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A PONTE, O CHEFE E A DEMOCRACIA

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Há uma questão política que me parece interessante: será necessariamente mau, um Estado institucionalmente frágil, ter uma liderança presidencial forte?

Esta pergunta é incómoda. Estamos habituados a olhar para África através das categorias políticas construídas na Europa. Separação de poderes, equilíbrio institucional, contrapoderes, parlamentarismo, independência da justiça: tudo isto é essencial numa democracia consolidada. Mas as instituições não funcionam no vazio. Precisam de uma sociedade que as sustente.

A democracia europeia, tal como hoje a conhecemos, não apareceu por decreto. Tem pouco mais de dois séculos de construção. Foi feita de avanços e recuos, revoluções, guerras, ditaduras, sufrágio restrito, conflitos sociais e uma longa aprendizagem institucional. Não é razoável imaginar que sociedades que enfrentam simultaneamente pobreza, fraca escolarização, instituições frágeis, economias informais e profundas carências sociais, libertas do jugo colonial há pouco mais de 50 anos, possam simplesmente importar os mecanismos da democracia ocidental e esperar que funcionem da mesma maneira.

ENTRE O “SIM” O “NÃO” E O BOICOTE

Não basta dizer que a nova Constituição «dá demasiado poder ao Presidente». É preciso demonstrar quais são esses poderes, em que medida são diferentes dos anteriores e como alteram o equilíbrio entre Presidente, Governo e Parlamento. E também não basta dizer que uma liderança forte é necessária para garantir estabilidade. É preciso saber que mecanismos existem para impedir que a estabilidade se transforme em poder sem controlo.

A opção dos principais partidos da oposição guineense foi não ir a jogo, apelar ao boicote ao referendo. Os partidos poderiam ter escolhido combater a nova Constituição dentro do próprio referendo. Poderiam ter dito aos guineenses: votem «não», e explicar porquê. Poderiam ter identificado as alterações que consideram perigosas, explicá-las à população e, sobretudo, procurar convencer um eleitorado rural para quem uma Constituição é provavelmente uma abstracção distante da vida quotidiana.

O «não» exige trabalho. Obriga a explicar. Obriga a traduzir artigos constitucionais para uma linguagem que um camponês, um comerciante de uma pequena cidade ou um trabalhador rural possa compreender. Obriga a dizer: esta alteração é má por isto; esta competência presidencial é excessiva por aquilo; esta regra pode ter estas consequências. Exige, enfim, disputar o eleitorado.

O boicote é muito mais simples, dá menos trabalho dizer “não vão votar”. É verdade que existem restrições à participação partidária na campanha e que o processo político que conduziu ao referendo é profundamente contestado. Nada disso deve ser ignorado. Mas há uma diferença entre denunciar um processo e desistir de disputar a sua consequência política.

É preciso dizer que a democracia não é a ausência de liderança. É a existência de mecanismos que permitem controlar a liderança. Um Estado frágil pode precisar de autoridade para funcionar. Pode precisar de alguém que diga «sim», que coordene, que decida.

A PONTE SOBRE UM PEQUENO RIO

Lembro-me de uma pequena história passada no norte da República Democrática do Congo, numa região de floresta tropical húmida. Tínhamos montado um acampamento junto a um pequeno rio e uma ponte rudimentar, apenas um tronco atravessado de uma margem para a outra, facilitaria bastante as deslocações.

Perguntámos ao chefe da aldeia, situada a cerca de trinta quilómetros dali, se podíamos construí-la. Respondeu que sim, mas que seria ele a mandar fazê-la.

Uns dias depois apareceu no acampamento com muitos homens equipados com machados e catanas. Cortaram uma árvore grande, puxaram-na até ao rio e colocaram-na atravessada sobre a água. A operação demorou horas. A árvore era pesada. Todos fizeram força, menos o chefe. O chefe passou o tempo a cantar.

Perguntei-lhe porquê. Explicou-me que cantava para incentivar os homens e, enquanto cantava, dava instruções. No fim, disse-me uma coisa que nunca esqueci: sem ele, aquela ponte provavelmente nunca teria sido construída. Primeiro, porque o poder de dizer sim ou não era dele. Depois, porque sem coordenação os homens teriam tido muita dificuldade em realizar a obra.

O chefe não pegou no machado. Não puxou a árvore. Não fez o trabalho mais pesado. Mas decidiu, autorizou, organizou e coordenou. Para os homens que trabalhavam, isso parecia ser uma função perfeitamente natural do chefe.

Vídeo: este excerto faz parte de uma série documental de 3 episódios sobre uma expedição científica de biólogos que procuravam uma espécie perdida de gorilas.

MURMÚRIOS…

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Numa comunidade – qualquer que ela seja! – constar a existência de murmúrios é, de um modo geral, mau indício. Algo a não merecer generalizado consenso e, daí, a conversa à puridade, na esperança de que, paulatinamente, o desagrado ouse vir ao de cima e quem manda possa, finalmente, agir. É mau esse murmúrio, denuncia falta de coragem e nefasto será se se arrastar.

