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OS MESTRES SEM DISCÍPULOS

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imagem construída com recursos IA

Hoje, porém, vivemos um paradoxo inquietante. Nunca houve tantos homens e mulheres portadores de experiência, saber e memória. Nunca houve tantos mestres disponíveis para ensinar. E, no entanto, raramente se criam condições para que essa transmissão aconteça.
Ao atingir determinada idade administrativa, milhares de cidadãos são empurrados para fora dos espaços onde durante décadas aprenderam, ensinaram, lideraram e inovaram. Não porque tenham perdido capacidades, mas porque um calendário decidiu que o seu tempo terminou.

A sociedade não os expulsa de forma declarada. Limita-se a deixá-los à margem. E, com isso, perde muito mais do que imagina
Perde conhecimento que não está escrito em manuais. Perde experiência adquirida em anos de sucessos e fracassos. Perde a sabedoria prática que ajuda a evitar erros e a encontrar soluções.

Uma comunidade que não escuta os seus mestres não está apenas a desvalorizar o passado. Está a enfraquecer o futuro.
A verdadeira riqueza de uma sociedade não se mede apenas pela juventude das suas gerações. Mede-se também pela sua capacidade de aproveitar a experiência daqueles que já percorreram longos caminhos.

Quando os mestres ficam sem discípulos, todos perdem. Perdem os mais velhos, porque deixam de poder partilhar o que sabem. Perdem os mais novos, porque deixam de ter acesso a um património humano insubstituível.
Talvez esteja na altura de recuperar uma ideia antiga, mas profundamente moderna: o conhecimento só cumpre plenamente a sua missão quando é transmitido.
Porque a experiência que não é aproveitada transforma-se em silêncio. E uma sociedade que transforma os seus mestres em silêncio está, sem o perceber, a renunciar a uma parte da sua inteligência coletiva.

SEREIAS NO ALENTEJO

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Um rebanho algures no Alentejo, protegendo-se da calma

Escrever sobre o Alentejo é navegar num mar de ilhas conhecidas, umas melhor que outras, vistas através da bruma do tempo, com súbitas revelações onde já nada esperávamos. Assim, passei o Tejo, muito pelo interior, evitando a confusão do litoral e admirando-me novamente por existir o silêncio das paisagens, uma aldeia aqui, um rebanho de ovelhas mais além. Até Estremoz, onde, como em Coimbra, paira a memória de uma Rainha.

Estremoz

Avistado o castelo e o casario amuralhado que o rodeia, logo as memórias voltam, como as andorinhas, aqui muito mais numerosas que nas margens do Mondego, memórias de dois tempos marcantes da minha vida. Do tempo em que era criança e tinha brinquedos que custavam o que um ganhão recebia por um mês de trabalho, quando o tinha. Desse tempo guardo muitas memórias, da casa grande sobre a praça, do velho café “Águias dʼOuro”, onde ia com meu Pai, café hoje encerrado, talvez desaparecido para sempre e com ele uma parte do meu tempo vivido e revivido nos anos sessenta. Desapareceu também a árvore do caramanchão do centro do jardim, onde entretive horas da minha infância, jardim em que o busto do fundador da Cruz Vermelha deu origem a uma polémica regional nos já tão longínquos anos cinquenta. Coisa para historiadores ou para quem vive ainda do que sobrou desses tempos. Valha-nos a honrada açorda alentejana, como a lembrou Ramalho Ortigão, e aquele tempo sem tempo, luminoso e quente.

A segunda vivência, rápida e densa, tem que ver com o Regimento de Cavalaria, onde cheguei em Maio de 1965, na perspectiva da mobilização para África. A Unidade ainda se mantem em Estremoz, felizmente, e a minha atribuição ao RC 3, que foi decisiva para a minha vida, pois aqui conheci a minha futura mulher, também ela passageira na cidade, mostra como o que decide os nossos destinos não depende, minimamente, da nossa vontade. Junto ao quartel, o Lago do Gadanha lá continua, enriquecido por uma profusão de jactos de água, brilhante de luzes durante a noite, água que sempre teve um lugar na história do Alentejo e de Estremoz, que ostenta no seu brasão os dois reservatórios que os romanos aqui construíram, um dos quais – o Tanque dos Mouros – ainda se pode ver junto à estrada para Elvas. Também neste caso os Mouros ficaram com os louros da construção, como é habitual tradição popular. E é de romanos que vos quero falar, agora de águas salgadas navegadas por heróis de mito, como o que está presente no mosaico da villa romana de Santa Vitória do Ameixial, aqui bem perto de Estremoz, no cenário esquecido da formidável vitória ganha sobre o exército espanhol em 8 de Junho de 1663.

