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GUINÉ-BISSAU: REFERENDO APROVOU NOVA CONSTITUIÇÃO

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fotomontagem

Em Bissau, foram divulgados os resultados do referendo constitucional que decorreu no domingo passado. Segundo a Comissão Nacional de Eleições (CNE) da Guiné-Bissau venceu o “sim”.

De acordo com os resultados provisórios divulgados pela CNE, 383.117 eleitores votaram “sim” (70%) contra 160.904 que disseram “não”.

Nos cadernos eleitorais existem  914.428 eleitores inscritos, como 572.714 votaram, significa que a adesão ao voto foi de 62,6%, o que torna o resultado do referendo vinculativo. A Guiné-Bissau tem uma nova Constituição da República.

Os opositores à realização do referendo argumentam que se trata de uma fraude. Primeiro, porque a percentagem de eleitores que votaram foi muito mais baixa do que a divulgada, depois porque o processo de votação e de contagem dos votos não foi transparente nem fiscalizado.

A Guiné-Bissau vive um momento delicado, depois do golpe de estado que derrubou o Presidente Umaro Sissoco Embaló, em novembro de 2025, no final do processo eleitoral para a Presidência e para a Assembleia Nacional Popular. Os resultados dessas eleições não chegaram a ser divulgados.

Agora, ainda sob esse regime revolucionário, há uma Constituição que antes de ter sido referendada foi aprovada pela junta militar de transição. Como protesto, muitos partidos políticos demitiram-se de fazer campanha pelo “não” e, agora, reclamam do resultado.

A nova Constituição não muda a forma do regime, que continua semi-presidencialista, e muda pouco do conteúdo constitucional que rege o Estado. Segundo o constitucionalista português Jorge Bacelar Gouveia, o que muda é quase nada.

vídeo, declarações feitas cerca de um mês antes da realização do referendo

VIGÁRIOS

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Vigário, para mim, era assim um senhor importante, de cargo público. Quiçá, até, sacerdote, porque ouvia referir por vezes «o senhor vigário» e eu achava que era o prior da freguesia. Pelo que ouvia falar desses contos, imaginei ser o vigário homem de boas falas, capaz de bem levar a água ao seu moinho.

As notícias veiculadas pelos canais televisivos ainda o retratavam recentemente como alguém que, fazendo-se passar por médico, funcionário da câmara ou, até, membro de uma instituição religiosa, abordava as pessoas (nomeadamente idosas) na rua ou à porta de casa e logravam impingir uma peta qualquer, susceptível de com ela caçarem, por exemplo, dinheirinho longamente aconchegado numa gaveta escusa…

Foi, por isso, com enorme surpresa e não menor admiração (sincera mesmo!), que tomei o pulso a dois muito bem engendrados contos, quase em jeito de novela. Apareceram-me de supetão, um depois do outro, assim sem mais nem menos quando abri o Facebook. Duas histórias lindas, contadas a rigor, com todos os pormenores, vírgulas e outra pontuação toda no devido sítio, que até dava gosto ler! Os apontamentos curiosos sucediam-se, a prender a atenção – quase em jeito desses reels que, hoje, a cada passo nos martirizam. Como é que esta história vai acabar? – ocorria perguntar, parágrafo após parágrafo. E a curiosidade aumentava, aumentava…

A primeira história que me surgiu é a do puto órfão de pai e mãe que, devotadamente, sendo neto único, se disponibiliza a tratar do avô quase paralítico já. Apesar de ter ganhado bolsa e ter nota para entrar no Técnico (é lógico, fizera a pulso e com êxito os estudos anteriores), opta por, diariamente, tratar da higiene do avô.

Um dia, porém, surge o milagre: um senhor doutor médico, que até deixara a medicina convencional para, abnegadamente, desenvolver uma pomada (outrora falava-se em “banha-da-cobra”), que, aplicada à maneira, rapidamente transformou o avô decrépito no homem que voltou a conduzir agilmente o seu 4L, há anos parado ali. Milagre!

No final da história, assim como quem não quer a coisa, indicava-se de soslaio o acesso a uma página. Acedi. Comprava-se uma embalagem por 29 € sem portes, pagos, no acto de entrega da encomenda, de que, poucos instantes depois de encetada a conversação telefónica, se vinha a saber que o êxito só era garantido após tratamento de cinco embalagens, ou seja, após se terem desembolsado 5 x 29 €! Embalagem única não se vendia.

