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O PREÇO DE ESTAR ACORDADO

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fotomontagem

O poeta olhou para o fundo da chávena. A borra do café colada à porcelana desenhava labirintos parecidos com as ruas da Baixa.

– O desassossego não é uma doença, Joaquim (disse ele, por fim).

– É o preço de se estar acordado. O imposto que a alma paga por não se deixar adormecer no conforto da burguesia.

– Meu caro Joaquim… (Pessoa sorriu com o canto da boca).

– Mentir ao que sentimos é o primeiro passo para sermos verdadeiros. O teu erro é a ingenuidade. Achas mesmo que existe aí dentro um “eu” sólido? Uma rocha a quem deves lealdade? (O poeta fez uma pausa, olhando para as pessoas que passavam lá fora) 

– Julgas-te um traidor só porque não bates certo com a tua própria emoção? Disparate. Ser fiel a um único sentimento é uma paralisia. Chamas-te a ti mesmo um pecado? Eu diria que és apenas vários homens que ainda não se conhecem. Somos muitos, Joaquim. O tipo que acorda de manhã não é o mesmo que pede o café agora. E nenhum deles tem de prestar contas ao gajo que se vai deitar logo à noite. A moral quis prender este rio numa certidão de nascimento. Querem transformar a água numa estrada de pedra. Esquecem-se de que a virtude da água é correr. É não parar.

Joaquim ouviu-o em silêncio. Aquilo soava a uma sentença antiga. Uma verdade que ele já conhecia, mas cuja execução vinha a adiar. Encostou os dedos ao mármore frio da mesa, tentando prender-se à realidade da pedra. Uma parte de si queria ceder àquela conversa de Pessoa. Queria o alívio de aceitar que ser incoerente era normal. Mas outra parte – aquela teimosia tipicamente nossa – exigia uma âncora. Alguma coisa que justificasse a dor.

– Mas eu sinto que isto não faz sentido nenhum! – atirou Joaquim (a voz saiu-lhe alta demais, partindo a calmaria do café).

– É a cabeça, Fernando. É isto. (Joaquim apontou para a própria têmpora, com os dedos a tremer ligeiramente)

 – Dou por mim a vigiar o que penso. O tempo todo. É aí que me perco. Não sei simplesmente… estar. Olho para o Tejo e não vejo água nenhuma. Vejo o tempo a fugir, a minha juventude que já era, aquelas caravelas que nunca mais voltam. Sei lá. Tudo serve de pretexto para a cabeça moer.

Calou-se. Passou a palma da mão pela testa, limpando um suor frio. Lá fora, o elétrico rangeu nos carris da Baixa.

– Eu esqueço-me de quem sou. Acho que é do meu carácter, sei lá. Invento um boneco para enfrentar a rua. Mudo a voz, empertigo as costas. Mas sei o truque. Sei perfeitamente que a pose é um biombo de papelão à frente do abismo. E o que me lixa não é a máscara, Fernando. É saber que a tenho posta. A cada segundo. Saber que, se a arrancar… não fica lá nada. Nem pele, nem carne. Só escuro. Uma noite sem fim.

Pessoa não respondeu logo. Inclinou a cabeça e a luz baça da janela bateu de lado nos óculos, transformando os olhos dele em dois espelhos brancos. Deixou o cigarro arder. O fumo subia torto, pesado, a meter-se entre os dois. Parecia que o próprio desassossego tinha ganho corpo ali em cima do mármore.

– Precisamente! – atirou Pessoa, quase num baque.

– O carácter é só a máscara que usamos para esquecer que não temos rosto nenhum. Se não nos esquecêssemos de quem somos, se ficássemos ali, cara a cara com a nossa falta de substância… como é que suportávamos o tédio de ser uma coisa só? A consciência é uma lucidez que cega, Joaquim. Quem olha demasiado para as engrenagens do próprio corpo acaba por encravar a máquina.

O poeta bateu com a ponta do cigarro no cinzeiro.

– É a dúvida que move as coisas, não é a fé. A fé é a pedra que fecha o túmulo do pensamento. A dúvida é outra coisa: é o vento que limpa o céu das certezas. Obriga-te a navegar, mesmo que o destino seja ires-te abaixo na bruma. Não fujas do abismo. Aprende a decorar as paredes dele. Mapeia as correntes de ar. Transforma-o num salão onde os teus fantasmas possam dançar sem a obrigação de mostrarem o bilhete de identidade.

(continua)

CRISTIANO RONALDO, PORTUGAL E A GESTÃO DOS EGOS

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Há episódios no futebol que ultrapassam largamente o futebol. O que aconteceu em torno de Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus e da Seleção Portuguesa é um desses casos.

Não porque Cristiano Ronaldo esteja acima da Seleção — não está. Não porque tenha direito adquirido a ser titular — não tem. E muito menos porque a dimensão extraordinária da sua carreira lhe conceda uma espécie de imunidade perante as decisões de um treinador.

Mas precisamente porque estamos a falar de Cristiano Ronaldo, de uma das maiores figuras da história do futebol mundial e, sobretudo, de alguém que construiu a sua relação com a Seleção ao longo de duas décadas, este episódio exigia mais do que uma decisão técnica. Exigia inteligência humana.

E é aí que começa a verdadeira questão. Entre a autoridade e o respeito. Jorge Jesus tem o direito – e a responsabilidade – de escolher quem joga. Um treinador que não possa tomar decisões técnicas deixa de ser treinador.

Cristiano Ronaldo, por seu lado, pode discordar, pode sentir-se injustiçado, pode até reagir emocionalmente. É humano. O que não pode é transformar a sua extraordinária história num argumento de autoridade sobre a equipa. Mas há uma diferença fundamental entre reconhecer isto e reduzir tudo a uma questão de ego.

Cristiano Ronaldo construiu uma carreira que não nasceu de privilégios. Nasceu de uma extraordinária capacidade de trabalho, de disciplina, de sacrifício, de uma vontade quase obsessiva de superar-se e de uma relação excepcional com a bola e com o jogo. É um exímio na arte do domínio da bola, do gesto técnico, da finalização e da transformação da vontade em desempenho.

Foi campeão europeu por Portugal em 2016. É o jogador com mais internacionalizações e mais golos pela Seleção. A sua dimensão ultrapassa o futebol português e pertence já à história do futebol mundial. Reconhecer tudo isto não significa conceder-lhe privilégios. Significa apenas que uma figura desta dimensão não pode ser tratada como se fosse um jogador qualquer.

