Quem são os responsáveis pelas mortandades a que temos assistido, por todo o mundo, mas em especial na Ucrânia, na Rússia, em Gaza, no Líbano, no Irão? Quem decide os alvos? Os generais ou os políticos? O que obriga um militar a aceitar ordens ilegais, face aos códigos de conduta militar e ao direito internacional?

Há uma narrativa sobre a guerra moderna, que é precisa, controlada, tecnológica, que tem “bombas inteligentes”. Uma guerra de alvos, de coordenadas. Mas, depois, somam-se as pilhas de cadáveres, e não são de militares nem de combatentes: são civis, são mulheres, são crianças.
Gaza é o exemplo acabado do que pretendo dizer. O genocídio de um povo, não tem maneira de se disfarçar. É um ato criminoso executado por militares.


No caso de Gaza, a documentação independente acumulada ao longo do conflito aponta para matanças sistemáticas, orientadas, incluindo a destruição de infraestruturas civis essenciais. Organizações como a Human Rights Watch e a Amnesty International têm descrito padrões de ataques com número muito elevado de vítimas não combatentes, violações graves do direito internacional humanitário.
A questão não é apenas o número de vítimas. É a destruição sistemática de hospitais, escolas e zonas residenciais. No caso de Gaza, não sobrou nada. Foi tudo terraplanado à bomba. Quem falar em “acidentes operacionais” faz figura de urso e perde credibilidade.
Boa parte da destruição provocada nos principais campos de batalha da atualidade, tem sido provocada por bombardeamentos aéreos e ataques de drones. Um piloto de F-35 pode tentar argumentar que não vê os alvos que ataca, que se limita a introduzir coordenadas que recebeu no briefing da missão, mas difícilmente nos vai convencer que, depois, não vê na televisão ou nas redes sociais os efeitos do que acabou de fazer.
E, no entanto, não há notícia de recusas ao cumprimento das missões atribuídas. Nenhuma rutura documentada no momento da missão. Nenhuma cadeia de comando interrompida por objeção ética explícita. Nenhuma fissura visível no ponto em que a decisão se transforma em ação.
Houve precedentes históricos, como a Carta dos pilotos israelitas de 2003, mas são exceções situadas fora do contexto da atual guerra.

A arquitetura da obediência moderna
A explicação imediata tende a ser técnica: as regras de empenhamento, a obediência à cadeia de comando. O piloto ou o artilheiro não decide o alvo; executa uma missão previamente certificada.
Na verdade, podemos imaginar que o “desenho” de um ataque militar seja obra de diferentes indivíduos com níveis de responsabilidade diferentes. Haverá os que identificam alvos, provavelmente gente ligada à espionagem militar, seja no terreno ou por satélite, depois deve haver os que validam a missão, os que a autorizam e os que a executam. Esta corrente de responsabilização acaba por desresponsabilizar todos eles. Nunca há culpados por um ataque a uma escola onde morreram 160 crianças, por exemplo.
Depois temos a narrativa conveniente, que nos fala em “dano colateral aceitável” e que é disseminada pelos média. Um triste papel, o dos jornalistas.

A questão não é a ausência de regras formais. Nem a ausência de enquadramento legal. O problema é que aceitámos as justificações pelos crimes de guerra decididos e executados por autênticos calhordas.
Já há 81 anos, os pilotos que comandaram os bombardeamentos atómicos sobre o Japão não se arrependeram do que aceitaram fazer. Tiveram longas carreiras militares, chegaram a generais, morreram na cama. Nenhum deles meteu uma bala na cabeça.




























