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O LUXO É A AUSÊNCIA DE PRESSA

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6.º dia: O esplendor de Mosi-oa-Tunya
De Kasane – Kazangula (Botswana) a Livingstone (Zâmbia) – 7h de carro.
Era para ser uma viagem curta, mas o trajeto até Livingstone ficou marcado por uma espera inexplicável na fronteira. Quatro horas suspensas, sem razão aparente, que nos obrigaram a chegar tarde – mas ainda a tempo. E, no entanto, nada prepara verdadeiramente para as cataratas.
O rio Zambeze precipita-se ali com uma força difícil de explicar: cerca de 5.000 metros cúbicos de água por segundo, num abismo de mais de 100 metros. Mas não é apenas a dimensão – é o som, constante, profundo, e a névoa que sobe, densa, justificando o nome local Mosi-oa-Tunya, “o fumo que troveja”.
Quando o explorador escocês, (Sir) David Livingstone, viu as cataratas pela primeira vez em 1855, não imaginava que estas mais de 100 anos depois seriam consideradas como uma das maiores quedas de água do mundo, uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo e Património Mundial da Unesco (1989). Já agora, ele não as descobriu, nem as encontrou, foi lá levado pela comunidade local com quem, entretanto, estabelecera laços de confiança e batizou-as de Vitória em honra da rainha Vitória.
Os locais sabiam da sua existência e chamavam-nas de Mosi-oa-Tunya (“fumo que troveja”) há milhares de anos. O que se vê agora é a mesma vista espantosa que os impressionou, que impressionou Livingstone e que impressiona todos os que têm a sorte de ver estas cataratas.

Cataratas Vitória ou Mosi-oa-Tunya (“fumo que troveja”)

Caminhámos durante mais de uma hora e meia – e, ainda assim, parecia pouco- sob aquela chuva suspensa. Saí encharcada, apesar do impermeável que alugámos à entrada. Uma experiência que sei que não esquecerei.

7.º dia: Mosi-oa-Tunya National Park
Saímos cedo para procurar rinocerontes. Encontrámos muito mais.
Saímos às 8h30m para o Rhino Walk, depois de assegurar que os animais estavam em liberdade e não em cativeiro. O objetivo era claro: ver rinocerontes-brancos. Mas não vimos só rinocerontes.
Passámos o portão do Mosi-oa-Tunya National Parque (aliás, o The David Livingstone Safari Lodge & Spa onde ficámos já se situa dentro do parque, nas margens verdejantes do rio Zambeze, integrando-se perfeitamente na paisagem circundante) e seguimos de jipe aberto pelos seus caminhos.
O parque é pequeno, mas guarda o maior grupo de rinocerontes-brancos da Zâmbia, espécie classificada como ameaçada. Antes deles, porém, cruzámo-nos com uma vida dispersa, mas intensa e presente: macacos a tomar o pequeno-almoço em alegre cavaqueira, enquanto “cavavam” o terreno à procura de iguarias; gnus em passo lento; girafas elegantes; zebras inquietas; aves de várias cores em movimento.

O guia, Steve, simpático e conhecedor, ia explicando a paisagem e contando fatos curiosos sobre os bichos.
Depois quase no fim do parque o jipe parou, um guarda armado juntou-se a nós (uma arma com sedativo para os animais -usada, raramente, em caso de ataque- mas que também pode ser usada contra caçadores furtivos), e, depois de uma breve explicação de segurança, perguntaram-nos quanto tempo queríamos caminhar, dissemos 1 hora, e seguimos a pé, em linha na savana, sob um sol que
começava a aquecer e muito.
A savana abre-se de outra forma quando se caminha dentro dela. Viamos sinais: pegadas, excrementos, rastos de passagem. Mas rinocerontes, nada. Até que de repente, o guarda aponta e lá estão eles, sete White Rhinos -que, na verdade não são brancos-, imóveis à sombra de uma árvore. Uma cria entre eles, inquieta, pedindo leite. O resto era silêncio e uma presença forte. Já tinham comido e pode-se dizer que dormiam a sesta, quando muito davam um ou dois passos para encontrar um lugar mais confortável. E nós ficámos ali, a assistir. Foram momentos de grande deslumbramento.
Ao fim do dia, regressámos à água, num lento percurso pelo Zambeze ao pôr do sol, esse mesmo rio que atravessa países e histórias antes de chegar ao Índico. Conheci o rio Zambeze em 1995 em Tete, Moçambique. O Zambeze nasce no noroeste da Zâmbia passa pelo território de Angola e Zimbabwe e atravessa Moçambique de oeste para leste, para desaguar a sul da cidade de Chinde, no oceano Índico.