A difícil relação com o tempo

Há outra questão que não pode ser ignorada: o tempo.

Cristiano Ronaldo construiu a sua identidade profissional sobre a ideia de que o esforço pode vencer quase tudo. Treinou mais, cuidou mais do corpo, exigiu mais de si próprio e transformou a ambição numa forma de existência. Mas há uma adversidade contra a qual nem o trabalho mais extraordinário consegue vencer definitivamente: o tempo.

A idade modifica o corpo, a velocidade, a recuperação, a capacidade de repetição, a importância de determinados movimentos. E modifica também a percepção que o próprio jogador tem de si.

Talvez uma das maiores dificuldades de um campeão seja precisamente esta: perceber que continuar a ser extraordinário não significa necessariamente continuar a ser o mesmo jogador.

É aqui que o ego entra na equação. Ronaldo tem um ego enorme. Seria absurdo fingir que não. Mas reduzir toda a sua personalidade ao ego seria igualmente absurdo. Porque o mesmo ego que pode produzir reações difíceis de compreender é também parte da força que o levou a querer ser melhor todos os dias, a suportar críticas, derrotas e enormes exigências físicas durante tantos anos.

O problema não é ter ego. O problema começa quando o ego deixa de estar ao serviço da equipa. E isso vale para todos.

A conversa que talvez tivesse evitado tudo

É precisamente por isso que, antes de qualquer exposição pública, deveria existir uma conversa privada. Uma conversa de homens. Sem câmaras. Sem jornalistas. Sem comunicados. Sem necessidade de alguém sair vencedor.

Jorge Jesus poderia explicar a Ronaldo, com frontalidade, que uma decisão técnica não significa uma desvalorização da sua história. Ronaldo poderia dizer aquilo que sente, sem que isso fosse imediatamente transformado numa afronta à autoridade.

E a Federação deveria estar suficientemente próxima para perceber quando uma divergência técnica começa a transformar-se num problema institucional.

É assim que se administram personalidades fortes. Não humilhando-as. Não cedendo-lhes. Não alimentando-lhes o ego. Mas estabelecendo limites com respeito.

A responsabilidade da Federação

É aqui que a Federação Portuguesa de Futebol tem uma responsabilidade que vai muito além da organização de jogos. Uma Federação não deve apenas convocar jogadores, organizar estágios e tratar da logística da Seleção. Tem também uma responsabilidade institucional sobre o ambiente humano em que a equipa trabalha.

Quando existem personalidades desta dimensão – um treinador com autoridade, um jogador com uma história gigantesca e uma instituição que representa o país – a gestão dos conflitos não pode começar depois de o conflito chegar à praça pública. É preciso antecipá-los.

E talvez estas sejam as palavras que melhor definem o problema: gestão dos egos. O ego de Cristiano Ronaldo. O ego de Jorge Jesus. O ego institucional da Federação. Nenhum deles pode ser maior do que a Seleção.

E nós, que observamos? Há ainda uma responsabilidade nossa: daqueles que comentam, escrevem, analisam e julgam. Não me refiro à imprensa como um bloco. Há jornalistas e comentadores que conhecem profundamente o futebol, que sabem distinguir factos de interpretações e que tratam as pessoas com equilíbrio. Mas existe também uma tendência crescente para explicar personalidades complexas através de palavras simples.

E aqui encontramos um certo analfabetismo interpretativo do nosso tempo: a dificuldade em compreender aquilo que não cabe facilmente numa explicação rápida.

Ronaldo é reduzido ao ego. Ou à arrogância. Ou à incapacidade de aceitar a idade. Ou à dificuldade em aceitar uma decisão.

Talvez algumas dessas características possam fazer parte da realidade. Mas nenhuma delas, isoladamente, explica uma personalidade construída ao longo de quarenta anos de vida e de mais de duas décadas de futebol ao mais alto nível.

Saber quantos golos um jogador marcou não significa conhecer o homem. E conhecer algumas das suas reações públicas também não significa conhecer aquilo que se passa dentro dele.

A crítica é legítima. A caricatura não. A imprensa tem o direito de questionar Ronaldo. Tem o direito de questionar Jorge Jesus. Tem o direito de questionar a Federação. Mas quanto maior é a figura que se analisa, maior deveria ser também a responsabilidade de quem a analisa. Menos certezas instantâneas. Mais contexto. Menos diagnóstico de personalidade. Mais compreensão dos factos. Menos julgamento moral. Mais inteligência.

O que Ronaldo poderia ter feito

Ronaldo poderia ter feito aquilo que muitas vezes se pede aos grandes jogadores: aceitar a decisão, mesmo discordando dela, e colocar a sua frustração ao serviço da equipa. Não seria fácil. Mas talvez fosse esse o verdadeiro gesto de grandeza.

Porque existe uma diferença entre ter razão sobre aquilo que sentimos e saber o que fazer com aquilo que sentimos. Um campeão não deixa de ser campeão por sentir-se ferido. Mas pode diminuir a sua própria grandeza se permitir que a ferida seja maior do que a missão. E a missão chama-se Portugal.

O que Jorge Jesus poderia ter feito

Jorge Jesus tinha autoridade para tomar a decisão técnica. Mas autoridade não é apenas poder decidir. É também saber comunicar a decisão. Um treinador trabalha com homens, não com peças de uma máquina. E quando se trata de uma figura como Cristiano Ronaldo, a dimensão simbólica da decisão não pode ser ignorada.

Não significa tratar Ronaldo de maneira privilegiada. Significa reconhecer que determinadas decisões exigem uma comunicação proporcional à sua importância. A firmeza não é incompatível com a delicadeza. E a autoridade não diminui quando sabe respeitar quem tem à sua frente.

E a Federação? A Federação tinha talvez a responsabilidade mais difícil: impedir que uma questão entre jogador e treinador se transformasse numa questão entre Ronaldo e Portugal. Porque é isso que está em causa.

Não podemos permitir que uma divergência pessoal, técnica ou institucional adquira uma dimensão nacional que ninguém desejou. Portugal não pode ficar refém dos egos de quem representa Portugal. Ronaldo não está acima de Portugal. Jorge Jesus não está acima de Portugal. A Federação também não está acima de Portugal. A Seleção está acima de todos eles.

