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FARTO DO FACEBOOK

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As plataformas de redes sociais existem para gerar lucro às empresas que as detêm. O modelo de negócio assenta, sobretudo, em duas vias: cobrar subscrições a quem não quer ser soterrado por publicidade e vender espaço publicitário a quem quer captar atenção.

Se alguém ainda acreditava que estas redes nasceram para as pessoas comunicarem gratuitamente entre si, convém desfazer o equívoco. A comunicação entre utilizadores é o meio que cria o campo de negócio.

O problema surge quando a publicidade que circula nessas plataformas nem sempre é propriamente edificante. Aparece de tudo: esquemas duvidosos, promessas milagrosas, sexualização barata, especulação travestida de oportunidade. E é aqui que o discurso oficial começa a cheirar a farsa.

As famosas políticas de “defesa da comunidade”, supostamente criadas para garantir um ambiente saudável, parecem muitas vezes mais empenhadas em proteger os interesses de quem paga anúncios e de quem financia mensagens políticas patrocinadas.

O caso mais recente que me aconteceu é revelador. Republiquei no meu grupo de Facebook uma imagem publicitária que me surgiu na timeline: em cima, uma mulher de pernas abertas “disponível para conversar”; em baixo, mais uma promessa de enriquecimento instantâneo através de ações que renderiam 780 euros por dia.

A publicação desta imagem foi enquadrada por um texto curto onde criticava este tipo de publicidade

Resultado: fui castigado pelo algoritmo zelador. Fiquei impedido de publicar em grupos, sem acesso a várias ferramentas, com limitações no perfil e nas páginas onde colaboro como administrador.

Penalização por criticar a publicidade do Facebook

Reclamei. Inicialmente reconheceram o erro. Minutos depois voltaram atrás e repuseram as sanções. Justificação? Nenhuma.

Antes e depois, no espaço de minutos. Sem qualquer justificação.

Ora, se a mensagem era ofensiva ou perigosa, quem a publicou primeiro foi a própria plataforma. Quem a monetizou foi a própria plataforma. Mas, pelos vistos, denunciar a publicidade tóxica é mais grave do que vendê-la. Eis a hipocrisia em estado puro.

As redes sociais têm dono, evidentemente. Mas isso não lhes devia dar licença para exercer poder arbitrário. No mínimo, deveriam cumprir três regras simples:

  1. Não aplicar sanções sem dar ao utilizador oportunidade de resposta.
  2. Justificar de forma clara qualquer penalização imposta.
  3. Impedir que decisões punitivas sejam tomadas exclusivamente por automatismos opacos.

Dá trabalho? Custa dinheiro? Exige contratar pessoas em vez de delegar tudo num algoritmo? Sem dúvida. Mas empresas que acumulam fortunas colossais não podem invocar pobreza quando chega a hora de respeitar quem lhes sustenta o negócio.

25 DE ABRIL, SEMPRE

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Os que descem a Avenida da Liberdade neste 25 de abril de 2026 não são apenas os que se lembram do país de antes de 1974. São, sobretudo, os que recusam esquecê-lo. Há quem traga na memória os dias vividos sob ditadura; há quem tenha aprendido, nos livros e nos testemunhos, o que significaram a pobreza, a repressão, a guerra colonial e o analfabetismo. A memória é uma escolha contínua. A memória é um vício.

Os mais velhos, que podem falar na primeira pessoa, são cada vez menos. O tempo faz o seu trabalho. Cabe aos mais novos não apenas saber, mas compreender e agir à altura do que herdaram.

Cinquenta e dois anos depois da revolução, o país mudou, como sempre muda. As maiorias parlamentares também mudaram. Hoje, temos na Assembleia da República deputados de extrema-direita, notóriamente fascistas. A democracia está em perigo, temos de lutar por ela, de novo. Esse é um compromisso exigente, que todos os democratas devem assumir.

Descer a Avenida da Liberdade não pode ser apenas um ritual. Deve ser um gesto de todos os que entendem que a democracia não é garantida, e que Abril é uma tarefa em aberto.

FERNANDO NEGRÃO NA APAR

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Em comunicado, a Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso (APAR) anuncia que o antigo ministro da Justiça, Fernando Negrão, é o novo Presidente do Conselho Consultivo da APAR.

