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O ORIGINAL E A CÓPIA

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Ventura foi candidato autárquico pelo PSD à Câmara de Loures, descobrindo, nessa candidatura, um ‘nicho de mercado eleitoral’, o ódio contra os ciganos, que levou o CDS, de Assunção Cristas a abandonar a coligação CDS/PSD, mas que mereceu o apoio do seu protector e mentor, Passos Coelho.

Com a saída daquele da liderança do PSD, André Ventura lançou-se por conta própria, juntou os restos do MDLP, um movimento de direita radical, responsável por diversos atentados bombistas, após o 25 de Abril, o lixo do PSD e do CDS, uns milhares de descontentes pertencentes ao lúmpen-proletariado e criou o Chega.

Com o apoio de um grupo de empresários, que odeiam a democracia, e com a conivência de alguns sectores da comunicação social, foi ganhando notoriedade, sem qualquer ideia para o País, mas na gritaria permanente, típica dos debates televisivos do comentário futebolístico, ao nível da tasca, mas que encantam uma boa parte do eleitorado português.

Desde a criação do Chega até aos dias de hoje, tivemos quatro eleições legislativas, num quadro de crise económica global, derivada da pandemia e da guerra na Ucrânia, a par de um clima de suspeição em relação aos políticos, o que alargou o espectro dos apoiantes do Chega, tendo como resultado o seu crescimento eleitoral, traduzido num grupo parlamentar de 60 deputados. Curiosamente, as autárquicas não reflectiram este crescimento, o que deriva das especificidades destas eleições.

A AD ganhou as eleições legislativas de 2024 e 2025, formou um governo minoritário e tem vindo a radicalizar o seu discurso, ultramontano, numa tentativa de ocupar o espaço do Chega, na direita radical, na ilusão de que a cópia pode derrotar o original. Nada de mais errado.

Como escreveu António Barreto, ‘o bom governo exige tempo e serenidade, não sofreguidão e artimanha. Os arranjinhos poderão disfarçar o inevitável, mas não conseguirão evitá-lo (in Público 13/6/2026).
O que o governo está a fazer é a lançar o País no abismo, no radicalismo, no confronto, na ânsia de novas eleições que permitam à AD uma maioria absoluta. Os dirigentes do PSD, e não refiro o CDS que é uma caricatura de partido, ainda não perceberam o que está a acontecer. O resvalar do PSD para a direta radical, disputando o espaço com o Chega, apenas vai fortalecer este partido e ajudar à trânsfuga de apoiantes, militantes e quadros para a direita radical e original. Se até aqui saíram, principalmente, segundas linhas do PSD para o Chega, bem como alguns quadros que não conseguiam sair da sombra e encontraram na direita radical o porto de abrigo para alcançarem os seus objectivos, com a proximidade do poder haverá outras deslocações que irão esvaziar o PSD.

Entre um partido sem convicções, a navegar ao sabor de uma prática errática, que atira borda-fora o património político dos fundadores do PPD, que era o cimento de ligação das diversas faccões, com o único fim de subsistir na ‘grade farra’ do Orçamento do Estado, e um partido populista, demagógico, agregador dos descamisados e dos ressabiados, a escolha da maior parte dos eleitores é clara, como temos  assistido na Europa, optam pelo original, pelo mais radical e demagógico, porque não têm nada a perder, sem se aperceberem que estão a defender os interesses de grandes grupos económicos.

O que está a acontecer é a aplicação prática da teoria da substituição política, em que o Chega vai substituir o PSD. Contrariamente à tese de Miguel Para Roque, de que o PSD é barriga de aluguer do Chega, o que se passa é que o partido dito social-democrata está a esvaziar-se para o partido de direita radical, nos princípios e a ser sugado dos seus militantes e eleitores.

O esgotamento do PSD pode ser inevitável, tendo como consequência o regresso à bipolarização entre o Chega e PS.

