Filho de um industrial do calçado, o Vicente cresceu num mundo erguido pela fortuna que o pai construíra ao longo de cinquenta anos de trabalho árduo, couro curtido e pele de vaca. Estudou nos melhores colégios e universidades internacionais, frequentou os mais exclusivos círculos da elite económica, política e cultural. O dinheiro era-lhe tão natural quanto a própria existência. Vivia sem amarras de espécie alguma.
Um dia, porém, o pai anunciou que chegara a altura de assumir responsabilidades na empresa.
— O Homem não nasceu para ser escravo — respondeu o Vicente. — Nasceu para despertar.
O pai ficou uns instantes em silêncio. Depois perguntou:
— E quem paga esse despertar?
O Vicente sorriu. Como podia o pai compreender? Vivia naquela fábrica. Trabalho, tabalho, trabalho. Nunca fizera outra coisa. Faltava-lhe mundo.
Meses mais tarde, enviou-me uma fotografia diante de uma autocaravana verde-musgo. A legenda dizia apenas: “Finalmente livre!”
Seguiram-se os anos da conversão. Nepal, Índia, Butão, Tailândia, Costa Rica, Brasil, Bali. Ecovilas. Comunidades regenerativas. Retiros de silêncio. Meditação. Jejuns. Roupas de algodão orgânico que pareciam encontradas num contentor. Gurus com quem aprendeu a desconfiar do açúcar, do glúten, da lactose e, sobretudo, de quem persistia em cometer o ato selvagem de os consumir. Pecados modernos.
Em contrapartida, confiava plenamente em si próprio. Não no Vicente, personagem ultrapassada, mas em Bodhin.
— Agora sou Bodhin. Significa “aquele que despertou” — esclareceu quando nos reencontrámos anos mais tarde.
Aconteceu num festival de verão. Bodhin descera do seu retiro perdido na serra para dar uma oficina sobre escrita intuitiva: “Os teus sentimentos e emoções interessam”, intitulava-se. Um sucesso, tal como o eram os 32 títulos publicados e assinados por Mestre Bodhin.
Convidou-me para almoçar. Aceitei. Tinha saudades do Vicente: das férias no iate ao largo da Costa Amalfitana e das ilhas gregas, das noites de festa em Ibiza e Las Vegas e, quem diria agora, das viagens para conhecer as melhores churrascarias da Argentina, do Brasil e dos Estados Unidos.
Pediu por mim. Há hábitos que não desaparecem facilmente. Uma salada com ar refrescante mas de pouco sustento. Pedi que acrescentassem ovo cozido.
Bodhin não disse nada. Limitou-se a olhar com ar de reprovação.
— É das minhas galinhas — disse imediatamente a senhora. — Andam completamente à solta. São galinhas felizes.
O Vicente teria dado uma gargalhada. Bodhin limitou-se a escutar, com serenidade e compaixão. A mais absoluta superioridade moral.
Quando o prato chegou, o meu ovo vinha coberto de pequenos rebentos que não consegui identificar. Perguntei se eram de soja. Na verdade, era-me indiferente. Estava apenas a fazer conversa. Bodhin sorriu. Escolheu cuidadosamente um único rebento. Cheirou-o. Observou-o contra a luz. Depois mastigou-o lentamente.
— Não é soja. Feijão-mungo é mais crocante. A rúcula tem um toque amargo.
O veredito:
— É alfafa.
E, não fosse eu ficar com dúvidas do seu conhecimento, puxou do telemóvel topo de gama e mostrou-me as imagens que o comprovavam. No final, pediu kombucha para ambos. Nem me atrevi a sugerir um café, receando cometer alguma heresia gastronómica.
Acompanhei-o depois até à sua nova casa. O Ferrari das autocaravanas.
— Consome menos. Passo muito tempo isolado, longe de tudo. Tenho de ter frigorífico, computador, rede. Os meus alunos. Os seguidores. Os editores…
Vicente e Bodhin eram afinal a mesma planta. O rebento apenas mudara de vaso.



