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AS PROMESSAS DE (in)SEGURO

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Na campanha eleitoral, o atual Presidente da República afirmou que não iria promulgar a reforma laboral caso não houvesse acordo entre todos os parceiros sociais. Ao dizê-lo, António José Seguro procurava explicar aos eleitores a sua leitura dos poderes presidenciais e a forma como tencionava exercê-los.

Sucede que o papel do Presidente não é o de negociar, nem de forçar negociações, ainda que de forma indireta, entre parceiros sociais. A sua função é outra: promulgar ou vetar os diplomas que lhe chegam da Assembleia da República ou do Governo. Se não concordar com o conteúdo de uma lei, pode recusá-la, devolvendo-a ao órgão que a aprovou. As fases prévias de negociação entre parceiros sociais e partidos políticos não integram, portanto, as competências presidenciais.

Mas acontece que, entre todos os atores políticos, o Presidente é aquele que dispõe de maior legitimidade direta, por ser eleito nominalmente e por maioria absoluta dos votos expressos. Nenhum outro cargo político assenta no mesmo tipo de investidura. Nem sequer o de primeiro-ministro, que resulta da dinâmica parlamentar: pode-se chegar a chefe do Governo com uma base eleitoral relativamente limitada – por exemplo, 30% dos votos – algo impensável numa eleição presidencial.

É aqui que se coloca a questão de fundo: a dos poderes do Presidente. Talvez devêssemos discutir, sem tabus, se o modelo atual faz sentido, se o Presidente deveria, por exemplo, ter um cadeirão no Conselho de Ministros ou mesmo chefiar o Governo. A ideia, frequentemente repetida, de que o Presidente funciona como contrapeso às maiorias parlamentares revela-se, na prática, frágil. Por um lado, não dispõe de instrumentos suficientes para contrariar de forma consistente essas maiorias; por outro, o veto político torna-se ineficaz sempre que o Parlamento confirma o diploma, obrigando à sua promulgação.

A chamada “magistratura de influência” é, nesse contexto, uma meia-verdade: só ganha densidade em momentos de crise, quando não há maiorias estáveis, quando os governos se sucedem rapidamente ou quando o primeiro-ministro é politicamente fragilizado, por exemplo, por iniciativas do Ministério Público.

Em rigor, no atual quadro constitucional, o único poder verdadeiramente decisivo do Presidente é o de dissolver a Assembleia da República, a chamada “bomba atómica” do sistema. Até lá, temos um Presidente oriundo da área socialista a promulgar uma lei da nacionalidade claramente alinhada com teses da direita e da extrema-direita sobre o alegado “perigo de substituição étnica”. Resta saber o que fará perante o chamado “pacote laboral”. Não é de excluir que a promessa feita em campanha venha a revelar-se, afinal, apenas retórica.

MOEDAS SÓ PARA AMIGOS

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O CASA-Centro de Apoio ao Sem Abrigo é uma IPSS que, todos os dias, oferece centenas de refeições aos sem-abrigo, em todo o País. Uma vez confeccionada a alimentação, há carrinhas identificadas que a levam até aos mais necessitados.

Tudo é feito com recurso a donativos de empresas diversas que são entregues, para que, depois, funcionários e voluntários se apliquem nas cozinhas, de onde saem as refeições.

No caso de Lisboa, pela cidade fora, a distribuição é feita e os mais necessitados levam as embalagens que, mais tarde, são largadas no chão ou em qualquer canto da capital.

Constatando o óbvio, perguntei porque tal não sucede, por exemplo, no Porto. E, ingenuamente, porque não se deixam as refeições no Centro de Apoio Social dos Anjos, vulgarmente denominado ‘Sopa dos Pobres’, gerido pela Santa Casa da Misericórdia. Ali, pelo menos, os sem-abrigo comem em condições de dignidade: têm uma mesa, pratos e talheres, casas de banho e um local de convívio.

