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NO PAÍS DO DISPARATE

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Eu explico qual é a minha ideia mais básica: o Marquês de Pombal, um ditador (independentemente das obras que deixou feitas), depois do terramoto de 1755 terá dito: ‘enterrem-se os mortos e tratem-se os vivos’. Moedas, outro ditador, homenageia os mortos, mas dos vivos manda tratar as seguradoras e nem sequer tem uma palavra para quem, conforme se queixam as famílias, ficou no sofrimento da perda de entes queridos. E mais, o presidente da autarquia recusou comentar a carta aberta de familiares das vítimas com queixas de falta de apoios.

Recorde-se que, há um ano o elevador da Glória descarrilou, no dia 3 de Setembro, provocando a morte de 16 pessoas e ferimentos em 24 outras. Agora, no Largo da Oliveirinha, foi colocada uma oliveira de 150 anos e 16 blocos em calcário, com nomes das vítimas, sendo ali depositadas várias coroas de flores, na maioria brancas, mas também com as cores da bandeira francesa, nacionalidade de uma das vítimas.

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Naquele seu eterno tom de queixume, quase emocionado, Moedas, questionado sobre as cartas de familiares das vítimas e a falta de apoios, entendeu que era dia para as recordar e, não se percebe porquê, recusou comentar as queixas das famílias que denunciavam ‘um ano de silêncio e esquecimento’. Na missiva, divulgada pela RTP1, dizem mesmo que o único contacto que tiveram da parte da autarquia de Lisboa foi o convite para marcar presença na cerimónia de inauguração do memorial, em que se garantia o respeito pela privacidade, sem a presença de jornalistas. ‘Depois de um ano de silêncio, o que precisámos não era de sermos protegidos do debate, era finalmente fazer parte dele’, afirmaram os familiares das vítimas.

Também o guarda-freio André Marques, que morreu no mesmo descarrilamento, foi recordado por sindicalistas e colegas, que depositaram uma coroa de flores e guardaram um minuto de silêncio na Calçada da Glória, junto aos Restauradores.

Portanto, os autocarros homenageiam, a Câmara homenageia, Moedas quase chora e os familiares das vítimas, na sua grande maioria, continuam sem respostas e sem uma palavra da autarquia. Melhor fora que o presidente da edilidade chorasse menos e trabalhasse mais. E, sobretudo, que fizesse alguma coisa, além de impedir os jornalistas de trabalharem para dar voz aqueles que esperam justiça há um ano.

PERGUNTAR PORQUÊ

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De sabonete na mão (teria aí uns três aninhos), eu soletrava:
– FENO DE PORI U GAL.
E voltei-me para a minha mãe:
– Ó mãe, o que é PORI U GAL?
– Não é PORI U GAL, filho, é PORTUGAL! Não vês que tem um travessãozinho lá em cima? É Portugal.

O que me chamara a atenção fora a estranheza do nome, porque ‘feno’ eu sabia bem o que era. Dava-o, às vezes, eu à burra da tia Chica e o Ti Zé Romão dava-o aos machos que tinha. Era seco. Portanto, não me passou pela ideia indagar a razão por que se havia de ter dado o nome de ‘feno’ a sabonete tão bem cheiroso. Que relação podia haver entre o sabonete e o feno?

Ainda em clave de recordações, lembro-me, como se fosse hoje, da cara espantada do Dr. Sanches e Brito, meu professor de Matemática, logo na 2ª aula do ano lectivo de 1956-1957, ao ver-me o caderno diário, leu que eu escrevera, como sumário da lição passada, «Revisão da materidade». Também aí eu ouvira materidade, escrevi materidade – e nem me pus a questão do que é que aquilo significava.

– É matéria dada, Zé Manel, matéria dada!

Jamais me esqueci! Nem da expressão que, depois, como docente, também usei, nem da observação do Dr. Brito.

Recordei-me, agora, dessa cena do poriugal e dessoutra da materidade, quando se me pôs a questão de importância de levantar os problemas. Aliás, posta a questão do ‘feno’, decidi-me a ir procurar a razão da nomenclatura. Achei-a: a designação «feno» foi pensada e adoptada pela Fábrica Santa Clara, a empresa que o criara, nos anos 30 do século passado, para destacar a fragrância fresca, herbáceo-verde e natural a feno cortado que distinguia o sabonete.

Nessa altura, importa frisá-lo, esse cheiro a feno cortado de fresco faria parte do quotidiano de larga percentagem dos Portugueses; raro seria aquele que, um dia, não tivesse parado, pela manhã, junto a seara acabada de ceifar, a haurir esse odor de restolho ainda com resquícios da brandura da noite: um cheirinho mesmo bom!…

Hoje, claro, «feno» é vocábulo que só nas aldeias se ouve. E esse cheiro é natural que seja ínfima a parcela da população portuguesa actual que, alguma vez, o tenha sentido.

Seja como for, é de aplaudir a empresa que soube manter a designação, no convite (raramente escutado, mas real), a um regresso aos bons e fortes odores campestres.

O sabonete contribuiu agora, no entanto, para chamar a atenção para uma frase – essa, sim, assaz sentida no dia-a-dia: «Tem piada, nunca tinha pensado nisso!». Sintoma evidente de que boa parte do nosso quotidiano se reveste de forte dose de passividade e distracção.

Escreva-me assim de repente o nome da rua onde mora, tal e qual ele está gravado na placa. Mais: a sua rua tem uma ou duas placas toponímicas? De mármore ou de azulejo? O mais normal é a resposta: «Tem piada, olhe, não sei, nunca tinha pensado nisso!».

Lembro-me sempre de ter entrado num café em Salamanca e ter perguntado ao proprietário:

– Desculpe: esta igrejinha aqui em frente do café é a de Santa Madalena?

O proprietário não me soube responder. E, por sinal, também nenhum dos clientes de ocasião tinha a menor ideia do nome da igreja.

