Arqueólogo em campo pode sempre agradar-lhe a companhia, mas o seu olhar é como diziam os Antigos, a propósito de negócios de feiras: «Um olho no burro, outro no cigano!» (salvo seja!). O achado desta pedra é disso prova bastante!
E o pior é que isso é mesmo vírus que se pega! Quem, alguma vez, acompanhou arqueólogo em prospecção pelos campos é muito capaz de ficar com a moléstia de tudo querer ver com atenção. Já o mesmo se passa quando levamos uma turma a visitar um sítio arqueológico: há sempre um dos estudantes que, a dado passo, vê no chão um caco ou uma pedrinha fora do normal e corre junto do professor: «Isto tem interesse, sôtôr?».
Boa moléstia, esta, que também atacou Fernando Moreira, que acompanhara José Carlos Santos, em algumas deambulações com vista à elaboração da Carta Arqueológica de Tabuaço, que a respectiva Câmara Municipal viria a publicar em 2025.
Pois Fernando Moreira falara, recentemente, a José Carlos Santos da existência de um silhar almofadado, reaproveitado na Casa da Colegiada, de que se deu conhecimento aqui.
Sucede que, depois de se visitar o imóvel, na companhia da mãe da proprietária, se encontrou mais um bloco de granito almofadado. Blocos almofadados, esclareça-se, são sempre boa ‘isca’ para um arqueólogo, na medida em que, constituindo um tipo de aparelho muito usado pelos Romanos, pode indiciar a presença, por perto, de mais vestígios dessas eras, eventuais construções onde tais pedras possam ter sido aproveitadas.
Acontece, porém, que os achados não se ficaram por ali: semanas depois, o mesmo Fernando (bem haja!) enviou fotografias de várias pedras que lhe chamaram a atenção, aquando da demolição da fachada voltada a noroeste do edifício (em fase de restauro). Uma delas despertou particular interesse, por aparentar ser uma ara romana. E, na verdade, tudo leva a crer que o será! O tão desejado primeiro monumento epigráfico romano identificado no concelho de Tabuaço!..
A Casa da Colegiada fica em Barcos, localidade que pertence, administrativamente, à União das Freguesias de Barcos e Santa Leocádia. Penhoradamente se agradece à sua proprietária, D. Bertilina Ferreira, as facilidades concedidas para o estudo do monumento.
Trata-se da parte inferior de uma ara de granito de grão fino de tonalidade esbranquiçada. Mede 33,5 cm de altura, 24,5 a 31 de largura e 20,5 a 26,5 cm de espessura. A fractura, oblíqua, ocorreu sensivelmente abaixo da meia altura. Resta, ainda, a moldura da base, nas quatro faces, moldura que seria de garganta reversa seguida de escócia também reversa. Portanto, um monumento a seguir os cânones morfológicos romanos.
A pedra quando foi encontrada
A face principal da ara na posição correcta
Perdeu-se a inscrição que teria na face principal, com letras de leve recorte, se atendermos ao que parece ler-se na última linha: um E quase imperceptível seguido de um amplo X e de V. Na linha anterior, quiçá se terá gravado AEL, mas sem garantia.
EX V deverá desdobrar-se em EX V(oto), «por voto», o que determina estarmos perante uma árula, pequeno altar votivo a uma divindade, cuja identificação estaria na parte superior perdida, onde se deveria ler também a identificação do(a) dedicante, que, em virtude de promessa feita, mandou esculpir o monumento.
A difícil decifração do letreiro…
Em suma: tanto as pedras almofadadas de que já se deu notícia como, agora, este fragmento de ara auspiciam outras descobertas. De muito longe não terão vindo para incorporação na Casa da Colegiada. E, doravante, todos os olhares serão poucos para outros vestígios romanos por aí virem a ser encontrados.
