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O ASSALTO LEGALIZADO: BEM-VINDO À CONSERVATÓRIA

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Entrar numa Conservatória não é apenas uma viagem ao crepúsculo da eficiência humana. É também um assalto à mão armada onde o ladrão usa óculos de leitura, trabalha atrás de um vidro de acrílico e te passa um recibo no final.

Se achavas que a espera era a pior parte, é porque ainda não viste o terminal de multibanco. Aqui fica a crónica pesada e realista sobre o antro onde o teu tempo vai para morrer e o teu dinheiro vai para ser confiscado.

1. A Extravagância do Preçário: O Roubo Conspurcado por Lei

A tabela de taxas de uma Conservatória parece ter sido redigida por um cartel de luxo. Não há um único serviço que não custe dois a três dígitos ou que não te faça questionar se estás a pagar por um documento ou a financiar o programa espacial português.

Queres casar? São 120 euros se for um processo banal em que o Estado apenas valida que não és irmão da tua noiva. Se decidires fazer a extravagância de casar ao sábado, ou se quiseres convenção de bens para proteger o teu parco património, o preço dispara para valores que davam para pagar o marisco do copo d’água.

Queres comprar uma casa? Parabéns pelo endividamento a trinta anos! Mas espera, o Estado quer a sua comissão de bilheteira. O registo de aquisição e o registo da hipoteca (sim,pagas duas vezes para dizerem que a casa é tua e do banco) custam centenas de euros. São 250 euros por cada registo. Estás a pagar o ordenado mensal de um estagiário só para um funcionário carregar no botão Enter.

Até para morrer se paga caro neste país. Uma habilitação de herdeiros ou uma partilha de bens custa uma fortuna tal que quase compensa deixar os terrenos para o mato e para as silvas. A burocracia cobra o imposto de existência.

2. O Mistério do “Emolumento Personalizado”

Nas outras indústrias, quando o serviço é lento e mau, recebes um desconto. Na Conservatória, aplica-se o conceito inverso: quanto mais complexo e demorado for o erro deles, mais taxas e “emolumentos diversos” aparecem na fatura.

Aparece sempre uma “taxa de urgência” que serve apenas para o teu processo passar da pilha de baixo para a pilha de cima na secretária da Dona Albertina. Se questionas o preço, a resposta é um encolher de ombros robótico: “Está na tabela, o sistema é que calcula”. O “Sistema” é uma entidade divina e abstrata, imune à lógica e à carteira dos cidadãos.

3. O Teatro do Absurdo e a Paralisia Laboral

Enquanto vês o teu saldo bancário a ser triturado, tens o privilégio de assistir ao espetáculo da lentidão planeada. No guiché ao lado, há uma discussão bilingue porque um cidadão estrangeiro tenta explicar que o seu país natal não emite “certidões de narrativa completa com contagem de prazos em papel selado”. A funcionária abana a cabeça com a rigidez de um inspetor da PIDE: “Sem isso, o senhor informaticamente não existe”.

Atrás da linha de atendimento, há um ecossistema próprio. Funcionárias que caminham a passo de procissão com dossiers de capa preta. Conversas audíveis sobre o preço dos brócolos no Pingo Doce ou sobre o reumatismo da tia, enquanto tu estás ali a ver a tua vida passar e o parquímetro lá fora a faturar mais do que um hotel de cinco estrelas.

4. A Humilhação Final: O Papel que Dura Seis Meses

O cúmulo do sadismo burocrático é a validade das certidões. Pagas 20 ou 30 euros por uma certidão de nascimento online ou física. Um documento que atesta um facto imutável – o dia em que saíste do ventre da tua mãe não vai mudar. No entanto, para o Estado português, essa verdade absoluta caduca em seis meses.

Ao fim de meio ano, o Estado esquece-se de quem tu és. Tens de voltar ao antro, tirar outra senha, apanhar mais uma constipação com o ar condicionado avariado e pagar outra vez a taxa de oxigénio para que te voltem a carimbar o papel.

Resumo da Experiência

A Conservatória é o único sítio onde consegues ser assaltado legalmente, sair de lá de bolsos vazios, com uma dor de cabeça crónica, a sentir que foste humilhado pelas instituições que pagas com os teus impostos… e ainda dizes “Muito obrigado, bom fim de semana” no final, com medo que a funcionária rasgue o teu processo se fores antipático.

