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UMA BALA “PERDIDA”, talvez…

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imagem descritiva construída com recursos de IA

Votamos, sim, mas quase nunca para autorizar governos a envolver o país em guerras alheias. Em campanhas eleitorais, ninguém promete dificuldades, sacrifícios ou crises, mas, no entanto, é precisamente isso que acaba por definir as experiências governativas.

Também a justiça, dito pilar central do Estado de direito, está longe de ser o garante absoluto que imaginamos. As custas judiciais funcionam muitas vezes como barreira de acesso, e os próprios agentes do sistema não estão imunes a pressões políticas nem à moldura legislativa produzida pelos que governam. A ideia de uma justiça plenamente isenta é, no mínimo, discutível, mesmo em regimes democráticos.

E aquilo que tomávamos como conquistas civilizacionais sólidas revela-se, afinal, reversível. Os direitos à autodeterminação sexual, por exemplo, enfrentam hoje recuos legislativos em Portugal.

Se alargarmos o olhar, o problema ganha outra escala.

O país que durante décadas foi apresentado como “farol da democracia” mostra sinais de captura por oligarquias com poder financeiro suficiente para comprar tudo: da indústria do armamento à produção de drogas legais, das televisões globais às redes sociais, passando inevitavelmente pela esfera política. Foi nesse ecossistema que emergiu uma figura como Donald Trump, financiado pelos oligarcas americanos Musk, Bezos, Zuckerberg, McMahon, entre outros.

O mundo vive hoje uma espiral de violência e um desequilíbrio crescente nas relações internacionais. Trump não é apenas um sintoma, é um acelerador desse processo: um líder errático, que combina extorsão política, desinformação sistemática e culto da sua própria imagem. Ainda assim, chefes de Estado e de governo continuam a curvar-se perante exigências arbitrárias, normalizando o que antes seria politicamente impensável. Primeiro-ministros como o espanhol Pedro Sanchez são uma raridade absoluta.

Se não for travado internamente pelo Congresso dos EUA ou por uma bala “perdida”, não será surpreendente que arraste o mundo para um conflito de escala global, sobretudo se se convencer de que pode enfrentar potências como China ou Rússia e sair vencedor.

QUE GENTE É ESTA?

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bombardeamentos de Israel/EUA em Tabriz, Irão

Israel e os Estados Unidos persistem numa lógica de destruição que já não tentam sequer justificar.
Em Gaza, a chacina continua. Multiplicam-se mortos e feridos, todos os dias. Paulatinamente, as infraestruturas civis continuam a ser sistematicamente reduzidas a escombros. Já não há escolas nem hospitais nem habitações. O mesmo padrão está a ser repetido no Líbano e no Irão.

O mundo observa em silêncio, em complacência, ou numa impotência que já não serve de desculpa. Entre os líderes europeus, salvo raras excpções, expõe-se uma pobreza de pensamento que bloqueia qualquer ação consequente e os torna politicamente cegos perante sucessivos indícios de crimes de guerra.

É obsceno ver Benjamin Netanyahu invocar o direito internacional para condenar ataques de retaliação iranianos, ao mesmo tempo que ignora o rasto de destruição que as suas próprias decisões produziram: a devastação de Gaza, a escalada no sul do Líbano, os bombardeamentos sobre áreas urbanas no Irão, as vítimas civis que daí resultam.

Perturbador é também o silêncio da chamada comunidade internacional. Que lideranças são estas, incapazes de reagir perante corpos despedaçados de crianças? Que gente é esta que permite a normalização da barbárie? Um dia haverá prestação de contas. Quando lá chegarmos não haverá complacência com eles.

vídeo

Este vídeo do Crescente Vermelho do Irão mostra o resultado de um ataque aéreo a uma zona residencial em Tabriz que resultou na morte de um pai e dos seus dois filhos pequenos.

Neste vídeo comovente, trabalhadores humanitários resgatam dos escombros os corpos das três vítimas, duas delas crianças, Mahan e Mahour, que morreram com o pai.

BODYCAMS NA GUARDA PRISIONAL

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Tanto quanto conseguimos apurar, o projeto para a implementação de bodycams na PSP e GNR continua a registar atrasos. Depois de uma década de discussões e indecisões, o processo foi aprovado mas tem havido impugnações judiciais a atrasar a sua implementação.

Em janeiro de 2026, o Governo aprovou o orçamento de 6 milhões de euros para a aquisição das câmaras, mas a coisa terá de ser decidida respeitando as regras dos concursos públicos que, pelos vistos, ainda nem sequer foi lançado.

