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OLHAR O PAPEL

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grafismo e fotomontagem

Ler não é um ato passivo de decifração; é uma rutura com a imanência do mundo quotidiano. Quando o leitor vira as páginas “com calma e vagar”, ele opera uma suspensão da consciência temporal comum. O papel que “sussurra segredos” funciona como um portal fenomenológico. Nele, o espaço físico da sala dissolve-se para dar lugar ao “mar infinito do pensamento”.

Esta transição demonstra que a literatura é um terreno de transcendência. O sujeito que lê liberta-se das amarras da sua contingência histórica e espacial. Ele “voa sem qualquer destino”, mas esse desígnio não é uma fuga vazia. É a busca por um valor intrínseco que reside na palavra. A narrativa oculta funciona como um espelho da própria alma. O “reino distante” de que os poetas falam  não é um lugar geográfico, mas sim o território da pura possibilidade existencial.

A Literatura como Resposta à Angústia Existencial

A “ansiedade viva” descrita no texto remete diretamente para a inquietação existencial — a Angst heideggeriana. É o peso de existir e a consciência da finitude que geram o cansaço e a incapacidade de “ficar no lugar”. Perante o absurdo do quotidiano e o desgaste do tempo, o livro surge como o “abrigo perfeito”.

Esta cura ocorre porque a literatura funde o sonho e a realidade na “velha fonte” do mito e da narrativa. Ao beber dessa fonte, o leitor suspende a rigidez da sua própria identidade. Os heróis do passado e as personagens enfadas na sua rotina não são meras ilusões. Eles ganham “carne e voz” na mente de quem lê. Operam como alter egos que partilham o peso da existência sob o “mesmo céu”. A leitura cura a solidão ao povoar a sala com sombras que sofrem, choram e falam. O leitor descobre que a sua aflição é universal.

A Estética da Salvação e a Epifania da Frase

O ponto de viragem filosófico da leitura reside no toque “onde a lógica não sabe chegar”. A razão discursiva e a ciência explicam o mundo, mas não o justificam nem o confortam. A arte literária atua na dimensão do afeto e do espanto estético. A “frase perfeita” que o autor escreve funciona como uma epifania. Ela possui o poder de “fazer o pranto parar” e derreter o “inverno que em mim nasceu”.

Esta beleza formal devolve o sentido ao caos. A esperança é renovada a cada página virada porque o livro oferece algo que a vida real muitas vezes recusa: a promessa de um fechamento, de uma teleologia. Queremos saber se haverá perdão ou se o mistério vai prevalecer. Esta estrutura narrativa dá ordem à “contabilidade dos dias”. Transforma o tempo profano — muitas vezes frio e vazio — num tempo sagrado de refúgio.

Conclusão: Fugir de Si para se Encontrar

Em última análise, o ato de ler encerra um paradoxo profundamente filosófico. “Fugir de mim por escassos momentos” não é uma alienação da realidade, mas sim a condição necessária para a autodescoberta. Ao romper as amarras que prendem o corpo ao chão e ao “zortar o pensamento”, o sujeito liberta-se das pressões do seu ego imediato.

Nesse afastamento controlado, o leitor encontra a sua “própria salvação”. Ele regressa a si mesmo transformado, expandido pelas vidas que viveu nas entrelinhas e fortalecido pela certeza de que, enquanto houver uma folha por virar, o porto seguro da consciência estará garantido.

PARTIU PIÑEIRO NAGY

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Um amigo do peito.

Acompanhei bem de perto a actividade de Piñeiro Nagy, desde que, modesto, simples, nos apareceu a tocar guitarra clássica, um instrumento para nós ‘estranho’ nessa altura.

Lembro-me dos seus concertos simples, sem alarido, na Sala de música do Museu dos Condes de Castro Guimarães na década de 60 (se não erro). Pouco a pouco, Piñeiro Nagy foi conseguindo mostrar a importância da Música. A importância de um Festival de Música em Cascais. A importância de Cursos Internacionais, aqui, durante o Verão.