Cito frequentemente, sem me preocupar muito, a propósito deste tema, a frase que li na nota 1 da pág. 14 do livro Génesis – A Origem do Homem e do Universo, de John Gribbin (Mem Martins, PEA, 1988), aí atribuída a Sir Fred Hoyle:

«As respostas não são importantes, as perguntas é que o são».

Desta feita, porém, quis ir mais além. Primeiro, quem fora Sir Fred Hoyle, de que deJohn Gribbin citava duas obras na bibliografia do seu livro – e fiquei a saber tratar-se de um astrónomo britânico (1915-2001). Tentaria, pois, descobrir em qual das duas a frase estaria consignada e em que contexto; preferia não continuar a fazer uma citação indirecta, como tem acontecido até aqui.

As primeiras diligências levaram-me a conhecer a frase no inglês original:

“In science answers are not important, it is the questions that are important.”

Por conseguinte, o autor situa-se no domínio da Ciência – eu é que ousei atirá-la para todos os domínios do conhecimento. E não estou arrependido, porque se me afigura ser essa uma legítima transposição.

A questão de saber do contexto da frase era, todavia, também importante para mim, que vejo, com demasiada frequência, frases de autores célebres citadas fora do contexto, nomeadamente como ‘epígrafes’ de livros – e, sabe-se, o contexto é fundamental para se ajuizar do real sentido duma afirmação.

A frase já aparecia outras vezes citada, sempre referida ao astrónomo, mas sem indicação de proveniência, referindo, porém, Philip Morrison como fonte. De facto, num artigo publicado, em 1964, na revista American Journal of Physics, Morrison explica que Sir Fred Hoyle proferira a frase, no decorrer duma reunião científica: «Estávamos juntos na assistência de uma reunião e, em resposta a uma observação feita da tribuna, ele deu-me um toque com o cotovelo e disse que estava errada. O orador tinha dito: «Estas são questões a que não podemos responder; não sabemos como lhes responder.» Hoyle sussurrou-me: «Em ciência, não são as respostas que são importantes, as perguntas é que o são» (p. 442).

Possam estas reflexões servir para que, pouco a pouco, todos saibamos pôr as questões nos seus parâmetros adequados, a fim de também se lograr obter, assim, a resposta mais lúcida.

O ALVO, O RATO E A RATOEIRA

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Sem querer alimentar a questão de Luís Neves, importa tentar entender as motivações que animam algumas ‘almas’, umas bem-intencionadas, outras ingénuas e ainda outras mal-intencionadas, a alinhar na destruição pessoal do titular do Ministério da Administração Interna, bem como na reputação da Polícia Judiciária.

Luís Neves, para o bem e para o mal, está ligado, nos últimos 15 anos, ao combate à criminalidade violenta. Liderou, igualmente, o combate às forças radicais de direita em Portugal. E, num ambiente político em que se acentua uma viragem para a direita radical, alguma comunicação social dá acolhimento a essa mudança. O ministro seria, sempre, um dos alvos a abater, mesmo que tivesse continuado na PJ. O outro alvo seria a própria Instituição. Acresce que o ex-director Nacional da Judiciária teve o ‘descaramento’ de contradizer as posições do Chega e da comunicação social populista quanto à criminalidade derivada do aumento da imigração. E esta posição é-lhe fatal. Ao aceitar ser ministro, meteu a cabeça no cepo. Recordemos a reacção de Passos Coelho à nomeação de Luís Neves, coincidente com o ataque de André Ventura. Sem esquecer a tentativa de colagem ao Partido Socialista que foi alvitrada.

Luís Neves, que até tinha uma ‘boa imprensa’, falhou estrondosamente, diante da pressão mediática a que, até ser ministro, não estava sujeito. É claro que cometeu erros e teve comportamentos que merecem censura, cuja legalidade está a ser apurada. Mas o essencial do ataque passa por dois vectores: a ambição de controlar a Instituição por parte da direita radical e impedir que se saiba que o assalto ao gabinete de André Ventura foi uma patranha e um ataque ao Estado de Direito Democrático.

O Chega e os seus amigos já conseguiram retirar da agenda o assalto. Agora querem que a investigação fique escondida. Luís Neves desafiou Ventura para um duelo às Las cinco de la tarde en punto e voltou a errar. Ou, quem sabe, tudo se insere numa estratégia de Luís Montenegro para obrigar o Chega a apresentar a moção de censura e, após o chumbo da mesma, a AD vitimizar-se e tentar a mesma jogada ‘spinumviva’, que lhe permitiu ganhar as últimas eleições.  

Este desafio a Ventura, poder-se-ia chamar de estratégia de ‘meter o rato na ratoeira’, para o aniquilar. Montenegro conta com a lassidão dos eleitores portugueses quanto a fenómenos de corrupção e de falhas éticas. E anseia por uma maioria absoluta, precisa dela para continuar a desmantelar o SNS, para entregar a segurança social aos seus financiadores e para controlar todas as situações complexas que envolvem outos membros do governo. Na verdade, precisa dessa maioria para sobreviver. Luís Neves aceitou, por algum motivo, ser usado como alvo de André Ventura. Aceitou ser a ratoeira para entalar o Chega, que caiu nela. Alguma comunicação social e as redes sociais chacinaram Luís Neves violentamente. O Chega, como se esperava, apresentou uma moção de censura ao governo, sabendo que não será aprovada.

A AD ensaia a estratégia de vitimização, a mesma de há um ano, acreditando que obterá a tão desejada maioria absoluta, num quadro de anormal funcionamento das instituições. Irá, pois, avançar com a impossibilidade de governar nestas condições, com a tese das forças de bloqueio e com a necessidade de se legitimar para continuar a ‘obra feita’.  Aposta tudo, como se a política fosse um casino, em rebentar com o Chega e recuperar o eleitorado que votou em Ventura. Aposta que o Presidente da República opte pela dissolução da Assembleia da República, num quadro de crise e lhe ofereça o jackpot das eleições antecipadas. Mas, tal como nos jogos da sorte e de azar, por vezes, na maior parte das vezes, o azar bate à porta.