Lacónico, mas de onde transparece um sentimento de contentamento, talvez mesmo de agradável surpresa, o comunicado refere que o convite a Fernando Negrão foi feito pela nova Presidente da Direção, a advogada Mónica Quintela.

“Dificilmente a APAR poderia conseguir um nome que reunisse um consenso tão completo”, diz esta associação que pugna pelos direitos humanos no sistema prisional.  A constituição do novo Conselho Consultivo será anunciada em breve, promete a APAR.

No curriculum profissional e político de Fernando Negrão, constam múltiplos desempenhos, entre os quais, a profissão de Juiz de Direito, Vogal do Conselho Superior da Magistratura, Presidente do Conselho de Administração do Instituto da Droga e da Toxicodependência, Ministro da Segurança Social, da Família e da Criança, Director-Geral da Polícia Judiciária, Ministro da Justiça, Deputado e Presidente do Grupo Parlamentar do Partido Social Democrata. É, de facto, uma aquisição de peso, para a APAR.

O anterior Presidente do Conselho Consultivo foi o Juiz Desembargador Jubilado Jacinto Meca.

A FOTOGRAFIA DO MOMENTO

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É uma imagem reveladora. Há nela qualquer coisa de encenado, um simbolismo coreografado nas mãos sobrepostas, como se a tentativa de demonstrar unidade acabe por revelar, precisamente, a necessidade de a fabricar. Falta-lhe espontaneidade.

O pacote financeiro agora anunciado pode ser apresentado por Bruxelas como abrangente (apoio económico, reconstrução e assistência), mas Volodymyr Zelensky foi claro na sua leitura: para Kiev, o essencial continua a ser o reforço da capacidade militar e a continuidade do esforço de guerra contra a Rússia.

A ocasião serviu também para assinalar o 20º pacote de sanções à Rússia. A eficácia destas medidas é discutível. Não porque sejam irrelevantes, mas porque estão longe de produzir o efeito decisivo que, implicitamente, lhes foi sendo atribuído ao longo do tempo. Além de que existe um efeito de boomerang e onde o custo de vida sobe mais é nos países da Europa.

António Costa sublinhou ainda que está na altura de a Ucrânia iniciar o processo de adesão à União Europeia. Trata-se de um passo de enorme alcance político, mas que levanta questões inevitáveis sobre timing, critérios e coerência dentro da própria União.

Tudo isto nos leva ao essencial: quem decide, e com que grau de legitimidade? Nem António Costa nem Ursula von der Leyen foram eleitos diretamente para os cargos que hoje ocupam. São o resultado de equilíbrios institucionais, de escolhas e negociações entre outros líderes de Estados-membros. Já Volodymyr Zelensky é um Presidente eleito, mas com mandato caducado por imposição de um contexto de guerra que suspendeu o calendário eleitoral.

A arquitetura política da União Europeia permite precisamente isto: decisões estruturais tomadas por figuras cuja legitimidade é mediada, indireta, muitas vezes distante do escrutínio direto dos cidadãos. Eles podem ter legitimidade institucional, mas não podem negar que neste sistema político existe défice de proximidade democrática que se torna mais visível quando estão em causa opções de longo alcance, envolvendo centenas de milhões de europeus.

A fotografia, nesse sentido, vale mais do que o momento que pretende celebrar. Expõe um modelo político onde a aparência de unidade pode esconder tensões, e onde o exercício do poder continua a depender de mecanismos que nem sempre são claros para aqueles em nome de quem se decide.

ZELENSKY ABRIU NEGÓCIO DE VENDA DE ARMAMENTO

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Zelensky diz que “a Ucrânia possui seu próprio armamento de mísseis de longo alcance.” E mostrou os modelos ‘Flamingo’, ‘Ruta’, ‘Peklo’ e ‘Neptuno’, ‘Palianytsia’ e ‘Vilcha’, uma panóplia de mísseis sofisticados que ficam à disposição dos EUA e aliados, na condição, porém, de apoiarem a Ucrânia na guerra contra a Rússia.

