O CAPITAL HUMANO ESQUECIDO

Há uma contradição que atravessa silenciosamente as sociedades modernas.

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Vivemos numa época em que o conhecimento é apresentado como o recurso mais valioso para o desenvolvimento económico, científico e social. Fala-se da economia do conhecimento, da inovação e do talento como os motores do futuro. Contudo, quando milhões de pessoas atingem a idade da maior maturidade intelectual e profissional, deixam de ser vistas como um ativo e passam a ser tratadas como um custo.
É um paradoxo difícil de compreender.

Uma sociedade investe durante décadas na formação dos seus cidadãos. Acompanha-os desde a escola até à universidade, promove especializações, incentiva a aprendizagem ao longo da vida e beneficia da experiência que cada profissão vai acumulando. Mas, precisamente quando esse património humano atinge o seu ponto mais elevado de conhecimento, muitas dessas pessoas são empurradas para a margem.
Não porque perderam competência.
Não porque deixaram de pensar.
Não porque deixaram de criar.
Apenas porque envelheceram.

Este é um dos maiores desperdícios do nosso tempo.
O verdadeiro capital de uma sociedade não está apenas nas infraestruturas, na tecnologia ou nos recursos financeiros. Está, acima de tudo, nas pessoas. E entre essas pessoas encontram-se milhares de homens e mulheres que acumularam décadas de experiência, de capacidade de decisão, de memória institucional, de sentido crítico e de sabedoria prática.
Ignorar esse património é desperdiçar riqueza.

As sociedades mais inteligentes serão aquelas que souberem criar novas formas de participação para quem continua a querer contribuir. Não se trata de impedir reformas nem de obrigar ninguém a trabalhar para além da sua vontade. Trata-se de abrir portas a quem deseja continuar a ensinar, a orientar, a inovar, a aconselhar ou simplesmente a colocar a sua experiência ao serviço da comunidade.
A longevidade alterou profundamente a condição humana. Hoje, muitas pessoas chegam aos setenta ou oitenta anos com saúde, lucidez e uma enorme capacidade de intervenção. Persistir em modelos sociais construídos para uma realidade demográfica do século passado significa desperdiçar um dos maiores recursos do século XXI.

O futuro não depende apenas da energia dos mais jovens. Depende também da inteligência coletiva que nasce quando a juventude e a experiência trabalham lado a lado.
Precisamos de abandonar a ideia de que a idade marca o fim da utilidade social. Pelo contrário, pode representar o início de uma nova forma de participação, menos condicionada pela carreira e mais orientada para a transmissão de conhecimento, para a mentoria, para o voluntariado qualificado e para a construção de projetos com significado.
Nenhum país se pode dar ao luxo de desperdiçar o seu capital humano mais experiente.
Valorizar esse património não é um gesto de solidariedade para com os mais velhos. É um investimento inteligente no futuro de toda a sociedade.
Porque uma nação que esquece os seus cidadãos mais experientes não perde apenas memória. Perde capacidade de construir o amanhã.

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