INFAUSTO SERVIL
Tu, o infausto servil,
essa carcaça oca que deambula e não habita,
tu, que te dizes presente mas não és:
Sabe que nenhum Deus reclamará a tua sombra.
Não há altar para o que nunca teve substância,
nem redenção para o escravo que ama as suas correntes.
Serás, vezes sem conta,
uma abstração moldada pelo medo,
um rasto de pó numa engrenagem cega.
Pouco importa o teu grito ou o teu silêncio,
pois ergueste o teu templo sobre certezas que não tens.
O teu fôlego é um mentir de ti mesmo,
uma máscara colada ao vazio,
um inventário de tudo o que não és.
Olha para as tuas mãos:
estão sujas de tempo e de submissão.
Se queres a vida, ama o Mundo na sua fúria e no seu cansaço,
ama-o como quem aceita o naufrágio, sem esperança de porto.
E humilha-te, enfim.
Não a humildade dos fracos, mas a dos lúcidos,
a daqueles que sabem que o “Eu” é a maior das mentiras.
Acende a candeia com o óleo do teu próprio desengano.
Ilumina-te de uma luz que queime, que desfaça o acessório,
até que reste apenas o osso, o frio e o rigor.
Só na mais solene e cruel convicção da tua insignificância
poderá brotar, talvez, uma libertação.
Não esperes misericórdia nem retorno.
A existência é o sentido único da lâmina:
uma verdade que se corta em tudo o que se vive.
O resto é o servilismo dos mortos que esqueceram de deitar-se.
O Cântico da Escudela Universal: Da Fome à Unidade
Em tempos se construíram cidades e vilas de pedra e ego,
Onde o pobre vive de escudela na mão, em perpétuo rogo.
O rico, arquiteto de espelhos, do suor alheio se alimenta,
Enquanto a cidade, em seu brilho, a própria miséria sustenta.
Ó Povos destroçados, que nas margens medonhas caminhais,
Por que buscais em Deuses esquecidos a paz que vós mesmos negais?
Vós, que escreveis a proemial história com mãos calejadas,
Aventais motivos vãos e seitas em rotas estilhaçadas.
Navegais em rios estreitos, temendo a imensidão do mar,
E destronais os sonhos sentidos antes mesmo de os ousar.
A escudela que carregais não é apenas o fardo da fome,
É o símbolo de uma Humanidade que esqueceu o seu próprio nome.
Por que não ser Único? Por que a vergonha sorri sem coragem,
Enquanto evocais destrezas que são apenas miragem?
O pobre guarda o seu aforro e um cantar que é terno e profundo,
Mas o povo, em seitas dividido, permanece órfão do mundo.
Sibilai o longo caminho, mas não como quem vai vencido,
Pois quem vive na separação, morre sem nunca ter vivido.
Oh rico Povo, de alma imensa e voz de séculos unida,
Que a vossa grata voz desperte para a profecia da vida!
Que a escudela se torne o cálice de um sentido afável e novo,
Onde não haja mais rico ou pobre, mas apenas um único Povo.
Uni-vos nos novos caminhos, para além do medo e do olvido,
Pois só na Humanidade inteira o destino será cumprido.