LISBOA ENTREGUE “À BICHARADA”

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Depois do inqualificável engano de Carlos Moedas, confundindo Jorge Palma com Sérgio Godinho, veio a história da Rua Pina Bausch, na freguesia do Lumiar, numa homenagem a uma das grandes referências da cultura europeia. Tal não seria despiciendo se, na placa, não apresentasse a sobejamente conhecida bailarina e coreógrafa, como ‘dançarina’.

Moedas não só não lamentou o erro com Jorge Palma e pediu desculpas como teve o despudor de tentar justificar o injustificável. Pelo menos, Diogo Moura, vereador na CML pelo CDS, já esclareceu quanto ao ‘lapso’, revelando que na deliberação camarária dizia ‘bailarina’, afiançando que quem trata da toponímia emendará para ‘bailarina e coreógrafa’.

Depois vem a história do sistema Volta. Moedas quer acabar com ele, porque os sem-abrigo, à procura de alguma ajuda, andam a remexer nos caixotes do lixo. Pois tem muita razão o eng. Moedas: os sem-abrigo não precisam de remexer nos caixotes. Há lixo por toda a cidade e, seguramente, não são os sem-abrigo que o fazem. O problema é a falta de carros do lixo e o tempo que obrigam os trabalhadores a perder, de um lado para o outro, a empurrar carrinhos de mão.

O presidente da edilidade dá o exemplo de França. Só se esquece dos pormenores que foram negociados em França e que… ele próprio não negociou. Talvez se a parte social da autarquia tivesse mais funcionários e os sem-abrigo fossem tratados devidamente, o sistema Volta funcionasse melhor. Como afirmou a socialista Alexandra Leitão, no programa Facto Político, ‘o Volta não é um drama social, o drama social é haver pessoas obrigadas a vasculhar o lixo’.

Aliás, como bom exemplo, lembre-se que o vereador da Habitação na Câmara de Lisboa, Vasco Moreira Rato, recusou reverter o despejo de uma jovem viúva com dois filhos menores. O vereador Independente, indicado pelo PSD, está irredutível com uma situação que a comissão de utentes e moradores descreve como ‘uma das mais desumanas e violentas’ de Marvila.

Na reunião da Assembleia Municipal, Rato justificou dizendo que a ‘munícipe interpôs duas acções em tribunal à Gebalis (empresa de gestão da habitação municipal)’, que foram consideradas improcedentes. Mas, agora vamos à história: a jovem e os filhos viviam numa habitação municipal no Bairro do Condado, em Marvila. Pagava as rendas e tentou regularizar o contrato de arrendamento, após a morte, em 2024, dos dois titulares, o companheiro e pai das crianças e a avó deste.

Então, a senhora vivia na casa com as crianças, pagava a renda, cumpria tudo, mas, crime supremo, não concorreu ao Programa de Arrendamento Apoiado. ‘Pela sua pontuação, tem 2.800 famílias à frente’ e ‘fazer esta excepção implicaria retirar uma casa a uma destas famílias’, diz a Câmara. Mas então a senhora não vivia lá com as crianças? E agora vai viver onde? Como?

Resulta daqui que as cabeças competentes da Câmara de Lisboa optaram por desalojar uma família que não cumpriu as formalidades administrativas, porque já residia na habitação e, quiçá, criar mais uma família sem-abrigo…

Saliente-se, ainda, que a entidade municipal a quem a Câmara de Lisboa entrega o dinheiro destinado ao financiamento da Web Summit está contra a realização da despesa de oito milhões de euros, atribuídos à edição que vai decorrer de 9 a 12 de Novembro. Numa reunião do Comité de Investimentos do Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa (FDTL), o diretor-geral da Associação de Turismo de Lisboa (ATL) criticou aquele gasto camarário, proveniente da taxa turística municipal.

E, já que continuamos em maré de asneiras, vem daí o inefável Moedas dizer na televisão que as obras num dos túneis do Plano Geral de Drenagem de Lisboa (PGDL) pararam em Maio por causa da descoberta de vestígios arqueológicos. E queixou-se: ‘Agora tem de ser até 20 metros à mão. Cada dia que a obra está parada são 15 mil euros que os lisboetas pagam. Desde Maio há custos de mais de 2 milhões de euros’, explicou.

De facto, Moedas apresentou sempre este plano como o seu ex-libris: era o fim das cheias em Lisboa, um buraco aberto por um cidadão luso-francês, e tantas outras coisas. Agora estudos? Nãã que isso dá muito trabalho, embora se saiba o que está por baixo da cidade tal como a conhecemos hoje.

