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VIAGEM A LISBOA E CONFRONTO COM A REALIDADE

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Um destes dias tive de me deslocar de Santa Comba Dão a Lisboa para tratar de alguns assuntos particulares. Na A1, entre Fátima e Santarém, a minha viatura colapsou totalmente, o que me aconteceu pela primeira vez em mais de 50 anos e fiquei parado na berma da auto-estrada. Dentro da viatura, um erro que assumo desde já, fiz um telefonema para o ACP, a fim conseguir apoio para um reboque e transporte para Lisboa. Saí do automóvel, encostei-me ao separador e fiquei a ver passar os camiões pesados, em elevada velocidade, tentando não ter receio de que alguma coisa corresse mal.

Passada meia-hora, apareceu uma Brigada da GNR que, de forma gentil e extremamente correcta, veio saber o que se passava. Aconselhou-me a passar para o outro lado do separador, por uma questão de segurança, e, após saberem que eu já tinha solicitado a assistência, foram embora. Dei comigo a pensar que, afinal, ainda podemos ter esperança nas forças policiais, apesar do que, segundo a acusação do Ministério Público, se passou, em Lisboa, com alguns agentes da PSP, suspeitos das maiores barbaridades e violação dos mais elementares direitos dos cidadãos. Esclareço que, até ao trânsito em julgado da decisão judicial são, nos termos da CRP, presumidamente inocentes.

Dois dias em Lisboa confirmaram o que me vinham dizendo, uma cidade cada vez mais caótica, suja, desmazelada, dois anos após ter saído da capital. Fiquei em choque com o estado a que um mau autarca pode conduzir uma cidade, a minha cidade, transformando-a numa enxovia.

Regressei a casa no Inter Cidades, que saiu à hora certa da Gare do Oriente. A carruagem estava cheia, com todos os passageiros agarrados aos telemóveis. Um homem, com cerca de 50 anos, passou toda a viagem, até ao seu destino a ver tik-tok. Uma mulher, com cerca de 40 anos, após a saída do passageiro que estava no lugar ao lado, esticou-se no banco e colocou os pés em cima do assento. Enfim, mergulhei neste admirável mundo novo da sociedade portuguesa.

Quando cheguei ao destino já passava das 21 horas e pedi a um amigo para me ir buscar, porque já não havia táxis, num concelho em que a Presidente da Câmara, em recente entrevista a um canal televisivo, garantia querer transformar o município num destino aprazível para o turismo, reforçando, deste modo, a economia local. 

Nos dias seguintes os acontecimentos de que tomei nota não me alegraram. A ex-chanceler Merkel, a principal responsável pela situação de degradação da Europa, esteve em Lisboa, possivelmente para ver os ‘pacóvios’ do sul, que ela tentou esmagar, mas não prescindiu de ir aos fados, beber um bom vinho e comer da boa comida portuguesa. Descobri que o ‘encantador de burros’, é a versão portuguesa do TACO, ao admitir que, afinal, a descida da idade da reforma – uma imbecilidade total, de resto, saída da cabeça de um homem desesperado – não é uma exigência para a aprovação das alterações à legislação laboral. E, por último, para o governo existem dois tipos de percepção, uma correcta, a de que existe uma sensação de insegurança, e outra incorrecta, a de que o SNS está um caos, pois o executivo  assegura que o SNS está bem e recomenda-se, os portugueses, madraços, é que têm a percepção que está um caos.

É UMA VERGONHA

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imagem representativa da crónica, alterada graficamente

Durante anos, organizações internacionais, mecanismos europeus de prevenção da tortura, associações de direitos humanos e até tribunais portugueses e trabalhos jornalísticos (basta lembrar o programa “Casos de Polícia” nos anos 90 na SIC) foram deixando avisos sucessivos sobre práticas de violência, humilhação, agressão e abuso cometidos por elementos da PSP e da GNR. Relatórios atrás de relatórios, repetindo quase sempre as mesmas palavras: uso excessivo da força, maus-tratos em esquadras, impunidade, investigações insuficientes, ausência de fiscalização eficaz.

E, quase sempre, o mesmo tipo de vítima. O imigrante. O pobre. O cidadão racializado. O trabalhador precário. O morador de bairros periféricos. O indivíduo sem capital social, sem advogado, sem visibilidade mediática e sem meios para enfrentar uma corporação armada. Não se pode ignorar esta coincidência permanente. A violência policial raramente é distribuída de forma aleatória. Escolhe quase sempre quem tem menos capacidade de defesa pública.

