O problema não é só aquilo que dizem, mas os pontapés no pobre do português. A cada citação, mencionam o nome e repetem à exaustão ‘ele que…’, ou (cada vez mais) conjugam mal o verbo haver, ou esquecem-se de que há verbos em que o auxiliar determina se o particípio passado é ‘curto’ ou ‘longo’. Não compreendo como se pode pôr tanto analfabeto a comentar e a dizer ‘obviamente’ ou ‘tipo’, a torto e a direito, ou os relatores desportivos que afirmam que os jogadores, em lugar de darem o seu contributo ao jogo, passaram ‘a entregar mais do que outros’. É, pois, uma entrega, só não se sabe do quê.
Acresce que não sabem a segunda pessoa do plural dos verbos: ‘vocês concordam?’ em lugar de vós concordais. E é tratamento generalizado por você, seja militar ou um estudante à saída da faculdade. Aqui, só me lembro de, pelo menos no Norte, se clamar que ‘você é estrebaria’.
Por outro lado, a pobreza linguística e de raciocínio da maioria dos comentadores é absolutamente confrangedora. No dia 1, depois de um noticiário da tarde, houve um debate. As notícias passaram uma informação e uma jovem comentadora desenvolvia o tema ao contrário do que fora a notícia… O que dizer? O que pensar? Felizmente, estava acompanhada por dois outros, um jornalista e um conhecido político, que lá iam dando explicações sobre o significado de ‘regular funcionamento das instituições’. Vergonha alheia.
Isto faz-me lembrar a história da senhora que, há muitos anos, vendia nougat à porta do então Liceu Rainha Santa Isabel, no Porto. Dizia ela para os alunos que por ali iam à guloseima: ‘Falaindes, falaindes, nem sabendes o que habendes de dizer. Nem parecendes que andaindes a estudar’. Conto esta história muitas vezes, porque, cada vez mais, há gente que ‘nem parecendes que andaindes a estudar’, ou que andais a estudar.
Por qualquer motivo, que também não entendo, agora são todos comentadores do canal em que se apresentam. Ninguém sabe quais as respectivas especialidades ou aptidões. Por exemplo, vemos um comentador, que os meus muitos anos de Jornalismo me permitem saber a que partido pertence e qual profissão. O problema é que estava a debater o funcionamento das urgências, quando a sua especialidade nunca foi a Saúde. Ou ouvimos perorar sobre a área da Justiça quem tem formação na Defesa. Contudo, e para todos os efeitos, são ‘comentadores’. Toda a gente tem direito a uma opinião, mas não encharquem o telespectador com opiniões que não acrescentam nada. Cá para mim, e perdoem-me o neologismo, são quase todos ‘comentadeiros’.
Depois, cada vez mais raramente, vemos os mais velhos, capazes de desenvolver um raciocínio do princípio ao fim, pessoas que todos conhecemos e que, independentemente de concordarmos com eles ou não, dizem – finalmente e aleluia – alguma coisa de jeito. Repito, podemos discordar, podemos pensar que são mais à esquerda ou mais à direita, mais assim ou mais assado. Mas sabem do que falam e como falam.
Por isso, deixo aqui o desafio às televisões TODAS. Ponham a profissão de quem comenta, tanto mais que ser ‘comentador’ não é profissão de ninguém, ainda que, maioritariamente, sejam pagos por isso.
NOTA: Saíram os resultados de PISA 25. Agora queixam-se do que me queixo há tantos anos…
Em política, as coincidências podem não ser apenas coincidências. E quando acontecem entre acontecimentos desta dimensão, talvez valha a pena olhar para elas. Enquanto o mundo ocidental assinalava os 25 anos do 11 de Setembro, os líderes dos BRICS reuniam-se em Nova Deli para discutir precisamente uma das questões que mais desafiam a ordem internacional dominada pelos Estados Unidos: a construção de um mundo menos dependente da hegemonia política, económica e financeira de Washington.
A escolha da data da cimeira – 11, 12 e 13 de setembro – pode não ter qualquer relação com o aniversário dos atentados. Mas o contraste é inevitável. De um lado, Nova Iorque e o Pentágono, onde Donald Trump aproveitou a cerimónia para apresentar a actual guerra contra o Irão como uma continuação da luta contra o terrorismo iniciada depois do 11 de Setembro. Do outro, Nova Deli, onde os países dos BRICS, que representam cerca de 40% da economia mundial, reafirmaram a defesa da soberania dos Estados e condenaram as sanções económicas unilaterais e secundárias, considerando que estas têm consequências negativas para os direitos humanos e para o desenvolvimento. Não deixa de ser um jogo de palavras interessante.
Não é preciso escolher entre estas duas imagens para perceber o problema. O problema está precisamente na forma como uma delas ocupa quase todo o espaço mediático enquanto a outra chega ao público português filtrada pelas agências de informação. Nos nossos ecrãs, o 11 de Setembro voltou a ser contado sobretudo a partir de Nova Iorque e do Pentágono. Pouco se viu ou ouviu daquilo que estava a acontecer em Nova Deli, onde se reuniam os dirigentes de uma organização que reúne quase metade da população mundial e uma parte crescente do poder económico do planeta.
