Uma coisa é fazer oposição a uma medida concreta do Governo e colher os dividendos políticos imediatos. Outra, muito diferente, é sustentar ao longo do tempo uma imagem de defensor dos trabalhadores sem entrar em contradição com outras posições do partido.
Nos últimos anos, o Chega tem oscilado entre o combate à imigração, o propalado combate à corrupção, a defesa da prisão perpétua, a castração química de pedófilos condenados, a taxa única de IRS, a valorização de algumas classes profissionais, como as forças de segurança, e, agora, a defesa dos direitos dos trabalhadores e o regresso da idade da reforma aos 65 anos.
O problema é que um partido não pode representar indefinidamente interesses antagónicos. Mais cedo ou mais tarde, terá de explicar como concilia a defesa de medidas favoráveis ao patronato com a defesa de reivindicações laborais que implicam mais encargos para empresas e para o Estado. Mas será preciso que os jornalistas peçam essas explicações.
Chegados aqui, gostava de ver o Chega em confronto com as confederações patronais. Gostava de ver, mas não acredito que isso venha a acontecer tão cedo. O partido tem beneficiado do apoio de empresários influentes, entre os quais Manuel Carlos de Mello Champalimaud, presidente do Grupo Manuel Champalimaud, César do Paço, empresário que recentemente adquiriu uma participação relevante no Global Media Group, ou João Bravo, ligado à indústria do armamento. São apenas alguns exemplos de um universo empresarial que vê no Chega um instrumento político útil para a defesa dos seus interesses e não para perder tempo com os interesses dos trabalhadores.
É aqui que surge a contradição. Para captar a simpatia dos meios empresariais, o Chega defende a redução da carga fiscal. Para captar a simpatia dos trabalhadores apresenta-se como barreira às reformas laborais mais contestadas. O que ainda não explicou é como pretende estar dos dois lados da barricada.
Acredito que o Chega aposta na proverbial perda de memória que caracteriza grande parte da discussão política de café. As pessoas acabarão por esquecer que o partido utilizou as preocupações dos trabalhadores para travar uma iniciativa do Governo e enfraquecer o PSD. Talvez até esqueçam as promessas feitas em nome desses trabalhadores. Será preciso que os jornalistas não colaborem nesse esquecimento.



