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CALDEIRADA DO 1º DE MAIO

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Não se quer perder tal tradição vetusta, que remontará a meados do século passado, quando o trabalho da pedra constituía, a par da lavoura, uma das atividades dominantes no concelho de Cascais.

Ia-se, manhã cedo, para a orla marítima do Guincho. A Marinha ainda era só pinhal aberto. Arrumava-se aí um recanto para o fogo. Uns tratavam dos ingredientes; outros, cana de pesca na mão, tinham a certeza de que o peixe picaria e caldeirada a preceito haveria de se saborear.

Jornada de convívio, dia de folga, dia de reivindicação pela dignidade do trabalho.

Atingiu a meia centena o número de convivas deste ano, a não haver mais sítio no barracão do Carlos, no coração de Trajouce. Já a muito custo se ouviria o coaxar das rãs na Ribeira ao lado (por limpar).

A caldeirada bem saborosa estava. Temperada a preceito. Regada com tinto de lavra particular.

Tempo houve, porém, enquanto o bolo se não partia e as rifas para o troféu anual se compravam.

Carlos Sabido exibe o trofeu deste ano

Tempo houve para dar uma vista de olhos nas prateleiras derredor, pejadas de antiguidades que Carlos Sabido vai recebendo. Um mundo! Máquinas fotográficas, telefonias, esculturas, lustres…

E, este ano, lugar de relevo para as ferramentas de canteiro, onde não faltou a vassourinha de palma com que se ia limpando o pó de um peitoril ou de uma faixa.

Fotos de Guilherme Cardoso

Após a foto do grupo, o voto: que todos aqui possamos voltar pró ano!

                                                          

A LISBOA ‘chic saloia’ DO MOEDAS

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Carlos Moedas foi o pior que poderia ter acontecido a Lisboa. Aconteceu duas vezes, por sucessivos erros do Partido Socialista e por opção de uma parte dos eleitores.
Em 2021, ganhou por três mil votos uma eleição que, aparentemente, estava ganha por Fernando Medina, mas que os erros cometidos, em campanha, levaram à derrota.
Em 2025 ganhou as eleições por 20 mil votos, uma vitória fácil, pois o PS voltou a cometer um erro de palmatória ao integrar uma coligação com um partido moribundo.

Carlos Moedas, apesar destas vitórias, da responsabilidade de quem o elegeu, vai deixar um rasto de destruição na cidade, que levará anos a recompor-se e, pelo meio, comprova a sua vertente ‘chic-saloia’, de cidadão do mundo. Para alcançar este objectivo, oblitera os sem
abrigo que se recolhem nas arcadas da Av. da Liberdade, em conluio com Gonçalo Castel-Branco, produtor de eventos (autor, por exemplo, do Chefs on Fire) seu apoiante e que trabalhou pró-bono na sua campanha. Na verdade, verifica-se que era um adjudicatário a trabalhar para a vitória de um futuro adjudicante. E, sem passar um ano, com descaramento e sem vergonha, o Presidente da Câmara de Lisboa ‘ofereceu’, por um pseudo ajuste directo, à LOHAD, uma empresa de Gonçalo Castel-Branco, 75 mil euros, para apoiar um evento no parque Eduardo VII no dia 3 de Maio, o Domingo na Avenida, promovida como ‘um chic-nic elegante no coração de Lisboa’.

A coberto de uma manifestação de novo-riquismo, Gonçalo Castel-Branco organiza um pic-nic, com preços entre os €150 a €300, os quais configuram dois tipos de ‘experiência’: Bilhete Experiência 2 Pessoas por 150€:, com acesso ao recinto, aos 10 pratos exclusivos, a uma garrafa de vinho e aos concertos musicais. O cesto de piquenique não está incluído, mas pode ser adquirido no local. Bilhete Premium com Cesto (300 €) que inclui experiência completa para duas pessoas, com a diferença de que já oferece o cesto de piquenique.

