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CABO VERDE FAZ HISTÓRIA E ORGULHA ÁFRICA

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Ao empatar esta noite com o Uruguai, uma das seleções mais respeitadas da história do futebol mundial, Cabo Verde alcançou muito mais do que um simples resultado desportivo. Os Tubarões Azuis dignificaram a sua bandeira, honraram África e demonstraram ao mundo que o talento, a organização e a disciplina podem superar as diferenças de dimensão geográfica, populacional ou económica.

Na verdade, o empate soube a pouco. Pelo que produziu dentro das quatro linhas, Cabo Verde esteve mais próximo da vitória do que o seu ilustre adversário. Se o triunfo não aconteceu, tal deveu-se apenas às circunstâncias próprias do futebol, onde nem sempre o resultado final traduz fielmente o mérito demonstrado em campo.

Este resultado, somado ao anterior empate frente à Espanha, representa uma das mais brilhantes páginas do desporto cabo-verdiano. Não se trata apenas de feitos isolados. São resultados que refletem um percurso nacional assente na estabilidade institucional, no respeito pelos valores democráticos, na ética pública, na boa governação e na capacidade de organização de um povo que soube transformar limitações em oportunidades.

Muitos procurarão encontrar outras explicações, mas a verdade é que o sucesso raramente surge por acaso. Cabo Verde tem vindo a construir, ao longo de décadas, uma imagem de país sério, organizado e respeitador dos princípios democráticos e constitucionais. O futebol surge, neste contexto, como mais uma expressão da qualidade dos seus recursos humanos e da sua cultura de disciplina e mérito.

Este Campeonato do Mundo, realizado pela primeira vez em três países, tem igualmente revelado outra realidade que durante muito tempo foi subestimada: a extraordinária qualidade do futebol africano. Os jogadores africanos assumem hoje um papel determinante nas melhores ligas e seleções do planeta. Basta observar a composição de equipas como a França para compreender a dimensão da contribuição africana para o futebol mundial.

Ao longo desta competição, África tem deixado sinais claros da sua evolução. Vimos uma Costa do Marfim que esteve muito perto de uma importante vitória, cedendo apenas nos instantes finais por desgaste físico e alguma desconcentração. Vimos o Congo, herdeiro da história do antigo Zaire, empatar com Portugal. E agora vemos Cabo Verde protagonizar uma exibição memorável diante do Uruguai.

Estes resultados não são obra do acaso. São o reflexo de uma África que cresce, que se organiza, que acredita no seu potencial e que começa finalmente a colher os frutos do investimento nos seus jovens talentos.

Esta noite, Cabo Verde não jogou apenas por si. Jogou por um continente inteiro. E fê-lo com coragem, competência e dignidade. Parabéns, Cabo Verde. África orgulha-se de ti.

AS CONTRADIÇÕES DO CHEGA

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Uma coisa é fazer oposição a uma medida concreta do Governo e colher os dividendos políticos imediatos. Outra, muito diferente, é sustentar ao longo do tempo uma imagem de defensor dos trabalhadores sem entrar em contradição com outras posições do partido.

Nos últimos anos, o Chega tem oscilado entre o combate à imigração, o propalado combate à corrupção, a defesa da prisão perpétua, a castração química de pedófilos condenados, a taxa única de IRS, a valorização de algumas classes profissionais, como as forças de segurança, e, agora, a defesa dos direitos dos trabalhadores e o regresso da idade da reforma aos 65 anos.

O problema é que um partido não pode representar indefinidamente interesses antagónicos. Mais cedo ou mais tarde, terá de explicar como concilia a defesa de medidas favoráveis ao patronato com a defesa de reivindicações laborais que implicam mais encargos para empresas e para o Estado. Mas será preciso que os jornalistas peçam essas explicações.

Chegados aqui, gostava de ver o Chega em confronto com as confederações patronais. Gostava de ver, mas não acredito que isso venha a acontecer tão cedo. O partido tem beneficiado do apoio de empresários influentes, entre os quais Manuel Carlos de Mello Champalimaud, presidente do Grupo Manuel Champalimaud, César do Paço, empresário que recentemente adquiriu uma participação relevante no Global Media Group, ou João Bravo, ligado à indústria do armamento. São apenas alguns exemplos de um universo empresarial que vê no Chega um instrumento político útil para a defesa dos seus interesses e não para perder tempo com os interesses dos trabalhadores.

