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INCAPAZES DE DIZER NÃO

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Quem são os responsáveis pelas mortandades a que temos assistido, por todo o mundo, mas em especial na Ucrânia, na Rússia, em Gaza, no Líbano, no Irão? Quem decide os alvos? Os generais ou os políticos? O que obriga um militar a aceitar ordens ilegais, face aos códigos de conduta militar e ao direito internacional?

Míssil lançado por um F-35, guiado por GPS ou laser, infalível, certeiro, mortal

Há uma narrativa sobre a guerra moderna, que é precisa, controlada, tecnológica, que tem “bombas inteligentes”. Uma guerra de alvos, de coordenadas. Mas, depois, somam-se as pilhas de cadáveres, e não são de militares nem de combatentes: são civis, são mulheres, são crianças.

Gaza é o exemplo acabado do que pretendo dizer. O genocídio de um povo, não tem maneira de se disfarçar. É um ato criminoso executado por militares.

valas comuns em Gaza

No caso de Gaza, a documentação independente acumulada ao longo do conflito aponta para matanças sistemáticas, orientadas, incluindo a destruição de infraestruturas civis essenciais. Organizações como a Human Rights Watch e a Amnesty International têm descrito padrões de ataques com número muito elevado de vítimas não combatentes, violações graves do direito internacional humanitário.

A questão não é apenas o número de vítimas. É a destruição sistemática de hospitais, escolas e zonas residenciais. No caso de Gaza, não sobrou nada. Foi tudo terraplanado à bomba. Quem falar em “acidentes operacionais” faz figura de urso e perde credibilidade.

Boa parte da destruição provocada nos principais campos de batalha da atualidade, tem sido provocada por bombardeamentos aéreos e ataques de drones. Um piloto de F-35 pode tentar argumentar que não vê os alvos que ataca, que se limita a introduzir coordenadas que recebeu no briefing da missão, mas difícilmente nos vai convencer que, depois, não vê na televisão ou nas redes sociais os efeitos do que acabou de fazer.

E, no entanto, não há notícia de recusas ao cumprimento das missões atribuídas. Nenhuma rutura documentada no momento da missão. Nenhuma cadeia de comando interrompida por objeção ética explícita. Nenhuma fissura visível no ponto em que a decisão se transforma em ação.

Houve precedentes históricos, como a Carta dos pilotos israelitas de 2003, mas são exceções situadas fora do contexto da atual guerra.

fonte https://elpais.com/internacional/2003/09/25/actualidad/1064440806_850215.html

A arquitetura da obediência moderna

A explicação imediata tende a ser técnica: as regras de empenhamento, a obediência à cadeia de comando. O piloto ou o artilheiro não decide o alvo; executa uma missão previamente certificada.

Na verdade, podemos imaginar que o “desenho” de um ataque militar seja obra de diferentes indivíduos com níveis de responsabilidade diferentes. Haverá os que identificam alvos, provavelmente gente ligada à espionagem militar, seja no terreno ou por satélite, depois deve haver os que validam a missão, os que a autorizam e os que a executam. Esta corrente de responsabilização acaba por desresponsabilizar todos eles. Nunca há culpados por um ataque a uma escola onde morreram 160 crianças, por exemplo.

Depois temos a narrativa conveniente, que nos fala em “dano colateral aceitável”  e que é disseminada pelos média. Um triste papel, o dos jornalistas.

A capital do Líbano, Beirute, sob bombardeamento israelita no final de março de 2026

A questão não é a ausência de regras formais. Nem a ausência de enquadramento legal. O problema é que aceitámos as justificações pelos crimes de guerra decididos e executados por autênticos calhordas.

Já há 81 anos, os pilotos que comandaram os bombardeamentos atómicos sobre o Japão não se arrependeram do que aceitaram fazer. Tiveram longas carreiras militares, chegaram a generais, morreram na cama. Nenhum deles meteu uma bala na cabeça.

