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O MÉDICO INGLÊS

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fotomontagem de fotogramas de vídeo

Nick Maynard é medico, cirurgião, professor em Oxford, um profissional muitíssimo considerado em todo o mundo, uma pessoa disponível para ajudar quem mais necessita dos seus conhecimentos. É por isso que esteve já muitas vezes no Médio Oriente, em momentos de conflito e pós-conflito. Conhece bem Gaza. Fez um relato terrível à TRT, o canal internacional de notícias turco que tem dado uma atenção especial ao que Israel anda a fazer.

vídeo

O QUE MAYNARD DIZ NO VÍDEO

Maynard começou a ir até Gaza e à Cisjordânia no ano de 2010. Deu aulas nas faculdades de medicina palestinianas, conhecia bem a realidade que se vivia tanto nos territórios ocupados como na Gaza cercada, onde só entrava quem Israel autorizava. Mas nada o preparou para o que se ia passar, depois de outubro de 2023.

O relato deste médico inglês é chocante. “Podíamos sentir o cheiro a queimado”, “vi bebés mortos com tiros na cabeça”. Lembra-se das noites passadas na sala de operações, dos bombardeamentos que atingiam o hospital enquanto decorriam intervenções cirurgicas para salvar sobreviventes, do número de crianças vítimas daquela violência à solta que tudo destruiu. Lembra-se do chão do Hospital Al-Aqsa coberto de corpos, uns mortos outros ainda vivos, do sangue, dos gritos, do desespero coletivo.

Diz calcular que 75% das vítimas que viu serem crianças e mulheres. Não encontra nada que justifique esse facto nem qualquer razão para os hospitais terem sido destruídos total ou parcialmente.

Na memória ficou-lhe o caso especial de Habiba, uma menina de 11 anos, que chegou ao hospital com o peito desfeito pelo rebentamento de uma bomba.

Passou horas com aquela criança no bloco operatório, reconstruiu o esófago da menina e ela sobreviveu à cirurgia e teria condições para recuperar. Mas Habiba morreu de fome quatro semanas depois.

As declarações de Nick Maynard são dirigidas contra Israel, pela matança direta nos bombardeamentos e a ação de snipers contra civis, pelo bloqueio de alimentos, pelo bloqueio de medicamentos, pelo bloqueio de tudo que pudesse contribuir para evitar mais mortes.

Críticas que englobam todos os governos que nada fizeram e nada fazem para obrigar Israel a cumprir com a Lei Internacional ou com preceitos civilizacionais.

as valas comuns em Gaza

“FUCK CHEGA” DISSERAM ELAS

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Fuck Chega. Não são duas artistas a provocar gratuitamente um partido português. Houve ali uma atitude política coerente, uma recusa bastante frontal da ideia de que os artistas devem ser inofensivos, neutros e cuidadosamente embalados para não incomodar ninguém.

Fuck Chega. O palavrão também faz parte da linguagem. O fascismo não costuma regressar de casaco preto, braçadeira e passo de ganso. Muitas vezes apresenta-se de fato e gravata, fala em «segurança», «ordem», «identidade nacional» e «vontade do povo». Talvez por isso seja difícil combatê-lo com palavras excessivamente educadas.

Fuck Chega. Vivam Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Luís Cília, Manuel Freire e Francisco Fanhais. Naqueles tempos, a palavra era trabalhada, havia a censura prévia da PIDE, as prisões do regime fascista. A palavra era poesia, a música era arma da resistência contra o regime do Estado Novo. Com jeito, driblava-se a censura prévia através de metáforas e mensagens subliminares: “eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada…”

Fuck Chega. O verdadeiro escândalo é termos chegado a um ponto em que uma frase de confronto consegue causar mais perturbação do que aquilo que, diariamente, vai sendo dito e normalizado na política.