Além dos mísseis de longo alcance, Zelensky mostrou, igualmente, drones voadores, terrestres e marítimos, máquinas de combate comandadas à distância com um joystick, como nos jogos da Playstation. “Todos veem o alcance histórico de nossos drones, atingem alvos a mais de 1750 quilômetros da nossa fronteira”, gabou-se o Presidente ucraniano.

E são muitos e variados, a julgar pelas designações com que foram baptizados: ‘Sichen’, ‘Liutyi’, ‘Morok’, ‘Bars’, ‘Obriy’, entre outros.
Ainda há dias, a imprensa ocidental reproduziu o êxito destas máquinas, quando (a acreditar na narrativa divulgada) “pela primeira vez na história desta guerra, uma posição inimiga foi tomada exclusivamente por plataformas não tripuladas, NRK e drones.”

Zelensky vende a tecnologia militar que americanos e europeus introduziram ou ajudaram a desenvolver e vende, também, a experiência dos seus militares. Diz o Presidente da Ucrânia que, se o ocidente quiser desimpedir o Estreito de Ormuz, os seus rapazes resolvem o problema, “se os parceiros oferecerem cooperação em igualdade de condições, a Ucrânia pode ajudar.”

Zelensky percepciona as guerras de Trump como uma oportunidade para a Ucrânia renovar votos de parceria guerreira com os principais países europeus e, talvez, até com o próprio Trump. Se for bem sucedido, teremos uma nova escalada na guerra contra a Rússia.

PORTUGUÊS: O ‘DESESPERO DE CAUSA’

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A desculpa costuma ser a mesma: é o novo acordo ortográfico. Não. Não é! São conjugações verbais, são verbos. Por muito que eu rejeite o malfadado AO.

E há mais desculpas, ridículas. Não seriam desculpas se não fossem como todas as outras desculpas, ridículas. ‘Todas as cartas de amor são/ Ridículas./ Não seriam cartas de amor se não fossem/ Ridículas’. Não que Fernando Pessoa gostasse que eu aplicasse o seu brilhante poema à burrice que grassa por aí. Mas, enfim. Haja paciência!

Vem tudo isto a propósito do verbo ‘meter’. Hoje toda a gente mete tudo em todos os sítios. Metes graça, metes nojo, metes no livro, e tantos outros exemplos. Basta, aliás, ligar as televisões e aí está o verbo meter. As pessoas ignoram o verdadeiro significado da palavra: inserir, pôr dentro, fazer entrar, introduzir, incluir.

E todos estes ‘meter’, em lugar de pôr, colocar e outros sinónimos, me fizeram lembrar a história de uma velha amiga, exigentíssima professora de Português, que, depois de sucessivas chamadas de atenção para o uso indevido do verbo, ao ouvir um aluno do 11º ano afirmar que ‘a reação dela meteu-o furioso’ e ‘meti no texto’, perdeu a cabeça. Saturada do insucesso das suas pregações, decidiu recorrer a um momento performativo: pediu ao aluno que enrolasse muito bem uma folha. ‘Um rolo que ficasse fininho, e que depois o METESSE naquele sítio que ele bem sabia’.

Confessa a minha amiga que não tem orgulho deste episódio, ‘antes pelo contrário’. Mas, pelo menos, acredita que, pelo inusitado do argumento, ele tenha ficado na memória do aluno prevaricador ‘como uma espécie de semáforo semântico’, bem como na do resto da turma que assistiu à situação, entre incrédula e divertida.

Espero que, depois disto, metam juízo na cabeça quando aprendem português. DE UMA VEZ POR TODAS!!!!

ENQUANTO A EUROPA PERDE O PASSO A CHINA ACELERA

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O diagnóstico da paralisia europeia em contraste com o passado

A Europa encontra-se, nesta fase da história, numa posição paradoxal: nunca acumulou tantos recursos de conhecimento, nunca discursou tanto sobre o futuro e nunca esteve tão emperrada. O que outrora foi ponta de lança das civilizações, do método científico ao Estado de direito, da Revolução Industrial à integração pós-nacional, reduz-se hoje a um continente que marca passo, tropeçando até nas suas próprias instituições.