Os países europeus alinharam-se no não apoio à guerra. Depois de Espanha ter afirmado que não permitiria que as bases americanas em território espanhol fossem utilizadas e no seu espaço aéreo passassem aviões dos EUA, vários outros países, incluindo a França, a Itália e a Alemanha, puseram-se de parte numa guerra que, claramente, viola o Direito Internacional. Sobra para nós a vergonha de ceder as Lajes, nos Açores, para a utilização dos drones (MQ-9 Reaper) que, em português e para que não haja dúvidas, são chamados de ‘assassinos’.
A ida de Paulo Rangel à Comissão de Assuntos Europeus na Assembleia da República, no 1 de Abril, parecia uma mentira reportada ao dia das mentiras. Ficou a vergonha alheia de o ouvir garantir que o nosso país não está envolvido nas operações contra o Irão e a utilização da Base das Lajes cumpre o Direito Internacional.
Ah! E tal, sim, claro. Foi por isso, porque está tudo bem, que foi confrangedor ouvi-lo dizer que essa utilização só pode ser feita “em resposta a um ataque sofrido, necessário e proporcional e não vise alvos civis” (as crianças assassinadas pelos aviões americanos, logo nos primeiros dias, deviam ser um alvo militar), ou que “se essas garantias nos forem dadas e puderem ser observadas, estamos tranquilos. Até agora foi isso que aconteceu”. E reina a tranquilidade, sobretudo por duas razões. A primeira porque o primeiro-ministro, Luís Montenegro (o chefe de Rangel) já disse que Portugal “não acompanha, não subscreve e não está envolvido nesta operação” (leia-se guerra), e a segunda porque um dos “amiguinhos” de Rangel, o Secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, já lhe ligou a agradecer e os EUA “registaram a importância da ligação transatlântica, tendo abordado também a relação bilateral Portugal/ EUA, a nível da economia e da defesa”, segundo palavras do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Uma vergonha mesmo. Não porque (e reitero o que já escrevi) pense que o regime iraniano é bom, mas porque nunca permitiríamos, antes do 25 de Abril de 1974, que outras potências viessem dar ordens no nosso país.
Fica a ironia maior quando se olha para o lado se vê Israel, “uma democracia”, como tem sido sobejamente dito, cometer as atrocidades e invasões que estão à vista. Agora, para pôr uma cereja no topo da vergonha, foi aprovada uma lei antiterrorismo profundamente terrorista. Celebrada com champanhe no Knesset, o parlamento israelita, a legislação inclui a pena de morte, que não se aplica a israelitas, para os palestinianos nos territórios ocupados da Cisjordânia. E mais, os condenados à morte ficarão em instalações próprias, sem direito a visitas e os contactos com advogados feitos por videoconferência. A sentença será proferida por uma maioria simples de juízes.
O mundo tem reagido contra esta nova lei. Ah! É verdade, não ouvi ninguém do governo americano pronunciar-se contra, apesar de a pena de morte não poder ser aplicada aos colonos extremistas israelitas que assassinam palestinianos.
Recorde-se que a pena de morte em Israel foi aplicada pela última vez ao criminoso de guerra nazi Adolf Eichmann em 1962.
Vergonha alheia, sim. De um mundo que permite que os governos israelita e americano façam o que estão a fazer com a oposição de alguns, mas não de todos.
A formação na escola era importante, mas deixámos campear a incivilidade social e politica. Claro, essa formação tem que ser dada na escola. A educação? Essa é de casa, de “berço”.
O bufarinheiro proporcionou-se a uma exibição sem precedentes. Queria humilhar os participantes e constituintes da nossa Constituição. Pessoas que estão muito, mas muito acima da sua craveira intelectual. A sua, é a de um mero anunciador parlamentar, de “histórias do absurdo”. Parece ter adeptos, por incrível que pareça.
Entretanto, quando os seus seguidores descobrirem que se está melhor agora do que se estava antes do 25 de Abril, que o país com a extrema direita tinha polícia que reprimia o povo (ao tempo, a PIDE/DGS) e que a direita depois de instalada, vive e viverá para as suas elites, nunca para o povo, então, estes delírios “limpeza” do país acabam num estalar de dedos.
O socialismo liberal democrático é sinónimo de democracia e de progresso. Não venham com velharias ideológicas, porque a democracia caber-nos-á sempre, neste país, por justiça.