Joaquim Miguel de Serra e Moura, presidente da Junta de Turismo da Costa do Sol depressa apoiou a ideia. Abriu, sem medo, os cordões à bolsa, ainda que sabendo ficar sujeito a críticas dos que viam no turismo apenas sol e mar. Teimou Serra e Moura, teimou Piñeiro Nagy. A criação do Museu da Música Portuguesa teve também a sua mão.

Festival de Música de Cascais a rivalizar com o Festival de Sintra de mais longa tradição. Vinham mestres de reconhecidas escolas portuguesas e estrangeiras. Madalena Sá e Costa,  Maurice Eisenberg. Cito de cor os primeiros que me vêm à mente.

As audições no final dos Cursos, a euforia, um nervosismo, a recompensa pelo trabalho desenvolvido.

Muitos anseios partilhámos. Muitas linhas tive o gosto de escrever para mostrar como era do maior interesse turístico-cultural o que se estava a levar a cabo aqui nesta Costa do Sol, nesta antiga Costa do Sol. Não me arrependo de todo o apoio que dei.

Meu caro Piñeiro Nagy, descansa em paz! Este ano, parece, já não temos Festival. Mas eu acho que, em tua memória, alguém o irá ressuscitar, acredita!

Um abraço grande, Amigo!

JÁ NÃO BASTA SER DIFERENTE

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Durante demasiado tempo, muitas pessoas viveram sem compreender porque se sentiam diferentes, porque certas exigências do quotidiano pareciam exigir-lhes um esforço constante ou porque o mundo parecia funcionar segundo regras que nunca lhes foram explicadas. Para muitas delas, um diagnóstico trouxe clareza, pertença e acesso ao apoio de que precisavam. Nomear uma experiência pode ser profundamente libertador.

Mas talvez seja precisamente por isso que valha a pena parar e olhar para o que está a acontecer à nossa volta. Porque, ao mesmo tempo que assistimos a uma maior consciência sobre saúde mental e neurodivergência, assistimos também a outra coisa, a uma necessidade crescente de transformar a diferença em identidade.

Já não basta sentirmo-nos diferentes. Parece ser necessário saber porquê, explicar porquê, justificar porquê. Como se a diferença, por si só, tivesse deixado de ser suficiente.

Vivemos num tempo profundamente desconfortável com aquilo que não consegue categorizar. Tudo precisa de um nome, de uma definição, de uma explicação. E talvez isso não seja surpreendente. As categorias tranquilizam-nos. Organizam o caos. Dizem nos quem somos e, sobretudo, dizem nos que não estamos sozinhos.

Mas também simplificam. E, por vezes, simplificam demasiado. Porque nenhuma pessoa cabe inteiramente numa categoria. Nenhum diagnóstico esgota uma identidade. E, no entanto, parece existir uma pressão crescente para cabermos numa qualquer narrativa sobre nós próprios.

Quem sou eu. O que tenho. A que grupo pertenço.

Talvez porque, numa sociedade onde quase tudo se tornou individual, a pertença passou a ser um bem escasso. E quando a pertença se torna escassa, torna-se também um produto. Hoje, também a identidade se consome.

Talvez não seja por acaso. Durante muito tempo, o consumo prometeu conforto, estatuto ou felicidade. Hoje promete também autoconhecimento. Já não compramos apenas objetos. Compramos explicações para nós próprios. Compramos formas de nos entendermos, de pertencermos e, por vezes, de dar sentido àquilo que sentimos.

Como se a complexidade humana pudesse ser organizada através da categoria certa.

Consomem-se livros, podcasts, cursos, conteúdos, comunidades, percursos de autoconhecimento e explicações para aquilo que somos. Consomem-se formas de olhar para nós próprios. E, sem darmos por isso, começamos a consumir identidades da mesma forma que consumimos tantas outras coisas.

Como se existisse uma resposta definitiva para a complexidade humana.

As redes sociais aceleraram ainda mais este processo. Nunca foi tão fácil reconhecermo-nos num vídeo de trinta segundos. Nunca foi tão fácil ouvir alguém descrever um traço da sua experiência e pensar, sou exatamente assim.

Mas talvez um dos maiores problemas do nosso tempo seja a facilidade com que confundimos reconhecimento com diagnóstico.