Na sessão de massagem, Zuleica opta, naturalmente, por inundar o ambiente de serenas melodias, murmúrio de violinos, dolências de saxofone, a flauta do Rão Kyao, uma tecla de piano de timbre a esvoaçar…

Murmúrios há também numa Sala Snoezelen, espaço de estimulação multisensorial que induz relaxamento e bem-estar físico e emocional: luzes, sons, cores, texturas, aromas a proporcionar múltiplos estímulos; todos os sentidos a ficarem envolvidos, ambiente de tranquilidade, de segurança, proteção e conforto.

Gosto da brisa a beijar ao de leve os ramos da buganvília em flor e as pétalas espreguiçam-se e deixam-se embalar no volteio até ao chão. Um murmúrio imaginado, esse.

Quero o mergulho da água a cair na malga negra de Bisalhães. Um chapinhar brincalhão. A suavidade de um motor a acompanhar os minutos do porvir. Ecoarão os murmúrios da fonte sem parar. Jamais terão o ritmo do meu pedalar; mas tal desconcerto é música suave a carregar energia para a jornada prestes a iniciar: atabafará palavras ríspidas, respostas desabridas e ânsias que se não conseguem reprimir. Perpassarão sempre aqueles matinais murmúrios no ar. Abençoados!

Recordo a Fonte da Tareja, em S. Brás de Alportel, a deixar-me o eco dessa eloquente quadra de Bernardo de Passos:

Evoco Augusto Gil: «Batem leve, levemente | Como quem chama por mim». É o murmúrio que o chama: «Fui ver. A neve caía | do azul cinzento do céu. | Branca e leve branca e fria»…

Escreveu Lídia Jorge A Costa dos Murmúrios. Certamente inspirada, diria eu, nos sons do seu/nosso Barrocal: abelhas a poisar na esteva (inaudível fremir de doce contentamento), descompassado pingar da água a rever da parede de poço antigo, no lamento do lençol freático a fenecer… Afinal, não: Lídia foi para outros murmúrios sérios – o contraste entre o que se escrevia oficialmente sobre a guerra colonial e aquilo que realmente se passava no terreno. Captar o último murmúrio, antes que, para sempre, se queira fazer silêncio. Não são os da água os murmúrios de Lídia Jorge, são os da História – o que apenas se capta, e de maneira imperfeita, por baixo do discurso oficial: rumores, vozes marginais, memórias, silêncios, coisas que não foram ditas ou deliberadamente ocultadas, as vozes subterrâneas da memória… Um murmúrio que, provindo da aragem invisível, se passeava no ar em ondas amplas, e falava, mas muito  pouco se ouvia – que a água murmura sem querer dizer nada; nós é que escutamos nela alguma coisa; já os murmúrios de Lídia Jorge queriam dizer – mas foram atabafados.

Capa do livro «A Costa dos Murmúrios»

É contínuo o murmúrio da água; é fragmentado o da História. Um corre. O outro fica, desaparece, reaparece, chega-nos deformado; mas ambos nos obrigam a aproximar o ouvido.

Sussurrando, murmuro, ao longo do dia, na cantilena de um fado antigo, a embalar silêncio de reflexão. Na verdade, porém, aqueles sete minutos iniciais para palmilhar, parado, uma sacrossanta légua, de fonte a murmurar a meu lado, constituem panaceia contra o buzinar do condutor impaciente, o intermitente ladrado do cão irrequieto, o alvoroço do rádio alto do jovem apressado a bradar ao bairro «Cheguei! Passei!»…

Fica, porém, lá no fundo – e, de vez em quando, emerge – esse lado oculto da História – que se murmura e que nem sempre se ousa contar!

PEQUENAS MENTIRAS

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O líder do PSD, na festa do Pontal, não tendo nada de novo para mostrar aos Portugueses, anunciou que o passe verde da CP, que custa 20 euros, passaria a englobar os comboios suburbanos.

Esta ‘oferta’ fez-me recordar um dos mitos urbanos da Faculdade de Direito de Lisboa. Contavam que, na defesa da tese de doutoramento de Soares Martinez, Marcelo Caetano, com a superioridade intelectual que sentia em relação ao doutorando, teria dito: ‘a sua tese tem coisas boas e coisas originais, é pena as originais não serem boas e as boas não serem originais’.

À falta de alguma proposta original, o líder do PSD prometeu ‘uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma’ (recorro a Irene Lisboa para acentuar o vazio da proposta). Como explica, e bem, Francisco Fortunato, um especialista em ferrovia, as pessoas que recorrem aos transportes públicos nas regiões suburbanas necessitam de mobilidade. Elas usam diversos meios de transporte e, por isso, têm o passe que custa 40 euros e lhes dá acesso ao Metro, à Carris – Metropolitano, à Transtejo, ou seja, terão sempre de continuar a comprar o passe de 40 euros para poderem ter a mobilidade de que necessitam para chegar ao emprego. Assim, além dos 20 euros do passe CP verde, soma-se o passe de 40 euros.

Há tontinhos e tontinhas que votaram nesta gente. Merecem bem ser enganados! O mais grave é que gostam desta pequena mentira e das outras, das grandes mentiras. Vejamos: a do crescimento económico superior à média europeia, num tempo em que se vive um clima de guerra; a da estabilidade governamental; a da negação da autoria do estudo sobre a reforma da segurança social; a da negação do estado caótico na saúde…

De mentira em mentira o governo arrasta-se causando danos irreversíveis ao País. Mas, apesar deste caos, espero que o executivo cumpra a legislatura até ao seu termo. E que os eleitores portugueses fiquem vacinados para os próximos dez anos.