8.º dia: O meu amigo Henry
De Livingstone (Zâmbia) a Kongola (Faixa de Caprivi, Namibia) passando pela fronteira de Katima Mulilo – 7h de carro.
A distância engana. São poucos quilómetros, mas muitas horas. Em Km o trajeto é curto, cerca de 350km, mas em tempo é longo, quase 7h.
Durante cerca de 250Km, ainda em território da Zâmbia, seguimos por picada. A estrada de terra impõe o seu ritmo, e eu prefiro assim. Prefiro 4h de picada do que 4h de espera numa fronteira vazia.
A fronteira, desta vez, foi rápida. Do lado da Namíbia, o asfalto devolve-nos alguma fluidez e conforto, foi como se a viagem respirasse um ar novo.
A chegada ao Camp Kwando compensa tudo. Situado nas margens do rio com o mesmo nome -mais um que nasce em Angola -, está envolvido pela beleza selvagem da região do Zambezi (faixa de Caprivi), na Namíbia. É um pequeno oásis, um glamping sem internet, mas com dois hipopótamos residentes. Um chamado Henry e outro ainda sem nome, que estabeleceram a fronteira dos seus territórios, e os hipopótamos são animais muito territoriais, mesmo em frente às tendas do glamping. O Henry até saiu da água para se mostrar.
Este é um lugar simples, quase suspenso. Aqui, o luxo mede-se pela ausência: de rede, de pressa, de ruído, de distração.

Dia 9: Estranhos sinais de transito
De Kongola a Tsumeb passando por Rundu (Namibia) – 8h de carro.
A estrada, agora boa, atravessa paisagens onde os sinais de trânsito avisam de elefantes, cães selvagens, antílopes. Há pouco tempo, seriam sinais exóticos; agora, parecem-me naturais.
Vimos girafas a atravessar a estrada -duas passaram primeiro, outras ficaram para trás, hesitantes, à espera que passássemos. Há uma prudência naquele gesto que reconheço.
Chegámos ao Callie’s Lodge ao pôr do sol. Já dentro da fazenda, ainda vimos impalas e gnus, como um último aceno da vida selvagem.
Fechámos o dia como tínhamos fechado o primeiro: com uma cerveja Windhoek.

10.º dia: Regresso
De Tsumeb (Namíbia) ao Lubango (Angola) – mais de 10h de carro
O regresso faz-se sempre mais longo. Atravessámos a fronteira de Oshikango / Santa Clara com demora – problemas de sistema, ou falta dele – num regresso a Angola que se fez esperar.
Almoçámos em Santa Clara e seguimos por estradas irregulares, marcadas por buracos e interrupções constantes: umas pela polícia, outras pelos animais em movimento, que continuam a impor o seu próprio ritmo à estrada.
Já perto do fim, a pouco mais de cem quilómetros do Lubango, parámos em Chiange-Gambos para ver o pôr do sol e abrir o champanhe que nos acompanhava desde o dia 1 de abril -aniversário de uma das companheiras de viagem.
Chegámos ao Lubango já de noite, por volta das 21h, mas ainda houve tempo para um vinho tinto do Douro ao jantar.
Nesse dia, quando me deitei na casa 21 do Kimbo do Muholo no Pululukwa Resort, percebi que a Road Trip terminava ali. Tinham sido dez dias, 3.428 quilómetros, quatro países -cerveja local q.b., muitos animais, muitas paisagens… e, acima de tudo, muita água. Esse elemento essencial à vida, que afinal esteve sempre presente. No fundo, sempre no centro de tudo.

(último de dois artigos)

JOSÉ D’ENCARNAÇÃO ‘HONORIS CAUSA’

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Historiador, arqueólogo e epigrafista, Encarnação construiu uma carreira centrada no estudo das inscrições antigas, tendo sido o primeiro português admitido na Association Internationale d’Épigraphie Grecque et Latine, algo que nada diz ao público em geral, mas que tem peso considerável entre especialistas da área. A epigrafia, disciplina que exige rigor técnico e uma relação quase artesanal com as fontes, foi o eixo de um trabalho desenvolvido ao longo de décadas, em ligação estreita com a investigação arqueológica.