Porque sentir-se diferente não é, por si só, um diagnóstico. Distrairmo-nos, sentirmo-nos deslocados, não corresponder às expectativas sociais, sentir dificuldade em adaptar-nos a determinados contextos ou ter formas particulares de sentir e estar no mundo fazem parte da experiência humana.

E talvez seja precisamente isso que se tenha tornado difícil aceitar. Talvez já não saibamos muito bem o que fazer com a estranheza.

Vivemos numa época obcecada pela melhoria contínua. Tudo pode ser otimizado, trabalhado, melhorado, transformado numa versão mais eficiente de si mesmo. E talvez por isso se tenha tornado tão difícil aceitar características que não podem ser corrigidas, produtivizadas ou transformadas em vantagem.

O desconforto, a diferença e até a singularidade passaram, muitas vezes, a ser entendidos como algo a identificar, enquadrar e gerir. Talvez tenhamos desaprendido a possibilidade de existir sem uma explicação para tudo aquilo que somos.

Isto não significa desvalorizar diagnósticos sérios, nem questionar o impacto profundamente positivo que podem ter na vida de tantas pessoas. Significa apenas reconhecer que nem todas as diferenças precisam de ser transformadas em categorias de consumo.

Porque existe um risco quando tudo passa a ser explicado através de uma linguagem diagnóstica. Começamos a olhar para a singularidade humana como uma sucessão de características a identificar, enquadrar e otimizar.

E talvez algumas diferenças não precisem de ser corrigidas, nem justificadas, nem sequer compreendidas na totalidade. Talvez algumas precisem apenas de ser acolhidas.

Porque uma sociedade verdadeiramente inclusiva não é aquela que consegue criar uma categoria para cada diferença. É aquela que consegue abrir espaço para a diferença antes mesmo de lhe dar um nome.

E talvez uma das perguntas mais difíceis seja esta: quando foi que deixámos de acreditar que era possível ser apenas diferente?

VOLTEMOS AO BÁSICO

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colagem fotográfica

Em Portugal, a tendência de imputar à imigração todas as desgraças do nosso País tem vindo a crescer, impulsionada pelo Chega e por alguns sectores do PSD. Veja-se a intervenção do novo porta-voz do PSD, um dos elementos radicais mais próximo do Chega, na senda de um populismo sem freio. Sebastião Bugalho disse que o PSD “quer chamar ao Parlamento os governantes do PS responsáveis pela entrada desenfreada de migrantes”.

E a desorientação do PSD deriva da correcção do PIB, na sequência dos dados do INE, quanto à população residente em Portugal, uma vez que, com o aumento do número de habitantes, a riqueza per capita baixa e comprova-se que o crescimento económico do nosso País, apesar do contributo dos migrantes, não é o que o governo apregoava. Comprova-se, pois, que as opções tomadas de política económica são profundamente erradas. Fica, com esta redução, demonstrado que não crescemos em relação à média europeia e existe uma forte redução do investimento empresarial e público.

Em contraciclo destas posições radicais, o Fórum BCE, que reuniu em Sintra, vem dizer que os picos de imigração e políticas mais abertas têm impacto positivo na economia.

Por tudo isto, talvez tenha chegado o tempo de dizer ‘basta’. De dizer que não há cidadãos de primeira, os puros e imaculados, e os de segunda. Os puros, mas que anseiam por pecar, estão cada vez mais sequiosos de mergulhar nesse lado das trevas, que eles criaram para exorcizar os seus próprios fantasmas. Por isso, é primordial voltar aos princípios, back to basics, reconquistar a sociedade, os cidadãos e motivá-los. Revejam Casablanca. É tudo tão simples. Rick e Ilsa ainda tinham Paris. Nós, qualquer dia, não temos memória do passado, nem ideia do presente.

