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REFLEXÕES SOBRE A (in)JUSTIÇA

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O que é a Justiça dos homens? Quanto à justiça divina, sabemos que a mesma existe para quem acredita e tem a fé suficiente para interiorizar que, numa outra dimensão, será, sempre, feita.

O pior é com a Justiça dos homens, até porque ela é feita por homens, algumas vezes com o desvario de estarem ungidos do poder divino de aplicar na Terra o que Deus aplica no Céu.

E esses homens que governam e aplicam a Justiça, que nunca erram, que se deitam sem dúvidas existenciais quanto à sua actuação em defesa da sociedade, quando chegarem lá, onde todos nós, quer acreditemos, quer não, teremos de pagar a conta final, qual será o seu saldo? Terão um saldo credor ou devedor?

Quando o Mundo atravessa uma crise de valores tão profunda, em que a vida humana deixou de ter qualquer significado, não será tempo de parar para pensar qual a essência que se deve proteger? A vida ou o património? Os valores que podem fazer renascer a sociedade, potenciar um desenvolvimento harmonioso dos nossos jovens ou os bens materiais? Será justa uma lei que privilegia o património à vida, ou que lhe dá a mesma relevância?

Já pensaram porque é que aumentou a violência nas escolas? Porque é que os crimes violentos, típicos de uma sociedade desenraizada, como a dos Estados Unidos, se transportam para a ‘velha Europa’, a tal de uma cultura secular?

Quem tem a culpa desta situação? Serão os pais? Os governantes? Os detentores do poder económico? Os detentores do poder judicial?

Qual a solução? Entregar o poder aos magistrados, como aplicadores e garantes da Lei? E quem é que passaria a fazer as leis?

Será que o poder corrompe? E a impunidade? E a impunidade total? Vejam o que se passou no Campeonato do Mundo dos Estados Unidos com a impunidade da despenalização de um jogador a pedido de Trump. E a irresponsabilidade é um valor ou uma forma de exercício do poder total?

Vale a pena acreditar que a Justiça existe e é pautada pelo bom senso?

A resposta para todas estas questões pode não ser politicamente correcta e, essencialmente, desagradar às corporações de interesses que se instalaram no Estado e que não vivem preocupadas com os cidadãos, mas tão somente com os seus mesquinhos poderes fácticos.

Eu, por mim, confesso que não sei se vale a pena encontrar essas respostas.

FAUSTINO

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– Ó avô, porque é que tu mostras sempre o bilhete ou o passe errado?

– Sabes, neto: o revisor passa o dia a inspecionar passes. A maior parte das vezes, nem lhe dizem «Bom dia!» nem «Boa tarde!». Uma vida monótona. À noite, ao jantar, nada tem pra contar à mulher ou à namorada ou aos filhos. Assim, hoje, sempre poderá dizer «Imaginem que, esta tarde, um velho queria enganar-me e mostrou-me o passe errado. fora do prazo! Tive de o obrigar a ver nos bolsos tudo, até que lá encontrou o verdadeiro!».

O Faustino é, de facto, assim. No bairro onde vive, não consegue cruzar-se com rapaz, senhora, homem, seja quem seja, trabalhador da garagem ou senhor bem posto de fato e gravata em jeito de engenheiro, sem lhes falar.  Um bairro periférico, onde, por mais estranho que pareça, a maior parte das pessoas ainda se conhecem, mas onde  passam diariamente muitas outras que não são do bairro: vêm ao hospital, à estação dos correios, a uma das oficinas de automóveis, à pastelaria, ao restaurante, ao minimercado… Ao cruzar-se com esses forasteiros, na paragem do autocarro por exemplo, Faustino não deixa de os saudar. Da maior parte sai um «Bom dia!» ou uma «Boa tarde!». impregnados de admiração, a denunciar quanto se não esperava a saudação. Não é raro, porém, que a surpresa leve a um «Olá! Boa tarde!», a revelar contentamento. Raro também é haver quem não corresponda, estrangeiro que seja.

Faustino, porém, vai mais longe.

A noite fora chuvosa, depois de um dia deste Junho de intenso calor. Nessa manhã, que acordara chuvosa também, Faustino cruzou-se com a senhora de calção e manga curta:

– Vamos esconjurar a chuva, vizinha?