Fiquei a saber que a Câmara Municipal do Porto atribuiu espaços ao CASA e a outras instituições similares para que pudessem servir as refeições com dignidade. Além das pessoas poderem comer melhor, evita-se o desperdício e o lixo na cidade.

Quanto a Lisboa, as negociações com Carlos Moedas revelam-se intermináveis. Quer isto dizer que, para o chic-nic no Parque Eduardo VII, que atingiu o máximo do ridículo na cidade, houve dinheiro e o presidente da câmara até deu 75 mil euros a um seu apoiante, dizem que era para a música de animação do evento.

As pessoas que lá foram, não sei se muitas se poucas, pagaram entre 150 e 300 euros por uma comidinha chique e para estarem no recinto da tal música, paga por todos os contribuintes de Lisboa. Os outros, os que não comeram comidinha chique, ficaram fora do recinto a ver e ouvir os músicos à distância, não fora perturbarem a digestão dos pagantes.

Portanto, para um espaço onde os sem-abrigo possam comer e estar, não há dinheiro. Para um piquenique chique, não só há dinheiro como nem tão pouco o espaço público onde decorreu foi pago.

Desta vez, não se pode dizer que estou contra a cor política de Moedas, já que a cidade do Porto é liderada por Pedro Duarte, do mesmo partido. A diferença é o que um saloio pensa que é chique e só beneficia os amigos, enquanto que o outro é, verdadeiramente, presidente de autarquia.

PROTESTO DOS RECLUSOS DO ESTABELECIMENTO PRISIONAL DE LISBOA

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Agora que pelo menos um canal de televisão deu notícia e mostrou imagens do estado miserável em que está o Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL), pode ser que o Governo se mexa. Duvidamos. É muito raro os políticos terem vergonha na cara, até porque, normalmente, encontram sempre uma desculpa para a sua própria incompetência.

São recorrentes as notícias sobre as péssimas condições do EPL. São recorrentes, também, ações movidas por reclusos contra o Estado português, por causa das condições indignas de detenção a que são sujeitas em muitas cadeias, nomeadamente no EPL.

O advogado campeão destas causas é Vítor Barreto. Em fevereiro de 2024, a propósito de mais uma condenação de Portugal noTribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH), este advogado disse ao Duas Linhas que “ só não há mais queixas porque o sistema prisional intimida os reclusos, muitas vezes com recurso à violência.” O advogado Carreto explica: “há muito medo de um recluso para apresentar queixa; há guardas prisionais a ameaçar reclusos; já aconteceu uma diretora de um estabelecimento prisional ameaçar cortar saídas jurisdicionais a um recluso por ter apresentado uma queixa”.

Agora, perderam o medo e 230 reclusos da ala B entraram em protesto coletivo, com a recusa do pequeno-almoço e de regresso às celas. O protesto durou algumas horas, os ânimos acalmaram depois de uma delegação de reclusos ter sido recebida pelo diretor do EPL, mas os detidos dizem que, pela conversa que tiveram, não acreditam que os problemas venham a ter solução. No horizonte está uma greve de fome coletiva.

Quem é condenado tem de cumprir pena, mas na prisão não perde o direito à dignidade. Ora, na maioria das cadeias, a sobrelotação, a deficiente assistência médica, a má qualidade da alimentação, a proliferação de pragas de percevejos, baratas, ratos, as condições de reclusão acabam por constituir agravamento da pena que nenhum tribunal decretou.

Referências sobre o EPL, no Duas Linhas, são já algumas:

QUANDO A NACIONALIDADE IGNORA A HISTÓRIA

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A recente alteração à Lei da Nacionalidade em Portugal, aprovada pela Assembleia da República e promulgada pelo Presidente António José Seguro, não é apenas uma mudança técnica no regime jurídico da cidadania. É, sobretudo, um sinal político, um sinal que merece ser analisado com rigor e sem complacência.

