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A NOTÍCIA SOBRE O ATENTADO CONTRA VIKTOR ÓRBAN

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A notícia da RTP repete uma outra publicada pelo The Washington Post. Diz que esse jornal dos EUA teve acesso a um relatório dos serviços secretos russos onde se equacionava encenar uma tentativa de assassinato contra Viktor Orbán. Os verbos estão no condicional, as fontes são indiretas, e a distância entre o facto e a sua verificação devia ser suficientemente grande para caber lá dentro a dúvida.

Mas o essencial não está nos detalhes do plano. Está no paradoxo que ele encerra. Se a operação alguma vez existiu, deixou de poder existir no momento em que foi publicada. Um atentado encenado não resiste à luz do dia. Se, pelo contrário, nunca existiu, então cumpriu agora a sua única função plausível: entrar no circuito mediático, instalar-se como hipótese, insinuar-se como possibilidade política. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: a realidade foi alterada, não pelos factos mas pela circulação da sua versão hipotética.

O The Washington Post fez aquilo que se  costuma fazer quando se trabalha com informação que não pode ser verificada de forma independente. Não afirma peremptoriamente, protege-se com linguagem cautelosa e fontes qualificadas. Nada de particularmente censurável. O problema é que quando a matéria-prima é opaca, a própria publicação torna-se parte do fenómeno que pretende revelar.

É aqui que entra a RTP. Ao reproduzir a notícia, sem acrescentar mais nada, limitando-se a reproduzir o que foi publicado na origem, mesmo mantendo os verbos no condicional, transforma uma hipótese remota num facto mediático. Não é preciso afirmar que algo aconteceu, basta garantir que foi dito por alguém. Mas é uma fonte suficientemente distante e bastante inacessível. Assim se constrói uma cadeia de credibilização automática: um alegado relatório russo, filtrado por serviços europeus, publicado por um jornal americano, citado por um canal público português. Hollywood não faria melhor. A cada etapa, a incerteza dissolve-se com a perceção criada.

Nota-se que os tempos verbais mudam quando se menciona a “vontade” da Rússia.  Por exemplo: “os serviços de informação russos sugeriram” (em vez de terão sugerido); “sugestão de encenação do assassinato do atual primeiro-ministro húngaro revela o grau de importância que Moscovo atribui às eleições na Hungria” (e não alegada sugestão); “a iniciativa russa surge num contexto de aparente queda de popularidade de Orbán”.

recortes da notícia da RTP

Acresce que nem mesmo o jornal americano viu o tal relatório, tudo é baseado num relato que terá sido confidenciado por uma fonte europeia, pelo que a RTP talvez se tenha precipitado ao publicar isto. Num contexto internacional marcado por guerra híbrida e operações de influência, esta engrenagem faz parte do jogo. A informação deixou há muito de ser apenas aquilo que descreve o mundo; passou a ser uma ferramenta para o moldar.

Confiar num jornal como o The Washington Post não é, em si, um erro. Mas é preciso saber ler. E não embarcar alegremente em manobras de propaganda política.

No fim, ficamos com uma notícia que não pode ser confirmada, um atentado que não aconteceu e uma narrativa que, ainda assim, produziu efeitos. Se o plano era manipular perceções, não é claro que tenha falhado.

UMA LENDA DE AMOR E DE MISTÉRIO

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Hoje ficaremos pelo encantatório domínio da fantasia, onde se mantém, sedutora sempre, a história de uma princesa ou de mourinha encantada, tanto faz. Contada e recontada em noites de serões, a história de Maria Alva, moura ou princesa, permanece viva.

Já foi tema de um filme de António de Macedo, estreado em 1991. Já foi peça de teatro. Já foi tema de livros de criança e de outros livros para adultos com alma de criança. Como esse, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, publicado pela Editora Caminho em 2002 – as Lendas e Segredos das Aldeias Históricas de Portugal.

Muitos dos contadores não deram um fim feliz à história da princesa ou da mourinha que ficara presa numa das torres do castelo, onde as aias iam servi-la sem compreender sua tristeza.

Corria, por longe, a fama da sua beleza e, de onde em onde, apareciam pretendentes. Um dia, a moura ou a princesa mandou dizer aos muitos pretendentes que batiam à porta do castelo: Só caso com quem me oferecer uns sapatos à medida dos meus pés!…

Muitos pares de sapatos chegaram à porta do castelo. Nenhum servia aos pés da moura ou da princesa. E foi então que um príncipe enamorado, vindo de longe, seduziu uma criada a quem pediu o desenho dos pés estranhos da moura ou da princesa. Mas ela nunca vira os pés da Senhora a quem servia, sempre recobertos pela fímbria do manto que cobria.

