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O CAVALEIRO DO DESPACHO MAIS RÁPIDO QUE A PRÓPRIA SOMBRA

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No vasto e poeirento deserto da governação lusitana, onde os prazos do Plano de Recuperação e Resiliência passam a voar como arbustos rolantes ao sabor do vento, ergue-se uma lenda viva. Mas esqueçam o herói solitário criado por Maurice de Bévère. O Lucky Luke da banda desenhada franco-belga, que disparava mais rápido que a sua própria sombra, não passa de um amador de feira face ao atual primeiro-ministro de Portugal. O nosso herói político elevou o conceito a um patamar metafísico: ele não dispara mais rápido que a sombra; ele governa sob o pânico constante daquilo que a sua própria sombra possa fazer a seguir.

Se o Lucky Luke original perseguia os temíveis irmãos Dalton com uma calma imperturbável, o nosso primeiro-ministro enfrenta vilões muito mais esquivos: as sondagens de opinião, as comissões de inquérito e as terríveis conspirações que a sua silhueta projeta na parede de São Bento quando o sol bate de lado.

A sua sombra, de facto, tornou-se o maior elemento de oposição ao Governo. É uma sombra de esquerda quando ele tenta agradar à direita, e uma sombra de direita quando ele tenta resgatar a esquerda. Em virtude deste tormento visual, o Conselho de Ministros passou a reunir-se na mais rigorosa penumbra. Fontes próximas de São Bento garantem que os candeeiros foram substituídos por velas de baixa intensidade, tudo para evitar que o chefe do executivo confunda o contorno do seu próprio perfil com uma moção de censura iminente.

O fiel corcel desta epopeia já não é o sarcástico Jolly Jumper, mas sim uma imensa máquina burocrática rebatizada de “Consensus”. Trata-se de um cavalo que não galopa para a frente nem recua; limita-se a marchar no mesmo lugar, fingindo um movimento vigoroso enquanto espera pelo resultado de três relatórios independentes e de uma audição parlamentar para decidir qual das patas deve mover primeiro. Sempre que o primeiro-ministro tenta montar, o animal relincha uma nota de rodapé jurídica, lembrando que qualquer avanço carece de consulta prévia aos parceiros sociais.

E assim, enquanto o Lucky Luke da ficção cavalgava em direção ao pôr do sol a cantar “I’m a poor lonesome cowboy”, o nosso herói termina o dia a assinar despachos de urgência para exonerar a sua própria sombra por quebra de confiança política. No final da história, a planície continua igual, o saloon da Assembleia continua barulhento e o primeiro-ministro respira de alívio: o dia terminou e, na escuridão da noite, finalmente ninguém lhe faz sombra.

RICARDO SALGADO FICA EM CASA

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A decisão do Tribunal Central Criminal de Lisboa de suspender o cumprimento da pena aplicada ao antigo banqueiro Ricardo Salgado, devido à doença de Alzheimer de que padece, era já amplamente esperada. Nas últimas semanas assistiu-se, aliás, a uma preparação da opinião pública para este desfecho, através de notícias, comentários e debates que abordaram a questão sob diferentes prismas.

Há quem sustente que de nada serve encarcerar uma pessoa em avançado estado de demência. Outros defendem que a pena deveria ser cumprida não numa prisão comum, mas numa unidade hospitalar prisional. E há ainda quem entenda que o critério agora aplicado a Ricardo Salgado deveria ser estendido a todos os reclusos que sofram de doenças semelhantes.

Nas redes sociais, Paulo de Morais foi um dos primeiros a “saltar da cadeira” quando saiu a notícia sobre a suspensão da pena aplicada a Ricardo Salgado

Hoje, o advogado de Ricardo Salgado, que perdeu sucessivamente os combates judiciais travados em defesa do antigo banqueiro, afirmou mesmo que os julgamentos nunca deveriam ter ocorrido, uma vez que o seu cliente não reunia condições para se defender. Mas os seus advogados reuniam essas condições, não? Francisco Proença de Carvalho acrescentou ainda que situações semelhantes não deveriam sequer chegar a julgamento.