Paul W.Tibbets no cockpit do bombardeiro antes de partir para a missão de destruir Hiroshima e Charles W.Sweeney à porta da messe de oficiais antes de partir para destruir Nagasaki
a bomba atómica baptizada Little Boy lançada duas vezes sobre cidades japonesas
O cogumelo atómico provocado pela bomba atómica sobre Hiroshima
Nagasaki
vitima agonizante em nagasaki

O CHEF DE MOEDAS

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Imagino que o presidente da CML não saiba que a capital do país é um lixo, que as ruas estão destruídas, que o preço das casas, verdade seja dita, desde que Luís Montenegro tomou posse, ainda não parou de aumentar. A título de exemplo no que respeita aos acessos, refiram-se as ruas de Sete Rios, só porque vão dar ao Instituto Português de Oncologia (IPO). As ambulâncias andam aos saltos até chegarem ao hospital, tamanhos são os buracos das únicas ruas que ali conduzem. Há mais de 30 anos que prometeram retirar os carris da rua que vai dar ao IPO. Construíram uma ciclovia sem continuidade, mas os carris lá continuam, ajudando a esburacar a rua.

E o que faz Moedas? Contrata um chef, que, no total, custará cerca de 36500 euros à autarquia, o que significa aos nossos impostos que, naturalmente, aumentarão. Portanto, as pessoas podem não ter casa, podem não ter que comer, podem viver em barracas e entre o lixo, incluindo na Rua José Malhoa. O presidente comerá de luxo.

Num momento em que o custo de vida aumentou muitíssimo e as famílias que estavam em dificuldades estão, claramente, pobres, já percebemos quais são as preocupações dos governantes, tanto do país como da capital.

No mercado de Benfica, dizia uma das vendedoras: “se anteriormente as pessoas compravam um quilo de tangerinas, agora compram três peças de fruta; ou um quilo de batatas, agora vão três batatas. Uma senhora chegou a comprar uma banana”. E passemos pelas farmácias onde se acumulam os mais velhos que não compram medicamentos: “ou levamos remédios ou comemos”.

Por outro lado, o governo desceu o IRS dos senhorios para 10 por cento no arrendamento habitacional (em todos os que tenham rendas inferiores a 2300 euros por mês, o tecto a que o governo chamou de “renda moderada”) e 6 por cento no IVA para a construção de habitação. Em suma, o IVA de 6 por cento será concedido a quem construa casa própria, quem a construa para venda desde que o preço não ultrapasse os 660.000 euros ou a ponha no mercado de arrendamento, desde que não cobre mais do que o valor da tal “renda moderada” de 2300 euros. Espera-se que o governo e as autarquias digam onde há casas, tanto para arrendamento como para venda, por aqueles preços, tendo em conta que um T1+1, por exemplo, em Benfica custa os tais 600 mil euros e não serve para uma família de quatro pessoas. A mesma família, ainda em Benfica, paga 1750 euros por um T1 com 55 metros quadrados. Naturalmente os filhos dormirão na varanda, que não existe, ou talvez na casa da porteira que também já deixou de haver.

E todos verificam que o custo de vida continua a aumentar, com lucros para as grandes empresas e prejuízos para os cidadãos. Com lucros para os senhorios e prejuízos para quem quer uma casa para viver.

fonte Evolução do preço das casas à venda, Benfica — idealista

Enquanto isto, o que é que não aumenta? Claro, os ordenados, os abonos de família, as pensões dos mais velhos. Uns têm de ser esticados, outros vão para pagar as refeições nas escolas e os últimos é bom que morram para deixarem de ser uma despesa, sendo certo que estes foram as grandes vítimas da Troika de Passos Coelho, não tendo ainda recuperado dos cortes nas pensões então sofridos. Por isso, não será despiciendo lembrar que o Estado só engordou para gastar mal porque alguém efectuou descontos durante dezenas de anos de trabalho…

ESTAR MORTO ANTES DE MORRER!…

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Comentava, há dias, com uma colega o facto de amigo comum não responder às mensagens, mesmo àquelas a que, em princípio, ele teria, por obrigação de ofício, uma palavra a dizer.

– Está morto! – retorquiu-me ela.

– Morto, como?

– Não sabes? É a nova moda: faz-se de conta que se não existe, não se atende o telefone, não se fala para ninguém…

Fiquei abismado.

E raciocinei: de facto, três ou quatro dos meus antigos alunos, agora já colegas, com quem eu tivera maior relacionamento, inclusive de trabalho, morreram desta maneira!…

Metem-me dó! Ficam velhos antes do tempo. Carregam, sozinhos, pesada cruz, quando havia cireneus capazes de os ajudar,  «Olá, bom dia! Como estás?»… Não há bons-dias nem boas-noites, nem festas felizes!…

Tenho o privilégio de o construtor da minha casa ter usado tijolos furados, na parede exterior da minha casa-de-banho. Encanta-me o final da tarde, quando o sol começa a pôr-se, lá para as bandas do Guincho, porque, nessa altura, começa o rodopiar de umas duas dezenas de pardais. Pousam na buganvília, na romãzeira, nos fios do telefone e da eletricidade. Conversam animadamente uns com os outros. E, pouco a pouco, entra cada um num dos buracos. Saem. Dão uma espreitadela aos demais e acabam por se aninhar cada um no seu buraco.