Um dia, deixou que adormecesse e estendeu, timidamente, uma ligeira poalha de cinza aos pés da cama, que sua Senhora pisaria ao levantar-se. E quando, ao amanhecer, entrou na câmara da princesa, que isso mais parecia ser, viu uns desenhos da passagem de uma cabra e estremeceu, mas não gritou. E levou o estranho desenho ao príncipe enamorado, que não se perturbou e mandou fazer, em segredo pago a peso de ouro, uns sapatinhos à feição do modelo que levava.

Levou três dias, o sapateiro, a satisfazer a encomenda pretendida. E o príncipe, na posse deles, envolveu-os num caro manto de seda e entregou-os em segredo à criada que os foi levar à câmara da princesa, contando do príncipe que os enviara. E quando esta desvela o véu que os cobria, ouve-se um medonho estrondo no castelo e alguém viu rolos de fumo a sair pelas janelas.

A princesa, princesa moura que ela era, em breve descia, serena, as escadas do castelo em passos pequeninos. Veio descalça até à porta e desceu ao chão de terra do jardim, lá onde o príncipe apaixonado a esperava. A princesa contou ao príncipe o encanto que uma bruxa má, um dia, lhe talhara e que ele agora lhe quebrara.

Pediu-a o príncipe em casamento e a festa aconteceu pouco depois. O castelo voltou a encher-se de gente e povoaram-se as casas ao redor. E ali ficaram, felizes para sempre, na cidade que veio a ganhar o nome Marialva.

LEMBRAM-SE DE GAZA?

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Enquanto o mundo está focado na guerra do Irão, Israel voltou a estrangular a entrada de alimentos e ajuda humanitária em Gaza. Há, de novo, centenas de milhar de pessoas a passar fome, muitas delas crianças.

Cada vez mais sozinhos perante um destino que se adivinha cruel, os palestinianos resistem. Mesmo em Gaza, onde tudo foi destruído, onde não há ferramentas para auxiliar o esforço humano, eles estão a tentar não morrer facilmente nem tão depressa quanto Israel gostaria.

Começaram a chegar histórias de agricultores que estão a recuperar as terras agrícolas que Israel bombardeou nos últimos três anos. Todas as quintas foram destruídas, as reservas de água contaminadas, os poços entulhados, Gaza não tem nada, apenas a vontade de viver da população. Grupos comunitários estão a tentar reparar as estufas, as linhas de irrigação e os poços de água. A maior parte das pessoas trabalha de mãos nuas. Mas estão a produzir tomates, beringelas e feijões, ainda em pequenas quantidades. Mas é um recomeço.

Hoje, todos os membros da ONG e de organizações humanitárias que conseguem autorização de Israel para entrar em Gaza, levam sementes nos bolsos. Os palestinianos sabem como transformar essas sementes em vida.

E há gente a cultivar pequenas hortas por entre os escombros, por entre as campas dos seus mortos. Gaza é um dos lugares mais devastados à face da Terra. Mas há sinais de vida.

Durante os dias negros do genocídio, os palestinianos referiram-se muitas vezes a “sumoud”, palavra que se pode traduzir como “espírito inquebrantável” ou “resistência”. Sumoud é a forma como as famílias em Gaza, Hebron, Ramallah, Jericho, Nablus, Bethlehem, Jerusalém, resistem há décadas e como continuarão a resistir, plantando sementes nos escombros da destruição.

ESCREVE COMO QUEM SEMEIA

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Ana Paula Tavares é um dos nomes mais marcantes da literatura angolana, diria mesmo da literatura contemporânea em língua portuguesa, como confirma o reconhecimento maior que lhe foi atribuído com o Prémio Camões em 2025. A sua escrita faz pontes entre passados e futuros, entre vozes femininas e ancestrais , vozes que ela convoca de forma delicada e impactante.
Nascida no Lubango, em 1952, a sua infância foi desenhada pelo silêncio e pelas histórias sussurradas no interior de Angola, onde a tradição oral e a terra se inscrevem profundamente na memória de quem cresce embalada pelo sopro da História. Essa vivência ecoa nos seus versos, onde a paisagem não é apenas cenário, mas corpo vivo e simbólico:

(Poema “Desossaste-me”, em Ritos de Passagem, 1985)

O seu percurso académico conduziu-a à universidade no Lubango onde estudou História, e posteriormente a Lisboa, onde acabou o curso – e fez mestrado e doutoramento- aprofundou saberes e consolidou um olhar crítico sobre o legado colonial e o papel das mulheres africanas. A sua obra poética, marcada por uma linguagem sensível e pela resiliência, resgata vozes silenciadas e reivindica o espaço da mulher enquanto guardiã e transmissora da memória coletiva.
Na sua escrita, o corpo feminino, a natureza e os rituais ancestrais surgem frequentemente como elementos centrais. No poema “A Anona”, por exemplo, a descrição aparentemente simples de um fruto carrega uma enorme densidade simbólica e cultural.

(poema “A Anona”, em Ritos de Passagem, 1985)

Para Ana Paula Tavares, a poesia é um ato de resistência e de feminismo, onde o quotidiano se cruza com a força espiritual das suas ancestrais. Os seus versos evocam a ligação profunda à terra, ao feminino e às narrativas orais que sobreviveram ao tempo, celebrando a herança das mães e avós, mulheres que, mesmo diante do silêncio e da opressão, mantiveram viva a identidade:

(Poema “Canto de nascimento”, em O Lago da Lua, 1999)

Ler, aqui em Angola, Ana Paula Tavares é embarcar por entre rios e savanas, onde o passado sussurra e a esperança se reinventa. Na sua obra, o tempo ampara o esquecimento e as mulheres são fios invisíveis que seguram o mundo. Cada verso é um convite para escutar o murmúrio antigo das vozes que tecem a identidade de um povo.

Termino, com um verso de que muito gosto:

PORTUGAL E ESPANHA, DESCUBRA AS DIFERENÇAS

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O Governo de Pedro Sánchez aprovou um pacote de cinco mil milhões de euros e 80 medidas. Não é subtil: corta o IVA da energia de 21% para 10%, baixa drasticamente a carga fiscal sobre a eletricidade e tira cerca de 30 cêntimos por litro aos combustíveis. Ou seja, intervém.

Em Portugal, a intervenção chama-se expectativa. Em menos de um mês, o gasóleo sobe mais de 40 cêntimos. A resposta do Governo? Um conjunto de seis medidas, cuidadosamente desenhadas para não perturbar demasiado a realidade.

Há, por exemplo, um subsídio de 25 euros para botijas de gás, uma ajuda tão cirúrgica que acerta em quase ninguém. E há uma redução do ISP que consegue o feito notável de existir sem se notar. isto é, o imposto reduz mas o preço do litro continua a aumentar.

Mas a peça mais fascinante do plano português é o chamado “mecanismo de intervenção”. Um instrumento que permite ao Estado agir sobre os preços… desde que o problema atinja proporções suficientemente catastróficas para já não haver muito a fazer. Funciona assim: se os preços dispararem mais de 70% ou ultrapassarem os 180 euros por megawatt-hora, então sim, o Estado poderá intervir. Até lá, observa. Com atenção. E serenidade.

“Não nos precipitaremos”, garantiu o ministro António Leitão Amaro. E percebe-se. A precipitação é inimiga da inação.

A diferença entre Portugal e Espanha não está nos números. Está no reflexo. De um lado, um Governo que baixa impostos para travar preços. Do outro, um Governo que cria condições para agir mais tarde, eventualmente, se tudo correr mal o suficiente.

No fundo, Espanha governa para evitar a crise. Portugal prepara-se para geri-la, quando já for inevitável. Com calma. Sempre com muita calma.

UMA CENA DIFERENTE NAS REDES SOCIAIS

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Alba Muñoz Carbonell e Pedro Freitas

Aquilo que vejo, aquilo que o algoritmo decidiu que eu devo ver, não é mais do que um reflexo imperfeito de mim próprio. Um gesto mínimo, distraído, uma espécie de bater de asas de um “like” e o sistema devolve-me um mundo onde a poesia parece estar por toda a parte. Não sei se é uma tendência ou apenas uma ilusão bem calibrada.

