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BOATOS

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Já tem décadas. Outros trabalhos mais actualizados têm sido desenvolvidos, mas se o refiro é porque o essencial da questão – a origem mal definida do fenómeno – permanece, como permanecem essas bombas de destruição silenciosa de indivíduos, ou de instituições.

Nas éditions du Seuil de 1987, a palavra original é Rumores, conceitoigualmente vago, escorregadio, de difícil apuramento. Como dizia o autor, o objecto de estudo não é senão um eco do que se pretende apurar: um dia alguém, não se sabe quem, ou talvez sim, propaga em surdina que ouviu dizer…E quanto mais misterioso, com menos referências, até pela discrição dos lesados que não se prestam a fornecer informação sobre inverdades, mais apetecível o processo se torna ao exercício das más-línguas.

O gesto, a mímica, os sinais de fumo, o rufar do tambor, as inscrições na pedra, foram os primeiros meios de comunicação, esses com autores identificados. Mais tarde, no fim da IIª. Grande Guerra, aparece o levantamento de boatos que serviram, e servem ainda, experiências mais tristemente sofisticadas.

Começo por dizer que abomino boatos e suas manhas rasteiras. Nem todos herdaram riquezas materiais, mas alguns têm uma herança de valores e de frontalidade de que se orgulham. E tendo outras qualidades, também assumem os pequenos defeitos que não prejudicam ninguém.

Nos nossos dias o boato existe ainda mais vigoroso, representando uma arma eficaz de difamação, ou contrainformação sempre malévola, porque nunca assumida cara a cara, só atirada como areia para os pneus da informação escorregarem, ou para os olhos dos incautos deixarem de enxergar com imparcialidade. Afinal o núcleo de que se alimenta já foi, ou será, modificado mil vezes e os arautos da maledicência bem o sabem.

Assim se livram de responsabilidades do que vão murmurando de boca-a-orelha e que virá a ser rastilho facilmente inflamável. Assim se promovem uns, se difamam outros, se cria um mundo de ficção aparentemente verosímil, mas injusto e cobarde, porque levado aonde convém por pessoas de aspecto e reputação “idóneos”.

Há diferenças entre murmúrio e boato? Eu separo-os pela minha forma de agir, não porque um deles, o boato, não se sirva dessa pretensa inofensiva prática do murmúrio para parecer mais credível. As verdades não precisam de ser murmuradas, a não ser as confissões de amor que só interessam aos namorados.

Há sempre pessoas dignas mesmo nos antros mais escuros, mas já aqui referi a frase de Lord Acton, O Poder tende a corromper, que havia de afirmar-se em crescendo por questões fáceis de identificar. Que os meios políticos, onde é fácil a escalada do poder até à corrupção, usem técnicas boateiras e pouco dignas para confusões oportunistas, não me espanta. Já que “agentes culturais” em pose de vedetas, e sem conhecerem os indivíduos que julgam, o façam com base no mesmo produtor de desgaste da imagem, espanta-me e revolta-me.

Raramente levantam a voz para aplaudir o trabalho de quem ergue com esforço uma obra limpa, mas têm sempre a língua afiada para atacar, discretamente com voz melíflua e uma arma escondida, o “adversário”, ou aqueles a quem temem o valor. Quem não percebe que uma nulidade não interessa a ninguèm?

As guerras acontecem longe, mas começam perto por influência destes falsos profetas do bem-fazer nos seus mal alinhados discursos. Dá sempre jeito abater mais uma árvore pelo caminho. Mesmo que poucos saibam, ou queiram saber, o nome da árvore, sempre há quem veja que ela existe e que detém alguma importância no ecossistema sociocultural.

A regra hoje, como ontem, é bajular quem convém para reunir consensos e construir uma credibilidade balofa, porque à custa de empurrõezinhos de amigos aos seus nomes, e de empurrões maiores aos que alcunham de indesejáveis para a berma, ou para as margens.

Não alimento, não aprovo a sobranceria de quem age como se tivesse título nobiliárquico. E ainda que tivesse. Vaidade é um atributo humano saudável, se moderado. Nem defeito, nem qualidade. E depois o país é uma aldeia. Bem sabemos quem são, de onde vêm, para onde querem ir… Não merecem credibilidade ao emitirem opiniões sem fundamento, só com raiz nos boatos que dizem condenar.

Inaugurem o ciclo da dignidade, se ainda não o fizeram. Exponham críticas a quem sentem que devem fazê-lo e exponham-se às consequências. A podridão de boatos não assenta bem a líderes de instituição alguma. Deixem a destreza de construir esquemas de silenciamento de nomes, embora pretendam permanecer afastados da culpa.

Quanto aos Amigos que nos foram caros, mas são capazes de mudar para o passeio contrário para agradarem às grandes personalidades, é tempo de reconhecer que deixaram de ser Amigos.

Bem sei, todos somos vencíveis pelo cansaço.