Num País em crise, com o agravamento do custo de vida, em que a classe média e média baixa tem dificuldades em ter dinheiro até ao final do mês, o ‘novo rico’ Carlos Moedas, com o seu amigo Gonçalo Castel-Branco, organizam, à custa do Município de Lisboa, uma festa para brincar às ‘tias’, oferecendo, hipocritamente, ao povo, a possibilidade de assistir, longe dos lugares VIP, a um concerto do David Fonseca e da Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Já agora, poderia organizar, para estes novos-ricos, um passeio pelas arcadas da Av. da Liberdade, onde dezenas de sem abrigo se recolhem e ali fazem a ‘sua casa’.

Triste País que tem um dirigente destes que, ainda por cima, anda perdidamente ansioso por ser primeiro- ministro…

O ‘CRIMINOSO’ ATACOU TRÊS VEZES

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Não se contentou em avivar, como muito bem lhe pareceu, a inscrição da porta da igreja de Valhelhas – de que já se falou antes – deu cabo de mais duas!

Foi-se à inscrição do campanário e – como já Filipa Avelar escrevia em 2003, na ficha do SIPA (Sistema de Informação para o Património Arquitectónico) – «também alguns sulcos desta inscrição foram pintados a preto, mas mais uma vez mal interpretados originando dificuldades na leitura da palavra “campanário”».

Prometêramos voltar a Valhelhas para dar conta do terceiro crime de leso património, perpretado na inscrição encrustada na parede de um edifício localizado no  Largo Santa Maria Maior, fronteiro à porta principal da igreja matriz.

Como que para eventual preservação de pedras com letras e como também por ali havia um brasão em relevo, alguém, um dia, agarrou em tudo e pespegou nessa parede, onde não faz nenhum sentido, a não ser esse, o de os guardar,  a desafiar os estudiosos da heráldica e também os epigrafistas.

A inscrição poderá ter sido partida em duas para se ajustar ao enquadramento, como que para emoldurar o brasão. Foi de tal modo grosseiramente avivada que mal se percebe o que poderia lá ter estado escrito anteriormente. Porventura, haverá aí alusão a um sargento-mor – vê-se CARgE/NTO MAOR – precedido, na 1ª linha, por MEII PINtoR (o N invertido): será Manuel pintor? E filho (vê-se fo Do) do sargento? Quem adivinha? Se a inscrição sob o brasão é continuação da de cima, seria esse o autor da obra, porque se lê bem: MANDA fAZE|R ⸳ ESTA oBRA. Segue-se a data: 1693. Desconhece-se o que significa AS.

Está bem preservado o brasão, que os heraldistas saberão descrever a rigor.

Diremos que, debaixo de um capacete redondo, de abas a terminar em voluta, há um motivo floral horizontal. O escudo central em V mostra uma leoa apoiada sobre as patas traseiras, que assentam, por sua vez, sobre cinco traços horizontais (a simbolizar propriedades fundiárias, será?); há pendentes, lateralmente, ramagens que poderão ser ramos de hera.

Haveria a tentação de considerar este um brasão dos Castros, na medida em que, na citada ficha do SIPA, se diz que «no ático do retábulo-mor de talha dourada surge o escudo da família de D. Rodrigo de Castro». De resto, também no ângulo do norte do campanário estão as armas dos Castros bastardos (os das seis arruelas), o que parece provar que estes Castros possuíam, no século XVII, o senhorio de Valhelhas e a alcadaria norte do seu castelo, como sugere Pinho Leal (vol. X 1873, p. 159, do seu Portugal Antigo e Moderno).

Sobre os Castros, de Valhelhas, mas num registo mais recente, sabe-se que José (Augusto Soares Ribeiro) de Castro, advogado de prestígio, jornalista, fundador, em 1 de novembro de 1882 do jornal O Povo Português, o primeiro jornal republicano da Guarda e, mais tarde, a 24 de Fevereiro de 1878, diretor de um outro jornal, o Districto da Guarda, ativo entre 1878 e 1938, grão-mestre da Maçonaria, republicano profundo, nasceu em Valhelhas, a 7 de Abril de 1848, pai do major Álvaro Xavier de Castro (1878-1928), nascido na Guarda quando o pai era aqui advogado, também ele republicano e ministro em 1920. Serão descendentes do Senhor de Valhelhas, D. Rodrigo de Castro, filho do I Conde de Monsanto, D. Álvaro de Castro? É bem possível!