O advogado Francisco Proença de Carvalho diz que Ricardo Salgado pode vir a processar o Estado português por ter sido julgado quando já estava doente

Resta saber se a decisão agora anunciada terá algum efeito em casos futuros. Portugal não é um país em que a jurisprudência tenha, regra geral, a força vinculativa que possui noutros ordenamentos jurídicos. Ainda assim, será legítimo questionar se este entendimento poderá vir a influenciar decisões semelhantes.

Seja como for, o que permanece no espaço público é a sensação de que Salgado acabou por escapar à prisão por ser rico, poderoso e durante muitos anos influente (uma das condenações é por corrupção). A perceção, justa ou injusta, é essa.

E é precisamente aqui que a questão se torna mais incómoda. Ainda há dias, a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso afirmou, em comunicado, estar disponível para fornecer às autoridades competentes os «nomes de largas dezenas de reclusos que sofrem de doença idêntica à que padece Ricardo Salgado (e de outras até mais graves), e que daquela medida deveriam beneficiar, saindo de cadeias absolutamente impróprias para ali habitarem seres humanos, mesmo saudáveis».

Se assim for, o problema deixa de ser apenas Ricardo Salgado. Passa a ser o tratamento desigual de cidadãos que se encontram na mesma condição. Porque uma justiça que reconhece a humanidade de um condenado não pode ignorar a dos restantes.

AMOR DE PERDIÇÃO

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Colheram-me de surpresa as litografias penduradas, seguidas, na parede daquele solar alenquerense. Instantâneos sob o título ‘Inez de Castro’, de legendas escritas à mão, em francês e português. Bem antigos seriam também os quadros em que foram emolduradas.

Senti-lhes o encanto, puxei do sorrateiro telemóvel, não me arrependi. Amantes do vestuário e da moda estudariam, de preferência, as vestimentas representadas, os adereços, o calçado; aos historiadores da sociedade prenderiam a atenção os gestos, as posições, se havia cão ou gato na cena… Epigrafista e paleógrafo me confesso e fui-me às legendas manuscritas.

Reza a primeira o seguinte (dispenso a versão francesa que hoje poucos entenderiam):

Sabendo el-rei Dom Afonso que seu filho casara com Inez enfureceu-se tanto que jurou vingar-se encaminhou-se pois a Coimbra onde assistia Inez para obrigá-la a dissolver essa união e achou-a instruindo os seus dois filhos. Não obstante as ameaças de D. Afonso e sua crueldade não pôde fazer assinar a essa senhora o auto de renúncia que para isso tinha preparado.

Conta a segunda:

Irritado Dom Afonso dessa inesperada resistência concebeu o projeto de mandá-la matar escolhendo para cumprimento três dos mais cruéis inimigos dessa dama os quais aproveitando-se da partida de Dom Pedro para uma caçada se introduziram no quarto de Inez mediante certos domésticos por eles subornados e ouviram escondidos a despedida de Dom Pedro à sua esposa que lhe rogava não a deixasse naquele momento em que tristes pressentimentos a atormentavam. Ele meigou-a brandamente e partiu deixando-a involuntariamente aos golpes dos seus algozes.

Tem por título a terceira:

Falecido Dom Afonso IV, Dom Pedro sendo eleito rei mandou logo buscar os assassinos de Inês um deles fugiu para França mas os outros refugiados em Castela tendo-lhe sido entregues por Pedro-o-Cruel fê-los supliciar ignominiosamente [?] e lançar-lhes as cinzas ao vento. Tornou público o seu casamento declarando seus filhos por sucessores e mandando exumar o corpo de sua esposa ordenou o colocassem sobre um trono cingiu-lhe a fronte com o diadema e ordenou lhe fossem rendidas soberanas honras por todos…

