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ALMAS GÉMEAS

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à esquerda, Catedral e Museu Nacional Grão Vasco. (Foto Germano, anos 50 de séc. XX), à direita torres da Catedral vistas da varanda do Museu Nacional Grão Vasco

Catedral!… Quem vem de longe e sobe à cidadela é como se olhasse, bem de frente, os olhos de alguém e logo sentisse que estava em casa sua, que a porta estava aberta e era só entrar. Ou, então, ficar ali a conversar. E ali se contaria o tempo dela, que vem de longe, de quando já não há retrato dela.

Olhando a Sé, como quem olha de frente, pressente-se o antigo tempo românico da época condal de D. Teresa e D. Henrique que sediaram em Viseu (1109-1112). Pressente-se na arquitectura das torres, mesmo nessa que tombou devido a grosso temporal (1635) e derribou o corpo central da frontaria, obra magnífica de D. Diogo Ortiz de Vilhegas (1476-1519) levantada ao jeito dos delicados lavores do gótico final.

Quem entrar fica pasmado, ao olhar a sua abóbada dos nós (1513), que Grão Vasco retratou na sua tábua o Pentecostes e que faz daquele templo uma igreja-salão.

A torre dos sinos, colada ao Museu, foi levantada de novo pelo arquitecto João Moreno, que ali veio de Salamanca e fez o risco maneirista desse corpo central, que recorda retábulo de altar, lá onde estão, entronizadas, as figuras dos quatro evangelistas, S. Teotónio, ali prior, e Nossa Senhora da Assunção, a padroeira.

Quem entrar não deixe de olhar a abóbada dos nós. Não fique sem olhar a talha dos altares, esse mar de ouro do altar maior (1733-1734), onde campeia, entronizada, a mais bela imagem gótica, que houve de Maria, em Portugal: a Senhora do Altar-mor. E não deixe de olhar a mística capela de abóbada mudéjar, de que D. João Vicente fez panteão. E a sacristia, de que D. Jerónimo de Ataíde levantou, ao redor de 1574, o tecto pintado de grotesco, o revestimento azulejar.

Pode, então, subir a larga escadaria, que, dos topos do transepto, leva a uma alta galeria. E da Varanda dos Cónegos pode olhar o corpo inteiro da cidade. E pode entrar, por fim, no seu Tesouro, esse cofre de magia, onde se conta a sua história, como se escrita fosse em letras de oiro.

O Museu ali ao lado, titulado de Grão Vasco, fora antes Colégio ou Seminário. Foi moderno Paço episcopal levantado, onde os bispos já haviam tido medieva residência. Obra maior dos bispos D. Nuno de Noronha, que, em 1593, inicia a obra de pedraria, logo prosseguida por D. António de Sousa, entre 1595 e 1597, e depois continuada até receber os primeiros estudantes.

Nunca foi lugar vazio. Hoje é um Museu de Arte titulado Nacional.

BASE DAS LAJES MATA QUE SE FARTA

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O que já sabíamos era que o risco de desenvolvimento de tumores é significativamente superior ao normal (até 31 vezes mais elevado) em ambientes poluídos por hidrocarbonetos como o da Base das Lajes e zonas limítrofes.

Uma tese de doutoramento em Antropologia Forense, desenvolvida na Universidade de Coimbra por Félix Rodrigues, analisou esqueletos de habitantes da Terceira e detetou, nos de residentes da Praia da Vitória, concentrações significativamente superiores de dez metais pesados, entre os quais o cádmio, o crómio, chumbo e molibdénio,  face aos de residentes de Angra do Heroísmo, a 23 quilómetros de distância das zonas contaminadas.

Claro que tanto os militares norte-americanos como o Governo português vão, agora, argumentar que para estabelecer juridicamente e cientificamente o nexo causal com as doença cancerígenas que têm dizimado a população nos últimos anos, continua a ser necessário um passo adicional: demonstrar, através de estudos epidemiológicos e toxicológicos, que a incidência de determinados cancros é compatível com essa contaminação  e que outras explicações alternativas são menos prováveis.

Quer isto dizer que se alguém pretender encetar uma batalha legal por indemnizações pelos cancros que surgiram e que matam em índices muito mais elevados que a média nacional, vai ter um caminho difícil pela frente.