Água, mármore e luz, no Lago do Gadanha

Este sítio arqueológico tem história complicada, desde a sua descoberta no início do século passado. Entre os materiais nele encontrados, em parte exilados no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, conta-se o grande mosaico de Ulisses, presentemente em restauro no Museu Nacional de Conímbriga, onde quase foi vítima da tempestade Kristin. Mas voltemos ao Alentejo e ao mosaico, decerto obra de artistas itinerantes idos da capital lusitana, Mérida, a cujo território pertenceria a área de Estremoz. A representação do tema, um muito famoso episódio da Odisseia homérica (Fig. 4), segue um modelo muito divulgado no mundo romano. O herói escuta as sereias atado ao mastro do navio, enquanto os tripulantes, aqui em posição incorrecta, remam, nada ouvindo por terem os ouvidos tapados com cera, atitude que, se os preservou da insanidade, também os impediu de ouvir belas melodias.

Ulisses e as sereias num vaso ático do século IV a.C. (British Museum)

Que fazer, quando não há subterfúgio possível? As sereias nada têm a ver com as das suas representações nórdicas, de que a Sereiazinha de Copenhaga é a mais famosa, suspirando sob as brumas pelo sol meridional. São figuras passariformes, empoleiradas nos rochedos onde faziam naufragar os navegantes inebriados pelo seu canto, nada bonitas, pois o artista pretendeu transmitir uma tensão repulsiva que oprime o observador.

O mosaico de Ulisses da villa romana de Santa Vitória do Ameixial

Não sendo uma obra-prima reflecte bem a difusão de temas clássicos pela Lusitânia e o gosto que por eles tinha a classe que os podia encomendar. Espero que o restauro em curso compense o mosaico dos maus-tratos que antes sofreu. Seria excelente para a Arqueologia e para Estremoz que se construísse um centro de interpretação junto das ruínas, onde agora se verificam novas escavações, e que nele fosse recolhido o mosaico. Já é tempo de Ulisses terminar as suas deambulações e perigosas aventuras, regressando à terra alentejana, onde afinal sempre houve sereias.

Não visitei as ruínas, pois preferi retomar nestes dias o contacto com Estremoz e outros sítios em torno, como o Convento de S. Paulo, na Serra da Ossa, por onde andou Frei Manuel do Cenáculo, um dos pioneiros da Epigrafia luso-romana. É deveras estranho, pode ser doloroso, revisitar espaços que fizeram parte da nossa vida e não conhecermos ninguém, estrangeiros numa terra não estranha, apesar da perda, ou recusa, de locais de referência. Não visitei a Mata, em requalificação, como não consegui ir até ao muro, agora derruído, frente à Torre de Menagem onde fotografei pela primeira vez a minha futura mulher. Não vos falarei dos museus de Estremoz, que os tem, pois não pretendo traçar um roteiro turístico. Também recusei o impulso de entrar no átrio da antiga Escola Industrial e Comercial, onde a conheci, numa noite longínqua de 1965, no meu segundo tempo de Estremoz. Não estarei já na altura de voltar a ouvir as sereias e esquecer o resto? Fui até à Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Olivais, outro sítio de memória nos arredores da cidade, e ali voltei atrás e agradeci, sentindo a solidão, o que me foi concedido.

Um ramo de flores junto à soleira da Capela de Nossa Senhora dos Olivais

Depois fui até Évora Monte, que visitei pela primeira vez. Estive lá perto, acampado durante duas semanas, durante a fase final de instrução do Batalhão de Cavalaria 1868. Tantas vezes vi o castelo de Évora Monte, em fim de tarde, da praça frente à torre do alcácer estremocense! E mutos anos antes, em Évora, quando descia para a Escola de S. Mamede, lá estava Évora Monte ao longe, ocultando-me o que eu mais desejava ver, Estremoz. Uma autêntica baliza entre dois espaços, não apenas geográficos e temporais, mas entre dois mundos interiores. Subi ao castelo de Évora Monte e vi uma povoação deserta, deserta, alcandorada no seu Monte e ali vi bem Estremoz sem conseguir ver Évora. Tempo inverso, que tempo, negando a completude? Um pouco como os companheiros de Ulisses, remando ao contrário no seu navio, que viram, mas não ouviram.