É aqui que surge a contradição. Para captar a simpatia dos meios empresariais, o Chega defende a redução da carga fiscal. Para captar a simpatia dos trabalhadores apresenta-se como barreira às reformas laborais mais contestadas. O que ainda não explicou é como pretende estar dos dois lados da barricada.

Acredito que o Chega aposta na proverbial perda de memória que caracteriza grande parte da discussão política de café. As pessoas acabarão por esquecer que o partido utilizou as preocupações dos trabalhadores para travar uma iniciativa do Governo e enfraquecer o PSD. Talvez até esqueçam as promessas feitas em nome desses trabalhadores. Será preciso que os jornalistas não colaborem nesse esquecimento.

FOGO…

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Os vegetais na natureza necessitam de 200 a 350º C. para inflamar, para arderem em cadeia (incêndio) são necessários cerca 400º no ambiente onde estão inseridas, 300º se o índice de humidade for quase nulo. Todos sabemos que perto dos 150º, a planta desidrata, perde a sua humidade residual e a 200º graus começa a pirólise. Aqui a celulose da planta liberta gases que são combustíveis. Com o oxigénio da atmosfera, os gases entram em combustão e as plantas vão desidratando, entram em combustão, o ar circundante aquece, as plantas seguintes aquecem, e as seguintes igualmente, vão sucessivamente libertando gases, entram em combustão e… etc., etc., etc. O incêndio está “montado” e a progredir, rapidamente ou não, dependendo do nível de humidade atmosférico e do “ataque” para se extinguir, de que for alvo.         

Agora, as matas deviam estar limpas, os quintais que lhe são adjacentes também e até as áreas de trabalho na agricultura ou áreas a descoberto, deviam estar limpas. Com isso diminui-se o risco de progressão do incêndio no terreno.

As matas, eucaliptais, pinhais, são praticamente de privados que herdarem esse património, mais ou menos extenso, mas quase sempre pequeno e que têm vindo, ao longo de décadas a empobrecer, ou no mínimo, outra perspectiva de leitura social, incapazes de tratar esse património como gostariam. Ora, limpar matas, ordenar matas, não pode a esmagadora maioria dos proprietários fazê-lo. Só para limpar, parcialmente um terreno com 800m2, o preço varia entre 1000 e 2000 euros. O Estado tem de ajudar, através das autarquias, para isso elas existem, para servir o povo, não para serem feudos à espreita de aplicar uma “multita” aqui, outra acolá.

Teremos algumas pessoas no nosso povo, tão incultas, tão desprovidas de cérebro, tão maldosas, tão vingativas, tão imbecis, que tenham prazer em destruir a própria casa, o seu património, o dos outros e fazerem pagar, a todos, o remediar destas situações, pois é do erário público que se vai pagar: uma cultura, um pinhal, uma casa. Temos esse tipo de gente entre nós?

Será que temos também alguém tão conhecedor do comportamento da flora, das leis da física, da química, da mecânica que engendre artifícios que funcionam repentinamente, com retardo, com circunstâncias especiais do tempo, que voem e larguem cargas incendiárias nos locais mais inacessíveis do nosso território, será que existe esse alguém? E agora, com a “guerra dos drones” podem estes “inginheiros” lograr mais uns bons dinheiros ao usarem a sua capacidade inventiva e de obediência a um patrão qualquer, mas agora na criação de modelos que resolvam problemas no dia-a-dia da sociedade e, já agora, que os magistrados deixem de imaginar que são todos, incendiários, doentes do foro psiquiátrico, “pobres coitados que não têm onde cair mortos”, e sentenciem, para que conste na jurisprudência e seja um acórdão mobilizador que ficam a dever à sociedade, descontado para o resto da vida no que recebem ou vierem a receber, 2, 3, 4% do salário ou rendimento como pena indemnizatória.

Não basta declarar aberta a “época dos fogos”.