E acrescentar-se-á, a talhe de foice, que essas mesmas armas, com as seis arruelas, se mantêm num dos panos da muralha do antigo castelo de Cascais.

Escudo dos Castros no castelo de Cascais

O primeiro Conde de Monsanto por carta régia de 1460, outorgada por D.Afonso V, foi D.Álvaro de Castro, «neste Reino grande Senhor pela representação da Casa de Castro e outras prerrrogativas que concorriam na sua pessoa», como se lê na p. 474 do volume XI da História Genealógica da Casa Real Portugueza, de António Caetano de Sousa (1745). Morreu a 24 de Agosto de 1471, na tomada de Arzila, quando defendia o castelo cuja guarda lhe estava confiada: «Sua morte (escreveu Rui de Pina) foi muito sentida, porque no campo e na corte, na paz e na guerra, era por seu siso, discrição e esforço, homem mui principal».

Pois a um dos seus descendentes houvemos de nos referir agora, devido a mui singelo baixo-relevo, perdido nos confins da Beira Alta, quem diria? Não sabemos quem foi; mas uma certeza nos resta: o brasão que está nesta parede não é de Castro nenhum, nem dos da boa estirpe nem dos bastardos que Pinho Leal mencionou.

(crónica em parceria com Dulce Borges)

IMPALA VAI SER COLÉGIO PARA JUDEUS

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Peritos em escombros, os sionistas viram ali uma oportunidade. Os compradores são a Yael Foundation, referenciada como organização filantrópica internacional. Com o edifício dizem querer transformá-lo em colégio judaico. Uma espécie de madrassa só para judeus.

A Yael Foundation foi fundada e é gerida pelo casal Uri e Yael Poliavich. Uri Poliavich é o fundador e CEO da Soft2Bet, uma empresa global de jogos online e apostas desportivas. Gozam da fama de filantropos, mas talvez não passem de sionistas que angariam fundos e quadros para sustentar o Estado de Israel.

Não foi possível encontrar declarações deles sobre o genocídio do povo palestiniano ou qualquer crítica quanto às anexações da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. O silêncio tem a sua eloquência.

Uri Poliavich

Após os acontecimentos do dia 7 de Outubro de 2023, Uri Poliavich falou repetidamente em “ataques ao Estado judeu”, referiu “inimigos que visam Israel e os judeus globalmente” e deu ênfase à necessidade de fortalecimento identitário da sociedad israelita. No fundo, aproveitou as circunstâncias para promover o seu negócio.Descreveu a educação judaica como uma espécie de “Iron Dome comunitário”.

Este tipo de discurso coloca Israel e as comunidades judaicas numa lógica de defesa civilizacional contra ameaças externas, uma narrativa central no discurso político sionista.

Imagens e mensagens da propaganda da Yael Foundation na sua página do Facebook

São estes os tipos que compraram o edifício Impala. E não deixaram os créditos por mãos alheias, fizeram um bom negócio. Oito milhões de euros é um bocado de dinheiro, mas tratando-se de um espaço de 15 mil metros quadrados, cinco pisos, com equipamentos já instalados (cozinha, refeitório, estacionamento automóvel, etc.), foi um bom negócio do ponto de vista do comprador. A coisa valeria mais alguns milhões, aos preços do metro quadrado do imobiliário na zona de Sintra, com acessibilidades fáceis para Cascais e Lisboa.

QUANDO O CRIME COMPENSA

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Jacques Rodrigues é, talvez, o último dos dinossauros da imprensa portuguesa. Construiu (e deixou cair) um império de média com o grupo Impala que detinha dezenas de títulos, entre eles alguns campeões de vendas como foi o caso da revista Maria.

É, também, provavelmente, o mais odiado patrão do setor. Há centenas de trabalhadores lesados, despedidos ilegalmente sem as indemnizações a que tinham direito, assim como fornecedores com dívidas por cobrar há largos anos.