Mais importante que ver e ouvir, e hoje em dia há tantas luzes e tantos sons, que bem podem ser cantos de sereia, é sentir, e nestes dias senti o Alentejo tomar conta de mim, embalar-me, e voltei a um tempo em que ouvi sereias e com elas me encantei e encontrei. Passei o Tejo, agora em sentido contrário, em direcção à rotina conimbricense e, não sei como, pareceu-me ouvir uma melopeia que me sussurrava: regressa, regressa… Provavelmente algumas vibrações que a viatura criou ao deslizar sobre o paredão da barragem, onde o Tejo contava histórias sobre o romano que o venceu, não muito longe dali, em Alcântara.

AUTO DE RECONSTRUÇÃO DA NOVA GRANJA SOBERANA

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imagem construída com recurso a IA

DATA: O Primeiro Dia de Sol (Ano Zero da Limpeza do Veneno)
LOCAL: Território de Portugal (Livre da Corja, do Mofo e do Lodo)
PRESENTES: Os Mestres da Alma, do Génio e as Ovelhas Despertas

Lavra-se o presente documento para constar que, após a execução da sentença condenatória que atirou a bestiesa de fato e gravata para a cova da História, a pátria foi refundada. O império do “elóquio barato” e do “plenismo” foi formalmente desmantelado. A partir desta data, a governação deixa de ser o banquete dos parasitas e passa a ser a Sagrada Forja do futuro comum.

ARTIGO I: Da Higiene e Destruição do Tacho

  • Extinção do Fofo: Fica proibida a existência de poltronas de cabedal, conselhos de administração por conveniência e gabinetes escuros. O governante trabalhará de pé, ao sol, sob o olhar atento e sem distrações do rebanho.
  • Criminalização da Fala de Seda: Qualquer discurso que utilize mais de três adjetivos vazios ou gráficos de Excel manipulados será considerado tentativa de burla patriótica. A punição imediata será o manuseio obrigatório da picareta de limpeza pública.
  • Erradicação da Ratazana: Os decretos deixam de ter rimas, ranhuras ou notas de rodapé feitas à medida do cliente. Toda a lei que não couber numa folha de papel claro e acessível ao mais simples dos cordeiros será queimada para aquecer a forja.

ARTIGO II: Das Obrigações do Rebanho Desperto

O “voto distraído” que outrora alimentava o tirano fica extinto por obsolescência moral.

  1. O Fim da Servidão: Nenhuma ovelha se vergará ao que o mestre quiser. O brio deixa de ser um mito de milénio e passa a ser o código de conduta diário.
  2. A Autodefesa do Couro: Fica estabelecido o direito ao coice absoluto e ao “Não!” regulamentar sempre que qualquer abutre tente rebatizar a tosquia de “reforma estrutural”.
  3. A Partilha do Chão: O solo da nação, antes vendido a troco de subvenções e cunhas em Bruxelas, pertence agora a quem o trabalha, o escreve e o honra.

ARTIGO III: O Triunfo dos Quatro Pilares do Espírito

A arquitetura da Nova Granja Soberana será sustentada pela herança viva dos mestres que varreram a escumalha:

Pelo Traço de Pessoa: Portugal será plural, forte e partido em mil ideias brilhantes, mas nunca mais fragmentado em mil secretarias de submissão.

Pelo Grito de Régio: A dignidade do cidadão será medida pela sua capacidade de recusar a gamela do Estado e trilhar o seu próprio caminho livre.

Pela Vassoura de Almada: A cultura e a arte serão o combustível da ação, mantendo o povo limpo do mofo servil e alerta contra novas invasões de esgoto.

Pelo Sopro de Pascoaes: O país sai definitivamente do seu luto histórico. As quinas do brasão voltam a brilhar sem as manchas de veneno da antiga cleptocracia.

ENCERRAMENTO DO AUTO

E por ser verdade, e para que produza efeitos imediatos na alma de cada cidadão livre, assinam o presente auto todos os que se recusam a ser pó nas mãos de quem caga por cima da História.

(Assinado com tinta de ferro incandescente e sangue digno)

O VOSSO VOTO É O MEU PRÓXIMO CARRO

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colagem fotográfica

Boa noite. É com um enorme desprezo disfarçado de profunda emoção que me apresento hoje diante de vós. Olho para este mar de cabeças vazias e o meu coração enche-se de alegria. Afinal, a vossa ignorância é o meu plano de reforma!

Obrigado. Do fundo do meu bolso, muito obrigado.

Agradeço à divina matemática do sufrágio universal. Que invenção maravilhosa! Um sistema genial onde o voto de um gajo que lê tratados de filosofia e o voto daquele que tenta comer a sopa com um garfo valem exatamente o mesmo. É a vossa paixão pela média aritmética que me permite estar aqui hoje, de fato à medida e gravata de seda, a rir-me na vossa cara.