E isto também é uma questão de jornalismo. A ausência de jornalistas portugueses em Nova Deli não é um detalhe. É uma escolha editorial. Significa que, para o público português, uma parte importante da transformação do mundo chega apenas através do que outros decidiram que era notícia. O que se passa é que enquanto uns continuam a contar o mundo a partir do centro da velha ordem, outros já estão a discutir como será o mundo depois dela.
Há um número que ajuda a perceber a dimensão do evento. Só três dos onze países que integram os BRICS – China, Índia e Brasil – representam cerca de 37% da população mundial, mais de 3 mil milhões de pessoas. Não estamos, portanto, perante uma reunião de países periféricos a contestar uma ordem internacional que lhes é alheia. Estamos perante uma parcela gigantesca da humanidade a discutir uma ordem mundial diferente.
Há uma pergunta que talvez Portugal evite fazer com demasiada frequência: Quem somos nós? Não quem fomos. Não aquilo que gostaríamos de parecer. Não aquilo que os outros dizem de nós. Mas quem somos hoje, depois de tudo aquilo que vivemos, de tudo aquilo que construímos e também de tudo aquilo que ainda não conseguimos transformar? A pergunta parece simples. Não é. Porque um país não é apenas um território, uma bandeira, uma língua ou uma história. Um país é também uma maneira de olhar o mundo. É aquilo que transmite de geração em geração. São os seus medos e as suas ambições, os seus hábitos, os seus preconceitos, as suas virtudes e as suas contradições. E Portugal tem muitas.
Somos um povo que atravessou oceanos e, ao mesmo tempo, muitas vezes parece ter medo de atravessar a rua para enfrentar o desconhecido. Fomos capazes de partir para o mundo quando quase nada tínhamos. Mas continuamos, por vezes, a desconfiar de quem quer fazer diferente dentro das nossas próprias fronteiras. Inventámos caminhos. E tantas vezes preferimos seguir os já conhecidos. É nesta contradição que talvez devamos procurar uma parte da resposta.
O país que herdámos
Portugal recebeu uma herança extraordinária. Recebeu séculos de história, uma língua falada por milhões de pessoas, uma cultura profundamente marcada pelo encontro entre povos, uma extraordinária capacidade de adaptação e uma experiência que nenhum manual consegue reproduzir. Mas recebeu também hábitos. E nem todos os hábitos são virtudes. Há tradições que devemos preservar porque nos explicam. Há outras que devemos questionar porque nos limitam. E existe uma diferença fundamental entre respeitar o passado e ficar prisioneiro dele. Talvez uma das grandes tarefas do Portugal contemporâneo seja precisamente esta: aprender a separar aquilo que merece ser preservado daquilo que precisa de ser transformado.
Não é uma tarefa fácil. Porque há sempre quem confunda mudança com desrespeito pela tradição. E há também quem confunda tradição com verdade. Nenhum dos extremos nos serve.
O conservadorismo que não tem idade
Há conservadorismos que vêm da direita. Outros vêm da esquerda. Há conservadorismos políticos, económicos, culturais e sociais. Mas há também um conservadorismo muito mais profundo, que não pertence a nenhuma ideologia. É o conservadorismo do “sempre foi assim”. Essa talvez seja uma das frases mais perigosas de qualquer sociedade. Porque encerra uma pergunta antes de ela ser feita. Sempre foi assim. Porquê? Quem decidiu? Quando? E sobretudo: tem de continuar a ser assim? Uma sociedade que nunca faz estas perguntas acaba por transformar os seus hábitos em leis e as suas limitações em destino. Portugal não pode ter medo de se questionar. Questionar não é destruir. É amadurecer.
O mérito e o berço
Durante muito tempo, o lugar de uma pessoa na sociedade esteve demasiado ligado ao lugar onde nasceu. O apelido. A família. A profissão dos pais. A fortuna. As relações. O acesso a determinados círculos. Hoje somos, felizmente, uma sociedade muito diferente. Mas algumas dessas marcas não desapareceram completamente. Mudaram de forma. Hoje pode valer mais uma rede de contactos do que uma competência. Uma presença pública mais do que uma obra. Um currículo bem apresentado mais do que aquilo que efectivamente se fez. Um número de seguidores mais do que uma ideia. Uma fotografia mais do que uma vida. É aqui que a discussão sobre o mérito se torna essencial. Porque o mérito deveria ser uma das grandes ferramentas de democratização de uma sociedade. Não deveria importar tanto saber de onde alguém veio. Deveria importar aquilo que conseguiu fazer. O que aprendeu. O que criou. O que resolveu. O que ofereceu aos outros.
Mas o mérito não nasce sozinho Também aqui precisamos de honestidade. Não basta dizer a alguém: “Se te esforçares, conseguirás.” Nem todos começam da mesma linha de partida. Há crianças que crescem rodeadas de livros e outras que crescem sem um único livro em casa. Há jovens que podem estudar e outros que começam a trabalhar cedo. Há quem tenha família para apoiar, contactos para abrir portas e segurança para errar. E há quem não tenha nada disso. Por isso, falar de mérito sem falar de igualdade de oportunidades é uma meia verdade.