O caso dos trabalhadores imigrantes em Odemira mostrou isso de forma particularmente brutal. Militares da GNR acusados de sequestrar, humilhar e agredir pessoas vulneráveis, num ambiente onde a exploração laboral já era extrema. Antes disso, outros casos tinham surgido em bairros periféricos de Lisboa, em esquadras policiais, em estabelecimentos prisionais. É um padrão que se repete.

Agora surgem as denúncias e detenções ligadas às esquadras do Rato e Bairro Alto. Tortura. Violência. Violação. Humilhação. Alegadas agressões praticadas dentro de instalações policiais onde os cidadãos se deveriam sentir protegidos pela lei.

Alguém acredita seriamente que nada disto era conhecido internamente? Quando aparecem dezenas de agentes envolvidos ou investigados, quando há práticas alegadamente repetidas durante anos, quando existem grupos internos, cumplicidades, silêncios e normalizações, torna-se pouco credível imaginar chefias completamente cegas, estruturas hierárquicas totalmente ignorantes ou comandos incapazes de perceber o ambiente instalado dentro das próprias esquadras.

Uma instituição policial é uma estrutura fortemente hierarquizada. Controla horários, turnos, relatórios, detenções, operações, disciplina interna, circulação de informação. Não é plausível que fenómenos desta dimensão prosperem durante anos sem sinais, rumores, denúncias, suspeitas ou conhecimento informal dentro da cadeia de comando. O escândalo não reside apenas nos alegados crimes. Reside também na possibilidade de eles terem sido permitidos pelas hierarquias.

O Comité Europeu para a Prevenção da Tortura foi repetindo críticas duríssimas a Portugal. Organizações internacionais foram denunciando padrões persistentes de maus-tratos por parte de PSP e GNR. Mas o discurso oficial foi quase sempre o mesmo: casos isolados, episódios pontuais, desvios individuais.

A erosão social começa assim: na normalização silenciosa da brutalidade contra quem tem menos voz, maior dificuldade no exercício dos seus direitos e menor proteção social. Fomos sendo habituados à ideia de que certas pessoas podem ser revistadas com mais violência, detidas com menos explicações, humilhadas com maior facilidade e espancadas sem grande problema. Nos últimos tempos, alguns agentes da política contribuíram para o agravamento deste tipo de injustiças.

O caso do Rato e do Bairro Alto não é só um caso criminal. É o reflexo daquilo em que Portugal se está a transformar.

CRIME PERFEITO

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“Malhou” na mulher porque ela lhe disse não ter dinheiro para as despesas…

– A “gaija” se calhar pensa que estou rico ou que herdei!

Isto foi ouvido pelas duas vizinhas do casal, que do quintal, observaram sem intervir. É que o “moina” já vinha com o vinho, não fosse sobrar para alguma delas, ou para as duas e os respectivos maridos terem que intervir. Seria uma tragédia. O melhor era ir depois do “malhanço” e tentar ajudar em alguma coisa. Viram que o marido da amiga já estava fora de portas e chamaram:

– Ò Tininha!… Podemos entrar?

Foram entrando é claro. Dentro, a vítima tentava disfarçar os vermelhos da face com uma toalha. As amigas tiram-lha da mão para observarem bem, uma exclama:

– Havias de meter os cornos ao filho da puta! “Atão” isto faz-se?

Olhava com espanto, presume-se… interrogando a outra amiga que com a mão na boca, tinha um ar de ter acontecido um terramoto. Efectivamente a cara da ofendida e barbaramente agredida, apresentava muito sangue pisado, fundamentalmente na zona dos olhos, completamente raiados de sangue, inchados e a ficarem negros. Fazem-na falar para ver se encontram uma “razão” para este acto troglodita. O que sabiam era que anteriormente não era assim, batia-lhe, mas não desta forma, “ai que tinha de haver “puta” a entrar na vida deles, tinha”. O “gajo” sempre bebera quase tudo que ganhava, mas nunca tinha batido nela como agora. A “Tininha” tinha que fazer queixa dele no posto da policia! Lá isso é que tinha. E vão, as duas de incentivar ao acto, no que é negado pela ofendida, que diz:

– Não me façam isso. É que ele foi despedido! Ele e mais 26 na empresa.

– Mas isto não pode ser! Mais uma razão para ele não te bater! Tu é que és o sustento da família, sempre foste e agora mais… Mas não pode o “corno” fazer o que faz!

– Deixa lá. – Diz a outra, tentando contemporizar e acalmar a situação.