Fuck Chega. Dizer isto não é nada demais para quem comunica através deste género de música a que os entendidos chamam “garage punk” em versão “punk feminista” aka “riot grrrl”. As coisas que se aprende quando temos de pesquisar para escrever uma crónica…

Fuck Chega. A palavra bruta mais as  guitarras agressivas, muita bateria, canções curtas e intensas, uma atitude deliberadamente confrontacional, letras sobre misoginia, violência sexual, homofobia, desigualdade e política. Não é propriamente o rock clássico, nem o punk ortodoxo dos Sex Pistols, é algo mais modernaço mas que recupera muito da tradição punk: barulho, irreverência, provocação e intervenção política.

Fuck Chega. Um episódio para recordar durante muito tempo, orquestrado por uma banda formada em Brighton, Inglaterra. Onde terão ido elas buscar o nome Lambrini Girls?

Agora, a versão vídeo desta crónica:

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Se o YouTube não vos deixar ver o vídeo, experimentem o X:

A SINFONIA DA PREGUIÇA

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Há uma orquestra que só toca no verão. Não sei onde se esconde durante o resto do ano. Talvez se desmonte peça por peça. Ou, talvez, quem sabe, continue a tocar baixinho, abafada pelo ruído dos dias apressados. Em agosto, porém, ouço-a refastelada, a bater o compasso com as pálpebras pesadas.

A abrir o concerto, o naipe dos sopros, com o piar entediado das gaivotas. Depois, a brisa, a empurrar a cortina que roça pelo chão. Ao longe, os clarinetes trazem-me vozes difusas. Conversas que se perdem antes de chegar até mim.

Entra então o mar, pelas cordas. O marulhar vai e vem, sem pressa, indiferente ao mundo, como se não soubesse o efeito que produz. Mas sabe. Sabe perfeitamente. Há qualquer coisa de blasé naquele ir e vir, ir e vir, no ondular ad infinitum da mesma nota perfeita.

Depois do almoço+, entra a percussão. O som miúdo da água da piscina. E, a sustentar a melodia, o pulsar das cigarras. Os tímbalos vibrantes e o calor em harmonia.  Eu, entre o sono e o sonho. Em transe.

O adágio demora-se. Ainda mais lento. Quase sem dar por isso, o meu respirar encontra o da cadela adormecida a meu lado. Sobe o peito dela, sobe o meu. Desce o dela, desce o meu. E, nesse movimento sincronizado e manso, deixo-me levar. É ela que me adormece.

Quando acordo, a luz já mudou. A tarde começa a cair e as cigarras deram lugar aos grilos. Entram as cordas, de novo, mas agora mais finas, mais espaçadas, num som que parece vir de todos os lados e de lado nenhum. Depois, o violoncelo. Uma nota grave e longa.

Fico deitada mais um pouco, a ouvir. Estamos a meio do verão. Ainda falta o segundo andamento desta  sinfonia da preguiça. Mal posso esperar.

O EXÍLIO DA INTELIGÊNCIA (Jorge de Sena)

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fotomontagem

O exílio de Jorge de Sena foi a consequência inevitável de uma inteligência que recusava rebaixar-se à bitola da mediocridade nacional. Ao trocar a engenharia civil em Portugal pelas cátedras universitárias nas Américas, Sena não procurou apenas a sobrevivência, mas o oxigénio intelectual que o Estado Novo lhe negava.

No Brasil e, mais tarde, nos Estados Unidos, a sua carreira académica atingiu uma dimensão internacional fulgurante, transformando o engenheiro emparedado pela censura num dos mais respeitados ensaístas da sua geração. Contudo, esta consagração carregou sempre uma ironia amarga e tipicamente seniana.

Enquanto as prestigiadas universidades americanas disputavam a erudição do mestre, o Portugal burocrático e tacanho que o escorraçara continuava a preferir a segurança dos seus imbecis diplomados à incómoda altivez do génio. Sena brilhava no topo do mundo académico e sofria na solidão cultural do estrangeiro, mas a sua maior vingança contra a pátria foi provar que o “reino da estranheza e da estupidez” continuava exilado de si próprio, orgulhoso da sua própria ignorância enquanto os outros o aplaudiam de longe.