Vocês são incríveis. Se eu vos disser que o sol é feito de gelo e vos prometer um subsídio para comprar cachecóis, vocês não só acreditam, como fazem uma manifestação para proibir o protetor solar! É o império do vosso “Sim, senhor”. Para quê perder tempo com o “Porquê”, não é verdade? Dá muito trabalho a pensar. Dói a cabeça. É muito melhor marchar atrás do pastor, enquanto abanam alegremente as vossas bandeirinhas de plástico.

Olho para este boletim de voto e vejo o vosso fetiche favorito. Uma folha de papel que vocês assinam com cuspo, acreditando mesmo que estão a decidir o rumo da pátria. Nós perguntamos ao vosso estômago o que a vossa mente deveria ditar. E depois? Depois o navio afunda-se, os impostos sobem, a saúde colapsa, e vocês ficam muito espantados no sofá a ver o telejornal. “Como foi possível?”, perguntam-se, com os olhos muito abertos. Foi possível porque vocês votaram em mim, seus patetas!

Agradeço especialmente aos mortos que continuam nos cadernos eleitorais e votam sempre no meu partido. Agradeço aos preguiçosos que ficam na praia, aos odiosos, aos invejosos e aos que votam por medo. Vocês são o meu combustível.

Amanhã, quando os resultados forem oficiais, eu serei eleito. Serei mais uma mancha na vossa inteligência coletiva. Quando se olharem ao espelho e ficarem horrorizados com o monstro que criaram, eu sei exatamente o que vão fazer no próximo domingo de eleições: vão correr para as urnas para votar em mim outra vez. Porque no vosso circo, meus caros, os palhaços mudam, mas o bilhete pagam-no sempre vocês.

Viva a Democracia, viva o vosso canibalismo, e que Deus vos guarde… bem longe da minha conta bancária!

Malta, podem fechar as urnas e trazer o champanhe! Já ganhámos isto!

PEGAR O TOURO PELOS CORNOS

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Imagem descritiva, fotomontagem

Para que não se coloque qualquer dúvida, os partidos políticos devem ser o exemplo do correcto funcionamento das instituições, assim como ter uma cultura de rigor e de qualidade nos seus quadros. A democracia fortalece-se com partidos e a sociedade exige que eles estejam acima de suspeitas. Se tal não acontecer, os eleitores encarregam-se de os mudar, a bem ou mal, como venho a escrever desde há cerca de 20 anos. E podem ser mudados de duas formas, os eleitores optarem por novos partidos, que lhes garantam uma governação sem mácula, ou escolherem uma opção musculada de governação que restrinja os direitos, liberdades e garantias.

Por outro lado, a Justiça deve ser independente, justa, célere, cega, visando a protecção de bens jurídicos que tenham dignidade penal, sem pulsões de interferência na vida política.

Lamentavelmente, por um ‘azar dos Távoras’, ficamos com a sensação de que existe uma agenda política na acção de alguns sectores da Justiça. E, como dizia Salazar, ‘em política, o que parece, é’. Vejamos alguns factos: a 7 de Novembro de 2023, o MP efectuou buscas em diversos locais, nomeadamente no Gabinete do então Primeiro-Ministro, no Ministério das Infraestruturas, no Ministério do Ambiente e Acção Climática, na Câmara Municipal de Sines e na sede do Partido Socialista.

Foram emitidos mandados de detenção para diversos arguidos, os quais acabaram por ficar em liberdade, depois de dias detidos, tendo sido aplicadas medidas de coação não privativas da liberdade.

Na sequência desta acção do MP, a PGR emitiu um comunicado, em que admitia que o António Costa estaria a ser investigado, o que levou à dissolução da Assembleia da República e à queda do Governo.

Em 24 de Janeiro de 2024, o país tomou conhecimento de uma megaoperação policial que levou para a Madeira, num avião da Força Aérea, 140 inspetores da PJ e 10 peritos da polícia científica aos quais se juntaram dezenas de inspetores da Judiciária local, para realizarem centenas de buscas. Da operação resultaram três detidos.

O processo viria a ter como quarto arguido o próprio presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, que não foi detido pela imunidade parlamentar conferida pelo cargo.

Realizaram-se, na sequência desta investigação, eleições regionais e Miguel Albuquerque voltou a vencer, sem maioria absoluta.

A todos os arguidos, após passarem alguns dias detidos, foram aplicadas medidas de coação não privativas da liberdade.