O MAR QUE NOS SEPAROU, O MAR QUE NOS UNIU

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Durante séculos, o Atlântico foi simultaneamente fronteira e convite, ameaça e promessa. Estava ali, diante de nós, imenso e desconhecido. Podia separar-nos do mundo ou levar-nos até ele.
Escolhemos partir.
Essa decisão mudou Portugal.
E, de certa maneira, mudou também o mundo.
Hoje, porém, a pergunta já não pode ser apenas a de saber o que fizemos através do mar.
A pergunta que verdadeiramente nos interessa é outra:
o que podemos fazer hoje com aquilo que o mar deixou entre nós?
Um país pequeno diante de um oceano.
É difícil imaginar, à distância de cinco séculos, o que significava olhar para o Atlântico e decidir atravessá-lo.
Não havia satélites.
Não havia GPS.
Não havia meteorologia em tempo real.
Não havia mapas completos.
Havia embarcações frágeis, conhecimento incompleto, coragem, ambição, medo e uma enorme capacidade de aprender com a experiência.
Portugal era um país pequeno.
Mas a sua geografia colocou-o diante de uma possibilidade enorme.
E houve portugueses que a souberam reconhecer.
Não devemos transformar esse passado numa lenda sem sombras.
A expansão portuguesa trouxe encontros e intercâmbios extraordinários, mas também trouxe violência, dominação, escravatura, exploração e profundas desigualdades.
Uma História adulta não escolhe entre a glorificação e a condenação.
Conhece. Interroga. Compreende. Assume.
Só assim o passado pode deixar de ser um peso e transformar-se em conhecimento.
O mar foi mais do que uma estrada
Quando os portugueses partiram, não transportaram apenas mercadorias.
Transportaram uma língua.
Uma religião.
Hábitos.
Tecnologias.
Formas de organização.
Alimentos.
Música.
E encontraram outras línguas, outras religiões, outros costumes, outras formas de compreender o mundo.
O encontro não foi igual para todos.
Nem sempre foi pacífico.
Nem sempre foi justo.
Mas produziu algo que hoje existe independentemente das intenções daqueles que partiram: uma extraordinária rede de relações humanas e culturais. Povos que se encontraram transformaram-se mutuamente. E é dessa longa e complexa história que nasceu uma realidade que hoje chamamos Lusofonia.

Camões percebeu a dimensão da viagem. Talvez seja impossível pensar esta história sem pensar em Camões. Os Lusíadas não são apenas a celebração de uma viagem. São também uma pergunta sobre o que acontece ao homem quando decide ultrapassar os limites que conhece.
O mar de Camões é aventura.
É perigo.
É desejo.
É descoberta.
É ambição
Mas também é dúvida.
E talvez seja isso que torna a obra tão actual.
Porque nenhuma viagem verdadeiramente importante é apenas geográfica.
Viajar é também mudar a nossa ideia sobre nós próprios.
Os portugueses partiram à procura do mundo.
E encontraram, inevitavelmente, outros mundos.
Mas encontraram também um Portugal diferente daquele que conheciam.
O encontro criou mundos novos
É aqui que a história portuguesa se torna particularmente interessante.
A relação entre Portugal, África, Brasil e outros territórios onde a língua portuguesa se enraizou não produziu simplesmente uma repetição da cultura portuguesa. Produziu culturas novas.
O português do Brasil não é o português de Portugal.
A experiência cultural de Angola não é a de Cabo Verde.
Moçambique não é São Tomé e Príncipe.
Guiné-Bissau não é Timor-Leste.
Cada sociedade fez a sua própria história. Cada povo incorporou, transformou e recriou a língua. E é precisamente por isso que a Lusofonia não pode ser entendida como uma espécie de Portugal ampliado.
É muito maior do que Portugal.
É plural.
É diversa.
É feita de diferenças.
E essa diversidade é talvez a sua maior riqueza.
O que nos une não é sermos iguais
Talvez esta seja uma das ideias que mais precisamos de compreender.
Uma comunidade não precisa de ser homogénea para existir.
A Lusofonia não precisa de apagar as diferenças entre os seus povos.
Precisa de criar condições para que essas diferenças possam dialogar.
Temos uma língua comum, mas muitas maneiras de a falar.
Temos histórias que se cruzaram, mas memórias que nem sempre são iguais.
Temos referências culturais partilhadas, mas identidades próprias.
E isso não é uma fraqueza.
É precisamente o que pode tornar esta comunidade extraordinariamente rica.
Não é a igualdade que nos aproxima. É a capacidade de reconhecermos a diferença sem deixarmos de nos escutar.

Portugal precisa de deixar de olhar para o mar apenas como memória Talvez aqui esteja uma das nossas maiores limitações. Continuamos a olhar para o mar através da História. Falamos dos Descobrimentos. Falamos dos navegadores. Falamos de Camões. Falamos da epopeia. E temos razão para falar.
Mas o mar não é um museu.
É uma realidade do presente.
É ciência.
É economia.
É energia.
É ambiente.
É investigação.
É comunicação.
É circulação de pessoas e conhecimento.
É geopolítica.
É futuro.

Portugal tem uma posição atlântica extraordinária. Mas uma posição geográfica só se transforma em vantagem quando existe uma visão capaz de a aproveitar. Ter mar não chega. É preciso saber pensar com o mar.