O verdadeiro risco

O verdadeiro risco deste episódio não é saber quem teve razão. Essa é precisamente a pergunta mais fácil e talvez a menos importante. O verdadeiro risco é transformar uma divergência que poderia ter sido resolvida através de diálogo numa fratura pública. Porque, quando isso acontece, todos perdem alguma coisa.

Ronaldo perde porque uma parte da sua extraordinária história pode ficar associada a uma saída amarga. Jorge Jesus perde porque a sua autoridade técnica pode passar a ser discutida através do conflito pessoal. A Federação perde porque a sua capacidade de gestão fica inevitavelmente sob escrutínio. Mas, acima de todos, perde a Seleção. E quando perde a Seleção, perde Portugal.

Não se trata de escolher um vencedor É demasiado fácil escolher um lado. Os que não gostam de Ronaldo encontrarão neste episódio a confirmação daquilo que já pensavam dele. Os que admiram Ronaldo encontrarão argumentos para considerar injusta qualquer decisão que o contrarie. Os que apoiam Jorge Jesus defenderão a autoridade do treinador. Os que desconfiam da Federação encontrarão mais uma razão para criticá-la. E assim construímos trincheiras.

Mas uma Seleção não se constrói com trincheiras. Constrói-se com inteligência, disciplina, respeito e sentido de missão.

Cristiano Ronaldo deu demasiado a Portugal para que a sua história possa ser reduzida a uma conferência de imprensa, a uma decisão técnica ou a uma guerra de egos. Isso não significa poupá-lo à crítica. Significa criticá-lo à altura daquilo que ele representa. E o mesmo vale para Jorge Jesus. Um treinador com autoridade deve ser capaz de tomar decisões difíceis, mas também de gerir pessoas difíceis. E vale ainda mais para a Federação. Porque uma instituição que representa Portugal tem obrigação de saber quando uma questão deixa de ser apenas futebol e passa a ser uma questão de coesão nacional.

No fim, há uma coisa maior O futebol passa. Os treinadores passam. Os presidentes passam. Os jogadores passam. Mas a memória de uma geração fica.

Cristiano Ronaldo ficará na história do futebol português. Jorge Jesus também ficará associado a uma determinada fase da Seleção. E a Federação continuará a existir muito depois de todos nós termos deixado de discutir este episódio.

Por isso, talvez a pergunta certa não seja: Quem ganhou? Talvez seja: O que poderíamos ter feito melhor para que Portugal não perdesse?

Portugal não precisa de vencedores desta disputa. Precisa que ninguém permita que a disputa se torne maior do que Portugal.

OS CAMINHOS EM CRUZ

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Viseu. A cidade vista de Nascente (Foto Germano, anos 50)

Ergue-se do planalto, referência absoluta para os homens que viviam para aquém das grandes montanhas, a Estrela e o Caramulo, o Buçaco, a Nave e a Lapa, ou para quem atravessava estes territórios que desde o Neolítico se povoaram de cultivadores que adoraram a Terra-Mãe e sepultaram seus mortos nos dólmens que hoje nos espantam pela frequência e grandeza.

Os metalúrgicos do bronze e do ferro ocuparam com as suas armas da guerra e do trabalho quase todas as colinas em redor e Viseu nasceu porventura do esforço de um punhado desta gente. E deixaram testemunhos, hoje visíveis, na colina que foi geratriz da cidade, lá onde assenta a Catedral. Só os romanos marcaram com uma força singular os termos da cidade desde o século II antes de Cristo. Viriato é uma figura histórica desse tempo, emblema de uma resistência entre o passado e presente, de estrangeiros e de autóctones. Mas em Viseu ele é antes o herói de um quase mito de origem.

As sete vias que saíam da cidade eram caminhos de ir e de vir, as que entraram na cidade foram o cardo e o decumanus de uma cidade reordenada no seu urbanismo, revigorada por tecnologias agrícolas e artesãs, por uma paz que desencadeou um comércio fecundo que se tornou, para sempre, o melhor signo da urbe.

Viseu foi terreno fértil para as lutas entre mouros e cristãos interessados na sua posse. História lembrada por velhas fontes árabes diz que Almançor, no século X, acampou nas defesas da Cava, nas margens da cidade e daqui conduziu, em raivosa arrancada, os seus homens e os soldados que os condes cristãos seus aliados lhe forneceram, sobre Santiago de Compostela. Atingiu duramente o baluarte de uma fé e de uma cultura que se reforçavam mutuamente, mas esta vitória apenas retardou o triunfo cristão que em meados do século seguinte definitivamente atingiu Viseu.

Os primeiros reis portugueses lembram a cidade no quadro de uma acção política mais longínqua. Dão-lhe foral, estabeleceram certamente uma feira, favoreceram os bispos que levantaram a Catedral românica. A dinastia de Avis sanciona com força de lei a grande feira, um dos seus príncipes tornou-se o primeiro duque, os seus homens do campo ou dos ofícios foram os primeiros lutadores em África.

A cidade manuelina representa o triunfo de uma nação. Bispos cultos como Ortiz de Vilhegas ou D. Miguel da Silva deixaram marcas culturais que hoje simbolicamente se reconhecem na Abóbada dos nós da Catedral e no seu Claustro renascentista. Mas há fabulosas obras de ourives e a mais singular escola de pintura de uma nação pequena à volta de Vasco Fernandes, na primeira metade de século XVI, pouco antes de se ter construído o Colégio, o Paço-Seminário que quatrocentos anos depois se tornou no Museu que recebeu tão prestimosa herança.

Viseu. Catedral. Abóbada dos nós (Séc. XVI)

Viseu vive depois o triunfo do barroco com palácios e igrejas cobertas de ouro, vai de par com caminhos sempre novos, até hoje que volta a ser cruz de grandes vias, território em franco crescimento.

Nos velhos caminhos romanos que resistiram quase até hoje, passaram mil romeiros de Santiago. Juntavam-se aqui, vindos do Centro, para fazer o caminho na direcção do Norte tendo por rumo o túmulo sagrado do apóstolo. Os peregrinos dormiam em pousadas pobres da cidade ou batiam às portas dos mosteiros que eram albergue por uma noite. Muitos procuravam a Catedral e o Paço onde um bispo esmoler e um cabido generoso distribuía esmolas de pão e de vinho ou parcas moedas.