O Eterno e a Moldura: Ensaio sobre o Homem (In)Livre

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O Vazio e a Transcendência: Do Nada ao Tudo

A perspetiva oriental de que o essencial do mundo é o “Nada” não deve ser entendida como um niilismo destrutivo, mas sim como pura potencialidade. No Ocidente, a divindade foi personificada numa força criadora e omnipresente; no Oriente, manifesta-se no espaço que precede a própria criação. Como defendia Agostinho da Silva, “não ter nada é sempre a possibilidade de ter tudo”. É no desapego absoluto do Tempo e do Espaço, e das próprias amarras conceituais, que o Homem se aproxima do Eterno. O Nada não é a ausência de ser, mas o útero onde todas as formas de ser ainda são possíveis.

A Ilusão Democrática e o Enclausuramento do Homem

Quando transferimos esta premissa metafísica para a realidade social e política, a contradição humana torna-se evidente. A democracia moderna apresenta-se como o garante da liberdade, mas fá-lo através de uma densa teia de regras,dogmas e burocracias. Paradoxalmente, o oposto da democracia – o autoritarismo – é de mais fácil explicação, pois baseia-se no condicionamento visível e direto. A dor dos “longos 40 anos” de ditadura na história portuguesa gravou na memória coletiva o peso desse condicionamento físico e intelectual.

Contudo, a transição para a modernidade democrática trouxe consigo uma rasteira subtil. Prometeu-se uma lista extensa de direitos: autonomia, regalias, privilégios e livre-arbítrio. Mas quando a liberdade individual passa a estar estritamente balizada por concessões legais e convenções sociais, ela deixa de ser um estado natural e passa a ser uma concessão do sistema. Daí nasce o grito reflexivo: como usufruir de Liberdade, não sendo um Homem Livre? A sociedade moderna transformou a liberdade num produto de consumo conceptual, numa “grande mentira” onde simulamos a autonomia enquanto permanecemos acorrentados às engrenagens do quotidiano.

Mas o que será ser efectivamente livre?

Ser efetivamente livre não é acumular direitos, garantias ou privilégios outorgados por terceiros. Isso é apenas uma moldura dourada numa cela invisível. A verdadeira liberdade assemelha-se ao “Nada” budista e agostiniano: é um estado de despojamento interior.

Ser livre é a capacidade de agir a partir da própria essência, sem o peso do medo, da herança dogmática ou da necessidade de validação social. É imitar a beleza orgânica da natureza, que flui e existe sem pedir permissão. Enquanto o Homem moderno procurar a liberdade no “Tudo” das leis, do consumo e dos alinhamentos políticos, continuará prisioneiro. A libertação começa quando ele abraça o “Nada” — isto é, quando se esvazia das ilusões do mundo para, finalmente, se tornar dono de si próprio.

Nota do autor: O presente texto reflete o impacto da leitura de textos do Professor Agostinho da Silva, cuja profunda riqueza conceptual serviu de base e inspiração indispensável para a elaboração deste pequeno ensaio.

FICÁMOS CONTENTES COM O CHUMBO DO “PACOTE”, MAS O CHEGA TAMBÉM…

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Por um lado, o Chega demonstrou ser um partido decisivo para a aprovação das iniciativas legislativas do Governo, cuja sobrevivência depende, cada vez mais, da capacidade de entendimento entre PSD e Chega, já que o parceiro formal de coligação tem hoje um peso eleitoral praticamente irrelevante.

Por outro lado, ao votar ao lado de toda a esquerda parlamentar, o Chega terá surpreendido parte do seu próprio eleitorado, onde coexistem sensibilidades muito diferentes e onde existe um setor que encara a democracia liberal com manifesta desconfiança e prefere soluções de natureza autoritária.

Acontece, porém, que uma parte significativa dos seus eleitores não é composta por pequenos empresários conservadores, mas por trabalhadores por conta de outrem, gente das classes populares que se sente abandonada pelos partidos tradicionais e que procura respostas imediatas para os seus problemas. Ora, muitos desses eleitores perceberam que o “pacote laboral” também lhes poderia trazer consequências negativas.