Como preâmbulo a esse afastamento físico, e no seu tom profundamente desmistificador de falsos heroísmos, ergue-se uma das suas composições mais célebres e fundamentais, escrita em Lisboa a 25 de junho de 1959, escassas semanas antes da sua partida. Intitulado “Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, o poema diz o seguinte:

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue.”
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Se esta mensagem a Goya assume um tom trágico, ético e profundamente humanista, a distância geográfica consolidada nas Américas fez brotar, nos anos seguintes, uma linguagem radicalmente diferente. No que toca à sátira direta à mentalidade portuguesa e à distância imposta pelo exílio, destaca-se a sua vertente poética mais mordaz, escrita a partir da década de 60, onde Sena destila o seu sarcasmo contra os intelectuais e o regime que ficou em Portugal.

Nos poemas onde se dirige aos “bem-comportados” que ficaram a pastar na segurança do regime salazarista, a sátira atinge o estatuto de cirurgia a sangue frio. Sena não chora a pátria com a brandura dos nostálgicos; ele ridiculariza-a. Do alto das suas cátedras americanas, o poeta lança farpas venenosas contra a “inteligentzia” caseira que, em Lisboa, competia por migalhas de prestígio oficial enquanto fingia uma resistência de salão.

Com versos curtos e uma dicção deliberadamente prosaica — despida de qualquer lirismo —, ele destrói o mito do “bom português”. Sena acusa os seus contemporâneos de terem transformado o país num condomínio de cobardes meritórios, onde a sobrevivência dependia da capacidade de baixar a cabeça e de aplaudir a mediocridade geral.

A sua poesia satírica do exílio torna-se, assim, um espelho deformante devolvido a Portugal: mostra que, enquanto ele padecia de uma solidão geográfica real, os que tinham ficado sofriam de uma castração mental voluntária. Para Sena, o riso sarcástico era a única forma digna de não ceder ao ódio nem à autocomiseração.

MORREM DOIS EM VALE DE JUDEUS

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Em 48 horas morreram dois reclusos no Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus. Segundo fonte interna desta cadeia, as duas mortes poderão estar relacionadas, uma vez que nos dois casos existirão evidências semelhantes na sintomatologia clínica. Nas duas situações, os reclusos apresentaram problemas intestinais agudos, nomeadamente diarreia.

No passado dia 14, um recluso ainda jovem “sentiu-se mal, com problemas intestinais graves, e os Serviços Clínicos encaminharam-no para o Hospital de Vila Franca de Xira”, diz a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso, em comunicado.

No dia 16, um outro recluso, mais velho, morre na sequência de um crise semelhante. Neste caso, a APAR limita-se a constatar na sua página no Facebook que “um homem com mais de setenta anos, amputado de ambas as pernas, detido no Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus, morreu na sua cela, na madrugada do passado domingo, horas depois de ter regressado de uma saída jurisdicional (vulgo precária).”

A confirmarem-se as coincidências de crises agudas de diarreia nas duas situações, será urgente que os serviços de saúde existentes naquela prisão tomem as devidas cautelas, porque poderá tratar-se de algum surto de doença contagiosa.

No comunicado da APAR, relativo à primeira morte, levanta-se essa questão: “Como pode um hospital enviar um doente nestas condições para dentro de uma prisão onde, é sabido, não há gente preparada, nem equipamentos apropriados, para fazer face a uma doença grave para mais altamente contagiosa?”

Entrevistado pela rádio TSF, o secretário-geral da APAR, Vítor Ilharco, estranhou que o Hospital de Vila Franca de Xira tenha dado alta a um doente que veio a morrer poucas horas depois:

As autopsias têm de encontrar resposta capaz de esclarecer de que doença estamos a falar. E se as duas mortes poderão ter sido provocadas por contágio direto entre os dois reclusos.