O problema não é de conteúdos. Muitos dos valores e princípios que a Europa produziu continuam válidos: a separação de poderes, a liberdade de investigação, a protecção social, o humanismo crítico. A questão está na linguagem e na forma de os tornar operativos. A linguagem tornou-se antiquada quando tenta evocar um passado glorioso sem o traduzir para os desafios presentes; e tornou-se verborreica quando se refugia em jargão sociopolítico, “Defesa dos valores”, “transição justa”, “soberania estratégica”, “resiliência”, que funciona menos como conceito operacional e mais como analgésico discursivo para um povo distraído. O resultado é uma cultura política que confunde intensidade declamatória com acção.

A lição incómoda da China

Criticámos a China de maneira sobranceira, muitas vezes com razão, especialmente no que toca ao controlo comunista, à ausência de um cidadão soberano no sentido ocidental e à repressão sistemática de liberdades fundamentais. Essa crítica sobranceira impediu-nos de ver o óbvio: a China passou-nos a perna em sectores decisivos da ciência e da técnica, sobretudo nas tecnologias limpas.

O caso do automóvel eléctrico é exemplar. A indústria europeia, protegida durante décadas por um status quo confortável de motores de combustão, foi apanhada em contrapé. Enquanto o debate europeu se consumia em quotas de emissões e calendários de proibição, a China produzia, escalava e baixava preços. Hoje, oferece ao seu cidadão comum um veículo eléctrico acessível, não por caridade, mas por planeamento industrial agressivo, economias de escala e uma lógica que a Europa esqueceu: a de que a inovação sem penetração de mercado é mero exercício académico.

As pessoas e isto é um facto empírico, não um juízo moral, querem comer e viver bem. Não olham com rigor a quem as obriga, desde que as necessidades primárias estejam satisfeitas e haja perspectiva de melhoria. Este realismo elementar, que Maquiavel já entendia, continua a escapar às elites europeias, demasiado ocupadas a gerir a sua própria virtude sinalizadora.

A hipocrisia do controlo velado e dos discursos vazios

A Europa sempre se prezou dos seus valores humanistas e do seu pioneirismo. Mas, paradoxalmente, nunca exerceu tanto controlo sobre as populações como hoje; fá-lo de maneira mais sofisticada e aparentemente democrática. Onde a China usa um partido único e uma arquitectura explícita de vigilância, a Europa usa regulamentação assimétrica, algoritmos de pontuação social disfarçados de “análise de risco”, condicionalidades de fundos europeus que moldam comportamentos, e uma correcção política que actua como censura difusa, sem necessidade de decretos.

A diferença não é de essência, mas de estilo. O Ocidente aproxima-se perigosamente do sistema que critica, a nível de controlo e influência da consciência social. A diferença é que o faz de maneira velada e hipócrita, de maneira a que a maioria das populações não se dê conta, porque as suas necessidades primárias encontram satisfação. O cidadão europeu médio, entretido com o acesso ao crédito, à saúde e à conectividade digital, não percebe que o seu espaço de dissentimento se estreitou tanto como o do chinês, apenas com verniz procedimental.

A economia política dos preços altos

Há uma verdade incómoda que raramente se enuncia: na Europa, quem conta primeiro a nível de empreendimentos são as grandes empresas. O Estado e os seus governantes não estão interessados em preços baixos para o povo, porque quanto mais caros são os produtos, mais o Estado ganha à custa do povo que paga (IVA, impostos especiais de consumo, contribuições sociais embutidas nos preços). O sistema fiscal europeu é progressivo na retórica, mas profundamente regressivo na prática quando sobrecarrega o consumo de bens essenciais e de transição energética.

A China, inversamente, usa o seu controlo estatal para forçar preços baixos em sectores estratégicos, mesmo à custa de margens e de concorrência predatória externa. O resultado é que o cidadão chinês médio acede a tecnologias limpas, telecomunicações e infraestrutura a custos que o europeu considera irrealistas. Enquanto a Europa impõe tarifas “anti-dumping” ou regulações ambientais que funcionam como barreiras não pautais, está na realidade a proteger não o trabalhador, mas a ineficiência instalada e a captura de renda pelas grandes empresas que considera relevantes para o Estado.

O futuro: aprender uns com os outros sem dogmas

A tese final é simples e incómoda para ambos os lados: a China tem muito a aprender com a Europa em matéria de soberania do cidadão, de garantias processuais e de pluralismo. Mas a Europa tem muito a aprender com a China em matéria de eficácia executiva, de visão industrial de longo prazo e de coragem para subordinar interesses instalados ao bem-estar material da população.