O que esta nova lei faz é politicamente revelador. Ao incidir sobre crimes cometidos em contextos específicos e ao flexibilizar os critérios da sua aplicação, abre caminho a uma utilização regular da pena de morte num quadro territorial e político muito concreto. Não sendo formalmente exclusiva, a sua arquitetura aponta para um alvo: os palestinianos.
Quando a aplicação da lei deixa de ser universal e passa a depender do contexto, do território e, na prática, da identidade dos visados, o direito transforma-se num mecanismo de poder. E um sistema judicial que opera sob esse princípio deixa de garantir justiça para passar a gerir desigualdade.
A condenação internacional fez-se ouvir, mas ficou, uma vez mais, pela conversa mole. Bruxelas, Berlim e Paris falaram em “retrocesso” e “discriminação”, num discurso inconsequente. Não há sinais de medidas concretas que ultrapassem a retórica diplomática. E enquanto assim for, o governo liderado por Benjamin Netanyahu continuará a testar os limites do aceitável sem custos reais.
Os EUA continuam a pagar o “seguro de vida” de Netanyahu
Essa inação não é neutra. Ao evitar consequências políticas ou económicas, as principais potências ocidentais contribuem para um ambiente de impunidade. A manutenção do acordo de associação entre a União Europeia e Israel é um dos exemplos mais evidentes dessa dissonância entre discurso e prática. O mesmo se pode dizer da ausência de vontade política para dar execução aos mandados do Tribunal Penal Internacional contra membros do governo israelita por alegados crimes de guerra.
Israel pretende aplicar esta lei a factos ocorridos na Cisjordânia e em Gaza, territórios que não lhe pertencem, mas que mantém sob ocupação militar. Não se trata apenas de uma questão jurídica: é um sinal político inequívoco. Reforça uma lógica de soberania de facto que acompanha, passo a passo, a estratégia de anexação.
Neste contexto, a nova lei é mais uma peça de um sistema em consolidação. Um sistema em que direitos, deveres e punições são progressivamente definidos em função do território, do enquadramento político e, na prática, da identidade de quem ali vive.
A comparação com o regime de apartheid da África do Sul não é um exagero. Tal como então, não está em causa apenas discriminação social, mas a construção de um edifício legal que institucionaliza a desigualdade. Entre 1948 e 1994, o apartheid organizou-se precisamente assim: através da lei que separava pessoas, legitimando a dominação de uma minoria sobre a maioria. A história não se repete de forma mecânica, mas reconhece-se nos padrões. E o padrão que aqui se desenha não é o de uma exceção jurídica, mas o de uma normalização política.
Sobra uma questão. Uma indignação. Como é possível que Portugal e a comunidade internacional continuem a fingir que não vêem?
No Knesset, o ministro Itamar Ben Gvir celebra com vinho espumante a aprovação da lei racista
O serviço da Câmara Municipal de Cascais a que, seguindo os ditames da estranja, optou por se designar Cascais Food Lab – assim uma espécie de «laboratório de comida» – organizou as II Jornadas Portuguesas de Gastronomia, que se revestiram de acentuado interesse.
Primeiro, porque a equipa responsável, chefiada por Cláudia Mataloto, de Cascais, com a mais ampla colaboração de Inês de Ornellas e Castro, da DIAITA, souberam convocar especialistas de várias zonas do País e de variados campos de actividade; depois, porque o programa soube, mui inteligentemente, alternar comunicações e degustação. Por outro lado, o facto de a manhã do segundo dia ter sido passada no ambiente ímpar do Casal Saloio, em Outeiro de Polima, emprestou às jornadas superior encanto, por quase haver permitido uma vivência saloia in loco.
Abriu as jornadas o director municipal de Cultura, João Aníbal Henriques, que, além das palavras de ocasião, sublinhou quanto a Arqueologia se interessa pela comida, porque, num sítio arqueológico, as montureiras, por nelas se acumular toda a espécie de resíduos, mormente alimentares, constituem fonte importante de informação acerca da vida quotidiana.