JARDIM DE CORES

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Deu-se-lhe o nome de Jardim de Cores. Foi, decerto, antes de as telas terem sido escolhidas. Sim, uma exposição coletiva de pintura é sempre jardim de cores, se os quadros ajudarem; no caso da exposição patente, até ao próximo dia 20, na galeria do Casino Estoril, não ajudam:

– Olga Costas ficou-se pelo negrume da tinta-da-china;

– João Feijó apresenta quatro aguarelas da série “Oriente”, cada uma de cor ténue e a 9250 € (aí, sim, fica-se, de facto, de todas as cores!…);

– A polaca Mariola Landowska,  radicada em Portugal desde 2004, tem saudades da paleta cromática das vestes da sua terra;

– Paulo Ossião deixou, por seu turno, o ténue azul do casario lisboeta e seduz com bem cativantes figuras femininas: um primor, a grávida, por exemplo; e a vivacidade daquele olhar azul – que lindo!…

– Filipa Oliveira Antunes foi a única que salvou a ideia de jardim colorido, não só porque nos deixa bem vermelho cravo sobre fundo azul, o vermelho de imponente crista de galo em fundo amarelo e até o branco casario alentejano de poderosos chupões altaneiros a desafiar o azul do céu não é jardim mas com ele casaria bem.

Não há, pois,  explosão de cor e o jardim… só imaginado! Quem, no entanto,  se dispuser a visitar a exposição não ficará descoroçoado, porque, logo à entrada, terá de imediato a sensação de que precisará de largos minutos para tudo saborear a preceito.

Quererá sentir de perto a serenidade a desprender-se da cativante solenidade do casario alentejano. Quererá admirar de perto a grávida e o olhar líquido, límpido, banhado (dir-se-ia) em sereno mar azul,  de uma das figuras femininas do Paulo Ossião.

Toda a arte deve ter por condão convidar-nos a encetar caminho pelas veredas da Beleza. Olga Costas preferiu agarrar-nos e não nos deixar partir; Mariola apontou a vivida garridice das vestes da sua Europa Central; João Feijó sugeriu a delicadeza dos arranjos florais do Extremo Oriente; Paulo Ossião sublimou feminismo; Filipa Oliveira Antunes fez-nos imaginar que, no seu branco recanto alentejano, há sempre um cravo vermelho e, em simbiose, o entrelaçar de dois cantares: esse, campestre, do galo e o sempiterno de Amália.

Em silêncio por ali me quedei minutos sem fim.

A LEI À ORDEM

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Os tribunais são formalmente independentes do poder político. Mas essa independência tem limites que raramente são discutidos. Os juízes aplicam a lei produzida pelos políticos. É essa a sua função. O poder judicial pode interpretar a lei, mas não a cria nem decide quais os interesses que ela deve proteger.

Talvez seja por isso que, mesmo durante revoluções ou mudanças profundas de regime, o chamado poder judicial raramente seja desmantelado. Os revolucionários sabem que os tribunais continuarão a ser necessários para aplicar as novas leis. Muda a legislação, mudam os objetivos políticos, mas a máquina judicial permanece praticamente intacta.

O mesmo juiz que ontem aplicava a lei de um regime aplicará amanhã a lei do regime seguinte. Não porque tenha mudado de convicções, mas porque a sua missão institucional é precisamente essa. O que muda é o enquadramento legal e político em que decide.

Em Portugal, depois do 25 de Abril, todos os juízes que integraram os tribunais plenários entre 1945 e 1974 mantiveram os seus lugares na magistratura comum e continuaram, em regra, a progredir na carreira. Muitos chegaram ao Supremo Tribunal de Justiça. Os novos detentores do poder nunca hostilizaram os chamados “fascistas de toga”, magistrados que validaram confissões obtidas sob tortura pela PIDE/DGS ou sustentaram acusações politicamente fabricadas. A transição democrática no poder judicial fez-se sob o argumento da “preservação da independência dos tribunais” e da continuidade das instituições.

Este passado recente ajuda a compreender que a independência judicial não significa independência perante a ordem jurídica vigente. Os tribunais funcionam dentro de um sistema construído pelo poder político e destinado, antes de mais, a assegurar a sua continuidade. Às vezes, parecem servir para derrubar adversários políticos, conforme temos visto também.

Quando hoje olhamos para os tribunais, convém não esquecer esta realidade. Lá dentro existe uma lógica institucional onde os direitos individuais podem tornar-se secundários sempre que entram em colisão com aquilo a que se chama “interesse do Estado”. E esse conceito, tantas vezes apresentado como neutro, pode corresponder apenas aos interesses conjunturais de quem exerce o poder político. Governo e Estado não são a mesma coisa. Mas, demasiadas vezes, os interesses particulares e as portas giratórias valem mais que tudo.