A segunda história traz também imagens. Não a do Senhor Doutor Médico da outra, porque o assunto é bem diferente.

À senhora (sim, vem a fotografia dela) e respectivo cônjuge (imaginamos) deu-lhes na veneta de irem passar uma noite inesquecível em hotel de luxo. Vem mesmo o nome famoso, quase lendário (tinha que ser!): Ritz!

Os ingredientes da noite são contados ao pormenor (sim, aqueles passíveis de ser contados); a bebida extraordinária; a iluminação exótica; os cómodos; os acepipes; o roupão passível de ser adquirido por 300 €; o banho em condições únicas e, sobretudo – sobretudo! – aquele afago da toalha em que a menina se enxugou. Que toalha, senhores! Que fibra maravilhosa! Que aconchego! De nos sentirmos num céu estrelado e lindo!…

E por aqui me fico nesse enlevo, porque – como se imagina – no final vem indicado o acesso à página da firma fornecedora – única e em exclusivo! – dessa toalha, insuspeitada fonte de prazer! Que inaudita macieza, senhores!

Resisti (confesso) à curiosidade e fiquei sem saber quanto custava a toalha e quantas teria de comprar para, mesmo sem me hospedar no Ritz, poder gozar do seu afago meigo, após a banhoca inesquecível, única!…

TRUMP NÃO QUER LULA NA PRESIDÊNCIA DO BRASIL

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imagem alterada com grafismo

Para já, as armas de Trump são as habituais sanções económicas e as tarifas alfandegárias, mas a recente classificação de dois grupos do crime organizado brasileiros (CV e PCC) como “terroristas” abre a possibilidade dos americanos ensaiarem ataques militares em território brasileiro.

O argumento de que estão a combater o tráfico de droga já foi usado antes. Serviu para a operação militar que culminou com o rapto do Presidente Nicolas Maduro, na Venezuela. Hoje, os EUA saqueiam impunemente o petróleo venezuelano e Maduro continua preso à espera de um julgamento que, se não for manipulado, não irá provar nada contra o Presidente da Venezuela.

No Brasil, a campanha de Flávio está apoiada no financiamento e apoio político que recebe dos EUA, pelo qual o candidato promete que, quando for Presidente, vai entregar aos EUA as terras raras brasileiras.

O Governo dos Estados Unidos já tentou introduzir-se no sistema eleitoral brasileiro, com a alegação de que as urnas eletrónicas não são fiáveis. Quando o Governo brasileiro, por uma questão de soberania nacional, não permitiu qualquer tipo de inspeção dos norte-americanos às urnas eletrónicas, Trump retaliou com a retirada do visto ao diplomata que ia tomar o lugar de embaixador do Brasil em Washington.

A evidência que há muito dinheiro, pressão e influência política dos norte-americanos a perturbar o processo eleitoral brasileiro está no comportamento da imprensa que tem tratado estas questões como um problema diplomático entre os dois países, negligenciando o apoio de Trump ao candidato Flávio Bolsonaro.

Antes da campanha eleitoral, Flávio foi a Washington. Foram feitas fotografias dele com Trump, que têm sido usadas abundantemente na campanha, de modo a impressionar e a fixar o voto do eleitor de direita.

Nesta foto, Trump recebe Flávio Bolsonaro. Na foto seguinte, Marc Rubio recebe Flávio Bolsonaro

Depois de Trump, Flávio reuniu com Marco Rubio, o secretário de Estado do Governo dos EUA, o equivalente a ministro dos Negócios Estrangeiros. Depois do encontro com Rubio, Flávio disse: “dissemos que os Estados Unidos deveriam classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. Dissemos que, se Deus quiser, a partir de 2027, o Brasil vai ser um aliado no combate ao crime organizado, diferente do atual governo, que parece proteger esses marginais”. Duas semanas depois, o CV e o PCC foram qualificados como “grupos terroristas” pelo Governo dos EUA, o que permitiu que o adversário de Lula reivindicasse a decisão como resultado da sua proximidade com Trump.