O projeto prevê que apenas a PSP e a GNR venham a utilizar este equipamento, ficando de fora a Guarda Prisional. Quando o sistema prisional é frequentemente alvo de acusações de violência sobre os reclusos, as bodycams poderiam ser um fator de mediação dos conflitos que se geram no interior dos estabelecimentos prisionais, evitando-os ou esclarecendo-os.

NOS STATES

A utilização de bodycams por guardas prisionais está em fase experimental nas prisões do Idaho, nos Estados Unidos. Segundo um depoimento de um recluso, publicado no site Prison Journalism Project  as bodycams “ajudam a moderar os ímpetos, tanto dos guardas como dos detidos”, disse o recluso Cody Fortin.

As declarações deste recluso podem ser sintetizadas assim: os guardas que usam bodycams tornam-se mais mais simpáticos, mais prestativos e mais profissionais. Também os reclusos moderam atitudes quando sabem que aquilo que fazem ou dizem está a ser gravado de perto pela câmara corporal do guarda.

No mesmo artigo, um guarda prisional presta declarações anonimamente. Diz ele que vê “as câmeras corporais como um meio de responsabilização”, uma ferramenta de trabalho que irá ajudar a separar o trigo do joio, uma vez que  “guardas que são mais maliciosos e que tendem a antagonizar os reclusos, em vez de usar as táticas de resolução de conflitos e desescalonamento de tensões, ficarão mais expostos”.

EM PORTUGAL

Perguntámos ao Presidente da Associação Sindical de Chefias do Corpo da Guarda Prisional, Hermínio Barradas, o que pensava sobre a utilização de bodycams no interior das prisões.

Numa curta troca de perguntas e respostas via email, este dirigente sindical admitiu que a utilização das bodycams pode ser um fator de inibição de violência, ao mesmo tempo que poderia complementar os meios de segurança nos estabelecimentos prisionais. A opção do governo pela videovigilância (CCTV) é insuficiente para garantir a segurança nas cadeias, Hermínio Barradas diz que  “o CCTV é um meio complementar/auxiliar/passivo de segurança, e compreende na sua natureza a existência de equipas de reacção para responder a “alarmes”. Como se sabe não existe efectivo para os serviços mínimos quanto mais para constituir equipas de reacção/resposta. Apenas serve para esclarecimentos pelo visionamento de imagens”.

ISRAEL VIGIA INIMIGOS EM TODO O MUNDO

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Anna Ukolova é militar israelita e porta-voz das IDF. Ou seja, é uma voz autorizada pelo Governo israelita. O que ela diz tem importância, até porque, supostamente, ela diz aquilo que o Governo quer que seja dito.

Há dias, Ukolova disse à rádio russa RBC que se as autoridades russas desejarem o “mal de Israel” poderiam estar sujeitas a “eliminação”, à semelhança do que aconteceu, por exemplo, com a liderança do Irão ou com os comandantes do Hamas e do Hezzbolah.

A porta-voz militar israelita alertou que “a eliminação de Khamenei mostra que as nossas capacidades são reais” e que “ninguém que nos queira mal será deixado de lado.” Acrescentou, ainda, que  “espero que Moscovo não deseje mal a Israel neste momento, gostaria de acreditar nisso.” Não há maneira de fazer uma ameaça mais direta.

O Governo da Rússia não reagiu a isto, mas Alexander Dugin, acreditado como conselheiro de Putin, usou as redes sociais para lançar o alarme.

Depois disto, surgiram notícias sobre a utilização de um software controlado por uma empresa israelita que faz a gestão das câmaras de vigilância urbana. Trata-se do BriefCam, um software que está espalhado por muitos países, em todos os continentes.

Alarmados, os media russos dizem que o BriefCam é utilizado em muitos sistemas de vigilância, tanto em empresas privadas como em organismos públicos da Rússia. Através deste software, é possível tratar em poucos minutos informação contida em horas de gravação vídeo.

Desenvolvido pela Universidade Hebraica de Israel, o software foi implementado pelo Ministério do Habitação e Construção de Israel para proteger colonatos ilegais na Cisjordânia. Neste momento é amplamente utilizado por governos e empresas em todo o mundo, incluíndo forças policiais.