Professor na Universidade de Coimbra, onde deixou marca no ensino e na formação de várias gerações, Encarnação conciliou a actividade académica com trabalho de campo, nomeadamente no concelho de Cascais, onde dirigiu diversas intervenções arqueológicas. Esse cruzamento entre teoria e prática contribuiu para um perfil que não se esgota na produção científica, mas que se estende à valorização concreta do património.

Natural de São Brás de Alportel, lugar onde não há memória de terem nascido antes cientistas ou grandes vultos da intelectualidade nacional, o percurso de José d’Encarnação foi inovador no sentido em que parece contrariar esse estigma sobre a distância do lugar onde nascemos e os centros tradicionais de produção académica.

José d’Encarnação mantém uma presença regular no espaço público através da escrita. É autor de vasta bibliografia que inclui obras técnicas de referência, estudos sobre a romanização e livros dedicados à história local de Cascais. Ainda encontra tempo e disponibilidade para escrever em jornais regionais, blogs e no site Duas Linhas, onde publica textos sobre arqueologia e cultura, num registo que oscila entre a divulgação e a reflexão, sem se afastar da exigência intelectual que caracteriza o seu percurso.

A atribuição do Doutor Honoris Causa surge, assim, como formalização de um reconhecimento que, nos meios académicos, há muito estava estabelecido.

MAIS DE UM MILHÃO DE ASSINATURAS

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Há causas que se dizem apartidárias e é precisamente por isso que expõem, sem disfarce, as contradições políticas do nosso tempo. As questões humanitárias são uma delas: funcionam como um teste simples, quase binário. Ou se está, ou não se está.

Um abaixo-assinado promovido pelo Partido da Esquerda Europeia – em Portugal representado pelo Bloco de Esquerda – reuniu já mais de um milhão de assinaturas a favor da suspensão do acordo de associação entre a União Europeia e Israel, como resposta ao genocídio em curso em Gaza e na Cisjordânia e à guerra no Líbano. No momento em que escrevemos este artigo, a cifra que consta no site dos promotores da petição é esta:

Um milhão cento e vinte e três mil trezentos e trinta e três (e a contagem continua). Para partidos que, juntos, têm apenas 21 eurodeputados. O contraste não é apenas estatístico, tem uma dimensão política. Mostra que há uma base social muito mais ampla do que aquela que cabe na representação institucional, e que não se revê, necessariamente, nos partidos que lançaram a iniciativa.

Ao mesmo tempo, esta adesão popular expõe algo ainda mais incómodo: o duplo padrão da UE. A mesma União Europeia que rapidamente invoca sanções, suspensões e isolamento diplomático noutros contextos, não reage quando o problema envolve Israel.

Durante anos, décadas, a causa palestiniana foi remetida para um nicho ideológico. Mais de um milhão de assinaturas sugere o contrário: quando a questão é colocada em termos humanitários, sofrimento civil, destruição propositada de hospitais, escolas, chacinas de população civil, snipers que atacam intencionalmente crianças e jornalistas, médicos e socorristas, as fronteiras partidárias tornam-se irrelevantes. Ou seja, existe uma opinião pública disponível para ir mais longe do que os seus representantes. As organizações políticas devem passar a ter isso na devida conta.

Em Gaza, bombardeamentos israelitas continuam a matar diariamente pessoas não-combatentes

Em que é que isto incomoda Israel? A resposta está nos números do comércio externo, por exemplo: 28% das exportações israelitas destinam-se ao mercado europeu; as trocas comerciais entre os países da UE e Israel somam mais de 46 mil milhões de euros por ano; a Europa financia mais de 900 projetos de desenvolvimento que beneficiam centenas de empresas israelitas, algumas delas envolvidas nas ações militares do genocídio em curso em Gaza e Cisjordânia e na guerra no Líbano. Ou seja, a ideia é “magoar” Israel onde mais lhe dói: no bolso.

paisagem urbana no sul do Líbano já se assemelha a Gaza

PELOS CAMINHOS DA ÁGUA POR ANGOLA, NAMÍBIA, BOTSWANA, ZÂMBIA

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Dia 1: Cunene
Do Lubango (Angola) a Tsumeb na Namibia – 10h de carro
Surpreendeu-me a água. E o gado. Mas sobretudo a água. Há mais de cinquenta anos que ouvi, pela primeira vez, a palavra Cunene. Foi no início dos anos 70, quando um amigo do meu pai partiu para instalar a Estação de Orizicultura do Cunene. Desde então, ficou-me a ideia de uma região fértil, de zonas húmidas propícias ao arroz. Ainda assim, depois de meses a ouvir falar de seca persistente no Sul, não estava preparada para o que encontrei: extensões alagadas, reflexos de água onde esperava poeira, e rebanhos em movimento, como se seguissem um ritmo antigo, indiferente às previsões e aos alarmes de seca.
Foram dez horas de estrada até ao Callie’s Lodge, mas a viagem começou, na verdade, com esse espanto inicial – essa água inesperada que parecia querer contrariar as minhas expectativas.