Uma nova relação com os países de língua portuguesa

Talvez seja tempo de deixarmos de olhar para os países lusófonos apenas como territórios com os quais temos uma relação histórica. São sociedades com as quais podemos construir uma relação de futuro. Portugal tem muito a aprender com África. Tem muito a aprender com o Brasil. Tem muito a aprender com Cabo Verde, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
E também tem muito para oferecer.
Universidades.
Ciência.
Cultura.
Tecnologia.
Experiência institucional.
Empresas.
Conhecimento.
Mas, sobretudo, pode oferecer uma coisa fundamental: uma vontade de construir relações entre iguais. Não uma relação de tutela. Não uma relação de nostalgia. Não uma tentativa de recuperar uma centralidade que já não existe.
Uma relação de cooperação.
De respeito.
De reciprocidade.
O verdadeiro desafio é deixar de pensar pequeno
Portugal é um país pequeno em território.
Mas nunca foi obrigado a pensar pequeno.
Talvez uma das maiores contradições da nossa história seja precisamente esta.
Um país que, em determinados momentos, teve uma extraordinária capacidade de imaginar para além das suas fronteiras e que, em outros momentos, parece ter aceitado como inevitável a sua própria pequenez.
Não precisamos de voltar ao passado para recuperar grandeza.
Precisamos de recuperar ambição.
A ambição de educar melhor.
De investigar mais.
De criar conhecimento.
De valorizar a cultura.
De atrair talento.
De participar nos grandes debates internacionais.
De construir pontes.
De aproveitar a nossa língua.
De olhar para o Atlântico como uma oportunidade estratégica e humana
E de perceber que a dimensão de um país não se mede apenas pelos quilómetros quadrados que ocupa.
Mede-se também pela dimensão das relações que consegue estabelecer.
O mar que ontem nos levou para fora pode hoje trazer o mundo até nós
Talvez esta seja a grande mudança.
Durante séculos, Portugal utilizou o mar para partir.
Hoje pode utilizá-lo para ligar
Ligar universidades.
Ligar empresas.
Ligar artistas.
Ligar investigadores.
Ligar jovens.
Ligar conhecimento.
Ligar culturas.
Ligar oportunidades.
Uma nova Lusofonia não deveria ser construída a partir da memória de um império.
Deveria ser construída a partir da liberdade de uma comunidade de povos que escolheram continuar a comunicar através de uma língua que a História colocou nas suas vidas.
Isso seria muito mais poderoso.
E muito mais digno do nosso tempo.

O futuro não nos espera

Há uma tentação portuguesa que precisamos de combater: a de transformar o passado numa desculpa para não enfrentar o futuro.
Dizer que já fomos grandes pode ser uma forma confortável de não perguntar porque não somos hoje maiores.
A História não nos deve servir para alimentar nostalgia. Deve servir para nos provocar.
Os portugueses de outros séculos tiveram diante de si um mundo desconhecido.
Nós temos diante de nós outro.
Um mundo de inteligência artificial, alterações climáticas, migrações, novas potências, novas tecnologias, novas desigualdades e novas disputas pelo conhecimento.
Também hoje existem oceanos para atravessar.
Só que alguns já não são feitos de água.
São feitos de conhecimento.
De ciência.
De tecnologia.
De cultura.
De inovação.
De capacidade de cooperação.
Estaremos à altura?
Talvez seja esta a pergunta que devemos começar a fazer.
Não somos os portugueses de Camões.
Não temos de ser.
Não vivemos no século XVI.
Mas somos os herdeiros de uma história que nos deixou responsabilidades.
E a melhor maneira de honrar aqueles que nos antecederam não é repetir aquilo que fizeram.
É estar à altura do nosso próprio tempo.
Eles atravessaram oceanos que desconheciam.
Nós temos de atravessar os nossos.
Eles procuraram novos mundos.
Nós temos de ajudar a construir um mundo novo.
Eles partiram.
A nossa geração tem de saber para onde quer ir.

O mar continua diante de nós

Talvez o maior erro seja pensar que a História terminou. Não terminou.
O mar continua diante de Portugal. Continua a separar. Mas também continua a unir.
E talvez o nosso desafio seja transformar definitivamente essa velha fronteira numa grande plataforma de encontro.
Portugal pode ter aqui uma responsabilidade particular. Não por ser superior. Não por ser dono de uma língua que hoje pertence a milhões. Mas precisamente porque conhece, pela sua própria História, a força e a complexidade dos encontros entre povos. Pode ajudar a construir pontes. Pode aproximar margens. Pode estimular conhecimento. Pode fazer da língua portuguesa não apenas uma memória comum, mas uma ferramenta de futuro. Essa talvez seja uma nova forma de grandeza. Muito diferente da grandeza imperial. Mais difícil. E talvez mais humana.
Porque já não se trata de conquistar territórios. Trata-se de conquistar conhecimento, criar confiança e construir futuro em conjunto.
O mar que um dia nos levou para longe pode agora ajudar-nos a aproximar. E talvez seja esse o paradoxo mais bonito da nossa História: o mesmo mar que durante séculos nos separou de outros mundos pode ser hoje aquilo que nos aproxima deles.
Portugal não precisa de voltar a partir.
Precisa de saber chegar.

A TESTEMUNHA INVISÍVEL

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Kapuscinski em Angola, 1975

O mundo não se move apenas através das decisões dos grandes homens em gabinetes climatizados. Move-se, sobretudo, no chão poeirento onde a história acontece à queima-roupa. Foi neste território de fratura – onde os regimes caem e as fronteiras se dissolvem – que Ryszard Kapuściński, o lendário correspondente polaco e mestre da grande reportagem, ergueu o seu império literário. Para ele, ser jornalista não era uma profissão de gabinete, mas sim um compromisso absoluto: o de carregar a responsabilidade de ser o olho que não pestaneja e o ouvido que não se fecha, mesmo quando o medo aconselha o silêncio.