O Estado, a escola, a família e a sociedade têm uma responsabilidade enorme: criar condições para que o talento possa aparecer onde quer que esteja. Porque o maior desperdício de um país não é apenas o dinheiro que perde. É o talento que nunca chega a descobrir-se. Quantos futuros professores ficaram pelo caminho? Quantos cientistas? Quantos artistas? Quantos empresários? Quantos escritores? Quantas pessoas extraordinárias nunca tiveram a oportunidade de descobrir aquilo que poderiam ter sido? Essa é uma pergunta que Portugal devia fazer a si próprio.
O problema não é a aparência Vivemos numa sociedade visual. Isso não é necessariamente mau. A imagem comunica. A apresentação importa. A capacidade de comunicar é uma competência. O problema surge quando a embalagem passa a valer mais do que o conteúdo. Quando começamos a avaliar uma pessoa pela forma como se apresenta antes de procurarmos saber aquilo que sabe. Quando o discurso substitui a competência. Quando a notoriedade substitui o trabalho. Quando a opinião substitui o conhecimento. Quando a velocidade de resposta substitui a capacidade de pensar. E talvez aqui esteja uma das grandes armadilhas do nosso tempo: estamos a confundir informação com conhecimento e exposição com reconhecimento. Ter acesso a milhões de informações não nos torna necessariamente mais sábios. Falar para milhares de pessoas não nos torna necessariamente mais importantes. E ter uma opinião sobre tudo não significa compreender alguma coisa.
Portugal tem de voltar a gostar de aprender Talvez seja esta uma das maiores revoluções de que precisamos. Voltar a gostar de aprender. Aprender sem vergonha. Perguntar sem medo de parecer ignorante. Mudar de opinião sem sentir que perdemos. Admitir que alguém sabe mais do que nós. Ouvir quem tem experiência. Ouvir também quem ainda está a começar. Uma sociedade inteligente não é aquela onde todos sabem tudo. É aquela onde ninguém tem vergonha de dizer “não sei”. E onde o “não sei” pode ser o princípio de uma pergunta.
Os mais velhos não são passado
Há outra mudança de mentalidade que Portugal precisa de fazer. Precisamos de deixar de olhar para o envelhecimento apenas como um problema. Uma pessoa que chega aos 70, 80 ou 90 anos não transporta apenas idade. Transporta memória. Experiência. Erros. Conhecimento. Histórias. Capacidade de comparação. E, sobretudo, uma coisa que nenhuma inteligência artificial, nenhum algoritmo e nenhuma aplicação consegue reproduzir integralmente: uma vida vivida. Mas isso não significa que os mais velhos tenham sempre razão. Ser mais velho não é ter razão. Tal como ser jovem não é estar errado. E talvez esta seja precisamente a ponte de que precisamos. Respeitar a experiência sem a transformar em autoridade absoluta. E acolher a novidade sem a confundir com superioridade.O futuro não pertence aos jovens contra os velhos. Pertence aos jovens com os velhos.
O melhor de nós ainda está cá
Portugal tem defeitos. Muitos. Mas também tem qualidades que por vezes esquecemos. Tem uma extraordinária capacidade de adaptação. Tem criatividade. Tem talento. Tem cultura. Tem gente que trabalha muito e bem. Tem investigadores reconhecidos internacionalmente. Tem artistas. Tem empreendedores. Tem professores que continuam a ensinar apesar das dificuldades. Tem profissionais de saúde que continuam a cuidar. Tem pequenas empresas que sobrevivem com uma coragem admirável. Tem pessoas que, sem qualquer notoriedade, sustentam todos os dias aquilo a que chamamos sociedade.
Talvez o problema seja que o melhor de Portugal raramente faz tanto barulho como o pior. O que é extraordinário nem sempre é notícia. O que é competente nem sempre é viral. O que é sério raramente é escandaloso. E aquilo que é construído ao longo de vinte anos não cabe facilmente num vídeo de trinta segundos.
Precisamos de limpar as nossas mentes
Talvez esta seja uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo. Não destruir valores. Não negar a história. Não ridicularizar tradições. Não desrespeitar quem pensa de maneira diferente. Mas limpar a nossa cabeça de ideias que herdámos sem nunca termos perguntado se ainda fazem sentido. Há preconceitos que sobrevivem apenas porque ninguém os questiona. Há hierarquias que persistem porque sempre existiram. Há profissões que ainda são consideradas mais importantes do que outras. Há pessoas que são ouvidas apenas pelo cargo que ocupam. E há outras que, apesar de terem muito para dizer, continuam invisíveis. Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela onde todos pensam da mesma maneira. É aquela onde ninguém é impedido de pensar de maneira diferente.
Afinal, o que é o mérito? Talvez o mérito não seja apenas chegar mais alto. Talvez seja também chegar mais longe sem deixar ninguém para trás. Talvez seja fazer bem o nosso trabalho quando ninguém está a olhar. Cumprir uma promessa. Assumir um erro. Voltar a começar. Ensinar aquilo que aprendemos. Abrir uma porta a quem vem depois de nós. Ter coragem para mudar de opinião. E, sobretudo, não utilizar aquilo que conquistámos para impedir que outros conquistem também. O verdadeiro mérito talvez não esteja apenas naquilo que recebemos. Está também naquilo que deixamos.