–Vamos, pois!

E ambos sorriram.

Nos corredores do hospital, já o ouvi acrescentar à senhora grávida com que se cruzou na escada: «Que tenha uma boa hora!». «Obrigado!» – surge sempre, admirado, o sorriso!

Ou ao ancião que se protege da chuva: «Ela hoje não molha, amigo!». «Ai, molha, molha! É de molhar tolos!».

Parar diante da criancinha que chora, agarrada à mãe, e fazer-lhe uma fosquinha – e o choro passa! E a mãe sorri.

Na passadeira da rua, quando o carro pára, a fim de o deixar passar, apressa-se a correr, numa de, na brincadeira, ter medo de ser atropelado, sorridente, só para ver o sorriso do condutor! Melhor, se for da condutora! E agradece sempre.

Na caixa do supermercado, perscruta sub-repticiamente a etiqueta identificativa do funcionário e saúda-o pelo nome. Recebe o habitual sorriso admirado e as contas até correm melhor!…

Aos 70 e poucos anos, Faustino resiste a viver isolado.

FACE AO GENOCÍDIO DE GAZA, A BRANDURA DE PORTUGAL

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Gaza, julho de 2026

Isaltino Morais não foi o único autarca português a ir a Israel “a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita e da Embaixada de Israel em Portugal”. A explicação vem nas redes sociais, com a chancela do embaixador de Israel em Portugal.

fonte Instagram IsraelinPortugal

A informação não especifica quem pagou as despesas da viagem, mas depreende-se que terá sido quem fez os convites. A informação também não nomeia nenhum dos autarcas portugueses que aceitaram o convite, mas o Presidente da Câmara de Oeiras assumiu que esteve em Israel para visitar uma feira empresarial onde decorreu uma conferência sobre “cidades inteligentes”.

Hoje, a expressão “cidade inteligente” está frequentemente associada a sistemas de videovigilância, reconhecimento facial, análise de dados, controlo de multidões e outras tecnologias de monitorização. Trata-se de um setor onde várias empresas israelitas ocupam posições de destaque, desenvolvendo soluções que, em muitos casos, resultam de conhecimento adquirido em contextos de ocupação militar e de conflito. Essas empresas  anunciam produtos como combat proven (testados em combate), precisamente para lhes conferir credibilidade comercial. Na maioria dos casos, os ditos “combates” não passam de assassinatos seletivos ou de tiro ao alvo contra multidões em Gaza, na Cisjordânia e em outros territórios vizinhos.

Na conta de Instagram IsraelinPortugal multiplicam-se os registos de contactos do embaixador israelita com autarcas portugueses, incluindo os presidentes das câmaras de Oeiras, Guarda, Valongo, Vila Nova de Gaia e outros municípios. A mesma conta documenta convites para cerimónias oficiais, como as comemorações do 10 de Junho, e diversos encontros institucionais.

à esquerda, o embaixador de Israel com o autarca da Guarda, à direita com o autarca de Oeiras

A imagem que daí resulta é inequívoca: o embaixador de Israel continua a ser recebido com toda a normalidade por responsáveis políticos portugueses, que aceitam surgir em fotografias de cordialidade institucional ao lado do principal propagandista e representante diplomático em Portugal de um Estado atualmente acusado, em instâncias internacionais, da prática de crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e genocídio contra a população palestiniana.

embaixador de Israel com o ministro da Defesa Nacional do Governo português

Tal como escrevemos na crónica de ontem, “quando um representante institucional português escolhe deslocar-se a Israel para participar numa iniciativa de promoção empresarial, fá-lo num contexto em que o Estado israelita enfrenta acusações de crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e genocídio sobre a população palestiniana.”

Claro que são escolhas que transmitem uma mensagem política. E, neste caso, são sinais de normalização de crimes de guerra e do genocídio de um povo.

publicado em ISALTINO EM ISRAEL

ÓPERA DA INAÇÃO NACIONAL

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Imagem real de autor desconhecido (disponível na net)

Senhoras e senhores, sintonizem as vossas televisões e preparem as vossas carteiras. Está em cena, com lotação esgotada e financiamento público vitalício, a grandiosa Ópera da Inação Nacional. Um drama lírico onde os tenores do hemiciclo e os barítonos das comissões parlamentares cantam as dores do país enquanto afinam o seu próprio património.