Dia 2: Há qualquer coisa de especial nos rios que são fronteiras
De Tsumeb a Divundu (Namibia) – 6h de carro
A manhã começou com a visita ao meteorito Hoba. Mas é a terra – e não o que vem do espaço – que me impressiona.
Ao fim do dia, chegámos ao rio a tempo de apanhar oa últimos minutos do “cruzeiro” ao pôr do sol, como se o próprio dia tivesse esperado por nós.
O Divava Lodge ergue-se sobre o rio Kavango, nome que o rio carrega, depois de se chamar Cubango, e antes de se transformar em Okavango ao entrar no Botswana.
Do outro lado, ao alcance do olhar, e quase ao alcance de meia dúzia de braçadas, é Angola.
Há qualquer coisa de especial nos rios que são fronteiras. Lembrei-me do Mekong, que separa / une países, como o Laos da Tailândia e do Camboja, e do rio San Juan, entre a Costa Rica e a Nicarágua. Aqui, como nesses lugares, a água não divide, apenas desenha limites que a paisagem, os animais e as gentes, parecem ignorar. A certa altura, estivemos numa pequena ilha no meio do rio. Não sei a que país pertence. Talvez isso nem importe.

Divava Lodge na margem do rio Kavango

Dia 3: do Kavango ao Okavango
De Divundu (Namibia) a Maun (Bostswana) – 6 horas de carro
Atravessar o Bwabwata National Park foi como entrar, mais uma vez espantada, num inventário vivo de África.
Primeiro, os antílopes, discretos e elegantes. Depois as zebras, como riscas em movimento. As girafas surgiram mais tarde, quase silenciosas na sua altura improvável. E, por fim, os elefantes — sempre eles, sempre maiores do que a paisagem que os contém. O leão apareceu como uma exceção, uma raridade breve que confirmou a regra.
A fronteira com o Botswana foi simples, quase despojada, e talvez por isso mesmo eficaz.
Do outro lado, o rio já se chama Okavango e começa a desfazer-se em múltiplos canais, insinuando o delta que mais à frente se expandirá. Não vemos a água da estrada, mas sei que se espalha, multiplica-se, abranda — como se recusasse qualquer pressa. Confirmei isso mais tarde, da varanda do Crocodile Camp, sobre um braço do rio coberto de nenúfares.

Dia 4: No coração do Delta do Okavango
O Mokoro desliza sem pressa. É esse o seu segredo.
As canoas, hoje feitas de fibra para preservar as árvores, mantêm o gesto antigo: o avanço lento, o silêncio quase absoluto, o som ritmado do pau que toca a água e o lodo. Navega-se com todos os sentidos.
Primeiro vamos ver os hipopótamos, numa espécie de lagoa, pesados e aparentemente tranquilos, mas donos de uma reputação que contrasta com a sua placidez. Afinal, são dos animais que mais matam em África, logo a seguir aos mosquitos.
Depois, já nos estreitos canais, um elefante. Imóvel. Tão imóvel que por momentos me pareceu de pedra.
As canoas param, saímos, caminhamos e aproximámo-nos a pé, em silêncio, até o ver de perfil. Abana as orelhas enquanto arranca a erva com a tromba e a leva à boca, num gesto repetido, quase mecânico. O guia explicou que aquele movimento das orelhas era sinal de tranquilidade. Mas o vento mudou, e com ele, a nossa posição na ordem invisível da savana. Recuámos.
De volta ao Mokoro, seguimos por canais cada vez mais estreitos, rodeados de papiros altos, até o reencontrar, de frente no fim de um estreito canal. Permanece ali, imponente, imponente como só os elefantes sabem ser, como se não pertencesse a este tempo. Fiquei a observá-lo. A tentar perceber, talvez inutilmente, o que faz ali um elefante sozinho. Há qualquer coisa de hipnótico naquela presença de elefante.