O CAMINHO QUE SE FAZ AO ANDAR

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Antonio Machado (1875–1939) foi um dos poetas mais marcantes da literatura espanhola e um pilar fundamental da chamada Geração de 98, um grupo de intelectuais que refletiu sobre a crise de identidade e o declínio da Espanha no final do século XIX. A sua poesia evoluiu de um modernismo íntimo e melancólico para uma lírica mais profunda, focada no tempo, na memória e nas paisagens severas de Castela, que usava como espelho da alma humana. O seu poema mais universal, conhecido pelo verso “Caminante, no hay camino”, integra a secção de provérbios e cantares do livro Campos de Castilla, publicado em 1912, e tornou-se um manifesto filosófico sobre a existência humana.

Caminhante, são teus passos
o caminho e nada mais;
Caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar se faz caminho,
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se voltará a pisar.
Caminhante, não há caminho,
mas sulcos de escuma ao mar.

Antonio Machado
Poema XXIX de Provérbios y Cantares
Poema original, em espanhol:

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.

Nesta obra fundamental, Machado recorre à metáfora do caminhante para explicar que a vida não vem com um roteiro predefinido ou um destino traçado pelo determinismo. O autor defende que a nossa trajetória é construída exclusivamente através das decisões individuais e das ações do presente, o que significa que o caminho se faz de facto ao andar. Ao olhar para trás, o caminhante consegue ver a senda que percorreu, mas percebe imediatamente a impossibilidade de regressar ao passado, reforçando a natureza irreversível do tempo. O poema encerra com a imagem dos sulcos deixados na água por um barco, uma metáfora visual que ilustra a efemeridade e a transitoriedade da nossa passagem pelo mundo.

O impacto deste poema ultrapassou as páginas dos livros de literatura e alcançou a cultura popular global em 1969, quando o músico catalão Joan Manuel Serrat o transformou na canção intitulada Cantares. Na sua adaptação musical, Serrat combinou os versos originais de Machado com estrofes próprias que recordavam o trágico fim do próprio poeta.

Sendo um firme defensor da Segunda República Espanhola, Machado foi obrigado a fugir do avanço das forças franquistas durante a Guerra Civil, acabando por morrer no exílio em Collioure, na França, em 1939. Assim, os seus versos sobre a caminhada e a perda transformaram-se também num símbolo de resistência e num hino à liberdade que continua a ecoar em várias gerações.

LISBOA E JERUSALÉM (semelhanças inesperadas)

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Frequentemente, nas redes sociais, aparecem vídeos de grupos de judeus a entrarem no recinto da mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, sob protecção das forças israelitas. Não são turistas. Eles vão ali para realizarem rituais religiosos e alguns defendem abertamente a construção, naquele mesmo lugar, do chamado Terceiro Templo judaico.

Para os palestinianos muçulmanos, e para uma grande parte do mundo islâmico, aquilo é uma provocação. E, mais do que isso, é o sinal de uma ameaça que há muito deixou de ser imaginária.

vídeo

É fácil olhar para este jovem e classificá-lo simplesmente como um fanático. O problema é que as ideias que exprime não surgem no vazio. Há organizações religiosas, movimentos nacionalistas e sectores políticos em Israel que defendem, em diferentes graus, uma alteração radical do actual estatuto do recinto de Al-Aqsa. E há membros do poder político israelita que fazem dessas correntes parte da realidade do governo.

O que talvez seja mais perturbador não é, contudo, a existência de mais um fanático religioso. Fanáticos sempre existiram. O que impressiona é perceber que, no século XXI, depois de tudo o que a humanidade aprendeu, continua perfeitamente possível organizar uma visão do mundo em torno de uma ideia muito simples: esta terra é nossa porque Deus no-la deu. E, se Deus a deu a nós, os outros estão a mais.

Jerusalém não é, neste aspecto, uma excepção da História. Talvez seja apenas um dos lugares onde a História se torna mais visível. Basta pensar em Lisboa.

Depois da conquista da cidade, em 1147, a nova ordem cristã não se limitou a substituir o poder político muçulmano. Mudou também a paisagem religiosa. No espaço onde hoje se ergue a Sé Catedral existiu a Grande Mesquita da Lisboa islâmica, assentando ela própria sobre estruturas ainda mais antigas, reveladas ou confirmadas pela investigação arqueológica. Uma sucessão de povos, crenças e poderes foi deixando ali as suas marcas.

Não é necessário estabelecer uma equivalência moral ou histórica entre a conquista de Lisboa no século XII e o que hoje acontece em Jerusalém. São épocas diferentes, sociedades diferentes, mundos políticos diferentes. Mas há qualquer coisa que atravessa os séculos. O vencedor não se limita a conquistar o território. Quer também conquistar os seus símbolos. A vitória militar parece incompleta enquanto o deus do vencido continuar a ter uma casa de oração no lugar onde agora manda o vencedor.

Uma mesquita transforma-se em catedral. Um templo deve desaparecer para que outro possa ser reconstruído. O espaço que durante séculos foi sagrado para uns passa a ser reclamado como sagrado exclusivamente por outros.

