Durante anos, o limoeiro do meu quintal deu um limão por temporada. Um único. Esquisito, disforme. Feio, coitado: nem verde nem amarelo, coberto de cicatrizes acastanhadas.
Perguntei-me sempre se seria do solo ou se o limoeiro, sábio à sua maneira, sentiria que para azeda basta a vida e que um limão era suficiente.
Fosse porque fosse, ali continuava ele, teimoso, a dar o seu fruto anual, como se assim justificasse as regas, os cuidados e o pedaço de chão ocupado.
E estava eu prestes a cortá-lo quando uma vizinha me disse que o segredo era simples: bater-lhe. Isso mesmo. Segundo ela, os limoeiros gostam de ser postos na ordem.
– Dê-lhe com um pau. Mas com força. Olhe, aproveite quando estiver marafada com alguma coisa. Uma pessoa alivia e eles aprendem.
A princípio, não sei se por não acreditar no remédio milagroso ou por pena da pobre árvore, ignorei a sugestão. Mas um limão? Um único? É muita falta de consideração. Não há como não levar a peito tamanha desfeita. E, vai de lá, num dia menos bom, mais por impulso do que por convicção, acabei por seguir o conselho. Primeiro, umas pancadinhas hesitantes, mas depois…
Tomei-lhe o gosto e, nos últimos meses, não há crise de mau feitio que não acalme com umas boas pauladas. Se foi por isso ou não, não sei, mas este ano parece outro. Enlouqueceu. Tem mais limões do que folhas. Frutos enormes, brilhantes, amarelos e perfumados. Nunca tinha dado para mais do que um mísero chá; agora, são às dezenas – centenas, talvez. Não falta cá por casa limonada, lemon curd, limoncello, bolos, tartes e tortas de limão, mousses e gelados, tudo polvilhado com umas raspas, claro está…
Diz o povo que não há fome que não dê em fartura, que quanto mais me bates mais gosto de ti, que quando a esmola é muita o santo desconfia… E eu fico a olhar para esta abundância e pergunto-me: será esta uma forma de demonstrar obediência? Um gesto tardio de afeto? Um desabafo vegetal? Um ataque cítrico em resposta às tareias? Haverá algum mecanismo de defesa arborícola que transforme trauma em vitamina C? Ou terá a humanidade andado a subaproveitar uma técnica agrícola de enorme eficácia e baixo custo?
Ah, se ao menos eu fizesse parte da brigada da gratidão… agradeceria mais e questionaria menos.