Encanta-me vê-los, aconchegados, mesmo junto ao vidro interior. Uma comunidade!

Durante a jornada – que começa para eles assim que alvorece e vão à vida – não sei se andam juntos ou não. Sei que passam a noite connosco.

Vou para a cama, amiúde, a pensar nesses meus colegas e amigos que não são como os “meus” pardais: não convivem, estão mortos antes de morrer!

ANTES DA MALA DE CARTÃO, LEVAVAM PEDRAS TUMULARES

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Imagem descritiva, construída com recurso IA

Pode, efectivamente, parecer estranho, mas aconteceu. E a história foi-nos brilhantemente contada por António Correia e Silva, no decorrer das II Jornadas Portuguesas de Gastronomia recentemente realizadas em Cascais, a que houve oportunidade de aqui nos referirmos.

Emigra-se, de facto, para um outro país com a ideia habitual de, na idade da reforma, se voltar à terra natal. Pode, porém, emigrar-se na intenção de lá ficar até à morte.

Lápide sepulcral de Cristóvão Leitão Cabral, falecido aos 26 dias de Outubro do ano de 1608, igreja do Rosário da Cidade Velha, ilha de Santiago. Foto de Rui Carita

António Correia e Silva – professor na Universidade de Cabo Verde, sociólogo e historiador, autor de livros como Histórias de um Sahel Insular (1995), Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo (2001), O Tempo das Cidades-Porto (1999), Cabo Verde, Combates pela História (2004) – depois de afirmar que a cachupa (a rica e a pobre) constituía, como Cesária Évora, um dos ex-libris de Cabo Verde, deu conta de que, quando chegou o momento de sair gente de Portugal para Cabo Verde, ia a família toda e, com ela, as pedras tumulares, porque se sabia não haver nas ilhas rochas que servissem para o efeito. Isso prova bem, salientou Correia e Silva, ser intenção de ali toda a família ficar.

De facto, se hoje observarmos as fichas patrimoniais das pedras sepulcrais, por exemplo, da cidade velha de Santiago, da igreja do convento de S. Francisco ou  da igreja do Rosário, lemos, neste caso, sem surpresa que se diz ser de «mármore continental europeu».

Fotografia à esquerda: na Cidade Velha de Santiago, igreja do Convento de S. Francisco, ilha de Santiago. Fotografia à direita: na igreja do Rosário da Cidade Velha, ilha de Santiago

Foi, na verdade, notável a comunicação do professor cabo-verdiano, explicando como é surpresa grande para um cabo-verdiano recém-chegado a Portugal ter uma semana de chuva, quando, lá, chover é fenómeno bem raro; explicando que os navios negreiros vindos da Guiné também levavam milho maís (o único que se adapta nas ilhas) e arroz; que se promoveu a cultura de laranjeiras e limoeiros, fundamentais para a tripulação dos navios, a fim de se combater o escorbuto; que foi sempre fundamental a produção de gado caprino, dada a sua resistência às vissicitudes da aridez do clima, gado de que tudo se aproveita, constando a carne salgada como elemento necessário da dieta alimentar.

Aproveitou para se referir a duas festas tradicionais a que a gastronomia está intrinsecamente ligada: a Festa das Cinzas, especialmente intensa na ilha de Santiago, que marca o início da Quaresma com um grande almoço comunitário e familiar, com pratos tradicionais como peixe seco, xerém, cuscuz com mel, couve feijão com ovos escalfados, leite de coco, simbolizando partilha, união e tradição. E a festa da altura da Páscoa, em que se celebra a afirmação da vida e cada homem oferece à mulher um frasco de mel.

Terminou sublinhando que Cabo Verde tem a sua história e o novo turismo já não é apenas o de sol-e-praia, mas também o do património histórico e o do resgate da gastronomia tradicional. Note-se que, em relação às referidas pedras tumulares, terá que existir um movimento de verdadeiro salvamento da maior parte delas, na medida em que é fácil, por serem ‘velharias’ sem outro préstimo, acabarem reaproveitadas a trouxe-mouxe noutros edifícios. E assim se corre o risco de perder uma memória milenar. Louve-se, por conseguinte, a actividade da historiadora Vera Félix Mariz por, num colóquio internacional realizado, em Lisboa, em Junho de 2012, ter focado o caso da igreja da Nossa Senhora do Rosário, como exemplo de um património que deve ser devidamente valorizado; foi daí que tomei a liberdade de copiar a imagem das pedras sepulcrais que estão a servir de degraus de acesso ao adro duma das igrejas.