Portugal não é um Estado qualquer no contexto europeu. A sua história construiu-se para além das suas fronteiras geográficas, através de uma projeção global que deu origem a uma comunidade de povos ligados por uma língua comum, por traços culturais partilhados e por uma história complexa, por vezes dolorosa, mas indissociável. É esse legado que sustenta, hoje, a existência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Ora, ao endurecer os critérios de acesso à nacionalidade, o Estado português parece optar por uma leitura estritamente administrativa da cidadania, desligada dessa memória histórica e dessa responsabilidade política. A nacionalidade passa a ser tratada como um mecanismo burocrático, regulado por prazos e requisitos formais, e não como a expressão de uma pertença construída ao longo de séculos. Esta opção levanta questões fundamentais.

Primeiro, a coerência histórica

Portugal beneficiou, ao longo da sua trajetória, de uma identidade aberta, marcada pela mobilidade e pelo encontro de culturas. Ignorar essa realidade é, em certa medida, negar a própria base sobre a qual o país se projetou no mundo. A relação com países como a Guiné-Bissau não pode ser reduzida a um simples estatuto migratório; ela assenta em vínculos históricos e humanos profundos.

Segundo, a dimensão estratégica

Num contexto internacional cada vez mais competitivo, os Estados que conseguem mobilizar redes culturais e linguísticas ampliam a sua influência. A lusofonia constitui um dos maiores ativos estratégicos de Portugal. Ao introduzir barreiras mais rígidas ao acesso à nacionalidade, o país arrisca fragilizar essa rede e enviar um sinal de distanciamento aos seus parceiros naturais.

Terceiro, a responsabilidade política

É legítimo que um Estado regule o acesso à sua nacionalidade. Mas essa regulação não é neutra: ela traduz uma visão de país. E a visão que emerge desta lei é a de um Portugal mais fechado, menos atento à sua história e menos disponível para assumir o papel que lhe cabe no espaço lusófono.

A decisão presidencial de promulgar o diploma, ainda que acompanhada de reservas, deve também ser lida à luz deste quadro. O Presidente poderia ter optado por um veto político, afirmando uma posição mais clara sobre o sentido desta mudança. Ao não o fazer, privilegiou a estabilidade institucional, uma escolha legítima mas não isenta de consequências.

A questão que se coloca, portanto, não é apenas jurídica. É profundamente política: que Portugal se quer construir? Um Portugal que se fecha sobre critérios administrativos e prazos formais? Ou um Portugal que reconhece na sua história e na sua língua uma base para uma comunidade de destino mais ampla?

A resposta a esta pergunta ultrapassa o debate interno português. Ela diz respeito a todos os países que partilham essa história comum e que veem na lusofonia não apenas um legado do passado, mas uma possibilidade real de futuro. Ignorar essa dimensão é mais do que uma opção legislativa. É uma escolha de rumo.

PROCULINO QUIS SER SEPULTADO COM AS DUAS ESPOSAS

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Escreveu o investigador local Carlos Caetano, no mais recente número, o 48, de 2025, da Praça Velha, a revista cultural da cidade da Guarda, que o concelho de Valhelhas foi um dos mais antigos não só das Beiras como de Portugal, pois que a Carta de Foral foi dada «vobis homines de Valielias» – ‘a vós, homens de Valielias’ – por el-rei D. Sancho I, em Agosto de 1188, ou seja, 11 anos antes de idêntico documento de alforria ter sido atribuído à cidade da Guarda!

E aponta Carlos Caetano como justificação dessa primazia «factores como a localização do termo e a da própria vila de Valhelhas, nas margens do Alto Zêzere, um e outra pontos de passagem de vias seculares, senão milenares e, por outro lado, a necessidade de atrair e fixar moradores num território tão debilmente povoado, que “ocupassem” o território do termo e cujos habitantes garantissem apoio e protecção a viandantes e peregrinos.