Não há qualquer registo histórico sobre litígios com o Governo dos EUA que tenha sido da iniciativa do Governo português. Esta questão da Base das Lajes é um tema politicamente sensível. A Base das Lajes tem uma importância estratégica para a relação entre Portugal e os Estados Unidos há décadas, pelo que qualquer alegação de danos ambientais ou de saúde pública tem inevitavelmente uma dimensão diplomática, financeira e jurídica, para a qual o Governo português não parece ter sido talhado.

A percepção que se tem das relações entre Portugal e os EUA é de um grande desiquilíbrio. Apetece utilizar a palavra “subserviência”, mas se dissermos que Portugal  tem, historicamente, procurado evitar conflitos públicos com os Estados Unidos em torno da Base das Lajes, estamos a utilizar uma afirmação mais sustentada por factos.

Em questões relacionadas com a utilização da base, os sucessivos governos portugueses têm adotado, em geral, uma posição de grande alinhamento com Washington.

Neste caso da contaminação ambiental, o processo arrasta-se há anos, com os americanos a reconhecerem a contaminação mas a protelarem a aplicação de medidas eficazes de descontaminação. A Praia da Vitória regista uma média superior a 90 novos casos de cancro por ano, uma boa parte são causa de morte. Se alguém pensa que eles irão aceitar responsabilidades, de ânimo leve, pela morte de centenas de portugueses contaminados, ao longo de décadas, pela poluição que eles provocam, desengane-se.

UM OLHAR DE ETNOARQUEÓLOGO SOBRE O DISTRITO DE LISBOA

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Reguengo Grande_ Telhado tradicional de com telha portuguesa

Foi uma possibilidade única de enxergar na prática um território que só conhecia, aquela época, pela rama. Até aquele momento o meu território resumia-se ao espaço físico compreendido entre o Cabo da Roca e Belém pelo que costumava dizer: “Lembranças da minha memória longínqua são os ventos da Azoia e a placa da rotunda de Algés, metade com ervas e a outra metade roçada”.

Foi através do conhecimento que detinha do território inicial que me foi possível realizar uma aprendizagem mais profunda sobre as populações da Península de Lisboa.

Povoação de Capelas_ Chaminé com saídas triangulares

Maria Micaela Soares, em Março de 1996, chamou-me à atenção para a importância que seria a nível pessoal, o conhecimento de uma realidade mais abrangente que eu até aquele momento não detinha e para coisas que não me apercebia, como a mudar o meu modo olhar e analisar os assuntos sobre outros ângulos.

No entanto a experiência que detinha do território geográfico a ocidente de Lisboa tornou-se fundamental para fixar, através da fotografia, realidades iguais ou diferentes das que já conhecia.

Destes registo saíram algumas exposições realizadas na Biblioteca da Assembleia Distrital de Lisboa e que vou a partir de hoje apresentar de modo a que outros que apreciem estes temas as possam ver através do meu olhar.

Vamos começar pelo concelho da Lourinhã, o mais a Norte da região distrital em causa. No primeiro conjunto de fotos apresentamos alguns aspectos desgarrados que intitulei: “Lagares e apontamentos diversos”.

Povoação de Capelas_ Lagar de vinho
Reguengo Grande_ Lagar de vinho

Os velhos lagares de vinho que lentamente estão a desaparecer em prol das adegas cooperativas ou das novas empresas vinícolas ou também o forno de cal da Ventosa, com cúpula cónica, muito diferente dos que até aí conhecia.

Povoação de Ventosa_ Cúpula de forno de cal
Casal da Azeitona_ Poço cisterna

Não foi novidade as cisternas existentes no meio do lapiaz de Reguengo Grandes. Já tinha tido contacto com exemplares idênticos na Serra dos Candeeiros, quando me dedicava à espeleologia. Diga-se que a realidade geológica é idêntica, daí o mesmo método para recolher e armazenar a água da chuva.

Reguengo Grande_ Cisterna no lapiaz
Reguengo Grande_ Cisterna no lapiaz
Reguengo Grande_ Tanque no meio de um cercado
Reguengo Grande_ Forno e chaminé

SOCIEDADE QUE ACELERA O ENVELHECIMENTO

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Durante décadas, o aumento da esperança média de vida foi apresentado como uma conquista civilizacional. Mas talvez ainda não tenhamos compreendido verdadeiramente as consequências humanas dessa transformação.

