade de sofrer uma consequência proporcional ao seu acto é mínima. É o que estamos a ver em Gaza e na Cisjordânia, na Venezuela e, agora, no Irão.

Um presidente dos Estados Unidos sabe que age com total impunidade, mesmo executando ou mandando executar atos que vão contra a lei internacional. Trump tem atrás de si uma capacidade militar gigantesca, armas nucleares, poder económico, alianças estratégicas e, sobretudo, a capacidade de tornar extremamente caro a qualquer outro Estado enfrentá-lo directamente. O resultado é perverso: o direito continua a existir, mas deixa de funcionar como elemento de dissuasão.

Também no direito internacional podemos dizer que a lei não é igual para todos. Também aqui há uma lei para os ricos e poderosos e outra para os outros. A hierarquia da impunidade provoca a erosão da ideia de que o direito limita o poder. Estamos a ver que não limita.

Chegados ao século XXI, assistimos a um presidente americano dizer que vai colonizar um dos mais importantes corredores marítimos do planeta porque os Estados Unidos conseguiram controlá-lo militarmente. Depois de Afonso de Albuquerque vem Donald Trump. Ninguém merece tamanho castigo.

MUDAR O SÉCULO SEM ACORDAR O PAÍS

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O diagnóstico de 1902 (uma póstuma homenagem a Oliveira Martins) bate à porta do Portugal contemporâneo com uma precisão cirúrgica. No século XXI, o sentimento português vive uma esquizofrenia identitária: por um lado, exportamos uma imagem de país moderno, tecnológico, turístico e acolhedor; por outro, partilhamos secretamente a mesma melancolia e o mesmo sufoco descritos na Revista – A Comédia Portuguesa – Ano I, Lisboa 1 de Setembro de 1902. A “fortaleza de misérias” mudou de aspeto, mas o labirinto interior permanece idêntico.

"Para as nações como para os homens, o pior estado é o torpor; e o nosso mal não é a paixão que erra, é a fraqueza que se resigna."
"O nosso parlamentarismo é uma farsa ruidosa, onde se discutem vaidades e se esquecem as realidades da nação."
Oliveira Martins

Hoje, o “rataplan do charlatão” já não ecoa nos tambores da praça pública, mas sim no ruído estéril das redes sociais e no mediatismo vazio. Continuamos a sofrer de um complexo de inferioridade crónico que se disfarça de sobranceria sempre que um sucesso individual — seja na ciência, no desporto ou na cultura — é celebrado como uma vitória da pátria. É o mesmo mecanismo de há cento e vinte anos: usamos o brilho do momento para anestesiar a “indiferença fatal” que nos impede de resolver os problemas estruturais de sempre, como a perda de jovens talentos para o estrangeiro ou os salários sufocantes.

O maior perigo do sentimento português atual é a normalização do cinismo como única forma de defesa. Olhamos para as instituições com a profunda “desconfiança do caminhante no meio duma floresta”, resvalando para um fatalismo cómodo que aceita a degradação pública como um destino inevitável. Continuamos a ser o povo que canta a sua própria dor, orgulhoso do passado que herdou, mas estranhamente resignado perante o futuro que tarda em construir.

SALÁRIOS DOS MERCENÁRIOS NA UCRÂNIA E NA RÚSSIA

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Os números mais recentes, divulgados pelas autoridades ucranianas em julho de 2026, pintam um retrato eloquente da dimensão internacional do conflito: 16 mil mercenários, oriundos de 72 países, combatem atualmente ao lado dos soldados de Kiev. Deste contingente heterogéneo, cerca de 40% têm origem na América Latina, num fluxo alimentado pela promessa de ganhos fáceis e pela precariedade económica dos seus países de origem. Do outro lado da linha da frente, fontes ucranianas estimam que mais de 18 mil combatentes estrangeiros engrossem as fileiras russas, com um recrutamento que se foca fortemente em cidadãos asiáticos, cubanos e africanos.