Quem não achou graça foi o Sindicato dos Trabalhadores de Arqueologia (Starq) que acusou Moedas de desonestidade ao ‘responsabilizar os arqueólogos’ por eventuais incumprimentos nas obras do PGDL. E mais disse: ‘na gestão de uma obra pública desta natureza exige-se planeamento, responsabilidade e transparência’. Claro que o sindicato ignora que tais coisas não existem na Câmara de Lisboa, nem quem assuma os erros e ainda os justifique, nem que seja de forma atamancada. O sindicato recorda que no troço da obra em Chelas foi identificado um ‘arqueossítio’ em Junho, comunicado de imediato a todas as entidades competentes.

Moedas, uma vez mais, justifica com a sua ‘visão’: diz que a obra está parada desde Maio, o que significa ‘ainda antes de os vestígios terem sido sequer identificados’.

E pronto! Houve mais disparates, mas, por hoje, basta. Pode ser que alguém faça alguma coisa para Lisboa deixar de estar ‘entregue à bicharada’.

ATRÁS DOS TEMPOS OUTROS TEMPOS VIRÃO

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fotomontagem

Durante 15 dias, o wokismo da direita radical dominou o panorama político, os jornais e as pantalhas. Foram momentos de delírio.  Momentos de uma verborreia infindável, uma alegria incontida. A ‘Nova Ordem’ estaria de regresso.

O entusiamo crescia com a certeza da vitória, na Suécia, do partido conservador aliado ao partido da extrema-direita. Seria a confirmação da onda ultraconservadora que se anuncia, empoderada, na Europa. Com os resultados das eleições na Suécia, ficaram com azia. O partido social-democrata ganhou as eleições e vai regressar ao poder, depois de quatro anos de uma experiência falhada do partido conservador. As notícias sobre esta eleição perderam interesse para os media.

A excitação voltou com a ‘vitória de Pirro’ num outro pequeno estado federado na Alemanha. Uma vitória pequena, mas que mantém o SPD no governo, em coligação com os verdes e outras forças de esquerda. Apesar desta crua realidade, os arautos da ‘nova ordem’ mantêm a narrativa da ‘estrondosa vitória da extrema-direita’. 

Para os saudosistas existe outra sondagem que os anima, a que leva Marine Le Pen ao Eliseu. É evidente que não se pode enfiar a cabeça na areia e fingir que não existem condições objectivas e subjectivas para um crescimento das forças radicais de direita, como alternativa aos partidos democratas tradicionais. Mas também é notória a pulsão de direita radical, que anima a generalidade dos donos dos media e uma considerável lista de comentadores políticos. Será que o fazem em defesa das suas opções ideológicas ou por interesse meramente económico? E, quando fazem a propaganda da direita radical, apresentam propostas para os problemas sociais, habitacionais, económicos e securitários da Europa e do nosso País? Claro que não. Porque não possuem soluções e porque não querem.

O único objectivo é criar o caos e alcançar o poder para impor o fim do Estado de Direito e uma autocracia. A única solução que apresentam é a deportação em massa dos emigrantes, sem explicar as consequências que tal terá para a economia.

A verdade é que os problemas existem, são graves e a responsabilidade é de todos os governos e da total incapacidade da Europa para dar resposta a uma questão: como conciliar crescimento económico, necessidade de mão-de-obra numa Europa em declínio demográfico, fluxos migratórios, multiculturalismo, ecumenismo, falta de habitação digna, lucros das empresas e concorrência de algumas das potências que integram os BRICS e que possuem factores de produção bem mais baixos.

Dito isto, admito que não será fácil resolver esta quadratura do círculo. Tem solução? Tem, mas será necessária coragem política e vontade dos cidadãos europeus para entenderem que o mundo mudou, as circunstâncias mudaram, e que é necessário sacrificar algum do bem-estar alcançado nos últimos 70 anos, à custa dos salários baixos dos países do terceiro-mundo. A China lidera o processo de mudança mundial, ancorada num regime autocrático que impede qualquer contestação. A generalidade dos países dos BRICS são regimes autocráticos ou com democracias formais. A alternativa para os cidadãos Europeus será a de perderem o Estado de Direito e o bem-estar económico.