Mas vamos aos casos concretos. Vídeos curtos, enquadramento íntimo, voz baixa. Pedro Freitas começa quase sempre com uma promessa de tradição – por exemplo, Eugénio de Andrade podia ter dito isto ou aquilo – e, a partir daí, constrói uma espécie de ponte entre tradição e o scroll no telemóvel. A poesia deixa de ser página e passa a ser presença: um rosto, uma respiração, um ritmo que se mede em segundos.

Do outro lado, Alba Muñoz Carbonell sussurra. Há qualquer coisa de deliberadamente íntimo na forma como fala, uma proximidade que não existe nos livros, nem sequer na leitura em voz alta tradicional. A poesia aqui não se lê: insinua-se. Quase como se cada verso tivesse sido escrito para um ouvido específico, ainda que, na verdade, seja lançado para milhares.

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Talvez seja isto que mudou. Não a poesia, mas o seu modo de circulação. Já não é o texto que procura o leitor, é o corpo que interpela o espectador. A emoção deixou de ser apenas linguagem e passou a ser também performance, expressão, olhar. E, claro, algoritmo.

E no meio disto tudo, há uma evidência: isto resulta. Há seguidores, há alcance, há dinheiro a circular. A poesia, essa velha arte discreta, aprendeu finalmente a comportar-se como conteúdo. Não sei se ganhou leitores ou apenas audiência.

EPIDEMIA MORTAL

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Na sequência do que se escreveu sobre a mina de pedras semipreciosas em Belas – : https://duaslinhas.pt/2026/03/mina-de-pedras-preciosas-em-sintra/ – dir-se-á que o seu reconhecimento está relacionado com a febre amarela, que grassou em Portugal entre 1858 e 1861.

Esta epidemia foi tão terrível, que se chegou a pensar ser devida a uma conspiração para dar cabo dos filhos de D. Maria II e do nosso Rei-Artista, Dom Fernando von Sachsen Coburg Gotha, seu marido.

No caso do Príncipe Augusto de Leuchtenberg, há bastantes indícios que levam a suspeitar ter havido mesmo intenção de o matar; mas, quanto aos filhos de Dona Maria II e de D. Fernando, a causa das mortes deve ser procurada numa vulgar contaminação, quando não havia eficazes meios de prevenção.

Após a morte dos pais, subiu ao trono D. Pedro V, que casou com Dona Estefânia, uma rainha dedicada ao povo e de enorme boa vontade, deslocando-se aos hospitais de campanha onde se recolhiam os doentes com a epidemia, nomeadamente ao que foi erguido ao lado da Igreja Matriz, em Belas, ou em Torres Vedras, onde grassava outro surto epidémico.

Esta febre, contra a qual não havia remédio nenhum, destacava-se pela rapidez com que uma pessoa adoentada com febres altas morria, num espaço de poucos dias.

Foi assim a Rainha que, bem intencionada, levou a febre de Belas para o palácio em Lisboa, onde seus irmãos a quiseram ajudar e apanharam a febre. Seu marido não a podia ver sequer. A rainha morreu logo (1858), os irmãos um pouco mais tarde, e o rei em 1861.

D. Pedro V e Dona Estefânia

Os mortos de Belas eram enterrados à noite, sem a presença de ninguém, na vala comum que se abriu para este efeito na Quinta da Chicola, uma das seis quintas que meu bisavô adquiriu.

Após os costumados dez anos de descanso, trasladou-se o que restava dos corpos para o novo cemitério de Belas, alguns duzentos metros acima da minha rua, a Estrada Nacional 117.

Através dos padres de Belas, conseguiu minha avó, que nascera aqui em 1885, adquirir umas dezenas destas pedras de jacinto, já sem os anéis, a maioria delas já facetadas.

as pedras de jacinto de Belas compradas pela minha avó

A fim de galardoar quantos médicos e voluntários se distinguiram na luta contra a doença, mormente no apoio aos infectados, aprovou o município de Lisboa, em sessão de 17 de junho de 1858, a instituição de uma Medalha da Febre Amarela. Da autoria de Francisco de Borja Freire, exibia a inscrição “Lisboa Agradecida” e “À Devoção Humanitária”. Teve aprovação real, de modo que passou a ser considerada uma condecoração nacional.

a Medalha da Febre Amarela

Cunhada em prata, apresentava uma alegoria da cidade de Lisboa distribuindo uma coroa de louros. Cunhou-se um exemplar, em ouro, destinado a D. Pedro V, com o qual ele deixou escrito que queria ser sepultado.