UM MEMORANDO, VÁRIAS DÚVIDAS

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A cooperação entre RTP e Lusa não começou agora. A partilha de instalações em algumas delegações no estrangeiro existe há muitos anos. Em países como Timor-Leste, Angola ou Guiné-Bissau, por exemplo, essa realidade é conhecida. Do mesmo modo, sempre existiu uma relação comercial bem definida: a Lusa produzia informação e a RTP era um dos seus clientes.

É precisamente por isso que o memorando levanta dúvidas que continuam sem resposta.

Se a cooperação se limitar à utilização conjunta de edifícios, equipamentos ou outros recursos logísticos, pouco mudará em relação ao que já acontecia em várias delegações. Nesse caso, o memorando formaliza práticas existentes, mas dificilmente justifica o destaque mediático que lhe foi dado.

Se, pelo contrário, a colaboração passar a abranger a produção jornalística, então estamos perante uma alteração de natureza completamente diferente. Nesse cenário, importa saber onde termina a relação comercial entre as duas empresas e onde começa uma eventual produção conjunta de conteúdos.

No evento de assinatura do memorando, o administrador da RTP disse que não havia miscenização da produção noticiosa nem da independência editorial. Mas não ouvimos uma palavra dos diretores de Informação e eles estavam lá, sentados e calados. Não deixa de ser curioso que tenham sido os administradores a assumir o protagonismo da comunicação, recorrendo a expressões genéricas como “sinergias”, “eficiência” ou “otimização de recursos”, enquanto os diretores de informação permaneceram em silêncio. Se o memorando tiver implicações essencialmente administrativas, compreende-se. Mas se envolver mudanças na forma como o trabalho jornalístico será desenvolvido, seria expectável que os responsáveis editoriais explicassem ao público o alcance dessas alterações.

o diretor de Informação da RTP não apareceu na pantalha a dizer de sua justiça sobre este reforço da cooperação entree Lusa e RTP

Há ainda um outro aspeto, que considero interessante: porque foi isto transformado em notícia? As empresas assinam memorandos de entendimento com frequência, muitos dos quais nunca chegam ao conhecimento público. Quando uma entidade decide convocar jornalistas, emitir comunicado e dar destaque institucional a um memorando, normalmente pretende transmitir uma mensagem. A questão é perceber qual.

O texto do memorando não foi divulgado. É secreto? O que sabemos é o que vem nas notícias produzidas, que foram vagas e imprecisas.

Talvez exista uma explicação simples para tudo isto: mostrar serviço, sinalizar ao Governo que estão alinhadas com a política de racionalização de recursos públicos. Se for isto, não deixa de ser triste…

Todas as dúvidas se resumem numa pergunta fundamental: que procedimentos jornalísticos passarão a ser feitos de forma diferente na RTP e na Lusa a partir da entrada em vigor deste memorando de entendimento?

Enquanto essa pergunta não for respondida, continuará a ser difícil perceber a ideia.

RECLAMAÇÃO CONTRA O LIVRO DE RECLAMAÇÕES

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fotomontagem

Exmo. Senhora Presidente da Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD),

Serve a presente não para submeter mais um requerimento burocrático destinado ao arquivo, mas para celebrar o fascinante mistério da transferência transatlântica de dados pessoais, matéria na qual esta augusta Comissão parece ter adotado uma postura de profunda meditação silenciosa.

Como é do conhecimento de V. Exa., a saga iniciou-se a 6 de março de 2023, quando instei a Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) a esclarecer por que motivo os dados dos cidadãos portugueses queixosos viajam até servidores norte-americanos. A dúvida, que outrora era uma mera suspeita, ganhou a robustez de uma certeza matemática.

Afinal, o Data Privacy Framework (Quadro de Privacidade de Dados) – esse monumento jurídico validado pelo Comité Europeu para a Proteção de Dados (European Data Protection Board — EDPB ou Comité Europeu para a Proteção de Dados) em fevereiro de 2023 – veio apenas confirmar o óbvio: quaisquer dados enviados para o exterior ascendem a um “nível superior”, olimpicamente restrito ao comum dos mortais, mas de livre acesso para as agências federais norte-americanas ao abrigo da célebre Foreign Intelligence Surveillance Act (Lei de Vigilância de Inteligência Estrangeira), da Ordem Executiva 12333 e da sua mais recente e sofisticada descendente, a EO 14086. É reconfortante saber que uma reclamação sobre um serviço público em Portugal possa ser de crucial interesse para a segurança nacional dos Estados Unidos da América.