O MEU AMIGO JACK – O TECELÃO DO TAPETE INVISÍVEL

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No centro de uma América feita de betão e linhas retas, Jack Kerouac sentou-se diante de um tear invisível. Nascido sob o signo da névoa em Lowell, ele não usava fios de lã ou seda para tecer a sua obra; ele usava o próprio tempo, a velocidade dos automóveis e o ritmo sincopado do jazz que ouvia nas esquinas da noite. A sua missão era criar um manto que cobrisse a nudez espiritual de uma geração que crescia depressa demais.

A primeira linha que Jack lançou no tear foi uma palavra sussurrada: Beat. Era um fio elétrico, que vibrava com a pulsação dos corações desalinhados. Ao ver a beleza daquela trama inicial, o vento trouxe-lhe companheiros. Ginsberg aproximou-se e atou ao tear fios de fogo e profecia, que ardiam sem queimar. Burroughs, vindo das sombras, acrescentou fios de uma liga metálica e escura, pesada como os segredos do mundo.

Os homens dos jornais, que vigiavam as alfaiatarias oficiais da cultura, tentaram colocar uma etiqueta no tecido antes mesmo de ele estar pronto. Chamaram-lhe “Geração Beat”. Tentaram dizer que Jack era o mestre-alfaiate e Ginsberg o seu primeiro oficial. Mas Jack sorria em silêncio; ele sabia que o tapete não pertencia a ninguém. O tecido ora se fechava num lenço apertado entre cinco amigos íntimos, ora se expandia como uma lona gigante que cruzava o céu de São Francisco a Nova Iorque.

À medida que Jack corria com a lançadeira pelo tear, novos fios eram puxados de todas as direções. Poetas da costa oeste traziam cores de terra e floresta; vozes femininas, antes silenciadas nas caixas de costura, entravam na trama com nós de pura audácia. Até os velhos guardiões da tradição viam no padrão de Jack o eco dos seus próprios ensinamentos antigos.

O desenho final parecia caótico aos olhos dos críticos de trazer por casa. Havia nós soltos, linhas que mudavam de direção sem aviso e texturas sobrepostas. Mas aquele caos era o mapa da emoção humana. Quando Ginsberg gritou o seu Uivo, o tapete ganhou asas. Quando Jack estendeu o rolo de Na Estrada, o tecido transformou-se numa autoestrada de pergaminho que rasgou o continente.

O tapete de Jack acabou por cobrir o país inteiro, alterando a própria lei da gravidade literária. Anos mais tarde, quando os hippies procuraram um teto, encontraram a lona de Jack. Quando os músicos de rock e os poetas da rua procuraram um ritmo para os seus passos, foi no padrão daquele tecido eterno que encontraram o seu Norte. Jack Kerouac não escreveu apenas livros; ele teceu a própria pele da modernidade.

NAVIO ALMIRANTE AO FUNDO

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O Tribunal Criminal de Lisboa considerou que o Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA) está a interferir ilegitimamente com a Justiça. Em causa está a notificação do Comandante e da Imediata do NRP Mondego para prestarem declarações no caso onde outros militares estão acusados de “violação de segredo”.

Se bem se lembram, trata-se ainda daquele caso em que a maioria da tripulação do navio se recusou a cumprir ordens por considerar que o navio não tinha condições de segurança para navegar.

Cabe ao CEMA notificar os elementos identificados como testemunhas no despacho judicial proferido a 04.05.2026. Por alguma razão, o Almirante não deu ordem aos dois oficiais para se deslocarem hoje ao Tribunal Criminal de Lisboa.

A falta destas duas testemunhas não só inviabilizou a sessãod e hoje como as que já estavam marcadas, que foram agora anuladas.

“O comportamento processual assumido pela Marinha Portuguesa compromete gravemente o regular funcionamento do serviço deste tribunal, afeta de forma intensa a imagem de eficácia, prontidão e rigor que o cidadão espera de ambas as instituições (tribunal e Forças Armadas) e configura uma tentativa de comprometimento do dever de acatamento das ordens judiciais e da autoridade dos tribunais”, escreveu a magistrada Maria Godinho no mesmo despacho em que aplica a sanção pecuniária de 816 euros, que o Almirante terá agora de desembolsar.