O significado cultural

As litografias estão assinadas por Napoleón Thomas (1804-1879), pintor, ilustrador e litógrafo francês, cuja reconhecida actividade se centrou entre os anos 1830 e 1870. Foram impressas em Paris, «chez BULLA Frères», notável empresa litográfica a que se ficaram a dever imagens que hoje correm mundo. O parisiense François Bulla, cuja actividade se situa entre 1814 e 1855, foi notável gravador, editor de estampas e impressor-litógrafo. Interessou-se de modo particular por litografias ditas “populares”, ou seja, cuja temática poderia recolher a atenção de vasto público. Quando se aposentou, em 1855, sucedeu-lhe seu irmão Antoine e é por isso que, nas litografias de Alenquer, surge a informação «chez BULLA Frères», que permite, portanto, datá-las do 3º quartel do século XIX.

Logo estes dados aquilatam do seu valor intrínseco, porque constituirão, estou em crer, um espólio invulgar no nosso País. O facto de os proprietários do Solar de Pancas as terem adquirido atesta, por seu turno, uma atitude cultural relevante, sendo relevante também – e não de somenos! – o facto de Napoleón Thomas ter escolhido (ou ter sido chamado a desenhar), em Paris, nessa altura, um tema português de significado e ressonância internacional. Ou melhor: um tema que, assim, mais se prova ter largamente ultrapassado fronteiras! Aspecto cultural que não é despiciendo, não!

Aliás, a circunstância de ter havido a preocupação de as legendas serem em francês e traduzidas (e bem, pude verificar!) em português igualmente deve ser aspecto a realçar.

Mantém o solar a cenografia antiga palaciana. A capela familiar, por exemplo, bem cuidada. Livros belamente encadernados nas estantes. Telas antigas, mobiliário de madeira exótica e risco à século XIX… Um ambiente fora deste tempo, para dar solenidade aos eventos que acolher.

Um que outro participante poderá reparar neste ou naquele pormenor decorativo; eu reparei na história da nossa Inês de Castro – e não estou arrependido.

Solar de Pancas

A VALA COMUM E OS FANTASMAS DE 1977

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Quando em Angola se anunciou a descoberta de mais uma vala comum, esta com mais de 500 restos mortais, no Cemitério do 14, em Luanda, percebemos que ali está a prova de um dos muitos episódios sangrentos da história de Angola. Naquela vala podem estar pessoas cujos nomes continuam a atravessar a história contemporânea de Angola e de Portugal. Poderão lá estar os restos de Sita Valles e de José Van Dunem, dois nomes entre milhares de anónimos massacrados em 27 de maio de 1977 pelo regime político angolano. Uma história que a RTP já contou.

Quando Agostinho Neto disse “não vamos perder tempo com julgamentos” ditou uma sentença de morte para dezenas de milhar de angolanos.

Ela era portuguesa, médica, antiga dirigente estudantil em Lisboa, militante comunista formada politicamente no ambiente revolucionário português do pós-25 de Abril. Ele era um dos quadros políticos mais influentes da corrente nitista dentro do MPLA. Casaram-se, tiveram um filho e acabaram executados poucos meses depois do nascimento da criança. Há décadas que as famílias não sabem onde estão os seus corpos.

José Van Dunem
Sita Valles

Mas a história não termina aí. A irmã de José Van Dunem, Francisca Van Dunem, conseguiu escapar ao destino do irmão. Veio para Portugal, estudou Direito, fez carreira no Ministério Público e acabaria por se tornar ministra duas vezes, primeiro da Justiça e depois da Administração Interna, a primeira mulher negra a ocupar uma pasta ministerial em Portugal. Desde sempre que carrega consigo uma história familiar marcada por um drama nunca cabalmente esclarecido.

