Boa noite. É com um enorme desprezo disfarçado de profunda emoção que me apresento hoje diante de vós. Olho para este mar de cabeças vazias e o meu coração enche-se de alegria. Afinal, a vossa ignorância é o meu plano de reforma!
Obrigado. Do fundo do meu bolso, muito obrigado.
Agradeço à divina matemática do sufrágio universal. Que invenção maravilhosa! Um sistema genial onde o voto de um gajo que lê tratados de filosofia e o voto daquele que tenta comer a sopa com um garfo valem exatamente o mesmo. É a vossa paixão pela média aritmética que me permite estar aqui hoje, de fato à medida e gravata de seda, a rir-me na vossa cara.
Vocês são incríveis. Se eu vos disser que o sol é feito de gelo e vos prometer um subsídio para comprar cachecóis, vocês não só acreditam, como fazem uma manifestação para proibir o protetor solar! É o império do vosso “Sim, senhor”. Para quê perder tempo com o “Porquê”, não é verdade? Dá muito trabalho a pensar. Dói a cabeça. É muito melhor marchar atrás do pastor, enquanto abanam alegremente as vossas bandeirinhas de plástico.
Olho para este boletim de voto e vejo o vosso fetiche favorito. Uma folha de papel que vocês assinam com cuspo, acreditando mesmo que estão a decidir o rumo da pátria. Nós perguntamos ao vosso estômago o que a vossa mente deveria ditar. E depois? Depois o navio afunda-se, os impostos sobem, a saúde colapsa, e vocês ficam muito espantados no sofá a ver o telejornal. “Como foi possível?”, perguntam-se, com os olhos muito abertos. Foi possível porque vocês votaram em mim, seus patetas!
Agradeço especialmente aos mortos que continuam nos cadernos eleitorais e votam sempre no meu partido. Agradeço aos preguiçosos que ficam na praia, aos odiosos, aos invejosos e aos que votam por medo. Vocês são o meu combustível.
Amanhã, quando os resultados forem oficiais, eu serei eleito. Serei mais uma mancha na vossa inteligência coletiva. Quando se olharem ao espelho e ficarem horrorizados com o monstro que criaram, eu sei exatamente o que vão fazer no próximo domingo de eleições: vão correr para as urnas para votar em mim outra vez. Porque no vosso circo, meus caros, os palhaços mudam, mas o bilhete pagam-no sempre vocês.
Viva a Democracia, viva o vosso canibalismo, e que Deus vos guarde… bem longe da minha conta bancária!
– Malta, podem fechar as urnas e trazer o champanhe! Já ganhámos isto!