Ato I: O Milagre da Multiplicação dos Tachos

O libreto abre com o habitual coro de lamentações. A Saúde tosse, a Escola reprova e a Habitação desaba. Mas não temam! O Ministro em funções, cuja única competência conhecida é a capacidade de deslizar por entre as perguntas dos jornalistas como uma enguia em azeite, tem a solução perfeita: a fundação de um novo Grupo de Trabalho.

O banquete da comissão é servido prontamente. Reúnem-se os sábios do regime em tertúlias gastronómicas altamente qualificadas, pagas com o IVA do teu pacote de massa. O objetivo? Estudar de forma profunda e exaustiva a melhor forma de empurrar o problema com a barriga até às férias de verão.

A estrutura é estéril, mas a máquina é fértil. Num passe de mágica burocrático, a secretária de um gabinete qualquer ganha uma nova gaveta. Não para guardar processos, mas para alojar o novo assessor, o consultor júnior e o afilhado do secretário de Estado, garantindo que o nepotismo nacional continua a ser o maior motor de emprego jovem do país.

Ato II: O Mistério da Pista Sem Fim

O segundo ato é uma coreografia cómica dedicada à aviação nacional. O Aeroporto de Lisboa transformou-se num artefacto arqueológico vivo. Há meio século que os sucessivos elencos estudam se os aviões devem aterrar em Alcochete, no Montijo, na Ota, ou nas traseiras da casa da avó de um influente deputado.

A humanidade já mapeou o genoma humano, enviou robôs para Marte e inventou a inteligência artificial, mas o decisor político português continua perplexo, de bússola invertida na mão, sem saber onde raio há de colocar uma tira de asfalto. É a nossa vadiagem burocrática elevada a património imaterial da UNESCO.

Ato III: A Contabilidade Criativa e os Dez Euros da Salvação

Quando a economia cresce uns míseros milímetros devido ao turismo desenfreado, os senhores do fato cinzento sobem ao palco com o peito inchado, reivindicando para si o mérito do “milagre económico”. No entanto, se o país afunda no barómetro europeu, a culpa é subitamente do vento, da conjuntura internacional ou, claro, do “pesado legado” deixado pelo bando anterior.

A ópera atinge o seu clímax dramático na conferência de imprensa. Confrontado com o sumiço de fundos comunitários, o governante saca da sua melhor cartada populista. Com uma lágrima ao canto do olho e a voz trémula de falsa compaixão, anuncia: “Aumentámos dez euros à pensão da vossa velhota!”

O público aplaude, o idoso faz contas à vida e percebe que os dez euros não chegam para nada, enquanto nos bastidores, o amigo mafioso de colarinho branco limpa o suor da testa com uma nota de quinhentos, vinda diretamente do milhão desviado do orçamento de Estado.

Epílogo: A Teta Sagrada

A cortina desce, mas o espetáculo nunca termina. A verdade nua e crua é que Portugal não pode dar-se ao luxo de funcionar. Se os problemas fossem realmente resolvidos, os doutores do assento vitalício morreriam de tédio. A ineficácia é o oxigénio desta classe. Afinal, para que serve um salvador da pátria se a pátria, por milagre, deixar de precisar de ser salva? A teta nacional continuará a dar leite, a plebe continuará a pagar o espetáculo e a ópera da inação garantirá, por muitos e bons anos, o seu merecido aplauso.

Imagem real de autor desconhecido (disponível na net) de sala de espetáculos em Portugal

O VELHO HOSPITAL DE VISEU

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Viseu. Fachada principal do antigo Hospital da Misericórdia (séc. XVIII-XIX)

Quem olhar de longe esse gigante alcandorado num vizinho morro da velha cidade – onde havia dantes, plantado, um olival – quem olhar das bandas de nascente há-de pensar que ali se levanta, desde há anos sem conto, uma fidalga moradia.

Quem olhar logo repara na larga escada de acesso, que conduz a um terreiro resguardado; logo repara na nobreza de um pórtico sobre o qual pousa, solene, um varandim, um brasão no tímpano e as alegóricas figuras de eleição postadas na cimalha.