Na verdade, por aí haviam, séculos antes, andado romanos e deles se mostram, ainda hoje, desprotegidas das intempéries, duas inscrições, que, a seu tempo, D. Domingos de Pinho Brandão estudou, juntamente com o saudoso Adriano Vasco Rodrigues († 22-01-2025). Foi D. Domingos ilustrado bispo de Leiria e, depois, do Porto, e por essas antigas pedras com letras deveras se interessou.

Um miliário e o epitáfio de Proculino estão encostados numa parede lateral da Igreja Matriz de Valhelhas

Chegaram estas a seu conhecimento e não hesitou em as estudar, até porque uma delas vem justamente ao encontro do que se acaba de referir. Trata-se de um miliário, isto é, marco que os Romanos colocavam nas zonas principais das vias para informação de distâncias.

Foi achado no Galrado, cerca do Zêzere, segundo informação que, a seu tempo, obteve dos moradores da quinta com esse nome. Aliás, acrescentou D. Domingos que lhe terão dito aparecerem no mesmo local muitos vestígios da época romana. Daí foi levado para junto da porta do lado esquerdo do templo, à esquerda de quem entra. Porventura, não sem antes ter servido de pia de água benta, como o sugere, escreve D. Domingos, uma cavidade que existe no cimo.

miliário romano de Valhelhas

Dado que a superfície epigrafada sofreu escoriações múltiplas, já não foi possível aos dois investigadores declararem o texto completo em seis linhas aí gravado. Concluíram, todavia, perante o que lograram ler, que aí poderia ter havido referência a dois imperadores que governaram em conjunto, Diocleciano e Maximiano, e, porventura também aos dois césares que os acompanharam, os «fortíssimos» Constâncio e Maximino Daia. Apontam, pois, para uma datação dos anos 305 / 306.

Registe-se, a título de curiosidade, que as dificuldades de leitura deste marco não têm aliciado os estudiosos, porque – que se anote – mais nenhuma tentativa de leitura foi feita.

Diversa é, no entanto, a outra pedra com letras que lhe faz companhia. Trata-se do epitáfio mandado lavrar por Proculino e para as suas esposas, modelos de piedade: uma foi Valéria; a outra teve Amabilis como nome. E bem amável deveria ter sido, pois que Proculino a apresenta como nutrix – a ama de leite dos seus filhos!

o epitáfio de Proculino

Cremos que ainda terá havido uma tentativa de avivar as letras do epitáfio; mas como com mortos se não deve brincar, o perigoso pinta-paredes terá dado dois passos atrás.

O certo é que, para além dos perversos avivamentos de que já aqui se falou, há mais dois a juntar agora ao rol das suas façanhas por Valhelhas andou à solta.

Aqui está a fotografia das outras pedras avivadas. Na inscrição de cima, sob uma cruz, o conhecido cristograma:as siglas IHS aludem às três primeiras letras do nome de Jesus em grego: iota-eta-sigma (ΙΗΣΟΥΣ), siglas que passaram para latim como sendo da afirmação Iesus Hominum Salvator, «Jesus Salvador dos Homens».

Vem de seguida Afº MI | o fez. Será Afonso Martins. Noutra pedra em baixo. Era 1674.

Que o «pintor de paredes» valhelhense se tenha basto divertido somos capazes, até, de acreditar. Que, apesar dos gatafunhos com que nos brindou, acabou por também nos divertir disso não há dúvidas também.

Restam, porém, dois apelos finais: não o deixem à rédea solta; e, sobretudo, resguardem num museu, quanto antes, as duas inscrições romanas. A do Proculino que deseja ser sepultado com as duas esposas não é um mimo a mui respeitosamente admirar?

