A POLÍTICA SIONISTA E O JORNALISMO SERVIL

No caso da inclusão de Israel na lista de países que utilizam violência sexual como arma de guerra, a grande, grande maioria dos títulos dos média colocam Israel como o elemento ofendido e que reage perante a agressão rompendo relações com o secretário-geral da ONU.

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Quem vê um, vê todos. Média pró Israel em uníssono.

Depois de centenas de testemunhos fidedignos de médicos internacionais que prestaram serviço humanitário em Gaza e que relataram esses casos, depois de inúmeros testemunhos de vítimas, homens, mulheres e crianças palestinianas violadas nas cadeias israelitas, depois de todas as evidências que provam as práticas genocidas dos militares israelitas em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano, na Síria… os média continuam a dar tratamento favorável às declarações políticas de Israel, numa clara desigualdade editorial face ao outro lado do conflito, o lado onde está a maioria das vítimas das atrocidades cometidas por combatentes.

O anúncio do rompimento das relações “com o gabinete do secretário-geral da ONU” é de uma hipocrisia monumental, quando estamos a seis meses de António Guterres terminar o seu derradeiro mandato na ONU.  

Hipócrita porque Israel sabe bem que a decisão de incluir um país numa lista de ofensas aos direitos humanos nunca é tomada pelo Secretário-Geral. Essas deliberações são coletivas e resultam do trabalho de órgãos intergovernamentais compostos por Estados-Membros, com destaque para o Conselho de Direitos Humanos da ONU. Estamos a falar de um órgão sediado em Genebra, o principal órgão político intergovernamental da ONU nesta área. É composto por 47 Estados-Membros eleitos pela Assembleia Geral da ONU.

Neste âmbito, Guterres não manda nem desmanda. Não vota nem veta. O Secretário-Geral não tem o poder de sancionar países. O seu papel concentra-se em chamar a atenção dos órgãos competentes para situações de crise que coloquem em risco a paz mundial, e em preparar relatórios com base nas informações recolhidas pelos peritos e comités.

Mas é mais fácil para Israel fulanizar a questão, dar rosto a um “culpado” pela denúncia dos crimes cometidos contra os palestinianos e outros povos de países vizinhos.

É uma estratégia conhecida. Quando os factos se tornam difíceis de contestar, procura-se criar um novo elemento distrativo. Quando a acumulação de evidências se torna demasiado pesada, cria-se um alvo para concentrar indignação fabricada. O problema é que António Guterres não é o autor dos testemunhos, não é o autor das perícias médicas, não é o autor das investigações independentes nem é o responsável pelas vítimas que relatam abusos. O secretário-geral limita-se a ser o portador institucional de conclusões produzidas por mecanismos internacionais. Ah! Também não é lacaio dos sionistas.

É muito preocupante a forma como uma parte significativa dos meios de comunicação social continua a reproduzir esta inversão narrativa. Nos títulos, Israel surge frequentemente como a parte ofendida que reage a uma injustiça. As acusações que motivaram essa reação ficam para segundo plano, quando não desaparecem por completo.

É esta inversão que ajuda a compreender porque razão, apesar das sucessivas denúncias de organizações humanitárias, dos relatos de sobreviventes e das conclusões produzidas por organismos internacionais, a perceção pública do conflito continua tão distante da dimensão humana da tragédia vivida pelos palestinianos. Em demasiados casos, a notícia deixa de ser o sofrimento das vítimas para passar a ser a irritação dos algozes.

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