Tivemos palestras muito eruditas sobre história da gastronomia saloia, aulas de culinária, degustação de “obras de arte” para o paladar de autoria de chefs, recordaram-nos ementas do tempo dos nossos avós, tivemos doces, petiscos, curiosidades culinárias de agora, do passado e de sempre. Foi de “comer e chorar por mais”, acreditem. Mais do que as palavras, o que consagrou a excelência da especificidade culinária saloia foram as iguarias bem seleccionadas e ainda mais apreciadas nas pausas das palestras.
Terminou o 1º dia com a realização de um ateliê de doçaria e petiscos saloios, com os chefs Rui Mota e Leonardo Sousa (Cascais Food Lab). O 2º dia, debruçado sobre o passado, o presente e o futuro da cozinha saloia, teve por palco o Casal Saloio, em Outeiro de Polima, onde, em mesa-redonda, moderada pelo chef Luís Lavrador, se falou de queijos, vinhos, produtos hortícolas e frutícolas. A ementa do jantar foi, naturalmente, inspirada na cozinha saloia, com curadoria do Cascais Food Lab.
Pela mui auspiciosa e alargada troca de impressões e de experiências gustativas que estas II Jornadas Portuguesas de Gastronomia possibilitaram entre investigadores e meros apreciadores da nossa gastronomia, o saldo foi altamente positivo.
A notícia fala no “número dois” do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (SNCGP), que terá desviado mais de 9 mil euros dos cofres do sindicato. As motivações do crime não são relatadas, nem o nome do suspeito é referido.
No entanto, o SNCGP divulgou um comunicado onde esclarece que o dirigente sindical em questão se chama Rui Santos, que já foi afastado da direção do sindicato e que todos os factos apurados foram comunicados ao Ministério Público.
Há textos que não apenas respondem a uma opinião: restabelecem a dignidade da verdade. Foi isso que fez Fernando Vaz, ao enfrentar, com coragem, lucidez e sentido de justiça, uma velha estratégia de negação que regressa ciclicamente sempre que se tenta falar de reparações históricas, de colonialismo, de racismo estrutural e da responsabilidade dos Estados que enriqueceram à custa da escravização de povos africanos.
A sua resposta merece ser saudada. Porque foi clara onde muitos preferem a ambiguidade. Porque foi moralmente firme onde muitos tentam relativizar o horror. E porque disse o que ainda hoje demasiados europeus recusam admitir: a escravatura transatlântica não foi apenas uma página triste da História, foi uma arquitetura internacional de pilhagem humana que financiou impérios, construiu fortunas, alimentou bancos, portos, companhias comerciais, indústrias e Estados modernos.
Não foi apenas escravidão. Foi desumanização organizada. Aqueles que hoje procuram esvaziar o debate sobre reparações recorrem quase sempre ao mesmo expediente: dizem que “a escravidão sempre existiu”, que “também houve escravos em África”, que “não se pode julgar o passado com os olhos de hoje”.
Mas esse argumento é intelectualmente fraudulento. Porque aquilo que a Europa organizou no Atlântico não foi apenas mais uma forma de dominação antiga. Foi uma máquina global de comércio humano, sustentada por leis, teologia, violência militar, finanças, seguro marítimo, classificação racial e uma narrativa de inferiorização do africano que haveria de contaminar séculos inteiros de relações internacionais.
Pela primeira vez em escala planetária, milhões de seres humanos foram transformados em mercadoria racializada, reduzidos a peças, avaliados como ativos económicos, transportados como carga e explorados como força de trabalho descartável.
Isto não foi um desvio. Foi um modelo económico. A riqueza de uns nasceu da amputação histórica de outros. É aqui que o debate sobre reparações se torna incontornável.
Os países que hoje se apresentam como modelos de civilização, democracia, racionalidade económica e prosperidade esqueceram-se, convenientemente, de que uma parte decisiva do seu enriquecimento foi construída com base em captura e venda de africanos, trabalho forçado nas plantações e colónias, extração colonial de matérias-primas, destruição de estruturas políticas e sociais africanas, descapitalização humana de continentes inteiros.