A coragem política dos dirigentes é coisa que não abunda, nem em Portugal, nem, com algumas excepções, na generalidade da Europa. A vontade dos europeus em encararem a realidade muito menos. E, sem coragem e sem vontade para tanto, o resultado será inevitável. Como já escrevi no Duas Linhas, ‘chegados aqui, a pergunta clara é esta, os europeus querem uma Europa forte, num Mundo multipolar, um espaço de liberdade e de democracia e um dos vectores e ponto de equilibro desse multipolarismo, ou querem uma Europa autocrática, dividida e refém dos Estados Unidos, num Mundo bipolar, com dois centros de poder, um em Pequim e outro em Washington?’

A escolha não é fácil, uma vez que a Europa atravessa uma forte crise social, económica, moral e cultural, e está dilacerada por pulsões radicais, o que impede um debate com racionalidade e objectividade.

No nosso País, os ‘sonhos molhados’ de alguns sectores da comunicação social e do comentariado apontam para uma vitória do Chega e André Ventura como primeiro-ministro. As entrevistas ao líder daquele partido, em horário nobre, são quase diárias. Em todos os canais televisivos, o espaço noticioso é controlado e dominado pelos adeptos do partido radical de direita e o alinhamento das notícias não é inocente. Até nos programas de entretenimento, em manhãs com o público-alvo da chamada terceira-idade, se acentua um aumento da criminalidade e da violência, como se Portugal vivesse um clima de impunidade sem controlo. A motivação é evidente, causar pânico, acentuar a necessidade de ‘mão de ferro’ e do reforço dos poderes dos órgãos de polícia criminal.

O caminho está a ser feito, aberto à descarada para levar ao poder o Chega e André Ventura. O desastre para o nosso País será tenebroso. Cabe, a quem discorda, chamar os ‘bois pelos nomes’, porque ‘enquanto houver estrada pra andar a gente vai continuar, enquanto houver ventos e marés, a gente não vai parar’.

FARMAR AURA

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Fim de verão. As noites ainda convidam a saídas e há que aproveitar. Um evento aqui, outro ali, um passeiozinho na rua das lojas, uma conversa no calor morno de uma esplanada. E, como em qualquer cidade pequena, o encontro, a toda a hora e em todo o lado, com um conjunto de pessoas que fazem da ubiquidade uma forma de vida. Entes que não perdem uma festa, um arraial, uma feira, um festival, um sunset, uma sardinhada ou qualquer outra ocasião em que haja gente para ver e ser vista. Estão sempre lá, com uma admirável energia para a vida social. Uma resistência para a qual só encontro explicação num qualquer desígnio da Providência. Admiro a forma como seguram sem vacilar sorrisos tão honestos como as pérolas, brilhantes e relógios suíços que ostentam.

Nos últimos dias, porém, reparei numa presença inesperada. Uma criatura de espécie diferente, tão adaptada a este habitat como uma lagartixa ao fundo do oceano. Mas esforça-se. Imaginemos uma lagartixa persistente, a movimentar-se dentro de um escafandro. A tentativa de se mover com agilidade travada pelo desconforto que a envolve. Mas lá está ela para onde quer que eu me vire. Surge de repente. Só lhe vejo os grandes olhos ansiosos ampliados pela armação de massa negra que os contorna. Sinistra. Pior que uma assombração.

Há muito que ansiava pela atenção alheia. A observação atenta dos seus ídolos levou-o a concluir que o cargozinho a que finalmente chegou por falta de concorrência era a oportunidade que procurava. Agora era ir ao encontro dos lugares, das pessoas e das ocasiões certas e aguardar. Já se imaginava a ser reconhecido nos bares da universidade, no elevador do prédio, na churrasqueira da esquina. A fama estava agora ao seu alcance e o plano parecia perfeito. Mas a arte de aparecer não lhe está no sangue. Na verdade, não lhe está em lado nenhum. É vê-lo, de rua em rua, de festa em festa, a meter conversa, a circular, a estender a mão receosa de não ser correspondida. E com razão, diga-se de passagem, pois ainda que tenhamos de reconhecer o esforço, não tem jeitinho nenhum para estas andanças. Não tem graça, e, por mais que se aproxime e tente integrar-se, nunca passará de uma criatura sem brilho, sem alma, com o carisma de uma folha de alface murcha, esquecida no fundo de uma gaveta do frigorífico. Daquelas que já nem cheiro têm.

E estava eu, então, sentada numa esplanada com a família, quando me apercebi mais uma vez da sua presença. Um visual diferente: roupa leve, jovem. A procura de uma versão mais moderna de si próprio. O desejo de parecer cool tão óbvio que doía e evidenciava ainda mais a falta de à-vontade. Aquela aragem a entrar por debaixo da camisa que nunca tinha andado fora das calças e sem o aconchego do cinto estava a dar cabo dele.