Há ainda outra figura que liga diretamente a tragédia de 1977 à política portuguesa recente: António Costa Silva. António é um sobrevivente. Foi preso na sequência das purgas desencadeadas pelo regime, torturado e levado perante um pelotão de fuzilamento. O próprio relatou que ouviu os preparativos para a execução e acreditou estar perante os últimos minutos da sua vida. No último instante, a ordem para disparar não foi dada. Décadas mais tarde seria ministro da Economia em Portugal.

António Costa Silva
Francisca Van Dunem

É difícil encontrar um contraste mais impressionante: de um lado, os que desapareceram sem sepultura conhecida; do outro, os sobreviventes que conseguiram reconstruir um percurso de vida.

O jornal Folha 8 tem insistido durante anos que enquanto não forem identificadas as vítimas e abertas as valas comuns, não existe reconciliação na sociedade angolana. A descoberta da vala comum é noticiada pelo jornal como um possível avanço na identificação dos desaparecidos do 27 de Maio.

O que torna esta descoberta particularmente interessante é que ela devolve materialidade a uma história que durante décadas viveu apenas em testemunhos e memórias. Esta vala comum não é um local arqueológico. É um lugar onde podem convergir as histórias de milhares de anónimos que nunca chegaram a ter nome numa lápide.

recorte da publicação em pdf
recorte da publicação em pdf

Meio século depois, a questão não é apenas saber quantos morreram. É saber quem eram, onde estão e porque foram assassinados. A vala do Cemitério do 14 pode não responder a todas essas perguntas, mas é preciso começar por algum lado.

ALENQUER

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A ampla avenida, ladeada de nodosas tílias, deixava antever que o palácio ressumbraria a vidas de há mais de um século. Imaginava-se, ao subir a escadaria, o roçagar de longos vestidos, aperaltados para serões de fidalguia, quiçá.

O primeiro baque veio, porém, daquele inesperado esmalte: ENTRÉE INTERDITE. Uma expressão em francês, senhores, em pleno final da terceira década do segundo milénio, quando, impante, a língua inglesa se arvora em idioma universal! Quem diria? Como era tal possível?Era – porque os proprietários souberam deixar-se prender pelo encanto da tradição, pelo sabor da memória.

No alto da porta que dava para outra dependência, outro esmalte: BAINS. nem «toiletes» nem «WC»! Banhos, à francesa! Numa das portas: HOMMES; na outra, FEMMES. Entra-se, pois, devagarinho, como quem vai penetrar num santuário. Abençoados!

Escusado será dizer que o rodapé dos salões se encontrava revestido a azulejos figurativos, azuis, retratos de cenas bucólicas, na comunhão com a Natureza. Damas e donzelas. Cavalheiros galãs. Outros tempos. Outros ritmos. Outro viver.

Já não é o nosso nem poderá voltar a sê-lo, mas que dá consolo apreciar, isso dá!

Foi no Solar de Pancas em Alenquer, vila que, mui celebrado ‘presépio’, se orgulha de preservar tais tradições. E nós, os de Cascais, precisamos também de não esquecer que a Estrada Nacional 9 – http://hdl.handle.net/10316/31284 – vai precisamente de Cascais a Alenquer, a vila onde, com bastante frequência, a Corte Régia procurava repousar.

CONVERSA DE CAFÉ

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Comecei a prestar atenção a partir daqui…

– Vês, não és alentejano. – diz um. E continua: Não é por aí, olha, para te resumir a coisa, onde estão os cabrões dos políticos quando é necessário melhorar a vida das pessoas nas vilas do interior? Onde estão, quando é necessário tratar da água para se beber? Onde estão, para facilitarem a vinda de empresas para este interior? Onde estão, para não permitirem o cultivo intensivo de espécies que não têm água para rega e a vão retirar às pessoas? Onde estão, se não para autorizarem o enterro de toneladas e toneladas de desperdícios da azeitona nos subsolos para contaminarem as poucas águas subterrâneas que existem e informam que ainda, por lei, há espaço para mais? Onde estão, quando é necessário repavimentar as estradas no Alentejo que se encontram cada vez mais miseráveis? Onde estão, quando queremos sinal na rede dos telemóveis em tantos e tantos quilómetros no Alentejo, até em todo o país, mas cá, a autoridade para as telecomunicações, serve para alguma coisa?