No dia 28 de Maio, o Ministério Público, com o recurso a 400 inspectores e a sete magistrados do Ministério Público, desencadeou uma enorme operação, à qual as televisões deram um destaque permanente, com buscas em Juntas de Freguesia, residências particulares e na sede do Partido Socialista.

Foram detidas cinco pessoas, uma delas nem passou uma noite no estabelecimento prisional, tal a imbecilidade da sua detenção, e as outras quatro saíram a meio da tarde do dia 29 de Maio, com a medida de coação mais leve, a do termo de identidade e residência.

Esta decisão do Juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa comprovou a fragilidade dos indícios e das provas cotejadas.

A operação mediática do Ministério Público borregou, foi cilindrada pelo Magistrado Judicial, obrigando a que se pense quais os verdadeiros objectivos desta intervenção musculada, os custos da mesma, sem que, na verdade, houvesse grandes elementos de prova além das notícias que, há cerca de quatro anos, foram objecto de um artigo na revista Sábado.

As televisões, que no dia da operação já pré-anunciavam a prisão preventiva dos detidos, diante do cardápio dos crimes apresentado pelo DIAP, ficaram sem voz, logo que as medidas de coação foram anunciadas.

No dia seguinte à operação, ainda houve uma tentativa, de algumas televisões, em repescar a notícia, pífia, mas acabou logo ali. Morreu de morte súbita e até se ficou com a sensação de que a coisa foi de tal forma leviana que havia a preocupação de fingir que não acontecera.

O que está em causa deixa de ser a investigação a actividades, eventualmente criminosas, de algumas pessoas no âmbito do poder autárquico ligado ao PS e passa a ser a motivação de uma acção investigatória, desproporcionada e sem factualidade evidente que justifique a mesma. O Ministério Público não é um agente político, não pode agir como tal e tem obrigações de cumprimento da legalidade democrática. É isto que se espera de uma magistratura que, enquanto instituição, com autonomia consagrada constitucionalmente, tem uma subordinação hierárquica, igualmente com consagração constitucional.

Tudo isto sem esquecer que os actos, eventualmente praticados, podem não constituir crimes, mas são eticamente reprováveis e, de uma vez por todas, não podem acontecer, porque é a própria democracia que fica em causa.

GAIOLA DOURADA PARA TODOS

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Ricardo Salgado foi condenado a um cúmulo de 13 anos de prisão, a pena fica suspensa na sua execução. A decisão, conhecida no dia 2 de Junho, refere-se apenas a dois dos processos judiciais em que é arguido, a saber: os processos EDP e Operação Marquês. Neste ficou provado que desviou 10,7 milhões de euros do grupo GES. A juíza Ana Paula Rosa deu os factos quase todos como provados e decidiu aquela sentença. Nem por isso o mandou internar num Hospital Psiquiátrico ou cumprir pena no Hospital Prisional de São João de Deus, em Caxias…

Pelo meio, Ricardo Salgado já não estava sujeito a medidas de coação restritivas de liberdade, depois de ter estado em prisão domiciliária, na mansão em Cascais, com vista para o mar. O juiz Carlos Alexandre, em 2015, obrigou-o a pagar cauções no valor de três milhões de euros, as mais elevadas de sempre em Portugal. O castigo maior, no futuro, é que, de seis em seis meses, terá de fazer prova de que continua com Alzheimer.

Mas deixem-me recordar que, em Janeiro, o Tribunal Constitucional (TC) pôs fim ao processo da Operação Marquês, após vários recursos e reclamações da defesa do ex-banqueiro. Os juízes acusaram a defesa de usar meios ‘manifestamente anómalos’ para travar a condenação do ex-banqueiro a oito anos de cadeia.

E cito o acórdão do TC “(…) em consonância com o entendimento do Ministério Público, somos a concordar que a postura processual adotada ‘pelo recorrente/reclamante/requerente, consistente na utilização de meios pós-decisórios manifestamente anómalos (como o legalmente inadmissível recurso para o Plenário e a consequente arguição de nulidade da decisão que não o admitiu), indicia um propósito dilatório que não poderá ser ignorado pelo Tribunal, que dele deverá retirar os necessários efeitos adjectivos’”. Quer dizer que, no exercício do seu direito de defesa, Salgado e os seus advogado usaram mais do que muitas manobras dilatórias para que o arguido nunca chegasse a cumprir pena.

Posto tudo isto, os lesados do BES, independentemente do seu estado de saúde, continuam lesados, e não se sabe qual é a situação económica em que vivem, já que muitos viram o seu pecúlio para a reforma ser ‘gozado’ amplamente por Ricardo Salgado e outros.