O problema não é apenas viver mais. O problema é saber como viver esses anos adicionais com utilidade, pertença, participação e sentido.
Porque aquilo que mais envelhece o ser humano nem sempre é a idade biológica. Muitas vezes é a interrupção brusca da função social.
Quando uma pessoa activa, intelectualmente viva e emocionalmente capaz é retirada subitamente dos mecanismos de participação, ocorre frequentemente uma espécie de amputação invisível da identidade.

O trabalho não é apenas rendimento.
É ritmo.
É relação.
É reconhecimento.
É estrutura psicológica.
É utilidade social.
Em muitos casos, o afastamento abrupto da vida activa acelera o envelhecimento emocional, reduz a estimulação intelectual, fragiliza o sentimento de pertença e abre caminho ao isolamento silencioso.

As sociedades contemporâneas continuam, no entanto, a olhar para a idade administrativa como um mecanismo rígido de classificação humana. Mas idade administrativa não é sinónimo de capacidade. Há pessoas de 40 anos esgotadas da vida. E há pessoas de 75 intelectualmente criativas, produtivas e profundamente necessárias ao equilíbrio social.
Talvez este seja um dos grandes erros culturais do nosso tempo: confundir juventude com valor e maturidade com obsolescência.
A consequência é grave. Estamos a desperdiçar uma das maiores reservas de experiência humana existente nas democracias contemporâneas.

Nunca o mundo precisou tanto de memória, ponderação, interpretação crítica e profundidade humana. E nunca afastámos tão cedo aqueles que as possuem.
A questão já não é apenas económica. É civilizacional. Precisamos de repensar profundamente o próprio conceito de reforma. Talvez o futuro não passe por retirar pessoas da vida activa aos 65 ou 70 anos, mas por criar novos modelos flexíveis de participação: mentoria, ensino, consultoria social, intervenção cultural, mediação humana, acompanhamento comunitário, transmissão de experiência e integração intergeracional.

Em vez de uma cultura de substituição geracional, talvez precisemos de uma cultura de continuidade geracional. Isso exige alterações concretas. Exige novos modelos de trabalho parcial nas idades maduras. Exige incentivos à participação cívica e intelectual. Exige políticas públicas que combatam o isolamento invisível. Exige uma redefinição cultural da própria ideia de utilidade humana. Sobretudo, exige coragem para alterar paradigmas profundamente enraizados. Porque uma sociedade saudável não pode tratar milhões de pessoas experientes como se tivessem ultrapassado o prazo de validade humano.

Envelhecer não deveria significar afastamento. Poderia significar exactamente o contrário: mais consciência, mais profundidade, mais capacidade de mediação humana e uma nova forma de contribuição social.
Talvez esteja na altura de criar uma nova cultura da maturidade. Uma cultura onde o valor humano não seja medido apenas pela idade cronológica, mas pela capacidade contínua de pensar, criar, participar e transmitir experiência. Porque o verdadeiro envelhecimento começa muitas vezes quando a sociedade deixa de precisar de nós.

PUBLICIDADE

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Nas paredes da romana Pompeia, a força destruidora das lavas do Vesúvio não foi capaz de apagar, nesse trágico outubro do ano 79, as inscrições pintadas nas paredes. Propaganda eleitoral é o que então mais se fazia. Cada um dos candidatos incitava ao voto: punha o nome e acrescentava ROGAT ou, sendo vários, ROGANT, que significa «pedem» que votes…

publicidade eleitoral em Pompeia

Mantêm-se ainda, aqui e acolá (felizmente!) placas de azulejo ou, mais singelas, de esmalte a proibir a afixação de anúncios. Algumas datáveis de finais do século XIX ou princípio do século XX. Documentos a preservar, claro! E a espicaçar a curiosidade: que anúncios então se fariam? Publicidade a quê?

O mais habitual era às touradas, aos teatros e récitas, aos bailes sobretudo os de benefício (para alguém da comunidade que estava doente e necessitado). Cedo, porém, houve empresas cujos proprietários não quiseram deixar os seus créditos por mãos alheias. E até encomendavam os anúncios a artistas de renome, para que mais êxito obtivessem. Os anúncios em jornais de princípios do século XX merecem, de facto, nesse âmbito da história económica e social, um estudo atento e deveras surpreendente será nos seus resultados.

Houve, todavia, quem fosse mais além do mero anúncio em jornal: painéis de azulejo foram pensados para se colocarem, por exemplo, à entrada das povoações! Alguns desses ainda subsistem; boa parte a sanha do progresso inexoravelmente os destruiu. E é pena!