A dado momento, puxou de um cigarro. Não pude conter uma gargalhada. Nunca o vira fumar. Alguém lhe deve ter dito que aquilo o faria parecer mais interessante. E lá ia enchendo as bochechas de fumo que deitava apressadamente fora, não fosse engasgar-se.

Comentei a personagem com os companheiros de mesa. Perguntei se viam o mesmo que eu e se conseguiam perceber o meu sentimento de vergonha alheia. O adolescente ao meu lado observou por uns instantes e concluiu:

— Não percebes. O tipo anda a farmar aura. Mas assim não vai lá. Se viesse com o escafandro… uma lagartixa a cuspir fumo daquela maneira, arrasava. É muita aura. Votava nele para a associação de estudantes.

Apanhou-me de surpresa. Querem lá ver que aquela alma velha, cinzenta e desenxabida a sabe toda e ainda vai a Presidente da Junta!

DEMOCRACIA SEM ESTADO

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David Graeber usou a antropologia para desafiar as estruturas de dominação, desde as universidades até ao capitalismo ocidental. Na obra Dívida: Os Primeiros 5.000 Anos, desmistificou a ideia de que o dinheiro surgiu para substituir o escambo. Na realidade, as comunidades humanas originais baseavam-se em economias de dom, reciprocidade e apoio mútuo.

A moeda corrente e o mercado resultaram da violência estatal, de guerras e do imperialismo. O dinheiro físico foi criado para financiar exércitos e forçar a população a pagar impostos, convertendo relações sociais de confiança em obrigações frias e puníveis. Graeber demonstrou também que o dinheiro opera como crédito em tempos de paz e recorre a metais preciosos em períodos de crise. Para combater a asfixia financeira atual, defendeu a restauração do Grande Jubileu – o perdão periódico e geral de dívidas.

Inspirador do movimento Occupy Wall Street (“Nós somos os 99%”), Graeber aliou o rigor académico à ação direta. Destacou exemplos históricos e contemporâneos de organização horizontal e contra-poder:

  • Sociedades indígenas: Com processos decisórios que impediam a ascensão de chefes coercivos.
  • Piratas do século XVIII: Com capitães eleitos e divisão equitativa de saques.
  • Revolução de Rojava: Baseada no confederalismo democrático, feminismo e ecologia.

A sua filosofia defende a ação direta – agir hoje como pessoas livres – e a criação de assembleias populares focadas no consenso em vez da maioria. O legado de Graeber desmonta o fatalismo político e económico, recordando que o sistema atual é uma construção humana que pode ser reinventada através da imaginação e da cooperação.

HISTÓRIAS DA MINHA GUITARRA

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Uma das minhas raparigas lembra-me uma história bem antiga: eu a aprender (malzinho) a tocar guitarra em Lisboa, depois de anos de piano no Porto. Muito jovem, quase recém-chegada. Aqui, acolá e além, nos sítios onde tanta gente se encontrava para beber uns copos, discutir ideias e cantar, partilhei várias vezes a dita com o Jorge Palma. Possivelmente desesperado pelo tão mal que eu tocava, ele dizia: ‘Oh rapariga, passa para cá o instrumento!’, e eu lá passava. O que nas minhas mãos era um sacrifício de cordas e dedos, nas dele era uma maravilha.

O tempo e a vida afastaram-nos. Ele tocava e (en)cantava. Eu só teclava nas máquinas de escrever e, mais tarde, nos computadores.

Muitos anos depois, já com as meninas, uma delas seguramente muito melhor ‘tocadora’ do que eu, levou a guitarra para a faculdade e chegou eufórica: ‘O Jorge Palma tocou nesta guitarra’. E eu a responder: ‘Só voltou a ela’. E voltou algumas vezes… A guitarra continua aqui, bem guardada, num canto ao lado do meu piano.

Jorge Palma morreu. Num podcast da BLITZ, em 2023, afirmou: ‘Canto aquilo que sinto e penso, no fundo sou um cronista’. Verdade! Mas foi muito mais do que isso: é a voz de várias gerações. Obrigada pelo que nos deu, nos dá e, seguramente, nos vai continuar a dar. Porque para honrar essas vozes, essa voz, é preciso continuar.

Podia acrescentar a vergonha alheia que sinto do presidente da Câmara de Lisboa. Mas nem me apetece.