Uma doença contagiosa num ambiente fechado, como é uma cadeia, normalmente com celas sobrelotadas e com condições de higiéne precárias, pode constituir um problema grave de saúde pública.

OVAS DE BACALHAU OU CAVIAR

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A questão, afinal, não está em saber se uma coisa pode ocupar o lugar de outra, está em perceber se essa substituição altera a substância ou se apenas troca a aparência, mantendo a lógica de fundo.

É essa a tese que aqui importa analisar: após o 25 de Abril, surgiram novos personagens na cena política. Entre esses personagens tivemos o exemplo claro do conceito de caviar em política: qualidade, pensamento, cultura, coragem.

A metáfora culinária permite, assim, formular uma pergunta: quando se troca o nome do ingrediente, muda-se também a receita? A teoria da substituição é aplicável à política?

Com a Revolução do 25 de Abril, parte da classe política do regime derrubado não desapareceu: reposicionou-se, adaptou o discurso e diluiu-se pelos diversos partidos. A mudança de embalagem partidária não implicou, por si só, uma ruptura total com os hábitos, os interesses e os mecanismos de influência que já estruturavam o poder.

Pelo contrário, conseguiu-se assegurar que o corporativismo, pedra basilar do Estado Novo, tivesse continuidade com uma concepção diferente, mas estruturalmente semelhante. Esse conceito foi assimilado pela nova classe política como uma forma de corporação solidária, independente da ligação partidária, à qual só ascendiam os escolhidos.

Com excepção do período posterior ao 25 de Abril, marcado pela consolidação dos partidos políticos, a ascensão política iniciou-se nas juventudes partidárias, que abriam caminho até ao topo da pirâmide. A meritocracia foi liminarmente afastada da vida política e o caviar foi desaparecendo.

A integração deste conceito estrutural do anterior regime na nova ordem política terá sido um dos maiores erros da Revolução dos Cravos: os militares e os partidos políticos que se instalaram no País não conseguiram cortar a ligação umbilical entre a democracia nascente, o corporativismo e o sistema político-administrativo que diziam ter derrubado. E as ovas de bacalhau foram crescendo, substituindo o caviar.

O corporativismo permaneceu como cimento invisível do novo regime e permitiu que uma nova elite controlasse o Estado, à medida que a democracia se consolidava.

Os detentores da superestrutura do Estado passaram a assumir-se como caviar, apesar de, na sua maioria, não passarem de ovas de bacalhau. Esta é a desgraça deste País, como escrevia Sebastião da Gama: “Meu país desgraçado! … E no entanto há Sol a cada canto e não há Mar tão lindo noutro lado”.

Um País perdido no passado e longe de um futuro que nunca terá, apenas por um motivo, a total incapacidade de transformar ovas de bacalhau em caviar. A festa do PSD, no fim-de-semana no Pontal, foi o espelho da incapacidade de, em tempo algum, cozinhar ovas de bacalhau e fazê-las passar por caviar.

FALAR DA PALESTINA TEM UM PREÇO

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Sarah Friedland é um dos casos mais interessantes. A realizadora norte-americana, judia, recebeu em setembro de 2024, no Festival de Veneza, o Leão do Futuro pelo seu filme Familiar Touch. No discurso de agradecimento, utilizou o palco da sua consagração internacional para dizer que falava no 336.º dia do “genocídio de Israel em Gaza” e para manifestar solidariedade com o povo palestiniano. Houve reacções e ataques públicos. Quanto a eventuais consequências profissionais, Friedland ainda não quis falar delas. E essa escolha merece ser respeitada, apesar de beneficiar o infrator. Para a história fica, para já, que uma realizadora judia decidiu utilizar um dos palcos mais prestigiados do cinema mundial para denunciar o genocídio que o povo da Palestina está a enfrentar.