André Ventura insistiu no regresso da idade da reforma aos 65 anos e no fim das chamadas reformas douradas que beneficiam um reduzido número de pessoas. Insistiu porque sabe que esse discurso recolhe simpatia junto da opinião pública e rende dividendos eleitorais. Sabia igualmente que Luís Montenegro dificilmente aceitaria essas condições para garantir a aprovação do “pacote”.

Se as próximas sondagens vierem confirmar que esta estratégia beneficia o Chega, depois de meses a alimentar a expectativa de que poderia viabilizar as propostas do Governo para, no fim, apresentar exigências politicamente inaceitáveis, Luís Montenegro poderá começar a contar os dias que faltam até uma eventual queda do Governo na Assembleia da República.

A menos que as sondagens venham a demonstrar o contrário, o grande vencedor deste duelo político parece ser o Chega. André Ventura conseguiu fazer cair o “pacote laboral” sem correr o risco de ser acusado de apoiar a esquerda. Pelo contrário, apresentou-se como defensor dos trabalhadores e lembrou ao Governo que, sem os seus votos, a estabilidade política pode ser apenas uma ilusão.

A SOCIEDADE QUE ARQUIVA OS VIVOS

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imagem construída com recurso a IA

Vivemos mais anos. Temos hoje milhões de pessoas com mais de 65, 70 ou 80 anos plenamente lúcidas, intelectualmente activas, criativas e capazes de continuar a contribuir para a sociedade.
Mas os sistemas continuam organizados segundo modelos antigos, concebidos numa época em que envelhecer significava incapacidade.
Hoje já não é assim. Existe uma diferença profunda entre idade biológica, mental e administrativa.
A primeira pertence ao corpo. A segunda pertence à curiosidade, criatividade, inteligência e vontade de continuar a participar no mundo. A terceira pertence aos formulários e mecanismos burocráticos que classificam seres humanos através de números. E é precisamente aí que nasce uma das grandes injustiças silenciosas do nosso tempo.
A sociedade continua a investir fortemente na preparação dos jovens para entrarem no sistema, mas investe muito pouco na continuidade criativa, intelectual e humana daqueles que chegam às fases maduras da vida. Muitas reformas transformaram-se numa espécie de corredor de espera social. Como se a vida criativa tivesse terminado apenas porque terminou um vínculo profissional.

Mas o ser humano não é apenas função laboral. Há pessoas que atingem precisamente nas fases mais maduras da vida a sua maior profundidade humana, capacidade crítica e visão do mundo. A experiência acumulada não deveria ser descartada. Deveria ser integrada.
No entanto, continuamos a viver numa cultura obcecada pela velocidade, juventude, estética e novidade permanente, confundindo frequentemente juventude com valor e envelhecimento com irrelevância. É um erro civilizacional.

Nunca precisámos tanto de memória, pensamento crítico, experiência e capacidade de interpretação humana. E, paradoxalmente, afastamos precisamente aqueles que poderiam ajudar a compreender melhor o tempo em que vivemos.
O mais curioso é que aquilo que hoje acontece às gerações mais velhas acontecerá inevitavelmente aos jovens actuais. Também eles descobrirão um dia a distância dolorosa entre aquilo que continuam capazes de fazer e aquilo que os sistemas lhes permitirão continuar a fazer.

Esta não é apenas uma reflexão sobre envelhecimento. É uma reflexão sobre o modelo de sociedade que estamos a construir. Uma sociedade saudável não pode desperdiçar inteligência, experiência e criatividade apenas porque passaram determinados anos sobre um documento de identificação.
Talvez esteja na altura de reinventar o lugar da maturidade nas democracias contemporâneas. Porque envelhecer não deveria significar desaparecimento. Poderia significar exactamente o contrário: mais profundidade, mais consciência, mais humanidade e uma nova forma de contribuição social.

INTERROGAR O VÁCUO: “O SILÊNCIO TAMBÉM É UMA FORMA DE PREVENÇÃO”, DIZ O DIRETOR-GERAL DO SILÊNCIO INSTITUCIONAL

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Por José de Alfinete
Lisboa, 16 de Junho de 2026

Conseguimos o impossível. Após semanas a enviar e-mails que caíram no esquecimento e telefonemas que morreram no tom de chamada, fomos recebidos pelo Dr. Anacleto Mudez, Diretor-Geral do Silêncio Institucional (DGSI), o organismo transversal que coordena a ausência de respostas na Administração Pública. O Dr. Mudez aceitou falar connosco sob a condição de não respondermos a nada do que ele não dissesse.