                                                                                                         

OS QUE MANDAM MESMO

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À pergunta, como é possível que os cidadãos tenham elegido, por duas vezes, um energúmeno como Donald Trump? A resposta é, porque o sistema político-partidário dos EUA está sustentado no poder financeiro.

Também pela mesma razão, pouca diferença se nota entre um Presidente oriundo do Partido Democrata e o Partido Republicano. Na política externa, não se nota mesmo nada: todos os presidentes americanos têm feito as suas guerras, igualmente injustas, injustificadas e violentas. Na política interna há algumas nuances nos apoios sociais e nos incentivos ao investimento, mas a verdade é que os números da pobreza e dos sem-abrigo não cessam de aumentar.

Os sistemas partidário e eleitoral são complexos e o acesso a eles é bastante caro. Por exemplo, não há tempos de antena para disseminação de propaganda, cada partido paga os seus, por canal de televisão. Ou seja, difundir uma campanha eleitoral pelas televisões nos 50 Estados da União custa uma fortuna.

Cada Estado tem as suas próprias leis de registo de partidos políticos. Quem quiser fundar um partido de âmbito nacional tem de o registar em todos os 50 Estados da União. Em alguns Estados o registo é gratuito, mas noutros o custo pode ascender a mais de 5 mil dólares como, por exemplo, no Louisiana.

AS MAIS CARAS CAMPANHAS ELEITORAIS DO MUNDO

Quando há eleições, o registo de candidatos também tem de ser pago. Além disso, o registo só é válido se o candidato reunir um número mínimo de assinaturas de eleitores que constem nos cadernos eleitorais. Estados como a Flórida podem exigir cerca de 145 mil assinaturas de eleitores registados. Como é quase impossível fazer isso apenas com voluntários, os partidos contratam empresas profissionais. Estima-se que recolher assinaturas para um único Estado possa custar centenas de milhar de dólares.

Para um partido ser minimamente competitivo e aparecer em todos os Estados numa eleição presidencial, o custo de logística, equipas de advogados (consideradas fundamentais) e recolha de assinaturas pode ultrapassar os 2 milhões de dólares. E depois é preciso fazer campanha. É por isso que pequenos partidos políticos não conseguem entrar nas corridas presidenciais ou para o Congresso.

Ouvimos falar em orçamentos de campanhas eleitorais na ordem dos muitos milhões de dólares que dependem de financiamentos avultados de privados. Nas últimas eleições, um “sindicato” de multimilionários reuniu-se para pagar a eleição de Trump. Foram eles que pagaram toda a logística da máquina eleitoral, incluindo a propaganda nos media tradicionais e redes sociais.

As campanhas americanas são as mais caras do mundo.  Os candidatos precisam de angariar milhões de dólares apenas para comprar anúncios na TV. Os partidos Democrata e Republicano têm máquinas de angariação de fundos gigantescas. Nas eleições de 2024, a campanha de Trump arrecadou mais de 400 milhões de dólares em donativos e nem sequer foi a campanha que mais dinheiro angariou.

O PODER DOS OLIGARCAS

Nas televisões, todo o espaço é vendido. As estações de televisão não têm obrigação de dar tempo igual a todos os candidatos fora dos blocos informativos. A única regra igualitária, digamos assim, é a que obriga os canais de televisão a dar o mesmo preço a todas as candidaturas na corrida eleitoral. Não é tempo de antena gratuito, é apenas o direito de comprar ao mesmo preço do adversário..

Mesmo os debates televisivos não são “tempos de antena”. São organizados por entidades privadas ou redes de media. Os candidatos não só pagam bilhete de entrada para o debate como, na hipótese de haver candidatos apoiados por partidos mais pequenos, esses candidatos têm de atingir um limiar mínimo nas sondagens (geralmente 15%), o que cria um círculo vicioso: sem TV não sobem nas sondagens, e sem sondagens não vão à TV.