Por outro lado, existem muitos outros reclusos em Portugal que sofrem de Alzheimer e nem por isso estão com penas suspensas.

Pronto! A minha sugestão é que o Estado faça da vivenda de luxo em Cascais uma espécie de prisão para, pelo menos, alguns reclusos com Alzheimer. Ponham-se lá uns enfermeiros, uns animadores culturais e neurologistas credenciados, para ajudarem nos cuidados, e assim talvez possa ser reposta alguma Justiça, neste País em que, claramente, há uma para ricos (muito ricos) e outra para pobres.

QUE CADA UM DE NÓS FAÇA A SUA PARTE

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Genocídio em Gaza, antipoemas factuais, do escritor angolano José Mena Abrantes

O nº 43 “O Riso e o Sangue” é um dos meus preferidos. É de uma crueldade absoluta. O nº 43 é um dos 135 textos a que o autor chamou antipoemas factuais. O livro tem um propósito: denunciar o genocídio em curso em Gaza. Diz o autor que espera ter feito a parte que estava ao seu alcance, nessa denúncia urgente. E fez.

Não é um livro de poesia. É um livro de antipoemas. Ou seja, textos com a estética gráfica do poema, mas que podiam ser texto corrido. É uma forma diferente de reproduzir notícias. O conceito de antipoema implica a utilização de linguagem do dia a dia, narrativa prosaica, sem obedecer a métricas ou a rimas.

O autor é José Mena Abrantes, escritor e dramaturgo angolano que, nesta obra, surge como denunciante de atrocidades. Este trabalho já recebeu críticas elogiosas de muitos quadrantes.  

Não me lembro de ter lido antes alguma coisa deste autor, mas o que sei do percurso dele foi ter sido assalariado durante décadas de instituições do regime de Angola. Nunca ouvi falar de alguma crítica dele ao regime, nem isso seria possível, tendo ele sido figura do aparelho de Estado angolano, onde trabalhou diretamente na Presidência da República de Angola, em cargos de grande proximidade com o poder, nomeadamente como assessor de imprensa, secretário para a comunicação e consultor de José Eduardo dos Santos. Foi também um dos fundadores e diretor-geral da agência oficial de notícias do país, a ANGOP. Um homem de um  regime que tem sido criticado por autoritarismo e corrupção.

Nada disso impede agora José Mena Abrantes de vir a terreiro acusar Israel pelo genocídio em curso em Gaza. A denúncia é urgente e deve ser feita por todos nós. Tal como o autor, também nós temos o dever de fazer a nossa parte nessa empreitada na defesa dos direitos humanos.

Mas fica difícil aceitar que um escritor denuncie apenas a injustiça e a opressão quando ocorrem noutras geografias e silencie as injustiças que se passam no quintal da sua própria casa há décadas.

Enquanto leitor tenho de sentir que existe um pacto de verdade entre quem escreve e quem lê e não gosto de suspeitar que o autor escolhe a dedo quais as opressões que merecem o seu repúdio. No entanto, percebo que fica difícil morder a mão de quem nos dá de comer.

Alguns destes 135 antipoemas são interessantes, mesmo se nem todos são convincentes em termos literários. Pela denúncia todos eles valem mais alguma coisa.

SINTO-ME INQUIETO

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Aqueles que assistiram há uns 50 anos, na televisão, à série Star Trek (O Caminho das Estrelas), lembram-se certamente de ver o comandante Kirk a falar com o computador central da nave Enterprise, sempre que surgia algum problema mais grave ou algum imprevisto que pudesse colocar em perigo a sobrevivência do grupo.

Hoje, quando falamos com a Inteligência Artificial do Google, estamos a fazer a mesma coisa. Perguntamos e a máquina responde. A máquina corrige-nos, a máquina aconselha-nos, a máquina ajuda-nos.

A tripulação da Enterprise
Gene Roddenberry, produtor da Star Trek

O que eu acho espantoso já não é a existência desta “coisa” que interage connosco, mas o facto disto ter sido antecipado por um novelista, um tipo que escrevia guiões para séries de televisão. Acho legítimo perguntarmos se o escriba imaginou mesmo ou se o guião lhe foi ditado por alguém.