Gostamos de pensar que evoluímos. E, naturalmente, evoluímos. Sabemos hoje coisas que os nossos antepassados não poderiam sequer imaginar. Fotografamos galáxias distantes, manipulamos genes, enviamos máquinas para outros planetas, construímos sistemas capazes de processar quantidades absurdas de informação e comunicamos instantaneamente com pessoas do outro lado do mundo. Mas o progresso técnico não produziu progresso moral.

Podemos usar um telemóvel de última geração e continuar a acreditar que Deus entregou uma determinada parcela do planeta exclusivamente à nossa tribo. Podemos viajar de avião, recorrer à inteligência artificial, fazer uma operação ao coração e continuar a pensar exactamente como pensavam os homens que, há muitos séculos, destruíam os símbolos religiosos dos vencidos para afirmar a superioridade da sua própria fé.

A humanidade pode aperfeiçoar a máquina sem aperfeiçoar o homem que carrega no botão. Continuamos a matar, expulsar e destruir em nome de “certezas” que têm milhares de anos. Em Jerusalém, essa realidade está diante dos nossos olhos. Partilhada nas redes sociais, discutida por políticos e protegida por soldados.

A distância entre a espada de um cruzado que entrou em Lisboa em 1147 e o smartphone de um jovem sionista que defende hoje a destruição de Al-Aqsa parece enorme. Talvez não seja assim tão grande.

artigos publicados sobre a mesquita de Lisboa em Arquivo de mesquita antiga de Lisboa – Duas Linhas

OS MILHÕES QUE SEPARAM O “OLIMPO” DA TERRA

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Os membros dos conselhos de administração das empresas do DAX, que é o principal índice bolsista alemão, ganham, em média, uns confortáveis 3,9 milhões de euros por ano, incluindo bónus. Confortáveis, pelo menos, para quem os recebe.

Segundo uma análise da Associação Alemã de Proteção dos Acionistas (DSW) e da Universidade Técnica de Munique, as remunerações dos gestores de topo aumentaram cerca de 4% em relação ao ano anterior. Em média, os membros dos conselhos de administração das empresas do DAX receberam 42 vezes mais do que os seus trabalhadores.

Mas, como em qualquer campeonato digno desse nome, também aqui há quem consiga destacar-se. Na Adidas, a direção recebeu 106 vezes mais do que um trabalhador médio; na Volkswagen, 75 vezes mais; e na Fresenius, 70 vezes mais. Aparentemente, quanto mais alto se sobe na escada empresarial, mais pequenos parecem aqueles que ficam lá em baixo.

Quando se passa dos membros dos conselhos de administração para os presidentes executivos, as alturas tornam-se ainda mais olímpicas. Segundo a análise, a remuneração média dos dirigentes máximos das empresas do DAX referente a 2025 rondou os 6,14 milhões de euros. O presidente da SAP recebeu 10,9 milhões.

E NOS STATES…

E, contudo, o Olimpo alemão ainda parece uma modesta colina quando comparado com o americano. Nos 30 grupos que integram o Dow Jones Industrial Average, a remuneração média dos dirigentes atingiu cerca de 30,5 milhões de euros. No topo encontra-se David M. Solomon, da Goldman Sachs, com o equivalente a 105,3 milhões de euros, seguido de Satya Nadella, da Microsoft, com 85,5 milhões, e Tim Cook, da Apple, com 65,8 milhões.

Há números que dispensam comentários; estes, porém, quase os exigem.

A palavra mágica utilizada para justificar semelhantes remunerações chama-se concorrência. É preciso pagar muito para conseguir os melhores, argumenta-se. O salário transforma-se, assim, numa espécie de medalha atribuída em função do sucesso empresarial, das expectativas dos mercados e, não raramente, de especulações sobre aquilo que amanhã poderá valer mais do que vale hoje. O problema não está em reconhecer competência, responsabilidade, risco ou mérito; está sim na perda da medida.

Uma sociedade precisa de diferenças para reconhecer responsabilidades e desempenhos diferentes, mas não precisa de abismos. Quando a remuneração de uns se torna possível à custa da crescente desvalorização do trabalho de muitos outros, a diferença deixa de ser apenas económica e passa a ser também uma questão moral e política.

MAS O ABISMO SOCIAL AUMENTA…

Por isso, seria legítimo discutir limites máximos para remunerações desta natureza e perguntar se aquilo que ultrapassasse determinados patamares não deveria reverter, pelo menos em parte, para instituições de utilidade pública. Não se trata de castigar o sucesso, mas de recordar que nenhuma empresa prospera graças a uma única pessoa. Por detrás de cada presidente executivo há milhares de trabalhadores, fornecedores, técnicos, investigadores, consumidores e uma sociedade inteira que disponibiliza escolas, universidades, infraestruturas, segurança e estabilidade. Nenhum deus do Olimpo empresarial construiu sozinho a montanha onde se encontra sentado.

A distância entre o «céu» e a «terra» tornou-se entretanto tão grande que, cá em baixo, o cidadão comum começa a sentir tremuras. Enquanto no Olimpo se discutem milhões, na planície contam-se euros para a renda, para a eletricidade, para os alimentos e para chegar ao fim do mês. E, curiosamente, é precisamente ao povo que produz grande parte da riqueza que mais frequentemente se recomenda moderação, contenção salarial, produtividade, paciência e, naturalmente, satisfação. A moral, ao que parece, continua a viajar em classe económica.