Diário do Absurdo (DA): Senhor Diretor-Geral, muito obrigado por nos receber. Gostaria de começar pelo caso do cidadão, que enviou alertas sobre toneladas de madeira seca na encosta da Peninha, em Sintra, e não obteve qualquer resposta da Proteção Civil, dos Parques de Sintra, do Parlamento ou de Belém. O que falhou aqui?

Dr. Anacleto Mudez (AM): (Sorri com bonomia) Olhe, desde já repúdio essa palavra: “falhou”. Não falhou nada. O silêncio que o cidadão encontrou foi um silêncio planeado, rigoroso e de elevada competência técnica. Nós recebemos o e-mail dele a 22 de Maio. E aplicámos imediatamente a estratégia da “Ignorância Preventiva”.

DA: Ignorância Preventiva? O que é isso?

AM: É muito simples. Se nós respondermos ao cidadão a dizer qual é a entidade responsável pela limpeza — se é a autarquia, o ICNF ou os Parques de Sintra —, criamos um precedente perigoso. As pessoas começam a saber a quem exigir responsabilidades. Ao nãorespondermos, mantemos o mistério. E o mistério, meu caro jornalista, é a alma da burocracia. Se ninguém sabe de quem é a competência, ninguém pode ser culpado se aquilo arder. É uma salvaguarda jurídica genial.

DA: Mas o referido cidadão enviou o e-mail para todos os partidos do Parlamento e para o Presidente da República. Nem uma palavra de volta? Como se consegue que dez partidos partilhem o mesmo silêncio?

AM(Orgulhoso) Ah, aí foi o nosso momento dourado de 2026. Conseguir a concertação estratégica do vácuo. O Parlamento debate muito, polariza muito, mas quando o assunto é caruma seca num e-mail de um cidadão, a união nacional acontece. Do PCP ao Chega, da Iniciativa Liberal ao PAN, todos aplicaram a nossa circular técnica n.º 4: “Não digas nada, que o Verão passa”. O cidadão conseguiu o milagre de pacificar a política portuguesa. Devia estar agradecido.

DA: Mas há um risco real de incêndio. A madeira está seca, o Verão começou hoje e os termómetros estão a subir. Ignorar o risco não queima a floresta?

AM: Essa é uma visão muito literal do fogo. Nós temos uma abordagem mais filosófica. Veja bem: o cidadão citou o Decreto-Lei n.º 135/99 para provar que o e-mail dele tem o mesmo valor que o papel. Sabe o que nós fizemos? Imprimimos o e-mail e o decreto.

DA: E foram limpar a encosta?

AM: Não. Arquivámos o papel numa pasta de cartão que guardamos no subsolo do Ministério. Sabe quanto oxigénio há naquela arrecadação? Zero. Sabe qual é o risco de combustão lá dentro? Nenhum. Portanto, tecnicamente, nós mitigámos o risco de incêndio do e-mail do cidadão. O papel está seguro. Se a encosta arder, o processo está intacto.

DA: O cidadão ainda aguarda uma resposta do Chefe de Gabinete do Presidente da República. Há alguma esperança?

AM: Há sempre esperança de que o cidadão se canse. Belém está a processar o silêncio com a dignidade que o cargo exige. Responder com pressa a um alerta de segurança seria ceder à ditadura do imediatismo. Nós funcionamos ao ritmo do Estado, que é o ritmo do século passado.

DA: Uma última pergunta: se o cidadão voltar a insistir e ligar para o número que deixou nos e-mails?