Velhos papéis de Arquivo são eloquentes testemunhos desta caridade efectiva, destes passos que a fé guiava. Há ainda uma história para fazer, a desta gente que passava, os olhos fitos em Santiago, os olhos fitos nas torres das catedrais do caminho que reproduziam a outra como madre, o testemunho passado a outros romeiros, das curvas dos caminhos, dos sítios de agasalho. Um dia os peregrinos deixaram quase de tomar estes rumos.

Voltam agora a animar-se os caminhos. Mas já nem sempre é a mesma fé que guia todos. Só os fundamentos da memória são iguais, o património, a herança dos avós. Mas em Viseu é sempre hora de parar, de colocar de lado o bordão de viajante, de sentir a história à sombra de um monumento, de saborear pão e vinho, de conversar com um homem feito amigo.

Para sempre em Viseu.

O QUE PAREDES ANTIGAS ESCONDEM

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Assim, a arqueóloga Célia Silva – que já descobrira, num buraco de parede, uma carta de 1721 a encomendar coelhos – encontrou,  no forro desse mesmo edifício, um carrinho de linhas de madeira, tampas de publicidade redigida em francês (!) a uma pomada da marca ELGA – «pomada superior de cera sem ácido para calçado» –  e a uma outra, essa portuguesa, pois que a legenda proclama: «Só a Rosinha dá brilho assim!!».

Este carrinho de linhas de madeira levou-me aos meus tempos de menino e, confesso, acabei por não seguir com a devida atenção a brilhante exposição da Dra. Célia Silva.

E que a um carrinho de linhas assim, nós, moços pequenos, cortávamos as extremidades de modo a ficarem em jeito de rodas dentada e imaginávamo-las rodas dos tanques de guerra, que fazíamos movimentar à força de elásticos enrolados no sítio da linha e que, desenrolando-se devagar, faziam o ‘blindado’ avançar. Por vezes, até canhão lhe púnhamos: um pau de fósforo servia às mil maravilhas para o efeito!

Pode acontecer que haja desses brinquedos imaginados em Museus de Brinquedos ou em imagens de livros infantis. Adorava saber!

Aliás, no decorrer do colóquio organizado, no passado dia 26 pela Câmara Municipal intitulado «A Arqueologia Urbana ao Serviço da Comunidade», Célia Silva mostrou tábuas com inscrições deveras curiosas, como esta em que se lê:

Realizado no auditório do Museu de Arte Contemporânea Charters de Almeida, este primeiro Colóquio da série prevista para mostrar a cidade na sua relação com o rio ao longo dos séculos – «Abrantes, o Tejo e o Tempo» – teve por objectivo mostrar como as intervenções arqueológicas levadas a efeito no âmbito da própria cidade, além de não serem “empatas” do desenvolvimento urbano, acabam por enriquecer o património, inclusivamente dos prédios que vão ser renovados ou dos novos que aí virão a ser construídos.

Daí que se fale em “serviço da comunidade”, porque, tal como as árvores necessitam das suas raízes para se alimentarem, assim a população duma cidade carece de saber de onde veio, das fases por que passou, para melhor compreender o seu presente.

Deu-se conta, pois, das intervenções feitas no centro histórico de Abrantes, cujos conventos e colégios foram sendo paulatinamente adaptados a outras funcionalidades. Luis Peri e André Freitas (da empresa Gestcult) mostraram, por exemplo, as fases por que passou a transição do antigo Convento de Nossa Senhora da Esperança para o Colégio de Nossa Senhora de Fátima.

Por outro lado, a cidade de Abrantes deteve – e continua a deter – uma posição estratégica, tanto do ponto de vista militar (veja-se o papel que desempenhou no quadro das invasões francesas) como económico, pela sua proximidade do Tejo (ia-se por via fluvial de Lisboa a Abrantes!…). Haja em vista que os trabalhos de reabilitação do Cineteatro São Pedro permitiram concluir que o local fora utilizado como cemitério entre 1810 e 1811, ou seja, precisamente por altura das referidas invasões.

A cidade careceu, por conseguinte, de estar bem defendida e não deixou de ser curioso que, ao se proceder a escavações nos edifícios pertença da Misericórdia local, se haja encontrado um pouco da linha defensiva militar da cidade. Por seu turno, o Convento de São Domingos estudado por Filomena Gaspar e Vânia Janeirinho também sofreu alterações, de modo que as investigadores apontam para o local a seguinte trilogia em sequência: convento, quartel e necrópole!

imagens partilhadas de https://jornaldeabrantes.sapo.pt/cultura/descobertas-arqueologicas-atrasam-cineteatro-s-pedro-c-audio-e-fotos

Esse, de resto, o espírito que preside às intervenções no âmbito da Arqueologia Urbana: na sua estrutura urbana, a cidade está viva e, por isso, o que se vai modificando não pode destruir, mas reabilitar, o que está para trás, como memória a preservar. Nesse aspecto e também para esse efeito, Abrantes dispõe já de uma notável rede museológica, de que podem citar-se o referido Museu de Arte Contemporânea e o Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, galardoado este, pela Associação Portuguesa de Museologia, em 2023, com o prémio “Museu do Ano”.

O CAFÉ E AS AURÉOLAS DE GALÁXIAS

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fotomontagem com grafismo

À sua volta, Lisboa acontecia. O casario subia as colinas num amontoado de cal e pedra, mas para ele eram só formas sem sentido. O café era um recanto escuro. Quase uma trincheira contra a luz agressiva da tarde lisboeta. Ali dentro, o tempo parecia não avançar. Gelo. A atmosfera estava impregnada: tabaco velho, o frio do mármore e aquele cheiro a papel antigo dos livros que ambos traziam escondidos nos casacos.

Olhou para baixo. No mármore riscado da mesa, as marcas redondas das chávenas pareciam auréolas de galáxias que já morreram. Fantasmas de outros homens que se tinham sentado exatamente ali, a olhar para as mesmas janelas, a sentir o mesmo nó cego na alma. Depois, fixou-se nas mãos. Estendidas em cima da mesa, as unhas gastas. Pareciam-lhe estranhas, longe, como se pertencessem ao corpo de outra pessoa. Um manequim que continuava a mexer-se, em piloto automático, cumprindo os rituais exigidos para parecer um homem normal.