O futuro em que todos aprendem uns dos outros não é um futuro sem conflitos, é um futuro sem posições dogmáticas. O dogma ocidental de que a democracia liberal é condição sine qua non para o desenvolvimento tecnológico está factualmente errado: a China desmentiu-o. O dogma chinês de que o controlo partidário é compatível com a inovação sustentada a longo prazo também enfrenta os seus limites, na demografia, na criatividade reprimida, na fuga de cérebros.

A política não deve emperrar as relações económico-comerciais entre os povos, não por idealismo cosmopolita, mas por realismo: porque só assim se serve o povo. E servir o povo significa entregar resultados mensuráveis: poder de compra, esperança de vida, mobilidade social, acesso a tecnologia, liberdade efectiva de escolha. Qualquer sistema que se meça apenas pela pureza dos seus princípios, e não pelos seus efeitos, está condenado à irrelevância ou à hipocrisia.

A Europa ainda pode reivindicar o seu lugar como ponta de lança. Para isso, a elite europeia terá de abandonar a verborreia, baixar a sobranceria, e enfrentar uma verdade desconfortável: já não é ela só a ensinar; também ela tem de aprender. E aprender, para uma civilização que se quer humanista, é o acto mais humilde e mais forte porque passa a caminhar com o povo sem perder a bússola da mão.

TIREM-ME DESTE FILME…

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A contradição é apenas aparente. O problema não está na extensão (um calhamaço com mais de 700 páginas), está na saturação. A sucessão de esquemas manhosos, dissimulações e episódios criminosos que envolvem militantes e dirigentes do Chega, acabou por produzir um efeito estranho: não me chocou, cansou-me. Não me surpreendeu, enjoou-me.

O livro expõe com clareza um padrão de comportamento. Uma repetição insistente de práticas que atravessa a história do Chega desde a sua fundação até à sua consolidação política. O líder do Chega tem a habilidade de ignorar as críticas, contornar as questões, virar os problemas a seu favor, é um habilidoso contra-atacante. O livro consolida essa perceção que temos dele.

E talvez seja aqui que começa o problema sério. Não no que o livro revela, mas no que acontece fora dele. Perante este tipo de retrato, o partido não só não perde relevância como cresce, instala-se, normaliza-se.

A mim, não me surpreende que esse partido seja uma associação de oportunistas e malfeitores. Enoja-me. Mas o mais inquietante é que, para muitos, isso parece não ser motivo suficiente para recusar o voto. Verdadeiramente perturbador, por isso, não é o conteúdo do livro. É o facto de, perante este tipo de retrato, uma parte relevante do eleitorado continuar a ver ali uma alternativa credível.

CHÃO DE ROMANOS

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Depois de, no dia 10, se ter oficialmente inaugurado a apresentação do ‘pavilhão’ que passou a resguardar esse policromado pavimento, agora consolidado, que tanto teria embelezado a casa do senhor romano que, com a família e toda a criadagem, aí viveu, há dois mil anos, importava mostrar como essa requintada peça arqueológica fora descoberta, protegida, consolidada e, agora, devidamente mostrada à população.

Falou José d’Encarnação, sob cuja orientação (em colaboração com Guilherme Cardoso) haviam decorrido, entre 1985 e 2002, os trabalhos arqueológicos que levaram à identificação e estudo do sítio.

A recuperação e preservação do mosaico, na sequência da atenção que a villa foi merecendo do Município ao longo dos anos, constitui para ambos os arqueólogos, disse, motivo de gratidão e natural felicidade, por ser o culminar do projecto em curso. Referiu a circunstância de, para ambos, então docentes na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Faculdade Nova de Lisboa, essas campanhas anuais terem sido mui proveitoso complemento prático das aulas teóricas, regozijando-se por desse leque de estudantes terem saído bastantes arqueólogos actualmente em plena actividade. Agradecem-lhes, a esses estudantes, a toda a equipa e ao Município, cujos técnicos souberam compreender o património ali posto a descoberto.