Pausa para recuperar fôlego.

– Escuta, exemplo, se vens de Ourique e vais para Odemira… sentes que estás a ter qualquer anomalia na tua saúde, um AVC, ou o carro avaria, ou até tens um acidente. Experimenta telefonar a pedir socorro. Onde é que está o sinal no telemóvel? Ficas apeado ou morres a esperar por socorro. Olha, lembraste, há dias, comecei a falar contigo, só uns dois ou três minutos e perdeste a rede. Porquê? Onde estão os políticos quando necessitamos de centros de saúde melhor equipados? E escolas melhoradas? E agências bancárias que não pensem só no lucro e não nos façam andar dezenas de quilómetros para tratar de um assunto qualquer? E delegações das finanças? Onde estão os políticos de pacotilha, que cortam orçamentos para a saúde, para o ensino, para as autarquias e… agora sou venenoso, os dão ao Moedas, porque vale mais uma pedra da calçada na Praça da Figueira, do que o Alentejo todo, diz-me.

Um segundo a matutar…

– Onde está a dotação financeira para o desenvolvimento desta província? E os projectos que lhe deviam caber para o seu desenvolvimento, onde estão? É só secar o aeroporto de Beja? É à custa deste interior que vive todo o litoral? Até nem é esse dito todo, porque afinal, o que conta para o país, é só Lisboa e Porto! O país é pobre, é? É! Só em algumas regiões? Ou devem ser consideradas todas por igual? Porque é que Lisboa, por exemplo, não larga a região do vale do Tejo, a área de Setúbal? É que ao orçamento geral de Lisboa, interessa em conjunto com a região de Setúbal? É que a região de Setúbal, não interessa aos Setubalenses, é? E agora, ó alentejano de adopção, o que me dizes?

Silêncio.

ANTÓNIO VIDIGAL

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José Saramago, na obra Todos os nomes, refletiu de forma magistral sobre a forma como somos “inscritos” enquanto seres humanos, lamentando o modo absolutamente incompleto como este registo é feito e, sobretudo, continuado, já que o que fica é meramente um nome, eventualmente imutável, e alguns dados como certas datas, não ficando guardada a evolução dos rostos e muito menos as muitas experiências porque todos passamos ao longo da vida. Para a Conservatória, o indivíduo resume-se a um nome e a algumas datas, ignorando-se a complexidade da vida, das experiências e das emoções que verdadeiramente definem cada pessoa.

António Vidigal e as suas obras

É precisamente contra essa simplificação que surge a exposição de retratos de António Vidigal, atualmente patente na Academia Nacional de Belas Artes em Lisboa, afirmando-se como um gesto de resistência e valorização da identidade humana na sua dimensão plena.

A obra de António Vidigal propõe, assim, uma alternativa ao anonimato burocrático, transformando o retrato escultórico num espaço de memória, experiência e tempo. Em vez de fixar apenas um momento ou uma aparência, as suas esculturas procuram captar a essência do retratado: aquilo que este viveu, sentiu e construiu ao longo da vida.

António Vidigal – Dulcina Carvalho, 1967 (bronze)

Assim, cada peça torna-se uma representação viva, onde a identidade não é estática, mas antes o resultado de um percurso. Ao contrário de uma abordagem meramente naturalista, que se limitaria à reprodução fiel de traços físicos, Vidigal desenvolve uma relação próxima com os seus retratados. Muitos pertencem ao seu círculo íntimo, como os seus filhos, ou ao seu universo de amizades, o que permite uma profundidade emocional e uma compreensão mais rica das suas características. Essa proximidade traduz-se em retratos que ultrapassam a aparência, revelando traços marcantes e identitários, mas sem jamais cair na caricatura.