– Sinto-me estranho, Fernando. Uma coisa esquisita.

Joaquim confessou-o de cabeça baixa. Tinha a voz gasta de quem passou o dia a fingir, a engolir as mentiras normais do convívio social. Ali, naquela tarde suspensa sobre o Tejo, decidiu deitar as armas ao chão. Admitiu a sua maior derrota: andava a mentir ao tipo que vivia dentro dele. Não sentia o que era suposto sentir. No fundo, a sua própria existência parecia um erro. Havia um abismo entre o homem que ele achava que era e aquele que saía à rua todos os dias. Joaquim sentia-se um mero espectador. Um intruso na sua própria vida. E o pior é que isto não era de agora. Vinha de trás.

Desde miúdo que percebera o truque: moldava a voz a quem o ouvia e afinava o riso conforme a expectativa dos outros. O problema era quando ficava sozinho. Nessas alturas, não sobrava nada. Apenas um vazio enorme que a cabeça tentava preencher, sem sucesso.

(continua)

GUINÉ-BISSAU, À BEIRA DA VIOLÊNCIA POLÍTICA

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Úmaro Sissoco Embaló (USE) anunciou o regresso à Guiné-Bissau para 4 de outubro e pediu que a sua chegada decorra num ambiente de «harmonia, tolerância e respeito mútuo». É um apelo que deve ser levado a sério. Há ameaças no ar e desconfianças a pairar, refletidas nas redes sociais e confirmadas em conversas telefónicas com fontes próximas do processo político guineense.

Fontes em Bissau relataram ao Duas Linhas que houve forte discussão numa conversa telefónica entre o antigo Presidente e um líder político que foi seu apoiante, Braima Camará. Há rumores sobre desacordos entre o atual primeiro-ministro, Ilídio Vieira Té e o Presidente deposto.  

À distância fica difícil distinguir entre o que é verdade e mentira, até porque a prática política na Guiné-Bissau sempre se pautou por alianças e desavenças sucessivas entre os vários líderes políticos.

Mas as evidências não são tranquilizadoras. Segundo vídeos publicados nas redes sociais, régulos da região de Biombo advertiram que, se algo acontecer a Ilídio Vieira Té, Sissoco Embaló «pagará com a mesma moeda». Sempre que surge este tipo de diálogo, lembramo-nos do que sucedeu a um antigo CEMGFA, Tagma Na Wai, assassinado num atentado bombista e a vingança nos dias seguintes que vitimou o Presidente da República nesse tempo, Nino Vieira.

É lamentável que a Guiné-Bissau persista na senda da violência política. As ameaças devem ser analisadas pelas autoridades judiciais. A Guiné-Bissau não pode entregar conflitos políticos à lógica da represália.

A ideia do Presidente deposto é regressar e voltar a candidatar-se nas eleições que deverão ser realizadas em 6 de dezembro. Será um caminho espinhoso e, pelos vistos, cheio de perigos. Mas Umaro Sissoco Embaló saberá no que se está a meter. Neste momento, nas atuais circunstâncias, ele parece não ter apoios suficientes para concorrer e vencer. Mas isso é hoje, e na Guiné-Bissau tudo pode mudar de um dia para o outro.

NOVAS CIRCUNSTÂNCIAS POLÍTICAS

Entretanto, surgiu um novo partido, o Partido Popular Guineense, liderado pelo atual primeiro-ministro. Nas últimas semanas tem havido muitas saídas de militantes de relevo de outros partidos políticos. Como não há coincidências, em Bissau todos dizem saber que essas pessoas estão a filiar-se no novo partido. O PPG promete ser uma força política de relevo, no rendilhado político-partidário guineense.

Já o PAIGC, o partido histórico da luta de libertação e que governou o país durante as décadas de regime ditatorial, foi desalojado da sede nacional, um edifício do tempo colonial na antiga Praça do Império e que o partido ocupava desde 1975. O edifício foi reclamado pelo Estado, que será o seu legítimo proprietário. A decisão é controversa, não apenas politicamente. Mas é evidente que o PAIGC está enfraquecido, com o líder exilado e acossado pela justiça.

Para os combatentes da liberdade da Pátria e para muitos outros guineenses, aquele edifício tem um significado histórico, ninguém esquece que foi o PAIGC que dirigiu a luta pela independência, mas hoje é um partido sujeito à lei como todos os demais, com igual direito a existir e a exercer oposição.

VELHOS RANCORES

Enquanto Presidente do PAIGC e Presidente da Assembleia Nacional Popular eleita, Domingos Simões Pereira (DSP) foi um dos principais adversários políticos do Presidente Embaló. A dissolução do Parlamento, a disputa em torno da legitimidade das instituições e a exclusão eleitoral do PAIGC e do seu líder marcaram esse confronto. A detenção de DSP ocorreu após o golpe de novembro de 2025, quando Embaló já havia sido afastado do poder. Quando o PAIGC atribui a decisão diretamente ao antigo Presidente, sem o provar, está a falsear a sequência dos acontecimentos.

O regresso anunciado também não apaga o passado. A Presidência de USE foi marcada por algumas detenções arbitrárias, agressões a manifestantes e intimidação de opositores que não deveriam ter acontecido e, tendo acontecido, deveriam ter tido investigação séria. Alegações relativas a mortes, corrupção, narcotráfico ou grupos armados exigem provas, apuramento de responsabilidades e direito ao contraditório. A justiça devia funcionar sem proteção política para uns e perseguição para outros.

Na eleição presidencial de novembro de 2025, Fernando Dias da Costa e a campanha de Embaló reivindicaram a vitória antes de serem anunciados resultados oficiais. O golpe subsequente impediu uma conclusão institucional pacífica daquele processo. É uma ferida que exige o esclarecimento dos factos eleitorais, não proclamações convenientes de qualquer dos lados.

O referendo constitucional de agosto também deixou uma sociedade dividida. Foram anunciados resultados provisórios favoráveis ao «sim», enquanto setores da oposição contestaram e boicotaram a votação.

Sissoco Embaló tem o direito de regressar ao seu país e de participar na vida política, nos termos da lei. Todos os atores políticos, individualmente ou agregados em partidos, têm o mesmo direito.  