Em 2025, um tribunal francês considerou que o uso do BriefCam pelo governo era ilegal, citando múltiplas violações das leis de privacidade francesas e europeias. O governo francês tem sido desgastado por escândalos relacionados com o uso de tecnologias de espionagem, de tal modo que o Presidente Emmanuel Macron ordenou investigações sobre o uso desses softwares.

Terá sido através de imagens captadas por câmaras de vigilância de rua que os militares israelitas souberam qual a casa onde Khamenei tinha entrado. Minutos depois, os mísseis foram lançados.

ASSIM ESCREVEU LAURA PULQUÉRIA

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Assim se apresenta Laura Pulquéria Militão Santos, a autora.  Como saber se foi a seu pedido, ou se por indicação do fotógrafo, que este retrato saltou para a capa…

A abrir o livro, lida a Ficha Técnica no verso da primeira folha, no fundo da página uma nota cuja pertinência vamos descobrir à distância de um folhear, “Esta obra é uma reprodução do original manuscrito com o acordo da autora”. A partir da terceira folha entende-se o porquê da referência, surge-nos o fac-símile do caderno de Laura Pulquéria.

A surpresa estimula a leitura entusiasmada das páginas preenchidas pela poesia popular da autora, que é clara ao descrever-se, “Tenho álma de puéta/alguém em mim encarnou,/sêi a quilo que sinto/mas não sei a quilo que çôu.” Embora explique porque escreve, “D[e]us para me destrair/deume esta vucação, (…)”. E como surge a inspiração, “De noite ao deitar/custame adermeçêr,/dai nasçe a pôizia/para de dia escrever.”

Laura Pulquéria escreve sobre Pintéus, a terra onde nasceu a 23 de março de 1931, cresceu, casou, formou uma família e criou os filhos, viveu e morreu. A sua escrita traduz o empenho e prazer de alguém que frequentou a escola e guardou  a elementar aprendizagem como um tesouro. Usou esse tesouro ao jeito de preciosa ferramenta, fixando no papel  a tradução do que via e pensava. A leitura da sua escrita exige (quase) o mesmo empenho que se coloca aos paleógrafos, perante alguns desafios de escrita mais impenetrável. Mas, acredito!, do lado da autora a escrita terá sido leve e fluida, em cascata. Escreveu sobre o que conheceu e estimou, sobre as mudanças que viu acontecer na sua terra e que lhe provocaram sentimentos, lembra o que foi e já não é, mas também lembra a vida tão difícil da sua meninice e a de seus pais. Uma escrita que é um legado.

O local e a data, o espaço e o tempo, abrem  o caderno de memórias, “Pintéus Lôures 1991”. Ficamos situados. E para que não restem dúvidas, continua, “Istôrias da minha térra / é minha rrecurdação / ficão iscritas purmim”, assinando “Laura Militão”, sobre desenho de linha ondulada. Logo abaixo, obliquamente e numa escrita ascendente, surge o seu nome completo “Laura Púlquéria Militão Santos”, um arrojo gráfico que termina em sublinhado parcial, pleno de atitude. Fico a pensar se esta linha não marcará a conclusão do seu caderno…

Os 31 títulos atribuídos pela autora surgem no topo da folha do caderno, acima da mancha pautada. Quando a escreve, o que é raro, é também nesse espaço que coloca a data. No dia 23.9.1995, escreveu, e esta é a data mais recente que deixa.

Com exceção de um que ocupa 3 linhas, por norma os títulos são curtos. Na grande maioria refletem o respetivo conteúdo, mas também acontece surgirem breves, como é o caso de “1994”, com a particularidade de esta data ter sido usado duas vezes como título. Curiosos e enigmáticos são igualmente os dois títulos alfanuméricos, ou seja,  “Antigo Pádeiro 49” e “U soldado da minha terra/70 Faleceu em Moçambique em defêza/da Pátria. | Faleçeu em 23-1-1971”. A leitura não dá pistas para o entendimento quer do “49”, quer do “70”…

Eis a sequência dos títulos: “U mistério da Naturêza”; “Istória do Paláçio de Pintéus”; “Estória da Noça Senhora da Aprezentação.”; “Us grandes Artistas”; “Patriacha 1863”; “as maiores cheias”; “Lavandeiras em Lisbôa”; “o que meu coração sente.”; “A vida antiga”; “Os Carrosêiros”;  “A vélha suçiadáde”; “O carnabál á antiga”; “Mais tarde”; “Inaguracão da nó(-va) Capelinha 6.9.1992”; “No meu tempo de Escóla”; “Antigo Pádeiro 49”; “Pinteus 5.9.1993 a nóva imagem do nosso Pôuvo.”; “Obras na Capelinha 1994”; “1994”; “Sábado 9.9.1995 ináguraçao do Altoistráda”; “23.9.1995”; “19. Novembro. 1955”; “U soldádo da minha terra/ 70 Faleceu em Moçambique em defêza/da Pátria. | Faleçeu em 23-1-1971”; “A rozeira Murcha/Um dia enraizôu.”; “A minha maneira de sêr”; “O siclónio”; “A Lua”; “As régas na hórta”; “O carrosêiro a caminho de Lisbôa”; “Os rapazes e os pátos”.