António Vidigal – Retrato dos filhos António, 1967 (mármore); João. 1993 (bronze); Frederica. 1985 (bronze); Luísa 1990 (madeira)
António Vidigal – José Cândido. 2010 (bronze); Natália Correia Guedes. 2025 (gesso); Joaquim Lima de Carvalho. 2025 (gesso)

Mesmo em trabalhos por encomenda, onde a intimidade poderia ser menor, o escultor procura sempre captar o âmago do retratado. Exemplos como os retratos de Eunice Muñoz ou de Ruy de Carvalho demonstram essa capacidade de ir além da representação superficial, explorando dimensões mais profundas da personalidade.

António Vidigal – Eunice Muñoz, 2022 (jesmonite); Ruy de Carvalho. 2022 (jesmonite)

Dois aspetos fundamentais atravessam toda a obra de António Vidigal: a constante vontade de se desafiar e a experimentação. Desde a sua formação académica, o escultor optou por caminhos mais exigentes, recusando soluções fáceis e procurando sempre expandir os limites da sua prática. Um exemplo disso é a realização de retratos em talhe direto na pedra, processo complexo que exige grande domínio técnico. A experimentação estende-se também aos materiais e técnicas. Vidigal explora uma grande diversidade de suportes — barro, madeira, mármore, granito, bronze, entre outros — tirando partido das suas qualidades expressivas.

António Vidigal – Artur Barreto, 1974 (gesso patinado); Isabel Azevedo, 1961 (mogno); Luísa Constantina, 1985 (mármore negro)
António Vidigal – Garcia de Resende. 2013. (granito rosa e bronze)

Do ponto de vista estético, a obra de Vidigal não segue uma linha única. Cada retrato determina a abordagem adotada, podendo variar entre o naturalismo e a depuração formal. Em alguns casos, aproxima-se de uma tradição realista; noutros, opta por uma simplificação das formas, eliminando elementos acessórios para destacar o essencial. A obra de António Vidigal afirma-se como uma reflexão sobre a identidade humana, recusando reduções simplistas e valorizando a complexidade de cada indivíduo. Tal como sugere Saramago, o verdadeiro sentido está na busca e é essa procura persistente que define o trabalho do escultor: um esforço contínuo para captar, através da escultura, a essência daqueles que retrata. A terminar cite-se, mais uma vez, o supramencionado escritor quando afirmou «[…] que o que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca e que é preciso andar muito para alcançar o que está perto.»e é exatamente este o longo percurso de António Vidigal, tão somente retratar os que lhe estão perto…

A POLÍTICA SIONISTA E O JORNALISMO SERVIL

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Quem vê um, vê todos. Média pró Israel em uníssono.

Depois de centenas de testemunhos fidedignos de médicos internacionais que prestaram serviço humanitário em Gaza e que relataram esses casos, depois de inúmeros testemunhos de vítimas, homens, mulheres e crianças palestinianas violadas nas cadeias israelitas, depois de todas as evidências que provam as práticas genocidas dos militares israelitas em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano, na Síria… os média continuam a dar tratamento favorável às declarações políticas de Israel, numa clara desigualdade editorial face ao outro lado do conflito, o lado onde está a maioria das vítimas das atrocidades cometidas por combatentes.

O anúncio do rompimento das relações “com o gabinete do secretário-geral da ONU” é de uma hipocrisia monumental, quando estamos a seis meses de António Guterres terminar o seu derradeiro mandato na ONU.  

Hipócrita porque Israel sabe bem que a decisão de incluir um país numa lista de ofensas aos direitos humanos nunca é tomada pelo Secretário-Geral. Essas deliberações são coletivas e resultam do trabalho de órgãos intergovernamentais compostos por Estados-Membros, com destaque para o Conselho de Direitos Humanos da ONU. Estamos a falar de um órgão sediado em Genebra, o principal órgão político intergovernamental da ONU nesta área. É composto por 47 Estados-Membros eleitos pela Assembleia Geral da ONU.