Tranquilamente, António José Seguro, em Belém, gere a crise com um enorme silêncio. Como escreveu Artur Portela Filho, e cito de cor, ‘se um dia o governo de Balsemão cair, iremos ver a sombra de Marcelo Rebelo de Sousa (à data Ministro dos Assunto Parlamentares) a pairar em São Bento e a dar uma enorme gargalhada’. António José Seguro, limitar-se-á, a sorrir e a preparar o caminho para o próximo governo.

À CATA DE MIRAS DE ESPINGARDAS

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Tais anéis os encontrei em manequins por cima de luvas! Venho perguntar se já viram algo assim?

Um é a mira de uma espingarda de caça do nosso rei Dom João VI, manufacturado em escultura de aço embutida a ouro, no ano de 1823, pelo Mestre do Arsenal Real de Lisboa, Thomas Jozé de Freitas. Primeiro, consegui ser dono da arma e, tempo depois descobri a mira faltosa. Esteve num manequim por cima de uma luva!

A outra é  do Grande Mestre Bartholomeu Gomes, que a fez em Lisboa, no ano de 1776. Também esteve separada da espingarda, mas numa gaveta de ferramentas na Quinta da Torre, em Azeitão. Tinha sido oferecida pelo rei Dom Carlos ao seu médico, Manuel Bento de Sousa, que ai formou um bela colecção.

Encontrei outras miras portuguesas do século XVIII, também montadas em colecções de luvas de cabedal… em manequins! Mas eram de menor qualidade e não se sabia quem as fizera, nem quando nem a quem se haviam destinado. Essas acabaram por servir para alegrar coleccionadores que tinham espingardas de caça portuguesas para as quais tais peças eram adequadas.

Caso alguém ter visto situações semelhantes agradecia que me comunicassem.

Rolf van der Niepoort também chegou a encontrar miras soltas, mas eram geralmente das célebres lazarinas de Braga, espingarda de pequeno calibre e de um só cano cano fino e comprido; o nome deriva de Lázaro, antigo armeiro de Braga (Portugal) que fabricava este tipo de armas; no sertão nordestino brasileiro, era tradicionalmente usadas para caçar pássaros.

Mesmo assim de cada uma que se encontrou, mais cedo ou mais tarde, se reencontrou uma espingarda onde tal peça faltava. As que, de momento, me interessam são apenas as de alta qualidade, das quais se sabe quem as fez, quando e para quem.

Dir-se-á que estamos a falar de meros e desinteressantes estudos secundários; certo é que, desta maneira, pouco a pouco,  se aprofundam bastante os nossos estudos gerais.

A CRISE DA PALAVRA E O EMPOBRECIMENTO DO DIÁLOGO

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Falamos muito. Talvez nunca tenhamos falado tanto. Escrevemos mensagens, comentamos notícias, publicamos opiniões, discutimos nas redes sociais, participamos em debates. Temos à nossa disposição mais palavras do que nunca. E, no entanto, parece que estamos cada vez mais longe de nos entendermos.

Porque falar não é necessariamente comunicar. E comunicar não é apenas dizer aquilo que pensamos. Comunicar pressupõe também a disponibilidade para escutar aquilo que o outro pensa. É precisamente essa disponibilidade que parece estar a desaparecer.

A palavra deixou de ser encontro

Durante muito tempo, a palavra foi uma das principais formas de aproximação entre as pessoas. Conversava-se à mesa, no café, no trabalho, na rua. As opiniões podiam ser diferentes sem que essa diferença significasse imediatamente uma ruptura. Havia discussões, naturalmente. Havia divergências e até conflitos. Mas havia também uma coisa essencial: havia tempo para ouvir.

Hoje, esse tempo parece cada vez mais curto. Respondemos antes de compreender. Julgamos antes de conhecer. Interrompemos antes de ouvir. E, sobretudo, confundimos frequentemente discordância com hostilidade. A consequência é uma sociedade onde muitas pessoas já não procuram compreender o argumento do outro. Procuram apenas encontrar a resposta que lhes permita vencê-lo. O diálogo transforma-se, assim, num combate. E quando toda a conversa se transforma num combate, todos acabam por perder.

A política é apenas o espelho

É fácil atribuir esta degradação do diálogo à política. Mas seria demasiado simples. A política apenas tornou mais visível um fenómeno que atravessa a sociedade inteira. O discurso público tornou-se mais agressivo. As frases são cada vez mais curtas. As posições são apresentadas como verdades absolutas. O adversário deixa de ser alguém com quem discordamos e passa a ser alguém que devemos desqualificar.

Já não basta dizer: “Não concordo consigo.” É preciso dizer: “Você está errado.” E, muitas vezes, chega-se ainda mais longe: “Quem pensa como você é parte do problema.”

É uma mudança profunda. Porque uma democracia não vive apenas da possibilidade de cada cidadão falar. Vive, sobretudo, da capacidade de cidadãos diferentes continuarem a falar uns com os outros. Sem isso, a democracia pode conservar as suas instituições e perder, pouco a pouco, a sua cultura.

A ditadura da resposta imediata

As redes sociais trouxeram uma enorme democratização da palavra. Qualquer pessoa pode hoje publicar uma opinião e ser lida por milhares. Isso é, em muitos aspectos, extraordinariamente positivo. Mas trouxe também um problema novo: a valorização da reacção imediata.

Tudo exige resposta. Uma notícia. Uma declaração. Um erro. Uma frase. Uma fotografia. Uma polémica. Temos de reagir já. E quem reage primeiro parece ganhar.

Só que pensar exige tempo. Escutar exige tempo. Reconhecer que podemos estar errados exige ainda mais. Talvez uma das maiores dificuldades do nosso tempo seja precisamente esta: voltámos a ter liberdade para falar, mas estamos a perder a capacidade de esperar antes de falar. E uma sociedade que não sabe esperar dificilmente consegue pensar.