Estar ali, no exato momento em que o destino de um povo muda, era a obsessão de Kapuściński. Ele não procurava o protagonismo; via-se como uma testemunha invisível, um espelho que refletia a dor e a esperança do mundo. Enquanto a multidão rugia na praça pública de uma capital africana, derrubando a estátua de bronze do ditador que poucas horas antes parecia eterno, o repórter fixava o olhar nos detalhes que a pressa da história costuma apagar: a expressão de incredulidade no rosto de um velho que viveu uma vida inteira na sombra do medo, ou a audácia das crianças que subiam para os tanques abandonados.

Esta forma de jornalismo, que Kapuściński batizou na sua obra como uma missão humanista, exigia uma presença de corpo inteiro. O jornalista que viajava com o livro de Heródoto na bagagem sabia que não se pode testemunhar a verdade à distância de um ecrã. É preciso respirar o mesmo ar saturado de fumo, contrair as mesmas febres tropicais, pisar o entulho das casas destruídas e partilhar a escassez do pão. O sofrimento humano, para o autor de Andanças com Heródoto, nunca foi uma estatística para preencher a primeira página; era uma cicatriz viva que o repórter aceitava carregar na sua própria pele.

Ao sentar-se diante da máquina de escrever, no silêncio precário de um quarto de hotel em Luanda ou Cartum, Kapuściński sentia o peso esmagador de cada palavra. Escrever a crónica de uma revolução era, para ele, travar uma batalha pessoal contra o esquecimento. Sabia que os vencedores se apressam sempre a reescrever o passado, apagando os vestígios dos vencidos. Por isso, as suas crónicas, manuscritas em cadernos sujos de terra e suor, tornaram-se o arquivo da verdade crua – o testemunho de que aquelas pessoas existiram e de que a sua dor foi real.

Heródoto cruzou o mar Egeu na Antiguidade para resgatar as memórias dos homens antes que o tempo as dissolvesse na obscuridade. Dois milénios depois, nos cenários mais violentos do século XX, Ryszard Kapuściński honrou esse mesmo compromisso. Ser testemunha da história, no espírito deste mestre polaco, é compreender que o jornalismo não serve para celebrar o poder, mas para garantir que o grito dos esquecidos ecoe muito para lá do tempo em que as armas finalmente se calarem. Afinal, como o próprio Kapuściński lembrava com frequência, este é um trabalho que exige uma empatia profunda com a condição humana, pois “os cínicos não servem para este ofício”.

ANGOLA NUNCA SE CONHECE POR INTEIRO

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Há países que se conhecem através da história. Outros, através da literatura, dos filmes ou dos mapas. Angola, porém, parece revelar-se melhor a quem a percorre. Talvez porque seja um país de grandes distâncias e de contrastes tão profundos que dificilmente cabem numa única visão. Talvez porque a sua história recente tenha sido escrita tanto nos arquivos como nas estradas, nas aldeias, nas cidades e nas conversas improváveis entre desconhecidos, ou mesmo entre conhecidos de longa data.

Na verdade, esta tradição de contar Angola através da viagem é muito antiga. Em finais do século XIX, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, em De Angola à Contracosta (1886), relatam a extraordinária expedição que atravessou o continente africano, de Angola a Moçambique. Marcado pelo espírito científico e explorador da época, mas também pelo contexto colonial em que foi escrito, o livro permanece um documento histórico de grande valor. As descrições das paisagens, dos rios, dos povos e dos modos de vida permitem revisitar uma Angola muito diferente da atual, ainda que algumas coisas pareçam ter mudado pouco e certos traços teimem, por vezes, em permanecer.
Lido hoje, exige naturalmente um olhar crítico sobre o seu enquadramento histórico, mas continua a ser um dos grandes relatos de exploração africana escritos em língua portuguesa.
Mais de um século depois, outros viajantes regressariam a Angola. Já não para cartografar territórios desconhecidos aos europeus, mas para tentar compreender um país em permanente transformação.

Ao longo de várias décadas, três livros ofereceram olhares muito diferentes sobre este território: Angola – Mais Um Dia de Vida, de Ryszard Kapuscinski; Baía dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes; e Dália Azul, Ouro Negro, de Daniel Metcalfe. Estes são os meus preferidos,
mas há por certo outros.
Não pertencem ao mesmo género literário, nem foram escritos no mesmo tempo histórico. Mas, lidos em conjunto com o relato de Capelo e Ivens, vejo-os a dialogar entre si como se fossem capítulos de uma mesma viagem.

Mais Um Dia de Vida
“…Para eles a terra termina na última vila onde as pessoas usam uma língua que
eles entendem…”

O primeiro leva-nos a 1975. Kapuscinski chega a Luanda quando tudo parece desmoronar-se. O país prepara-se para proclamar a
independência, enquanto milhares de portugueses abandonam Angola e as diferentes forças militares se aproximam da capital.
O jornalista polaco não procura explicar o conflito através de grandes análises geopolíticas. Prefere mostrar o quotidiano da guerra: as ruas vazias, as redações improvisadas em hotéis, os combatentes anónimos, o medo e a esperança que coexistem nos dias em que nasce
uma nação.
O seu relato visceral tem a urgência de quem escreve sabendo que talvez não haja amanhã. Não descreve apenas acontecimentos; fixa atmosferas. O leitor sente o calor de Luanda, o silêncio antes dos ataques, a incerteza de um país que ainda não sabe o preço da liberdade que acaba de conquistar.