O livro foi-me disponibilizado pelo Centro de Documentação Anselmo Braamcamp Freire (CDABF), do Museu Municipal de Loures, em 2024. Procurava, então, informação sobre Pintéus, povoação hoje na esfera da União de Freguesias de Santo Antão e São Julião do Tojal. Laura Pulquéria foi a “parceira de trabalho” que não esperava, uma ajuda na leitura da muito alterada paisagem local. Paisagem no sentido de território com o seu conteúdo, sua ocupação e utilização, e não as suas imagens óticas,  como aprendi lendo Ilídio Alves de Araújo. Precioso auxílio, os testemunhos sobre a construção da autoestrada, sobre o desaparecimento das azenhas. Acompanhou-me na localização de troços, até agora não sinalizados, do aqueduto de Santo Antão do Tojal. Na compreensão do caminho percorrido pela estrutura que em tempos conduziu a água das nascentes de Pintéus para a povoação de Santo Antão do Tojal e para o palácio e quinta que D. Tomaz de Almeida, 1º Patriarca de Lisboa, estabeleceu, com magnificência, nas primeiras décadas do séc. XVIII, neste território, então, exclusivamente rural.

Um caderno de imagens e memórias sobre um território que guarda marcas materiais e imateriais, que se procuram. Esteve muito bem a autarquia local de maior proximidade.

Pintéus

ISALTINO BOM GARFO

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O Ministério Público acusou o presidente da Câmara de Oeiras e outros 22 arguidos de peculato e abuso de poder. Em causa estão refeições que terão sido pagas indevidamente com dinheiro da autarquia. Gastos de 150 mil euros em refeições pagas pelo município, durante os mandatos autárquicos de 2017-2021 e de 2021-2025, totalizando nestes períodos mais de 1.400 refeições pagas com dinheiro da autarquia.

O procurador defende a perda de mandato de Isaltino Morais e dos restantes autarcas visados, pedindo também que o presidente da Câmara de Oeiras devolva 70 mil euros, individualmente, e mais 79 mil euros, solidariamente, em conjunto com os restantes arguidos.

Portanto, ao longo de dez anos, Isaltino e demais autarcas consumiram 150 mil euros em refeições. O Presidente da Câmara Municipal de Oeiras recusa qualquer ilegalidade. Diz que quando recebe um outro autarca, por exemplo, que organiza um almoço de trabalho onde engloba a comitiva visitante, por vezes, uma dúzia de pessoas, número que não surpreende até porque sabemos que Isaltino não deixa ninguém sem comer, incluindo motoristas.

Vamos fazer contas. Se dividirmos os 150 mil € pelas 1400 refeições, dá qualquer coisa à volta dos 107 euros por fatura. Quantas pessoas comeram em cada fatura? Não sabemos. Mas, vamos imaginar uma média de 4 comensais por refeição, dá um gasto individual de pouco mais de 26 €. Não acho muito.

Ah!, mas algumas foram de lagosta e lavagante!, acusam os invejosos. Outras terão sido de frango assado, digo eu.

As imagens que acompanham este artigo foram retiradas de vídeos onde o Presidente da Câmara de Oeiras promove os restaurantes do concelho

Só almocei uma vez numa mesa onde estava Isaltino Morais. Eramos 4 ou 5, sentados numa mesa no gabinete do vice-Presidente da Câmara, se a memória não me falha. As refeições foram encomendadas por telefone a um restaurante de Oeiras que as entregou no local. Foi um almoço de trabalho. Não me lembro do que comi. Não sei quanto custou ao erário camarário. Não cometi a indelicadeza de perguntar…