O advogado Garcia Pereira, defensor dos réus, considerou a atitude do Almirante “uma verdadeira vergonha”.

Quando for marcada nova sessão deste julgamento, as duas testemunhas que agora faltaram deverão ser conduzidas sob detenção pela GNR para que não voltem a faltar. 

ESTAR PRESO EM PORTUGAL

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Um dos sindicatos da Guarda Prisional parece que pretende substituir-se aos médicos de medicina legal, aos investigadores da Polícia Judiciária e até aos tribunais, avançando já com conclusões sobre a morte de 28 reclusos nos primeiros seis meses deste ano.

Foi numa entrevista à CMTV que foram transmitidas as conclusões destes guardas prisionais: os reclusos morreram por causa do consumo de droga.

Segundo o que foi dito nesta entrevista, os reclusos morrem por overdose, as cadeias estão inundadas com uma droga conhecida por K4, um produto sintético difícil de detetar porque pode ser pulverizado em folhas de papel. Estes guardas prisionais advogam que toda a correspondência seja aberta e fotocopiada, de modo a evitar que as folhas impregnadas com a droga cheguem aos reclusos. O mesmo para a roupa, embora não se perceba como é que a droga impregnada na roupa possa ser consumida… o papel misturado com tabaco pode ser fumado, fumar roupa parece-nos mais complicado.

Em comunicado, a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) garante que “não pode aceitar, nem aceitará, que esse grave problema possa ser usado para justificar a aplicação de medidas que iriam tornar ainda mais difícil o dia-a-dia dos reclusos – a imensa maioria dos quais não usa nem tolera drogas”.

A APAR considera que este sindicato espalha “informações alarmistas” das quais não apresenta “qualquer prova da veracidade” e que apenas está interessado em limitar, ao máximo, qualquer tipo de atividade dos reclusos.

A polémica já tinha antes transbordado para a opinião pública. Em 15 de maio, a Associação Vida Justa promoveu uma manifestação à porta do Ministério da Justiça, para protestar contra o estado a que isto chegou no interior do sistema prisional, entregaram uma carta à ministra que prometeu mandar investigar todas as mortes de reclusos.

Na altura, a Vida Justa lembrou os casos de Danijoy Rodrigues, Daniel Pontes, Miguel Cesteiro, Gabriel Facha, Iuri Rafael Mendes, Jorge da Conceição Dias dos Santos e Carlos Teixeira (encontrado morto a 15 de março de 2026 no Estabelecimento de Alcoentre), alguns dos nomes de “mais 300 pessoas que morreram no sistema prisional português nos últimos cinco anos”. É muita gente a morrer.

Dias depois, o jornal Público avançava com uma manchete que denunciava o problema.

FORA DO CAMPO

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Todos os grandes eventos mundiais atraem multidões, tanto para aplaudir como para aproveitar o momento para defender causas que, por vezes, nada têm a ver com o próprio evento. Durante o Festival da Eurovisão, os protestos centraram-se na participação de Israel nesse concurso musical. As manifestações foram, tanto quanto possível, censuradas ou invisibilizadas, quer nos media, quer nas redes sociais. Com o Mundial de Futebol, tudo indica que acontecerá o mesmo, embora, neste caso, seja mais difícil tapar o sol com uma peneira.

Há centenas de adeptos, talvez milhares, que não conseguiram visto de entrada nos Estados Unidos, mesmo depois de terem comprado bilhete para assistir aos jogos das suas seleções. São proibições de caráter discriminatório, bastando observar quais os países mais afetados por estas restrições: Marrocos, África do Sul, Costa do Marfim, Senegal, Haiti e Irão.