Baía dos Tigres
“… o espaço e tempo são as coordenadas que mais mentem.”

Duas décadas depois, Pedro Rosa Mendes inicia outra viagem. Já não é a independência que marca Angola, mas uma guerra que parece interminável. Em Baía dos Tigres, o jornalista português parte de Luanda, em 1997, com a intenção de chegar por terra a Quelimane, em Moçambique, refazendo, em condições completamente diferentes, a antiga travessia de Capelo e Ivens.
Como o autor nos diz “Este é um livro sobre coisas simples: a tranquilidade do medo e a vitalidade da morte”. Pelo caminho, o autor depara-se com o impacto devastador de guerras civis, pobreza extrema, fome e ruínas em países como Angola, Républica Democrática do Congo, Zâmbia, Zimbabué, Malawi e Moçambique. O percurso é físico, mas é sobretudo humano.
Aqui, Angola surge como um território onde a guerra deixou marcas profundas na paisagem e nas pessoas. As estradas são lentas, as distâncias parecem infinitas e cada encontro transporta uma história de sobrevivência.
Pedro Rosa Mendes escreve com rigor jornalístico, mas também com uma linguagem de grande intensidade literária. O resultado é um livro onde a beleza da escrita nunca esconde a dureza da realidade.
Não procura heróis nem vilões absolutos. Procura pessoas. O livro dá voz a soldados, deslocados, sobreviventes e contadores de histórias locais, relatando sobrevivência, sofrimento e a grande complexidade humana. É talvez essa humanidade que faz de Baía dos Tigres uma obra que continua quase 30 anos depois a interpelar o leitor.

Dália Azul, Ouro Negro
“A paciência é um bem escasso, em Luanda, e comecei a perceber porquê.”

Quando Daniel Metcalfe chega a Angola, o cenário é outro. A guerra terminou. O petróleo transformou Luanda numa das cidades mais caras do mundo e o país vive um período de forte crescimento económico. Mas a paz não resolveu todas as contradições.
Em Dália Azul, Ouro Negro, Metcalfe percorre Angola em velhos carros e autocarros, incluindo candongueiros, e, sobretudo, através das conversas que mantém com chefes tradicionais, camponeses, empresários, funcionários de organizações internacionais, funcionários públicos, trabalhadores petrolíferos, mineiros, estudantes, religiosos e antigos combatentes. Evoca a escravatura, a pirataria, mas também a lendária rainha Ginga.
O seu olhar é o de um viajante, britânico, curioso, interessado em compreender como um país tão rico em recursos naturais enfrenta desigualdades tão profundas.
O mérito do livro está precisamente em evitar respostas fáceis. Em vez de construir um retrato simplista, Metcalfe apresenta muitas vozes, frequentemente dissonantes e contraditórias. O leitor percebe rapidamente que Angola não pode ser reduzida a uma única perspetiva.

Quatro viagens, múltiplos olhares

Lidos e relidos em conjunto, estes quatro livros acabam por contar uma história que nenhum deles, isoladamente, conseguiria contar.
Vista em perspetiva, esta sequência cobre mais de um século de história angolana. São viagens separadas por anos, por circunstâncias e por diferentes formas de olhar, mas unidas por uma mesma evidência: conhecer Angola exige percorrê-la.

Angola resiste às simplificações. É um país onde coexistem modernidade e tradição, riqueza e pobreza, memória e futuro. Um país onde a guerra continua presente, mas onde a vida quotidiana insiste em seguir em frente. Há uma ideia que atravessa as quatro obras: viajar por
Angola nunca é apenas deslocar-se no espaço. É viajar através da história, da geografia, das culturas e das vidas de milhões de pessoas que construíram e constroem o país em circunstâncias extraordinárias.
Talvez seja por isso que estes livros continuam atuais. Não porque expliquem definitivamente Angola, mas porque ensinam uma forma de a olhar: com tempo, com respeito e com a consciência de que nenhum país pode ser compreendido apenas através das estatísticas, dos discursos políticos ou dos mapas.

Desde que vivo em Angola, há pouco mais de um ano, tenho vindo a escrever, com a regularidade que o tempo permite, um conjunto de pequenas crónicas. Não são relatos de viagem no sentido clássico, nem pretendem ser ensaios ou reportagens. São escritos sobre aquilo que vejo, leio ou vivo; sobre os lugares por onde passo, as pessoas que encontro e as pequenas coisas que me surpreendem. São apenas
fragmentos de um quotidiano vivido: encontros improváveis, expressões, cheiros, paisagens e pequenas histórias que, de algum modo, me ajudam a compreender melhor o país e que gosto de partilhar. Escrevê-las tornou-se para mim também uma forma de viajar.
Ao reler Capelo e Ivens, Ryszard Kapuściński, Pedro Rosa Mendes e Daniel Metcalfe, apercebo-me de que cada um deles encontrou a sua própria maneira de contar Angola. A minha é, naturalmente, muito mais modesta. Mantenho inteira consciência da diferença de escala. Sou apenas uma aprendiz de feiticeira.
Mas, se há algo que estes grandes viajantes me ensinaram, é que nenhum olhar é demasiado pequeno quando nasce da curiosidade genuína, da escuta atenta e do profundo respeito pelo país que se percorre.