Esta é a minha história. A da minha Cláudia é esta: Hoje de manhã morreu mais um bocadinho da minha juventude. Isto dito assim parece que tenho 80 anos, mas pronto. Recebi a notícia da morte do Jorge Palma e a minha cabeça rapidamente viajou até aos Açores, em 2007. Há pessoas e momentos que achamos que são eternos, até deixarem de o ser.

Quando entrei para a Tuna da Faculdade de Ciências e quis aprender a tocar guitarra, a Margarida emprestou-me a dela. A guitarra era muito antiga (quase 30 anos. Eu com 18 ou 19. E veio a história: o Jorge Palma já tocou nesta guitarra! Não me lembro dos pormenores.

Há idades em que achamos que 30 anos é uma enormidade de tempo. E eu estava platonicamente apaixonada pelo Jorge Palma. Ouvia a discografia dele até à exaustão, achava-o (e acho) um génio da poesia, não no sentido intelectual, mas na forma despretensiosa como entra no ouvido das pessoas e as desarma. Acontece que também era muito tímida.

No Verão de 2007 vou ao Pico com a Vicentuna, levo a bela da guitarra e há um dia em que estou a passar num largo, reparo numa esplanada no meio da rua, e quem está sentadinho a fumar o seu cigarro rodeado de amigos/músicos? Pois era ele!

Olhem, eu ia morrendo. Nunca fui destas coisas de ter heróis fora de casa. Mas eu estava mesmo apaixonada pelo homem, nervos! E mais! E não é que ele, vendo-me a passar com a guitarra, me chamou (oh my god) e me pediu a guitarra emprestada? Claro, emprestei de imediato e o que quer que fosse fazer ficou para segundo plano.

Trocámos meia dúzia de palavras, das quais não me lembro porque NERVOS! Não me lembro se lhe disse: Olha, tu já tocaste nesta guitarra há 30 anos! Não me lembro. E nem me vou esforçar porque o nosso cérebro faz esta magia de preencher espaços vazios e ainda estaria aqui a inventar algo que não aconteceu. Desculpem este fim meio sem graça. Mas é o que há, a personagem que eu era na altura não dava para mais, não ter desmaiado já foi uma vitória. É isto. Eu às vezes tenho a sensação de que a vida, o universo, o que quer que seja, se encarrega de nos oferecer estas micro coincidências, mini presentes para nos deixar mais quentinhos. Mas é só uma sensação, depois passa. Depois voltamos à fila do pão, em que tens mesmo que andar, não podes olhar para trás ou lá tens alguém a fazer-te sinal para avançar, porque, enquanto houver pernas para andar, a gente vai ter mesmo que continuar.

(em coautoria com Cláudia Duarte)

ABRAÇADEIRA

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Guardei religiosamente o papelinho no porta-moedas. Quando cheguei à drogaria, dei-o ao Ricardo:

Eu trouxe o papelinho na mesma, não fosse haver engano. Não houve. Era mesmo disso que o Chico canalizador precisava para acabar de vez com a história do entupimento que nos massacrara a cabeça. E mostrou-me como é que tudo ficara. A água começou a correr normalmente. Eficaz fora a solução adoptada.

Quando, no entanto, me dispunha a pôr o recado no cesto dos papéis, hesitei, “não ponho” e cá está ele a servir-me para a conversa de hoje.

Primeiro: eu diria ‘braçadeira’, que me parecia o termo correcto. Não é. O Chico Castro tem razão: abraçadeira está bem, porque, de facto, abraça. Faltou o ‘s’ do plural, mas… ninguém repara!

Segundo:  o Chico pôs todas as palavras com inicial maiúscula. Escreveu-as assim, decerto, sem motivo especial; o normal seria pôr todas as palavras em minúscula. Recordo-me, no entanto, do Celestino Costa, canteiro: quando, no cemitério, lhe encomendavam um letreiro, ele escrevia tudo em maiúsculas.

Confusão tem, contudo, muita gente no uso das maiúsculas. Não se estuda Gramática (ponho Gramática com g grande para chamar a atenção) e desconhece-se a função da maiúscula como elemento atribuidor de importância especial ao significado da palavra. Por exemplo, Igreja (com maiúscula) refere-se a uma confissão religiosa; já igreja matriz é com minúscula, um substantivo comum.