Depois, há o caso indigno da seleção do Irão, obrigada a permanecer numa cidade mexicana, junto à fronteira com os Estados Unidos, sendo autorizada a entrar no país apenas nos dias dos jogos. Entram os jogadores e o treinador, mas 13 membros da delegação iraniana viram o visto recusado pelas autoridades norte-americanas.

E o que dizer do árbitro somali Omar Artan, que também viu o visto recusado, apesar de estar nomeado pela FIFA para arbitrar um dos jogos deste Mundial? Ou do jogador iraquiano Aymen Hussein, retido durante sete horas em Chicago pelos serviços de imigração norte-americanos?

Mais do que o resultado dos jogos, interessa-me perceber como o mundo vai reagir a este tipo de prepotência. No campo, que ganhe o melhor, seja lá quem for. Fora do campo discutem-se valores muito mais importantes para a vida de todos nós.

LIDL e ALDI, COMPARAÇÃO FEITA POR UM CLIENTE

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Enquanto as grandes cadeias de supermercados europeias apostam na padronização de serviços, um olhar atento revela diferenças profundas entre a mesma empresa em dois países. Há um contraste de atitude entre a Alemanha e Portugal no que toca à forma como cadeias como o LIDL e o ALDI tratam os seus clientes.

O contraste que vai das casas de banho ao tratamento da dignidade humana é sintomático de atitudes desumanizadas e desaferidas. Quer-se economia virada para as pessoas ou só para o lucro?

Na Alemanha, o dinheiro fala mais alto enquanto em Portugal, as pessoas ainda contam

O exemplo mais gritante está num serviço básico, quase primário, como a disponibilização de casas de banho para clientes. Em Portugal, as lojas do LIDL e do ALDI disponibilizam, regra geral, sanitários acessíveis a quem está a fazer as suas compras. Na Alemanha, país de origem de ambas as cadeias, o mesmo não acontece. As casas de banho são, na sua maioria, exclusivas para funcionários, fechadas ao público.

Consequências indignas

A realidade é chocante: Na Alemanha não é raro ver-se atrás dos prédios das empresas excrementos de pessoas que não tiveram outro remédio senão correr para trás do edifício. Isto é corroborado por relatos de motoristas de entregas, idosos e pessoas com problemas de saúde que, ao não encontrarem um local digno durante o percurso de compras, vêem-se forçados a situações degradantes.

A lógica alemã é pragmaticamente financeira: abrir uma casa de banho ao público implica custos de limpeza, manutenção, segurança e maior desgaste das instalações. É um custo sem retorno direto e por isso, elimina-se. Portugal, país com menores recursos económicos, opta por manter esse serviço, não por lucro, mas por uma questão de atenção à pessoa.

Precisa-se de uma economia e comércio mais virados para as pessoas e não tanto para o lucro!

Eficiência versus humanidade

Especialistas em comportamento organizacional notam que a Alemanha construiu o seu sucesso económico sobre pilares de eficiência, custos controlados e produtividade. Isso gerou riqueza, mas também frieza institucional. Portugal, com uma cultura de proximidade e menor pressão de produtividade, mantém ainda resquícios de uma economia de base relacional.

A diferença não é de menosprezar. “É um termómetro da alma de um país”, diz a socióloga Marta Figueiredo. “Uma empresa que fecha a porta da casa de banho a um cliente está a dizer-lhe: O que me interessa é o seu dinheiro, não a sua necessidade.”

Parabéns a Portugal… mas sem euforia

Parabéns Portugal pela diferença positiva, mas tem cautela e fica alerta. A pressão para adoptar modelos de gestão internacionais, a crise da habitação, o aumento do custo de vida e a crescente precariedade podem levar a que, num futuro próximo, os supermercados portugueses sigam o exemplo alemão, cortando nos bens de humanidade para poupar uns cêntimos; o problema maior virá  da influência da Alemanha na Europa, que, de momento, se encontra exasperada.