(em colaboração com José d’Encarnação)

QUEM VIER ATRÁS…

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imagem construída com IA

Arrastou o mundo para uma guerra, pôs-nos a todos a pagar a sua demência e a sua sede de poder, seja psicológica seja economicamente. De repente, em três semanas, o mundo ficou de pernas para o ar, com os preços a aumentarem exponencialmente e os pobres mais pobres e a classe média já no limiar da pobreza. E agora, a porta perigosa que abriu, quer que seja a NATO a fechá-la. Felizmente, até ver, Alemanha, Reino Unido, Itália, Grécia e Japão não cederam às pressões e ameaças de Trump: ‘O Estreito de Ormuz não será uma missão da NATO’, clarificam.

Ainda assim, o indivíduo prefere o terrorismo legalizado: ou ajudam na guerra com o Irão, ou ‘será muito mau’ para as alianças. Sem vergonha, também pediu ajuda à China que não se disponibilizou para tanto. A Dinamarca disse estar de ’espírito aberto’, mas avisou que os EUA já ‘não são o aliado mais próximo’, sobretudo atendendo ainda às ameaças que fez sobre a Gronelândia.

Todos explicaram que esta guerra é somente americana e israelita. ‘Esta não é a nossa guerra, não a começámos’, afirmou o ministro da Defesa da Alemanha, acrescentando que o país não vai participar militarmente nas operações no Estreito de Ormuz. Além disso, a Alemanha não se vai desviar do objetivo na Ucrânia, objectivo que Trump já está disposto a negociar com a Rússia.

Uma vergonha!! O Mundo está uma vergonha! E ainda mais vergonha se considerarmos as contínuas ameaças a Cuba e ao estado em que está aquele pequeno país.

Enquanto isto, Netanyahu avança por ali fora, numa conquista desenfreada, destruindo tudo e todos, sem que alguém o pare.

Vi, há dois ou três dias, imagens do Irão. A mais antiga mesquita do Mundo foi completamente destruída. Vi imagens de palácios emblemáticos sem os maravilhosos vitrais, como Golestan, da era Qajar, em Teerão. Vi uma cidade património da Unesco, com mais de 30 locais classificados, totalmente desfeita. Onde fica a História? Onde pára a nossa História?

Defensores de Direitos Humanos alertam que a guerra no Irão não só deixou mais de mil mortos, mas também abalou instituições e lugares históricos importantes.

Alguém disse que ‘quando crianças são mortas e vidas humanas estão em risco, algumas pessoas podem pensar: ‘o que importa alguns azulejos ou vidros quebrados?’’. Mas importa. Importa muito porque ‘precisamos de saber quem somos, de onde viemos e o que tudo isso significa’.

Todos os governos recusam envolver-se naquela loucura e defendem negociações e a diplomacia que, evidentemente, os todo-poderosos recusam. Esperavam que o Irão lhes ‘oferecesse’ o Estreito de Ormuz? Como já vinquei muitas vezes, nunca poderei defender o regime iraniano. Mas defenderei sempre a Pérsia e os iranianos que são assassinados todos os dias por loucos.

O governo português esteve do lado dos loucos, ajudou nesta loucura que pode terminar com a destruição de uma boa parte do Mundo e da História. Mas o que sabem americanos e israelitas de História? No caso dos EUA não sobra nada porque destruíram os índios e o que seria a sua História mais antiga. Com Israel é pior: vivem agarrados às vítimas da II Guerra Mundial e, pretensamente, devem andar a vingá-las…

Daqui, parece-me que vão sair muito terrorismo, muitas mortes e muitos horrores. Agora, imaginem que alguém fazia implodir o Mosteiro dos Jerónimos ou o da Batalha, ou a Torre dos Clérigos, para só falar nestes…

AMIGOS DE DITADURAS

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Fotografia sobre um protesto contra a censura no Brasil, em fevereiro de 1968. Na foto: Tônia Carrero, Eva Wilma, Odete Lara, Norma Bengell e Cacilda Becker. O cartoon sobre Trump é de Hélder Dias.

Por estes dias em que o cinema de Hollywood esteve nos leads noticiosos, lembramo-nos de uma história que revela com clareza a colaboração entre a ditadura brasileira e a Motion Picture Association, o organismo norte-americano que zela pelo negócio do cinema de Hollywood. A Motion Picture já naquela época representava os interesses dos grandes estúdios de Hollywood, como Paramount, Universal e Warner Bros. Essa organização, hoje, também representa serviços de streaming, como a Netflix.