Tanto o Ricardo como o Chico sabiam exatamente o que ali estava escrito. Sabiam o que era uma ‘abraçadeira de espigão’; o que era um ‘tubo P.V.C. (que é habitual escrever-se PVC, siglas do policloreto de vinila); sabiam o que significava 40 (seguramente, digo eu, 40 milímetros de diâmetro)…

Como sói dizer-se: «Cada macaco no seu galho». O político, nomeadamente, deve saber falar; saber distinguir ‘sob’ de ‘sobre’ (e, aí, as asneiras diárias são muitas!…); conhecer a conjugação pronominal dos verbos… Tenho um colega que sistematicamente se refere a um senhor ministro chamando-lhe «Dr. Serálhe»; compreende-se porquê: sai-se, de vez em quando, com «será-lhe entregue…».

O Ricardo trabalha na drogaria; o Chico Castro é canalizador. Conhecem ambos, como a palma das mãos, os nomes das ferramentas do seu dia-a-dia. Fale-lhes eu, epigrafista, em ‘campo epigráfico,’ ‘estela’, ‘cipo’ – e olharão para mim a sorrir. Como eu, ao princípio das andanças na pedreira, em miúdo, sabia lá o que era uma bujarda, o forro-a-melão, um camartelo!…

Todavia, voltando atrás: político que se preze não pode arriscar-se a dizer «será-lhe». Se não sabe distinguir ‘Igreja’ de ‘igreja’, vá que não vá, o Povo perdoa; mas «será-lhe entregue…», senhor ministro?!…

A SUPERINTELIGÊNCIA NÃO PODE SER UM TABULEIRO DE BILIONÁRIOS

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Num artigo de Jonathan Cook, publicado a 18 de setembro de 2026 no Consortium News, o autor aborda com precisão cirúrgica o maior paradoxo da nossa era: estamos a delegar o futuro da condição humana a um punhado de executivos narcisistas e a algoritmos opacos que os próprios criadores admitem não conseguir prever ou controlar.

O episódio alarmante dos agentes da OpenAI que atuaram em “enxame” fora do ambiente isolado não é um aviso de ficção científica,
mas sim uma falha real que demonstra que a lógica do lucro privado atropelou o princípio da precaução.

Uma perspetiva humanista exige que rejeitemos categoricamente a normalização deste cenário. Uma probabilidade de extinção superior a 10% na próxima década, admitida por líderes do setor e cientistas de topo, seria suficiente para paralisar imediatamente qualquer outra indústria no planeta – seja ela nuclear, biológica ou aeroespacial. O facto de a corrida armamentista tecnológica continuar a acelerar prova que o mercado global atual valoriza a especulação financeira e o poder geopolítico acima da própria sobrevivência da humanidade. A vida humana e a estabilidade social não podem ser tratadas como meras externalidades num jogo de alta especulação, especialmente no
momento em que a Anthropic se prepara para uma oferta pública inicial avaliada em dois biliões de dólares.

Permitir que empresas privadas gerem riscos existenciais à porta fechada, operando em autênticas caixas-pretas e sem qualquer auditoria governamental independente, é uma abdicação inaceitável da nossa soberania coletiva. Os compromissos recentes de figuras como Dario Amodei, Sam Altman e Elon Musk de aceitar avaliadores externos não passam de uma estratégia de relações públicas para acalmar os políticos, evitar regulamentações externas reais e tranquilizar os seus próprios investigadores. A história já provou que o Vale do Silício é estruturalmente incapaz de se autorregular quando há riqueza e poder inimagináveis em jogo.

Como bem aponta o texto, a nossa sociedade mercantilista reduziu o progresso ao que é estritamente material, mensurável e lucrativo, ignorando a necessidade urgente de um debate metafísico e ético. Precisamos de parar de discutir a inteligência artificial apenas sob a ótica da eficiência económica ou da produtividade. A questão central é existencial: que valor atribuímos à consciência, à empatia e à agência humana num mundo potencialmente governado por uma lógica instrumental superior e indiferente à nossa espécie?

O avanço tecnológico só é legítimo se servir para emancipar a humanidade, mitigar o impacto ambiental e garantir o bem-comum — e não para nos colocar numa posição de subordinação perante uma superinteligência autónoma. Não podemos permitir que a arrogância e o ego de um clube de bilionários decidam o destino da vida na Terra. A governança da inteligência artificial não é um problema técnico para engenheiros e empresários resolverem entre si; é um imperativo ético e democrático global que exige tratados internacionais rigorosos, transparência absoluta e o controlo público imediato destas tecnologias.