A Europa moderna não nasceu apenas do Iluminismo, da Revolução Industrial ou do génio comercial. Nasceu também do porão dos navios negreiros. Nasceu também do sangue, do suor e da desumanização de milhões de africanos.
E é precisamente por isso que o argumento “isso aconteceu há muito tempo” é moralmente insustentável. Porque o tempo não apaga quando os efeitos permanecem vivos. A injustiça histórica continua a produzir injustiça presente.
As reparações não são um capricho ideológico. Não são um gesto de vitimização. Não são um favor. São, antes de mais, uma exigência de coerência histórica e de justiça internacional. Porque a linha entre escravidão, colonialismo, subdesenvolvimento, racismo estrutural, dependência económica e fragilidade institucional africana não é imaginária. É concreta. É estudável. É documentável. É visível.
Quando África continua a enfrentar desvantagens estruturais, dependência financeira, fragilidade infraestrutural e assimetrias brutais na ordem internacional, não estamos apenas perante “problemas internos”.
Estamos também perante as consequências prolongadas de séculos de pilhagem organizada. Quem lucrou com o crime histórico não pode hoje posar de neutro, de inocente ou de árbitro civilizacional. Não se pode invocar a participação africana para absolver o sistema europeu
Outro argumento recorrente dos negacionistas é lembrar que houve africanos envolvidos na captura e venda de escravos. Isso é historicamente verdadeiro em parte. Mas o uso político desse facto é profundamente desonesto. Porque uma coisa é reconhecer a existência de cumplicidades locais, guerras internas e intermediários africanos. Outra, completamente diferente, é fingir que isso elimina a responsabilidade de quem criou a procura, financiou o sistema, armou a logística, organizou a escala e acumulou os lucros.
Nenhum mercado de escravos atlântico teria existido naquela dimensão sem a engenharia económica, marítima, militar e jurídica.
A autora, radicada em Cascais há mais de 40 anos, tem no seu palmarés livros de poesia e romances históricos de assinalável êxito; a este último, porém, ainda que susceptível de ser considerado ‘romance histórico’, porque evoca ambientes e situações próprias da História, será, de preferência, um romance só, porque não faltam as paixões, os amores incompreendidos, as traições e, até, conjunturas próprias de… romance policial!
Maria Helena Ventura e o seu mais recente livro ‘O Amuleto de Gaudi’, no Centro Cultural de Cascais
Aliás, porventura aí reside o entusiasmo que desperta, na medida em que se verifica, de facto, intrincada caça ao que se designa «amuleto» e que será o documento em que Gaudì, quiçá em linguagem cifrada, consignou preciosas ilustrações e desenhos acerca do modo como, após a sua morte, se deveria completar o templo da Sagrada Família, ícone maior da cidade de Barcelona.
E, nesse âmbito, dado haver suspeitas de quem o terá comprado, sem ter bem a noção do que era, num antiquário de Lisboa, o entrecho do romance situa-se, primordialmente, nas diligências – em que vale tudo, até matar! – para que o documento venha ficar, alfim, a bom recato, no âmago do próprio templo, a guardo de uma sociedade secreta, propositadamente criada para o efeito.
Prende-nos, pois, do princípio até ao fim, tendo de permeio os inevitáveis enleios amorosos a emoldurar o relato e o recurso a aviões particulares para, num ápice, se vir de Barcelona ao aeródromo de Tires ou daqui partir para Paris… Descrição de ambientes que a autora bem conhece, não se eximindo, aqui e além, a mostrar a sua notável experiência em preparar uma ementa de fazer crescer água na boca!