AM: Atendemos, claro. E pomos a música de espera. Temos uma versão em flauta de bisel do hino nacional que dura quatro horas. Se ele passar da terceira hora, transferimos para um departamento que foi extinto em 2011. O sistema funciona, só precisa de tempo.

banda desenhada com recurso ao Chatgpt

Nota final: parabéns pelo milagre de unirem Belém, o Parlamento e as forças locais de Sintra no mais perfeito e harmonioso silêncio institucional de 2026. O país agradece o vosso esforço coordenado para não fazer absolutamente nada.Subscrevo-me, com o respeito que a vossa ausência de pressa exige,

SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO

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É conhecida a história que superiormente William Shakespeare põe em cena na universalmente conhecida tragédia Hamlet.
O fantasma do antigo rei diz a Hamlet que Cláudio o envenenou durante o sono e exige que o filho vingue a sua morte. Para despistar a corte, Hamlet começa a fingir-se de louco. Há, por isso, tensão no palácio real e a sua amada, Ofélia, acaba por dele se afastar. Recorre Hamlet a um estratagema, para testar a verdade: encena uma peça com uma morte semelhante à do pai. Cláudio, ao assistir, entra em pânico, o que o denuncia.

Durante uma discussão com a mãe, Hamlet mata Polónio, que estava escondido atrás de uma cortina. Esse acto leva Ofélia à loucura e, posteriormente, ao suicídio. Cláudio manipula Laertes, irmão de Ofélia, para matar Hamlet em duelo. O rei prepara uma espada envenenada e uma taça com vinho envenenado. Gertrudes bebe acidentalmente o vinho envenenado. No duelo, Hamlet e Laertes ferem-se de morte; mas, antes de morrer, Hamlet consegue matar Cláudio. Horácio, o melhor amigo de Hamlet, fica vivo para contar a verdadeira história.

Ora, na rodagem – magistralmente! – encenada por Marcos Medeiros, que a companhia de teatro Palco 13 apresenta no Auditório Fernando Lopes Graça (no Parque Palmela, em Cascais), a peça acontece na íntegra e serve de fio condutor para toda a acção. O pano de fundo é, todavia, a rodagem mesmo e, por isso, a movimentação dos actores implica que vivam e incarnem em simultâneo o drama shakespeariano, as preocupações da sua actuação como actores de cinema e, também, last but not the least, as suas ansiedades e vidas reais, num enleado entrechocar das maiores emoções, a despertar no espectador, sem dúvida, as mais díspares sensações.

Confesse-se que o projecto não é fácil. Exige de todos os intervenientes uma elasticidade grande, quer do ponto de vista físico, quer no domínio o mais perfeito possível das suas reacções e falas. Destaco, por isso, o enorme à-vontade como tudo – aparentemente – se passa, a envolver, de facto, o espectador.

E se aplaudo todas as interpretações, sem distinção (quiçá, aqui e além, a dicção possa vir a ser melhorada…), e a brilhante ideia de Marco Medeiros, permita-se-me um aplauso especial: à magnífica misteriosa figura do homem do acordeão (um achado técnico, cenográfico, artístico), que, no decurso de todo o espectáculo se desdobra em mil e um ingredientes sonoros, ali, à nossa vista, ao vivo, a um canto, como quem não quer a coisa, mas sabendo exactamente a que melodia ou ruído ou estranho som há-de lançar mão para realçar o que diante de nós se está a desenrolar. Parabéns!


Diário de Classe: A “Escola-Município” no Reino do Wi-Fi

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09:00 – Tento aplicar a máxima de António Sérgio: “A democracia é a educação do povo”. Proponho à turma do 11.º ano que se autogoverne nesta aula, gerindo o tempo de debate sobre a cidadania e o esforço intelectual.

O Francisco levanta o braço: “Stôr, gerir o tempo dá muito trabalho. Não dá para fazer um quiz no Kahoot e o stôr dar-nos ‘Excelente’ a todos por participação inclusiva?”

09:20 – Explico, munido do espírito da Seara Nova, que o facilitismo é o novo caciquismo. Antigamente, o cacique comprava o voto com um saco de batatas; hoje, o facilitismo compra a paz social trocando o esforço real por “grelhas de avaliação flexíveis” e “projetos de competências sócio emocionais”.
A Mariana, que não larga o telemóvel, reage: “Stôr, o Sérgio está desatualizado. No TikTok, o meu influencer favorito diz que o esforço manual e intelectual é tóxico. O segredo é o manifesting e o empreendedorismo digital. Para quê ler ensaios se o ChatGPT resume isto em três tópicos com emojis?”

