Há qualquer coisa de inquietante na sucessão de acontecimentos em torno do Brasil. Trump não esconde a sua preferência por Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula da Silva nas próximas presidenciais. Ao mesmo tempo, Washington pressiona o Brasil em matérias tão sensíveis como o sistema eleitoral, a diplomacia e o acesso das empresas americanas às riquezas estratégicas brasileiras. A isto juntou-se a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas, uma designação que, além da sua carga política, pode abrir a porta a argumentos para uma intervenção americana contra o narcotráfico dentro das fronteiras brasileiras. O Governo de Lula recusou, por razões de soberania, a presença de especialistas americanos na verificação das urnas electrónicas. Tudo isto publicámos ontem.
Agora surge uma nova peça. Circulam nas redes sociais cartazes anunciando, como facto consumado, que “cerca de 2 mil guerrilheiros” colombianos, identificados como dissidentes das FARC e membros do ELN, invadiram a fronteira brasileira e atacaram populações locais.

Estão a fabricar a porta por onde vão entrar os marines americanos, em perseguição a alegados militantes de organizações terroristas. Tudo começou há algumas semanas, quando surgiram denúncias sobre a presença na Amazónia de homens armados idos da Colômbia. O Governo do Brasil reforçou a presença de forças de segurança na região e o Ministério Público abriu uma investigação. Mas não está confirmado que sejam 2 mil homens, nem que pertençam às organizações indicadas. Os adversários de Lula estão a transformar uma hipotética ameaça num facto consumado.
É assim que se constroem narrativas políticas. Primeiro existe um problema real, depois exagera-se a sua dimensão, atribui-se-lhe um inimigo identificável e, finalmente, exige-se uma resposta excepcional: “O Brasil precisa agir agora.” Não sabemos se está a ser preparada qualquer intervenção americana no Brasil, mas depois das ameaças proferidas por Trump, é legítimo perguntar se estamos perante a construção de um ambiente político destinado a apresentar o Brasil como um país que dá abrigo ao crime organizado. Quando se constrói uma ameaça suficientemente grande, a intervenção deixa de parecer uma agressão e começa a ser apresentada como uma necessidade. Uma salvação.
Para já, temos propaganda bolsonarista. Temos a extrema-direita a cavalgar mentiras e meias-verdades. Mas vemos como as peças começam a encaixar-se de uma forma que merece ser observada com muita atenção. Lula, põe-te a pau.