Um país não pode viver de aparência
Portugal não precisa de parecer melhor. Precisa de ser melhor. Não precisa de produzir apenas discursos sobre inovação. Precisa de criar condições para inovar. Não precisa de falar permanentemente de juventude. Precisa de dar futuro aos jovens. Não precisa de elogiar os mais velhos. Precisa de aproveitar a sua experiência. Não precisa de proclamar que valoriza o mérito. Precisa de o reconhecer. E não precisa de escolher entre tradição e mudança. Precisa de aprender a fazer aquilo que os povos mais inteligentes sempre fizeram: guardar o que merece ser guardado e mudar aquilo que precisa de mudar. Talvez seja esse o nosso verdadeiro desafio. Encontrar o nosso berço sem ficar presos ao berço. Conhecer a nossa história sem viver dentro dela. Respeitar aquilo que fomos sem impedir aquilo que podemos ser. Porque Portugal não é apenas aquilo que recebeu. É também aquilo que decidir fazer com o que recebeu. E talvez seja aí que esteja a resposta à pergunta inicial. Quem somos nós? Somos um país pequeno que já fez coisas enormes. Um país envelhecido que ainda precisa de aprender a olhar para o futuro. Um país tradicional que precisa de continuar a renovar-se. Um país com talento que nem sempre sabe reconhecê-lo. Um país que já atravessou fronteiras e que ainda precisa de ultrapassar algumas dentro de si próprio. Mas somos também uma possibilidade. E essa possibilidade permanece aberta. Talvez o melhor de Portugal não esteja atrás de nós. Talvez esteja à nossa frente. E talvez a nossa maior responsabilidade seja não deixar que o medo de mudar nos impeça de o encontrar.
“As feiras constituem uma das mais singulares instituições medievais e cumprem essencialmente uma função económica reunindo, sempre em lugar de comunicação fácil, dentro de um calendário convencionado, produtores, consumidores e distribuidores, aproveitando-se, no geral, as ocasiões de festa de igreja que havia criado pela Europa fora a dita “paz da feira” que proibia disputas e vindictas enquanto elas durassem e durante o tempo em que os mercadores andavam no caminho.
À semelhança das romagens, as feiras desempenhavam um importante papel social e cultural mercê da sociabilidade activa que promoviam entre a gente que, na sua maior parte, vivia pelo ano fora dobrada sobre a terra ou sobre a banca dos ofícios. Era nelas que mais corriam as notícias sobre o mundo, vozes de guerras, de estranhas descobertas, de boas ou más colheitas pelas terras ao redor. As feiras promoviam ainda a melhoria dos meios de comunicação e de específicas obras públicas com a exigência da reparação dos caminhos e o levantamento de abrigos, de alpendres ou pousadas para homens e bestas, de fontanários com seus tanques em que todos se dessedentassem.
Sob o ponto de vista jurídico as feiras foram geradoras de normas que muito contribuíram para o apaziguamento dos conflitos e uma maior justiça social que se revelava, ainda que de forma incipiente, num certo nivelamento das classes.” (CORREIA, Alberto in Feira de S. Mateus. Os cartazes, Câmara Municipal de Viseu, 2009)
A Feira de S. Mateus, bastos anos conhecida como Feira Franca, tem sua origem na Carta de Feira outorgada a 10 de Janeiro de 1392 por D. João I ao Senado Municipal por ocasião de uma demorada estadia em Viseu onde se deslocara para reunir Cortes ao tempo em que ali lhe nasce o primeiro filho e sucessor, El-Rei D. Duarte.
Outorga-lhe as regalias da mais antiga Feira de S. Bartolomeu, de Trancoso e estabelece-lhe uma periodização anual a iniciar-se a 3 de Maio e com a duração de um mês, não ficando definido no diploma o lugar de realização da mesma.
Circunstâncias várias, pestes ou razias de Castela, não auguram destino feliz a esta feira que o Infante D. Henrique, Duque de Viseu (1415) e Alcaide-mor de Viseu (1416) intenta restaurar solicitando ao rei, seu sobrinho, D. Afonso V, através do Infante D. Pedro, seu irmão e Regente do Reino, um novo diploma. Acede o Infante D. Pedro, restaura a feira por diploma de 22 de Fevereiro de 1444, estabelece-lhe como lugar a Cava (mais tarde dita de Viriato), marca-lhe a duração de quase um mês, em Outubro e outorga-lhe os amplos privilégios que ao tempo tinha a Feira de Tomar. Dentre as regalias o diploma permitia ao Infante aplicar o rendimento das boticas (espaços de comércio) à Capela que o Infante levanta no Mosteiro da Batalha.
Carta do Infante D. Henrique fazendo doação das rendas da Feira (hoje S. Mateus) ao Cabido e Sé de Viseu. 1460 – Setembro, 22. Vila do Infante.
É um tempo de prosperidade o que se segue, logo travado após a morte do Infante, em 1460, que antes, em testamento, legara a sua realização ao Cabido da Sé de Viseu que não soube manter-lhe a relevância, mesmo quando lhe estabelece novo pouso no Rossio da Ribeira onde hoje, alargado o espaço, ainda tem lugar.