… E NO ENTANTO A MONTANHA É SUSTENTADA POR QUEM ESTÁ EM BAIXO

O êxito económico é necessário e o lucro faz parte da vida empresarial. Mas uma sociedade em que o lucro deixa de ser um instrumento e se transforma no objetivo supremo corre o risco de converter também as pessoas em instrumentos. Quando remunerações milionárias coexistem com trabalhadores obrigados a contar cada euro, já não estamos apenas perante uma questão de mercado, para estamos perante uma questão de humanidade e de medida.

Uma economia que perde a medida acaba por perder também a legitimidade. E uma política que contempla estes abismos como se fossem fenómenos meteorológicos inevitáveis contribui para o descrédito das próprias instituições democráticas. Certamente não será necessário expulsar os deuses do Olimpo. Bastaria recordar-lhes, de vez em quando, que a montanha é sustentada por quem trabalha cá em baixo.

(adaptação de crónica publicada no blog Pegadas do Tempo)

DE MULA ATÉ AO COSMOS

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A história do Big Bang já foi contada inúmeras vezes e começa quase sempre com o mesmo protagonista: o astrónomo Edwin Hubble. O seu legado está imortalizado no mais famoso telescópio espacial da órbita terrestre. Contudo, a maior revolução da cosmologia moderna nasceu do trabalho de um homem improvável, que trocou as rédeas de carga animal pelas lentes do maior observatório do mundo. O seu nome era Milton Humason.

Nascido no Minnesota em 1891, dois anos após Hubble, Humason apaixonou-se pela região de Mount Wilson durante um campo de férias nas colinas acima de Los Angeles. Numa época anterior à massificação dos camiões, o jovem de 14 anos abandonou a escola para se tornar Mule Skinner, conduzindo parelhas de mulas para transportar materiais em terrenos de difícil acesso.

Naquela altura, o céu da Califórnia ainda não sofria com a densa poluição provocada pela inversão atmosférica atual. O ar era perfeitamente estável, ideal para a observação dos astros. Foi ali que começou a ser instalado o telescópio de 100 polegadas de Mount Wilson, a joia da coroa da astronomia que dominaria a investigação científica durante as três décadas seguintes.

O contínuo que fascinou os astrónomos

Humason foi contratado com as suas mulas para carregar a madeira necessária à construção do observatório até ao topo da montanha. O destino, porém, reservava-lhe uma viragem radical. Apaixonou-se por Helen Dowd, filha do engenheiro-chefe do complexo. Casaram-se e, dois anos depois, Humason conseguiu emprego no observatório como contínuo e técnico de limpeza.

Fascinado pela rotina dos cientistas, começou a voluntariar-se nas longas noites de vigília para ajudar a revelar as chapas fotográficas. O seu talento natural e a precisão técnica impressionaram de tal forma a liderança do centro que, em 1919, o diretor George Ellery Hale tomou uma decisão inédita: promoveu o antigo condutor de mulas a membro permanente da equipa de investigação.

Desafiar Einstein nas noites da Califórnia

Em 1915, Albert Einstein tinha publicado a Teoria da Relatividade Geral, demonstrando como a massa de planetas e galáxias distorce o espaço-tempo. Contudo, o próprio Einstein estava firmemente convencido de que o Universo era estático e imutável – um “fixismo” que ecoava o erro dos geólogos da época, que também acreditavam que os continentes nunca se moviam.

O telescópio de 100 polegadas era o único instrumento no planeta capaz de testar a teoria de Einstein. Hubble assumiu a missão, mas faltava-lhe a destreza manual e a paciência para as complexas medições noturnas. Foi a sinergia com Humason que mudou a ciência para sempre.

Noite após noite, era Humason quem apontava o gigante telescópio para os confins do cosmos. O ex-condutor de carroças media o redshift (o desvio para o vermelho), um fenómeno físico onde a luz de objetos em fuga é esticada para comprimentos de onda mais longos, semelhante ao efeito sonoro de uma ambulância que se afasta.

A Expansão de “Hubble-Humason”

Os dados recolhidos por Humason provaram o impensável: quase todas as galáxias se estão a afastar de nós. Quanto mais distantes estão, maior é a sua velocidade de fuga.

Embora a comunidade científica tenha batizado o fenómeno de “Expansão de Hubble” e a métrica de “Constante de Hubble” – já que este assinou o famoso artigo de 1929 -, os registos históricos mostram uma colaboração inequívoca. O artigo imediatamente anterior, submetido à National Academy of Sciences, baseava-se em dados de galáxias distantes obtidos exclusivamente por Humason. Por justiça histórica, o mundo deveria chamar-lhe “Constante de Hubble-Humason”.

Foi esta descoberta que permitiu aos cientistas rebobinar o filme do tempo. Se tudo se está a afastar, significa que há cerca de 14 mil milhões de anos toda a matéria e o próprio tempo estavam concentrados num único ponto. Nascia a teoria do Big Bang – não uma explosão dentro do espaço, mas uma expansão literal do próprio tecido do espaço.

O merecido título de Doutor

“Não sabemos de facto o que aconteceu no início”, admite a cosmóloga de Harvard, Lisa Randall, sublinhando a complexidade intuitiva do tema. Mas sabemos graças a quem o descobrimos.