Quando já só esperávamos a notícia de que tinha morrido, finalmente, e que a terra lhe iria ser pesada, chega-nos a notícia de que, afinal, o homem ainda mexe. Trata-se de uma notícia sobre a decisão do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa que julgou “totalmente improcedente” o processo interposto pelo empresário, na sequência de uma notícia publicada pelo jornal online Esquerda sobre a luta dos trabalhadores para recuperarem os créditos de insolvência da Descobrirpress (uma das empresas de Jacques). Nada que nos admire. Jacques continua a ter os advogados de que precisa para tentar castigar os que o criticam. Raramente tem conseguido, mas a teimosia corre-lhe nas veias.

Já que falamos nele, convém lembrar que Jacques Rodrigues ainda não se livrou das investigações judiciais que o indiciam pelos crimes de insolvência dolosa agravada, por ter provocado a falência das empresas do grupo de forma intencional, transferindo bens e dinheiro para o Brasil, burla qualificada pela utilização de esquemas de “falsos PER” (Processos Especiais de Revitalização), onde terá  apresentado credores fictícios de modo a enganar credores verdadeiros, tribunais e o Estado, entre outros crimes.

A ser verdade tudo isto, o homem é um aldrabão de grande gabarito. Porém, apesar dos indícios não tem, de momento, nenhuma medida de coação que lhe atrapalhe a vida confortável que construiu. É verdade que está considerado insolvente, o que apenas quer dizer que é incapaz de pagar pessoalmente as dívidas que acumulou e que ascendem a mais de 100 milhões de euros. Mas está longe de ser um pobrezinho sem-abrigo.

No Brasil, continua dono e senhor de hotéis de luxo e de enormes propriedades agrícolas, mais do que suficientes para manter uma vida de nababo, a ele e ao seu séquito familiar. Já os trabalhadores a quem ele deve dinheiro, passados anos ainda andam às voltas com o Fundo de Garantia Salarial, a ver se recebem uma parte do que lhes devia ter sido pago.

GREVE GERAL À VISTA

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O Governo, com o apoio da direita parlamentar, avançou com o chamado “pacote laboral”, uma reforma do Código do Trabalho que conseguiu um feito raro: juntar na contestação as duas centrais sindicais, UGT e CGTP, e somar-lhes setores do próprio patronato, em especial pequenas e médias empresas.

Perante isto, impõe-se a pergunta essencial: que problema concreto vem esta reforma resolver? À vista desarmada, nenhum. A produtividade não cresce com precariedade, nem a competitividade nasce da insegurança. Empresas sólidas constroem-se com trabalhadores motivados, estáveis, respeitados e isto não é conversa fiada.

Falo também por experiência. Durante anos tive o melhor emprego do mundo: pagavam-me bem e sentia-me valorizado. Ia trabalhar com alegria e empenho. Pouco importava não saber a que horas sairia, se as folgas seriam gozadas ou quantas horas extra ficariam por pagar. Sentia que o reconhecimento já estava incluído no salário e no ambiente de trabalho. Foram oito anos assim.

Até que o patrão preferiu um despedimento coletivo a reinvestir uma pequena parte dos lucros acumulados. Quebrou-se o vínculo. Começou a luta laboral. Os despedimentos tornaram-se rotina. A SIC e o grupo Impresa nunca mais deixaram de arrastar dívida bancária. Para evitar o colapso, a família acionista acabou por vender 33% do capital à italiana MediaForEurope, em 2025. Assim se juntaram os herdeiros de Berlusconi aos herdeiros de Balsemão.

O caso serve apenas como exemplo de algo simples: desequilibrar a relação laboral a favor de uma das partes não garante melhores resultados. Muitas vezes produz precisamente o contrário. O patrão ilude-se quando acredita que terá melhor empresa com trabalhadores vergados a uma vida infeliz.

Dir-se-á que uma empresa de média não representa o tecido empresarial. Que há negócios de “encher chouriços” ou fabricar panelas que prosperam com mão-de-obra barata e descartável. Talvez em teoria. Na prática, as semelhanças abundam. Desde logo no próprio “encher chouriços”, hoje banalizado em muitas redações. E convém lembrar que uma empresa de média, além de informar, vive largamente de entretenimento e de produtos comercializáveis. Como qualquer empresa, existe para gerar lucro aos acionistas.