Continuamos a deslizar e lembrei me de um passeio semelhante, num outro delta, sem animais, mas também em silêncio. Um passeio que fiz com um velho barqueiro há mais de 20 anos no Delta do Danúbio (na Roménia).

Dia 5: Elefantes felizes
De Maun a Kasane (Botswana) – 7 horas de carro
Chegámos ao Senyati Camp ao fim do dia, no momento exato em que a luz abranda e tudo parece suspenso.
Da varanda do espaço comum que serve de bar, víamos o pôr do sol quando uma família de elefantes se aproximou da charca. Descemos ao bunker – uma ideia genial, simples e brilhante: observar os animais ao nível do solo, próximos e invisíveis.
Ali, a poucos metros, desenrolou-se uma cena de intimidade tranquila. Bebiam, brincavam, tocavam-se. Fiquei ali uma hora, talvez mais, a assistir àquilo a que chamei, em silêncio, de “família feliz”.
Quando voltei ao local, já depois do jantar preparado e comido junto às tendas, dois elefantes adultos tinham voltado, ou eram outros, não sei. Um último quadro na savana, antes de me recolher para dormir.

(continua)

A CULPA É DO FAZEDOR DE TAMBORES

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Os combustíveis são uma fonte de receita que dá a entender, pelo procedimento do governo, não existir nenhuma outra tão caudalosa, capaz de rivalizar com o lucro que o Estado obtém com a coleta de impostos sobre o litro de gasolina ou gasóleo vendido.

A informação que está disponível é que a gasolina, por cada 1000 litros tem um ISP (Imposto Sobre Produtos Petrolíferos) de 470,53 € onde se acrescenta o IVA de 23%, dando um final de 578,7519 €. No gasóleo, por 1000 litros, a taxa de ISP é de 311,63€, acresce 23% de IVA, temos um final para o estado, 383,3049 €. Tal como na gasolina, o imposto ronda os 50%.

Usando ideologia partidária para a continuação da crónica, e o “pensamento de uma parte do governo, uma em a) a outra em b)”:

  1. “… Os transportadores, distribuidores de produtos, têm mais que margens de lucros suficientes e podem pagar esta alta de preços dos combustíveis…”
  2. “… Qual é a empresa que pode comportar esta alta de preços, sem fechar e lançar para o desemprego muitos colaboradores, sem ser com a ajuda do estado?”.

O procedimento que a seguir fizemos (agitando os cérebros) foi para, exemplo, a gasolina. Considerando o imposto em cerca de 50% (claro que são contabilizações feitas de modo grosseiro/linear), a gasolina à data desta informação, deveria custar 1,15€ por litro, seja:

O Estado deve retirar do imposto que arrecada de modo a colocar o preço dos combustíveis ao nível, no mínimo, no inicio do conflito no Médio Oriente. O país não vai conseguir sair deste atoleiro, sim afundar-se, se não for imediatamente feito neste sentido uma reformulação de preços. Primeiro está a economia do país. Bruxelas não vai querer que as populações dos Estados membros passem problemas graves ou o encerramento de empresas fundamentais à economia dos países. Era uma insanidade política. Têm os estados membros que concertar estas políticas de modo rápido.

Enquanto espero e para tentar evitar “refluxos”… já comecei a tomar camomila em infusão… tal é a azia… à política.

TRUMP OU A CARICATURA DELE PRÓPRIO

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Quando o Papa Leão XIV disse que rezava pela paz e condenava todas as guerras, não estava a fazer nada de particularmente inovador. Estava, no fundo, a cumprir o papel do Papa. Ainda assim, conseguiu irritar uma das pessoas mais poderosas do planeta: Donald Trump. É preciso algum talento para se sentir pessoalmente atacado por uma oração genérica pela paz mundial. Mas Trump tem esse talento.

Ao longo da história recente, os Papas conviveram com figuras como Adolf Hitler ou Benito Mussolini sem nunca se terem destacado por apoiar guerras de forma explícita. Nenhum deles, porém, teve de lidar com um Presidente norte-americano que interpreta um apelo à paz como uma afronta pessoal.

Trump, fiel à sua gramática política, respondeu como responde a tudo: com suspeição, ruído e uma dose generosa de “conversa de tasca”. Insinuou motivações políticas, mencionou teorias obscuras, tratou o chefe da Igreja Católica como se fosse mais um adversário num comício.