Mais fascinante ainda é o bailado de competências institucionais. A Direção-Geral do Consumidor (DGC), em missiva de 21 de março de 2023, lavou elegantemente as mãos, declarando-se responsável pela “gestão funcional” da plataforma do Livro de Reclamações Eletrónico, empurrando a “gestão tecnológica” para a INCM. Nesta engenhosa divisão do trabalho, as entidades públicas portuguesas parecem ter-se especializado na “ocultação do detalhe”. Exibe-se legislação de fachada, mas omite-se a fundamentação técnica e prática. Como profissional com vasta experiência em Análise de Programação e Datacenters (Centros de Processamento de Dados), não posso deixar de admirar tamanha engenharia de desresponsabilização.

Em Portugal, vive-se obstinadamente de adornos. Criam-se as entidades, decoram-se os organigramas, mas o cidadão comum, ao tentar utilizá-las, depara-se com o esvaziamento funcional decorrente da partidarização e da incompetência técnica. O Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) foi perentório nos acórdãos Schrems (Casos Schrems): a ausência de um recurso judicial efetivo que permita ao cidadão aceder, retificar ou apagar os seus dados em solo americano viola frontalmente o Artigo 47.º da Carta dos Direitos Fundamentais da UE.

Para terminar, e recorrendo a uma expressão popular que peço vénia para usar, dado que não estamos aqui para “encher chouriços” nem para simular que fiscalizamos o que na verdade ignoramos, reformulo de forma cirúrgica as questões que persistem sem resposta:

  1. Quem é, afinal, a entidade concreta que assegura – se é que alguém assegura – a confidencialidade e a integridade dos dados pessoais que o cidadão é obrigado a inserir no Livro de Reclamações Online?
  2. Se essa entidade de facto existe e não é um mito urbano burocrático, exijo que me sejam prestados os devidos esclarecimentos técnicos, por escrito, detalhando como se compatibiliza o alojamento num servidor norte-americano com o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD).

Ficando a aguardar que esta comissão exerça as competências funcionais para as quais foi legalmente instituída, em vez de se remeter ao habitual adorno institucional, subscrevo-me com a devida vénia de quem, embora, ainda sabe ler o que tentam ocultar.

Com os meus protestos de elevada consideração,

O HOMEM QUE RECUSOU A MORTE DO FUTURO

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A essência de Joaquim Murale residia exatamente nessa imensa capacidade de conexão humana. Havia nele uma gentileza intrínseca, uma forma de estar que desarmava e acolhia quem com ele cruzava caminho. Ser um homem enternecedor como poucos não era uma postura planeada; era a manifestação natural de alguém que olhava para o outro com verdadeira atenção, respeito e compaixão. Como amigo, Murale possuía a virtude rara da escuta atenta, aquela que valida o sofrimento ou a alegria alheia com um simples olhar ou uma palavra de profundo conforto. Apesar do seu vasto intelecto e do seu percurso profissional na área da Psicologia, ele caminhava pelo mundo despido de qualquer arrogância. Preferia sempre a proximidade, a tertúlia sincera e a simplicidade dos afetos, emanando uma serenidade que pacificava qualquer ambiente.

Quando nos debruçamos sobre a sua vasta obra literária, percebemos que os seus livros são o prolongamento exato desse coração desarmado que tive a honra de conhecer. Joaquim Murale escrevia com um compromisso inabalável de colocar a palavra ao serviço da dignidade humana. O lirismo tocante e a doçura melancólica ganham forma clara no seu celebrado romance “Dou Este Mar Por Um Céu de Andorinhas”. O título, por si só, já evoca a urgência poética de trocar a imensidão desconhecida e fria pela simplicidade acolhedora de um voo partilhado — uma metáfora perfeita do que ele próprio oferecia nas suas relações pessoais. Esse olhar humanista e combativo ganha uma força terna, mas irredutível, em obras como “Manifesto Contra a Morte do Futuro” e no comovente testamento poético de “Até ao Último Sopro”. Nestas páginas, o autor despejava as suas inquietações na esperança quase ingénua, mas belíssima, de mudar o mundo através da empatia.