A questão que fica é se queremos mesmo tornar-nos num país onde se nega uma casa de banho a quem precisa? Isso mostraria que se olha para as pessoas como meros consumidores! Resta ao cidadão/consumidor exigir que se pode ser eficiente e humano! A sociedade precisa de pessoas que olham, comparam e querem um mundo mais justo e não só mais rico.

O ESCRAVO DE MAGALHÃES QUE A HISTÓRIA ESQUECEU

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Estátua de bronze de Henrique de Malaca, patente no Asian Civilisations Museum, em Singapura

A história de Henrique começa muito antes da partida da armada espanhola em 1519. Em 1511, durante a conquista portuguesa de Malaca, Fernão de Magalhães participou na campanha militar que levou à tomada daquele importante entreposto comercial do Sudeste Asiático. Foi nesse contexto que adquiriu um jovem de cerca de doze anos, que passou a acompanhá-lo como escravo e intérprete.

Durante quase uma década, Henrique viveu entre mundos. Acompanhou Magalhães a Portugal, tornando-se provavelmente o primeiro malaio a pisar solo europeu. Aprendeu línguas, costumes e formas de navegação que o transformariam numa figura singular da expansão marítima. Quando Magalhães rompeu com a Coroa portuguesa e se colocou ao serviço de Carlos I de Espanha para procurar uma rota ocidental para as Ilhas das Especiarias, levou consigo Henrique.

A presença do jovem revelou-se fundamental. Mais do que simples servo, Henrique desempenhou um papel decisivo como mediador linguístico e cultural. O cronista italiano Antonio Pigafetta refere-o diversas vezes ao longo da viagem, destacando a sua capacidade de comunicação com diversos povos encontrados no percurso.

Foi precisamente quando a expedição alcançou Cebu, nas Filipinas, em março de 1521, que Henrique se tornou uma figura central. Pigafetta relata que os habitantes locais compreendiam a língua por ele falada, um facto que continua a alimentar debates historiográficos sobre a sua origem. Seria natural das Filipinas? De Sumatra? De Malaca? Ou de alguma outra região do vasto mundo malaio?

A resposta permanece incerta. Alguns investigadores defendem uma origem filipina; outros apontam para Sumatra, apoiando-se em referências documentais contemporâneas. O próprio Henrique surge designado em algumas fontes como “Henrique de Taprobana”, um termo cuja interpretação varia entre Sumatra, Ceilão ou outras regiões asiáticas.

A morte de Magalhães, em Mactan, alterou radicalmente a situação do seu escravo. Apesar de o capitão ter determinado no seu testamento, datado de 24 de agosto de 1519, que Henrique fosse libertado após a sua morte, os novos comandantes continuaram a exigir os seus serviços. Segundo Pigafetta, Henrique recusou obedecer e foi ameaçado com castigos. Poucos dias depois, ocorreu o chamado massacre de Cebu, durante o qual morreram vinte e quatro europeus.

O cronista italiano insinuou que Henrique teria participado numa conspiração contra os espanhóis. Contudo, essa acusação nunca pôde ser comprovada. Muitos historiadores contemporâneos consideram-na uma interpretação enviesada dos acontecimentos, influenciada pelo ressentimento dos sobreviventes.

Depois desse episódio, Henrique desaparece completamente dos registos históricos.

É precisamente este desaparecimento que transformou a sua figura numa das mais intrigantes da história da navegação. No último momento em que é mencionado pelas fontes, Henrique encontrava-se vivo em Cebu, a cerca de dois mil quilómetros de Malaca. A expedição, por sua vez, ainda teria de percorrer mais de quinze mil quilómetros para regressar a Espanha.

Teria Henrique regressado à sua terra natal? Teria completado, antes de Juan Sebastián Elcano, a primeira circum-navegação do globo? Não sabemos.

O historiador John Sailors considera essa hipótese plausível, embora impossível de comprovar. O que se pode afirmar com segurança é que Henrique realizou aquilo que Sailors designa como uma “circum-navegação linguística”: regressou a um espaço onde a sua língua materna era compreendida e falada.