Tudo isto faz com que o Presidente dos EUA seja uma espécie de “mandatário” dos multimilionários que lhe pagaram o direito de concorrer e a campanha eleitoral. Não há nenhum mecanismo para verificar eventuais conflitos de interesse (nem mesmo de ordem política) dos financiadores. Podem ser sionistas e financiar sem problemas um candidato à Presidência dos EUA. A longa lista de multimilionários que pagou a campanha de Trump pode ser consultada aqui, num artigo da revista Forbes. Então, já percebemos como é que um tipo tão estranho como Trump chegou duas vezes à Casa Branca. Pagam-lhe para lá estar. E ele cumpre com os objetivos traçados.

fotomontagem satírica

 

PRESIDENTE SEGURA A CONSTITUIÇÃO

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Nos 50 anos da Constituição da República Portuguesa (CRP), o Presidente da República lembrou que a CRP é a voz de um povo que, depois da ditadura salazarista, escolheu a democracia, a dignidade e a justiça social.

António José Seguro agradeceu aos deputados da Assembleia Constituinte por terem cumprido a tarefa de escrever, discutir e aprovar uma CRP democrática em cerca de um ano de trabalhos parlamentares.

“Depois de décadas de silêncio, a voz do povo fez lei”, disse o Presidente, numa espécie de síntese da celebração que estava a decorrer na Assembleia da República.

Seguro lembrou que nestes 50 anos, a CRP já sofreu “sete revisões, sem perder a sua essência”.

O escudo do cidadão perante o arbítrio do poder. A garantia da cidadania. Todos iguais nos direitos e deveres. Os pilares constitucionais de um país que é hoje muito melhor do que foi durante o salazarismo. “Há uma verdade que importa dizer com clareza: não é a CRP que impede a resolução dos problemas concretos dos portugueses”.

Juramento do Presidente António José Seguro, 2026-03-09

Seguro lembrou que, tal como jurou na tomada de posse como Presidente da República, tudo fará para defender, cumprir e fazer cumprir a CRP”. Posicionou-se como contrapeso aos que querem destruir a Constituição da República Portuguesa.

O discurso do Presidente, na íntegra:

Discurso do PR nos 50 anos da CRP

ENTRE A DOR E A MANIPULAÇÃO: A GUINÉ-BISSAU NÃO PODE SER GOVERNADA PELO RUMOR

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Nenhuma sociedade séria pode banalizar a perda de uma vida humana em circunstâncias violentas. E nenhuma autoridade responsável pode fugir à obrigação moral, política e institucional de exigir que toda a verdade seja apurada.

É precisamente por isso que importa dizer, com clareza, o que muitos preferem esconder no meio da emoção: uma tragédia desta natureza não pode ser transformada, à pressa, num tribunal político de rua, num laboratório de agitação ou numa plataforma de manipulação da opinião pública.

Desde as primeiras horas após o crime, instalou-se no espaço público um vox pop carregado de insinuações, certezas sem prova e acusações pré-fabricadas, apontando de imediato o dedo ao militares, ao actual quadro de poder e até ao ex-Presidente Úmaro Sissoco Embaló.

Mas uma pergunta séria impõe-se: com base em quê?

Num Estado que se quer reconstruir, a verdade não pode ser substituída por boatos organizados, nem a justiça por convicções partidárias. Acusar antes de investigar não é coragem cívica, é irresponsabilidade política.

Há, aliás, um dado que qualquer observador minimamente racional deve considerar: num momento em que o actual regime procura consolidar-se, reduzir tensões, recuperar confiança interna e obter sinais crescentes de compreensão e apoio por parte dos principais parceiros de desenvolvimento da Guiné-Bissau, seria politicamente contraditório e estrategicamente absurdo admitir, sem prova, que teria interesse em provocar um acto com tamanho potencial desestabilizador.

Isso não significa absolver ninguém antecipadamente. Significa apenas recusar a preguiça intelectual de transformar suspeitas em sentença. O mesmo vale para o silêncio do ex-Presidente Úmaro Sissoco Embaló. Num ambiente emocionalmente carregado, não é intelectualmente sério nem moralmente aceitável converter o silêncio político de uma figura influente em prova de culpa ou cumplicidade. Em democracia, a responsabilidade criminal não se constrói por ódio, nem por conveniência narrativa.

Mais preocupante ainda é o facto de, quase em simultâneo, certos actores políticos, comentadores militantes e activistas habituais terem surgido com mensagens convergentes, tentando empurrar o país para uma leitura étnico-política do caso, como se a dor de uma família e a indignação de uma comunidade pudessem ser transformadas em combustível para agendas de confronto.