O histórico deste tipo de políticas dos norte-americanos mostra-nos os riscos que o Brasil corre. Basta ver os mais de 60 bombardeamentos que as Forças Armadas dos EUA já realizaram nas águas do Caribe e do Pacífico e a invasão da Venezuela sob a pretensão de que Nicolás Maduro era chefe de um cartel de drogas que nunca existiu.

Estas eleições no Brasil correm o risco de serem um simulacro democrático, tal o nível de intoxicação e de manipulação da realidade que grassa pelas redes sociais.

GUINÉ-BISSAU A CONTAR VOTOS DO REFERENDO

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Na Guiné-Bissau, a Comissão Nacional das Eleições (CNE) anunciou que a divulgação do resultado do referendo realizado hoje será feita nas próximas 48 horas. A informação foi avançada pelo porta-voz da CNE, Idriça Djaló. Segundo comunicou o porta-voz, a taxa de participação eleitoral ultrapassou os 50% a nível nacional, pelo que, a ser assim, o resultado do referendo será vinculativo.

Bissau, CNE diz que o referendo teve mais de 50% dos votantes inscritos

Nas redes sociais, grupos e ativistas organizados à volta de uma fação do PAIGC afeta a Domingos Simões Pereira, espalha a ideia de que o boicote foi um sucesso e apresentam fotografias de algumas actas eleitorais onde foram registados poucos votantes.

Sobre isto, o porta-voz da CNE disse que a afluência às urnas não foi uniforme em todo o território nacional, e que em algumas localidades pouca gente foi votar. Noutros locais, segundo o porta-voz da CNE, exemplo de Bafatá, Gabú, Oio e Cacheu, a maioria dos eleitores foi votar. Em Bissau, segundo a CNE, o nível de participação também variou entre os diferentes bairros e locais onde funcionaram as mesas de voto.

A CNE pediu responsabilidade e respeito pelos procedimentos legais de apuramento dos resultados. A instituição eleitoral sublinhou que os dados recolhidos nas assembleias de voto vão seguir os procedimentos estabelecidos pela lei e apelou aos cidadãos para não divulgarem informações não confirmadas que possam gerar confusão ou tensão na sociedade.

AMO-TE APAIXONADAMENTE

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Arrepiar-nos-á a muitos verificar, por exemplo, no concurso televisivo Joker, um concorrente desconhecer quem foi o ministro do rei Dom José I que superintendeu na reconstrução de Lisboa, após o terremoto; não saber em que data esse terremoto ocorreu.

Não me refiro apenas a dados históricos, mas também a aspectos concretos da vida quotidiana. Cada vez se troca menos correspondência por via postal. Não admira, por isso, que se desconheça a possibilidade de, na correspondência externa, se fazer anteceder o código postal da sigla do país de destino. Assim, quando se dá para o estrangeiro o nosso código postal deve-se fazê-lo preceder de P: P-2027-700.

O que habitualmente acontece é que também o nosso correspondente não consciencializa o significado do P e, na resposta, não hesita em incluir o P e, no fim do endereço, pespega PORTUGAL com todas as letras.

Também o desconhecimento da geografia portuguesa é flagrante no referido programa. Se determinada localidade fica no Norte ou no Alentejo; de que rio é afluente o Zêzere…

Não é estranho – ou talvez seja apenas vontade de simplificar – ouvires perguntar ao teu colega da Universidade de Coimbra que vai de fim de semana para Loures:

– Já vais, então, até Lisboa, não?

Loures não é Lisboa.

Como acerca de um teu familiar que vive em Penge, localidade dos arredores londrinos, tu respondas, para maior facilidade: «Está em Londres». A grande cidade engole os arredores na conversação diária.

Estranho me pareceu, porém, por vir de quem veio, o endereço aposto na encomenda de livro que fizera a um livreiro de Vila Nova de Gaia. Veio escrito: Cascais – Lisboa.

Nesse aspecto das moradas, confesso que ri a bandeiras despregadas quando a secretária de um vereador municipal, a quem pelo telefone eu ditara “Rua Egas de Moniz 79”, enviou o convite para o número 70 i 9. Secreta influência, quiçá, de recente estada no Reino Unido, onde o código postal se apresenta, de facto, assim estranho: SE20 8RL.

