A EMPREGADA DA LIMPEZA

Aos dias 28 de Julho de 2026 ocorreu, no Palácio de São Bento, no velho mosteiro beneditino, de estilo neoclássico, o quarto milagre de Fátima.

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fotomontagem, imagem descritiva

Na loucura do dia-a-dia em que vivemos, entre a guerra na Ucrânia, a guerra no Médio Oriente e outras crises, nunca pensámos que Portugal voltasse a ser o lugar de um novo sinal da Virgem Maria para o Mundo. Mas, naquele dia, aconteceu o que ficará marcado, para sempre, no historial da Wikipédia do Palácio de São Bento.

Vejamos os factos: na madrugada de 28 de Julho, um ser misterioso, esvoaçava pelos largos corredores do Palácio. E, tal como Augusto Gil, o guardião-mor do Palácio, um frade beneditino que de noite vigiava o velho Mosteiro interrogou-se: “Será chuva? Será gente? Gente não é, certamente, e a chuva não bate assim… É talvez a ventania, mas há pouco, há poucochinho, nem uma agulha bulia na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho”.

A noite era tropical, seca, serena e quente. Nada bulia e, ao ouvir o barulho, o frade perguntou: Quem és tu? Ninguém! foi a resposta. Erros meus, má fortuna, era a empregada da limpeza que iniciava a sua jorna. Com ela não contavam os criadores do milagre de São Bento.

Por azar dos Távoras, iniciou a sua função pelo gabinete do deputado André Ventura cuja porta estava aberta e não trancada, como era comum, e deparou-se com papéis espalhados pelo chão, sem sentido. Chamou de imediato a segurança que procedeu ao isolamento do local e foi feita a comunicação à Polícia Judiciária.

Gabinete do deputado Ventura “desarrumado”, imagens partilhadas das redes sociais

Pelas 7:00 entrou o deputado Francisco Gomes. Bom dia, o que se passa? Houve um assalto no gabinete do deputado André Ventura! O que faz por aqui a esta hora? Vinha fazer um tik-tok. Os seguranças ficaram estupefactos, mas nem comentaram.

O deputado afastou-se, retirou um telemóvel descartável da algibeira e fez uma chamada: a empregada da limpeza veio mais cedo e deu o alerta. Mas ela não começava às 7:30? Perguntaram do outro lado. Sim, mas hoje veio mais cedo, estamos tramados. E a moldura estava bem? Sim, tudo certo. Bem, deixa-me pensar e não voltes a ligar.

A Polícia Judiciária entrou no gabinete para efectuar a perícia e uma das imagens que espantou os agentes foi a da moldura de Nossa Senhora de Fátima, no chão, incólume, com um crucifixo cuidadosamente colocado sobre o vidro.

” um novo sinal da Virgem Maria para o Mundo”, imagem partilhada das redes sociais

No meio da tempestade de papéis, a moldura e o crucifixo estavam intactos. Milagre! Gritou a empregada de limpeza que tinha ficado por ali. Só pode ser milagre. O deputado Francisco Gomes ajoelhou-se e exclamou ‘o milagre de São Bento’, vai já para o tik-tok.

Entretanto, a trama adensa-se. A notícia correu célere e o criador de factos recebeu um telefonema de um dos patrocinadores. O que se passa? Está tudo controlado, a empregada da limpeza começou a trabalhar antes da hora prevista, mas está tudo controlado. Vê lá o que arranjas, se isto correr mal temos de encontrar uma alternativa para ti, precisamos de controlar a arraia-miúda enquanto é tempo.

O criador dos factos alternativos telefonou a alguns amigos que o projectavam nos media, aos comentadores próximos do partido e depois marcou a sua declaração política. Tinha de seguir em frente, sabia que se falhasse os patrocinadores não lhe perdoariam e seria substituído sem dó, nem piedade. Eles queriam que ele acabasse com o partido do governo e desse cabo do outro partido da oposição. E o criador de factos alternativos tinha garantido que conseguiria os dois objectivos. Por causa da empregada da limpeza tudo correu mal e agora não sabia como descalçar essa bota.

Todos os momentos seguintes à declaração que fez foram confrangedores. O desastre da operação ‘vandalismo na madrugada’ era evidente. Percebeu que a sua carreira de manipulador da verdade poderia estar a acabar. Os dias subsequentes foram ainda mais demolidores com deputados que queriam o seu lugar a exigir explicações. Os patrocinadores, inquietos, não o largavam. Só se lembrava da conhecia frase de Lenine, ‘O que fazer?’ Maldita empregada da limpeza, maldito proletariado que já estava quase convencido a votar nele.

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