E, por ter dito que ‘se está em continuidade’, mostrou a capa do livro que acabou, há dias, de ser impresso, edição da Associação Cultural de Cascais: o repositório ilustrado dos mais significativos objectos de uso quotidiano exumados não apenas de Freiria, mas das outras villae, cuja descoberta nos últimos tempos se havia concretizado. Neste A Presença Romana em Cascais – Um território da Lusitânia ocidental”, estão publicadas imagens de 271 peças e mais de 50 fotos e plantas de sítios arqueológicos.

Nesta foto: José d’Encarnação.
Na fotografia da direita: Guilherme Cardoso

Guilherme Cardoso historiou, por seu turno, o que havia sido esse labor, desde a descoberta da villa, em 1980, e a razão por que se tomara a decisão de iniciar aí trabalhos arqueológicos, primeiro de prospecção e depois de escavação. Deteve-se a mostrar as fases por que passara o mosaico, desde a mui cuidadosa alegria da sua descoberta, em 1986, e a sua escavação na integra, em 2002, até agora.

Coubera à arquitecta Ana Rita Aguiar, da Divisão de Projetos de Edifícios e Equipamentos da Câmara, a elaboração do projeto de cobertura para o mosaico. Não lhe tendo sido possível estar presente, foi o arqueólogo Severino Rodrigues quem fez a respectiva apresentação, desde o projeto inicial até à musealização.

Paulo Rebelo e Catarina Bolila, da empresa Neoépica, falaram dos trabalhos arqueológicos levados a efeito, por precaução, nos sítios onde foram implantadas as sapatas dos alicerces que suportam a estrutura de proteção do mosaico.

Por último, Victor Gonçalves, da ERA – Arqueologia, falou dos trabalhos que a empresa executou para conservar e restaurar o mosaico, que decorreram desde 2017 até 2026.

da esq. para a direita: Severino Rodrigues, Paulo Rebelo, Catarina Bolila e Victor Gonçalves

Enfim, um Dia Internacional aqui comemorado de forma bem especial e até, porventura, incomum, num concelho de características (diz-se…) privilegiadamente urbanas, pois que ali se falou de… características rurais desde mui recuadas eras.

                                                                      

DA SINISTRALIDADE À PRESCRIÇÃO DE CRIMES

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Sejamos claros, se o governo quisesse, efectivamente, reduzir a sinistralidade, não teria aprovado a aprendizagem com um tutor, que representa ‘um grande retrocesso’ e ‘um risco para a segurança rodoviária’.

Acresce que, apesar da sinistralidade, em Portugal, apresentar uma das taxas mais altas da Europa, com elevado número de mortes e pessoas incapacitadas, ocorreu uma redução do número de óbitos e de feridos desde 2005.

Vejamos: naquele ano, tivemos 1.094 vítimas mortais e 3.762 feridos graves. O relatório da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), referente a esse ano, manifestava a intenção de reduzir, até 2010, o número de mortos para 874 e fixar o número de ferido graves em 3.799.

Em 2026, e até esta data, registaram-se cerca de 44.063 acidentes, com 146 vítimas mortais e 641 feridos graves, ou seja, um número bem inferior ao de 2005 e da previsão para 2010.

Portugal, de acordo com dados de 2024, é o sexto país da UE com mais mortes na estrada por milhão de habitantes, atrás de outros como a Roménia (78), Bulgária (74), Grécia (64), Croácia (62) e Letónia (60), uma realidade que, ao longo dos anos, vem assolando as vias rodoviárias portuguesas e, cruelmente, destrói as famílias, constitui um flagelo social de enormes proporções que impõe a todos quantos podem contribuir para a sua redução – órgãos de soberania, responsáveis técnicos pela concepção, construção e manutenção das vias, autoridades policiais, passando por condutores e peões – o dever de colaborar num permanente esforço em defesa da vida e da segurança rodoviária.

Com efeito, não pode o País continuar a aceitar e conformar-se com o facto de as suas estradas se encontrarem entre as mais perigosas da União Europeia, como sobejamente o demonstram as estatísticas oficiais da sinistralidade.

Importa, por conseguinte, contribuir para o aperfeiçoamento e prossecução da política de prevenção e segurança, apostando no reforço da prevenção e da fiscalização, na melhoria da segurança das infraestruturas e da sinalética, a par de outras que passam pela introdução do ensino da circulação nas escolas e pelo reforço dos meios colocados à disposição das autoridades com competência para regular e fiscalizar o trânsito.