É consensual ser o uso militante dos signos ditos emojis pela grande maioria da população (gente culta incluída) o grande responsável pelo progressivo abandono do vocabulário concreto, num aparente retorno à escrita hieroglífica dos egípcios antigos…

Às vezes. até me interrogo se haverá vergonha em expressar claramente sentimentos fortes, se é que se sabe exatamente o que tais signos querem dizer. Assim, uma face sorridente, ornada de três corações bem vermelhos, quer dizer «Amo-te apaixonadamente!». E tanto quem envia como quem recebe terá real consciência de declaração amorosa tão ardente?

Enfim, começámos por falar de programa político republicano a privilegiar a instrução, uma política de pés assentes na terra, de maior atenção à vida quotidiana e, sem disso quase nos apercebermos, acabámos por ser atraídos por sinais muito usados agora e cujo significado, se autêntico, assim se prefere representar, e não exprimir por palavras – na impressão de que estas foram perdendo o sentido. Perderam?

O RASTRO DE LÁGRIMAS

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O “Trail of Tears” (O Rastro de Lágrimas) representa um dos episódios mais sombrios e trágicos da história dos Estados Unidos, caracterizado pelo deslocamento forçado de dezenas de milhares de nativos americanos durante a década de 1830. No início do século XIX, nações indígenas como os Cherokee, Creek, Choctaw, Chickasaw e Seminole ocupavam vastos territórios férteis no sudeste do país. Estas comunidades, frequentemente apelidadas de “Cinco Tribos Civilizadas”, tinham assimilado vários costumes europeus, desenvolvendo governos constitucionais, jornais próprios e sistemas agrícolas avançados. Contudo, a crescente pressão dos colonos brancos pela expansão da produção de algodão, intensificada pela descoberta de ouro nas terras Cherokee na Geórgia em 1829, selou o destino destas populações.

Em 1830, o presidente Andrew Jackson promulgou a Indian Removal Act (Lei de Remoção Indígena), que autorizava o governo federal a confiscar as terras ancestrais a leste do rio Mississippi em troca de territórios áridos no oeste, na região que hoje corresponde ao estado de Oklahoma. Numa tentativa de resistência legal, a nação Cherokee recorreu ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos e venceu a causa no caso Worcester v. Georgia. O tribunal máximo declarou as tribos como nações soberanas com direito às suas terras, mas o presidente Jackson ignorou deliberadamente a sentença constitucional, recusando-se a aplicá-la e permitindo que os estados avançassem com a expropriação.

Colonos norte-americanos (em pé) com um grupo de índios Seminole (sentados), século XIX

O culminar desta política ocorreu entre 1838 e 1839, quando o exército americano expulsou os nativos das suas casas sob a mira de baionetas. Cerca de 16.000 Cherokees foram inicialmente detidos em campos de concentração improvisados antes de serem forçados a marchar a pé por mais de 1.600 quilómetros. Realizada sob um inverno rigoroso, sem agasalhos, calçado adequado ou mantimentos suficientes, a travessia transformou-se numa crise humanitária devastadora. Mais de 4.000 indígenas morreram ao longo do percurso devido à fome, à exaustão extrema e a surtos de doenças como a cólera e a pneumonia, dando origem ao nome “Rastro de Lágrimas” devido ao luto e sofrimento incomensuráveis dos sobreviventes, que foram obrigados a abandonar os corpos dos seus familiares pelo caminho e a reconstruir as suas vidas numa terra completamente desconhecida.

gravura representando três índios Cherokee e um branco norte-americano, século XVIII

UM PAÍS À PROCURA DE SI PRÓPRIO

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fotomontagem com grafismo


Somos um país antigo, com uma história que atravessou séculos, continentes e oceanos. Fomos capazes de partir quando quase ninguém sabia ainda que o mundo era tão grande. Levámos a nossa língua, os nossos costumes e a nossa maneira de olhar o mundo para lugares distantes.
Mas continuamos, tantas vezes, sem saber muito bem o que queremos fazer com o país que construímos. Portugal vive uma contradição curiosa: orgulha-se muito da sua história, mas parece ter dificuldade em transformar esse património em futuro.