Ao longo dos séculos, a sua história foi apropriada por diferentes tradições culturais. Na Malásia, o romance histórico Panglima Awang, de Harun Aminurrashid, transformou-o num herói nacional e num símbolo da resistência ao colonialismo europeu. Nas Filipinas, vários autores reivindicaram a sua origem filipina. Na Indonésia, a sua figura também integra debates sobre identidade e memória regional.

Mais recentemente, o artista malaio Ahmad Fuad Osman recuperou Henrique através do projeto Enrique de Malacca Memorial Project, apresentado na Bienal de Singapura e posteriormente na Galeria Nacional de Arte da Malásia. Misturando documentos históricos, artefactos, escultura e vídeo, Osman criou um espaço de reflexão sobre aquilo que os arquivos silenciam.

Talvez nunca saibamos se foi efetivamente o primeiro homem a circum-navegar o mundo. Mas sabemos que foi uma testemunha privilegiada do nascimento da globalização moderna, um mediador entre civilizações e um dos protagonistas invisíveis da grande aventura marítima do século XVI.

A sua história recorda-nos que o passado não pertence apenas aos vencedores. Pertence também aos esquecidos, aos silenciados e àqueles cuja voz nunca chegou aos arquivos.

Foi precisamente nesse espaço de silêncio deixado pela História que nasceu A História de Panglima, o Escravo de Magalhães. Foi a ausência de Henrique – da sua voz, dos seus pensamentos e do seu destino – que despertou a minha imaginação de escritora.

Este pequeno livro é, acima de tudo, uma homenagem a Henrique de Malaca e uma tentativa de lhe devolver humanidade. É também uma forma de recordar que, por detrás das grandes epopeias, existem vidas que a memória oficial escolheu não preservar.

A PRESTAÇÃO ÚNICA (OU COMO JUNTAR 13 PROBLEMAS NUM SÓ)

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O Governo descobriu finalmente a pólvora social. Em vez de baralhar o cidadão com 13 formulários diferentes, o Ministério do Trabalho decidiu criar um “Super-Formulário”. É a Prestação Social Única (PSU), a nova “Netflix dos subsídios”, onde em vez de escolheres uma série, o Estado escolhe o nível de aperto que tens de passar para ter direito à dignidade.

O conceito é maravilhoso: simplificar. Juntam-se treze ajudas num só saco. A lógica é impecável: se antes tinhas de saltar de balcão em balcão na Segurança Social, agora podes ser rejeitado de uma só vez, com eficácia digital e em grande estilo.

O Big Brother do Rendimento

Para entrares neste clube exclusivo da “insuficiência económica severa”, a triagem é digna de uma auditoria da brigada fiscal. O Estado quer saber tudo. Olham para o teu ordenado, para a tua conta bancária, para a renda da casa e para o teu carro. Se tens um chaço de 2005 com o para-choques preso por fita-cola, cuidado: para o algoritmo do Ministério, podes muito bem ser considerado o novo magnata do imobiliário ou um barão dos transportes.

E a generosidade não se fica por ti. O Governo aplica o princípio do “onde comem dois, fiscalizam-se quatro”. O teu agregado familiar inteiro vai ao raio-X: cônjuges, filhos, tios, avós e até as crianças confiadas por decisão judicial entram na conta para provar que a tua pobreza cumpre os critérios de excelência exigidos pela tutela.

O Milagre do “Trabalha que o Subsídio Não Foge”

A grande inovação desta reforma é o compasso de espera motivacional. A Ministra percebeu que as pessoas preferem a miséria subsidiada ao luxo de um salário mínimo. Solução? O “Incentivo ao Trabalho”. Agora, se arranjares emprego, os primeiros tostões que ganhares não te cortam logo a prestação. É uma espécie de período de experiência de riqueza: o Estado deixa-te ver a cor do dinheiro antes de te retirar a boia de salvação, para que não te desabitues da sensação de sobrevivência.