PORQUE VER NÃO É SABER

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Ver a fome dos outros

Há qualquer coisa de profundamente enganadora na forma como hoje nos relacionamos com a informação. Nunca vimos tanto e, ainda assim, raramente compreendemos o suficiente.
Não é uma questão de falta. É precisamente o contrário.
Vivemos numa lógica em que a informação deixou de ser apenas isso e passou a ser consumo. Circula, acumula-se, substitui-se. Como tudo o resto. Não há tempo para fixar, porque tudo foi desenhado para não ficar.
O gesto é sempre o mesmo: deslizar.
E, nesse movimento contínuo, instala-se uma ideia confortável, a de que estamos atentos ao mundo. Que sabemos. Que acompanhamos. Mas aquilo a que chamamos ver é, muitas vezes, apenas reconhecer fragmentos que nos são servidos de forma rápida, organizada e, acima de tudo, selecionada.
Porque esta ilusão de totalidade não é neutra.

Vivemos numa estrutura onde a própria circulação da informação está integrada numa lógica económica, uma lógica que transforma tudo em conteúdo, tudo em fluxo, tudo em algo passível de ser consumido. Até o sofrimento. Até a injustiça. Até a urgência política.

E é precisamente aqui que importa ser claro: nunca tivemos tanta liberdade de acesso à informação, nem tanta possibilidade de participação. Hoje, qualquer pessoa pode falar, publicar, mostrar. Isso é, em si, profundamente transformador e deve ser defendido.
Mas essa liberdade não existe fora de um contexto. E é esse contexto que importa olhar.
Porque aquilo que parece abertura total é, muitas vezes, uma circulação orientada. O que vemos, quando vemos, como vemos, tudo isso acontece dentro de uma dinâmica que privilegia velocidade, impacto e retenção, não necessariamente compreensão.

E quanto mais participamos nesse fluxo, mais ele se intensifica.
Este excesso, que à primeira vista se apresenta como emancipador, funciona também como um mecanismo de alienação. Não porque nos esconda o mundo, mas porque o transforma numa sequência contínua de estímulos que não se deixam aprofundar.

Ver a guerra lá longe

Sem tempo, não há pensamento. Há reação.
Saltamos de tragédia em tragédia, de indignação em indignação, com a sensação de que estamos politicamente despertos, atentos, envolvidos. Vemos guerras, crises, violência, tudo à distância de um gesto. Tudo reduzido à mesma superfície.

E é importante ver. Não se trata de defender ignorância, nem de propor qualquer tipo de proteção face ao real. O problema não está no acesso, está na forma como esse acesso é estruturado.

Porque este modelo não aprofunda a consciência. Muitas vezes, dilui-a.
Quando tudo é urgente, nada permanece. Quando tudo nos chega, nada se organiza.
Há uma espécie de anestesia que se instala, não por falta de sensibilidade, mas por excesso de exposição. Como se o mundo inteiro passasse por nós sem realmente nos atravessar.

E, ao mesmo tempo, confundimos cada vez mais informação com entretenimento, como se fossem coisas distintas.
Mas talvez nunca tenham sido.
Há sempre uma mediação. Uma escolha. Um enquadramento invisível que decide o que aparece, em que ordem, com que intensidade. Mesmo aquilo que nos parece caótico já foi organizado antes de chegar até nós.

E é aqui que a fronteira se dissolve, aquilo que consumimos para nos distrair é, muitas vezes, o mesmo mecanismo que estrutura aquilo que pensamos saber sobre o mundo.
Não é novo, é apenas mais sofisticado.

Mudam os formatos, mantém-se a lógica: captar atenção, reter atenção, orientar atenção. Do espetáculo coletivo às formas mais íntimas de consumo individual, há sempre uma dimensão de direção. Uma narrativa implícita.

E isto não significa que não mereçamos leveza, descanso, alegria. Significa apenas que nada disto existe fora de relações de poder.

A televisão não desapareceu, fragmentou-se. As redes sociais não são uma rutura, são uma intensificação. O ecrã mudou de forma, mas a lógica permanece.
E, no meio disso, vamos acreditando que escolhemos tudo. Que vemos tudo. Que sabemos.
Mas talvez estejamos apenas a percorrer, vezes sem conta, os limites de um mesmo circuito.

E talvez seja por isso que a contradição se torna cada vez mais evidente: acreditamos que estamos mais informados do que nunca, quando, na prática, estamos cada vez mais afastados de qualquer entendimento sólido.

