AS AVENTURAS DE ANTÓNIO CADABULHO – O ELEITOR PADRÃO

Esta crónica satírica retrata António Cadabulho, um eleitor que decide o seu voto baseado em boatos e preconceitos, culminando numa escolha aleatória no momento de votar. O texto satiriza a superficialidade e a desinformação de um "Eleitor Padrão" que, após a votação, se exime de responsabilidades, garantindo apenas o direito de criticar os resultados.

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António Cadabulho – o “Antó” para os amigos do café – não era um homem de meias medidas. Quando o despertador tocou naquele domingo de eleições, ele saltou da cama com a energia de um estadista. Sentia nos ombros o peso cru de decidir o futuro do país, uma tarefa hercúlea que ele planeava realizar com base nos cinquenta segundos que demoraria a caminhar até à cabine de voto.

António considerava-se um moderado iluminado. Ele não ia em cantigas de partidos, nem lia programas políticos, porque, como costumava dizer no balcão da pastelaria: “Ler os programas é dar parte de fraco, eles escrevem aquilo tudo em estrangeiro para nos enganar.” O seu método de análise geopolítica era muito mais rigoroso e assentava em três pilares fundamentais: o que o primo da sua cunhada ouviu um motorista de táxi dizer em Tomar; um título em letras garrafais que viu de raspão num jornal pousado na mesa ao lado; um vídeo do WhatsApp que terminava com a frase: “Partilha antes que apaguem!”

Vestiu a sua melhor camisa, ajeitou o bigode e saiu à rua. O caminho até à escola primária era um autêntico campo de minas ideológico. Olhou para o cartaz do Partido do Centro Absoluto, que exibia a foto de um homem a sorrir com dentes brancos demais e o slogan: “Para a Frente, Mas Com Cuidado”. António resmungou: “Estes gajos nem para a frente andam, quanto mais com cuidado.” Logo ao lado, o cartaz da Aliança da Mudança Radical prometia “Combustível Grátis e Fim do Inverno”. António semicerrou os olhos: “Promessas a mais. Se não há inverno, as barragens secam. Não me apanham nessa.”

Ao entrar no pátio da escola, António ativou o seu modo “comentador televisivo”. Ele conseguia ler as intenções de voto das pessoas apenas pela forma como sacudiam o guarda-chuva ou limpavam os pés ao capacho: uma senhora de casaco de pele a arrastar as sabrinas? “Vota na direita tradicional, tem fobia a impostos sobre as heranças”; um rapaz de barba rala com um saco de pano reciclado? “Vota no partido dos girassóis ou vota em branco porque o boletim não é papel reciclado.”

Chegou a sua vez. O presidente da mesa deu-lhe o boletim. António agarrou no papel com a solenidade de quem assina o Tratado de Tordesilhas. Entrou na cabine, puxou a cortina de pano cinzento e encarou o quadrado da verdade. O cheiro a cera de soalho e a caneta azul presa por um cordel gasto davam ao ambiente um misticismo quase religioso. E foi aí que o pânico do Eleitor Padrão se instalou.

António olhou para as siglas. O Partido A tinha boas propostas para a saúde, mas o líder tinha um tom de voz que o enervava nas entrevistas. O Partido B queria baixar o IRS, mas o genro de António dizia que eles eram todos uns “betos de Cascais”. O Partido C falava muito bem dos direitos dos trabalhadores, mas o logótipo tinha uma cor que não combinava com o clube de futebol de António.

Lá fora, a fila começava a esticar. Um senhor idoso bateu com a bengala no chão, impaciente. O relógio corria. Sem mais alternativas viáveis, António Cadabulho recorreu à ferramenta mais democrática e ancestral da cultura lusitana: fechou os olhos, rodou o indicador no ar e deixou-o cair sobre o papel. Xis. Calhara no partido do meio.

Dobrou o boletim em quatro com um vinco perfeito, saiu da cabine com o peito inchado e deslizou o papel para dentro da ranhura da urna. Olhou de soslaio para os membros da mesa com um ar severo, como quem diz: “Já fiz a minha parte, agora governem isto se forem homens.”

Dez minutos depois, António já estava confortavelmente instalado na esplanada do “Central”, a empurrar uma mini e um rissol de carne. Quando o empregado lhe perguntou em quem tinha votado, António soltou uma baforada de fumo e respondeu com a sabedoria típica do eleitorado:

— Olhe, votei no menos mau. Mas isto vai ficar tudo na mesma. São todos farinha do mesmo saco. Se aqueles que eu votei ganharem, o país não avança por causa da oposição. Se perderem, a culpa é do povo que não sabe votar!

António Cadabulho regressou a casa de coração leve. Tinha cumprido o seu dever cívico mais sagrado: garantir o direito legítimo de poder passar os próximos quatro anos a gritar com o ecrã da televisão durante o telejornal, sem nunca ter de assumir a culpa de nada. O Eleitor Padrão tinha ganho mais uma vez. 

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