A CIÊNCIA DE OLHAR PARA CIMA E A ARTE DE NÃO VER O CHÃO

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A humanidade sofre de um desvio de atenção civilizacional. Ao longo das últimas décadas, a astrofísica converteu o céu num catálogo imobiliário de escala galáctica. Aprendemos a ler a luz de estrelas moribundas, a decifrar a composição atmosférica de rochas a centenas de anos-luz e a batizar “Super-Terras” com o entusiasmo de quem descobre um novo continente desabitado. Contudo, esta impressionante expansão da nossa visão cosmológica coincide, de forma quase simétrica, com uma contração severa da nossa perceção imediata. Somos uma espécie tecnologicamente capaz de detetar água líquida no vácuo do espaço, mas psicologicamente incapaz de travar a desertificação do solo que pisamos todos os dias.

Esta contradição não é um mero detalhe irónico; é o sintoma de uma crise de maturidade ecológica. A obsessão pela descoberta de exoplanetas habitáveis funciona, no inconsciente coletivo, como uma apólice de seguro metafórica para um planeta que estamos ativamente a liquidar. O avanço científico é inegável e louvável, mas a narrativa cultural que se colou a ele transformou a exploração espacial num plano de fuga subliminar. Face à complexidade esmagadora de negociar tratados climáticos, reestruturar sistemas económicos ou prescindir do conforto do plástico descartável no nosso quotidiano, a ideia de um recomeço num mundo intocado revela-se uma tentação irresistível. É o complexo de “página em branco” aplicado à escala planetária.

No entanto, o quotidiano desmente a nossa prontidão para o hiperespaço. A mesma civilização que projeta telescópios espaciais de precisão nanométrica colapsa perante a gestão básica dos seus resíduos urbanos. Discutimos a terraformação de Marte — um deserto estéril, gelado e sem magnetosfera — como se fosse um projeto de reabilitação urbana exequível, enquanto assistimos à degradação dos ecossistemas terrestres com uma passividade burocrática. Pagamos taxas ecológicas sobre sacos de plástico no supermercado enquanto compramos produtos importados que cruzaram oceanos num navio cargueiro a fuelóleo pesado. Esta desconexão entre a micro ação quotidiana e o macro problema global expõe a nossa falha estrutural: somos exímios a criar ferramentas para diagnosticar o fim do mundo, mas terrivelmente incompetentes a mudar os hábitos que o provocam.

Eis o paradoxo da nossa evolução: passámos de uma espécie que temia a ira dos deuses refletida no céu para uma civilização que olha para o cosmos à procura de um terreno baldio para onde possa transferir o seu entulho. Se a inteligência humana se mede pela capacidade de alterar o meio ambiente, a nossa sabedoria mede-se pela capacidade de o preservar. Até agora, o balanço pende perigosamente para o primeiro prato da balança. O verdadeiro teste para a humanidade não será a nossa capacidade de construir uma nave geracional para colonizar o próximo exoplaneta habitável; será a nossa capacidade de provar que merecemos habitar o primeiro. Afinal, de nada serve descobrir uma nova Terra se a única coisa que pretendemos levar para lá são os velhos hábitos que destruíram a antiga.

AS NOVAS TECNOLOGIAS E O FUTURO DA COMUNICAÇÃO HUMANA

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A tecnologia tornou a comunicação mais rápida, mais acessível e mais poderosa. Um acontecimento ocorrido em Lisboa pode ser conhecido em Maputo, São Paulo ou Paris quase no mesmo instante. Uma ideia pode atravessar milhares de quilómetros antes de o seu autor sequer imaginar quem a irá ler. Uma imagem pode mobilizar milhões de pessoas. Uma palavra pode adquirir, em poucas horas, uma dimensão que anteriormente exigiria anos. Mas velocidade não é necessariamente proximidade. E quantidade não significa necessariamente qualidade.

A grande revolução tecnológica do nosso tempo não está apenas nos instrumentos que inventámos. Está na transformação da própria relação do ser humano com a informação, com o conhecimento e, sobretudo, com o outro. Durante séculos, comunicar significou construir uma relação. Havia uma distância entre quem falava e quem escutava, entre quem escrevia e quem lia. Essa distância obrigava à atenção. Uma carta demorava dias ou semanas a chegar. Um livro exigia tempo. Uma conversa exigia presença. Hoje, essa distância quase desapareceu.

Podemos responder imediatamente. Podemos publicar antes de pensar. Podemos comentar antes de compreender. Podemos emitir uma opinião antes de conhecer os factos. E talvez seja esta uma das grandes contradições do nosso tempo: temos mais possibilidades de comunicação, mas nem sempre temos mais disponibilidade para escutar.

A tecnologia não é, por si mesma, boa ou má. É uma criação humana. O problema não está apenas naquilo que as máquinas fazem, mas naquilo que nós decidimos fazer com elas. A inteligência artificial, as redes sociais, os sistemas digitais, os algoritmos e todas as novas ferramentas que estão a transformar o mundo podem ampliar extraordinariamente as capacidades humanas. Podem democratizar o acesso ao conhecimento, facilitar a educação, aproximar pessoas, preservar memória, apoiar a ciência, melhorar serviços públicos e criar novas formas de expressão. Mas podem também produzir o efeito contrário.

Podem substituir a reflexão pela resposta imediata, a experiência pela simulação, a memória pela disponibilidade permanente de informação, a conversa pelo comentário e o pensamento pela repetição automática.

É aqui que Portugal deve pensar sobre si próprio. Não somos apenas consumidores de tecnologia. Somos uma sociedade com uma história, uma língua, uma cultura e uma experiência própria de comunicação. A língua portuguesa atravessa hoje vários continentes. É falada por centenas de milhões de pessoas. Constitui uma das grandes comunidades linguísticas do planeta.

A tecnologia oferece-nos uma oportunidade extraordinária: transformar essa comunidade linguística numa verdadeira comunidade de conhecimento, cultura e criação. Mas isso não acontecerá automaticamente. Será necessário investir na língua portuguesa no mundo digital. Na produção de conhecimento. Na educação. Na investigação. Na cultura. Nos arquivos. Na preservação da memória. Na capacidade de criar conteúdos portugueses e lusófonos com qualidade, rigor e identidade. Porque uma língua que não estiver presente nas novas tecnologias corre o risco de se tornar apenas uma língua do passado. E Portugal não pode aceitar esse destino.