O Senado Municipal tomará conta da feira em data incerta e a feira ganhará por muito tempo a dimensão das grandes feiras da Península até que, pelos finais do século XIX, entra em franco declínio devido a causas diversas de que se libertará anos mais tarde, voltando a florescer.
imagem criada a partir de uma foto de Lewis Hine, 1920
De um lado da mesa, os executivos da Grande Petrolífera Nacional, exibindo lapelas reluzentes e metas de sustentabilidade ecológica; do outro, os embaixadores da Manpower, os alquimistas modernos capazes de transformar seres humanos em “recursos flexíveis biodegradáveis”.
— Meus senhores — começou o Diretor de Capital Humano da Petrolífera, enquanto ajustava os óculos de quem nunca viu uma bomba de combustível ao vivo. — O nosso relatório de sustentabilidade precisa de ser impecável. Queremos neutralidade carbónica para 2050, mas queremos neutralidade de vínculos contratuais já no próximo trimestre! Ter trabalhadores efetivos na nossa folha de pagamentos polui imenso o nosso balanço financeiro.
O representante da Manpower sorriu com a benevolência de quem guarda as chaves do paraíso do trabalho temporário. Abriu a sua pasta de pele sintética e retirou um folheto brilhante onde se lia: “Talent Solutions: Como ter colaboradores sem o incómodo de os conhecer pelo nome”.
— Compreendo perfeitamente — disse o homem da Manpower, com uma voz suave de locutor de call center. — Nós temos a solução biológica perfeita. Chamamos-lhe o Trabalhador Quântico. Ele existe na loja de conveniência a servir café às seis da manhã, mas tecnicamente não existe na vossa empresa. Se ele pedir um aumento de salário ou, Deus nos livre, o dia de aniversário para passar com os filhos, nós ativamos o protocolo padrão.
— E qual é o protocolo? — perguntou, curioso, o gestor da petrolífera, enquanto saboreava um café pago pelo orçamento de representação.
— Nós encolhemos os ombros com imensa empatia! — respondeu o consultor. — Dizemos-vos a vocês que o trabalhador é caro e dizemos ao trabalhador que a vossa dotação orçamental está congelada. É o ciclo perfeito da água: a culpa evapora-se e chove sempre no mesmo bolso. Se eles reclamarem dos 22 dias de férias legais, nós dizemos que cumprimos a lei com um rigor quase poético. Ir além do mínimo legal seria um insulto à matemática de Wall Street!
O Diretor da Petrolífera quase chorou de emoção. Era poesia pura. Olhou para o gráfico de lucros da empresa, que subia com a mesma força com que o combustível subia nos postos de abastecimento.
— Mas e se a Autoridade para as Condições do Trabalho vier fazer perguntas sobre postos de trabalho permanentes disfarçados de trabalho temporário? — perguntou o assistente júnior, que ainda conservava vestígios de uma consciência humana.
A sala inteira soltou uma gargalhada corporativa, daquelas que ecoam nos campos de golfe ao fim de semana. O homem da Manpower piscou o olho ao jovem.
— Meu caro, para isso serve a magia do Outsourcing. Se o contrato expirar ou se houver agitação sindical, nós simplesmente “redesenhamos a área de atuação do talento”. O trabalhador não é despedido; ele simplesmente passa a ser uma oportunidade flutuante no mercado livre. Nós vendemos flexibilidade! O mundo moderno move-se a gasóleo aditivado e contratos a termo incerto.
A reunião terminou com um aperto de mãos vigoroso. A Petrolífera garantiu mais um ano de lucros históricos com “custos de estrutura otimizados”. A Manpower garantiu mais uma comissão por cada hora de suor alheio faturada. E lá em baixo, no posto de abastecimento, um jovem com farda subcontratada limpava o para-brisas de um cliente, sem saber se no mês seguinte o seu contrato seria renovado, mas com a certeza absoluta de que a energia da empresa era, de facto, o futuro da nossa terra.
O grande derrotado desta moção de censura, contrariamente ao que quase todos os comentadores proclamavam, foi o Chega. Vejamos: durante a audição de Luís Neves os deputados daquele partido exibiram a sua total incompetência.
Depois da tradicional palhaçada e do rol da mercearia, em que uma deputada, que mal sabia ler, elencou os crimes da CMTV, incluindo os de violência doméstica, como fundamento para justificar o aumento da criminalidade em resultado da imigração, os deputados perderam o gás e desinteressaram-se da coisa. O número para as televisões já estava feito. Os seus putativos eleitores ficaram satisfeitos e, à tarde, pensavam continuar o circo.
Seguiu-se a discussão da moção de censura e o Chega foi comido de cebolada pelo governo. Do subsídio extraordinário à redução do IRS até ao 6º escalão, Luís Montenegro usou todos os truques para segurar a sua principal base eleitoral, os idosos e a função pública, e esvaziar a moção de censura.
André Ventura aos gritos, completamente desnorteado, foi esmagado por Paulo Rangel, sem dó, nem piedade. Naturalmente, a cena não ficaria completa sem a berraria final.