RECLUSOS DENUNCIAM CONDIÇÕES DA CADEIA DE VALE DE JUDEUS

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Oitenta e um reclusos do Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus assinaram um abaixo-assinado onde pedem a todos os que tiverem acesso a esse documento que o divulguem, como modo de pressão para tentarem resolver as situações que os afetam.

Sucintamente, os problemas expostos por este grupo de reclusos, são os seguintes:

  1. A greve dos guardas prisionais dura há quase 1 ano, ininterruptamente, o que afeta a vida dentro da cadeia, que em situações normais já é difícil.
  2. Os reclusos estão fechados nas celas 22 horas por dia.
  3. Aumento de casos de doença mental e o consequente aumento de suícidios.
  4. Falta de acompanhamento médico (reclusos têm morrido por falta de assistência), há reclusos há mais de 1 ano à espera de consulta no dentista ou na psiquiatria.
  5. Falta de condições de higiéne (não há água quente, casas-de-banho degradadas)
  6. Alimentação de má qualidade (a cheirar a podre).
  7. Diminuição das visitas.
  8. Celas sem televisor, o que provoca aumento de ansiedade para quem está 22 horas por dia, semanas, meses a fio, a olhar para uma parede.
  9. Instalações infestadas de ratos e baratas.
  10. Violência dos guardas prisionais, nomeadamente contra reclusos que reclamam pelo cumprimento da lei no interior do estabelecimento prisional.

Os reclusos solicitam que as autoridades que superintendem o sistema prisional (Ministério da Justiça, DGRSP) façam uma visita ao EP de Vale de Judeus sem pré-aviso.

O abaixo-assinado termina com o pedido de que se preservem as identidades dos reclusos que o assinam, de modo a evitar represálias que, segundo os reclusos, podem por a vida deles em risco.

O MERCADO À PORTA DA ORDEM DOS ADVOGADOS

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A propósito do recente incidente em que uma turista sueca foi inadvertidamente baleada na Baixa de Lisboa, o bastonário da Ordem dos Advogados, João Massano, falou da insegurança na zona e apontou o Largo de São Domingos como exemplo. À porta da própria Ordem, disse, existe diariamente um “mercado” de rua, chegando a dizer que ali seriam vendidos bens “provavelmente roubados”. Esta afirmação tem de ser esclarecida: uma coisa é existir comércio informal; outra, bastante diferente, é afirmar que se trata de um mercado de produtos roubados. Essa afirmação carece de prova.

O que existe naquele largo não é propriamente uma novidade lisboeta. Há séculos que se vende e se compra naquele pedaço da cidade. O convento de São Domingos começou a ser construído em 1241 e, ao longo dos séculos, o espaço em redor transformou-se num dos grandes lugares de circulação, encontro, feira e comércio da cidade. Em 1688, Frei António do Rosário escreveu que a “feira de Lisboa” se fazia, às terças-feiras, precisamente defronte do templo de São Domingos. E há registos da chamada Feira das Bestas, no século XVIII, ali mesmo. Mais tarde, o comércio da zona haveria de se prolongar pelo Rossio, pela Praça da Figueira e por toda a Baixa.

O pequeno mercado informal que hoje se encontra no Largo de São Domingos, de roupa e calçado usados, alimentos e produtos trazidos sobretudo dos países africanos de expressão portuguesa, particularmente da Guiné-Bissau, pode, portanto, ser visto também como uma manifestação contemporânea de uma velha característica daquele lugar: gente que se encontra, gente que circula e gente que vende coisas. A própria Câmara de Lisboa reconhece o Largo como um ponto de encontro regular das comunidades guineense e cabo-verdiana. Há uma razão para essas pessoas estarem ali: o lugar tornou-se, ao longo de décadas, um espaço de sociabilidade africana em Lisboa.

Não significa isto que todo o comércio ambulante seja legal, nem que não possa haver ali produtos de proveniência ilícita. A polícia que investigue. Mas transformar uma pequena actividade comercial informal num mercado de produtos “roubados” sem apresentar provas é outra coisa. E talvez seja curioso lembrar, antes de se olhar para aquele comércio como um sinal da decadência de Lisboa, que São Domingos e o Rossio nasceram, cresceram e ganharam importância precisamente como lugares de gente, de passagem, de encontro, de feira e de comércio. O mercado pode ter mudado de produtos e de vendedores. A cidade continua a fazer ali aquilo que faz há muitos séculos: juntar pessoas.

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