Prosa bem burilada, a de Maria Helena Ventura, a preciosamente servir esses intentos. Permita-se-me, por conseguinte, que, em jeito de aperitivo, destaque algumas passagens:
– a beleza inequivocamente patente na exacta pintura a revelar súbita mudança de estado de espírito: «Como, num instante, uma espécie de vento brando se converte em vendaval e agita os momentos de prazer em novelos emaranhados» (página 157);
– «O que é a loucura senão o colorido de um sonho?» (página 175);
– a crítica certeira e lapidar: «O mundo está em desespero, por darmos demasiadas oportunidades a quem não presta e subjuga os que podiam construir e amar» (p. 190);
– os toques de mui suave sensualidade: «A seguir a um banho curto e cheiroso, os nossos corpos encaixaram na perfeição, as bocas molhadas pediram repetição da intimidade, as mãos carentes de afagos pelo corpo divagaram»; «Depois voltou a beijar-me docemente, como se uma chuva miúda inundasse a minha boca» (páginas 63-64);
– as descrições inesperadas: «A tarde a escorregar para o horizonte sôfrega pela noite» (p. 66); «Já uma toalha dourada caía sobre a verdura dos campos, incrustava-se em finos trechos do rio, serpenteando entre caniçais, e as aves saíam em bandos direitas a um baptizado» (p. 81-82); «Nunca mais seriam arrastados como bola de poeira ao sabor de ventos ruins» (p. 121);
– a análise: «Até um cavalheiro tem vielas secretas na alma» (p. 102);
– a cozinheira: «Picou cebola, espargos verdes, colocou um fio de azeite na frigideira e deixou amolecer, ao mesmo tempo que eu batia dois ovos com sal e pimenta» (p. 16);
– «As mulheres vigiavam o cabrito, o arroz de forno, o leite-creme para cerca de 50 pessoas» (p. 81);
– «Colocar os bifes num prato fundo com o molho e, depois de limpar a frigideira com papel absorvente, estrelar dois ovos como ele nunca comera: sal na clara, pimenta no centro da gema (p. 119-120»;
– «Eu cozinho batatas de todas as maneiras e ficam deliciosas» (p. 150).
Esta, a minha maldosa conclusão em acepipes – para despertar o apetite à leitura!…
No artigo é descrito como, contrariando o discurso oficial, os 17 contratos assinados pela então directora-geral da DGS Graças Freitas e as Farmacêuticas responsáveis pela disponibilização das vacinas, na sequência do Acordo de Compra Antecipada celebrado pela Comissão Europeia, encontram-se declarações como “O Estado membro participante reconhece que os efeitos a longo prazo e a eficácia da Vacina não são atualmente conhecidos” ou que em caso de serem provadas lesões pela vacina “(…)terá de ser o Estado português a indemnizar as pessoas”.
Em primeiro lugar fica a questão de quanto tempo as farmacêuticas se referem a “efeitos de longo prazo”. Mais de 2 meses? É porque foi pouco mais do que isso que duraram os ensaios em humanos nos ensaios clínicos. Para além do facto dos grupos de controlo terem sido todos vacinados no início de 2021 perdendo-se toda a possibilidade comparativa.
Em segundo lugar Portugal permanece como um dos países que lavou completamente as mãos em relação às pessoas vítimas de lesões provocadas pelas vacinas. Portanto falha triplamente: por um lado isenta as farmacêuticas de responsabilidade e, por outro depois de fazer forte coação para uma vacinação que não sabe se é segura, abandona à sua sorte os seus cidadãos que ficaram gravemente afetados na sua saúde porque acreditaram no slogan , repetido “ad nauseam” do “segura e eficaz”
Esta publicação no jornal “Sol” peca por tardia e por, na realidade, não vir dar novidade nenhuma para quem, desde cedo, teve dúvidas.
Apesar do eurodeputado Cristian Terhes ter, a partir de 2022, mostrado bastante indignação pela falta de transparência de Úrsula Van der Leyen na formulação dos contratos e de estes se encontrarem bastantes redigidos, quando publicados pela Comissão Europeia, o facto é que, por exemplo, o contrato da Pfizer-BioNTech foi publicado pela emissora pública italiana RAI a 17 de Abril de 2021, tendo permanecido no seu servidor deste então. Quatro dias após a publicação do artigo da RAI, no dia 21 de Abril, o diário espanhol La Vanguardia, o terceiro maior jornal espanhol em termos de leitores, também anunciou que tinha obtido o contrato não editado da Pfizer-BioNTech e publicado um artigo intitulado “O contrato com a Comissão Europeia isenta a Pfizer de responsabilidade”.