No que toca à remuneração, as disparidades salariais entre os dois exércitos são notórias, mas não isentas de armadilhas. Na Ucrânia, o salário base militar ronda os 700 dólares mensais, um valor que sofre um incremento exponencial para os soldados de infantaria destacados na linha da frente, onde a média mensal atinge os 7.000 dólares. Na Rússia, o vencimento base para quem combate pelo Ministério da Defesa é mais elevado à partida, situando-se entre os 2.100 e os 2.500 dólares mensais. Para efeito de comparação, enquanto um operário da construção civil aufere, em média, entre 670 a 810 euros brutos na Rússia, na Ucrânia esse valor ronda os modestos 460 a 480 euros brutos.

A ilusão de obter independência financeira rápida e escapar à crise laboral nos países de origem esbarra, porém, numa taxa de desgaste humano brutal, alimentada pelas táticas modernas de guerra de atrição. De uma forma geral, estes mercenários são tratados como mera carne de canhão, sendo maioritariamente integrados em unidades de assalto de vanguarda, onde a esperança de vida operacional se mede em semanas. As estatísticas internacionais, baseadas em dados oficiais, são aterradoras e revelam a verdadeira natureza do negócio: regista-se uma taxa de 45% a 50% de baixas médicas por ferimentos graves, com amputações ou traumas severos que inviabilizam a conclusão do contrato já antes do terceiro mês de destacamento.

A par disso, a taxa de abandono voluntário atinge os 30% a 35%, ao contrário dos soldados nativos, os estrangeiros beneficiam de cláusulas contratuais que permitem a rescisão unilateral. Cerca de um terço dos recrutas opta por quebrar o vínculo e regressar ao país de origem nas primeiras semanas, vencido pelo choque psicológico da guerra de desgaste e pela quebra de expetativas face à brutalidade da fronte. Por fim, a taxa de óbitos, desaparecidos ou capturados (estes últimos sem direito ao estatuto de prisioneiro de guerra) fixa-se nos 15% a 20%. Uma parte expressiva desta percentagem entra na categoria jurídica de “desaparecido em combate” devido à impossibilidade física de recuperar os corpos em zonas sob intenso fogo ou sob controlo russo.

O resultado deste caldeirão humano é uma Ucrânia cada vez mais dizimada, uma sociedade que se afoga num mar de soldados mutilados e psicologicamente devastados. Este cenário transforma-se num verdadeiro pesadelo para a Europa, que não hesitou em utilizar o território ucraniano como cavalo de Troia para a prossecução dos seus fins estratégicos, servindo de palco para as ambições geopolíticas das grandes potências, designadamente dos EUA e da União Europeia, enquanto a população nativa paga o preço mais alto em sangue e destruição.

(crónica publicada também em Pegadas do Tempo)

QUEM NASCE PARA MOEDA NÃO CHEGARÁ A NOTA!

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Em Portugal escrever “político demagogo” é quase pleonástico. Isto porque, na maioria das vezes, os políticos são cidadãos impreparados, incultos e, para mais, vaidosos. E tentam esconder a sua incapacidade com grandes tiradas, colocando-se em bicos de pés, falando alto, tentando ser convincentes. De um modo geral o tiro sai-lhes pela culatra e a fragilidade “vem ao de cima”, como se diz na minha terra.

Um exemplo bem representativo deste tipo de políticos é o actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas. A ânsia pelos holofotes e pelas câmaras das televisões, ultrapassa o seu bom senso (o que também não seria tarefa difícil) e faz com que caia no ridículo. E o ridículo é o grande inimigo dos políticos.

Todos nos lembramos de algumas decisões suas, apresentadas como grandes soluções para casos considerados problemáticos ou mesmo insolúveis. Ficou-nos na memória a quantidade de camionetas do Município a carregar, do centro da capital, toda a parafernália de caixas de cartão, colchões improvisados e sacos de roupa de dezenas de mendigos que ali “habitavam” nas vésperas da chegada do Papa Francisco a Lisboa para as Jornadas da Juventude.

Quando criticado não teve pejo em garantir que esta era uma tarefa habitual e não uma intenção de limpar a cidade para que aquela realidade não fosse vista pelos milhões de pessoas que iriam acompanhar, em todo o mundo, a visita do Papa. Semanas depois tudo voltou “ao normal” e os mendigos continuam espalhados pela cidade com toda aquela tralha à volta.