Neste âmbito, Guterres não manda nem desmanda. Não vota nem veta. O Secretário-Geral não tem o poder de sancionar países. O seu papel concentra-se em chamar a atenção dos órgãos competentes para situações de crise que coloquem em risco a paz mundial, e em preparar relatórios com base nas informações recolhidas pelos peritos e comités.

Mas é mais fácil para Israel fulanizar a questão, dar rosto a um “culpado” pela denúncia dos crimes cometidos contra os palestinianos e outros povos de países vizinhos.

É uma estratégia conhecida. Quando os factos se tornam difíceis de contestar, procura-se criar um novo elemento distrativo. Quando a acumulação de evidências se torna demasiado pesada, cria-se um alvo para concentrar indignação fabricada. O problema é que António Guterres não é o autor dos testemunhos, não é o autor das perícias médicas, não é o autor das investigações independentes nem é o responsável pelas vítimas que relatam abusos. O secretário-geral limita-se a ser o portador institucional de conclusões produzidas por mecanismos internacionais. Ah! Também não é lacaio dos sionistas.

É muito preocupante a forma como uma parte significativa dos meios de comunicação social continua a reproduzir esta inversão narrativa. Nos títulos, Israel surge frequentemente como a parte ofendida que reage a uma injustiça. As acusações que motivaram essa reação ficam para segundo plano, quando não desaparecem por completo.

É esta inversão que ajuda a compreender porque razão, apesar das sucessivas denúncias de organizações humanitárias, dos relatos de sobreviventes e das conclusões produzidas por organismos internacionais, a perceção pública do conflito continua tão distante da dimensão humana da tragédia vivida pelos palestinianos. Em demasiados casos, a notícia deixa de ser o sofrimento das vítimas para passar a ser a irritação dos algozes.

‘FUMES’: O PERIGO ESCONDIDO NOS AVIÕES

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Cada vez com mais frequência há notícias de problemas com aviões devido aos ‘fumes’, o perigo invisível. E têm-se multiplicado episódios similares, sobretudo em aeronaves Airbus de última geração.

Todavia, aparentemente, só alguns estão preocupados com isso. Talvez se espere um acidente grave, com mortos e feridos, à semelhança do que sucedeu com o elevador da Glória, em Lisboa, em Setembro de 2025, que acabou na morte de 16 pessoas e a consequente investigação por crimes de homicídio por negligência e violação de regras de segurança. Os visados são os responsáveis da Carris e da empresa MNTC, que estava subcontratada para fazer a manutenção do elevador.

Mas, afinal, o que são os ‘fumes’? Na aviação, o termo refere-se à presença de gases ou vapores contaminados no interior da cabine da aeronave.

Estes podem ter origem nos motores do avião ou no sistema hidráulico. Afectam passageiros e tripulação, com sintomas como dores de cabeça, tonturas, irritação nos olhos ou garganta e náuseas, além da sensação de falta de ar, desconforto abdominal, palpitações, desequilíbrio, alterações da sensibilidade, visão turva, dificuldade de concentração, mal-estar e/ou cansaço.

É que o ar respirado nos aviões entra através do motor. O óleo aquecido e outras substâncias podem verter no sistema do ar condicionado. A alta pressão e tudo misturado com o ar é ‘enviado’ em micropartículas libertando gases tóxicos.

A TAP afirma que eventos desta natureza têm, habitualmente, uma duração limitada e cingem-se à perceção de ‘um cheiro pouco habitual em determinado momento no voo’, que pode ser mais frequente na descolagem ou na aterragem.

Recentemente, um avião da TAP aterrou de emergência no aeroporto de Orly, em Paris, devido a um episódio de ‘fumes’ na cabine. O comandante decidiu interromper a viagem e divergiu para o aeroporto francês.