Leão XIV não recuou. Ainda hoje, disse que “o mundo está a ser destruído pelos tiranos”. Não apontou o dedo. Não precisava. Quando alguém se reconhece na descrição, o problema já não é do emissor.

No cartoons da esquerda, Trump monta uma bomba mortífera e nas redes sociais tenta descrever o papa como perigoso. No cartoon da direita, o Papa diz que só adora Deus e Trump responde dizendo que só adora a ele mesmo.

O ataque ao Papa teve um efeito colateral previsível: abriu a época do cartoon caricatura de Trump. De repente, jornais e plataformas digitais encheram-se de caricaturas onde Trump surge como pateta, nunca esquecendo que estamos a falar de um pateta perigoso. A sátira política, que vive de exagerar o real, tem aqui a vida facilitada. Basta copiar.

No cartoon da esquerda, as políticas de Trump dão cabo da reputação dos EUA como “farol” da democracia no mundo. À direita, Trump proclama a “idade do ouro” dos EUA onde se somam os indícios de corrupção dos oligarcas do regime e do próprio Presidente dos EUA.

A saturação mediática destas imagens sugere algo mais que apenas crítica, mas um enorme desgaste político.

Nestes dois cartoons, publicados em diferentes meios dos EUA, Trump é um tipo que perde parafusos e torna-se num palhaço trágico…

Realce para os “bonecos” de Hélder Dias, o cartoonista português que gostamos de publicar aqui no Duas Linhas.

Três cartoons recentes de Hélder Dias sobre a questão do ataque dos EUA contra o Irão e as críticas feitas ao Papa Leão XIV

TERTÚLIAS

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imagem descritiva

Cid Adão é o meu comparsa nas tertúlias. Conversávamos os dois sobre os auxílios aos que ficaram sem nada, ou sem possibilidades de poder voltar a produzir como o faziam anteriormente na zona de Leiria, Marinha Grande, Ourém, por causa da depressão Kristine, que ainda não tinham sido implementados como deveria ter sido feito… muito “negócio” clandestino estava a ser feito com as dádivas: telhas, cimento, plásticos para estufas, tijolos, conforme se viu numa reportagem do dia 13, no NOW.

Resposta: “Pois é, quando estou no sofá a ver jogos de futebol, farto-me de meter golos.” Fiquei a olhar para ele… Pensava que o Cid Adão teria a ideia que as dádivas deveriam ser guardadas, distribuídas e justamente doadas rapidamente nos locais onde a necessidade é imperiosa. Nunca me passou pela cabeça que a resposta dele seria um “deixa andar, a nossa missão na autarquia é cumprir o nosso orçamento, entrar às nove e sair às dezassete…” Penso que não deveria ser assim.

Retorqui que “se eu tivesse dado materiais para ajudar, retirando dos lucros da minha empresa, uma parte para acudir a quem praticamente ficou sem nada, ao ver o que vi na reportagem, meteria uma acção em tribunal contra quem, na autarquia deixa que isto se processe assim.”

Resposta do Cid Adão: “Para quê? Para gastar dinheiro ao meter o processo? Para que o caso nunca mais se resolvesse e ande arrastado pelos tribunais durante anos? Para ter problemas, posteriormente, por isto e por aquilo? Meu amigo, deixe-se desses pensamentos, ainda é de bom tempo.”

Decididamente, hoje, não consigo conversar com ele…

QUANDO A MEMÓRIA É OFENDIDA

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Há propostas políticas que não são apenas erros de julgamento, são atos de provocação. A tentativa de atribuir o nome de Marcelino da Mata a uma rua em Portugal, levada ao Parlamento português por setores ligados ao Partido Social Democrata e ao Chega, não pode ser lida como um gesto inocente. Trata-se de uma escolha política carregada de simbolismo e, no atual contexto guineense, de uma gravidade que não deve ser subestimada.

Não é sobre uma rua. É sobre memória, dignidade e poder

A atribuição de um nome a um espaço público é um ato político de consagração. É uma forma de dizer quem merece ser lembrado. E como deve ser lembrado. Ao propor a elevação de Marcelino da Mata à condição de referência pública, certos setores políticos portugueses procuram impor uma narrativa que ignora, deliberadamente, a memória histórica de um povo que sofreu diretamente as consequências da guerra colonial.

Para muitos em Portugal, Marcelino da Mata pode ser apresentado como um “herói militar”. Para os guineenses, porém, essa leitura é, no mínimo, incompleta e ofensiva. A sua atuação enquanto membro dos chamados Comandos Africanos está associada, na memória coletiva, a operações de repressão brutal contra populações locais, num contexto de dominação colonial.