Quando a opinião se transforma em identidade

Existe ainda outro problema. Muitas pessoas já não defendem apenas ideias. Defendem identidades. A sua opinião política, social ou cultural passa a fazer parte daquilo que entendem ser a sua própria identidade. Por isso, quando alguém contesta uma ideia, sentem que está a contestar a própria pessoa. E então a conversa deixa de ser racional.

Se discordas de mim, estás contra mim. Se estás contra mim, és meu adversário. Se és meu adversário, já não preciso de ouvir-te. É assim que se constrói o silêncio no meio do ruído. Todos falam. Poucos escutam.

O perigo de uma sociedade sem conversa

Uma sociedade pode sobreviver a muitas divergências. O que dificilmente consegue suportar é a impossibilidade de dialogar sobre elas. Portugal sempre foi um país de contrastes, de diferenças e de opiniões diversas. Isso não é uma fraqueza. É uma riqueza.

O problema começa quando deixamos de considerar a diferença uma parte normal da vida colectiva. Uma democracia não precisa de cidadãos que pensem todos da mesma maneira. Precisa de cidadãos capazes de viver juntos apesar de pensarem de maneira diferente. Essa talvez seja uma das grandes aprendizagens que estamos a esquecer.

O outro não precisa de pensar como eu para merecer ser ouvido. Não precisa de ter razão para que eu tente compreendê-lo. E eu não perco a minha razão por admitir que talvez ele tenha alguma.

Recuperar o valor da palavra

Talvez Portugal precise, antes de mais, de recuperar o valor da palavra. Não da palavra como arma. Da palavra como ponte.

Precisamos de voltar a conversar sem transformar todas as conversas em julgamentos. Precisamos de reaprender a discordar sem humilhar, a criticar sem destruir e a defender as nossas convicções sem negar ao outro o direito às suas. Precisamos também de devolver algum silêncio à nossa vida pública. Porque o silêncio não é necessariamente ausência de pensamento. Às vezes, é o espaço onde o pensamento começa.

Talvez devêssemos ensinar às novas gerações que saber falar é importante, mas saber ouvir é uma forma ainda mais elevada de inteligência. E talvez devêssemos lembrar aos mais velhos – que tantas vezes acumulam experiências que a sociedade já não parece interessada em escutar – que a sua palavra continua a ter valor.

Uma sociedade envelhece verdadeiramente não quando aumenta a idade média dos seus cidadãos, mas quando deixa de escutar a experiência que eles transportam.

Portugal precisa de voltar a conversar

Não precisamos de concordar mais. Precisamos de conversar melhor. Precisamos de recuperar a ideia simples de que uma sociedade não se constrói com milhões de monólogos. Constrói-se com diálogo. Com perguntas. Com dúvidas. Com argumentos. Com capacidade para mudar de opinião. Com a humildade de reconhecer que ninguém possui sozinho toda a verdade.

Portugal não está condenado à agressividade do discurso público, à superficialidade das redes sociais ou à transformação permanente da divergência em conflito. Mas terá de escolher. Entre continuar a falar cada vez mais alto ou começar novamente a ouvir. Entre a palavra que separa e a palavra que aproxima. Entre o ruído e o diálogo.

Talvez uma das tarefas mais importantes do Portugal dos próximos anos seja precisamente esta: reaprender a conversar. Quando uma sociedade perde a capacidade de dialogar, não perde apenas a qualidade da sua linguagem. Perde, pouco a pouco, a capacidade de construir um futuro comum.

A FESTA MAIOR QUE O PARTIDO

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A Festa tem o nome do Avante, o jornal oficial do PCP. É uma espécie de relíquia de uma época em que os jornais partidários eram instrumentos essenciais de comunicação política. Hoje, o Avante já não é seguramente o principal meio através do qual o PCP fala com os seus militantes. As redes sociais fazem esse trabalho de forma muito mais rápida e eficaz. Mas o nome ficou. E talvez tenha ficado porque a Festa conseguiu tornar-se muito mais importante do que o jornal que lhe deu o nome.

Creio que a esmagadora maioria das pessoas que ali estará não vai comprar o passe de três dias, que custa 35 euros, para ler o Avante ou ouvir um dirigente do PCP. Vai pela música, pelas bandas, pelas tasquinhas, pelo teatro, pelas exposições, pelos amigos e por aquele ambiente de convívio que a Festa soube construir. Este ano haverá, entre outras iniciativas, uma homenagem a Luís Represas, artista popular que participou várias vezes na Festa e que morreu recentemente.

O PCP perdeu deputados, perdeu autarquias, perdeu eleitores e já não ocupa na sociedade portuguesa o espaço que ocupou durante décadas, mas continua a fazer uma coisa que nenhum outro partido faz: juntar milhares de pessoas durante três dias em torno de uma festa que é simultaneamente política, cultural e popular. E cada passe vendido é também dinheiro que entra nos cofres de uma organização que não vive apenas de votos.

De certa forma, é assim que o PCP consegue preservar uma comunidade política, cultural e afectiva, que todos os anos se reencontra na Atalaia. A Festa sobrevive ao declínio do partido porque há muita gente que já não vai lá propriamente pelo PCP. Vai pela Festa.

É uma ironia interessante. O PCP pode ter cada vez menos votos, menos deputados e menos autarquias. Mas, durante três dias, na Atalaia, continua a parecer um partido enorme porque a Festa do Avante adquiriu vida própria. E, em certos aspectos, é hoje maior do que o próprio partido.

UM OLHAR SERENO E CONSTRUTIVO SOBRE A OBRA

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O livro é composto por 325 páginas e conta com testemunhos de Aníbal Cavaco Silva, economista e antigo Presidente de Portugal, Pedro Pires, um ilustre e grande Comandante da Luta de Libertação da Guiné e Cabo Verde sob os auspícios do PAIGC e ex-Presidente da República de Cabo Verde, Carlos Lopes, economista e antigo Secretário Executivo da Comissão Económica para África das Nações Unidas, entre outras personalidades.