Mabor General e Nitrato do Chile – à entrada de Nisa

Para os que ainda vivemos os meados do século XX facilmente recordaremos o fascínio do «Licor Beirão – O licor de Portugal». dos Nitratos do Chile, dos Pneus Mabor, da Mobil Oil…

Compreende-se: no momento em que se iniciava o turismo e o automóvel começava a ser meio de transporte mais comum, anunciar um óleo ou os pneus era fundamental. E para os estrangeiros visitantes um cálice de licor genuinamente português apresentava-se como requinte típico irresistível.

Às autarquias se apela para que tudo façam para que se preservem esses vestígios de outrora, hoje com valor patrimonial, testemunho ímpar de uma época.

AS AVENTURAS DE ANTÓNIO CADABULHO – O ELEITOR PADRÃO

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António Cadabulho – o “Antó” para os amigos do café – não era um homem de meias medidas. Quando o despertador tocou naquele domingo de eleições, ele saltou da cama com a energia de um estadista. Sentia nos ombros o peso cru de decidir o futuro do país, uma tarefa hercúlea que ele planeava realizar com base nos cinquenta segundos que demoraria a caminhar até à cabine de voto.

António considerava-se um moderado iluminado. Ele não ia em cantigas de partidos, nem lia programas políticos, porque, como costumava dizer no balcão da pastelaria: “Ler os programas é dar parte de fraco, eles escrevem aquilo tudo em estrangeiro para nos enganar.” O seu método de análise geopolítica era muito mais rigoroso e assentava em três pilares fundamentais: o que o primo da sua cunhada ouviu um motorista de táxi dizer em Tomar; um título em letras garrafais que viu de raspão num jornal pousado na mesa ao lado; um vídeo do WhatsApp que terminava com a frase: “Partilha antes que apaguem!”

Vestiu a sua melhor camisa, ajeitou o bigode e saiu à rua. O caminho até à escola primária era um autêntico campo de minas ideológico. Olhou para o cartaz do Partido do Centro Absoluto, que exibia a foto de um homem a sorrir com dentes brancos demais e o slogan: “Para a Frente, Mas Com Cuidado”. António resmungou: “Estes gajos nem para a frente andam, quanto mais com cuidado.” Logo ao lado, o cartaz da Aliança da Mudança Radical prometia “Combustível Grátis e Fim do Inverno”. António semicerrou os olhos: “Promessas a mais. Se não há inverno, as barragens secam. Não me apanham nessa.”

Ao entrar no pátio da escola, António ativou o seu modo “comentador televisivo”. Ele conseguia ler as intenções de voto das pessoas apenas pela forma como sacudiam o guarda-chuva ou limpavam os pés ao capacho: uma senhora de casaco de pele a arrastar as sabrinas? “Vota na direita tradicional, tem fobia a impostos sobre as heranças”; um rapaz de barba rala com um saco de pano reciclado? “Vota no partido dos girassóis ou vota em branco porque o boletim não é papel reciclado.”

Chegou a sua vez. O presidente da mesa deu-lhe o boletim. António agarrou no papel com a solenidade de quem assina o Tratado de Tordesilhas. Entrou na cabine, puxou a cortina de pano cinzento e encarou o quadrado da verdade. O cheiro a cera de soalho e a caneta azul presa por um cordel gasto davam ao ambiente um misticismo quase religioso. E foi aí que o pânico do Eleitor Padrão se instalou.

António olhou para as siglas. O Partido A tinha boas propostas para a saúde, mas o líder tinha um tom de voz que o enervava nas entrevistas. O Partido B queria baixar o IRS, mas o genro de António dizia que eles eram todos uns “betos de Cascais”. O Partido C falava muito bem dos direitos dos trabalhadores, mas o logótipo tinha uma cor que não combinava com o clube de futebol de António.

Lá fora, a fila começava a esticar. Um senhor idoso bateu com a bengala no chão, impaciente. O relógio corria. Sem mais alternativas viáveis, António Cadabulho recorreu à ferramenta mais democrática e ancestral da cultura lusitana: fechou os olhos, rodou o indicador no ar e deixou-o cair sobre o papel. Xis. Calhara no partido do meio.