Mas não é assim.

Ali pousa, e mais de dois séculos já lá vão, ali pousa o Hospital que a Santa Casa da Misericórdia de Viseu mandou levantar, obediente ao seu Compromisso, outorgado à boca do século XVI, assim cumprindo a missão de Assistir aos enfermos, como lhe ditava o Catecismo.

Obra ingente que esta obra foi, requerida em sentida exposição dirigida ao Rei, a 22 Maio de 1793, quando havia já sido solicitada ao renomado arquitecto portuense, Teodoro de Sousa Maldonado, a planta que já fora aprovada em Sessão da Mesa de 19 de Maio desse mesmo ano.

Estava decadente o velho Hospital das Chagas, os tempos eram novos, a ciência e a técnica já se uniam, emergentes, para cumprir esse humanístico desígnio de sarar feridas dos homens, de alongar as suas vidas.

Iniciada a obra, logo teve de suspender-se, em 1810, devido às dificuldades trazidas pelas invasões napoleónicas. Retomar-se-á em 1825, avançando depois ao ritmo dos recursos alcançados e, em 1842, receberá os primeiros doentes, ainda que as obras estivessem longe do seu termo.

Fizeram-se, mais tarde, alterações à planta desenhada e delas resultou esse excepcional corpo de quatro pisos, que a despojada fachada principal de clássica matriz não nos mostra. A uni-los uma ampla escadaria, que dá acesso aos serviços instalados naquelas nobres alas, que circuitam esse jeito de claustro, onde entra a luz do sol e o saudável ar que vem da serra.

Cumpriu sua missão esta casa que, em 1963, ficou sob a titularidade de S. Teotónio quando, em 1997, abriu na cidade, cuja geometria se alargava, o moderno Hospital Distrital de Viseu. E o hospital que, ao tempo, o Estado governava, voltou à inteira posse da Santa Casa da Misericórdia, que outro destino lhe consente. Um ambicioso projecto levado a cabo pelo arquitecto Gonçalo Byrne transfigura a casa, adequa-lhe os espaços, alteia-lhe um piso e, no ano do Senhor de 2005, o Grupo Pestana inaugura ali a luxuosa Pousada que mantém, salvaguardada, a dignidade da fachada, honrada a velha missão, respeitados os sonhos de quem a inicial casa levantou.

VISEU. Pousada. Grupo Pestana. Fachada principal.

ISALTINO EM ISRAEL

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fotomontagem

Isaltino Morais foi a Israel e justificou a deslocação com uma visita a uma feira empresarial. Ao que tudo indica, Oeiras mantém relações com empresas israelitas, porventura empresas estatais, seja através da política municipal de atração de investimento, seja por contratos de prestação de serviços.

Apesar dos crimes de guerra que Israel comete, percebe-se que uma autarquia não rompa de um dia para o outro todos os seus laços económicos com esse Estado. Existem contratos, interesses instalados e compromissos assumidos. Mas também é verdade que nenhuma relação económica é politicamente neutra. Quando um representante institucional português escolhe deslocar-se a Israel para participar numa iniciativa de promoção empresarial, fá-lo num contexto em que o Estado israelita enfrenta acusações de crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e genocídio sobre a população palestiniana. Ou seja, acaba por contribuir para transmitir uma imagem de normalidade, como se nada de excecional estivesse a acontecer.

Os gestos institucionais têm sempre algum significado. Ao reforçar relações económicas com Israel num momento em que cresce o isolamento político e moral do Estado israelita em várias partes do mundo, um autarca português acaba por participar no processo de branqueamento internacional das políticas do governo israelita.

Esta posição torna-se ainda mais difícil de compreender quando vem de Isaltino Morais. Ao longo dos anos, construiu a imagem de um político irreverente, pouco dado ao pensamento de rebanho e frequentemente crítico da ascensão da extrema-direita em Portugal. No entanto, nesta matéria, o seu comportamento aproxima-se do discurso daqueles que têm sido os mais incondicionais defensores de Israel na política portuguesa, designadamente dirigentes e deputados do Chega. A contradição é evidente.