A sua sensibilidade estendia-se também à análise social e à frontalidade cívica. No livro “O Áspero Tempo das Marionetas”, uma das suas mais marcantes obras de poesia, ele expôs com crueza, mas também com profunda mágoa e humanidade, as fragilidades e manipulações do nosso tempo. Já em “Alegoria do Mar”, a sua prosa poética coloca o dedo nas feridas da cultura, funcionando como um espelho crítico e, simultaneamente, apaixonado da alma portuguesa. Mesmo na escrita para o palco, em peças de teatro aclamadas como “Ao Atiçar do Lume”, Murale conseguia prender o público através de diálogos quentes, humanos e focados no calor das relações e das memórias.

O que torna a memória e a leitura de Joaquim Murale uma experiência tão avassaladora é a absoluta coerência entre o homem que ele foi na intimidade e a herança que nos deixou. Ao ler as suas páginas, sinto o pulsar do amigo bom que acreditava piamente na bondade humana; ao recordar o seu trato diário, reconheço a densidade e a nobreza dos seus livros. A sua vasta obra é, no fundo, o mapa de um coração generoso que escolheu a literatura para espalhar luz, afeto e consciência. Ele enternece-nos porque nos recorda, através de cada verso escrito e de cada abraço partilhado, o que de melhor a humanidade tem para oferecer. Saber que partilhei a vida com um ser humano desta grandeza é uma das maiores certezas e consolos que guardo comigo.

Joaquim Murale 1º a contar da esquerda (Jantar Tertúlia 2014)

ISRAEL CONTINUA A MATAR PALESTINIANOS

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Não passa nas televisões, mas está a acontecer. Israel acelerou a limpeza étnica nos territórios palestinianos. Milhares de pessoas estão a ser forçadas a abandonar as suas casas, as suas propriedades agrícolas, devido ao avanço selvagem de colonos israelitas armados e apoiados pelos militares do IDF (designação das forças armadas de Israel).

Segundo a Amnistia Internacional, pela violência dos colonos patrocinada pelo Estado e de políticas de apartheid, as autoridades israelitas procuram formalizar a anexação ilegal de territórios na Cisjordânia e expulsar os palestinianos da região.

loja de um comerciante palestiniano vandalizada em Jerusalém

Ao prosseguir estas políticas, Israel está a cometer graves violações dos direitos humanos e do direito internacional humanitário, executa crimes de guerra sem remorso.

As autoridades de ocupação israelitas fecharam com uma barreira de metal a entrada da aldeia de Nabi Elias, situada a leste de Qalqilya, na Cisjordânia ocupada, bloqueando o trânsito palestiniano nos dois sentidos.

O jornal inglês The Guardian escreveu que “Israel está a intensificar tanto a pressão militar como económica sobre os palestinianos na Cisjordânia ocupada, ameaçando vidas e meios de subsistência”, acrescentando que “mais de 1.000 palestinianos foram mortos em Gaza desde o ‘cessar-fogo’ de outubro, enquanto a violência na Cisjordânia ocupada continua a aumentar.”

A maioria dos Estados tem-se recusado deliberadamente a agir perante estas violações flagrantes e contínuas dos direitos humanos. Esta inacção concedeu carta branca a Israel para cometer uma série de violações e crimes atrozes contra os palestinianos. Esta impunidade não pode continuar.

Como não é possível combater estes criminosos pela força das armas, será preciso que a opinião pública consiga ter força suficiente para levar os governos a agir, no sentido de sancionar Israel de todas as forças possíveis: parar com as trocas comerciais, impedir a atividade de empresas israelitas nos nossos países, bloquear todos os acordos de cooperação existentes, isolar Israel na comunidade internacional.

Uma das formas de tentar é assinar as petições que circulam um pouco por todo o lado, com a intenção de parar com o genocídio em curso na Palestina. A Amnistia Internacional tem esta petição em curso. Assine.