O Estágio de Solidariedade de 15 Horas

Se estás em idade ativa e sem emprego, a PSU traz um bónus: o voluntariado obrigatório. Para provares que mereces a esmola, podes ter de dar até 15 horas semanais de “solidariedade social” a câmaras municipais, juntas de freguesia ou proteção civil. É o conceito revolucionário de trabalho não remunerado para manter o direito a um apoio de pobreza. Podes dar por ti a limpar mato ou a carimbar papéis para mostrar “procura ativa”, numa espécie de estágio não remunerado gerido pela Segurança Social.

A Inquisição Anual

Se achavas que isto era para a vida, desengana-te. A PSU tem prazo de validade: 12 meses. Todos os anos há uma nova temporada de caça à fraude, com cruzamento de dados digno da CIA e um canal de denúncias onde o teu vizinho pode reportar se te viu a comprar uma marca de massa mais cara no supermercado. Se falhares uma convocatória, não comunicares que o teu filho cresceu ou se te esqueceres de um papel, o sistema desliga-te a ficha e voltas para o fim da fila.

A Prestação Social Única promete simplificar. Resta saber se simplifica a vida de quem precisa ou se apenas simplifica o trabalho de quem corta os apoios.

PODRE DE RICO

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O problema começa logo na palavra “trilionário”. O cidadão comum imagina uma pessoa que possui um milhão de milhões de dólares, tem cofres repletos de ouro ou contas bancárias sem fim. Mas não… tem é muito crédito bancário. O património atribuído a Musk resulta sobretudo da avaliação das empresas de que é acionista. Não corresponde a dinheiro disponível, mas ao valor que os mercados e os investidores acreditam que essas empresas têm hoje. E as crenças, como sabemos, mudam.

Uma empresa pode valer centenas de milhares de milhões porque um conjunto relativamente reduzido de investidores aceita comprar pequenas parcelas a determinado preço. A partir daí, extrapola-se esse valor para a totalidade da empresa e conclui-se que o seu proprietário é dono de uma fortuna gigantesca. Mas essa riqueza existe apenas enquanto existir quem esteja disposto a acreditar nela. Se um grande acionista resolver vender as suas ações, só isso faria cair o valor da empresa nas bolsas e a fortuna reduzir-se-ia imediatamente. Ou seja, a realidade é muito menos sólida do que as manchetes sugerem.

Não está em causa o mérito empresarial de Musk. A Tesla revolucionou o automóvel elétrico. A SpaceX alterou profundamente o setor espacial. A Starlink criou uma rede global de comunicações por satélite. Tudo isso é real. Mas o valor que elas representam é virtual.

Basta pensar em algumas variáveis que podem destruir esse edifício financeiro. A manutenção da liderança tecnológica. A confiança dos investidores. O apoio dos mercados. A estabilidade geopolítica. Os contratos públicos. A ausência de concorrência capaz de alterar o equilíbrio existente. A continuidade de um modelo económico que privilegia gigantes tecnológicos com avaliações sem precedentes. Quantos desses pressupostos permanecerão inalterados durante a próxima década?

E se surgir uma empresa capaz de competir diretamente com a SpaceX? E se uma mudança política nos Estados Unidos alterar profundamente os programas espaciais públicos? E se uma grande crise financeira fizer evaporar o entusiasmo dos investidores? E se um conflito internacional transformar as infraestruturas espaciais em alvos estratégicos? Nenhum destes cenários é inevitável. Mas todos são plausíveis. E bastaria um ou dois para alterar drasticamente as avaliações que hoje parecem indiscutíveis.

Por isso, quando ouvimos dizer que Musk é o primeiro trilionário da História, talvez devêssemos acrescentar que se trata de uma estimativa construída sobre avaliações financeiras que podem mudar rapidamente. Dito isto, o homem é podre de rico, aconteça o que acontecer.