09:45 – Insisto no conceito de “Trabalho Produtivo” de Sérgio: aprender fazendo, errando, assumindo a responsabilidade cívica. Proponho que escrevam um manifesto crítico, à mão, sem ecrãs.
Gerou-se o pânico coletivo. A associação de estudantes (os novos caciques em formação partidária) entram pela sala dentro: “Stôr, recebemos queixas de que esta aula está a violar o bem-estar psicológico dos alunos. Exigir que eles pensem criticamente sem uma linha de orientação já mastigada causa ansiedade. O novo decreto-lei diz que o aluno deve ser o centro do processo, e o centro não quer fazer redações.”

10:15 – Toca o toque de saída. O Diretor da Escola chama-me. Diz-me, com a mesma bonomia do velho Conselheiro do século passado: “Ó colega, para quê esse rigor sérgiano? Se lhes ensina o self-government e a autonomia, eles começam a questionar as nossas estatísticas de sucesso escolar! Nós precisamos de 100% de transições para o Ministério ver que somos modernos. Facilite-lhes a vida, dê-lhes um portefólio colorido, avalie a ‘atitude’ e todos ficamos felizes.”

António Sérgio, onde quer que esteja, deve estar a pedir para chumbar o século XXI por falta de aproveitamento.

O CLAUSTRO DA CATEDRAL – HARMONIA DE UM MUNDO NOVO

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O claustro da catedral, esse multifuncional corpo que se ergue a sul, entre o braço do transepto e os pés da nave correspondente desta peculiar igreja-salão, dimensionado à extensão da nave lateral, deve compreender-se como um corpo orgânico que responde a usuais práticas de culto, funcional espaço que medeia a intimidade da relação do homem com o divino, que se cumprirá por inteiro na atmosfera silenciosa do templo recoberto pela Abóbada dos Nós.

Acresce que a sua materialidade carreia um profundo simbolismo, explicado pela circularidade de um percurso sobre esse chão empedrado, que se torna metáfora da humana presença, num tempo concreto de vida, que haverá de soltar-se, como as colunatas que se elevam para esse espaço aberto sobre o azul que metáfora é da cúpula ampla do Céu, que destino pode tornar-se.

A edificação que, ao presente, se nos oferece, ambicioso projecto de um bispo iluminado por uma ampla cultura bebida em Paris e nos círculos humanísticos de Roma – quando, ao tempo, se elevava a portentosa edificação da Basílica de S. Pedro, protótipo, em Portugal, de um Renascimento embrionário – deve-se ao inspirado génio do bispo D. Miguel da Silva, que governa a Diocese de 1526 a 1540, fâmulo da Corte de D. João III e da Corte Papal de Paulo III, que fará dele Cardeal.

Sé Catedral de Viseu, exterior
Interior

D. Miguel da Silva deixará, em Viseu, inapagável rasto, que perdura materializado nas Tábuas de Grão Vasco, no Cadeiral do Coro Alto encomendado a partir de Roma, na transfiguração dos Paços, ao Fontelo, para cuja áulica Capela de Santa Marta Gaspar Vaz terá encomenda do especioso painel que rememora a visita de Cristo a Casa de Lázaro, Marta e de Maria, lá onde lhe deixará retrato e na figuração dos intimistas jardins e do arvoredo, que povoou de gaiolas, onde as aves cantavam e onde havia o rumorejar das fontes.

De Roma arrastará consigo o arquitecto Francisco de Cremona (c. 1480-1550?), treinado nos estaleiros do Vaticano, e será este – obreiro que terá sido, em Viseu, do risco da Casa do Miradoiro, encomenda do Deão Fernão Ortiz de Vilhegas – quem irá traçar o inspirado desenho do Claustro da Catedral (1528-1534), obra primeira do Renascimento português, onde salta à vista o harmonioso perfil das colunas jónicas, suportadas por um desusado murete, e a complexidade dos capitéis, onde se encontra referência às clássicas ordens coríntia e compósita e de onde se levanta a arquitectura das abóbadas, que irão suportar, no século XVIII, a construção do amplo espaço que hoje se abre para o Museu de Arte Sacra, lá onde se evoca a velha morada do Prior S. Teotónio.