A Guiné-Bissau deve rejeitar com firmeza qualquer tentativa de incitamento emocional dirigido à comunidade balanta ou a qualquer outra comunidade nacional. Nenhuma etnia deve ser usada como tropa de choque de ambições políticas. Nenhuma dor colectiva deve ser transformada em arma de desestabilização.

É legítimo pedir justiça. É legítimo exigir transparência. É legítimo desconfiar de versões fáceis. Mas não é legítimo incendiar o país para colher dividendos políticos.

Também por isso, algumas intervenções externas, inclusive vindas de círculos políticos em Portugal, deveriam ser mais responsáveis. A Guiné-Bissau não precisa de paternalismo moral em formato digital, nem de julgamentos instantâneos feitos a partir de redes sociais, sem acesso aos factos, sem responsabilidade directa no terreno e sem preocupação real com as consequências internas de cada palavra pronunciada.

O país precisa, sim, de coisas simples e decisivas: investigação séria, sem zonas de protecção, sem intocáveis e sem encobrimentos. Justiça efectiva, sejam quem forem os autores, mandantes, cúmplices ou beneficiários. Serenidade nacional, porque a verdade não nasce do pânico, nem da propaganda, nem da histeria colectiva.

Neste ponto, importa reconhecer que o Governo e o Primeiro-Ministro assumiram a posição institucional correcta: condenaram o crime, pediram investigação até às últimas consequências e defenderam o apuramento integral dos factos. Essa é, neste momento, a única postura compatível com a responsabilidade de Estado. Quem realmente ama a Guiné-Bissau não deve perguntar primeiro: “quem me convém acusar?”. Deve perguntar: “como evitar que mais uma morte seja usada para empurrar o país para o abismo?

A verdade deve ser dita. A justiça deve ser feita. Mas a Nação não pode ser entregue ao rumor, ao cálculo e à exploração da dor. A Guiné-Bissau precisa de sangue-frio, verdade, sentido de Estado, mas não de incendiários disfarçados de indignados.

CRISTO EM CASA DE MARTA

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Museu Nacional Grão Vasco, Cristo em Casa de Marta e Maria, Gaspar Vaz, c. 1535

De uma demorada passagem pelo Museu Nacional Grão Vasco, essa emblemática casa de cultura de Viseu onde a pintura de Grão Vasco pontifica como “Tesouro Nacional”, uma pintura me cativa ainda, como sempre aconteceu, esse virtuoso quadro, de título “CRISTO EM CASA DE MARTA E MARIA”, que Gaspar Vaz, colaborador que foi de Grão Vasco, terá executado para a áulica Capela de Santa Marta, que D. Miguel da Silva mandara construir no Paço de Fontelo, onde Santa Marta figura como patrona.

Ficaremos, hoje, pelo sumário descritivo desta obra-prima, cuja materialidade é a de uma extensa tábua de castanho pintada a óleo onde se representa, num cenário intimista, quase familiar, uma refeição servida, ao findar de uma tarde, me parece, a ajuizar pela luz morna do janelão mainelado que descobre a paisagem.
Talvez tenha sido Lázaro, com o assentimento de suas irmãs que com ele coabitam nesse espaço de agradável mansão, a convidar o Mestre. que veio, nesse dia, trazendo apenas Pedro e João.
O serviço da refeição cumpre-se no amplo espaço de uma sala de aparato, espaço construído e decorado de acordo com padrões renascentistas que o Bispo D. Miguel da Silva trouxera da sua estada em Roma e cultivara.
Chamam-nos a atenção as poderosas colunas de jónica feição, que, sobre plintos volumosos, suportam um tecto apainelado, havendo a notar, como insólito, a cartela inscrita na face dos plintos, com a reprodução da heráldica do Bispo, sem dúvida, o encomendante: o “Leão entre silvas”.
Sobre um chão pavimentado com mosaicos de expressão hispano-árabe, levantou-se a mesa cerimonial da refeição, logo recoberta por uma rica tapeçaria oriental, cujo padrão testifica uma concreta origem. Sobre esta pousa uma branca toalha que, se pudéssemos tocar-lhe, distinguiríamos o tecido de linho relevado importado das oficinas da Flandres.
Sobre a mesa, algo despojada, ainda se encontram três pães. Nota-se, vazio, frente a João, um prato de estanho e uma pequena taça, mais longe. Pedro desdobrou já o individual guardanapo, que Cristo mantém ainda dobrado e nele repousa a faca de estanho para ulterior serventia.