A VISITA ENVERGONHADA

Há mais um pormenor que merece atenção. Isaltino Morais sempre revelou grande habilidade na utilização das redes sociais como instrumento de comunicação política. Desta vez, porém, a visita a Israel praticamente passou despercebida. Ficou reduzida a um único vídeo, curto, tremido e pouco esclarecedor sobre a presença na feira industrial. Se a deslocação constituía motivo de orgulho político e institucional, por que razão foi comunicada de forma tão discreta? Os políticos raramente escondem aquilo de que verdadeiramente se orgulham.

Também seria interessante perceber quem pagou a deslocação: a Câmara Municipal de Oeiras? A Organização da feira? Algum Ministério israelita? Alguma empresa? Esta informação pode ser obtida através de um pedido de acesso a documentos administrativos dirigido à Câmara. Fica aqui a dica aos jornalistas dos média institucionais ou outros que se queiram dar ao trabalho de esperar pela resposta.

MAS QUE FEIRA É ESTA?

O próprio programa da feira em questão, a MUNIEXPO mostra que não se trata de uma simples feira comercial. É um grande evento organizado pela Federação das Autoridades Locais de Israel, onde se cruzam autarcas, membros do Governo, ministros, responsáveis pela segurança nacional e empresas. O tema central da edição de 2026 é, aliás, a “parceria vencedora”, enquadrada na realidade da guerra, da segurança e da resiliência nacional.

No meio de tantas empresas, muitas delas trabalham para a segurança do Estado, no fornecimento do exército israelita, com responsabilidades concretas na repressão violenta, ocupação de territórios e genocídio dos palestinianos. Fonte Muni Expo – EN – MUNIEXPO – פרס החדשנות

O programa inclui intervenções do ministro da Defesa, do ministro da Segurança Nacional, de antigos responsáveis pela segurança e encerrou com um discurso do Presidente de Israel. Além disso, a própria organização apresenta a conferência como um espaço para construir parcerias entre o poder local, o Governo central e o setor empresarial, afirmando que a MUNIEXPO é “o lugar onde se constrói a resiliência nacional de Israel”.

A VIAJANTE DO TEMPO

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Dir-se-á, desde logo, que se trata de um livro normal: tem um enredo que prende do princípio ao fim; está bem escrito; gramaticalmente bem redigido; a autora faz bom uso da pontuação; os diálogos são introduzidos por dois pontos, parágrafo, travessão; a descrição da paisagem é ligeiro apontamento, aqui e além, só para enquadrar a acção; é um livro sem gralhas.

Leitura fácil, agradável, fluente – sem precisarmos de estar sempre a ir ao dicionário ver o significado de uma palavra ou expressão. Cansa-nos, por outro lado, se temos dificuldade em distinguir as falas dos personagens da descrição de ambientes.

Um romance tem, necessariamente, muito de autobiografia. Neste caso, a protagonista é arqueóloga no Algarve, o que corresponde à realidade: Ana Alexandra aí está, gerente duma empresa de Arqueologia. E, tal como a protagonista, foi estudante na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Há ainda dois aspectos que não faltam: o primeiro, o triângulo amoroso, o colega de curso e um professor com todos os ingredientes habituais (a sedução fulminante, de um lado, e a serena ternura permanente, do outro); o segundo, a progressiva tónica de romance policial, de caça ao criminoso, que a narrativa vai assumindo.

Ingrediente maior é o recurso à regressão. Eça de Queiroz, n’A Relíquia, muda de cronologia sem aviso: chegado a Jerusalém, Teodorico Raposo, o protagonista, retrocede de repente 1800 anos e passa a viver no tempo de Cristo. No caso de A Viajante do Tempo, Maria consubstancia-se em Tanit, a filha de um vizir egípcio e vive obcecada por um dos amuletos que lhe foi roubado pelo professor.

Não deixa de ser curioso verificar, nesse aspecto, esse paralelismo com a relíquia que Teodorico Raposo vai buscar à Terra Santa para a Titi (https://duaslinhas.pt/2025/02/o-safado/).

Movimentamo-nos no realismo mágico, que, afinal de contas, deixa transpirar muito do nosso cotidiano. Apressados como andamos sempre, há vozes, há sinais, há gestos que amiúde nos passam despercebidos e que, depois, consciencializamos ao declarar «Eu tive um pressentimento», vocábulo que nada mais significa do que essa voz realmente preexistente à qual não ligáramos a devida importância.