MANTEIGAS, A ESTRELA QUE SE PERDE NO CÉU

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Manteigas. Vista geral

Há recantos ainda na serra vizinha onde pastores criam gados deixando perceber a inocência de um tempo quase bíblico que um dia haverão de tornar-se sítios de visita como se de verdadeiro Museu se tratasse.

Não. Não foi terra de Viriato. Por mais que a grande serra lhe tivesse dado abrigo, lá longe. O que surpreende em Manteigas nem é, de todo, o seu casario, embora se goste de o ver, o mais antigo, aninhado à volta das duas igrejas, como se fossem mães-galinha abrigando filhos pequenos. O que mais surpreende é esse vale soberbo por onde desce o rio Zêzere, que o povo chama de Ribeira, mais no alto, por onde se despenham águas de trovoadas, por onde correm águas de degelo, que fertilizam os campos da encosta cheios de socalcos até onde o homem conseguiu subir rompendo matagais que sobem depois em agradáveis manchas o resto da serra, até onde podem.

Serra da Estrela. Vale glaciar do rio Zêzere

Da história antiga de Manteigas pouco se sabe. O imaginário popular remete para o tempo dos Mouros e conta ainda uma “história” de uma formosa mourinha encantada no lugar de Alfátema.

D. Sancho I deu-lhe foral em 1188 e D. Manuel renovou-o em 1514. E entre a agricultura e a pastorícia cresceu aquele povo que se desenvolve particularmente com a indústria dos lanifícios a partir do séc. XVIII beneficiando da energia das águas do Zêzere e da matéria-prima abundante vinda dos rebanhos da serra.

pastor na Serra da Estrela

Gosta-se de ver o casario de Manteigas, o mais antigo que se aninha como pintos à beira da mãe-galinha de uma igreja, enterrado neste covão fundo e belo.

ruas de Manteigas
ruas de Manteigas

Lá dentro vale a pena visitar as suas igrejas. A igreja de S. Pedro, matriz de uma das freguesias, com festa de Nossa Senhora da Graça e a igreja de Santa Maria, matriz de outra freguesia, com a festa do Senhor do Calvário.

E há uma capelinha dedicada a Nossa Senhora dos Verdes e a de Santo António e a de S. Lourenço, esta longe, na serra. Monumento civil notável é o solar dito a “Casa das Obras”, do 3°. quartel do séc. XVIII.

Há ainda o mistério das suas caldas, onde rebentam águas quentes debaixo desta terra que se cobre tanta vez de neve. Depois são as surpreendentes belezas naturais que a partir de Manteigas e nos seus termos se apresentam, apetecíveis, universo turístico de tal valia que não defraudará qualquer visitante. Pode ser até um mero Viveiro de Trutas. Ou é, a poucos quilómetros o Poço do Inferno, cujo caminho é território de Parque Natural. Maravilha da natureza esse despejar da Ribeira de Leandros, numa fragorosa cascata de luz coada por ramagem forte e onde o inverno gelado constrói, como adornos de cristal, os riozinhos de água que se despejam de tão alto.

Isto bastaria para visitar Manteigas, que, depois, convida a olhar dentro dos seus termos tão amplos essas outras naturais maravilhas que são as impressionantes construções da serra – o Cântaro Magro, o Cântaro Gordo e o Cântaro Raso, belas na sua nudez primitiva tanto quanto são belos cobertos de mantos de neve, assim reinando sobre território imenso, espécie de reis fantasmagóricos que souberam criar, como jardim para o seu inverno, o frondoso parque de bétulas do Covão da Ametade.

Cântaro Magro, Cântaro Gordo e o Cântaro Raso na mesma fotografia. Os “cântaros” são relevos situados no vale glaciar do Zêzere

O resto da terra onde Manteigas domina ainda fica para descoberta do visitante curioso, indagador.

TANTO CORAÇÃO DE MÁRMORE

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Campas a perder de vista, quase a invadir a paisagem envolvente! Saudades, lamentos, esperanças, datas de nascimento e morte, «ETERNA SAUDADE», «TÃO CEDO QUE TU PARTISTE» – tudo isso viria a ser gravado no mármore pela perícia do canteiro. Era preciso um canteiro. Ou mais. O pessoal do Marmorista do Lumiar, por exemplo, foi um dos que viria a pontificar no mester. Cruz, sim, poderia gravar-se ou mesmo esculpir. «Mas, senhora, não lhe parece que um coração ficava bem? A mostrar a todos quanto amor ali para sempre ficava perpetuado?»… E o campo santo acabou por ficar pintalgado de corações marmóreos, polidos, exultando na brancura do mármore de Estremoz/Vila Viçosa. Sensibilizaram-me esses corações.

– Que horas são, meu senhor?

A inesperada pergunta fez-me voltar à realidade do mundo de cá. Surgira, quase a medo, de uma das duas ciganas integralmente revestidas da negridão da partida, decerto há uns dias, de um dos familiares. Ali estavam, seguramente, desde que o guarda lhes franqueara o portão. Sentadas na berma da avenida central, à sombra fresca de uma das poucas árvores subsistentes.

– São quase 11, Amiga!

Cemitério Municipal de Camarate

Olharam uma para a outra, sem comentários. A fazerem contas, porventura, do tempo que ainda ali estariam. Se alguém mais do seu clã viria fazer-lhes companhia e chorar.