Um pesado dossel, pano de honra, drap d´honneur, de nobre tecido de damasco talvez, desce do tecto, recobre a espaldas o espaço da mesa, descendo sobre esse espaço, frente ao qual se senta o nobre convidado.
À esquerda de quem olha, abre-se um aposento intimista onde, sobre as libertas prateleiras de um armário recobertas de linho pousam, resguardadas, peças de estanho, para serviço de aparato, que se acompanham de pequenos cântaros de fino barro vermelho, que pousam a deslado, talvez sobre um estrado.
Os convidados virão, sentar-se-ão nos lugares que o seu estatuto lhes consigna e a mesa depressa se tornará lugar de vivo conciliábulo, discurso breve que, todavia, expressa profundos conceitos de doutrina, a verdadeira mensagem do quadro.
Para ler num outro dia!…

CONSENSO OU RUPTURA INSTITUCIONAL

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A escolha dos nomes dos Juízes para o Tribunal Constitucional constitui uma questão relevante, no quadro constitucional consolidado nos últimos 40 anos, potenciando o fim do chamado bloco central, que dominou a nossa vida política desde o 25 de Abril de 1974, ou confirmando o acordo de regime entre o PSD e o Chega. Para alguns será uma tragédia, para outros o princípio de uma nova fase da vida política, ainda para mais num quadro mundial de enorme incerteza, com uma crise económica cujas consequências podem arrasar o equilíbrio nascido após a II Guerra Mundial e a criação da União Europeia.

Importa entender o que poderão ser a evolução da política interna, as alterações da política partidária e as suas consequências para os portugueses.  

O acordo de regime já se verificou na Lei da Nacionalidade, abrindo o caminho a outros entendimentos, noutras questões relevantes para a sobrevivência do governo porque, para Luís Montenegro, é isto que está em causa: sobreviver o máximo de tempo possível.

Este acordo de regime levará, inevitavelmente, à extinção do CDS, a um reforço do Chega em diversas estruturas do poder – os até aqui chamados ‘tachos’ – e a uma clivagem clara entre a direita e o centro-esquerda moderado, representado pelo Partido Socialista.

Na Europa os partidos da direita radical vão ganhando cada vez mais espaço e, em muitos casos, alcançam o poder ou ficam mais próximos de o atingir ou de o influenciar, o que implica entender duas coisas: quais as causas que determinam a subida dos partidos radicais de direita e o que é ser de esquerda no segundo quartel do século XXI.

Por que motivo cresce o sentimento de apoio a regimes autocráticos, com compressão dos direitos, liberdade e garantias, ou, de forma mais clara, por que motivo os eleitores entre os direitos e a compressão dos direitos, optam pela compressão dos direitos.

Para tentar compreender estes movimentos, temos de entender o que levou a esta situação.

De forma simplista, podemos afirmar que as causas do crescimento da direita radical derivam da iliteracia, da desinformação, alimentada pelas redes sociais e por centrais de informação controladas por grupos económicos, dos movimentos migratórios na Europa, da falta de resposta a questões fundamentais como a habitação, a segurança e a saúde. Podemos igualmente dizer, com alguma certeza, que a cultura do ódio, o medo, o empobrecimento da classe média e baixa ajudam ao crescimento destes movimentos radicais.

Aqui chegados, temos de questionar qual o papel que a esquerda moderada deve ter para recuperar a sua influência e as diferenças para com esta direita radical? O que é ser de esquerda, hoje, num quadro em que se perderam muitos dos valores nascidos com a Revolução Francesa e com o reforço das democracias na Europa.

A esquerda, mesmo a esquerda moderada, enredou-se em questões wokistas que, numa visão complexa de graves problemas económicos e sociais, nada dizem à grande maioria dos eleitores e dos cidadãos.

A defesa das minorias é um pressuposto da democracia e do exercício dos direitos, mas não pode ser o alfa e o ómega da política nem, de modo algum, a única preocupação da esquerda moderada, sob o perigo de alienar eleitores e deixar o campo aberto à direita radical.

Existem problemas concretos, no dia-a-dia, que penalizam os cidadãos e aos quais se deve dar uma resposta. Sem ela, engrossam os apoiantes da extrema-direita.