Saber exige outra coisa. Exige tempo, contexto, continuidade. Exige conflito com aquilo que lemos. Exige parar.
E parar, hoje, é quase um gesto político.
Talvez por isso faça sentido regressar, não por nostalgia, mas por necessidade, a formas mais lentas de informação. Ao que não é imediatamente substituível. Ao que foi pensado para durar mais do que alguns segundos de atenção.

Ver a manipulação das perceções

Porque no momento em que tudo se torna consumível, até a informação, até a dor, até o próprio posicionamento político, também nós entramos nessa lógica. Consumimos o mundo enquanto nos distraímos com ele, convencidos de que estamos a compreendê-lo.
Mas não estamos.
Estamos, muitas vezes, apenas a assistir à sua versão mais circulável.
E essa pode ser a forma mais eficaz de alienação: aquela que se apresenta como consciência.

Porque ver não é saber.
E estar exposto a tudo não é o mesmo que estar verdadeiramente atento ao mundo.

CRIME DE LESO PATRIMÓNIO

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Boa parte das dificuldades da sua interpretação resultam do ‘crime’ de se tentarem avivar as letras com tinta. Normalmente, é operação levada a cabo por quem não percebe o que lá está escrito e pinta como lhe parece bem. Aliás, o procedimento a ter seria, sim, de limpar suavemente a superfície epigrafada e fazer diversas fotos com diferentes ângulos de luz, para que os sulcos de letras bem se evidenciassem. Nada de sugerir letras que, amiúde, lá se não encontram e tudo isso causa confusão.

Veja-se a inscrição que ocupa a arquivolta do portal ocidental da igreja matriz de Santa Maria Maior, de Valhelhas.

 É um texto em latim, cheio, porém, de siglas e de abreviaturas, que, para mais, tendo sido pintadas, dificultam a interpretação.

Os caracteres apresentam bem grosseira mescla de módulos capitais e cursivos e dá-nos a impressão de que o letreiro até terá sido mui atabalhoadamente gravado, já estando no sítio os blocos da arquivolta. E mais atabalhoadamente foi avivado. Veja-se, a título de exemplo, o gracioso M inicial, a contrastar com o outro que significa ‘mil’ e tem por cima o sinal ondulado a explicar que se deve ler como sigla também.

Lemos:

Bem visto o cuidado de se dever interpretar a data como pertencendo à era de César, pois que será apenas por carta régia d’el-rei D. João I, datada de 2 de agosto de 1422, que em Portugal se adoptará a era cristã. Assim, 1222 corresponde a 1184,  ano em que ainda reinava D. Afonso Henriques, que viria a falecer no ano seguinte. Estamos, consequentemente, perante um templo primitivamente românico, mesmo dos primórdios da nacionalidade.

Magius (por Maius) é forma do latim popular. De certeza que não terá sido gravado o 2 em algarismo árabe antes do X, afigurando-se curioso que assim se possa ter querido informar que se devem ler duas vezes a letra X. Alicia-nos, claro, a ideia de, em vez de dois X, o artista se haja divertido como que a esclarecer «olhem que são dois X!». Merece-nos atenção a grafia da palavra ecclesia, porque nos parece haver um anexo alto LE e o actual rabisco poderá corresponder a um A bem cursivo ou às três letras SAI, que se não tenham conseguido ler.

Também o final causou dificuldade ao pintor. Crê-se que a palavra correcta seria SACRATA, para dizer que a igreja fora ‘sagrada’, ‘consagrada’. O que, todavia, se lê é são e do, havendo a possibilidade de o d ser ct – o que daria sancto (por sancta).

Anotem-se, por conseguinte, as interpretações que diferem da que estamos a propor.

Escreveu Alípio Rocha a Monografia de Valhelhas (Coimbra, 1962). Na página 171, copia do Portugal Antigo e Moderno, de Pinho Leal (volume X, 1873, p. 159), a seguinte leitura:

Copia também a tradução: «Esta igreja foi sagrada no mês de março de 1200». E faz-se eco da explicação dada por Pinho Leal: «Esta data deve ser do ano do nascimento de Jesus Cristo; e não da era de César, que então correspondia ao ano de 1162, época em que esta terra estava despovoada».

Ana Penisga e Cláudia Pinto, da empresa Clay Arqueologia, no artigo intitulado «Uma intervenção em Valhelhas e o seu enquadramento geral na prática da Arqueologia Preventiva» (Praça Velha 48, 2025, pp. 251-267), lêem, na pág. 257:

Traduzem: «(Esta igreja foi sagrada no mês de Maio de 1224)». Acrescentam que «esta data referir-se-ia, possivelmente, ao ano do nascimento de Cristo e não à era de César, que corresponderia ao ano de 1224».