– Deixa andar, deixa andar e dá no que dá! Olha para esta cara! Pode lá ser?! Olha, vais ao centro de saúde e vais ter que dizer o que te aconteceu. Se não dizes, dizemos nós. Amanhã tens que ir trabalhar e como é que vais atender os clientes no café? O Sousa não te deixa trabalhar neste estado! Entras de baixa e ele mete outra no teu lugar.

A outra amiga estava de regresso da cozinha com gelo num saco de plástico que colocou na mão de Tininha. Esta levou o gelo à face… fez uma “careta” de dor, mas deixou o gelo em contacto com a pele.

– Vá lá. Veste-te para irmos. Não vais com essa camisa de dormir. Lá por ser domingo já devias estar vestida. Não me digas que o gajo te levou p’rá cama? O “corno” é mesmo porco, depois de fazer o que lhe interessou “malha” na mulher!

– Não é nada disso! Estava a limpar o pó e disse-lhe que precisa de dinheiro para dar ao Carlitos, para comprar uns materiais para levar para a escola. Aí é que foi a desgraça toda.

– Quer dizer, o filho é dele, mas tu é que o sustentas? Que pai do “carago” ele é! Havia de ser comigo! Fazia-lhe a cama. Isso é que fazia!

– Olha uma coisa – Diz a outra amiga – o Nandinho da Carla também foi despedido da firma… lá perto de Valongo, sabem?

Todas anuíram.

– E bateu na Carla, só que esta deu-lhe com uma garrafa cheia de vinho na cabeça. O “gajo” levou seis pontos na cabeça e ela disse-lhe que se voltasse a acontecer, ela fazia queixa de violência doméstica e nunca mais ia ver os filhos.

– Pois é, mas não tinha garrafa nenhuma de vinho e fui apanhada pelas costas quando levei a primeira, caí e nunca mais me levantei.

– Corno! Filho da puta! É preciso ser muito cobarde!

– Filho… da puta… o quê?…

Tinha entrado o autor da “proeza”, a cambalear, e a interrogar, em ar de desafio a autora da frase. Maria, olha para ele, tira uma jarra com flores, cheia de água, que se encontrava em cima de uma floreira e… acerta na cabeça do homem com violência e no meio de vidros, flores e água, este cai direito no chão, sem um ai… ali fica inerte. A autora do “disparo” diz em voz aflita:

– Meu Deus o que eu fiz!… Matei o teu homem… Ai minha nossa senhora…

– E agora – diz a outra amiga com as mãos na cabeça.

A ofendida diz com o gelo na cara e a olhar para o homem:

– Não se preocupem. Ninguém fez nada contra ninguém. Ele é que vem com os copos, quis bater-me outra vez, escorregou, caiu e a jarra caiu-lhe em cima… e… partiu-se toda…

Olhando para as amigas:

            – Foi ou não verdade o que aconteceu? Vinha bater-me ou não?

– Claro que sim. Nem tivemos tempo de o agarrar…

SENSAÇÕES ESTRANHAS

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fotomontagem

Em tempos, passei junto da Ópera de Milão, no momento em que chegavam – de lamborghini, ferrari, porsches… – damas de longos vestidos, cavalheiros de fato escuro e papillon. Saíam os motoristas numa pressa, para escancararem as portas de trás. Uma suave atmosfera de outro mundo, ou melhor, deste nosso, prosaico, a penetrar noutro universo, dignando-se a descer ao comum dos mortais…

Na noite do passado dia 5, mui diferente foi a entrada para o hall do Casino Estoril, agora longo tapete estendido a sedutoras máquinas de jogo… Bem acolhedor se quis mostrar o glorioso Salão Preto e Prata, sem milanesas pretensões – que tal não era o objectivo.

Esperava-nos Verdi. Ia mostrar-nos uma Aïda, serva, a morrer de paixão por Radamés, o filho do faraó. Mútua era essa paixão. Sim, tudo se passava noutro tempo, em que havia hieróglifos sem Pedra de Roseta capaz de os decifrar.

Encenação de Ignacio García e Aurora Cano; discreta também a cenografia, de Alejandro Contreras, mais a sugerir do que a mostrar. Em pano de fundo, enorme painel de hieróglifos, de enigmática mensagem. Figurinos de Ana Ramos, igualmente sem escusadas ostentações, ligeiro apontamento egípcio antigo. A Hesperian Symphony Orchestra, dirigida por Antonio Ariza Momblant, a não ocupar o papel preponderante, mas apenas a sublinhar a acção, ora em lírica suavidade ora, qual sonora trombeta, forte dramaticidade.