Não é irrelevante que esta proposta surja num momento particularmente sensível da vida política da Guiné-Bissau. Quando um país enfrenta tensões internas, disputas de narrativa e tentativas de deslegitimação institucional, iniciativas externas com forte carga simbólica podem funcionar como instrumentos de pressão indireta.

A pergunta impõe-se: porquê agora?

A resposta mais plausível é desconfortável: porque há setores políticos em Portugal, particularmente na extrema-direita representada pelo Chega, que continuam a instrumentalizar o passado colonial como arma ideológica. Ao fazê-lo, não apenas reabilitam figuras controversas, como também enviam sinais políticos a determinados atores internos africanos que se alimentam de divisões históricas.

A falsa neutralidade da História

Há quem argumente que “a História deve ser vista no seu contexto”. Esse argumento, embora tecnicamente correto, é frequentemente utilizado como escudo para evitar julgamentos morais. Mas há um limite. Uma democracia madura não é neutra face à violência histórica. Não pode ser.

A tentativa de glorificação acrítica de figuras associadas à repressão colonial revela uma recusa em confrontar o passado com honestidade. E pior: revela uma hierarquização implícita das vítimas, onde o sofrimento africano continua a ser relativizado.

A bravura em combate, por si só, não é critério suficiente para a consagração pública. A História está repleta de figuras militarmente eficazes que, ainda assim, não são, nem devem ser, celebradas.

O que está em causa não é negar a existência de Marcelino da Mata. É recusar a sua elevação simbólica num espaço público que representa valores universais: dignidade humana, justiça e memória inclusiva.

Portugal perante o seu próprio espelho

Esta proposta coloca Portugal diante de uma escolha clara: ou assume uma leitura crítica e responsável do seu passado colonial, ou cede à tentação revisionista de sectores políticos que procuram reescrever a História à luz de nostalgias imperiais.

O chumbo da proposta no Parlamento português, se confirmado e mantido, não será um ato de fraqueza. Será, pelo contrário, um sinal de maturidade democrática e de respeito pelas relações históricas com os povos africanos.

Guiné-Bissau não é um detalhe na História portuguesa. Há uma linha que não pode ser ultrapassada: a desconsideração pela memória de um povo. A Guiné-Bissau não é um apêndice da História de Portugal. É uma nação soberana, com a sua própria narrativa, construída com sangue, resistência e dignidade. Ignorar essa realidade é mais do que um erro político. É uma forma de violência simbólica.

A proposta de homenagear Marcelino da Mata revela que, décadas após o fim do colonialismo, persistem forças que se recusam a aceitar plenamente as implicações morais desse período.

Mas também revela algo mais importante: que há resistência, que há memória e que há dignidade. E essa, ao contrário de qualquer rua, não pode ser renomeada.

O FUTURO DO APOIO JUDICIÁRIO

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Vamos lá ver se nos entendemos quanto ao apoio judiciário e às suas envolventes – expressão tão do agrado do ex-Procurador-Geral, Cunha Rodrigues – que colocam em causa o bom nome de muitos advogados e constituem a motivação para que se proceda a mudanças no sentido de beneficiar apenas alguns ‘amigos’.

Antes do sistema ser implementado, os advogados oficiosos eram quase sempre os mesmos, numa fórmula ‘nebulosa’ nascida nas secretarias dos Tribunais.

Esse patrocínio tinha custos e seria útil comparar o seu custo com o custo do actual sistema, que não é perfeito, mas que recoloca os advogados, que querem exercer o patrocínio judiciário e que não possuem conhecimentos nas secretarias, na mesma posição dos outros.

A maioria dos advogados que exercem – e continuam a exercer o patrocínio oficioso, apesar de não serem bem pagos, porque não têm contratos leoninos com o Estado (e seria interessante saber quanto é que foi pago às grandes sociedades de advogados por pareceres que poderiam ter sido feitos pelo Ministério Público) – fazem-no com dignidade, sem subterfúgios, sem habilidades, sem tentar defraudar o erário público.

A alternativa ao actual sistema de apoio judiciário não passa, como o Bastonário João Massano sugeriu, por resolver uma questão específica, a de nomear uma task-force de advogados para acompanhar os processos mediáticos, mas pela criação de um sistema de apoio judiciário praticado por defensores oficiosos, avençados, com a atribuição de um número de processos, previamente definido, o que permitiria reduzir custos e assegurar a qualidade de defesa dos beneficiários do apoio judiciário.