Dobrou o boletim em quatro com um vinco perfeito, saiu da cabine com o peito inchado e deslizou o papel para dentro da ranhura da urna. Olhou de soslaio para os membros da mesa com um ar severo, como quem diz: “Já fiz a minha parte, agora governem isto se forem homens.”

Dez minutos depois, António já estava confortavelmente instalado na esplanada do “Central”, a empurrar uma mini e um rissol de carne. Quando o empregado lhe perguntou em quem tinha votado, António soltou uma baforada de fumo e respondeu com a sabedoria típica do eleitorado:

— Olhe, votei no menos mau. Mas isto vai ficar tudo na mesma. São todos farinha do mesmo saco. Se aqueles que eu votei ganharem, o país não avança por causa da oposição. Se perderem, a culpa é do povo que não sabe votar!

António Cadabulho regressou a casa de coração leve. Tinha cumprido o seu dever cívico mais sagrado: garantir o direito legítimo de poder passar os próximos quatro anos a gritar com o ecrã da televisão durante o telejornal, sem nunca ter de assumir a culpa de nada. O Eleitor Padrão tinha ganho mais uma vez. 

TOBI

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Hoje quero resolver um problema de uma operadora de comunicações em que se vão desfazendo de presença humana e exibem um “funcionário virtual” com o nome do meu cão.

Não morde, mas também não protege, não ajuda, não faz o que devia como substituto de uma pessoa que fica sem emprego. Debita ligações que remetem para o espaço, em exercícios de entretenimento vazio.

Dizer que seria urgente as empresas arranjarem pessoas, darem-lhes formação, satisfazer os clientes que pagam até o que não usufruem, é  perder mais tempo útil com ouvidos moucos. Empresas de comunicações e outras, que vão buscar gente sem escrúpulos para tratar de idosos, de crianças, de deficientes.

Dói viver num mundo corroído pela maldade, pela indiferença, pelo desprezo pela dignidade humana, ou por tiranias várias que ficam sempre impunes. O sistema trata idosos e vulneráveis como inúteis. Se têm um saber acumulado, os primeiros, ou uma sensibilidade apurada para as artes os segundos, não importa. Estão inseridos num rol de inaptos elaborado por “jovens” numa deprimente subversão de valores.

Os clientes das empresas de comunicações entram numa classificação mais perversa: todos perfeitos no momento de adesão; todos tratados como números sem rosto, à semelhança dos Tobis em que se apoiam.

Mandaram-me um que não encontrará casota neste lar. Os ossos e a ração já custam uns bons euros que não posso desperdiçar. Pago um telefone fixo desactivado por causa de tempestades, entregam-me um número móvel provisório que nem serve para comunicar com os serviços de apoio, como resposta a um pedido de portabilidade. Recebo um monte de folhas de papel a expor as cláusulas de um contrato “assumido” à distância, se as contrapartidas fossem rápidas.

Na gravação só ouvem o que lhes convém. Estas cinco últimas palavras desaparecem das suas cabeças formatadas para perceber só adesão. Pior do que tudo é a mistura de informação dada em momentos diferentes, na mesma caixa de mensagens: use o código tal agora; use outro código mais logo. Sem conversarem com as pessoas, que nem a conversar já se entendem.

Quantos dias gastos nestas reviravoltas, quantas horas perdidas, quanto mal-estar não contabilizados! O Tobi está sempre disponível para resolver, mas nem sequer emite um som.

FALHOU A “EMBOSCADA” DA DIREITA AO MINISTRO LUÍS NEVES

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O ministro da Administração Interna é, talvez, o único membro do atual Governo com um posicionamento claro relativamente aos avanços da extrema-direita em Portugal. Não só recusa confundir a árvore com a floresta, como recusa confundir conceitos entre crime organizado e terrorismo como, ainda, sabe bem que é da extrema-direita que vem o perigo para a democracia.

Isso ficou demonstrado, com clareza, na intervenção do ministro Luís Neves, na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias.

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Nesta sessão parlamentar, ficou também claro como o Chega faz política, confundindo, precisamente, casos isolados com ações organizadas:

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O ministro foi arrumando todos os assuntos levantados pelo Chega:

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O confronto entre o Chega e o ministro começou com uma questão de “lana caprina” com a qual este partido da extrema-direita procurou caçar uns votos. O assunto foi o anúncio do MAI sobre o fim dos avisos sobre a realização das operações stop nas estradas e ruas do país.