Num País normal, este seria o princípio do fim do Chega. Lamentavelmente vivemos num País em que a educação regrediu 20 anos e cerca de 46 por cento dos adultos, entre os 25 e os 64 anos, situam-se nos níveis mais baixos da literacia. Ou seja, quase metade da população adulta apenas consegue interpretar, compreender e processar textos curtos, simples e lineares.
Uma boa parte da nossa juventude vive no Tik-Tok, campo fértil para a expansão de partidos como o Chega. Esta realidade vai aguentando aquele partido. Sem esquecer uma boa parte do comentário político e comunicacional que dá um forte impulso a André Ventura. As televisões, na véspera do debate da moção de censura, foram inundadas pelos elogios, as proclamações laudatórias da genialidade de André Ventura e a certeza da estrondosa vitória com a apresentação da moção. O falhanço foi total. A incapacidade de análise da realidade, o hábito de andar há anos e anos a construir uma realidade alternativa, sem verem para lá da bolha em que vivem, ficou exposta na passada terça-feira.
A terça-feira, dia 8 de Setembro de 2026, deveria ser lembrada como o momento de viragem na vida pública portuguesa. Podem continuar a manipular tudo, mas uma coisa é certa: o Chega e André Ventura atingiram o seu apogeu e podem ter iniciado a queda.
NOTA: Há meses escrevi que o Chega poderia ocupar o espaço do PSD, rebentar com este partido, sendo o eleitorado que vota na AD dividido entre o PS e o próprio Chega. Foi uma provocação e um alerta para os efeitos da promoção que andavam a dar à extrema-direita, numa vertigem que empurrava muitos para a destruição dos princípios basilares do Estado de Direito. Espero que tenham compreendido que esta gente é o grau zero da política. Se não o compreenderam paciência. Sejam felizes.
Em dezembro de 1975, Timor-Leste não tinha meios militares para resistir à Indonésia. As FALINTIL eram uma pequena força de guerrilha perante um exército equipado com navios de guerra, tanques, aviões e artilharia. Numa guerra convencional, os timorenses seriam esmagados. A alternativa foi outra: sobreviver, manter a resistência, preservar a organização e esperar. Vinte e cinco anos depois da invasão, Timor-Leste tornou-se independente e Xanana foi o primeiro líder da nova nação. Resistir tinha sido, afinal, uma forma de vencer.
A ideia não era nova. Sun Tzu, séculos antes, escrevera que a melhor vitória é aquela que se consegue sem combater. A força não está necessariamente em atacar, mas em obrigar o adversário a jogar um jogo que não lhe é favorável. Mao Tsé-Tung levaria esta lógica para a guerra de guerrilha: o adversário poderoso pode ser derrotado através de uma guerra prolongada, evitando o confronto directo e transformando o tempo numa arma. A força militar tem de ganhar depressa; quem resiste precisa apenas de continuar a existir.
Talvez seja esta uma das grandes leis das lutas entre fortes e fracos. A força bruta é imediata; a resistência é paciente. O poderoso pode destruir, ocupar, bombardear e dominar territórios, mas não consegue necessariamente destruir a vontade de um povo de continuar a existir. É a velha metáfora da “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.
Foi isso que aconteceu em Timor-Leste. E é também por isso que a resistência palestiniana não pode ser avaliada apenas pela quantidade de armas, mísseis ou combatentes que possui. A desproporção militar pode ser esmagadora e, ainda assim, não produzir a vitória política que Israel procura.
Resistir não significa necessariamente derrotar o adversário no campo de batalha. Às vezes significa simplesmente não desaparecer. Continuar vivo, continuar a existir, conservar a memória, a identidade e a capacidade de lutar amanhã. É assim que a Palestina tenta sobreviver.
Durante anos, a Europa explicou-nos, com a solenidade própria dos comunicados diplomáticos, que os colonatos israelitas na Cisjordânia são ilegais. Disse-o enquanto Israel os multiplicava, ocupava terras palestinianas, expulsava populações e tornava cada vez mais improvável a solução dos dois Estados. A Europa condenava. Israel continuava. E no dia seguinte tudo permanecia praticamente igual, excepto para os palestinianos para quem tudo piorava.
Agora, finalmente, a indignação chegou à alfândega. Reino Unido, França e Canadá decidiram restringir a entrada de produtos provenientes dos colonatos e outros nove países, incluindo Portugal, anunciaram que farão o mesmo, apoiarão medidas europeias ou estão seriamente a ponderá-lo. Não deixa de ser de uma tristeza titubeante, mas é um primeiro sinal. Não é ainda um boicote a Israel e o impacto económico directo será provavelmente pequeno. Não é a economia israelita que vai tremer porque algumas tâmaras, vinhos ou produtos agrícolas deixam de entrar.
Mas o que começa a mudar é a ideia de que se pode considerar uma coisa ilegal e, simultaneamente, continuar a negociar com ela como se fosse perfeitamente normal. Durante anos, a Europa praticou essa confortável duplicidade: declarava ilegal a ocupação, mas não fazia nada que pudesse incomodar verdadeiramente o ocupante.
