Por um lado, o Chega demonstrou ser um partido decisivo para a aprovação das iniciativas legislativas do Governo, cuja sobrevivência depende, cada vez mais, da capacidade de entendimento entre PSD e Chega, já que o parceiro formal de coligação tem hoje um peso eleitoral praticamente irrelevante.
Por outro lado, ao votar ao lado de toda a esquerda parlamentar, o Chega terá surpreendido parte do seu próprio eleitorado, onde coexistem sensibilidades muito diferentes e onde existe um setor que encara a democracia liberal com manifesta desconfiança e prefere soluções de natureza autoritária.
Acontece, porém, que uma parte significativa dos seus eleitores não é composta por pequenos empresários conservadores, mas por trabalhadores por conta de outrem, gente das classes populares que se sente abandonada pelos partidos tradicionais e que procura respostas imediatas para os seus problemas. Ora, muitos desses eleitores perceberam que o “pacote laboral” também lhes poderia trazer consequências negativas.
André Ventura insistiu no regresso da idade da reforma aos 65 anos e no fim das chamadas reformas douradas que beneficiam um reduzido número de pessoas. Insistiu porque sabe que esse discurso recolhe simpatia junto da opinião pública e rende dividendos eleitorais. Sabia igualmente que Luís Montenegro dificilmente aceitaria essas condições para garantir a aprovação do “pacote”.
Se as próximas sondagens vierem confirmar que esta estratégia beneficia o Chega, depois de meses a alimentar a expectativa de que poderia viabilizar as propostas do Governo para, no fim, apresentar exigências politicamente inaceitáveis, Luís Montenegro poderá começar a contar os dias que faltam até uma eventual queda do Governo na Assembleia da República.
A menos que as sondagens venham a demonstrar o contrário, o grande vencedor deste duelo político parece ser o Chega. André Ventura conseguiu fazer cair o “pacote laboral” sem correr o risco de ser acusado de apoiar a esquerda. Pelo contrário, apresentou-se como defensor dos trabalhadores e lembrou ao Governo que, sem os seus votos, a estabilidade política pode ser apenas uma ilusão.