Sarah Friedland quando recebeu o Leão de Veneza e proferiu o discurso crítico contra Israel, em 2024

O caso de Tadhg Hickey. O comediante irlandês transformou o activismo pela Palestina numa parte importante da sua intervenção pública. Em Maio de 2025, a sua conta principal no Instagram, com cerca de 300 mil seguidores, foi eliminada. Hickey afirmou que não recebeu qualquer aviso prévio. O seu percurso noutras plataformas digitais foi ainda mais complicado, com bloqueios no TikTok e no YouTube. Aqui já não estamos apenas perante a possibilidade abstracta de uma carreira prejudicada por opiniões políticas: estamos perante contas, conteúdos e canais que desapareceram ou sofreram restrições severas.

depois de perder as redes sociais, Tadhg Hickey vive de stand-up comedy em espetáculos ao vivo

Nicole Jenes. Actriz e criadora de conteúdos tem denunciado repetidamente aquilo que considera censura às suas publicações sobre a Palestina.

Nicole Jenes

A Human Rights Watch documentou mais de mil casos de remoção ou supressão indevida de conteúdos pró-palestinianos no Facebook e no Instagram em 2023, identificando, entre outros mecanismos, eliminação de publicações, suspensão de contas, restrição de funcionalidades e aquilo que se convencionou chamar shadow banning: a redução significativa da visibilidade de conteúdos sem que o utilizador seja necessariamente informado. Não se trata, portanto, de uma questão inventada por Jenes ou por activistas palestinianos. É uma realidade suficientemente documentada por organizações independentes de direitos humanos.

Depois há Iyah May, cantora australiana. O seu caso leva a questão para dentro da própria indústria musical. May lançou Karmageddon, uma canção que confronta, entre outras coisas, a morte de crianças pelos militares de Israel.

vídeo clip

Segundo o relato que acompanha o seu percurso profissional, recusou alterar a letra desta e de outras canções e acabou por perder o contrato com a editora e com o empresário. Passou a trabalhar de forma independente. É um caso particularmente interessante porque a consequência não é uma conta apagada por um algoritmo: é a ruptura com uma estrutura profissional da indústria cultural.

Iyah May

E há Julia Mai, artista islandesa, cuja intervenção pela Palestina tem sido igualmente explícita. Em 2026, continuava a desenvolver projectos artísticos de solidariedade com a Palestina e a utilizar a sua arte para chamar a atenção para Gaza. No seu caso, porém, há uma diferença importante: temos um vídeo da própria Julia Mai, onde ela denuncia uma ameaça de morte. Não é só o silenciamento institucional ou algorítmico. É intimidação pessoal.

Júlia Mai junto de um dos seus murais pintados em Reiquiavique, capital da Islândia

Cinco pessoas. Cinco histórias diferentes. Uma realizadora. Um comediante. Uma criadora digital. Uma cantora. Uma artista. Nenhuma representa formalmente um governo ou uma organização política. São profissionais da cultura que decidiram falar. Perante um caso tão flagrante de execução de crimes de guerra e contra a Humanidade, deviam ser elogiados e não censurados.

Para além da ação conjugada do Estado que promove um genocídio, temos a tecnologia posta ao dispor dos interesses desse Estado, a que se soma a cobardia de instituições, empresas de comunicação social, editoras, e outros, que receiam perder receitas de financiadores, receiam retaliações políticas, receiam polémicas, temos profissionais que preferem não correr riscos, anunciantes que não querem problemas e gente que aprende, observando o que acontece aos outros, quais são os limites do discurso que os donos-disto-tudo consideram aceitável. É assim que “eles” tentam construir um muro de silêncio.

Sem entrar em teorias da conspiração, é evidente que existe uma ação orgânica global, com base política, para calar vozes inconvenientes. Em Gaza e no Líbano mataram mais de 250 jornalistas e ativistas nas redes sociais. Na Cisjordânia prenderam-nos. Na Europa e na América cortam-lhes o pio. É um trabalho sistemático, multifacetado, orientado através de patrocinadores, diplomatas, patrões, influencers, assassinos fardados e outros idiotas úteis, que nos mostra o preço a pagar no modo de vida ou até na segurança pessoal, quando alguém decide lutar contra a prepotência e a injustiça.

