A minha perplexidade mais recente foi ver o debate sobre o Estado da Nação, na semana passada. Quando se discutia Educação e outras matérias importantes, vejo o primeiro-ministro, em lugar de estar a ouvir os deputados, a rir para um lado e outro. Comentava, em segredinhos e risadinhas, sabe-se lá o quê, mas que não seria, certamente, o Estado da Nação. Esse, de facto, não tem graça nenhuma. Portanto, tudo lhe valeu risinhos, alguns cínicos, e segredinhos, tal como terá feito na escola primária com os coleguinhas de carteira. Pena foi não estar ali uma mestre-escola das antigas que lhe atirasse a ‘menina de cinco olhos’…
Entretanto, os factos revelaram que o Estado da Nação no que se refere à Educação é caótico, em todos os níveis. O futuro do próximo ano escolar está seriamente comprometido, mas parece que o governo ainda não entendeu isso. Caótica é também a situação do ministro da Administração Interna. O silêncio, aqui, é o pior. Se há explicações a dar no que respeita a eventuais crimes, que elas sejam dadas. Luís Neves merece que as ouçamos e nós precisamos de o ouvir.
Por outro lado, ouvi falar, da parte do governo, das ‘maravilhas’ operadas nos últimos anos. ‘Maravilhas’ que se confrontam com a dura realidade do dia-a-dia: pessoas sem casa e que não são os tradicionais sem-abrigo, pais com filhos adultos, que não podem casar e ter filhos, desempregos de longa duração, ordenados de miséria e impostos que não param de subir.
A novidade da Lei das Rendas que torna os despejos mais céleres e os aumentos mais frequentes. Uma festa, portanto, para este governo que se traduz na cada vez maior descrença do povo português.
Para aproveitar a boleia do governo, o presidente da Câmara de Lisboa não hesitou: deu duas semanas a pessoas sem-abrigo para abandonarem escola onde vai acontecer o Festival Iminente. São seis os habitantes da antiga Escola Industrial Afonso Domingues, que ali vivem há vários anos e agora souberam que têm de sair até 31 de Julho, dado que o festival de arte urbana é em Setembro. A organização do certame, por seu turno, diz que resposta social compete à câmara. Não deixa de ter razão. A questão é se esta câmara existe mesmo…
Uma equipa de técnicos foi comunicar o despejo aos sem-abrigo, mas não foi tratar do seu alojamento futuro. É a tal câmara que não se percebe se existe…
Em todo o caso, este despejo contraria as declarações de Juliana Almeida, diretora e porta-voz do Festival Iminente, ao Observador, no final de Abril. O jornal publicou uma reportagem que explicava que as pessoas que ali viviam receavam ser forçadas a sair do espaço, na sequência da colocação de uma placa da autarquia a anunciar o encerramento das vias de acesso à escola. A responsável pelo festival garantiu, então, que o plano ideal era integrar as pessoas ali residentes, admitindo mesmo a ‘possibilidade’ de fazer o festival com pessoas a viver naquele lugar.
Aliás, em declarações ao mesmo jornal, a responsável acentuou que ‘da parte do Iminente, a posição não mudou. Nunca exigimos, nem exigimos agora, que estas pessoas saiam’, referiu. E acrescentou que ‘a realização do festival não depende da desocupação do edifício, e o projeto de implantação está a ser preparado de forma a não ocupar os espaços onde estas pessoas vivem, nem perturbar o seu quotidiano’.
Juliana Almeida afirmou também que ‘as decisões sobre o imóvel e sobre o alojamento cabem à Câmara e às entidades sociais competentes. O nosso compromisso é o mesmo desde o primeiro dia: ninguém sai por causa do festival sem uma alternativa digna e individual, que possam conhecer e avaliar antes de decidirem’.
E sublinhou: ‘o festival não condicionou a realização do evento à saída de quem ali vive, nem teria poder para o fazer: o edifício é público, pertence ao Estado, esteve cerca de dezasseis anos ao abandono e está destinado à demolição no âmbito dos acessos à Terceira Travessia do Tejo. Não somos proprietários do espaço e não desalojamos, nem podíamos desalojar, quem quer que seja’.
Agora pergunto: percebe-se o que é um governo que não existe? E uma câmara que, se dúvidas houvesse quando se olha para Lisboa, também não?
Ao menos, nas telenovelas turcas só há uma pessoa malvada. É certo que condiciona a vida de muitos e transforma alguns bonzinhos. Mas o enredo, no essencial, é sempre o mesmo. Por isso, vou continuar a ver as ditas séries e deixar os noticiários onde só há mauzinhos.