Temos uma história particular de relação com o mundo. Durante séculos, fomos uma sociedade habituada a partir, a encontrar outros povos, outras culturas e outras geografias. Hoje, já não precisamos de atravessar oceanos para entrar em contacto com o mundo. O mundo entra diariamente nas nossas casas. A questão é saber se continuamos capazes de lhe responder com uma voz própria.

É neste ponto que a tecnologia encontra a cultura. Uma sociedade tecnologicamente avançada não é necessariamente uma sociedade culturalmente desenvolvida. Pode possuir redes de comunicação sofisticadas e, ao mesmo tempo, produzir discursos pobres. Pode ter acesso ilimitado à informação e ser incapaz de distinguir conhecimento de ruído. Pode falar permanentemente e, paradoxalmente, perder a capacidade de conversar.

Por isso, o desafio do futuro não será apenas tecnológico. Será humano. Precisaremos de ensinar as novas gerações não apenas a utilizar ferramentas, mas a pensar com elas sem se deixarem pensar por elas. Precisaremos de formar cidadãos capazes de distinguir informação de conhecimento, opinião de facto, influência de manipulação, popularidade de verdade. E precisaremos, sobretudo, de preservar aquilo que nenhuma máquina poderá substituir verdadeiramente: a experiência humana.

A memória de uma pessoa. A emoção de uma conversa. O silêncio de quem escuta. A capacidade de interpretar um olhar. A dúvida. A imaginação. A responsabilidade moral perante aquilo que dizemos e fazemos.

É possível que a inteligência artificial venha a escrever textos melhores, mais rápidos e tecnicamente mais perfeitos do que muitos seres humanos. É possível que venha a produzir imagens, música, filmes e discursos de extraordinária qualidade. Mas isso não significa que venha a substituir a necessidade humana de criar. Porque criar não é apenas produzir. É escolher. É duvidar. É desejar. É lembrar. É assumir responsabilidade pelo que se diz. É dar sentido à experiência.

E talvez seja precisamente aqui que se encontre a fronteira mais importante do nosso futuro. Não devemos perguntar apenas o que as máquinas serão capazes de fazer. Devemos perguntar que seres humanos queremos continuar a ser.

Portugal tem diante de si uma escolha histórica. Pode limitar-se a acompanhar a revolução tecnológica, utilizando ferramentas criadas por outros e consumindo conteúdos produzidos noutros lugares. Ou pode participar activamente nessa transformação, colocando a sua língua, a sua cultura, a sua capacidade científica e a sua experiência histórica dentro do novo mundo digital.

Não precisamos de ter a dimensão económica das grandes potências tecnológicas para ter uma voz relevante. Precisamos de ter pensamento. Precisamos de educação. Precisamos de cultura. Precisamos de capacidade de criação. E precisamos de acreditar que a pequena dimensão geográfica de Portugal não determina a dimensão daquilo que podemos imaginar.

Foi assim muitas vezes na nossa História. Não fomos grandes porque éramos grandes. Fomos grandes quando fomos capazes de pensar para além da nossa dimensão.

Hoje, o território já não é apenas físico. É também digital. E nesse território Portugal tem uma oportunidade que não pode desperdiçar. A questão fundamental não é, portanto, se a tecnologia irá mudar Portugal. Ela já está a mudá-lo. A verdadeira questão é saber se Portugal será capaz de participar nessa mudança sem perder aquilo que o torna Portugal.

Num mundo em que tudo parece poder ser reproduzido, acelerado e automatizado, talvez o nosso maior património seja aquilo que não pode ser reduzido a um algoritmo: a capacidade de compreender o outro. Porque comunicar não é simplesmente transmitir informação. É estabelecer uma relação. E enquanto houver humanidade, haverá sempre uma diferença essencial entre enviar uma mensagem e verdadeiramente comunicar.

Talvez o futuro da comunicação humana dependa menos daquilo que as máquinas vierem a aprender do que daquilo que nós não quisermos esquecer: que por detrás de cada palavra existe uma pessoa. E que nenhuma tecnologia será verdadeiramente humana se perdermos, nós próprios, a vontade de compreender o outro.

CONTROLAR A OPINIÃO PÚBLICA É ASSIM QUE SE FAZ

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No Facebook, um vídeo difundido por canais oficiais da República Islâmica do Irão pode aparecer acompanhado, durante toda a sua duração, de uma indicação de que aquele conteúdo é «controlado pelo Irão». Foi o que aconteceu, por exemplo, com imagens da intervenção do Presidente iraniano na recente Assembleia Geral das Nações Unidas. O “aviso” funciona como um alerta: “cuidado, não acreditem nisto”.

Na mesma Assembleia Geral, o Presidente francês publicou um vídeo cuidadosamente produzido em Nova Iorque: Macron aparece sorridente, cumprimenta efusivamente Donald Trump e outros líderes, tudo montado ao ritmo de música, com imagem, som e edição profissional. É, evidentemente, comunicação política. Não há ali nada ao acaso. Há uma equipa de comunicação a produzir uma narrativa sobre o Presidente da República e a sua presença no mundo. Nenhum “aviso”, podemos acreditar em tudo.

Donald Trump fez o mesmo. Entre os vários vídeos publicados naqueles dias, encontramos excertos do seu discurso nas Nações Unidas, cuidadosamente escolhidos para amplificar frases como «America is back» ou «we are stronger than ever before». Não estamos perante jornalismo independente. Estamos perante comunicação política produzida e distribuída pelo próprio protagonista. Também nenhum “aviso” para termos cautela.

Todos estes conteúdos têm uma característica comum: são produzidos ou difundidos por estruturas de comunicação ligadas ao poder político e destinam-se a construir uma determinada imagem desse poder. Uns mostram um Presidente confiante, sorridente a cumprimentar outros chefes de Estado; outros seleccionam as frases mais favoráveis de um discurso; outros apresentam a versão de Teerão sobre a agressão que estão a sofrer com bombardeamentos americanos e israelitas. Mas só o vídeo do Irão tem o “aviso” de alerta.

Se a regra das redes sociais, neste caso o Facebook, fosse informar o utilizador de que está perante comunicação sob influência ou controlo de um Estado, então a regra deveria ser aplicada segundo critérios universais. Washington, Paris, Londres, Moscovo ou Teerão não podem ser tratados como categorias diferentes apenas porque as suas políticas externas são diferentes.