É por isso que esta decisão merece atenção. Vale pelo precedente que cria. Se a ilegalidade dos colonatos começar a ter consequências comerciais, amanhã poderão ser discutidas outras consequências. E, nesse dia, Israel já não estará apenas a ouvir a Europa dizer que desaprova a ocupação. Começará a perceber que, finalmente, algumas palavras podem ter chegado ao lugar onde costumam doer mais: às relações económicas. Claro que enquanto a coisa se discute nos salões das chancelarias, os palestinianos continuam a morrer… Esperemos que haja um dia para cobrar essa fatura.
Comprei panos no mercado de Chongoroi. Não fui à procura de nenhuma história. Fui apenas comprar panos. Daqueles panos coloridos, com desenhos fortes, geométricos, animais, flores, folhas, formas que parecem contar qualquer coisa mesmo quando não sabemos exactamente o quê. Panos que depois se transformam em vestidos, saias, camisas, turbantes, decoração, ou servem para as mulheres africanas carregarem os filhos junto ao corpo. Panos que, de tão africanos que parecem, nunca me ocorreu perguntar de onde vinham. Até que alguém me perguntou. Fiquei a pensar nisso e descobri que a história destes panos é muito mais complicada do que as suas cores fazem supor.
Chamam-lhes frequentemente Panos Africanos, African Wax, Wax Print ou Ankara. Em muitos países africanos são simplesmente wax, pagne ou kitenge. E há aqui uma primeira ironia: aquilo que hoje reconhecemos imediatamente como tecido africano nasceu, afinal, de uma técnica indonésia.
O ponto de partida é o batik, uma técnica tradicional de Java em que a cera é utilizada para impedir que a tinta penetre em determinadas partes do tecido, criando desenhos e padrões. Foi no século XIX que os neerlandeses começaram a tentar reproduzir industrialmente na Europa o batik. As imitações não conquistaram o mercado indonésio como esperavam, os indonésios preferiam o batik verdadeiro, mas, décadas depois, encontraram na África Ocidental um público que lhes deu toda uma nova vida.
A partir da segunda metade do século XIX, estes tecidos começaram a chegar às costas da África Ocidental. A empresa holandesa Vlisco, fundada em 1846, tornou-se uma das grandes protagonistas desta história. Por volta de 1852, os seus tecidos já eram comercializados em vários portos da África Ocidental e rapidamente ganharam popularidade na região. Ao mesmo tempo, soldados da Gold Coast que serviram no Exército Real das Índias Orientais Neerlandesas, entre 1837 e 1872, conheceram os wax batiks na Indonésia e levaram consigo para a então Gold Coast e para outras partes da África Ocidental não apenas os tecidos, mas também o interesse por eles.
Em 1893, o comerciante escocês Ebenezer Brown Fleming começou a importar tecidos encerados da Holanda para a Gold Coast, actual Gana. E foi aí que aconteceu uma espécie de acidente histórico: um tecido europeu, inspirado numa técnica asiática, encontrou um mercado africano que o transformou em outra coisa. Os tecidos deixaram de ser apenas uma imitação industrial do batik indonésio e foram sendo apropriados, reinterpretados e transformados em algo culturalmente africano.
As mulheres africanas deram nomes aos padrões, atribuíram-lhes significados, escolheram-nos para determinadas ocasiões, combinaram cores, criaram formas de vestir. Alguns desenhos passaram a funcionar quase como uma linguagem. O tecido deixou de ser apenas tecido. Tornou-se identidade, memória, estatuto, mensagem.
O pano samacaca é um tecido tradicionalmente usado em Angola e representa um símbolo cultural e de identidade para o povo angolano.
Geralmente feito de algodão, o pano samacaca possui padrões e cores específicas que podem comunicar informações sobre a região de origem, a posição social, eventos importantes ou até mesmo crenças espirituais. Este tecido é frequentemente utilizado em eventos cerimoniais e ocasiões especiais, e carrega consigo um significado de tradição, história e pertencente para a comunidade angolana.
E, entretanto, a produção começou também a deslocar-se para África. A partir dos anos 1960, começaram a surgir fábricas de tecidos estampados em vários países africanos. No Gana, por exemplo, a Ghana Textile Printing Company (GTP), criada em 1966, foi criada precisamente para produzir no país African wax prints, fancy e Java prints, no contexto da política de industrialização pós independência. A Akosombo Textiles começou a produzir em 1967. Na Costa do Marfim, a Uniwax, criada em 1970, é uma das referências. Há também produção de wax e de tecidos semelhantes na Nigéria, Tanzânia e noutros países africanos.
E há ainda uma particularidade que já me tinha chamado a atenção: os panos vindos do Congo parecem ter um estatuto especial. Em Luanda, são muito procurados e valorizados, talvez porque, no universo congolês (sobretudo em Kinshasa), o pagne seja também uma questão de fashion, elegância, estatuto e identidade.
Mas aqui aparece outra surpresa. Nem tudo aquilo que compramos como “pano africano” é produzido em África. Uma parte significativa da produção actual vem da Ásia, não da Indonésia onde teve origem, mas sobretudo da China, onde são fabricados os tecidos mais baratos que imitam o efeito wax. E a concorrência pelo preço é forte: mesmo os produtores africanos enfrentam dificuldades para competir com as importações mais baratas.