Enfim, o que estes “crimes de leso património letreiro” nos encanzinam!…

Mas sem problema: o recado está dado e, mal ou bem, é perceptível: foi no mês de Maio do ano 1222 da era de César (1184 da era cristã) que o primitivo templo em honra de Santa Maria Maior abriu as suas portas ao culto. O que depois, ao longo dos séculos, ali se passou, é outra história para contar, até porque outra inscrição, também ela avivada a tinta, está numa parede lateral à nossa espera!

(em colaboração com José d’Encarnação)

Angola como outro Israel

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Há poucos dias, num almoço, enquanto se discutia os impactos da presente guerra, uma angolana na minha mesa, comentou algo como “a única coisa que agradeço a Salazar é o não ter permitido Israel instalar-se aqui no Planalto”.
Este foi a gatilho para passar grande parte do fim-de-semana a pesquisar sobre assunto (mais uma vez, um assunto de que sabia pouco) e para escrever este artigo.

Angola como hipótese esquecida para um Estado judeu

No início do século XX, quando o antissemitismo se intensificava na Europa e o movimento sionista ainda não estava plenamente consolidado em torno da Palestina, surgiram propostas alternativas que hoje soam altamente improváveis.
Entre elas, uma ideia pouco conhecida: a possibilidade de Angola, então colónia portuguesa, acolher colónias agrícolas judaicas – ou até mesmo servir de embrião para um Estado judeu fora do Médio Oriente.

Entre o sonho territorialista e a realidade colonial

A corrente conhecida como “territorialismo” ganhou expressão com a criação em 1903 da Jewish Territorial Organization (ITO), liderada por Israel Zangwill. Ao contrário do sionismo dominante, que apontava para a Palestina, esta organização defendia a criação de um território seguro para judeus em qualquer parte do mundo disponível.

membros da Jewish Territorial Organization, Basileia, Suiça, 1905

Fontes históricas confirmam que vários territórios foram considerados – incluindo regiões na América do Sul, África e Ásia. Angola surge nesse contexto como hipótese, sobretudo pela sua extensão territorial, bom clima e potencial agrícola. Mas também por laços históricos muito antigos – afinal até houve judeus enviados para Angola pela inquisição.

Angola nas margens das alternativas

Entre 1907 e 1914, a ITO considerou Angola como possível destino, estabelecendo contactos junto do governo português para concessões de terra para colonatos judaicos. Há um relatório e chegou a haver debates no parlamento português.


Alguns políticos argumentavam que havia grandes benefícios (especialmente económicos e demográficos) para Portugal.
Entre 1912 e 1914 a ideia perde força. Parece que o grande ponto de discórdia era saber se a colónia em Angola seria um colonato judeu sob a égide de Portugal ou se seria um Estado judeu independente. A questão nunca chegou a ser clarificada e com o início da Primeira Grande Guerra o assunto é esquecido.
Durante as décadas de 1910 e 1920, o movimento sionista consolidava-se cada vez mais em torno da Palestina, especialmente após a Declaração Balfour. Ainda assim, alternativas continuaram a ser procuradas. Há registos de contactos esporádicos entre representantes judaicos e autoridades portuguesas, mas não há evidências de negociações formais ou planos concretos na década de 20 especificamente para Angola.

Steinberg e a última tentativa concreta, ainda que exploratória

A iniciativa mais consistente foi liderada por Isaac Nachman Steinberg, fundador da Freeland League for Jewish Territorial Colonization. No final da década de 1930, sob a sua liderança, a organização chegou a incluir Angola entre os territórios objeto de contactos e negociações diplomáticas.
Steinberg terá desenvolvido contactos com o governo português, propondo a instalação de dezenas de milhares de judeus em colónias agrícolas autossuficientes em Angola.

23/05/1939.Isaac Steinberg

Foram elaborados alguns documentos que previam o desenvolvimento agrícola, infraestruturas e instituições comunitárias, mas não se conhece um “Plano Angola” detalhado e estruturado, como chegou a haver por exemplo para a Austrália (Kimberley Plan, 1939).
Ainda assim, a ideia chegou a ganhar alguma atenção internacional, mas a conjuntura política europeia, a hesitação de Lisboa, receosa de críticas internacionais e de impactos internos em Angola, e a preferência da maioria dos movimentos judaicos pela Palestina ditaram o seu fracasso.

