JOSÉ D’ENCARNAÇÃO

Há homenagens que são apenas cerimónias. E há homenagens que representam um ato de justiça. A que o Teatro Experimental de Cascais, com o apoio do Município de Cascais, prestou a José d'Encarnação pertence claramente à segunda categoria.

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Falar de José d’Encarnação é falar de uma das figuras maiores da cultura cascalense e portuguesa, um homem que fez da defesa, estudo e divulgação do património uma missão de vida. O seu currículo impressiona pela extensão e pela diversidade: historiador, arqueólogo, epigrafista, investigador de referência e professor universitário em Coimbra. Mas reduzir a sua obra ao universo académico seria ignorar uma dimensão essencial da sua personalidade.

José d’Encarnação nunca se conformou com a torre de marfim da academia. Sempre acreditou que o conhecimento só faz sentido quando é partilhado. Por isso, ao longo de décadas, conciliou a investigação científica com o jornalismo, escrevendo crónicas, reportagens e artigos em inúmeros jornais locais espalhados pelo país. Atualmente, continua esse trabalho no site Duas Linhas, onde escreve muito sobre teatro e artes, de um modo geral, e onde soma já largas centenas de textos publicados, mantendo intacta a curiosidade, o rigor e a vontade de contar histórias.

Parece haver nele uma característica rara: gosta de “mexer com as mãos”. Tanto pode passar horas a decifrar uma inscrição gravada há dois mil anos por um anónimo canteiro romano, como pegar na caneta – ou no teclado – para transformar esse conhecimento em linguagem acessível ao grande público. Fá-lo sem paternalismos, aproximando as pessoas do património e da História, mostrando que ambos pertencem a todos, no contacto permanente com audiências cada vez mais vastas que a internet hoje permite alcançar, sempre que os caprichos dos algoritmos o consentem.

A homenagem agora prestada reconhece um percurso exemplar, é um agradecimento coletivo a quem dedicou uma vida inteira a divulgar cultura e a preservar memórias, recuperar histórias e transmiti-las às gerações seguintes.

Estamos juntos, José d’Encarnação.

fotografias de Guilherme Cardoso

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