Sei que a Ordem dos Advogados é contrária a esta solução, mas também é tempo de a OA mudar os seus conceitos e não ficar prisioneira de um modelo conservador. A Ordem dos Advogados não pode exigir mudanças na Justiça se ela própria não mudar. Acresce que a tese de que esta solução colocaria em causa a ‘independência’ do patrocínio é atentatória da dignidade e do profissionalismo de quem viesse a exercer essas funções. Qual a diferença entre ter uma avença com o Estado, para a defesa de quem não tem capacidade de custear um advogado, e a relação de advogados com vínculo laboral a uma sociedade onde prestam serviços de forma remunerada, subordinada e habitual? Talvez seja de se pensar fora da caixa, neste tempo incerto, complicado e em mudança.

UMA MENINA

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Há no Museu Nacional Grão Vasco uma pintura cuja oficial designação é Retrato de Menina, mais vezes apelidado, o quadro, de A Menina de Madrazo, como se ela, a Menina do retrato, da qual se não conhecia, até há pouco, nome nem família, tivesse sido adoptada pelo pintor.

É assim desde há muitos anos, desde que Francisco de Almeida Moreira, o emérito primeiro director do Museu, trouxe para Viseu a preciosa pintura, que adquirira em Lisboa, em 1931, lá onde chegara pelas mãos de um antiquário que, em 1927, a adquirira em Paris.

Quem via no Museu o tal Retrato de Menina, toda a gente, suspendia-se a olhá-lo, que era um retrato vivo e ternurento e ela, a Menina, ali estava, fada ou moura encantada, à espera de alguém, talvez príncipe enamorado, que rompesse o encanto e a trouxesse, de mão dada, ao nosso mundo, onde faltava.

Demorou quase 100 anos, mas agora aconteceu. Como nas lendas.

Não perdeu o encanto, que ela não era nem moura nem fada, mas tão simplesmente criança, oito anos contados quando pousou para o retrato. Aconteceu em Madrid o desvelar da sua história, que essa tem o seu encanto. Aconteceu no âmbito da investigação para a realização da exposição retrospectiva do pintor Raimundo Madrazo y Garreta (1841-1920), caucionada pela Fundación MAPFRE, que ficou presente na Sala Recoletos, de 19 de Setembro de 2025 a 28 de Janeiro de 2026, nela se integrando a pintura do Museu de Viseu.

E aconteceu sair do limbo a bonita história da Menina com jeito de princesa, que vem habitar a verdadeira terra dos homens, entre eles cumprindo sua sina.

Tem o nome de Maria, esta menina, Maria Freiin von Stumm, filha segunda, na geração, de Ferdinand Freiherr von Stumm (1843 – 1925), embaixador da Alemanha do seu tempo, em Madrid, entre 1887 e 1892 e da Baronesa Pauline Freiin von Hoffmann (1858 -1950).

O casal, cuja vida decorre entre a diplomacia e o familiar empenho na grande indústria, teve quatro filhos: Ferdinand, Maria, Herbert e Friedrich Wilhelm.

Maria, a menina do retrato que se guarda no Museu, casou a 18 de Maio de 1911 com o Príncipe Hermann Furst von Hatzfeldt-Wildenburg, que levou uma intensa vida como militar graduado e diplomata encartado. Deles houve quatro filhos, três raparigas e um rapaz.

Raimundo Madrazo, estanciando em Madrid, fará o retrato de Maria, o nosso Retrato de Menina cerca de 1890, quando Maria andava pelos oito anos; o retrato do irmão Ferdinand Carl, em 1890, ao fazer os dez anos; e o retrato de Friedrich Wilhelm em 1893, ao fazer os cinco anos.

Desfeito o suave mistério que, por tantos anos, envolveu a Menina do Retrato ou o “Retrato de Menina” com jeitos de princesa, que, na vida real, casou efectivamente com um verdadeiro Príncipe e teve por morada um Palácio verdadeiro, não se perdeu o encanto do retrato, que, com tanta verdade, Raimundo Madrazo pintou, obediente aos cânones de uma Escola e onde permanecerá, para sempre, essa magia que nos cativa – como se a Menina continuasse como mourinha ou fada de uma bonita história encantada.

composição fotográfica Duas Linhas