Falamos dos Descobrimentos, de Camões, de Pessoa, da Revolução de Abril, da democracia e da nossa capacidade de adaptação. Celebramos a gastronomia, o vinho, o turismo, o mar e a cultura. Somos frequentemente elogiados pela nossa capacidade de acolher, pela segurança, pelo clima e pela qualidade de vida. E, no entanto, há qualquer coisa que não encaixa.

Um país não pode viver eternamente daquilo que foi, nem apenas daquilo que os outros dizem que ele é. Tem de saber aquilo que quer ser.
E talvez seja essa a pergunta que Portugal precisa de fazer a si próprio neste momento: que país queremos deixar às gerações que vêm depois de nós? Não é uma pergunta meramente económica. É uma pergunta política, social, cultural e, acima de tudo, humana. Queremos um país onde os jovens tenham de partir para encontrar oportunidades? Um país onde envelhecer seja cada vez mais uma forma de exclusão? Um país onde Lisboa e algumas zonas do litoral concentrem riqueza, emprego e investimento enquanto uma parte crescente do território perde população e esperança? Queremos continuar a aceitar que tantos dos nossos melhores jovens estudem, se formem e depois procurem fora aquilo que Portugal não lhes consegue oferecer? E queremos continuar a tratar a cultura como se fosse um adorno, a educação como uma despesa e a experiência dos mais velhos como uma espécie de peso social?

Não acredito que Portugal esteja condenado a ser assim. Mas também não acredito em optimismos fáceis. Portugal precisa de uma nova ambição. Uma ambição que não seja feita de discursos grandiosos, mas de escolhas concretas. Que coloque a educação no centro, que valorize a ciência, a cultura e o conhecimento, que devolva dignidade ao trabalho, que olhe para o interior do país, que cuide dos mais velhos sem abandonar os mais novos e que compreenda finalmente que a longevidade não é um problema: é uma conquista da civilização.

Precisamos também de recuperar uma coisa talvez ainda mais importante: a confiança em nós próprios. Não aquela confiança arrogante de quem acredita que somos melhores do que os outros. Mas a confiança tranquila de quem sabe que pode fazer melhor. Portugal já demonstrou muitas vezes que consegue. Falta-nos talvez transformar a capacidade de resistir na capacidade de construir.

Esta nova série nasce precisamente dessa inquietação. Não pretende dar lições a Portugal. Nem fazer a contabilidade dos seus fracassos.
Pretende olhar para o país com os olhos de quem o conhece, o ama e, por isso mesmo, não aceita desistir dele. Porque Portugal não é apenas o território que habitamos. É a memória que recebemos, o presente que estamos a construir e, sobretudo, o futuro que deixaremos aos outros. E esse futuro ainda não está escrito. Talvez esteja na hora de começarmos a escrevê-lo.

SOBRE O REFERENDO À CONSTITUIÇÃO DA GUINÉ-BISSAU

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Sobre o referendo na Guiné-Bissau que dá possibilidade à população de aprovar ou rejeitar a nova Constituição da República, o constitucionalista português Jorge Bacelar Gouveia diz que, se vencer o “sim”, a Constituição da Guiné-Bissau será a segunda a ter sido aprovada pelo voto popular, em todo o espaço lusófono. Neste momento, apenas a Constituição de São Tomé e Princípe foi referendada.

Depois de ler e comparar os dois textos, o antigo e o novo, Jorge Bacelar Gouveia considera que a nova Constituição tem “um texto muito mais completo” do que o anterior, apesar de já ter sido “remendado várias vezes”. Sobre a questão que mais polémica tem levantado, os poderes do Presidente da República, diz que se trata de uma falsa questão porque, na verdade, nada muda, nesse aspeto. A nova Constituição nada muda no sistema de governo porque a nomeação do Governo e a dissolução do Parlamento submetem-se às mesmas regras, e já antes o Presidente podia presidir ao Conselho de Ministro sempre que quisesse.

Na coluna da esquerda, o texto da Constituição que vigorou até hoje. Na coluna da direita, o novo texto (ver em ecran de computador).

As dúvidas do constitucionalista português não são sobre o texto constitucional que está a ser proposto à Guiné-Bissau, já que Jorge Bacelar Gouveia considera ser um texto melhor que o anterior. As dúvidas prendem-se com a forma do referendo que não pode ser confundido com um plebescito. O referendo obriga a total liberdade de voto, a que tenha havido um esclarecimento adequado sobre o que se vai votar e que a campanha de esclarecimento tenha sido ampla e exercida em total liberdade por todas as partes interessadas em discutir essa matéria.