O vídeo que fiz sobre este assunto:

CLAUDIO LEPRATTI

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ROSÁRIO – A crise política, económica e social que levou a Argentina ao colapso em dezembro de 2001 – período historicamente conhecido como Cacerolazo ou Argentinazo – deixou marcas profundas na história contemporânea da América Latina. Entre os episódios mais emblemáticos deste período está o assassinato de Claudio “Pocho” Lepratti, um ativista social de 35 anos que se tornou um herói nacional e símbolo de resistência popular. A sua história foi posteriormente imortalizada pelo cantor e compositor León Gieco na canção “El Ángel de la Bicicleta”.

Percurso e Compromisso Social

Filho primogénito de uma família de seis irmãos, Lepratti demonstrou desde jovem um forte interesse pelos direitos humanos e pelas causas sociais. Ingressou no Instituto Salesiano na localidade de Funes, próximo de Rosário, onde optou pela carreira religiosa como “irmão coadjuvante”.

Após deixar o seminário, fixou-se na província de Santa Fé, onde desenvolveu um trabalho comunitário intensivo com as populações mais vulneráveis. Lepratti foi o fundador do grupo juvenil “La Varancia”, focado na formação de crianças de bairros desfavorecidos, e criou a revista comunitária “El Ángel de la Lata”. O seu ativismo estendeu-se também à esfera sindical, colaborando ativamente com a Associação dos Trabalhadores do Estado (ATE) e com a Central deTrabalhadores da Argentina (CTA). O seu principal meio de transporte para percorrer as comunidades carenciadas de Rosário era uma bicicleta, elemento que mais tarde definiria a sua iconografia.

O Incidente de 19 de Dezembro

No final de 2001, a Argentina enfrentava uma das piores crises financeiras da sua história, caracterizada por violentos protestos e forte repressão policial. No dia 19 de dezembro daquele ano, Lepratti encontrava-se a trabalhar como ajudante de cozinha num refeitório escolar no bairro de Las Flores, em Rosário, que no momento estava repleto de menores.

Ao detetar a chegada de forças policiais da cidade de Arroyo Seco com intenções repressivas, Lepratti subiu ao telhado das instalações com o objetivo de proteger as crianças. De acordo com os registos históricos e testemunhos da época, o ativista confrontou as autoridades gritando: “Filhos da puta, baixem as armas, só tem crianças comendo aqui!”. Na sequência do protesto, o agente policial Esteban Velázquez disparou contra a traqueia de Lepratti, causando-lhe a morte imediata. O agente foi posteriormente julgado e condenado pelo homicídio.

Impacto Cultural e Legado

A morte precoce de Claudio Lepratti gerou uma onda de indignação que alimentou os protestos nacionais. O seu nome e imagem foram multiplicados por todo o território argentino através de murais urbanos, onde é frequentemente representado por bicicletas aladas.

O legado de Lepratti foi consolidado na cultura popular argentina através da obra de León Gieco. A canção “El Ángel de la Bicicleta” transformou o ativista num ícone cultural de solidariedade e justiça social, servindo como um documento artístico de denúncia contra a violência estatal durante a crise de 2001.

MOSTRAR O TORNOZELO NA PRAIA

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Sua Majestade tinha convocado os conselheiros, para uma reunião na Fortaleza de Cascais. Todos compareceram nas suas carruagens puxadas a dois cavalos e o meu bisavô foi acompanhado da sua filha, na altura com 13 ou 14 anos. Claro que não lhe foi permitido entrar na reunião e ficou na companhia dos cocheiros e trintanários.

Aproximou-se, com o seu longo vestido, da praia, onde viu os filhos dos pescadores, em plena liberdade, a banharem-se nas águas do Atlântico. Atreveu-se, então, a minha avó a tirar os sapatos (das “meias” nem a me atrevo a falar) e molhar, ligeiramente, os pés… mostrando assim os tornozelos, palavra que, na altura, nem sequer se usava, pois, abaixo do umbigo, tudo era apenas “o pé!”.