Aproveito, igualmente, esta oportunidade para felicitar esta enorme contribuição que o livro trás para a juventude guineense e não só. Contudo, no livro, o autor traz uma reflexão profunda sobre os desafios da democracia, da governação e da construção do Estado em África. Procurei contrapor esta tese, suponho, escrita em defesa do seu Mestrado. Não venho criticar, mas sim, dar uma contribuição analítica sobre algumas passagens deste livro.

A contraposição não deve procurar negar tudo o que Domingos Simões Pereira afirma. Pelo contrário: há diagnósticos no livro que correspondem à realidade guineense: corrupção, clientelismo, fragilidade institucional, pobreza e défice de capital humano. O ponto vulnerável está na explicação das causas, na distribuição das responsabilidades e, sobretudo, no risco de transformar conceitos como “autovitimização” numa explicação demasiado abrangente para uma crise histórica muito mais complexa.

1. O colonialismo não explica tudo – mas também não pode ser relativizado

A afirmação de que a estagnação da Guiné-Bissau “não pode ser explicada apenas pelas heranças da escravatura ou do colonialismo” é, em sentido estrito, correta. Cinquenta anos depois da independência, seria intelectualmente insustentável atribuir todos os fracassos atuais exclusivamente a Portugal. Mas há uma diferença enorme entre dizer que o colonialismo não explica tudo e sugerir que invocá-lo constitui “autovitimização”.

A realidade histórica é mensurável. Segundo um estudo do Banco Mundial, no momento da independência a Guiné-Bissau tinha uma taxa de alfabetização de aproximadamente 1%, somente 60 quilómetros de estradas asfaltadas, uma oferta extremamente reduzida de serviços de saúde e educação e praticamente nenhuma base institucional moderna sobre a qual construir o novo Estado.

Isto significa que a República não herdou simplesmente “um Estado fraco”. Herdou, em larga medida, a ausência das condições materiais, humanas e administrativas necessárias ao funcionamento de um Estado moderno. Portanto, reconhecer esse ponto de partida não significa desresponsabilizar os dirigentes pós-independência. Significa apenas estabelecer corretamente a linha de partida histórica.

2. O primeiro Estado dirigido pelo PAIGC tem responsabilidades – mas não pode ser analisado fora desse ponto de partida

Aqui há uma parte importante da tese de Simões Pereira que merece ser aceite. O Estado construído depois da independência não conseguiu criar instituições suficientemente robustas, previsíveis e inclusivas. O partido único, a concentração política, as tensões entre poder civil e militar e as sucessivas ruturas internas contribuíram para uma fragilidade que se tornaria estrutural.

O golpe de 1980, a guerra de 1998-1999, os golpes e tentativas posteriores e, finalmente, a nova rutura militar de novembro de 2025 demonstram que a Guiné-Bissau nunca resolveu definitivamente a questão fundamental da subordinação das Forças Armadas ao poder civil constitucional. A sequência de golpes e tentativas é amplamente documentada.

Mas existe uma diferença entre reconhecer os erros do primeiro Estado e concluir implicitamente que o projeto da independência criou a própria instabilidade contemporânea. O Banco Mundial sublinha precisamente a combinação dos dois fatores: um território colonial profundamente negligenciado e, posteriormente, décadas de fragilidade política, instituições deficientes, guerra e golpes de Estado.

3. Corrupção e clientelismo são reais; “autovitimização” é muito mais difícil de provar

Neste ponto, os dados dão alguma razão a Simões Pereira. A corrupção constitui uma grave vulnerabilidade institucional. No Índice de Perceção da Corrupção de 2025, a Guiné-Bissau obteve apenas 21 pontos em 100, ficando na parte inferior da classificação mundial. O FMI continua também a exigir reformas de contratação pública, transparência, auditoria, governação e combate à corrupção.

Portanto, negar o problema seria fugir à realidade. Todavia, “autovitimização” não possui o mesmo estatuto analítico que corrupção, pobreza, dívida pública ou analfabetismo. Corrupção pode ser medida; receitas públicas podem ser medidas; escolarização pode ser medida. “Autovitimização” é uma categoria político-psicológica que necessita de definição, indicadores e demonstração causal. Caso contrário, corre-se o risco de transformar a expressão numa espécie de conceito guarda-chuva: sempre que o Estado falha, conclui-se que a sociedade se “autovitimiza”.

Uma coisa é dizer: temos de assumir a nossa parcela de responsabilidade histórica. Outra completamente diferente é sugerir: a referência às condições históricas e estruturais constitui uma cultura de vitimização. A primeira proposição é defensável. A segunda necessita de muito mais prova.

4. A realidade social confirma a gravidade do diagnóstico — mas também mostra que o problema ultrapassa atitudes individuais

Os números atuais são particularmente eloquentes. O PNUD estima, com base no último inquérito disponível, que 64,4% da população vivia em pobreza multidimensional, enquanto outros 20% se encontravam vulneráveis a essa condição.

O Banco Mundial assinala que quase um terço das crianças entre 6 e 11 anos nunca frequentou a escola e que a taxa média de conclusão do ensino primário ronda apenas 27%. Portanto, quando Simões Pereira diz que é necessário combater a pobreza, o analfabetismo e as desigualdades, o diagnóstico é dificilmente contestável.

A questão é outra: por que razão, depois de cinco décadas, o Estado continua incapaz de fornecer adequadamente esses bens públicos?

Responder apenas “corrupção, clientelismo e autovitimização” não chega. É necessário incluir capacidade fiscal, administração pública, qualidade da educação, fragilidade judicial, interferência militar, instabilidade governamental, dependência externa, reduzido setor privado, baixa produtividade, pequena dimensão do mercado e dependência quase absoluta do caju.