EM DEFESA DO MAIO

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Amanhece. Sobre a mesa da casa de jantar, uma toalha de renda desenha penas de pavão. A mesa foi posta de véspera. Medronho. Folar. Bolo de laranja. Figos secos. Pratos antigos e cálices de vidro muito fino. Ao centro, uma jarra vazia aguarda que a encha de maios e calças de cuco. É, por isso, hora de ir até ao mato colher as flores. A família não tarda a despertar e há que atacar o Maio de imediato.

Caminho um pouco por entre os pinheiros e encontro uma mulher que traz um molho na mão.

– Tem chovido bem. Está tudo verde. Há muitos anos que não via tantos maios. Olhe ali. Maios e calças de cuco com fartura. – diz.

Também eu estou espantada com tamanha abundância de flores. Ficamos à conversa. Talvez já não haja tanta gente a apanhá-los. Talvez o hábito de pôr a mesa para atacar o Maio se esteja a perder. Rimos do facto de ambas termos bebido um copo de medronho mal acordámos. Não fosse o Maio entrar… Há que jogar pelo seguro.

– Tenho 94 anos. Se é para afastar o bicho, tanto vale o comprimido para o colesterol como um copinho de medronho. A Fátima é que já não vou, que fico cansada. Mas ainda cá quero andar mais uns dias. – afirma, divertida.

Pergunto-lhe se conhece as rolhas de maio. Se se faziam na sua infância. Nunca ouviu falar. “Em moça”, medronho e figos secos. Folar, mais tarde. Nos bons tempos. Em criança, nada. Explica-me que a tradição só existia para os ricos. A vida foi melhorando, mas até casar não se lembra de tal coisa. Os figos eram a refeição que levava para o trabalho. Não se podiam desperdiçar. E, enquanto vamos caminhando pelo mato e compondo os nossos molhos, entra por uma fabulosa viagem no tempo. Recorda sem qualquer esforço outros Dias de Maio. A comparação surge com naturalidade: o antigamente e o agora. Percebo que, quando se tem 94 anos, o agora pode ter 50.

– Naquele tempo, era tudo uma barrigada de fome. Esses “moce pequenes” que andam pr’aí a dizer que antigamente é que era bom, era dar-lhes com um pano encharcado nas ventas. – diz com rispidez. O ar de brincadeira e a leveza da conversa desaparecem. Mostra-se incomodada. Zangada. Só volta a sorrir quando nos despedimos.

Regresso a casa. Entro de ramo na mão. Acerto os caules e encho a jarra. Um volumoso molho de maios lilases salpicado pelo rosa vivo das calças de cuco. Ficou lindo. Sinto uma felicidade quase pueril. A mesa está finalmente pronta. Iniciamos o ataque com um brinde. Narizes franzidos. Os rapazes, ainda ensonados, fazem caretas. Engolir medronho em jejum não é para fracos. Como todos os anos, eu explico o que está na mesa. Lembro como se fazia em casa dos meus bisavós, avós e pais. Não o digo abertamente. Mas, o que realmente pretendo é que estes momentos fiquem gravados na memória dos meus filhos. Que registem todos os pormenores e não deixem que se perca o ritual algarvio.

A família dispersa-se pela casa e eu sento-me, então, a escrever esta crónica. Hesito em usar a expressão da senhora a propósito dos que têm tantas saudades de outros tempos. Dou voltas ao texto. Procuro alternativas mais poéticas. Menos gráficas. Sinónimos. Eufemismos. E decido que ficará exatamente como me foi dito.

Pela minha parte, rabisco este texto que poderão sempre imprimir e encharcar, dando-lhe depois bom uso, em defesa deste e dos Maios que virão.

PONTAPÉS E MARRETADAS, JUDEUS ATACAM CRISTÃOS

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É verdade que uma imagem pode valer mais que um discurso palavroso e, neste caso, um vídeo que se tornou viral nas redes sociais está a provocar mais engulhos ao Governo de Israel do que seria de esperar.