Ficam as palavras de Francisco quando, nessa visita, chamou a atenção para os problemas dos pobres nos bairros desfavorecidos de Campolide onde visitou lares sem casa de banho, por exemplo. Todavia há quem desconheça que é sempre mais eficaz e higiénico tomar banho do que pôr perfume sobre o suor…

Este episódio veio-me à memória depois de ouvir Carlos Moedas, aos gritinhos, contra o juiz que libertou um indivíduo que estava acusado de ter disparado uma arma, em pleno Rossio, tendo atingido uma turista.

Disse ele: “É inaceitável esta decisão! Além do exemplo socialmente reprovável que se transmite é também um sinal de falta de autoridade para as nossas forças de segurança. Como presidente da capital de Portugal, repudio em absoluto terem libertado um criminoso! Não é só a imagem de Lisboa que fica em causa. É a imagem de Portugal”

E, realmente, a imagem da capital e de Portugal ficaram em causa com as declarações de um “responsável” (digamos assim), que não se coíbe em falar do que não sabe criticando uma decisão judicial sem fazer a mínima ideia das razões que levaram à tomada daquela decisão.

Um advogado que respeito relatou o sucedido: “Houve uns desacatos na Baixa de Lisboa. Houve um tiro que atingiu, casualmente, uma cidadã estrangeira que felizmente está livre de perigo. Em consequência da investigação policial, foi detido um homem que alegadamente estará envolvido nos desacatos e já estava a ser investigado por violência doméstica. A polícia foi à casa dele e apreendeu uma caçadeira. Ninguém lhe imputou até à data a autoria do disparo. Não apreenderam a arma do crime. Em tribunal negou perante um Juiz que tivesse sido o autor do disparo. O MP não propôs prisão preventiva. Nem o podia fazer. Obviamente, o Juiz não a aplicou porque não se verificavam os pressupostos legais. Perante isto, uma pessoa com responsabilidades institucionais, ao escrever o que escreveu, a propósito da medida de coação aplicada, revela apenas irresponsabilidade, imaturidade e ignorância. Nada mais!”.

E dava, como título do texto: “Os burros também vão pró céu”. Se Carlos Moedas acreditasse nisto nem teria investido na vinda do Papa, por desnecessário no seu caso pessoal.

MATEI A GLICÍNIA

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Quando a plantámos, sabíamos duas das suas características:

– Era uma liana invasora. Servia-nos, portanto, bem para se agarrar à vedação metálica e cobri-la dum manto verde.

— Segunda característica: deslumbraria a vizinhança, no momento certo, com os seus vistosos cachos pendentes de florinhas roxas.

Sabíamos, além disso, que simbolizava o amor, o romantismo, a ternura e a longevidade, a flor-da-ternura por via desses seus longos cachos em cascata de tom lilás ou roxo suave.

De origem japonesa, deu-lhe, em 1802, o seu identificador, o botânico alemão Carl Ludwig Willdenow (1765–1812), o nome de Glycine floribunda, inserindo a planta no género Glycine; o botânico suíço, Augustin Pyramus de Candolle (1778-1841), reavaliou, porém, a morfologia da planta e colocou-a correctamente no género Wisteria, que fora criado pelo botânico britânico Thomas Nuttall (1786-1859), actualizando o nome para Wisteria floribunda.

Chamou-se-lhe floribunda, por ser abundante em flores. Aliás, era sabido que, em lugares mais frios, ostenta uma floração exuberante e de cor azul-violeta, com grandes cachos pendentes. Essa proclamada rara beleza ornamental fora o que nos seduzira, não ligando muita importância àquele pormenor dos «lugares mais frios», sabendo nós que vivemos aqui em pleno clima de características mediterrâneas. Ver-se-ia.

E viu-se. Foi nossa companhia durante anos, até há pouco, quando nos apercebemos que abusara do seu enorme poder invasor e estava a atabafar por completo a pobre de roseira que lhe crescera ao lado. Ainda por cima, enganara-nos: eram filamentos e mais filamentos no ar à procura de onde se agarrar e flores… nenhumas!