Em Angola, os designers de moda contemporâneos utilizam frequentemente padrões tradicionais para a criação das suas coleções de pronto-a-vestir
Olhei outra vez para os meus panos do Chongoroi, comecei a pensar que seria interessante saber onde tinham sido feitos. Não tenho a certeza, mas suspeito que alguns sejam da China. O que sei é que foram comprados num mercado em Angola e que, apesar de toda a sua aparência africana, tanto quanto sei, não existe hoje em Angola uma fábrica especializada na produção destes panos.
E isso também tem uma história. Angola chegou a ter uma indústria têxtil relativamente significativa, com fábricas como a SATEC, no Dondo, a África Têxtil, em Benguela, e a TEXTANG, em Luanda.
Algumas destas unidades foram criadas ainda no período colonial e outras começaram a funcionar já depois da independência. Com a guerra, a interrupção da produção de algodão, a falta de matérias-primas e de financiamento e a degradação dos equipamentos levaram à paralisação dessa indústria. Houve, mais tarde, um esforço de reabilitação e relançamento das fábricas, mas sem sucesso.
Há aqui uma ironia entre os panos tão apreciados e a falta de capacidade de Angola para os produzir. Procura parece não faltar. Basta entrar num mercado angolano. Basta olhar para os panos. Mas produzir cá não é fácil quando se compete com os preços da China. Em Chongoroi, ninguém estava preocupado com a origem do pano. Eu também não estava, confesso. Para quem compra, interessa o desenho, as cores, a qualidade, o preço e aquilo que conseguimos imaginar fazer com aquele pedaço de tecido.
Mas fiquei a pensar que há qualquer coisa de profundamente africano nesta história e, ao mesmo tempo, qualquer coisa de profundamente global.
O livro de Edwin Black, “IBM e o Holocausto”, permanece como uma das denúncias mais avassaladoras sobre a cumplicidade corporativa na era moderna, iluminando a face mais sombria do progresso técnico ao demonstrar que o extermínio de milhões de inocentes não foi apenas um surto de loucura ideológica, mas uma operação executada com precisão matemática. Através de uma investigação documental exaustiva, o autor revela como a subsidiária alemã da IBM, a Dehomag, colocou a tecnologia dos cartões perfurados Hollerith ao serviço do Terceiro Reich, transformando o preconceito estatal numa máquina logística infalível. Censos populacionais, cruzamento de dados ancestrais, a organização dos comboios da morte e a contabilidade diária dos prisioneiros nos campos de concentração – onde seres humanos eram reduzidos a dígitos e a sua execução classificada por códigos estatísticos – foram geridos através de sistemas fornecidos e mantidos com o conhecimento da sede em Nova Iorque. Esta aliança profana entre o absolutismo comercial e a tirania nazi provou que a busca incessante pelo lucro e a eficácia operacional podem facilmente silenciar qualquer vestígio de discernimento moral, despindo a tecnologia da sua suposta neutralidade para a converter no motor silencioso da barbárie organizada.
Projeto de cartão perfurado para mão-de-obra escrava. Com a permissão do National Archives.(Imagem retirado do livro acima mencionado)
Ficha de Prisioneiro com círculos em torno de colunas de codificação Hollerith. (Imagem retirado do livro acima mencionado)
Traçar este paralelo com o passado torna-se um imperativo categórico nos dias de hoje, servindo como uma advertência solene para um mundo contemporâneo que atravessa profundas perturbações, fraturas sociais e incertezas geopolíticas. À medida que avançamos num século XXI dominado por redes de vigilância globais, algoritmos preditivos opacos e uma recolha massiva de dados que mapeia os nossos comportamentos, pensamentos e identidades, o espectro da desumanização burocrática regressa com uma roupagem digital sedutora. O perigo contemporâneo já não reside apenas em cartões perfurados, mas na nossa aceitação tácita de que a eficiência tecnológica deve ditar as regras da convivência social, permitindo que governos e megacorporações concentrem um poder de controlo sem precedentes na história humana. Em tempos de crise e polarização extrema, onde o medo é frequentemente instrumentalizado para justificar a erosão de liberdades fundamentais, a história recorda-nos de que a tecnologia sem consciência é o caminho mais rápido para a tirania.
Diante dos tumultos que agitam o presente, a mensagem que este legado deixa ao mundo é um apelo urgente à resistência ética e à vigilância ativa. Não podemos permitir que o fascínio pela inovação crie uma névoa de indiferença moral perante as injustiças, nem que a dignidade humana seja sacrificada no altar da métrica e da conveniência económica. O verdadeiro progresso de uma civilização não se mede pela velocidade dos seus processadores ou pela densidade das suas bases de dados, mas sim pela sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, salvaguardar os direitos humanos e impor limites morais estritos àqueles que detêm as ferramentas de controlo. Que este olhar sobre a história nos desperte da apatia e nos recorde de que a defesa da liberdade e da empatia é um combate diário, exigindo que coloquemos sempre a humanidade acima dos sistemas e a justiça acima dos lucros, para que os arquivos do futuro nunca mais registem as estatísticas de uma tragédia anunciada.