Porque razão algo que provocou tanta indignação, em alguns círculos, nos últimos dias, passou completamente despercebido em 2021? Vou arriscar algumas razões: desde já o pânico moral que se viveu durante mais de dois anos numa comunicação social completamente imersa numa narrativa de fim-do-mundo, do qual tinha que entretanto sair. A solução, já tinham todos decidido, só podia ser a vacinação massiva por isso quaisquer notícias que levantassem dúvidas ou questões na mente do cidadão comum, eram ignoradas. Também o shadow banning que imperou nas redes sociais poderá ser o responsável. Tanto o Twitter como o Facebbok admitiram publicamente que censuravam todas as publicações que pudessem levar a hesitação vacinal mesmo que tivessem um fundo de verdade.
Ainda no mesmo dia, a Reuters também publicou um artigo sobre o contrato, citando La Vanguardia. A Reuters, porém, evitou discretamente mencionar a questão da indemnização, concentrando-se apenas no preço das vacinas.
O que é certo é que a Direcção Geral de Saúde não só “comprou” o marketing do “seguro e eficaz” como não se inibiu de promovê-lo ativamente, escondendo-se ocasionalmente por trás da Agência Europeia do Medicamento.
Mas qualquer pessoa minimamente preocupada com os seus utentes veria várias bandeiras vermelhas a esvoaçar freneticamente que, no mínimo, indicariam ao Governo que era preciso calma.
A 21 de Outubro de 2020 Peter Doshi, editor associado do The BMJ publica o artigo “As vacinas contra a Covid-19 vão salvar vidas? Os testes atuais não foram projectados para nos dizer?” Começa por apontar que os ensaios de fase III, então em curso, não estavam configurados para comprovar que as vacinas eram eficazes. Nenhum dos ensaios teria sido concebido para detectar uma redução em qualquer resultado grave, como hospitalizações, utilização de cuidados intensivos ou mortes. Também não conseguiam avaliar o efeito na transmissão.
Em Janeiro de 2021 Peter Doshi voltaria a alertar para os suposto 95% de eficácia das vacinas. Com efeito, os 95% reflectiam a redução de risco relativo (a redução de risco absoluto era de apenas 0.84%). Os efeitos adversos graves ocorreram duas vezes mais no grupo dos vacinados vs o grupo placebo(1.2% vs 0.6%). Morreram também mais pessoas no grupo vacinado, incluindo o dobro de eventos cardíacos repentinos.
Já os cientistas, Dr. Gerald Dyker, Professor de Química Orgânica na Ruhr University Bochum, e Dr. Jörg Matysik, Professor de Química Analítica na Universidade de Leipzig, alertaram em 2023, no programa on-line Punkt.Preradovic da jornalista alemã Milena Preradovic sobre a grande variabilidade que existiria nos lotes. O ponto de partida foi um estudo dinamarquês que mostrava uma enorme variação nos eventos adversos associados a diferentes lotes da vacina Pfizer-BioNTech levando a crer que muitos destes lotes seriam placebo e que nem todos estariam sujeitos aos mesmo critérios de regulação pela empresa alemã.
Já a Agência Europeia do Medicamento também observava, em fevereiro de 2021, que não havia sido feito “nenhum estudo farmacológico de segurança”.
Não fosse tudo isto suficiente ainda tínhamos os inevitáveis conflitos de interesses dentro da Comissão Europeia.
A vacina mais amplamente distribuída na Europa foi a da Pfizer-BioNtech mas a verdade é que o consórcio com a Pfizer só serviu para a vacina ser aprovada nos EUA pela FDA, aparentemente menos “picuinhas” que a Agência Europeia do Medicamente. Quem era responsável pela qualidade do produto colocado no mercado e quem lucrou verdadeiramente com as vacinas de mRNA foi a empresa alemã BioNTech.