Anos a fio, era a azáfama de cortar filamentos quase todas as semanas, sem alegria vistosa duma flor, quanto mais de um cacho delas, como nos prometera. Era, seguramente glicínia-macho, pensámos. Mas não: as flores são hermafroditas e viemos a saber qual era o problema: estava imatura, dado que precisa, afinal, de 7 a 15 anos (ou até mais) para florir; estava, além disso, em mau sítio, porque carece de, pelo menos, 6 horas de luz solar directa por dia, para acumular energia suficiente para a floração; e também percebemos que, sem uma poda adequada, realizada duas vezes ao ano (no inverno e no verão), a planta gastava toda a energia em crescimento verde, em vez de criar botões florais.

Decidimo-nos, por conseguinte, pela roseira, que – diga-se de passagem – nos parece que até rejubilou, alvoroçada, assim que se viu mais livre. E logo um botanito vermelho quis desabrochar.

Quando, todavia, íamos proceder ao corte final do tronco, a surpresa sobreveio. E assim compreendemos melhor o que se lera:

«Na linguagem das flores, a glicínia anda associada a um afecto profundo, a um amor apaixonado, devido ao modo como a trepadeira se enrola nos suportes»

É que, de facto, a nossa glicínia estava intimamente enlaçada com o principal ramo da roseira. Abraço terno, dir-se-ia, de mais de uma década, momento a momento mutuamente fortalecido. Admirável forma como duas plantas tão diferentes se souberam unir uma à outra, num amplexo de mútua defesa e sustentação.

Escusámo-nos perante a roseira. Explicámos-lhe que ela nos estava a dar agora uma que outra rosa de vez em quando, devido à inveja que a glicínia lhe tinha, ciosa de tudo quanto era espaço disponível, até atirando ao ar os seus tentáculos na ânsia de mais suportes ainda ter.

Consumámos o sacrifício.

Agora resta-nos esperar que, por simpatia póstuma, a glicínia deixe, serenamente, os seus ramos secarem na sebe. Saudá-los-emos como se estivessem vivos e confiamos-lhes agora os ramos da roseira por florir.  E que a sua feminil sensualidade passe para o perfume das rosas que hão de vir.

A CHOLDRA DOS ADVERSOS

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A Choldra dos Adversos

Nesta pátria de farsa e de elóquio barato,
Onde o político é o rato que rói a nação,
Cospe-se o povo num prato de ingrato,
Enquanto se vende, por trocos, o chão.
É um guaiar de hienas em cira constante,
Uma amena brincadeira de quem não tem brio,
Onde o mentiroso se sente gigante
E o país se afoga num mar de vazio.

Crises sob medida, encomendadas no lodo,
Por ignotos devotos da própria pança,
Bestas lesadas que vendem o todo
A troco de um cargo ou de uma esperança.
Angária imunda! Bestas de fato e gravata!
Em democracias paridas num beco qualquer,
Onde a honra se compra e a decência se mata,
E o povo se verga ao que o mestre quiser.

É toda a merda que cheire menos mal,
Ou mal porque cheira a carcaça e a mofo,
Um fedor que invade este Portugal
Enquanto o bandido se encosta no fofo.
Inovai a real bruma, falécios duma figa!
Cessai o teatro, a desfaçatez e o verso,
Pois não há paciência que vos bendiga
Neste pântano imundo, neste universo inverso.

Longe com as rimas que só nos insultam!
Envergonham as quinas, mancham o brasão!
São ratos de esgoto que as leis consultam
Para encontrar o caminho da nova traição.
Criai o abismo! Cavai a vossa própria cova!
E empurrem para lá cada ismo de estimação,
Cada crata que vive de mama e de prova,
E ide vós também... para a puta que vos pariu a intenção!

Que o precipício vos coma, de um trago só,
E que da vossa carniça não reste memória,
Pois este país já não aguenta ser pó
Nas mãos de quem caga por cima da História.
E depois que o ar limpe do vosso veneno,
Que se erga Portugal, livre desta corja,
Num dia de sol, de futuro sereno,
Forjado de novo em sagrada forja.

Que nasça um Pessoa que nos parta em mil,
Um Régio que grite o "Não!" absoluto,
Um Almada que limpe este povo servil,
Um Pascoaes que arranque o país do seu luto.
Que venham os mestres da alma e do génio,
Varrer a escumalha que o trono ocupou,
Para que o brio não seja um milénio
De algo que a história um dia roubou!