Em 1950, a Universidade de Lund, na Suécia, corrigiu parte da injustiça histórica ao atribuir a Milton Humason o título de Doutor Honoris Causa. Longe de ser apenas um prémio de incentivo a um jovem promissor, foi o reconhecimento definitivo a uma carreira madura que provou que o Universo tem uma idade finita e uma história para contar. É hora de a história oficial deixar de olhar para Humason como o antigo homem das mulas e recordá-lo como o gigante da ciência que ele realmente foi.

Milton Humason

HÁ CARRASCOS NO BAIRRO!

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os carrascos no Bairro da Pampilheira, Cascais

Poderia considerar-se estranho falar disso, mas não é, porque, de facto, esse bairro nasceu, a partir de meados do século passado, numa zona que era, na verdade, de mato. Hoje, detém todas as características de bairro suburbano; mas nessa rua foi deixada parte da vegetação original – e já se vai explicar a razão do seu interesse.

É conhecido que, no concelho de Cascais, existem várias povoações chamadas Carrascal (Carrascal de Manique, por exemplo, Carrascal de Alvide…), a dar ideia de que o carrasco era aí uma das espécies dominantes na vegetação original do concelho, designadamente nesta sua zona ocidental.

Os carrascos e as bolotas de carrasco

Ora porque é que terá importância, do ponto de vista histórico, além da importância do ponto vista botânico, manter uma vegetação que é original?

É que vive associado ao carrasco (Quercus coccifera, de seu nome científico) um pequeno insecto, a cochonilha-do-carrasco, também chamada o quermes (Kermes vermilio). Ora, a cochonilha introduz-se nos tecidos vegetais e alimenta-se da seiva. Reage a planta à sua presença produzindo uma espécie de tumefacção. Essa estrutura acaba por envolver o insecto, que fica praticamente imóvel. O corpo da fêmea, sobretudo quando cheio de ovos, já os romanos o recolhiam, secavam e obtinham assim um corante vermelho-carmesim que, sub-repticiamente, adicionavam à púrpura verdadeira com que se tingiam os mantos imperiais e as togas dos senadores.

A púrpura era obtida através do que se retirava da «purpura haemastoma», o molusco marinho também chamado «stramonita haemastoma». Dele foram encontradas muitas conchas no povoado romano dos Casais Velhos, perto da Praia do Guincho; e daí se considerar que Casais Velhos, até por aí também se terem encontrado tinas, tenha sido um centro de produção de púrpura. Ora, juntar ao líquido extraído do molusco o resultado da maceração da cochonilha era um bom negócio, porque se vendia o resultado como se fosse púrpura verdadeira!…

Cochonilhas nas folhas de carrasco e a excrescência

Por isso se pugna em manter os carrascais onde eles ainda existem: preserva-se um revestimento vegetal antigo, ligado, neste caso concreto, a uma história antiga também.

A ROMARIA DE NOSSA SENHORA DE ASSEDACE, SERRA DA ESTRELA

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Modesto é o templo  que a voz popular recua a um imemorial tempo e que a ingenuidade de Frei Agostinho de Santa Maria, no seu estimável Santuário Mariano (publicado em diversos tomos nos inícios do séc. XVIII), confessa ali estar desde esse remoto tempo, escapando, por milagre, a uma devastadora praga de formigas, que atacou o vizinho povoado, de onde a gente escapou, indo fundar, mais longe, a povoação de Folgosinho.

Capela de Nossa Senhora de Assedace

Vale a poética da lenda como a dessa outra, que aponta morada de alguma nobreza no corpo da vila onde Viriato, esse aureolado pastor dos Montes Hermínios, demorou.

A Senhora de Assedace tem ali a sua festa, em 7 e 8 de Setembro.

Ali acorre gente com alma de místico ou de poeta, pastores da Serra que ali levam seus gados, romeiros também, que ali fazem desfilar à volta da Capela, nos inícios da manhã, em homenagem à Senhora.

No dia 8 de Setembro, o povo vem, desde o adro da igreja de Folgosinho até ao largo chão da Capela. Cerca de 9 quilómetros andados, mimetizando agora os velhos Caminhos da Transumância. À meia manhã, ali se celebra a missa, com sermão e procissão. O andor da Senhora percorre o adro, de onde a Virgem pode olhar a Serra e estender sua bênção sobre pastores e rebanhos.

Ao início da tarde, o habitual ágape festivo, tantas vezes partilhado. E o Leilão de Oferendas, sob o signo da Irmandade das Almas. Sempre a testemunhada fé de um povo a que ali se oferece um rasgo de Céu em que crê.

UMA SOCIEDADE SEM PRAZO DE VALIDADE

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Ao longo desta série falámos de longevidade, experiência, economia, gerações e das profundas transformações que o aumento da esperança de vida está a provocar na sociedade. Falámos do valor de uma vida mais longa, mas também da responsabilidade que essa longevidade coloca perante todos nós. Talvez, por isso, seja chegada a hora da pergunta mais simples e, simultaneamente, mais incómoda: Porque continuamos a olhar para as pessoas como se tivessem uma data de validade?

A longevidade mudou.A sociedade, porém, ainda não mudou suficientemente com ela. Vivemos mais anos, muitas vezes com melhores condições físicas e intelectuais, com mais conhecimento, mais experiência e, sobretudo, com uma enorme vontade de continuar a participar.
Mas continuamos presos a uma ideia antiga de vida, organizada em compartimentos quase imutáveis: aprender, trabalhar, reformar e envelhecer.