Boa parte daquilo a que chamamos ficção científica e que serve de base para livros e muitos filmes de Hollywood, acaba por surgir na vida real pouco depois como avanço tecnológico. Não são apenas viagens no espaço sideral, são também os satélites civis e militares, a espionagem eletrónica, o reconhecimento facial, armas de tiro laser, automóveis sem condutor, cirurgias à distância, robots.  Hoje, pegamos no telemóvel e dizemos em voz alta “se eu perguntar alguma coisa, você responde?” e “aquilo” responde-nos…

Não sei se gosto de me sentir “comandante Kirk”. Primeiro, falta-me a Enterprise. A minha nave espacial tem 4 rodas e não passa dos 130 kms por hora. Depois, porque tenho medo do que aí vem. Se nos lembrarmos da série televisiva, sabemos que além do computador que resolvia todos os problemas, havia também um robot autoconsciente que procurava entender a humanidade, um “holograma médico de emergência” que surgia quando eles chamavam pelo “Doutor”, um programa computorizado que desenvolveu personalidade, sentimentos e ambições artísticas e um arsenal de armas capaz de destruir qualquer planeta que acoitasse inimigos.

No Caminho das Estrelas antecipou-se tudo isto. Uma parte já é realidade, a outra está a caminho de ser. Isto não pode ser por acaso. Hollywood sempre seguiu uma cartilha propagandista do American Way of Life que abarca a ação ‘benévola’ do Pentágono perante os vários inimigos que, simplificando, começaram por ser os alemães nazis, passaram depois a ser russos e são, agora, chineses.

Mas antes mesmo da série ser produzida para televisão, lembro-me de um livro que também deve ter sido escrito por algum bruxo adivinhador.

Jean Raspail escreveu Le Camp des Saints em 1970, uma história onde uma horda de imigrantes africanos e asiáticos atravessavam o Mediterrâneo em direção à Europa que os recebeu mal. O livro constrói um cenário político distópico, apocalíptico, de morte física e moral, do desaparecimento de sentimentos humanistas. Estamos também a assistir a isso.

Imigrantes desembarcam numa praia em Espanha, depois de atravessar o Mediterrâneo em embarcações precárias
Nem todos chegam vivos às praias da Europa

Tudo junto, não sei se a espécie humana vai ter um bom futuro.

CARTAS JOCOSAS

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FEIRA DA LADRA. revista mensal ilustrada, publicada em Lisboa, entre 1929 e 1942,

Certo official de Carpinteiro, que anda tomando as suas medidas para acceitar de empreitada huma Obra, em que terá que fazer toda a sua vida, havendo experimentado algumas contradições, resolveu declarar-se com todos os instrumentos da sua Arte, o que fez, escrevendo a seguinte Carta.

“Minha Senhora, por certo que entendia eu, que chegando a avistar a avultada estancia da sua formosura, acharia nella os compridos barrotes dos seus favores, e as maiores vigas das suas finezas, mas como só encontro com as duras taboas da sua esquivança, quanto mais lhe metto a serra da minha firmeza afiada com a lima da minha diligência,então tópo mais com os duros nós dos seus desprezos, os quaes fazendo estalar a folha da minha ventura, me fazem quebrar a corda da minha esperança; pois quando me julgava subido aos altos andaimes da sua estimaçaő me vejo precipitado das roupas da sua tyrania, e posto no chaő do meu abatimento, onde junto Banco do meu triste fado,escavando com a enxó da minha desgraça, os contínuos serrafos do meu cuidado, a pesar da juntira da minha efficacia, faço em cavacos o meu coracaõ; espalhando-os pela terra das minhas tristezas, alli lhe pega o fogo do meu zelo, ardem em labaredas as aparas da minha lembrança, deixando as vivas brasas em cinzas, para o meu esquecimento.

Porém medindo com o compasso do meu sentido, a dura prancha da sua ingratidaõ, poderá ser que com a plaina da minha constancia, possa devastar a grossura dos seus desdens, e com o formaő do meu agrado possa ir abrindo brexa no duro tronco do seu peito, e vendo a senhora a ferramenta das minhas finezas, com que intento trabalhar nas portas dos seus ouvidos, e abrir as formaes janellas dos seus olhos,talvez que entaõ conheça, que as verrumas das minhas instancias, é o martelo do meu affecto, sabem pregar naõ só os tornos dos meus affagos, mas também os pregos dos meus carinhos, pela grossa madeira da sua rebeldia, e segurando-me a propriedade da sua gentileza, poderá fazer alguma obra o meu amor; porque lembrando-se a Senhora que a seu respeito tenho gasto o importante jornal das minhas lágrimas, visto tomar de empreitada o querer-lhe bem, irei quebrando as travessas das suas ingratidões, que seguraraõ os postigos dos seus repudios, e entaõ naõ porá mais taixa á minha innocencia.