O Banco Mundial identifica precisamente a conjugação de fragilidade política, fraco capital humano e reduzido setor privado como obstáculos centrais ao desenvolvimento.

5. Há ainda um problema na ideia de que primeiro se constrói desenvolvimento e depois democracia

A formulação reproduzida pela editora é particularmente importante: a democracia liberal só poderia prosperar mediante a “construção prévia” de um Estado forte, funcional e orientado para o desenvolvimento.

É aqui que a tese merece maior discussão. Porque a experiência da própria Guiné-Bissau demonstra que Estado de Direito, estabilidade institucional e desenvolvimento não podem ser colocados numa sequência linear, ou seja, primeiro desenvolvimento → depois democracia.

Sem tribunais previsíveis, segurança jurídica, estabilidade constitucional, prestação de contas, Parlamento funcional e alternância pacífica do poder, torna-se muito mais difícil atrair investimento, aumentar receitas, executar políticas públicas e combater a pobreza.

O Economic Update do Banco Mundial publicado em junho de 2026 confirma exatamente isso: empresas identificam cada vez mais tribunais, alfândegas e imprevisibilidade regulatória como obstáculos, e a instabilidade política está entre os fatores que limitam as perspetivas económicas.

Logo, democracia e desenvolvimento não são duas estações sucessivas. São processos interdependentes. Não é necessário escolher entre pão e liberdade, entre escolas e Estado de Direito, entre desenvolvimento e democracia. Um Estado funcional necessita simultaneamente dessas dimensões.

6. Existe uma pergunta inevitável: onde termina o investigador e começa o protagonista?

Este talvez seja o ponto mais delicado da obra.

Domingos Simões Pereira não observa a história recente da Guiné-Bissau de fora. Foi Primeiro-Ministro entre 2014 e 2015, lidera o PAIGC há vários anos e foi eleito Presidente da Assembleia Nacional Popular em 2023. Consequentemente, quando um protagonista dessa importância escreve sobre desresponsabilização das elites, clientelismo, captura do Estado e incapacidade institucional, surge legitimamente uma pergunta metodológica: onde está a sua própria responsabilidade e a responsabilidade das organizações que dirigiu?

Não se trata de acusá-lo de corrupção — isso exigiria provas específicas que não devem ser inventadas — nem de desvalorizar a obra pelo percurso político do autor. Trata-se de exigir autorreflexão histórica.

Se o problema foram as elites políticas, o autor pertenceu e pertence à elite dirigente. Se o problema foi o PAIGC pós-independência, ele dirige o PAIGC desde 2014. Se houve clientelismo partidário, importa explicar quais mecanismos combateu quando teve poder e quais permaneceram. Se houve falhas do Estado, importa distinguir entre as que tentou corrigir, as que não conseguiu corrigir e aquelas pelas quais eventualmente partilha responsabilidade política.

Sem esse exercício, a análise corre o risco de transformar o autor simultaneamente em protagonista da história e observador externo das responsabilidades dessa mesma história.

7. Mas seria igualmente injusto dizer que a experiência governativa de Simões Pereira foi simplesmente um fracasso

E aqui a contraposição deve conservar rigor. Fontes independentes reconhecem que o Governo de Domingos Simões Pereira lançou reformas e elaborou o Terra Ranka, mobilizando em Bruxelas cerca de 1,3 mil milhões de euros em compromissos internacionais.

O FMI registou nessa altura medidas destinadas a melhorar a gestão do Tesouro e a mobilização de receitas públicas. O relatório BTI 2026 chega mesmo a avaliar favoravelmente a capacidade reformadora daquele Governo, observando que o processo foi interrompido pela crise política que culminou na sua demissão em agosto de 2015.

E precisamente aqui aparece uma contradição interessante para a tese do próprio livro: se um Governo considerado relativamente competente, portador de um programa estruturado e beneficiário de extraordinário apoio internacional foi incapaz de permanecer no poder durante muito mais de um ano, então a explicação da crise guineense dificilmente pode resumir-se à corrupção ou à “autovitimização”.

O episódio demonstra a importância da arquitetura constitucional, da luta pelo controlo do Estado, da personalização do poder e da fragilidade das instituições de arbitragem.

8. O grande ausente de qualquer explicação excessivamente centrada nas elites civis é o problema militar

A trajetória da Guiné-Bissau não pode ser explicada adequadamente sem responder a uma pergunta: por que razão o poder das armas continuou repetidamente a poder interromper o poder das urnas?

O problema atravessa diferentes Presidentes, Governos e partidos. Passou pelo golpe de 1980, pela guerra de 1998, pelo golpe de 2003, pelos acontecimentos de 2009, pelo golpe de 2012, por sucessivas alegações ou tentativas posteriores e pela tomada militar do poder em novembro de 2025.

Isso sugere um problema de natureza estrutural: o Estado nunca concluiu a construção de um monopólio constitucional e civil do poder político. Uma teoria da democracia guineense que não coloque a reforma profunda do setor da defesa, a doutrina republicana das Forças Armadas e a submissão definitiva do poder militar às instituições civis no centro da análise ficará necessariamente incompleta.

A formulação que considero mais próxima da realidade guineense

A Guiné-Bissau não está onde está por uma única causa. Não é simplesmente vítima do colonialismo. Não é simplesmente vítima dos militares. Não é simplesmente vítima dos políticos. Não é simplesmente vítima da corrupção. E muito menos pode toda a explicação ser condensada numa alegada propensão nacional para a “autovitimização”.

O que existe é uma acumulação histórica de fragilidades: subdesenvolvimento colonial + herança institucional quase inexistente + opções políticas problemáticas depois da independência + partido único + deficiente separação entre Estado, partido e Forças Armadas + golpes e guerra + fragilidade constitucional + personalização do poder + corrupção e clientelismo + baixa capacidade fiscal + pobreza e défice educacional + dependência do caju + reduzido setor privado + interferências e dependências externas.