Por que razão um vídeo de comunicação política difundido pelo Estado iraniano precisa de um aviso permanente sobre a sua origem, enquanto uma sofisticada peça promocional do Eliseu ou um excerto cuidadosamente seleccionado por Trump não suscitam idêntico alerta?

Não se trata de defender a credibilidade do Governo iraniano. Nem de pedir que se retirem rótulos a conteúdos provenientes de meios controlados por Estados. Trata-se precisamente do contrário: de saber se o critério é realmente sobre a natureza do conteúdo ou se acaba por funcionar também como uma classificação política dos emissores.

Porque um aviso como «controlado pelo Irão» não é uma informação neutra no sentido mais elementar da comunicação. Embora não diga «não acredite», coloca essa suspeita no ecrã antes, durante e depois da mensagem. A propaganda não deixa de ser propaganda quando é produzida a ocidente.  Se o Facebook decidisse identificar da mesma maneira um vídeo da Casa Branca como «conteúdo controlado pelos Estados Unidos», um vídeo do Eliseu como «conteúdo controlado pela França» e uma comunicação de Downing Street como «conteúdo controlado pelo Reino Unido», a regra tornar-se-ia banal. Poderíamos concordar ou discordar dela, mas perceberíamos o critério.

Explicando com exemplos em vídeo:

vídeo

Quando o aviso aparece sistematicamente associado a determinados países e não a outros, a questão deixa de ser apenas quem produziu o conteúdo. Passa a ser quem merece ser assinalado como alguém de quem devemos desconfiar. É uma diferença pequena no ecrã. Mas não é uma diferença pequena na cabeça de quem vê.

QUEREMOS O FESTIVAL

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Faleceu José António Piñeiro Nagy em julho passado. Nascera em Lisboa, filho de pai galego e mãe húngara. As notícias – inclusive as veiculadas por um departamento camarário – salientavam que fora o criador e diretor do Festival Estoril-Lisboa e que, devido ao seu falecimento, se cancelavam todas as iniciativas previstas para 2026. O tema desta 52ª edição cancelada era «Celebramos Património».

Poder-se-ia historiar o que foi a ação do músico, desde que, na década de 60, veio para Cascais com a sua guitarra clássica, a sua ampla cabeleireira a emoldurar-lhe o rosto, e ousou propor a realização de concertos seus, numa altura em que este instrumento não era popular nem concitava grande interesse, mesmo por parte dos artistas. Recordo-o, tímido, na Sala de Música do Condes de Castro Guimarães, o dedilhar a fazer-se eco da suavidade das ondas a espraiar-se sob a ponte da Praia de Santa Marta…

Pouco e pouco, porém, os concertos e, de modo especial, os cursos que ministrou acabaram por suscitar entusiasmo.

Piñeiro Nagy

Pelo seu dinamismo, Piñeiro Nagy começou a integrar a equipa responsável dos Cursos Internacionais de Música do Estoril que, desde 1962, traziam à então Costa do Sol, com o apoio da Junta de Turismo, presidida pela clarividência de Joaquim Miguel de Serra e Moura, mestres conceituados das mais variadas latitudes. Recordo a pianista Helena Sá e Costa, o violinista Sándor Vegh, o maestro Manuel Ivo Cruz (um dos grandes responsáveis pela iniciativa), a maestrina Nadia Boulanger, o violoncelista Maurice Eisenberg. Não será nada despiciendo lembrar que aí foram alunos a pianista Maria João Pires e o maestro Álvaro Cassuto (falecido a 6 de Abril, p. p.)

Essa mesma equipa tornou possível o Festival Internacional de Música, numa altura em que – importa frisá-lo – apenas o Festival de Sintra, no então Carlos Manuel, estava presente num calendário das iniciativas musicais do País. O Festival foi fundado em 1975, no seio da Junta de Turismo da Costa do Sol, com o nome Festival de Música da Costa do Sol, sob proposta de Piñeiro Nagy e o aval do compositor Fernando Lopes-Graça, do musicólogo João de Freitas Branco e da pianista Helena de Sá e Costa, em complemento dos Cursos Internacionais de Música. Em 1981 é assinado o protocolo que confere a organização e gestão do Festival à Associação Internacional de Música da Costa do Estoril, criada exclusivamente para esse efeito, e altera o nome para Festival de Música da Costa do Estoril.

Hoje, que os festivais de música (mas não de música clássica) pululam por Portugal de lés a lés, não se faz a mínima ideia do que era propor superiormente, e ver aprovada, a realização de um Festival de Música! Primeiro, porque se partia do princípio de que não haveria público, o que depressa se revelou falacioso; segundo, porque, ainda não estando em clima revolucionário (o 25 de Abril viria depois) a Música Clássica era ainda vista como destinada a uma elite endinheirada – outra falácia! E não será de somenos assinalar que por cá, nesse âmbito, estiveram o bailarino Rudolfo Nureyev e o mimo Marcel Marceau!

Vale, pois, voltar atrás, ao que ficou cancelado: o 52º Festival Internacional de Música. Façam-se, então, as contas: 2026-52 = 1964! Piñeiro Nagy sempre presente, lutando contra tudo e contra todos. Sempre ansioso se os prometidos apoios não chegavam… Tanta vez o entrevistei, inclusive na esperança de virem a desatar-se os cordões às bolsas!…

Extinta a Junta de Turismo – cuja atividade cultural ainda não terá sido devidamente posta em relevo, quiçá por essa sua atividade ser considerada direta emanação do poder político central (puro engano!) – foi preciso bater a muitas incrédulas portas e também por isso se tornou necessário estender a Lisboa o Festival, dado que os responsáveis pelos organismos locais não estavam ainda devidamente consciencializados da sua importância. Uma história por fazer!…

Sangrou-se-me, pois, o coração com o silêncio autárquico, aquando do passamento do Professor, a total ausência de eleitos, no seu funeral, a 4 de Julho, em Alcabideche. Piñeiro Nagy não merecia. Esteve apenas – e a título particular, de amizade – Catarina Roquette, da Casa-Museu Verdades de Faria, uma das joias que Piñeiro Nagy tanto prezou, o Museu da Música Portuguesa. O silencioso e significativo abraço que trocámos entre nós e com Dulce Nagy (a viúva) e os familiares simbolizou o que ambos desejaríamos ter sido um outro abraço maior.