Ana Resende sabe discerni-lo e, por isso, é sabiamente anotada a nossa íntima relação com o ambiente atmosférico. Nós, pela manhã, não deixamos de ouvir com a maior atenção o Boletim Meteorológico; mas, se calhar, até nem consciencializamos a sério o que significa essa preocupação matinal: é que nos influencia grandemente o ar que respiramos!

Na apresentação do livro com a autora

QUANDO A EXPERIÊNCIA DEIXA DE CONTAR

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imagem construída com recurso a IA

A experiência, que durante séculos foi considerada uma fonte de sabedoria e um fator de prestígio social, parece hoje ter perdido parte do seu estatuto. A velocidade tornou-se mais importante do que a profundidade. A novidade passou a valer mais do que a memória. A juventude é frequentemente apresentada como sinónimo de capacidade, enquanto a idade é muitas vezes associada a uma ideia de ultrapassagem. Trata-se de uma visão simplista e perigosa.

A experiência não é apenas a acumulação de anos. É a acumulação de situações vividas, problemas resolvidos, decisões tomadas, erros corrigidos e conhecimentos testados pela realidade. É um património construído lentamente, muitas vezes ao longo de décadas. Uma pessoa experiente não sabe apenas o que fazer. Sabe também o que não fazer. Conhece os riscos escondidos por detrás das soluções aparentemente fáceis. Reconhece sinais de alerta que os menos experientes ainda não aprenderam a identificar. Compreende as consequências de decisões que, à primeira vista, podem parecer irrelevantes. Esse conhecimento não se encontra facilmente em manuais nem em motores de pesquisa. Nasce da prática.

Contudo, muitas organizações e instituições continuam a cometer o erro de tratar a experiência como um recurso secundário. Quando um profissional atinge determinada idade, começa frequentemente a ser visto através de um filtro burocrático. A idade passa a pesar mais do que a competência. O currículo deixa de ser analisado pela riqueza do seu conteúdo e passa a ser avaliado pela data de nascimento. Perde-se assim uma parte significativa da inteligência acumulada da sociedade.
É um paradoxo particularmente evidente numa época em que a esperança média de vida aumenta e os níveis de saúde e capacidade intelectual se mantêm elevados durante mais tempo. Milhares de pessoas chegam à reforma em plena posse das suas capacidades. Continuam capazes de ensinar, orientar, criar, liderar e inovar. Mas a sociedade raramente lhes oferece canais estruturados para continuar a participar.

A consequência é dupla. Por um lado, os mais velhos sentem-se progressivamente afastados dos espaços onde poderiam continuar a contribuir. Por outro, os mais novos ficam privados de um património de conhecimento que poderia acelerar a sua aprendizagem e evitar muitos erros.
Uma sociedade madura não opõe gerações. Liga-as. Compreende que a energia da juventude e a experiência da maturidade não são forças concorrentes, mas complementares. Uma traz impulso. A outra traz direção. Uma desafia o futuro. A outra ajuda a compreendê-lo.

Quando a experiência deixa de contar, todos perdem. Perde quem é afastado prematuramente da vida ativa. Perde quem deixa de beneficiar desse conhecimento. Perdem as organizações. Perde a economia. Perde a sociedade.

O verdadeiro progresso não consiste em substituir a experiência pela juventude nem a juventude pela experiência. Consiste em criar pontes entre ambas. Porque uma comunidade que ignora os seus experientes está a desperdiçar um dos seus recursos mais valiosos. E porque há uma verdade simples que o tempo confirma repetidamente: a experiência pode não garantir todas as respostas, mas ajuda quase sempre a formular as perguntas certas.

PADRE JOÃO FELGUEIRAS

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Não morreu apenas o português mais velho em Timor-Leste (tinha 105 anos de idade), morreu alguém a quem Portugal deve muito por aquilo que fez na antiga colónia asiática. O Estado português sabe da obra cultural erguida pelo padre Felgueiras pela língua portuguesa, pela dignificação de uma presença pós-colonial, pagou-lhe com medalhas e condecorações, embora todos saibamos que o padre Felgueiras teria preferido dinheiro para construir escolas.