Minutos após minutos, rompia o silêncio o forte roncar esforçado de um avião a descolar. Recordei 4 de dezembro de 1980, trágico, ocorrido a dois passos dali, justamente após a descolagem. Tal como nesse dia, também agora um som forte era portador de sonhos, vontades de mudança, amores, tristezas… E lá se perderam todos na lonjura.

Chegou o carro funerário.

A barreira ergueu-se. Entrou. Seguimos em silenciosa marcha lenta até ao crematório. Último olhar ao caixão, na recordação – para mim – da camaradagem, das cumplicidades, das peripécias por que ambos, colegas de curso há 50 anos, havíamos passado. A vénia ritual aquiescente da viúva e, devagar, a urna deslizou para o seu destino.

A saudade viera para ficar. Os aviões continuaram a descolar. As ciganas ainda lá estavam, em silêncio.

Desse triste arrabalde de Lisboa vou querer recordar, acima de tudo, aqueles corações de mármore. Muito mais fortes, dolorosos e sinceros que os emojis perturbadores do meu cotidiano…

RECLUSOS DIZEM QUE COMIDA “CHEIRA A PODRE”

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157 reclusos do Estabelecimento Prisional (EP) do Porto assinaram um protesto contra a má qualidade das refeições servidas. No documento, os reclusos falam de má qualidade geral na confeção das refeições. Como exemplo, indicam especificamente o dia 22 de agosto quando o arroz tinha “cheiro a podre”.

Já antes, um dos reclusos desse EP tinha apresentado uma queixa por escreito, pelos mesmos motivos. Nessa queixa, a que tivemos acesso, Hugo Luz Martins manifesta desagrado “pelos calamares e pelos douradinhos que constam regularmente no menu” e garante que “todos os reclusos partilham este pesadelo, com gastroenterites e mal estar após alimentação na cantina”. Esta queixa foi apresentada em 10 de julho e teve resposta da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP) no dia 30 do mesmo mês., com a resposta da nutricionista responsável por aquele serviço.

Diz a nutricionista, basicamente, que a comida é boa e que os serviços que superintende faz inspeções periódicas à cozinha do EP do Porto e que nunca se deparou com nada que corrobore as queixas apresentadas.

Talvez por isso, o abaixo-assinado agora divulgado.

O MAR QUE NOS FALTA

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Mar nostalgia

Portugal é um país que historicamente se conjugou no futuro do pretérito. Somos a nação do “haveria de ser”, alimentada por um sebastianismo que transferiu para o horizonte a resolução das nossas angústias imediatas. Quando transpomos a interrogação metafísica do amanhã para o solo específico deste retângulo à beira-Atlântico, a pergunta pelo “nosso futuro” deixa de ser uma abstração cosmológica e passa a ser um debate sobre a nossa própria substância identitária. O que significa, afinal, o amanhã para um povo que se define tanto pelo que já foi?

A nossa primeira grande encruzilhada filosófica reside na tensão entre a memória e a possibilidade. Portugal sofre de uma gravidade histórica que atrai os nossos olhos constantemente para o retrovisor. O mar, que outrora representou a abertura radical ao desconhecido e ao porvir, tornou-se uma metáfora de nostalgia. Corremos o risco latente de transformar o país num museu de si mesmo, onde o futuro não é uma tela a ser pintada, mas uma concessão burocrática ditada por agendas externas e fundos estruturais. A verdadeira soberania do amanhã exige que deixemos de ser apenas herdeiros de um passado épico para passarmos a ser os arquitetos de uma contemporaneidade audaz.

Há também um paradoxo demográfico e humano que desafia a coerência do nosso destino. Assistimos a uma geografia fraturada: por um lado, um interior que se esvazia em silêncio, como se o futuro ali fosse uma promessa suspensa; por outro, centros urbanos híper conectados, mas que enfrentam a diluição dos laços comunitários em nome de uma modernidade líquida e turística. A interioridade em Portugal não é apenas uma distância quilométrica, é um isolamento existencial. O nosso futuro depende crucialmente da nossa capacidade de reconciliar estas duas velocidades, compreendendo que a coesão territorial é, antes de tudo, uma exigência de justiça ética.

Além disso, a portugalidade enfrenta o desafio da universalidade. Sempre fomos um cais, um ponto de partida e de chegada. Hoje, o amanhã de Portugal desenha-se na encruzilhada entre os jovens qualificados que partem em busca de horizontes mais largos e as novas vagas de imigração que procuram no nosso solo uma nesga de esperança. Esta dinâmica transforma a nossa identidade numa matéria maleável. O futuro português não será definido pela pureza de uma herança estática, mas pela generosidade da nossa hospitalidade e pela nossa inteligência em integrar a diferença sem perder a nossa matriz afetiva, a nossa singular “humanidade de proximidade”.

Portanto, “o nosso futuro em Portugal” não está escrito nos decretos de Bruxelas nem nas flutuações do turismo global. O amanhã deste país decide-se na audácia de contrariar o fatalismo do “sempre foi assim”. Decide-se na capacidade de valorizar o conhecimento, de fixar o talento e de cuidar da nossa paisagem humana e natural. Se o futuro é uma construção da vontade, Portugal precisa de ousar desejar-se a si próprio no presente, não como uma periferia resignada, mas como um centro de pensamento, sustentabilidade e dignidade.

DEMOCRATAS FINGIDOS

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De forma unilateral e proteccionista altamente exagerada, Donald Trump, sem politicas progressivas nesse sentido, bloqueia abruptamente as exportações dos países europeus para o seu país (e não só) que já tinham “contabilizados”, despesas e lucros com os respectivos importadores na venda dos seus produtos.