Desde modo fazendo-me de engonços para a servir farei feixos dos mais extremos, e para a prender irei lançando a regua é o prumo do meu sentido, em todas as obras do seu agrado, e sendo o meu nome o Bixo carpinteiro, que por sua ventura se disvela, será tambem o Mestre d’Obras que me ensine a adoralla, para que na prompta mediçaõ dos seus preceitos, veja a Senhora bem avaliadas as obras dos meus serviços, e eu bem pagos os rendimentos da minha obidiencia &.”.

(Assinado) Guilherme da Serra Madeira

MORAR NA RUA KWAME NKRUMAH

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fotomontagem

Moro numa rua com o nome de Kwame Nkrumah, em Luanda. Durante algum tempo, esse detalhe pareceu-me apenas mais um elemento da paisagem urbana, daqueles que fazem parte da rotina e aos quais raramente prestamos atenção. Sabia vagamente quem foi Kwame Nkrumah; o nome estava lá, no GPS, nos documentos, nas indicações dadas aos taxistas: Rua Kwame Nkrumah. Simplesmente isso.

Mas as datas comemorativas, neste caso o Dia de África, celebrado no 25 de maio, têm essa particularidade: obrigam-nos a olhar novamente para detalhes e símbolos que a pressa do quotidiano teima em tornar invisíveis. Quem foi realmente Kwame Nkrumah para merecer ter ruas espalhadas por várias cidades africanas? E por que continua o seu nome presente, décadas depois da sua morte, no imaginário político do continente?
Nkrumah não foi apenas o primeiro presidente do Gana independente. Foi uma das principais figuras do Pan Africanismo, corrente política e intelectual que defendia a união dos povos africanos contra o colonialismo, a exploração e a fragmentação herdada da ocupação europeia.

Hoje fala-se muito de integração africana, livre circulação e cooperação regional. Mas Nkrumah defendeu isso numa época em que muitos países africanos ainda eram colónias. Para ele, a independência de um único país nunca seria suficiente enquanto o continente permanecesse dividido e submetido a interesses externos.
Talvez por isso o seu pensamento continue atual. Não por nostalgia revolucionária, mas como advertência. A unidade africana de que falava não significava uniformidade política, mas sim cooperação séria, autonomia económica e consciência histórica, objetivos que continuam longe de ser plenamente alcançados.

E Angola? Que ligação teve Nkrumah com a independência de Angola? Historicamente, não se pode afirmar que ele tenha tido um papel direto na independência de Angola. Não combateu nas matas, não liderou movimentos em Angola, nem participou diretamente nas negociações que conduziram à independência. Mas seria igualmente injusto negar a influência do seu pensamento.
O Pan-Africanismo ajudou a criar consciência continental em torno das lutas de libertação africanas. Numa época em que Portugal insistia em chamar “províncias ultramarinas” às suas colónias, vozes como a de Nkrumah ajudavam o mundo a perceber que o que existia em Angola era uma luta legítima pela autodeterminação. Mais do que apoio militar, Nkrumah ofereceu legitimidade política e inspiração ideológica. E isso também conta na História.

Mais de cinquenta anos depois da independência de Angola, o continente continua dividido entre enormes potencialidades e velhos desafios. África possui recursos naturais abundantes, uma juventude vibrante e uma riqueza cultural invejável. Ainda assim, permanece economicamente dependente, politicamente vulnerável e frequentemente fragmentada nos seus interesses estratégicos.
O continente africano continua distante do sonho pan africanista imaginado nos anos 60. As fronteiras permanecem difíceis para muitos africanos, as economias excessivamente dependentes do exterior e os conflitos internos persistem. Apesar disso, há uma ideia que resiste: a de que África ainda pode construir um destino comum. Talvez seja essa a verdadeira razão pela qual nomes como Kwame Nkrumah continuam gravados nas ruas de tantas cidades africanas. Não apenas para homenagear o passado, mas para lembrar uma promessa ainda por cumprir.

O Dia de África deveria servir precisamente para isso: menos pompa e circunstância, mais reflexão. Porque celebrar África não é apenas recordar a libertação do passado; é questionar se o continente conseguiu realmente libertar-se das novas formas de dependência que substituíram as antigas.
Ao caminhar pela rua que leva o seu nome, penso muitas vezes numa das grandes ironias africanas: homenageiam-se os defensores da unidade continental, mas persistem divisões políticas, económicas e até mentais que enfraquecem o continente.

Nkrumah sonhava com uma África unida. Morar numa rua Kwame Nkrumah é, afinal, conviver diariamente com perguntas históricas: será que os africanos ainda acreditam nesse sonho? E que África querem deixar às próximas gerações?

composição gráfica