Sempre foi uma pessoa discreta, despojada, não gostava de publicidade e era preciso ter algum engenho e sorte para conseguir que aceitasse ser entrevistado.

Consegui fazê-lo em 2012, quando produzi e realizei um documentário no âmbito de um projecto do Instituto Camões que deveria ter sido exibido na RTTL (televisão pública de Timor-Leste) e nunca foi, como não foi nenhum dos que foram feitos para essa série documental.

Os idiotas que na altura dirigiam a RTTL eram tipos que não gostavam que Portugal andasse por ali a gastar dinheiro com eles. Aceitavam carros e equipamentos comprados pela Cooperação portuguesa, mas conteúdos informativos para a rádio e televisão em língua portuguesa eram rejeitados.

Mas se quiserem conhecer o padre Felgueiras, um homem com uma história que se confunde com a história de Timor-Leste, o documentário está visível no YouTube, neste link.

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OLHAR O PAPEL

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grafismo e fotomontagem

Ler não é um ato passivo de decifração; é uma rutura com a imanência do mundo quotidiano. Quando o leitor vira as páginas “com calma e vagar”, ele opera uma suspensão da consciência temporal comum. O papel que “sussurra segredos” funciona como um portal fenomenológico. Nele, o espaço físico da sala dissolve-se para dar lugar ao “mar infinito do pensamento”.

Esta transição demonstra que a literatura é um terreno de transcendência. O sujeito que lê liberta-se das amarras da sua contingência histórica e espacial. Ele “voa sem qualquer destino”, mas esse desígnio não é uma fuga vazia. É a busca por um valor intrínseco que reside na palavra. A narrativa oculta funciona como um espelho da própria alma. O “reino distante” de que os poetas falam  não é um lugar geográfico, mas sim o território da pura possibilidade existencial.

A Literatura como Resposta à Angústia Existencial

A “ansiedade viva” descrita no texto remete diretamente para a inquietação existencial — a Angst heideggeriana. É o peso de existir e a consciência da finitude que geram o cansaço e a incapacidade de “ficar no lugar”. Perante o absurdo do quotidiano e o desgaste do tempo, o livro surge como o “abrigo perfeito”.

Esta cura ocorre porque a literatura funde o sonho e a realidade na “velha fonte” do mito e da narrativa. Ao beber dessa fonte, o leitor suspende a rigidez da sua própria identidade. Os heróis do passado e as personagens enfadas na sua rotina não são meras ilusões. Eles ganham “carne e voz” na mente de quem lê. Operam como alter egos que partilham o peso da existência sob o “mesmo céu”. A leitura cura a solidão ao povoar a sala com sombras que sofrem, choram e falam. O leitor descobre que a sua aflição é universal.

A Estética da Salvação e a Epifania da Frase

O ponto de viragem filosófico da leitura reside no toque “onde a lógica não sabe chegar”. A razão discursiva e a ciência explicam o mundo, mas não o justificam nem o confortam. A arte literária atua na dimensão do afeto e do espanto estético. A “frase perfeita” que o autor escreve funciona como uma epifania. Ela possui o poder de “fazer o pranto parar” e derreter o “inverno que em mim nasceu”.

Esta beleza formal devolve o sentido ao caos. A esperança é renovada a cada página virada porque o livro oferece algo que a vida real muitas vezes recusa: a promessa de um fechamento, de uma teleologia. Queremos saber se haverá perdão ou se o mistério vai prevalecer. Esta estrutura narrativa dá ordem à “contabilidade dos dias”. Transforma o tempo profano — muitas vezes frio e vazio — num tempo sagrado de refúgio.

Conclusão: Fugir de Si para se Encontrar

Em última análise, o ato de ler encerra um paradoxo profundamente filosófico. “Fugir de mim por escassos momentos” não é uma alienação da realidade, mas sim a condição necessária para a autodescoberta. Ao romper as amarras que prendem o corpo ao chão e ao “zortar o pensamento”, o sujeito liberta-se das pressões do seu ego imediato.

Nesse afastamento controlado, o leitor encontra a sua “própria salvação”. Ele regressa a si mesmo transformado, expandido pelas vidas que viveu nas entrelinhas e fortalecido pela certeza de que, enquanto houver uma folha por virar, o porto seguro da consciência estará garantido.