O vídeo mostra um ataque a uma freira católica francesa (também investigadora arqueológica) em Jerusalém. Trata-se de uma freira católica, branca, de nacionalidade francesa, arqueóloga reconhecida pelos seus pares. Ou seja, o agressor não podia ter escolhido pior alvo.

vídeo

Encurralados pela repulsa generalizada que as imagens causaram, o Governo de Israel apressou-se a declarar o “ato vergonhoso”, numa declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Há dias, outro vídeo mostrou um soldado israelita a estilhaçar uma estátua de Cristo crucificado. Foi no sul do Líbano, onde Israel avança com uma operação de limpeza étnica semelhante à que executou na Faixa de Gaza. Neste outro ataque à liberdade religiosa, dois militares (o da marreta e o que gravou as imagens) foram condenados a 30 dias de prisão. O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, disse ter ficado “chocado e entristecido” com o incidente.

No ataque em Jerusalém, a freira sofreu escoriações no rosto, cabeça e outras partes do corpo, depois de ter sido pontapeada quando estava caída, mas os ferimentos não foram considerados graves. Sendo assim, o agressor não irá sofrer consequências de maior, a não ser que venha a ser acusado de tentativa de homicídio, o que é pouco provável.

O ataque ocorreu no Monte Sião, perto de locais venerados por judeus e cristãos: o túmulo do rei David, e o Cenáculo, onde se acredita que aconteceu a Última Ceia de Cristo com os 12 apóstolos.

A Universidade Hebraica de Jerusalém afirmou: “Este não é um incidente isolado, mas parte de um padrão preocupante de crescente hostilidade em relação à comunidade cristã e aos seus símbolos.” A instituição assinalou que a vítima era uma “parceira académica estimada na descoberta do património arqueológico”.

Nada que incomode a coligação governamental no poder, que tem fomentado o crescimento do nacionalismo religioso israelita. À conta disso, as comunidades cristãs palestinianas na Cisjordânia, algumas das mais antigas do mundo, têm sido alvo de assédio crescente por parte de colonos israelitas. Quanto aos palestinianos muçulmanos, tem sido o inferno.

O Centro de Dados sobre Liberdade Religiosa (RFDC), uma rede de voluntários israelitas, registou 31 incidentes de assédio contra cristãos nos primeiros três meses deste ano. A maioria desses incidentes envolve cuspir ou vandalizar propriedades da Igreja, sendo o ataque violento desta semana considerado invulgar. No entanto, o RFDC afirmou que os seus números subestimam a dimensão do problema, já que as congregações ortodoxas tendem a não reportar os incidentes. Este organismo não divulgou dados sobre ataques de judeus contra mesquitas e comunidades muçulmanas.

MESTRE DE GERAÇÕES

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Gosto do atributo – MESTRE – sobejamente justificado.

Nesta homenagem, a peça A Estrela Titó, texto e encenação de Marco Medeiros, superiormente representada por Romeu Vala e Rita Tristão, actores agora do Palco 13.

Na assistência, poucos terão sido os olhos que se não humedeceram. Todos nos sentimos retratados naqueles evocados instantâneos de uma vivência em pleno, desde miúdos, em comunhão com a delícia da avó Titó. Fomos nós, aqui, ali, neste pormenor, naquele gesto, naquele saborear de bolo, naquele dia da partida, naquele… naquele… Peça a dever ser representada por toda a parte, em todas as escolas, para todos os públicos… Lágrimas, sentidas, molharam muitos rostos. E isso é teatro. É vida! Como Carlos Avilez o que concebia. E foi bom vivê-la assim, quase em intimidade, no auditório que tem o seu nome.

FF, formado na Escola Profissional de Teatro de Cascais, cativou, acompanhado ao piano por Tiago Machado, com o enorme virtuosismo que o caracteriza e que nunca é demais aplaudir e sublinhar.