Em síntese, a revisão da lei laboral vai gerar instabilidade social. Há já uma greve geral no horizonte. O Governo pode ver o seu pacote laboral aprovado pela Assembleia da República, mas é previsível que o Presidente não promulgue uma lei que não tem acordo de nenhuma das centrais sindicais. Ou seja, não se percebe o que vão eles ganhar com tudo isto, para além do desnecessário desgaste político de uma governação socialmente insensível. Não estamos perante uma resposta a qualquer urgência da economia nacional. O que se vê é sobretudo uma opção ideológica: a convicção de que enfraquecer quem trabalha fortalece quem manda.

A PEDRA PARTIDA

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Sabíamos que perdera a cabeça e até andámos às voltas com ela até percebermos que se encontrara a metade inferior duma ara romana.

Confesse-se que, à primeira vista, tantas são as pedras deste jeito, até hesitámos acerca da sua antiguidade. Depressa, porém, nos convencemos que sim, era um altar romano, dedicado a uma divindade, mormente depois de, pelas mágicas virtudes resultantes da aplicação, por Alexandre Canha, de milagrosos filtros fotográficos, termos logrado ler, no final, a fórmula ritual: ex voto, «por voto», o que de imediato nos deu a entender que se tratava, de facto, de uma inscrição votiva (que é o adjectivo  que se aplica a este tipo de monumentos).

parte inferior do altar

Na actualidade, acções de graças a Deus ou aos santos consubstanciam-se, habitualmente, na oferta de uma vela que se queima, simbolizando a chama e o fumo que dela se exala a prece que sobe para a entidade divina homenageada. Queimada a vela, o que resta pode ficar sem qualquer préstimo, a não ser – como acontece nos grandes santuários religiosos – que se proceda à respectiva reciclagem e daí novas velas venham a ser fabricadas.

Não pactuavam lá muito os Romanos com essas transitoriedades. Preferiam gravar na pedra dura, a fim de ser eterna a sua gratidão. Não podia, porém, o vulgar devoto dar-se ao luxo de, por exemplo, mandar fazer um altar, uma capela lateral ou mesmo uma ermida – como, também hoje, isso é apanágio de quem tem posses para tal. Por isso, limitava-se a ir a uma oficina de canteiro (havia-as, naturalmente, por perto dos grandes santuários), escolhia uma das miniaturas de altar que o artífice já teria à vista, explicava que dizeres queria fossem gravados e, encomenda recebida, lá iria depô-la no santuário divino.

Ara aos Lares Viales, de Braga

O ideal seria haver pompa e circunstância. Que, como nas missas solenes, se queimassem incensos para purificar a doação e simbolizar, pelas cheirosas ondas de fumo a subir, a elevação das preces e do mui devoto reconhecimento. Daí que – embora habitualmente não chegasse a ser  usado, era um símbolo – se esculpisse na parte superior do capitel uma covinha, teoricamente destrinada a que nela se derramassem as essências a queimar. Por isso se lhe dá o nome de fóculo, pequeno fogo. O pequeno altar romano achado à saída de Bracara Augusta (Braga) ostenta claros vestígios de fogo; o viandante, à saída ou à entrada da cidade, queimava aí essências em honra dos deuses das vias (Lares Viales) para que o protegessem na ida e, à vinda, para lhes agradecer a companhia.

Parte superior do capitel com o fóculo
Ara aos Lares Viales, de Braga – fóculo

Encontrámo-la decapitada a ara de Barcos. Estava em reutilização. Fora partida a meio. Mas arqueólogo que se preza não se deixa esmorecer e, se bem o pensou, melhor o fez: suspeitando-se de que a outra parte poderia estar no monte de pedras que os pedreiros da obra haviam levado para um terreno da proprietária, urgia que esse monte fosse remexido. E, assim, o amigo Fernando Moreira, a nosso pedido, toca de ir ao monte e que a consabida perícia do maquinista fizesse… o milagre. E fez! Em menos de uma hora, lá se encontrou o capitel, a cabeça que a pedra perdera. E até tinha fóculo, com 14 cm de diâmetro!

Correu-se a ajustar tudo, dava certo e aí temos o monumento inteiro, com 56,5 cm de altura total. Pronto para dele se fazer o estudo epigráfico minucioso, comparando-o, eventualmente, com outros achados pelas redondezas e acicatando-nos a curiosidade: donde é que o altar terá vindo? Que vestígio romano de alguma monta haverá por perto? Como sói dizer-se, «não há fumo sem fogo»; assim, aqui, se há altar, tem de haver o sítio original em que ele foi colocado!