Trata-se de uma carta de 1972 enviada por Harry Stone, representante da Motion Picture no Brasil, para o general Nilo Caneppa Silva, o diretor-geral da Polícia Federal em Brasília. Nessa carta, Harry Stone transmite a denúncia sobre um filme brasileiro, exibido em Nova Iorque, com um enredo sobre tortura sofrida pelos presos políticos no tempo do governo Médici, no Brasil.

Ou seja, os filmes exibidos nos EUA e que eram catalogados como incómodos para os regimes amigos, eram alvo de relatórios políticos que eram partilhados com as estruturas repressivas dos regimes ditatoriais amigos.

O general Nilo Caneppa Silva tinha a tarefa de censurar obras de arte. Além disso, chegou a participar de uma detenção ilegal e tortura durante o regime militar, tal como consta na página 917 do relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

referência ao general Caneppa da Silva no relatório da Comissão Nacional da Verdade

Na correspondência com o general Caneppa da Silva, Harry Stone anexou  uma carta em inglês de um representante da Motion Picture nos Estados Unidos chamado J. William Piper, onde se especifica o local onde o filme estaria em exibição, o Carnegie Hall, conjunto de salas de espetáculo, localizado na esquina da 57th Street com a 7th Avenue, em Nova York. 

O filme em questão era “O caso dos irmãos Naves”, de Luiz Sergio Person. A obra narra a brutal prisão e tortura de dois irmãos no interior de Minas Gerais durante a ditadura do Estado Novo, na década de 1930.

Esta carta mostra como o representante dos maiores estúdios de cinema dos Estados Unidos colaborava com os serviços de segurança do estado brasileiro, uma ditadura militar. Serviços de segurança que perseguiam, torturava e matava dissidentes. A “democracia” dos EUA no seu melhor…

TRUMP QUER SER ALBUQUERQUE

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Trump não sabe quando vai terminar a guerra que lançou contra o Irão. Insiste que o objetivo militar é impedir que o Irão consiga fabricar uma bomba nuclear. A guerra só terminará quando esse objetivo for alcançado, pressupõe-se. Mas o “papão” do Irão nuclear é algo que os israelitas propagandeiam há muito tempo. Netanyahu já fala nisso há mais de 30 anos, sempre a dizer que o Irão está “perto” da bomba nuclear. É uma linha discursiva contínua desde o início dos anos 1990, nunca confirmada. Ou seja, sempre desmentida, quanto mais não seja, pelo passar do tempo.

Netanyahu a mentir desde 1992

O Irão não tem armas nucleares, ponto. E por isso está a ser bombardeado por Israel e pelos EUA.

Apesar de semanas de bombardeamentos israelo-americanos, o Irão continua a conseguir bloquear a passagem de petroleiros. Nem precisa de os atacar: basta a ameaça. Num estreito tão estreito quanto estratégico, o simples risco já é suficiente para paralisar armadores, seguradoras e companhias de transporte.

Mas no eco das posições de Washington, a imprensa ocidental parece esquecer alguns detalhes. O primeiro é que o próprio Irão também produz petróleo e o exporta precisamente por ali. O segundo é que, neste episódio, é o Irão que está a ser bombardeado, sem que tenha havido uma agressão prévia que justificasse tal ofensiva no plano do direito internacional.

E há ainda um terceiro detalhe: a interferência no transporte de petróleo não começou agora. Os exemplos são numerosos. Cuba continua sujeita a um bloqueio ditado pelos EUA que impede a entrada de petróleo na ilha. A Venezuela foi alvo de uma agressão militar dos EUA para controlo dos seus hidrocarbonetos. E, em águas internacionais, petroleiros russos têm sido atacados por forças ucranianas com apoio ocidental.

Nada disto costuma aparecer quando se fala de Ormuz. O que mais surpreende é a forma como as notícias surgem hoje: sem contexto histórico, sem memória recente e muitas vezes sem uma verificação minimamente exigente das fontes. O estreito é apresentado como um drama súbito. Quem questiona as razões da agressão israelo-americana ao Irão?

Ao ler os relatos de hoje não podemos deixar de reparar que regressámos ao século XVI, quando controlar um estreito era simplesmente uma questão de canhões, força bruta e ambição imperial. Como se ainda estivéssemos no tempo de Afonso de Albuquerque.