No meu modesto entender, a força do livro de Domingos Simões Pereira poderá estar precisamente em provocar este debate. Mas a sua tese tornar-se-á muito mais convincente se a noção de responsabilidade nacional não substituir a responsabilidade histórica concreta de instituições, partidos, dirigentes civis e chefias militares.

E há uma frase que, a meu ver, resume a contraposição: A Guiné-Bissau precisa, sim, de abandonar a cultura da desculpa; mas não deve substituir a leitura rigorosa da História por uma cultura da culpa. O desafio não consiste em escolher entre culpar o colonialismo ou culpar os guineenses. Consiste em identificar quem decidiu o quê, em que momento, com que meios, com que consequências e que reformas institucionais podem impedir a repetição dos mesmos ciclos. É aí que a análise deixa de ser ideológica e passa verdadeiramente a servir a construção do Estado.

O FEUDALISMO DE PROXIMIDADE: O “SENHOR DOUTOR PRESIDENTE” E OS SEUS VASSALOS

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O “autoritarismo camarário” não é um defeito, é um ecossistema. Na sua infinita sabedoria e proximidade, o Presidente da Câmara assume as vestes de um senhor feudal moderno. Sob o seu manto protetor, empresas locais, associações culturais e cidadãos comuns vivem numa simbiose perfeita baseada no princípio sagrado da subsídio-dependência.

Criticar o executivo local? Um desporto radical que põe em risco o licenciamento daquela marquise ou o patrocínio da banda filarmónica.

O grande drama deste modelo é a sua dramática falta de espaço para a megalomania. O espartilho municipal é demasiado estreito. Como pode um dinâmico autarca projetar a sua visão geoestratégica quando está confinado a gerir fossas sépticas e a podar árvores? A solução histórica tem sido a competição feroz com o município vizinho. Se o Concelho A constrói um pavilhão multiusos com capacidade para três vezes a sua população, o Concelho B exige imediatamente um estádio municipal com pista de atletismo para acolher os seus sete atletas federados. O resultado é um harmonioso parque arqueológico de betão e asfalto subutilizado, pago com o carinhoso patrocínio dos fundos europeus.

Afinal, coordenar transportes metropolitanos ou gerir bacias hidrográficas dá muito trabalho e não corta fitas inaugurais. Cansados deste retalho asfixiante, os teóricos da pátria propõem a panaceia universal da Regionalização.

É aqui que entra em cena a figura providencial de António Cadabulho, o paladino messiânico do “Portugal a 5 velocidades”. A sua ideia é de um romantismo comovente e de uma eficácia eleitoral temível. Promete-se que, com a regionalização, cada região será dona do seu destino, garantindo autonomia, eficiência e a mítica proximidade com as pessoas.

A proposta passa por pegar nas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, esses misteriosos órgãos cinzentos cheios de técnicos que ninguém conhece, e dar-lhes a legitimidade do voto popular. Em vez de centralizar as decisões em Lisboa, criam-se governos regionais dedicados.

Na prática, a promessa de António Cadabulho de que a regionalização é a solução para todos os problemas de Portugal traduz-se num cenário bem mais caótico, onde passaremos a ter planeadores profissionais a falhar à escala regional, em vez de amadores a falhar à escala municipal. É a descentralização da incompetência.

O Norte Rico, a Lisboa Global, o Centro Moderno, o Alentejo Tranquilo e o Algarve Sempre Sol passarão a competir entre si numa coordenação inter-regional que roça o impossível, permitindo que o interior do país possa, finalmente, decidir de forma autónoma quais as escolas e hospitais que vai encerrar devido à falta de verbas.

Contudo, a introdução deste novo Messias administrativo traz consigo o pânico saudável de quem conhece a fauna política nacional, uma vez que os riscos do plano de António Cadabulho são tão profundos quanto previsíveis.

Em primeiro lugar, assistiremos à multiplicação de tachos e cadeiras. Como bem ilustra o pesadelo burocrático de Cadabulho, passaremos de uma para cinco administrações, cinco estratégias, cinco orçamentos e cinco burocracias.

A criação de Regiões Administrativas exige o aparecimento de novas Assembleias Regionais, Governos Regionais, Direções-Gerais Regionais e frotas renovadas de automóveis pretos com motorista. O contribuinte ganha o privilégio de alimentar o Estado Intermédio naquilo que se tornará a santíssima trindade da despesa pública, gerando mais barulho, mais cedências e mais desigualdades.

Além disso, quem tem medo de que a regionalização não acabe com os vícios camarários pode respirar fundo, pois ela não vai acabar com eles, vai apenas dar-lhes asas. Os esquemas de favorecimento, as cunhas partidárias e a opacidade na atribuição de fundos que hoje são praticados na cave da junta de freguesia vão finalmente subir de divisão. Com a autonomia para tudo, da saúde à educação, prometida por António Cadabulho, entramos na Primeira Liga do clientelismo, com oligarquias regionais profissionais e intocáveis.

Há também o risco real de canibalização do interior, pois sob o pretexto de aproximar o país, a regionalização criará uma fragmentação territorial onde cada um puxa para o seu lado.

Enquanto o Norte e a Área Metropolitana de Lisboa se transformam em super-regiões predadoras, o Alentejo continuará à espera de tudo e de mais nada e o Algarve ficará entregue aos turistas e britânicos, dando a Lisboa a desculpa perfeita de que não se devem queixar ao poder central, mas sim ao respetivo Governo Regional.

Por fim, antevê-se um cenário idílico de paralisia jurídica crónica num verdadeiro triângulo das bermudas das competências, com cinco modos de decidir e nenhuma certeza de que os órgãos se entendam. Se uma estrada secundária atravessar um município, entrar numa região e ligar a uma autoestrada nacional, a sobreposição de poderes entre o Terreiro do Paço, a nova capital regional e o cacique local garante que qualquer buraco no asfalto precisará de três pareceres antes de ser devidamente tapado.