(em co-autoria com José d’Encarnação)

As duas partes do altar

COMEMORAR ABRIL NUM TEMPO SEM TEMPO

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A festa do 25 de Abril de 1974 transformou-se, 52 anos depois, num imenso deserto de ideias, de projectos, de esperança e Portugal continua um País adiado, permanentemente adiado.

Juntos 52 anos, em democracia, não nos permitem, tal como Patxi Andion, dizer com amor:

‘20 anos de estar juntos
Esta tarde se cumpriram
Para ti flores, perfumes
Para mim, alguns livros
No te disse grandes coisas
Porque no me haviam saído
Já sabes coisas de velhos
Ressentimento do que não fui.
Há muito tempo que tentamos
Qualificar o nosso destino
Tu descias a persiana
E eu provava o meu último vinho.’

Portugal é um País triste, ‘ansiolítico’, que vive à beira do precipício, numa ‘insustentável leveza do ser’, tal como Tomás, um personagem criado por Milan Kundera, que escolhe ser ‘leve’ para não pensar, nem se preocupar com o que o rodeia.

E leve, bem leve, é a relação de Portugal com as graves questões sociais, económicas e financeiras neste Mundo global, neste tempo sem tempo, em que, vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas, os mercados financeiros não param e destroem os países e as Nações, na voragem do lucro que levará, inevitavelmente, à destruição do sistema financeiro, com a conivência de países que lançam guerras sem fim dando a ganhar, a alguns, fortunas imensas.

No caso português, os governos desperdiçaram, sucessivamente, as oportunidades de enfrentar os desafios do futuro, não tendo reestruturado o tecido produtivo, não criaram nichos de mercado que alargasse as exportações e trocaram a agricultura e a pesca por meia dúzia de ‘sestércios’.

Ao longo dos anos nunca foi definido um rumo e um objectivo para Portugal. Sempre vivemos ‘à bolina’, na expectativa de encontrarmos um caminho que não desse trabalho, não obrigasse a pensar e não exigisse massa crítica. Uma boa parte da nossa classe empresarial apenas sobrevive porque se tornou subsídio-dependente do Estado e dos Fundos Comunitários. Tal como no tempo das Descobertas, em que vivemos, parasitariamente, das especiarias, do ouro e da escravatura, encontrámos na Europa uma nova forma parasitária de sobrevivermos e fingir que éramos um País desenvolvido.

E agora, voltando a Patxi Andion, ‘Passaram-nos a conta e tu terás que pagar e eu terei que pagar também, teremos que pagar.’

Porém, por muito que se queira esconder a realidade e que se viva no reino da fantasia, o Mundo está conturbado e agita-se a um ritmo imparável, sem rumo e com um destino incerto.

A guerra desencadeada pelos Estados Unidos e por Israel, contra o Irão, com o objectivo de colocar em crise o poder religioso, num confronto entre laicismo e religião, pode ser um erro clamoroso e as alterações no Médio Oriente acabarem por ser um completo desastre para a economia global. As repercussões desta agitação, na Europa e no resto do Mundo, estão a ser avassaladoras, com graves efeitos na economia e no sistema financeiro, além de alterarem conceitos culturais e concepções políticas.

Foi neste quadro mundial que se comemorou o 25 de Abril de 1974, com dois discursos antagónicos, o do Presidente da República e o do Presidente da Assembleia da República, que, sem pudor, fez uma intervenção inqualificável, de total desprezo pela data e pelos princípios democráticos.

Mas, afinal o que foi o 25 de Abril de 1974? Não é possível dar uma resposta simples, clara e unificadora, porque houve vários 25 de Abril. A devolução da democracia aos portugueses é um dos poucos pontos em comum entre as diversas concepções do 25 de Abril (mais para uns do que para outros), que se ergueu como o Nirvana, mas que não passa de um imenso vazio, fora de uma profunda reformulação do Estado e da sociedade.