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O CÂNTICO DA NAÇÃO ARCO-ÍRIS

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Nelson Mandela não foi apenas um líder político; ele foi o próprio poema da liberdade escrito na rocha viva da história. Na sua voz e na sua postura como Presidente da África do Sul, a democracia deixou de ser um mero conceito jurídico abstrato para se tornar uma liturgia viva de reconciliação e dignidade humana. Durante vinte e sete anos de silêncio e isolamento na prisão, Madiba não acumulou rancor, mas sim a sabedoria necessária para transmutar o ferro das grades em pontes de diálogo. O seu punho outrora fechado na luta abriu-se no poder, não por fraqueza, mas pela coragem suprema de abraçar o antigo opressor e curar as feridas abertas de uma pátria dividida.

Para o primeiro Presidente democraticamente eleito da nova África do Sul, governar era exercitar a retórica da inclusão através da filosofia do Ubuntu — a certeza inabalável de que a nossa humanidade só se realiza na humanidade dos outros. Sob o teto da Nação Arco-Íris, a democracia ganhou a forma de uma sinfonia onde a diversidade de cores e vozes deixou de representar abismo para se transformar em harmonia. Mandela elevou o palácio do governo ao nível da planície, fazendo com que o Estado passasse a servir quem antes era invisível, sem nunca rebaixar a minoria que antes dominava. O seu maior ato retórico foi, afinal, o seu próprio desapego: ao recusar perpetuar-se no cargo, provou que a verdadeira democracia não reside no culto ao governante, mas na força perene das instituições e na liberdade soberana do seu povo.

Nelson Mandela

A IDADE NÃO É UM DESTINO

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A idade não é um destino. É uma condição. Uma circunstância. Uma parte da nossa história. Mas não é uma sentença.

Durante demasiado tempo, aprendemos a olhar para o envelhecimento como uma espécie de caminho de sentido único. Primeiro a infância, depois a juventude, a idade adulta, a maturidade e, finalmente, a velhice. Como se cada etapa tivesse comportamentos próprios, desejos permitidos e limites previamente estabelecidos.

A sociedade atribuiu idades às pessoas. Há uma idade para estudar. Uma idade para trabalhar. Uma idade para constituir família. Uma idade para ter ambição. E, algures depois dos sessenta ou setenta anos, parece existir uma idade para deixar de esperar.

É aqui que começa o problema. Porque envelhecer não significa deixar de ter futuro. Significa ter um futuro diferente. O preconceito mais silencioso, o idadismo (a discriminação baseada na idade) nem sempre se manifesta através de uma agressão ou de uma exclusão evidente.
Muitas vezes aparece numa frase aparentemente simpática: “Para a sua idade, está muito bem.” Ou numa decisão tomada em nome da pessoa: “Isso já não é para si.” Ou simplesmente na ausência de expectativa. É talvez esta última a forma mais cruel de discriminação.

Quando deixamos de esperar alguma coisa de alguém, começamos também a retirar-lhe espaço para continuar a construir a sua própria vida. Uma sociedade que olha para uma pessoa de 75 ou 80 anos e pergunta apenas de que cuidados necessita está a ver metade dessa pessoa. A outra metade é aquilo que ela ainda pode oferecer.
Experiência.
Conhecimento.
Memória.
Afeto.
Capacidade de julgamento.
Sentido crítico.
Criatividade.
Disponibilidade para os outros.
E, muitas vezes, uma liberdade que só chega quando já não se vive obcecado pela aprovação dos outros.

O paradoxo da longevidade

Estamos a viver mais tempo do que as gerações anteriores. Esse é um dos maiores acontecimentos sociais do nosso tempo. Mas prolongar a vida não chega. É preciso prolongar também a possibilidade de participar nela. Não basta acrescentar anos à vida. É necessário acrescentar vida aos anos. Esta mudança obriga-nos a repensar quase tudo: o trabalho, a reforma, a educação, a habitação, a saúde, a cultura, a participação cívica e as relações entre gerações.