Em suma, o debate invisível que divide o território coloca o cidadão português perante um dilema existencial profundo. De um lado, o espartilho asfixiante do poder camarário. Do outro, o abismo burocrático da Regionalização S.A. promovida por figuras como António Cadabulho, uma máquina desenhada para criar uma nova elite partidária, multiplicar os custos com novas sedes regionais e duplicar funções.

No fim, quem paga a conta somos sempre nós, os mesmos do costume. Enquanto se discutem as regiões e os políticos abrem as burras do Estado para os seus próprios bolsos, o território continua ordenado ao sabor do vento, do betão e do próximo ciclo eleitoral. Regionalizar pode mesmo ser a solução, mas apenas para dividir, confundir e desperdiçar.

O SILÊNCIO AZUL DE MILES DAVIS

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fotomontagem

Falar de Jazz é, impreterivelmente, falar de Miles Davis e do portento colosso que a sua figura representa na história da música ocidental. No entanto, evocar Miles é também, e acima de tudo, falar sobre a própria arquitetura do espaço. É compreender, com urgência estética, que a maior beleza da música não habita no virtuosismo técnico do excesso, mas na sagração daquilo que se escolhe calar. Na sua obra-prima magna, “Kind of Blue”, o Jazz liberta-se das amarras do bebop frenético e deixa de ser um mero género musical assente em progressões harmónicas complexas. Transforma-se numa escultura abstrata feita de ar, tempo, contenção e geometria minimalista.

Miles Davis não precisa da pressa, da pirotecnia ou do grito para arrebatar o ouvinte; o seu génio reside na rejeição do supérfluo. O som do seu trompete, muitas vezes abafado pela surdina Harmon (No universo musical, “Harmon” é um tipo de surdina metálica muito utilizada por trompetistas (especialmente no Jazz) para modificar o timbre do instrumento, criando um som abafado e metálico característico.), age como um sussurro confidente, uma linha frágil, mas inquebrável, que nos puxa suavemente para o interior da noite e da introspeção. Há uma melancolia cortante e existencialista nesta abordagem — um azul tão gélido e profundo que chega a arder —, provando que o Jazz, sob a sua batuta, é a arte suprema de traduzir a solidão humana em beleza partilhada. Cada nota soprada pelo músico carrega o peso invisível de mil outras que foram deliberadamente silenciadas no altar da elegância.

Em “Kind of Blue”, gravado com a intuição quase mística do seu sexteto, o ritmo encontra finalmente o seu descanso e o vazio assume o papel de protagonista, tornando-se uma dança geométrica. Ao introduzir o jazz modal, Miles substituiu as regras tradicionais por uma liberdade assente em escalas, onde o tempo dilata. O compositor comporta-se aqui como um mestre do mundo mudo, moldando o espaço sonoro com a precisão cirúrgica e a economia de um deus cansado que conhece o valor do repouso.

Ele recorda-nos, a cada compasso, de que o eco e a ressonância podem ser infinitamente mais poderosos do que a própria voz. Miles Davis não usava o silêncio como uma interrupção da música, mas sim como a sua matéria-prima mais sagrada. No final, o Jazz de Miles não preenche apenas o ambiente físico; ele altera a nossa perceção do tempo e deixa o rasto imorredouro de um longo abraço metafísico, provando que a ausência e o silêncio são, de facto, as notas mais profundas que nos fazem, finalmente, pertencer.

album Kind of Blue, Miles Davis

A CONSPIRAÇÃO

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Há qualquer coisa de inquietante na sucessão de acontecimentos em torno do Brasil. Trump não esconde a sua preferência por Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula da Silva nas próximas presidenciais. Ao mesmo tempo, Washington pressiona o Brasil em matérias tão sensíveis como o sistema eleitoral, a diplomacia e o acesso das empresas americanas às riquezas estratégicas brasileiras. A isto juntou-se a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas, uma designação que, além da sua carga política, pode abrir a porta a argumentos para uma intervenção americana contra o narcotráfico dentro das fronteiras brasileiras. O Governo de Lula recusou, por razões de soberania, a presença de especialistas americanos na verificação das urnas electrónicas. Tudo isto publicámos ontem.

Agora surge uma nova peça. Circulam nas redes sociais cartazes anunciando, como facto consumado, que “cerca de 2 mil guerrilheiros” colombianos, identificados como dissidentes das FARC e membros do ELN, invadiram a fronteira brasileira e atacaram populações locais.

Estão a fabricar a porta por onde vão entrar os marines americanos, em perseguição a alegados militantes de organizações terroristas. Tudo começou há algumas semanas, quando surgiram denúncias sobre a presença na Amazónia de homens armados idos da Colômbia. O Governo do Brasil reforçou a presença de forças de segurança na região e o Ministério Público abriu uma investigação. Mas não está confirmado que sejam 2 mil homens, nem que pertençam às organizações indicadas. Os adversários de Lula estão a transformar uma hipotética ameaça num facto consumado.

É assim que se constroem narrativas políticas. Primeiro existe um problema real, depois exagera-se a sua dimensão, atribui-se-lhe um inimigo identificável e, finalmente, exige-se uma resposta excepcional: “O Brasil precisa agir agora.” Não sabemos se está a ser preparada qualquer intervenção americana no Brasil, mas depois das ameaças proferidas por Trump, é legítimo perguntar se estamos perante a construção de um ambiente político destinado a apresentar o Brasil como um país que dá abrigo ao crime organizado. Quando se constrói uma ameaça suficientemente grande, a intervenção deixa de parecer uma agressão e começa a ser apresentada como uma necessidade. Uma salvação.

Para já, temos propaganda bolsonarista. Temos a extrema-direita a cavalgar mentiras e meias-verdades. Mas vemos como as peças começam a encaixar-se de uma forma que merece ser observada com muita atenção. Lula, põe-te a pau.

cartazes de campanha da extrema-direita brasileira usados nas redes sociais