Concorrida, muito concorrida mesmo, foi depois a cerimónia oficial do descerramento da placa toponímica pelos presidentes do Município e da Junta de Freguesia, com emotivos discursos de ocasião – pelo presidente da Junta, por Fernando  Alvarez (atual director do Teatro Experimental de Cascais), por Ricardo Machado (sobrinho de Carlos Avilez), ciclo encerrado pelo presidente da Câmara, a solenemente garantir que o legado do Mestre será honrado. Amigos, colegas, antigos alunos, irmanados todos na mesma vontade de jamais deixar esquecer a mensagem:

«O Teatro é revolucionário, grita contra a opressão e resiste sempre. O seu espírito a tudo sobrevive: às guerras e conflitos, à repressão e à censura. Consegue sempre renascer, mesmo nas circunstâncias mais adversas».

Entre a Academia das Artes do Estoril e o Teatro Mirita Casimiro.

A multidão a pouco foi dispersando, em custosa despedida. Na promessa íntima, de cada um: sim, Mestre, esta mensagem não a vamos esquecer!

QUEM ESTRAGA UMA PEDRA GRAVADA, ESTRAGA DUAS OU TRÊS…

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Não se hesitou a barafustar contra o senhor de mãos leves que avivara, a trouxe-mouxe, o letreiro patente nas aduelas do portal lateral norte da igreja matriz de Valhelhas, freguesia do concelho da Guarda: https://duaslinhas.pt/2026/03/crime-de-lesa-patrimonio/

Avivar com tinta uma inscrição – embora possa ser, à partida, uma louvável atitude – é gesto que implica conhecimento rigoroso do que, primitivamente, ali fora gravado, a fim de não se cometerem erros.

Em Epigrafia (a ciência que estuda os letreiros gravados na pedra) considera-se esse um estratagema condenável. E compreende-se porquê. É que a incidência da luz (solar ou artificial) pode realçar uns traços e ocultar outros. Pior ainda – como se documenta na foto em anexo – se o estudioso, para mostrar que a sua leitura é que está certa, pega numa caneta de feltro e pinta o texto na própria foto!…

Voltando a Valhelhas, importa corrigir o que se escreveu nessa crónica do dia 25 de Março  acerca da data da consagração do templo. O letreiro fora, de facto, já estudado por Mário Barroca na sua monumental obra Epigrafia Medieval Portuguesa, datada do ano 2000.

O conceituado epigrafista explicou-nos:

1º) O que fora lido como um 2, era, afinal, um L (dito ‘uncial’, em linguagem técnica).

2º) O “sinal ondulado” parecido com um til não passava da forma como, no século XII, se desenhava o «a» aberto, «forma medieval de indicar o género feminino do numeral e, por isso, surge por cima do M, dos CC, do LX e do XII, para ser lido como ‘era milésima ducentésima sexagésima décima segunda’.

3º) Finalmente, é normal, no século XIII, utilizar-se uma forma de M para indicar o numeral na menção da era, e outra forma em texto corrido. Vá lá entender-se estes antigos!…

Em conclusão: deve ler-se «era de 1262», isto é, ano da era de César, o que corresponde a 1224 da era cristã. Portanto, nos primórdios do reinado de el-rei D. Sancho II, «O Piedoso».

nota da redação:

No decorrer das várias publicações sobre este assunto, tentámos “calçar os sapatos” do pintor de letreiros antigos gravados na pedra. Alguma razão deve haver para que, em Valhelhas, quase todas as pedras gravadas tenham sido tratadas desta maneira. Parece-nos evidente que a principal preocupação foi tentar mostrar o que estava escrito.

Provavelmente, alguém da Junta de Freguesia deve ter pensado que, tal como estavam, ninguém entendia o que tinha sido escrito naquelas pedras. É latim, mas podia ser mandarim. Ninguém percebia os riscos, e o pintor que se prestou ao serviço também não. E o problema é mesmo esse. Os epigrafistas clamam contra o crime cometido, porque agora ninguém percebe o que lá escreveram, mas já ninguém percebia…

Os escritos não são compreensíveis para o comum dos mortais e os epigrafistas funcionam em circuito fechado, é um trabalho que não costuma sair do meio académico. E assim se perdeu a oportunidade de ser um epigrafista a “avivar” os vários letreiros medievais de Valhelhas.