Durante décadas construímos instituições para uma sociedade em que as pessoas viviam menos tempo. Hoje temos uma realidade diferente. Uma pessoa que se reforma aos 65 anos pode ter pela frente duas, três ou até mais décadas de vida. Que sociedade estamos a oferecer-lhe? Uma sociedade que lhe diz “agora descanse”? Ou uma sociedade que lhe pergunta: “O que gostaria ainda de fazer?” A pergunta não é a mesma. E a resposta pode mudar uma vida.

Envelhecer não é desaparecer Existe uma fronteira invisível entre deixar de trabalhar e deixar de ser socialmente necessário. Não deveriam ser a mesma coisa. O emprego pode terminar. A utilidade social não. A profissão pode acabar. A experiência não. Uma função pode desaparecer. A pessoa permanece. Talvez tenhamos de começar a separar aquilo que somos daquilo que fazemos profissionalmente. Durante grande parte da vida adulta, somos identificados pelo nosso trabalho.
“Sou médico.”
“Sou professor.”
“Sou advogado.”
“Sou jornalista.”
“Sou empresário.”
Depois da reforma, essa identificação desaparece e, por vezes, instala-se um vazio. Como se a pessoa tivesse perdido o título que lhe dava legitimidade para existir socialmente. Mas ninguém deveria reformar-se da vida. Pode reformar-se de uma profissão. Pode mudar de ritmo. Pode escolher outras prioridades. Pode finalmente fazer coisas que durante décadas adiou. Mas não deveria ser obrigado a retirar-se da sociedade.

Uma sociedade de todas as idades

Talvez o verdadeiro desafio do envelhecimento não seja criar uma sociedade para os velhos. Se o fizermos, estaremos apenas a criar mais uma forma de segregação. O desafio é construir uma sociedade para todas as idades. Uma sociedade onde uma criança, um jovem, um adulto e uma pessoa mais velha possam ocupar simultaneamente o espaço público, aprender uns com os outros e reconhecer-se como parte da mesma comunidade.

A experiência de uma geração não deveria substituir a energia da outra. E a energia de uma geração não deveria desprezar a experiência da anterior. É precisamente desse encontro que nasce uma sociedade mais equilibrada. O envelhecimento, portanto, não é apenas uma questão individual. É uma questão coletiva. Diz muito sobre a forma como uma sociedade olha para o tempo, para a dignidade humana e para o valor das pessoas.

O direito a continuar a começar

Talvez uma das maiores liberdades que precisamos de conquistar seja esta: o direito a começar de novo. Aos 20 anos, ninguém estranha que alguém mude de curso. Aos 40, ainda se aceita que mude de profissão. Aos 60, já parece uma extravagância. Aos 70, uma loucura. Porquê?

Porque continuamos a acreditar que a vida tem um calendário obrigatório. Mas a vida real nunca respeitou calendários tão rígidos. Há pessoas que descobrem a sua vocação aos 50. Que escrevem o primeiro livro aos 70. Que se apaixonam aos 80. Que aprendem uma língua nova aos 75. Que regressam à universidade. Que começam a pintar. Que criam uma empresa. Que fazem voluntariado. Que se tornam avós presentes e ativos. Que simplesmente descobrem, depois de uma vida inteira dedicada aos outros, que também têm direito a cuidar de si.
Não são exceções absurdas. São exemplos de uma verdade simples: a pessoa continua a ser uma pessoa antes de ser velha.

O tempo que ainda temos

Talvez seja esta a pergunta que devemos fazer quando falamos de envelhecimento: não “quantos anos já viveu?”, mas “quantos anos ainda tem para viver?” A primeira pergunta olha para trás. A segunda abre uma porta para a frente. E é essa mudança de olhar que uma sociedade envelhecida precisa de fazer. Não precisamos de esconder a idade. Precisamos de retirar-lhe o poder de determinar o nosso valor.
Porque os anos que acumulamos não são apenas anos perdidos. São também anos vividos. São pessoas que conhecemos, lugares onde estivemos, erros que cometemos, decisões que tomámos, afetos que construímos, perdas que suportámos e aprendizagens que ninguém nos pode retirar. Envelhecer é carregar tudo isso connosco. Não é regressar ao princípio. É chegar a um lugar a que só se chega depois de ter percorrido um longo caminho.