Quando um cocheiro avisou o meu bisavô de que a filha tinha mostrado um “tornozelo”, enfureceu-se e castigou-a: durante duas semanas, ficou proibida de sair do quarto, de falar com alguém e sem permissão para comer fruta ou sobremesa.

Foi assim que a minha avó aprendeu a palavra “tornozelo”, que até aí desconhecia. Nunca mais se esqueceu da lição e transmitiu-nos a mesma como sendo um grande segredo.

Os tempos eram outros!

Mas minha avó também se soube “defender”. Confessou aos netos que as crianças não falavam quando estavam à mesa, apenas o podiam fazer para responder a alguma questão que lhes fosse colocada por um adulto. Tinham de se apresentar com as unhas limpas e as mãos lavadas e se se portavam bem à mesa, tinham direito ao grande presente, um bombom retirado de um frasco de cristal da Boémia, que o avô generosamente dava a quem o merecia.

Sempre que era bafejada pela sorte, a minha avó corria com o bombom na mão, para o esconder numa caixinha, que apenas ela sabia onde se encontrava. Assim, quando ficava de castigo, ia ao esconderijo, e comia dois ou três chocolates para animar a alma de vez!

O MEU SAUDOSO MÊS DE AGOSTO

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Lembro as frescas madrugadas dos homens e mulheres a caminho das hortas, dos quintais, dos campos cultivados, lembro os regos de água a correr vigiados pelo Louvado, as águas soltas das represas que iam regar milhos e batatais, o estranho ruído de um motor de rega já inventado, o eco das malhadeiras nas eiras vicinais onde pouco antes batia o pírtigo dos manguais malhando o centeio. Dos homens, cansados, carrejando a palha do palheiro. Da cruzinha lá fincada lembrando suas dores. Dos alqueires de pão que depois se entregavam ao moleiro.

Lembro-me do pintar das uvas nas videiras, das peras maduras, das ameixas, das melancias, dos pêssegos a começar a amadurar, dos figos lampos, dos cortiços das abelhas ao lado da vinha de onde meu pai tirara o mel pelo S. João, do cão preso ao tronco da tileira (leia-se tília) vigiando, atento, os matreiros passos da raposa que descia dos pinhais. Lembro-me dos gados dormindo num curral, do António, um bom pastor a quem eu levava a ceia e me talhava flautas num pau de sabugueiro.

Lembro-me do cantar das rolas nos pinhais onde eu ao tempo adormecia, da música dos grilos que não paravam de cantar na margem do ribeiro, das rãs e do seu eterno coaxar, dos ralos, das libelinhas, dos peixinhos cabeçudos, a nadar, que mais não eram que umas rãs em crescimento.

Lembro-me do tocador da concertina que nos dias da semana era serrador. Das rusgas dele, aos domingos, pelas ruas da aldeia. Do bailarico no Adro. Das lengas-lengas. Dos jogos Infantis. Dos brinquedos de brincar que aprendíamos a fazer ou nos compravam numa feira.

Também me lembro de pobres de pedir. E dos caldeireiros sentados numa banca onde as mulheres levavam cântaros para soldar a asa ou tapar o furo que elas taparam antes com palhinha para não vazar. E dos alvitanos que compravam peles de coelho, farrapos, cornelho e cera de abelha.

Lembro-me da Feira de S. Bartolomeu, em Trancoso, onde meu pai levava os bois. E onde me comprava as botas novas e de onde nos trazia pão de trigo e as melancias divinais. E das feiras da vila onde, pela vez primeira, comprei a um vendedor um folheto de cordel com uma história de chorar.

E lembro-me do sino, à noite, dando o toque de rezar. Da modorra do gato à lareira, a ronronar. Do silêncio imperturbável pelo justo tempo das nove badaladas. Das orações balbuciadas. Da bênção pedida a nossos pais. E da brancura fresca do lençol que minha mãe aconchegava.