O ministro da Administração Interna e o governo apostam na repressão, como forma de dissuasão da sinistralidade. Esta opção, pode ser rentável para os cofres do Estado, mas não irá resolver o problema. A aposta tem e deve ser na prevenção, que não dá tanto impacto a pulsões populistas, mas que se torna, a prazo, muito mais eficaz e consolida o combate à sinistralidade.

A prevenção é fundamental e um governo que governasse a pensar no País, e não em outras coisas, deveria, no âmbito da Prevenção:

1. Implementar o ensino da circulação e segurança rodoviária nos pré-primário, básico e secundário;

2. Promover projectos educativos de prevenção rodoviária, envolvendo as famílias e as escolas, e criação de escolas de trânsito, integradas nos equipamentos urbanos, ao nível autárquico;

3. Promover campanhas pedagógicas de informação e sensibilização sobre a circulação e segurança rodoviária, alertando para os perigos do excesso de velocidade e de manobras perigosas e para a condução sob o efeito de bebidas alcoólicas, de estupefacientes e substâncias psicotrópicas, como comportamentos destrutivos e anti-sociais;

4. Criar uma linha verde destinada a permitir o alerta para a sinalização errada, contraditória ou omissa, o mau estado dos pavimentos e demais deficiências das infraestruturas rodoviárias; 5. Assegurar maior participação institucional nas campanhas de prevenção das entidades não governamentais, com actividades nas áreas de prevenção e segurança; 

6. Condicionar a venda de bebidas alcoólicas em todas as áreas e postos de abastecimento de combustível;

7. Alertar para o risco da utilização de telemóvel durante a condução. Também é necessário alertar os peões para o perigo que representa o uso do telemóvel na rua.

E no âmbito da Segurança:

1. Realizar novos estudos visando o levantamento das zonas de acumulação de acidentes e a apresentação das necessárias medidas correctivas e de melhoria das infraestruturas viárias, que conjugue a cooperação entre todas as entidades envolvidas no processo.

2. Aprovar um programa de melhoria da segurança das infraestruturas das vias públicas, em especial nos pontos que apresentem elevado risco de acidente, bem como o reforço da segurança dos veículos e peões.

3. Reforçar a sinalização das vias ou troços de vias que apresentem elevada sinistralidade ou nas quais a intensidade do trânsito, as condições climatéricas ou as características dos pisos  o aconselhem, através da instalação de painéis electrónicos de informação variável, em número suficiente.

4. Fiscalizar regularmente o estado de conservação das estradas e pontes públicas, em especial sempre que estas evidenciem sinais de degradação, garantindo a sua manutenção e funcionamento em condições de segurança.

E no âmbito da Fiscalização / Repressão:

1. Reforçar os meios colocados à disposição das autoridades com competência para regular e fiscalizar o trânsito, em especial nos pontos que apresentem elevado risco de acidente, tendo em vista o combate às manobras perigosas e excesso de velocidade, designadamente, através de:

-Aumento do número de agentes e de viaturas destacados para regular e fiscalizar o trânsito;

-Aumento significativo do número de viaturas não identificadas e diversificação das suas marcas, modelos e cores;

-Instalação de radares fixos nos principais eixos rodoviários;  

-Intensificação da utilização da videovigilância na circulação rodoviária;

-Aumento do controlo da velocidade nos meios urbanos;

 -Utilização de meios aéreos para a fiscalização das vias rodoviárias;

Reforço da fiscalização de condução sob o efeito do álcool ou de substâncias legalmente consideradas como estupefacientes ou psicotrópicas, com o recurso a instrumentos de medição mais fidedignos.

E, voltando ao quadro sancionatório na acção repressiva, último ratio do plano de combate à sinistralidade, agravar as coimas e a retenção da licença de condução, nos precisos termos da Lei e sem recurso à habilidade de alargamento dos prazos de prescrição, porque se se abrir a porta a este alargamento, também se abrirá a porta ao alargamento do prazo de prescrição para todos os tipos de crime. A não ser que seja este o caminho e a intenção do governo para obter o apoio da ultra direita com quem, de facto, está coligado.