Como se assistiu no dia 2 de Abril de 2026, nas comemorações dos 50 anos da CRP, a direita radical está a subir o tom, a lançar o ódio e a usar a mentira para ganhar terreno. Alguns dos membros do Chega estiveram ligados a movimentos terroristas no pós-25 de Abril, incluindo o ELP e o MDLP. Assassinaram cidadãos, colocaram bombas, são criminosos que ficaram impunes. Nestes tempos de deriva, é necessário recordar esses crimes, porque a grande maioria dos eleitores ainda não era nascida quando foram praticados.

Por este motivo, a esquerda moderada, em concreto o Partido Socialista, tem a obrigação de repensar o seu papel no actual quadro político-partidário português. E, de uma vez por todas, tem de repensar se quer manter consensos com o governo PSD/ Chega ou se é preferível uma ruptura institucional. Há momentos, na política, em que é necessário coragem e capacidade de romper com o status quo, e este é o momento. Se nada for feito, o Partido Socialista e a  esquerda moderada perderão qualquer possibilidade de recentrar o País e de garantir uma democracia liberal, estável e desenvolvida.

O Partido Socialista e todos os defensores de uma democracia parlamentar, com desenvolvimento económico e social, têm a obrigação de separar as águas. De um lado fica o PSD e o Chega e do outro os defensores de uma sociedade livre, democrática e desenvolvida. As coisas são simples e apenas se tornam complicadas na bolha mediática e nos arquétipos que alguns analistas têm usado, sistematicamente, ao longo destes 50 anos.

O que deve fazer o PS, uma vez que é o partido com representação parlamentar, mais próximo desta concepção? Deve deixar a coligação PSD/Chega governar, sem participar nas grandes decisões, desde o Orçamento do Estado a qualquer proposta legislativa? Deve deixar que a coligação se digladie entre si? Deve apresentar as suas propostas para o País, mas sem pedir ou propor que as mesmas sejam incluídas nas medidas tomadas pela coligação de direita e aguardar, serenamente, construindo uma alternativa para ganhar as próximas eleições legislativas, as quais, possivelmente irão realizar-se mais cedo do que se pensa?

É um dos maiores erros de um partido da oposição ‘aperfeiçoar’ o Orçamento do Estado, sugerir medidas correctivas dos erros que quem governa apresenta aos portugueses. É um disparate, ainda mais grave, tentar melhorar leis, apresentadas pelo governo, que são uma aberração. Um partido da oposição deve dar a conhecer as suas propostas, para que os cidadãos delas tomem conhecimento. Não deve ‘ajudar’ o governo, muito menos um de direita, submetido aos impulsos da direita radical, a melhorar as leis ou as medidas que a tomar. O governo deve ser responsabilizado por tudo o que fez, sem contemplações.

O Partido Socialista, se quiser ganhar as eleições, recentrar o País e recuperar eleitores, tem a obrigação de construir alternativas, captar os jovens e a classe média, apresentar propostas credíveis e sérias, que permitam aos eleitores ter esperança em que se vai mudar o País. A gestão das expectativas é fundamental. O PS precisa de entender o que é ser de centro-esquerda hoje, ou seja, que os cidadãos necessitam de ter esperança e de acreditar que os seus problemas concretos vão ser ultrapassados.

VIVAM OS FOTOJORNALISTAS

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os fotojornalistas Manuel Moura, Inácio Ludgero e Rui Ochoa

Seis fotojornalistas foram homenageados pelo Presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, na sessão solene comemorativa dos 50 anos da Constituição de 1976: Manuel Moura, Inácio Ludgero, Rui Ochoa, Alfredo Cunha, Eduardo Gageiro e João Ribeiro.

As fotografias que hoje vemos nos arquivos de jornais da época, foram feitas por eles. Contam-nos histórias de um tempo em que o país se transformou. Com a Constituição de 1976, os portugueses adquiriram a estrutura legal que lhes garante, até hoje, direitos e liberdades inexistentes durante os 50 anos anteriores, em que Portugal viveu sob uma ditadura.

Estes profissionais foram destacados pelo seu papel histórico no registo dos momentos fundadores da democracia portuguesa e do processo constituinte. A homenagem incluiu referências ao seu trabalho na cobertura da Assembleia Constituinte e a inauguração de exposições fotográficas dedicadas ao cinquentenário da Lei Fundamental.

50 anos depois, reformados, ainda com o dedo no “gatilho”, sempre armados com uma máquina fotográfica, como é o caso de Inácio Ludgero.

fotografia de Inácio Ludgero no exterior da Assembleia da República, em 1976
Inácio Ludgero hoje