Pensou, como iria conseguir a sua politica de asfixiar a Europa? Como conseguir que ela “se afunde” de forma que ninguém o responsabilize directamente? Tirou da “cartola”, muito bem pensado, uma crise energética. O estreito de Ormuz tornou-se o local ideal para orquestrar a sua música, claro que juntou a si o “homem dos ecos”. Orquestra sem “ecos” nem é orquestra. Nesta sua gestão “orquestral”, quanto a nós, quando a guerrilha começa a “prometer” o barril do petróleo mais baixo, ele ataca os interesses do Irão para que o preço do barril suba. A Europa vai agonizando lentamente sem que se tome uma atitude nesta “União”. Bom, aqui entre nós, não é que ele tem razão quando afirma que os lideres europeus são fracos?

Estes autocratas vão tomando o mundo, como já outros existiram, alicerçando a atitude totalitarista na iliteracia politica dos povos. É que para eles, o povo só sabe sofrer e até não aprende nada com estas situações para conseguir atalhar os problemas que se lhe adivinham.

Estes governantes, são a origem do seu poder, não reconhecem nenhum controlo do estado. Quando são governo, paulatinamente vão esvaziando os poderes do estado, da justiça, no escrutínio aos governantes e à sua governação. Também eliminam os adversários políticos com campanhas difamatórias. Sabem construir uma “fachada democrática”, mas que é uma verdadeira farsa. Suavemente vão cimentando o seu lugar, fazem desaparecer leis que protegiam o povo para criar leis que parecendo ser para o povo, possuem nuances que limitam liberdades e garantias e estão de acordo com os seus interesses e dos que a estes autocratas se unem.

A imprensa livre passa a não existir, tudo é metodicamente desmantelado, só ficam os média que estão a favor para promoverem este tipo de personagens. Todo o sistema de controlo que estes governantes possam proporcionar, é meramente simbólico, porque a existir, não lhe é conferida nenhuma autoridade, logo, o contrapoder não existe para escrutínio, é sempre uma fachada, só serve para legitimar todas as decisões do autocrata.

Já tivemos um governo assim, com uma policia altamente repressiva do pensamento do povo. Tantas e tantas vítimas causou. Sabemos dessas histórias e do quanto custou virar essa página negra. Nos sistemas autocráticos, até a Internet é controlada para que a propaganda contrária ao modo de governação não se faça sentir, para que os partidos políticos que queiram “aparecer” não tenham espaço mediático.

Olhando o nosso caso, o que está a tentar sair para uma repetição histórica que terminou há 52 anos, vislumbram-se nuances preocupantes, só não vê quem está distraído e tem até 62 anos nessa mesma distracção… Alguém me referiu: “É impossível um regresso ao passado, eles nem têm ninguém que tenha qualidade para governar”. O problema não é só o visível, sim o que está oculto e é a força que impele a “marionete” para o palco. Essa força é quem irá mandar sobre tudo e todos, num repente até afastam algumas marionetes que colaboraram afincadamente no “guião”, porque já não têm interesse nenhum para o seu novo sistema. Fazem vítimas nas próprias “ninhadas”.

Tudo isto é um ponto de análise, mas há uma verdade que não tem contestação possível, e que temos que ter em conta, sempre: Uma coisa é ser oposição democrática, construtiva, ao governo, outra é ser oposição ao regime democrático. E “eles” são-no! Temos que permanecer atentos!

FEIRA DE S. MATEUS, MAIS DE 1 MILHÃO DE VISITANTES

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A velha Feira Franca de Viseu que o povo assim designou até recente data e que amortecera nos derradeiros anos do séc. XIX, renascerá ao abrir do segundo quartel do séc. XX graças ao relevante impulso desse empenhado agente cívico e cultural que foi Francisco de Almeida Moreira (1873-1939) que foi empenhado Vereador da Cultura da Câmara Municipal, responsável pela Comissão de Iniciativa e Turismo e Director do Museu de Grão Vasco o qual fez da mesma uma exemplar feira popular singularmente atractiva para os visitantes que a ela acorriam do Norte e Centro do país.

Renovando-se a espaços que alargaram a sua geografia física onde ponteiam hoje, como esteios, o grande Pavilhão Multiusos, o Palco dos grandes Concertos, uma atractiva e moderníssima área de Restauração que se complementa com os emblemáticos pavilhões das Farturas e das Enguias, de gosto popular, a gigantesca superfície associada a áreas de diversão para adultos e crianças, a abonada área de mercado com suas tendas onde ganham terreno as populares olarias, uma área de bares e de animação nocturna, a Feira de S. Mateus, “símbolo identitário de Viseu”, motor de uma economia mais sólida, icónico espaço de encontro de gente que ali acorre de todo o país, é bem o espelho desta cidade de Viriato e de Grão Vasco.

Entidades responsáveis pela realização do certame são, desde 2016, a Câmara Municipal de Viseu e a Associação Viseu Marca cabendo a esta a anual gestão a que vai imprimindo padrões de modernidade sem que se perca esse feitiço que traz de um longo passado, o de uma das mais antigas feiras da Península.

publicado em 600 ANOS DE HISTÓRIA

E o público responde e testemunho de tal foi o número de visitantes que deram entrada no recinto durante os 30 dias da feira, com mais de 1 milhão de registos.