A aeronave saíra do aeroporto de Lisboa às 18:34 horas em direcção a Frankfurt, na Alemanha. Duas horas depois, às 20:23, quando sobrevoava a capital francesa, a tripulação declarou emergência.

Vejo nas notícias que os sindicatos continuam a queixar-se. Vítor Pelado, do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil, explicou que não há um ‘sistema normalizado’ para detecção de ‘fumes’, sendo que ‘depende apenas do sentido de cheiro de quem está a bordo’.

E esclareceu: ‘Esse é o alerta, sendo que é muito falível por várias razões. Nós ficamos rapidamente dessensibilizados aos cheiros, porque cada pessoa sente da sua forma e, portanto, não é um sistema infalível’.

O sindicalista preconiza que ‘o ideal seria que, no longo prazo, a indústria pudesse caminhar para aeronaves que não utilizem este princípio de funcionamento, em que o ar respirado nas cabines é extraído dos motores’.

Sim, o sindicalista preconiza, mas tudo continua na mesma e o perigo invisível para quem viaja continua a existir, sem que os responsáveis manifestem preocupação.

Claro que estas questões são tratadas ‘ao nível do risco’ e avaliadas pela percentagem de ocorrências. Dito de outra maneira, quantas vezes sucedem, em que equipamentos e quais as eventuais acções tomadas pela tripulação de voo. Tudo isto é reportado às companhias para que a situação seja corrigida, tendo em vista os riscos existentes.

Teorias e teorias. Até…

O LIMOEIRO

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Durante anos, o limoeiro do meu quintal deu um limão por temporada. Um único. Esquisito, disforme. Feio, coitado: nem verde nem amarelo, coberto de cicatrizes acastanhadas.

Perguntei-me sempre se seria do solo ou se o limoeiro, sábio à sua maneira, sentiria que para azeda basta a vida e que um limão era suficiente.

Fosse porque fosse, ali continuava ele, teimoso, a dar o seu fruto anual, como se assim justificasse as regas, os cuidados e o pedaço de chão ocupado.

E estava eu prestes a cortá-lo quando uma vizinha me disse que o segredo era simples: bater-lhe. Isso mesmo. Segundo ela, os limoeiros gostam de ser postos na ordem.

– Dê-lhe com um pau. Mas com força. Olhe, aproveite quando estiver marafada com alguma coisa. Uma pessoa alivia e eles aprendem.

A princípio, não sei se por não acreditar no remédio milagroso ou por pena da pobre árvore, ignorei a sugestão. Mas um limão? Um único? É muita falta de consideração. Não há como não levar a peito tamanha desfeita. E, vai de lá, num dia menos bom, mais por impulso do que por convicção, acabei por seguir o conselho. Primeiro, umas pancadinhas hesitantes, mas depois…

Tomei-lhe o gosto e, nos últimos meses, não há crise de mau feitio que não acalme com umas boas pauladas. Se foi por isso ou não, não sei, mas este ano parece outro. Enlouqueceu. Tem mais limões do que folhas. Frutos enormes, brilhantes, amarelos e perfumados. Nunca tinha dado para mais do que um mísero chá; agora, são às dezenas – centenas, talvez. Não falta cá por casa limonada, lemon curd, limoncello, bolos, tartes e tortas de limão, mousses e gelados, tudo polvilhado com umas raspas, claro está…

Diz o povo que não há fome que não dê em fartura, que quanto mais me bates mais gosto de ti, que quando a esmola é muita o santo desconfia… E eu fico a olhar para esta abundância e pergunto-me: será esta uma forma de demonstrar obediência? Um gesto tardio de afeto? Um desabafo vegetal? Um ataque cítrico em resposta às tareias? Haverá algum mecanismo de defesa arborícola que transforme trauma em vitamina C? Ou terá a humanidade andado a subaproveitar uma técnica agrícola de enorme eficácia e baixo custo?

Ah, se ao menos eu fizesse parte da brigada da gratidão… agradeceria mais e questionaria menos.