Na verdade, derrubado o regime salazarista, os partidos e os militares esqueceram-se do fundamental: pôr fim às concepções napoleónicas e rasgar a estrutura administrativa nascida com o Código de Rodrigues Sampaio, que o Estado Novo integrou como seu, ou seja, limitaram-se a dar umas pinceladas democráticas no Estado corporativo, mantendo o essencial dessa estrutura. E este erro, básico, inquinou todo o processo democrático e a evolução do País.

Falar de Abril, comemorar Abril, não pode ser uma ideia redutora da data, transformada, cada vez mais, num feriado que serve para fazer uma ponte e ter mais uns dias de férias.

Falar de Abril é falar do futuro, de uma concepção dinâmica da sociedade portuguesa, dizer o que se quer, para onde vamos e como podemos lá chegar. Porque Abril não alimenta, não dá pão, não dá emprego, não cria riqueza. Em 52 anos de democracia, o regime envelheceu. O Mundo está a mudar, os partidos de extrema-direita e populistas, estão a crescer, sendo que no nosso País esse fenómeno também se verifica.  

Os cidadãos começam a estar fartos desta classe política. E que não se entenda esta afirmação como um discurso contra a classe política. É precisamente o contrário, ou seja, um chamamento a melhores políticos e a mais e melhor democracia. É verdade, os tempos são de mudança em Portugal e no resto do Mundo e todos nós, inevitavelmente, também mudámos, porque, como diz Eduardo Lourenço, ‘o Mundo está a mudar rapidamente e os políticos europeus e portugueses relativizam as coisas, sem pensar no global’.

Defensor do ideal da liberdade, igualdade e fraternidade, preocupado com a justiça social, acompanho, com apreensão, a deriva demo-liberal nos mais diversos países europeus, um desastre de proporções tão gravosas que não a quero para o meu País. Portugal precisa de crescer, de se desenvolver, de criar massa crítica, de ter capacidade para reduzir o desemprego, de aumentar a riqueza, para que se combata a pobreza – a visível e a envergonhada – dos reformados, dos idosos, de uma classe média que empobrece e tem vergonha de mostrar a sua decadência. Para isso, é fundamental ter coragem para mudar! Portugal é um País de navegadores, de conquistadores, de descobridores (‘navegar é preciso; viver não é preciso’, dizia Fernando Pessoa).

Mas é fundamental ter esperança para se sair da crise. Porque, sem esperança, nada será possível num regime envelhecido, em que não se vislumbram sinais ou vontade de que os responsáveis o queiram repensar ou mudar. Esperança, mudança, democracia, coragem, lucidez é só isto que se exige a quem queira estar na política.

O mar de jovens que encheu as ruas no dia 25 de Abril pode dar corpo a esta esperança, vamos acreditar que, com essa onda, venha a coragem e a lucidez que ancorará a mudança.

“A MENINA DAS CAMÉLIAS”

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O pintor José de Almeida e Silva e o seu "A Menina das Camélias". Imagem construída com recurso a IA.

José de Almeida e Silva, o “Silva Pintor” como foi chamado, viveu em Viseu entre 1864 e 1945. A sua actividade quase se perdeu nos inventários da arte portuguesa;  legou-nos, porém, incrível produção artística, onde a pintura sobreleva, em número e aparato, as suas dispersas criações, que se estendem pela escrita polimorfa em livros, jornais e álbuns, ilustrados, sobretudo, com as caricaturas de uma sociedade do seu tempo. Ocasional foi a sua abordagem da escultura com um busto de Camões.

Presença assídua, em Lisboa, nas Exposições da Sociedade Nacional de Belas Artes – onde se detinha, lápis em punho, escrevendo notas demoradas –, mostrou também a sua arte em Paris ou no Brasil, e o seu quadro, as Hortaliceiras, hoje no Museu Nacional Grão Vasco, recebeu até “Medalha de ouro”.

Deter-nos-emos, agora, apenas face a um dos quadros do inventário do Museu Nacional Grão Vasco, retrato a óleo sobre tela de título A Menina das Camélias, que o artista produziu em 1912.