OS TÚNEIS

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Túnel militar da I Guerra Mundial, em França

A ideia de que os palestinianos “fizeram túneis em vez de construir um país” tornou-se um dos argumentos mais repetidos para justificar ou relativizar a devastação da Faixa de Gaza. É uma frase tão repetida, sempre tão igual, que mais parece ser uma reação gerada por algum software. O argumento, porém, ignora um facto elementar da História: os túneis são uma das mais antigas táticas militares alguma vez utilizadas. Não nasceram em Gaza, nem foram inventados pelo Hamas. Acompanham a guerra desde a Antiguidade.

Muito antes da invenção da pólvora, os exércitos já escavavam túneis para entrar ou fugir de cidades sitiadas. Há túneis com mais de 3 mil anos. Durante o Império Romano, as operações de “mina” e “contra-mina” faziam parte dos cercos militares. Na Idade Média, a escavação de túneis era um procedimento comum em praticamente todas as grandes campanhas militares, tanto na Europa como no Médio Oriente.

Na época contemporânea, o recurso ao subsolo tornou-se uma marca das guerras assimétricas, em que uma força muito inferior procura compensar a superioridade tecnológica do adversário. No Vietname, os guerrilheiros construíram centenas de quilómetros de túneis que serviam de abrigo, hospital, armazém, centro de comando e via de circulação, permitindo atacar as forças norte-americanas e desaparecer novamente debaixo da terra.

Túneis de Cu Chi, no Vietname, hoje são atração turística

Na península da Coreia, os túneis desempenharam igualmente um papel estratégico durante o conflito peninsular que levou à criação de dois Estados. No Afeganistão, primeiro os mujahidin e depois os talibãs utilizaram túneis, galerias e complexos subterrâneos para resistir a exércitos muito mais poderosos, protegendo homens e material dos bombardeamentos aéreos. Em Timor-Leste há vários túneis que foram escavados e utilizados pela resistência durante a ocupação indonésia.

O padrão repete-se ao longo da História. Sempre que existe uma enorme assimetria de meios, o lado mais fraco procura explorar o terreno para reduzir a vantagem do adversário. Uns recorrem às montanhas, outros às florestas, aos pântanos ou às cidades; quando essas opções não existem, recorrem ao subsolo. O túnel é uma resposta militar tão antiga quanto a própria guerra.

Japão, os túneis de Okinawa foram bloqueados pelos militares dos EUA no final da II Guerra Mundial e morreram cerca de 2 mil soldados japoneses encurralados. As ossadas foram recuperadas em 1950.

Por isso, afirmar que os palestinianos “fizeram túneis em vez de construir um país” não é uma análise histórica; é um slogan. A questão essencial não é a existência de túneis, mas as condições em que surgem. Ao longo de milhares de anos, os túneis apareceram repetidamente onde um exército ou uma força de resistência enfrentava um adversário militarmente muito superior. Oque se passou em Gaza não constituiu uma exceção a essa regra; é apenas mais um capítulo de uma longa história de guerra subterrânea.

Criticar um movimento político-militar cercado por construir túneis é como censurar um náufrago por construir uma jangada. Uma jangada serve para tentar sobreviver. Um túnel também.

França, Chemin des Dames, onde trinta mil soldados franceses morreram em dez dias de Abril de 1917. Debaixo de terra, as forças francesas e alemãs combatiam corpo a corpo.

TU NÃO ÉS DAQUI

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O homem estava irritado diante do computador. Não com o computador, propriamente dito, mas com o Windows em português. Percebia-se que tentava dar uma ordem à máquina e que as palavras que lhe apareciam no ecrã não ajudavam.
Chamou um empregado. Perguntou qualquer coisa. O empregado respondeu-lhe em português, tranquilamente, como quem já domina aquela pequena geografia de menus, comandos e caixas de diálogo.
O homem insistiu, agora numa língua que eu não percebi, e acabou por dizer, com alguma impaciência:
— English! English!
Foi então que outro homem, que estava ao fundo da loja e que até aí não tinha participado na conversa, comentou:
— English nada. Se ele quiser, que fale português.