A BioNTech não é uma empresa alemã qualquer. É uma empresa alemã que, foi fortemente promovida e subsidiada pelo governo alemão ao longo de sua breve história. De facto, o governo alemão patrocinou o fundador da BioNTech como parte de um programa “Go-Bio” especialmente dedicado para fomentar startups de biotecnologia alemãs, que forneceu não apenas financiamento, mas também orientação governamental, bem como assistência na atração de investimentos privados.
A presidente alemã da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi ela mesma membro dos dois governos alemães sucessivos que forneceram financiamento inicial “Go-Bio” para a equipa de pesquisa do CEO da BioNTech, Ugur Sahin. Durante mais de uma década, apesar do apoio contínuo do governo alemão, a BioNTech nunca chegou perto de trazer um produto ao mercado. Até o advento do Covid-19, quando a empresa rapidamente mudou o foco de seu trabalho no desenvolvimento de uma terapia contra o cancro baseada em mRNA para o desenvolvimento de uma vacina covid.
Sem surpresa, o patrocinador estatal da empresa, a Alemanha, também se tornaria o seu principal patrocinador.
Mas não foi apenas o governo alemão que apoiou a vacina da BioNTech, também a própria UE! De fato, em junho de 2020, o próprio Banco Europeu de Investimento a UE – sob a liderança de seu presidente de longa data, o ex-funcionário do Ministério das Relações Exteriores alemão Werner Hoyer – forneceu à empresa 100 milhões de euros em financiamento de dívida para apoiar os seus esforços de vacina C-19.
Este foi o segundo crédito que o BEI concedeu à BioNTech. Em meados de dezembro de 2019 – sim, praticamente simultaneamente com o primeiro surto relatado de Covid-19 em Wuhan, China! – o BEI já tinha fornecido à empresa 50 milhões de euros em financiamento de dívida.
São precisamente estas relações incestuosas, entre a BioNTech, o governo alemão e a própria UE que cheiram mal! Mas a conivência ou a completa submissão do Governo Português a estes jogos de interesses em Bruxelas só revelam a total perda de credibilidade da Direcção Geral de Saúde ou de quem, por ela, dá a cara.
A lenda conta que, aquando da tomada pelos Mouros de Trancoso, essa importante praça fortificada da Beira Alta, morto o alcaide que a defendia, nela ficou prisioneira sua filha de nome Iberusa Leoa, que o Mouro, agora senhor do castelo, mandou encerrar numa das torres do castelo. Tinha para distracção seu açafate de bordar e, como única luz, a que entrava por uma pequena fresta talhada na parede da muralha, por onde ela, distraída, espreitava o horizonte distante, onde o tropel de soldados ou uma nuvem de poeira pudesse anunciar o exército cristão que a libertaria.
Fora da porta, dois guardas possantes guardavam a entrada, que apenas se abria para lhe entregar um pedaço de pão seco e uma sede de água, ao meio dia. Viam-na, às vezes, os guardas rezar e, um dia, aconteceu que ambos quiseram saber das orações e do Deus a quem rezava. Ela lhes contou. E com tal encanto o fez que os fascinou e os levou a requerer também o baptismo de cristãos. E que ela lhes disse que isso apenas poderia acontecer, quando os cristãos viessem, de novo, à posse do castelo.
Houve, um dia, em que o exército de D. Afonso Henriques acampou ao longe, esperando o melhor momento para poder atacar o castelo. Iberusa vislumbrou a bandeira das quinas e achou que a sua libertação estava perto.
E assim aconteceu. Certa noite, os soldados do rei cristão atacaram o castelo, que os soldados mouros não puderam defender. Mas, quando os soldados cristãos entraram na torre onde estava Iberusa e seus dois carcereiros mouros, ela rogou-lhes que lhes poupassem a vida, que cristãos se iriam tornar. Tal pedido chegou à voz do Rei, que lhes perdoou.
Iberusa pediu, então, ao Rei licença para mandar construir uma capela, a que daria o nome de Nossa Senhora da Fresta. E, desde então, ali ficou a preciosa capela, que rememora estes acontecimentos antigos. Como nos conta a lenda. A história verdadeira essa tem outra forma de contar.