IDADE ADMINISTRATIVA E O SILÊNCIO IMPOSTO À EXPERIÊNCIA

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A esperança média de vida aumentou. A medicina evoluiu. A qualidade física e cognitiva de milhões de pessoas com mais de 65 ou 70 anos mudou radicalmente nas últimas décadas. No entanto, muitos dos mecanismos institucionais, profissionais e culturais continuam presos a uma visão antiga da velhice – uma visão construída numa época em que viver muito era raro e envelhecer significava, quase inevitavelmente, incapacidade. Hoje, isso já não corresponde inteiramente à realidade.

Existe uma diferença profunda entre idade biológica, idade mental e idade administrativa. A primeira pertence ao corpo. A segunda pertence à vitalidade interior, à curiosidade, à imaginação e à capacidade de pensar o mundo. A terceira pertence aos formulários, aos regulamentos e às estruturas burocráticas que classificam seres humanos através de números.
E é precisamente aí que nasce uma das grandes injustiças silenciosas do nosso tempo.
Muitas pessoas continuam intelectualmente ativas, criativas e plenamente capazes de contribuir para a sociedade, mas encontram-se progressivamente bloqueadas pelos próprios sistemas que deveriam aproveitar a sua experiência. Sobretudo nas áreas da criação, do pensamento, da cultura, da comunicação e do ensino.

Posso testemunhá-lo pessoalmente. A minha mente continua operacional, inquieta e criativa. Continuo a pensar projetos, ideias, formas de realização, ensino e comunicação com intensidade e vontade genuína de participar no mundo. Em certos aspetos, sinto mesmo que a experiência acumulada me permite hoje olhar a realidade com maior profundidade humana do que em fases anteriores da vida.
Mas a sociedade olha muitas vezes para a idade cronológica como uma espécie de sentença implícita de irrelevância.
É um paradoxo difícil de compreender. Vivemos numa época obcecada com inovação, criatividade e pensamento crítico, mas frequentemente afastamos precisamente aqueles que possuem memória histórica, experiência acumulada e capacidade de síntese.

A criação não envelhece da mesma forma que o corpo. O pensamento não obedece mecanicamente aos calendários administrativos. Há realizadores, escritores, professores, músicos, cientistas e criadores que atingem nas fases mais maduras da vida o auge da sua compreensão humana e artística.
Contudo, os sistemas tendem a empurrar os mais velhos para uma invisibilidade subtil. Não necessariamente através da proibição explícita, mas através da ausência de oportunidades, da desvalorização silenciosa e da ideia implícita de que o seu tempo “já passou”.
Mas passou para quem?

Talvez este seja um dos grandes erros civilizacionais contemporâneos: confundir juventude com valor e envelhecimento com inutilidade.
E aquilo que hoje acontece às gerações mais velhas acabará inevitavelmente por atingir as gerações mais novas de hoje. Os jovens atuais serão os velhos do futuro. Também eles sentirão um dia a distância dolorosa entre aquilo que continuam capazes de fazer e aquilo que os sistemas lhes permitirão continuar a fazer.
Por isso, esta não é apenas uma reflexão sobre envelhecimento. É uma reflexão sobre o próprio modelo de sociedade que estamos a construir.
Uma sociedade saudável não pode desperdiçar inteligência, experiência e criatividade apenas porque passaram determinados anos sobre um documento de identificação.

Precisamos urgentemente de reinventar o lugar da maturidade nas democracias contemporâneas. Precisamos de compreender que envelhecer não pode significar desaparecimento social. Pelo contrário: pode significar transformação, profundidade e novas formas de contribuição.
Talvez aquilo que mais falte ao nosso tempo não seja velocidade, produtividade ou excesso de novidade. Talvez faltem novos narradores da vida. Pessoas capazes de unir experiência, memória, pensamento crítico, sensibilidade e humanidade numa época cada vez mais acelerada, fragmentada e superficial.
E essas pessoas existem. Muitas vezes estão apenas a ser silenciadas por sistemas que ainda não aprenderam a escutá-las.