Como se cada etapa tivesse uma fronteira definitiva. Como se, a partir de determinada idade, começasse uma espécie de território social onde já não se espera criação, iniciativa, responsabilidade, desejo ou futuro. É uma contradição extraordinária. Nunca uma sociedade teve tantas pessoas com tanta experiência acumulada e, ao mesmo tempo, parece tão determinada a tratá-las como se já nada tivessem para oferecer.

A reforma, que deveria ser uma possibilidade de reorganização da vida, transformou-se demasiadas vezes numa espécie de certificado de inutilidade social. Deixamos de trabalhar e, demasiadas vezes, deixamos também de ser vistos. Como se o nosso valor estivesse ligado ao recibo de vencimento. Como se deixássemos de contribuir para a sociedade no exacto momento em que deixamos de contribuir para o sistema produtivo.

Mas uma pessoa não é apenas aquilo que produz. É também aquilo que sabe, aquilo que transmite, aquilo que cria, aquilo que ama, aquilo que recorda e aquilo que ainda pode fazer pelos outros. É por isso que precisamos de mudar a pergunta. Em vez de perguntarmos a uma pessoa mais velha aquilo que já não consegue fazer, devíamos perguntar-lhe: O que ainda quer fazer?

Esta simples mudança de perspectiva poderia transformar muita coisa. Porque envelhecer não é desaparecer. Não é deixar de ser necessário. Não é passar silenciosamente para a margem da vida enquanto os outros decidem por nós o que devemos fazer, pensar ou sentir.
Envelhecer é continuar. Continuar a ser pai, mãe, avô, avó, amigo, companheiro, profissional, cidadão. Continuar a amar. Continuar a desejar. Continuar a rir. Continuar a indignar-se. Continuar a aprender. Continuar a criar. Continuar a dizer não quando é preciso. Continuar a dizer sim quando a vida nos chama. E, sobretudo, continuar a ter direito ao futuro. Porque esta é talvez a maior injustiça que cometemos contra quem envelhece: confundirmos o fim de algumas possibilidades com o fim de todas as possibilidades.

É verdade que há portas que se fecham. O corpo muda. O ritmo muda. Algumas perdas chegam. Algumas pessoas partem. Há coisas que já não podemos fazer como antes. Mas há outras que só se tornam possíveis porque chegámos até aqui. Há uma liberdade que nasce da experiência. Uma serenidade que não se aprende nos livros. Uma capacidade de distinguir o essencial do ruído. Uma compreensão das pessoas e da vida que só o tempo consegue oferecer. E há também uma coisa extraordinária: a possibilidade de continuar a surpreender.
Surpreender os outros. E, talvez ainda mais importante, surpreendermo-nos a nós próprios.

Uma sociedade verdadeiramente moderna deveria compreender isto. A longevidade não é apenas um desafio demográfico. Não é apenas uma questão de pensões, saúde, dependência ou sustentabilidade financeira. É uma oportunidade civilizacional. Temos diante de nós milhões de pessoas que podem continuar a contribuir para a economia, para a cultura, para a educação, para a comunidade e para as suas famílias. Pessoas que podem continuar a produzir riqueza, conhecimento, afectos e solidariedade. Mas, para isso, é preciso criar espaço.
Espaço no mercado de trabalho. Espaço na política. Espaço nas universidades. Espaço nas empresas. Espaço na cultura. Espaço na decisão.
E, sobretudo, espaço no imaginário colectivo.

Precisamos de deixar de olhar para a idade como uma fronteira. Uma pessoa de 70 anos pode começar um projecto. Uma pessoa de 80 pode aprender qualquer coisa nova. Uma pessoa de 90 pode continuar a ensinar, escrever, criar, viajar, apaixonar-se ou simplesmente decidir que quer viver intensamente o dia seguinte. Não devemos transformar estes exemplos em excepções extraordinárias. Devemos transformá-los em possibilidades naturais. Porque a idade pode condicionar algumas coisas. Mas não pode determinar o valor de uma pessoa.

Há uma enorme diferença entre envelhecer e ser envelhecido pela sociedade. O primeiro é inevitável. O segundo é uma escolha. E essa escolha pode ser mudada. Também por isso precisamos de aproximar gerações, em vez de as separar. Os jovens têm a energia, a criatividade, a irreverência e a capacidade de questionar que lhes pertencem. Os mais velhos carregam consigo aquilo que nenhuma inteligência artificial, nenhum manual e nenhuma pesquisa consegue reproduzir integralmente: a experiência de ter vivido.
Não são mundos concorrentes. São mundos complementares. Uma sociedade inteligente não desperdiça nenhum deles. Talvez seja aqui que esteja uma das maiores oportunidades do nosso tempo: construir uma verdadeira aliança entre gerações. Não uma sociedade onde os jovens substituem os mais velhos. Nem uma sociedade onde os mais velhos tentam impedir os jovens de avançar. Uma sociedade onde uns e outros compreendam que precisam uns dos outros. Porque ninguém chega ao futuro sozinho. Chegamos sempre carregando alguma coisa de quem veio antes. E deixamos sempre alguma coisa para quem vem depois. É essa continuidade que faz uma sociedade.