Achei graça. Não tanto à situação -que devia ser perfeitamente normal para quem ali trabalha- mas à pequena batalha linguística que acabara de acontecer diante de mim. Um homem que provavelmente veio de muito longe, ou talvez não, a viver em Angola, irritado porque o computador lhe fala português. Um empregado que responde em português. E um terceiro homem que, sem hesitação, estabelece a regra: aqui fala-se português.
Não sei porquê, mas fiquei a pensar naquela frase.

A segunda cena aconteceu no passeio, mesmo em frente, quando saí da loja. Duas mulheres discutiam. Não percebi como a discussão tinha começado. Podia ser uma questão passional. Podia ser dinheiro. Podia ser fruta. Em Luanda, uma discussão que começa com fruta pode rapidamente parecer uma discussão sobre a dignidade humana, e uma discussão passional pode assumir, em segundos, contornos de disputa territorial.
Não quis aproximar-me. Mas passei suficientemente perto para ouvir algumas coisas que foram ditas. As duas mulheres trocavam acusações, cada uma aparentemente convencida de que a razão estava inteiramente do seu lado. Até que, a certa altura, uma delas
disparou para a outra:
— Tu cala-te! Tu tens dupla nacionalidade, angolana e da Namíbia. Tu não és daqui!
E pronto.
A discussão ganhou outra dimensão. Porque, de repente, já não era apenas sobre aquilo que as duas mulheres estavam a discutir. Uma delas tinha acabado de retirar à outra algo muito maior: o direito de ser “daqui”.

PORTUGAL, ASSIM NÃO VAMOS LÁ

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Portugal continua a ambicionar o lugar entre as economias mais desenvolvidas da Europa. Queremos melhores salários, maior bem-estar e empresas capazes de competir nos sectores tecnologicamente mais avançados. Mas dificilmente lá chegaremos enquanto mantivermos uma economia excessivamente dependente do turismo, do imobiliário e de serviços de reduzido valor acrescentado.

Os países que lideram o crescimento económico apostam na investigação científica, na inovação e na indústria. Produzem tecnologia, equipamentos de precisão, produtos farmacêuticos, robótica, software ou novos materiais. São sectores que geram riqueza, exportações e empregos qualificados.

Portugal continua atrasado nesse caminho. O peso da indústria permanece reduzido e o crescimento económico, embora positivo em alguns períodos, continua insuficiente para aproximar o país dos níveis de riqueza da maioria dos parceiros europeus. Sem uma base industrial sólida, a convergência será sempre lenta.

O problema não está apenas na dimensão das empresas. Quem investe procura um sistema judicial célere, estabilidade fiscal e previsibilidade nas decisões públicas. Sempre que essas condições falham, o investimento procura outros destinos.

Ao mesmo tempo, continuamos a formar milhares de jovens altamente qualificados que acabam por desenvolver as suas carreiras no estrangeiro. Portugal suporta os custos da formação, mas o retorno desse investimento beneficia outras economias.

Apesar disso, existem sinais positivos. Algumas empresas industriais portuguesas conseguem competir em sectores de elevada tecnologia e as exportações de produtos como o vinho, o azeite, a cortiça ou os recursos minerais demonstram que o país possui capacidade para criar mais valor. O problema é que estes exemplos continuam a ser insuficientes para alterar a estrutura da economia.

A questão é simples: queremos continuar dependentes de actividades assentes em baixos salários e na procura turística, ou construir uma economia baseada no conhecimento, na inovação e na produção de bens de elevado valor acrescentado?

Essa mudança exige escolhas políticas consistentes. Exige investir na ciência, reforçar a indústria, melhorar o funcionamento da justiça e criar um ambiente favorável ao investimento produtivo. Exige também discutir, sem preconceitos, a utilização dos recursos naturais, conciliando desenvolvimento económico e proteção ambiental.

Sem essa transformação, Portugal continuará a crescer abaixo do seu potencial. O turismo continuará a ser importante, mas dificilmente será suficiente para garantir a prosperidade que o país ambiciona. Sem uma aposta firme na inovação e na produção, continuaremos a adiar a convergência com as economias mais avançadas da Europa.