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O Chega quis “beber uns copos” à conta deste ministro, mas não teve arte nem engenho para tal.

O PINTAINHO, O LEÃOZINHO E AS TRÊS GRAÇAS MUDAS

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O problema é que o concerto vinha embrulhado num festival e eu não sou pessoa de festivais. Nunca tive paciência para multidões, filas intermináveis para tudo, casas de banho que põem à prova a elasticidade e a fé humana, já para não falar nas  horas de espera a aguardar o momento desejado. Mas o cantor que eu queria ver encerrava a noite. Era a grande atração, o nome que fazia aquele cartaz inteiro valer a pena e que me levou a fazer muitas centenas de quilómetros.

Assim sendo, restava esperar. Em pé, porque os supostos bilhetes VIP, eram VIP nos assentos mas não na vista (lateral e distante). Seis horas e meia. Ditas assim parecem um suplício medieval. Mas o que são seis horas e meia para quem esperou quase cinquenta anos? As pernas discordavam. Os pés também. Venceu a vontade, que era muita.

Resignei-me à imobilidade forçada e comecei a fazer aquilo que mais gosto quando estou no meio de muita gente: observar. A fauna humana de um festival é uma coisa extraordinária.

Neste caso, note-se, a ave rara era claramente eu. Toda a gente parecia partilhar um mesmo código de alegria colorida, descontraída, exuberante. Havia brilhos, roupas improváveis, botas gigantes com saias minúsculas, cabelos de todas as cores, brincos em todos as protuberâncias possíveis e imaginárias, e uma felicidade coletiva que, devo admitir, me estava a agradar bastante.

Foi então que o vi. Um rapazito louro pintainho. Olhos lindos sublinhados pela maquilhagem, blazer e calções, botas de cowboy. Uma fusão improvável de clássico e excesso. Acreditem ou não, a coisa funcionava.  Mas o que me prendia o olhar a este rapaz não era o visual que, ali, era apenas mais um. O que me encantou foi a dança. Enquanto toda a gente dançava ao ritmo da música, ele movia-se a um ritmo só seu.

Lembrei-me daquela velha anedota do homem que conduz em contramão e acha que todos os outros é que estão errados. Só que, este rapaz, nem sequer parecia notar a presença dos outros. Na verdade, parecia de tal modo estar a ouvir uma música própria dentro da cabeça, que tentei perceber se teria auriculares a rivalizar com o som das colunas que quase me ensurdeciam. Mas nada. Os braços moviam-se num compasso impossível. Os passos não coincidiam com a batida. O corpo obedecia à tal melodia secreta que só ele escutava e que, por esta altura, queria muito que partilhasse comigo.

Com a noite a cair, entrou em palco uma banda que levou o público ao delírio. Só conhecia de nome. Fiquei curiosa. O ritmo convidava a um pezinho de dança. O pintainho continuava no seu ritmo desalinhado. A miudagem entoava as letras. Até aqui, tudo normal. Pelo menos para eles, porque para mim, rapidamente ficou estranhíssimo.

Acontece que não consegui perceber se as  três vozes femininas anunciadas com pompa e circunstância eram as das pequenas que estavam em palco ou as que saiam das colunas. Sim, porque se, no início, as bocas abriam e fechavam sincronizadas com a música, passados poucos minutos nem isso. O público a delirar com o enorme talento. E eu ali, perplexa. Já tinha ouvido a expressão “cantas bem, mas não me alegras”. Mas era a primeira vez que via alguém alegrar uma multidão sem cantar rigorosamente nada. Nem bem, nem mal. Nada!

É provavelmente do meu ADN (que me explicaram recentemente significar Afastamento da Data de Nascimento), mas confesso ter ficado muito aliviada quando entrou em palco o cantor que eu esperava e percebi que cantava e tocava mesmo. Melhor do que isso, tocou só para mim. Cantou comigo. Implorou-me que não o deixasse tão só. O planeta podia explodir, a aparelhagem incendiar-se.

A multidão sumiu-se. O pintainho desapareceu, ofuscado pelo leãozinho. Hoje estou com menos voz que as Três Graças Mudas da banda e ainda a dançar a um ritmo que só eu ouço.