Não desfruta da atenção que os visitantes dão a essoutra menina, a Menina de Madrazo, de que já aqui se falou. Porventura, o visitante apenas se deterá, por instantes, olhando essa menina envergonhada, que suspendeu a marcha, aconchegou ao peito o bonito ramo de camélias que levava e cativa ficara do gesto ternurento do pintor que a eternizou no seu retrato.

A Menina das Camélias (1912) – José de Almeida e Silva

Era tempo de Páscoa, das camélias abertas nos jardins da cidade – o do Paço dos Bispos, que ainda floresce, hoje, ao Fontelo – ou nos recatados jardins do Solar dos Treixedos ou da Casa do Cerrado, onde as últimas fidalgas demoravam.

Ia de caminho, a menina, talvez a casa da madrinha que lhe ofertara como prenda, nessa Páscoa, os brincos de oiro que ela agora lhe vai mostrar, tímida e envergonhada que ela vai.

Suspende a marcha, a menina, fica-se a olhar o ternurento gesto do pintor que ali se quedou também, cativo do olhar melancólico da criança, antes que possa voltar a caminhar, soltas as mãos, sem desprendê-las do ramo fresco das camélias com que retribui a prenda bonita da madrinha.

E lá seguirá, rua fora, até à casa grande da madrinha. A mãe vestiu-lhe um casaquinho de lã verde, que ainda havia frio em Abril, penteou-lhe o cabelo como ela gostava, ela disse que sabia o caminho, a casa da madrinha não ficava longe.

Almeida e Silva lavou os pincéis, mandou fazer uma moldura como aquela com que fechava os seus tesouros nessa arca imaginal do seu estúdio, onde, às vezes, distraído, deixava entrar um atrevido raio de sol.

Talvez tenha saído para a margem da cidade, há sempre uns velhos que regressam da horta, um velho roçando mato. Ter-se-á cruzado, no caminho, com a pequena lavradeira a que chamou Flor Agreste e terá ido mais longe, quem sabe, passear nas áleas do Fontelo, terá descido, não sei, à Ponte da Azenha onde há sempre lavadeiras batendo roupa branca, enquanto cantam virtuosas canções de romanceiro.

Almeida e Silva raramente gostava de sair da sua terra.

CARTA AO CID ADÃO

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Meu caro Cid Adão,

Começo então por lhe dizer que se fomos inventados por Deus é porque o macaco o desiludiu mesmo muito a sério.

Não é que somos uma espécie muito complexa, capaz de fazer desistir quem se dedique a estudar-nos? Como portugueses, gostamos de ligar os complicadores, e aqui para nós, arranjámos maneira de nos dividirmos em esquerda e direita. E agora, tome nota, para que não tornemos muito complicado o estudo que eventualmente nos fizerem neste campo, inventámos os centros. O centro esquerda e o centro direita. O que inventamos. Somos pródigos.

A quantidade de ideias que planeamos, que diabo Cid Adão, somos intelectuais. Inventámos tudo que é torneio de diversão… Neste momento estamos em plena sessão de “tiro ao PS”. Grande campeonato. Notamos que a fidelidade dos que sempre beneficiaram com o PS, deixa muito a desejar. É sempre assim. Ninguém está com ninguém. A verdade se diga, é que a fidelidade só se faz notar nos equipamentos de som.

Precisamos com urgência de um futurologista, um vidente que nos informe o futuro. Seria muito bom, mas esta arte é dificílima.

É muito difícil viver neste continuado e bem armadilhado contexto. Vamos ter a confiança de que o sistema parasitário que se agarrou ao país, desapareça (refiro os políticos que continuam a entrar nas nossas “vidas” por favoritismo partidário, ou lugar na fila e que até legislam quando entram na “máquina”). Se fosse por mérito não passavam da porta!

Vamos ter que trabalhar muitas horas mais. Dez, doze… dormir cinco, seis, sete? Meu caro Cid Adão, desfrute o dia, antes que um qualquer imbecil lho estrague.

Ao conseguirmos a democracia, começámos com um primeiro gesto e desapareceu a fome latente, fizemos outro e quase desapareceu a injustiça, fizemos um terceiro e desapareceram as nossas intolerâncias. Agora, um “génio” da política, pode aparecer, e com um gesto conseguir acabar com a democracia.

Um abraço,