Capela de Santo Antão, em Valhelhas, também tem um letreiro avivado com tinta preta

TRADIÇÃO DA MAIA

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Lagos é das zonas onde a tradição tem mais impacto e isso vê-se pela imensa participação de toda a comunidade que não deixa morrer este ritual.

A Festa da Maia, celebrada em várias regiões de Portugal na noite de 30 de abril para 1 de maio, é uma dessas tradições em que o tempo parece sobrepor camadas de sentido, pagão, cristão, rural, sem nunca perder o seu caráter profundamente comunitário e simbólico.

As suas origens perdem-se em tempos remotos, muito anteriores à cristianização da Península Ibérica. A Maia está intimamente ligada aos antigos rituais de celebração da primavera, marcando a renovação da vida, o despertar da terra e a promessa de fertilidade. Tal como outras festividades europeias associadas ao mês de maio, evoca a transição do inverno para uma estação de abundância, luz e crescimento. O próprio nome poderá estar associado à deusa Maia da tradição clássica, símbolo de fecundidade, ou simplesmente ao mês que anuncia a plenitude da natureza.

Em Almada, celebração de boas-vindas ao bom tempo é organizada desde 1992 e tem como ponto central a construção da “Maia” – uma boneca de palha vestida de branco e enfeitada com flores e espigas

Com a expansão do cristianismo, estas práticas não desapareceram, mas foram reinterpretadas. A tradição popular portuguesa integrou elementos cristãos, dando-lhes novos significados. Uma das narrativas mais difundidas,  como bem recordo da minha memória de infância em Arouca, associa as “maias” à proteção da Sagrada Família durante a fuga para o Egipto. Segundo a crença, a colocação de ramos de giesta amarela (ou outras flores silvestres) nas portas e janelas serviria para enganar ou afastar perseguidores, impedindo-os de identificar a casa onde Jesus se teria escondido. Assim, um gesto de origem agrária e simbólica passou a ser também um ato de devoção e proteção.

Nos Açores, concurso de Maios (bonecos de palha) no município da Lagoa

No entanto, para além desta leitura cristã, persistem traços claros de antigas superstições. A noite de 30 de abril era vista como um momento liminar, carregado de forças invisíveis. Acreditava-se que espíritos malignos, bruxas ou energias negativas vagueavam nesse período de transição. As maias,  especialmente a giesta, funcionavam então como um amuleto protetor, afastando o mal e garantindo saúde, prosperidade e fertilidade para o lar e para os campos.

A escolha da giesta não é inocente. A sua cor amarela intensa evoca o sol e a luz, símbolos universais de vida e proteção. Além disso, floresce precisamente nesta época do ano, tornando-se um elemento natural acessível e carregado de significado. Em muitas aldeias, era comum também enfeitar fontes, currais e campos, num gesto que transcendia o espaço doméstico e abarcava toda a comunidade.

Em Beja, a comemoração das Maias é um dos rituais mais expressivos do ponto de vista da história religiosa antiga na região

A Festa da Maia é, assim, um testemunho vivo da capacidade das tradições populares de integrar diferentes camadas culturais. Entre a devoção cristã e os rituais ancestrais da fertilidade, entre a memória coletiva e a experiência individual, mantém-se como um elo com a terra, com o ciclo das estações e com um imaginário onde o sagrado e o mágico coexistem naturalmente.

Hoje, mesmo com a vida moderna a afastar-nos dos ritmos rurais, o simples gesto de colocar uma maia à porta continua a carregar esse património invisível,  um sinal de proteção, um eco da primavera, uma ponte entre o passado e o presente que nos transmite a alegria e uma oportunidade de festejar!