A Cadeira Musical de 1910: Um Guia Prático para Mudar de Regime sem Mudar de Costumes

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A transição da Monarquia para a República em Portugal foi, sem dúvida, o maior exercício de cosmética institucional da nossa história. O erro crónico de 1910 não esteve na ideologia, mas na romântica ilusão de que a incompetência nacional era uma simples questão de guarda-roupa. Achámos genuinamente que, ao trocar as fardas azuis e brancas por fatos verdes e vermelhos, as finanças públicas aprenderiam subitamente a fazer contas.

O Tédio Hereditário vs. O Caos Democrático

O grande problema da Monarquia era o tédio existencial e a falta de suspense. O país sabia perfeitamente quem ia governar dali a vinte anos: o filho do rei. Não importava se o rapaz era péssimo a matemática, se preferia passar o dia a caçar em Vila Viçosa ou se gastava o tesouro público em carruagens importadas de França. O cargo era dele por direito de nascença e o povo limitava-se a suspirar na taberna.

Cansados desta pasmaceira dinástica, os republicanos decidiram injetar adrenalina no sistema. O erro? Levaram o conceito de “dinamismo político” longe demais. A Primeira República transformou o Terreiro do Paço numa autêntica versão estatal do jogo da cadeira musical. Os governos mudavam com tanta rapidez — foram mais de 40 em menos de duas décadas — que os funcionários públicos abdicaram de decorar as caras dos ministros. Limitavam-se a saudar qualquer senhor de bigode farfalhudo e cartola que entrasse pelo ministério adentro, assumindo que seria o chefe daquela semana. Se tivessem o WhatsApp na altura, as demissões seriam resolvidas por mensagem rápida antes do almoço.

O Milagre da Conversão dos Títulos

O erro mais hilariante da nossa transição foi acreditar que uma mudança de regime alterava o ADN da burocracia ibérica. No dia 5 de outubro, retiraram-se as coroas dos papéis timbrados, pintaram-se os elétricos de Lisboa e apagou-se a palavra “Real” de todas as tabuletas.

Contudo, as pessoas eram exatamente as mesmas. Os mesmíssimos Cavalheiros da Ordem de Cristo, que na véspera faziam vénias profundas a Sua Majestade, acordaram no dia 6 assinando orgulhosamente como “Cidadãos Deputados”. O sotaque queque continuou igual, o gosto pelo clientelismo permaneceu intacto, mas agora tudo era feito em nome do “Povo Livre”. A burocracia, longe de diminuir, duplicou: para provar que éramos uma República moderna, passámos a exigir três carimbos democráticos onde antes bastava uma assinatura real. É uma linha direta que nos liga ao presente, onde o carimbo foi substituído pelo “erro no sistema informático”, mas a espera na fila continua a ser uma experiência monárquica.

A Dieta do Barrete Frígio

O erro de palmatória dos novos governantes foi confundir símbolos com calorias. A propaganda republicana prometera que a queda do trono traria o fim da fome e o início da iluminação cultural. Na prática, o analfabetismo continuou confortavelmente acima dos 70% e o pão continuou caro. A única diferença real é que o Zé Povinho passou a poder ver o país caminhar para a bancarrota de forma totalmente constitucional e votada em urna.

A República tentou ainda proibir os feriados religiosos e apagar a Igreja Católica por decreto, esquecendo-se de que o português médio tolera perder o rei, tolera perder o almoço, mas não prescinde da sua procissão de Santo António. O resultado foi um braço de ferro absurdo onde o Estado tentava prender padres enquanto o povo continuava a orientar a sua vida espiritual pelo calendário dos santos, ignorando por completo os novos heróis civis que ninguém sabia bem quem eram.

O Cordão Umbilical com o Presente

Olhando para trás, percebemos que o grande erro da transição foi a pressa em mudar a carcaça sem mexer no motor do país. Ficámos sem o rei, ficámos sem a corte, mas guardámos religiosamente os vícios, as clientelas e a velha e maravilhosa mania de que a culpa de tudo o que corre mal é sempre do governo anterior.

A Primeira República inventou a arte de governar em sobressalto, inaugurando uma tradição que sobreviveu ao Estado Novo e que se refina a cada comissão parlamentar de inquérito nos dias de hoje. A obsessão por criar comissões de estudo para adiar problemas, as remodelações governamentais de emergência a meio da noite e as guerras de alecrim e manjerona entre Belém e São Bento não nasceram ontem. São heranças diretas daquele laboratório de confusão fundado em 1910. Mudar as moscas sem limpar o prato é, desde o início do século passado, a nossa maior e mais estável tradição republicana.