Por isso, não queremos apenas acrescentar anos à esperança média de vida. Queremos acrescentar esperança aos anos de vida. Queremos que uma pessoa que se reforma não sinta que a sociedade já não precisa dela. Queremos que alguém que envelhece não sinta que perdeu o direito a começar. Queremos que ninguém tenha vergonha da idade. E queremos, sobretudo, que ninguém seja convencido de que já viveu o suficiente simplesmente porque atingiu uma determinada idade.

Porque viver não é cumprir uma obrigação.
É continuar a descobrir.
Continuar a sentir.
Continuar a escolher.
Continuar a ter amanhã.
Uma sociedade sem prazo de validade não é uma sociedade que pretende negar o envelhecimento.
É precisamente o contrário.
É uma sociedade que aceita o envelhecimento como parte natural da vida, mas se recusa a transformar a idade numa sentença. Uma sociedade que sabe que há fragilidade, mas não confunde fragilidade com inutilidade. Que reconhece a dependência quando ela existe, mas não transforma todas as pessoas mais velhas em dependentes. Que protege quem precisa de ser protegido, mas preserva a autonomia de quem ainda pode decidir por si. Que oferece cuidado sem retirar dignidade. Que oferece apoio sem retirar liberdade. Que reconhece a memória sem aprisionar ninguém no passado.

Porque uma pessoa mais velha tem passado, sim. Mas tem também presente. E tem futuro.
O futuro não pertence apenas aos jovens. O futuro pertence a todos aqueles que ainda têm amanhã.
E enquanto houver amanhã, há possibilidade. Enquanto houver possibilidade, há vida.
E enquanto houver vida, ninguém tem o direito de nos declarar acabados.
Talvez seja essa a verdadeira revolução da longevidade.
Não vivermos simplesmente mais. Mas conseguirmos viver mais tempo com sentido. Não acrescentarmos apenas anos à vida. Mas acrescentarmos vida aos anos. Não mantermos as pessoas vivas por mais tempo. Mas garantirmos que possam sentir-se vivas durante mais tempo.
Há uma diferença enorme entre as duas coisas. E é nessa diferença que se joga uma parte importante do futuro da nossa sociedade. Porque um dia seremos nós a precisar desse olhar. Um dia poderemos ser nós a sentir que o mundo corre demasiado depressa, que a tecnologia já não nos espera, que o mercado de trabalho já não nos quer, que as decisões são tomadas sem nós e que alguém começa a falar connosco como se a nossa idade tivesse diminuído o nosso valor. Nesse dia, talvez não queiramos ser tratados como velhos. Talvez queiramos apenas ser tratados como aquilo que nunca deixámos de ser: pessoas.

Pessoas com memória, mas também com futuro. Pessoas com passado, mas ainda com desejos. Pessoas com rugas, cicatrizes, perdas e histórias – mas também com vontade de continuar. Pessoas que ainda querem dar. Pessoas que ainda querem receber. Pessoas que ainda querem amar. Pessoas que ainda querem ser amadas.

Porque envelhecer não significa deixar de esperar. E talvez uma das coisas mais bonitas que a longevidade nos está a ensinar seja precisamente esta: o ser humano não deixa de ter futuro porque envelhece. O futuro continua a existir enquanto houver vontade de o viver.
Por isso, uma sociedade verdadeiramente moderna não deve perguntar às pessoas mais velhas: “Quanto tempo ainda lhes resta?” Deve perguntar: “O que querem fazer com o tempo que têm?”
A diferença entre estas duas perguntas é a diferença entre uma sociedade que apenas prolonga a vida e uma sociedade que verdadeiramente a respeita. E talvez seja esse o nosso maior desafio. Construir uma sociedade onde ninguém seja descartado porque envelheceu.

Onde a experiência não seja reformada. Onde o conhecimento não tenha prazo de validade. Onde a vontade de participar não tenha idade.
Onde o amor, a amizade, o desejo, a curiosidade, a criação e a esperança não sejam considerados privilégios da juventude. Uma sociedade que compreenda, finalmente, que envelhecer não é afastarmo-nos da vida. É levar connosco toda a vida que já vivemos e continuar a acrescentar-lhe capítulos. Essa talvez seja a responsabilidade que deixamos às próximas gerações.

Não lhes deixar apenas mais anos de vida. Deixar-lhes uma sociedade onde esses anos possam ser vividos com dignidade, liberdade, utilidade, afecto e esperança. Porque um dia serão elas a envelhecer. E nesse dia descobrirão, como todos nós descobrimos, que o tempo não nos pergunta a idade para continuar a passar.
Passa.
Leva algumas coisas.
Traz outras.
Muda-nos.
Mas enquanto continuarmos aqui, enquanto houver uma manhã para acordar, uma pessoa para abraçar, uma ideia para defender, uma palavra para dizer, um lugar para conhecer ou simplesmente uma vontade de ver o dia seguinte chegar, a vida não terminou. Pode ter mudado. Pode ser mais lenta. Pode ser diferente. Mas continua a ser nossa.
E é por isso que talvez a verdadeira revolução da longevidade não seja viver mais anos. Seja conseguir construir um mundo onde esses anos continuem a pertencer a quem os vive. Uma sociedade sem prazo de validade. Porque nós também não temos.