O papel de Salazar: prudência, controlo e recusa implícita

Qualquer análise deste episódio exige olhar para António de Oliveira Salazar, que então chefiava o regime do Estado Novo. Salazar mantinha uma política colonial profundamente conservadora e centralizada. Angola era vista como espaço estratégico do império, e qualquer projeto de colonização autónoma, sobretudo envolvendo populações estrangeiras organizadas, levantava grandes reservas: receio de perda de controlo político sobre o território; medo de pressões internacionais; preocupação com equilíbrios raciais e sociais na colónia; alinhamento diplomático cauteloso num contexto europeu instável.

Embora não haja registo de uma rejeição formal pública detalhada, a postura do regime foi de contenção e bloqueio indireto, o que levou ao abandono da iniciativa.

Entre passado e presente: ecos numa geopolítica em tensão

Olhar para estas propostas esquecidas ganha nova relevância à luz dos acontecimentos presentes. O Estado de Israel, criado em 1948, tornou-se o centro político e simbólico da identidade judaica contemporânea, mas também um dos epicentros de conflitos.
A violência atual mostra que, mais de um século depois, as questões que motivaram o territorialismo permanecem dramaticamente atuais.

A diferença é que, enquanto no início do século XX se procuravam territórios alternativos como Angola, hoje o conflito está profundamente enraizado numa geografia específica, onde história, religião, política e dinheiro se entrelaçam num verdadeiro nó górdio.

Angola como outro Israel: uma distopia possível

E se Angola tivesse acolhido, nas décadas de 1930 ou 1940, dezenas de milhares de colonos judeus organizados em cooperativas agrícolas? É possível imaginar um planalto central transformado num mosaico de kibutzes tropicais, com cidades emergentes onde hoje há savanas e a língua hebraica a ser ensinada nas escolas.
Nesse cenário alternativo, a criação de Israel em 1948 talvez não tivesse sido o único polo de atração – ou, num cenário ainda mais radical da história, poderia até nunca ter ocorrido nos mesmos moldes. Angola tornar-se-ia, assim, um improvável centro da diáspora judaica, com ligações culturais e económicas profundas à Europa e às Américas, mas também atravessada ainda mais por grandes tensões.
Num presente distópico, os ecos da guerra na região a que chamamos de Médio Oriente deixariam de ser distantes para ressoar diretamente em solo angolano. Os ataques do Irão, ou de outros atores, não se limitariam a Faixa de Gaza ou aquela zona geográfica, mas poderiam atingir infraestruturas e comunidades judaicas em África. Angola, nesse mundo alternativo, seria um território caracterizado pela coexistência entre atividades agrícolas e dispositivos de segurança. E nem consigo imaginar como teria sido o processo de Independencia …

O papel do acaso

A ideia de Angola como destino para um Estado ou colónia judaica pertence ao domínio das possibilidades históricas e não dos projetos concretizados. Ainda assim, revela algo muito curioso: num mundo marcado por perseguições, migrações e grandes incertezas, a geografia política não é um facto imutável. Muito pelo contrário, não raras vezes resulta de circunstâncias, escolhas e oportunidades, por vezes, quase do acaso.

FILHOS DE IMIGRANTES TRAZEM OURO E PRATA PARA PORTUGAL

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Enquanto três atletas afrolusitanos conquistavam ouro e prata em campeonatos do mundo de atletismo, André Ventura discursava em Budapeste, num comício de Viktor Orbán, para anunciar, sem surpresa, que “não queremos mais imigrantes”.

Enquanto os três subiam ao topo do pódio, envoltos na bandeira portuguesa e ao som do hino, Ventura falava, não para portugueses, mas para húngaros.

Enquanto os nomes de Agate Sousa, Gerson Baldé e Isaac Nader ocupam capas de jornais, aberturas de telejornais e manchetes de rádio, o outro limita-se hoje ao seu habitat natural: as redes sociais, onde a política se reduz a ruído e repetição.

Nada de novo nas palavras de Ventura. O mesmo guião gasto: o estrangeiro como ameaça, a aldrabice sobre os abusos no RSI, a mentira transformada em argumento político.

Mais interessantes são as palavras dos atletas. Falam de orgulho. De representar um país. Um país que, olhando bem, talvez não os mereça.

No fim, sobra o contraste, indecoroso, entre os que correm, saltam e vencem por Portugal, e os que precisam de inventar inimigos para ter alguma coisa para dizer.