Invocaram-se Ísis e Osíris, porque aos humanos nem tudo corre bem – ou nada mesmo –  sem o conluio dos deuses,  num lima de guerra entre povos vizinhos: Etíopes dum lado (o povo de Aïda), Egípcios do outro. Agora invadidos, daqui a pouco invasores…

E o Amor acaba por vencer. Acaba – embora trágico – por falar mais alto do que o fragor metálico das espadas e punhais.

Mais uma louvável iniciativa do Grupo Chiado para trazer a ópera ao quotidiano. Bem hajam! Gratos estamos, também, pela gentil cedência de imagens. Gratos a: María Ruiz  e Lucía Tavira, no difícil e muito bem desempenhado papel de Aïda; a Eduardo Sandoval e Enrique Ferrer, elegantes figuras de Radamés. María Luisa Corbacho incarnou bem Amneris, a princesa despeitada; Manuel Mas foi o vingativo Monasro, rei da Etiópia, pai da protagonista; Jordi Serrano, o faraó, soberano; Ramfis,·Antonio Alonso, por seu turno, altivo no papel de Sumo Sacerdote, a autoridade religiosa e política, a voz do poder dos deuses e da segurança do Estado.

E não faltou o coro, aquela anónima «voz do Povo», a tudo comentar, como se fora de cena estivesse e jamais pudesse calar-se. Feminino e masculino – porque, em tragédias assim, há sempre as duas perspectivas a ter em conta.

Acrescente-se que foi na véspera de Natal de 1871 que o espectáculo subiu à cena, pela primeira vez, na Ópera do Cairo, capital do Egipto. No palco do Salão Preto e Prata, os quatro actos seguiram o libreto que António Ghislanzoni (1824–1893) escreveu para Giuseppe Verdi (este, o trabalho que  tornou Ghislanzoni mais famoso como libretista), preparado com a colaboração do francês Camille du Locle (1832–1903) e do egiptólogo e arqueólogo Auguste Mariette (1821–1881). Bem diversificada equipa, portanto.

A apresentação no Estoril foi a primeira das quatro previstas para esta digressão em Portugal, que vai terminar em Lisboa, depois de passar por Braga e Águeda.

“POVO QUE LAVAS NO RIO”

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Tanques de lavar em S. João, em 1931, Lagos

Lembro as mulheres da minha aldeia, minha mãe nesse corpo de heroínas, quando em seus tempos livres, cesto à cabeça carregando a roupa da família, roupa que o suor encardira, roupa de quotidiano dela própria, do seu homem e dos filhos, roupa de trazer no dia-a-dia, lençóis de estopa ou de linho, roupa que reservara intimidades, toalha de mesa da cozinha familiar que às vezes cobria a cesta da merenda e depois se estendia sobre a relva na meia-manhã de trabalho, lembro-me de as ver passar, airosas de porte, dignas de sua mãe, essa Eva primeira quando, abandonado o Jardim que habitara, secara ao sol as peles de cordeiro que Javé lhes dera por agasalho, a ela e a Adão, antes que tivesse inventado as fibras do linho.

lavadeiras nas margens do rio Pavia, Viseu

Odisseia destas mulheres era o transcurso de um caminho de rio ou ribeira, mais tarde do tanque de lavar construído na margem da aldeia, caminho que faziam a cantar quando, tantas vezes, mais se lhes oferecia o chorar, caminho de histórias contadas com as companheiras, como as de Ulisses, que um poeta cantou. Depois, quase sempre joelhos em terra, mal agasalhados nas tábuas de uma joelheira, bate-que-bate, no lavadoiro, entre as mãos de sabão e os risos delas e das companheiras e o cantar dos demorados romances antigos, a faina seguia até que a roupa ganhasse o jeito de vela aberta ao sol e ao vento, suspensa do cordame estendido entre dois mastros na margem do tanque ou da ribeira onde se estendia a corar antes de voltar água e à corda estendida para o sol a secar.

Lavadeiras no rio Mira, Odemira

Ano a ano, no pino do Verão, havia a barrela. Tinha lugar marcado no canto de alargado pátio de uma casa de lavoura. Um cesto vindimo bastava, ou uma larga caixa de madeira que viera de um tempo de avós. E a roupa grave, lavada, camisas de linho de vestir ao Domingo, toalhas de mesa de trabalho ou festa, lençóis, em camada, ali ficava dentro, jeito de adormecida. Sobre ela estendia-se o barreleiro, jeito de manto para o efeito guardado. Uma rasa de cinza de lenha comum ardida na fogueira, ou de molhos de vides secas em moreias num canto da vinha colocava-se a cobrir. E de um pote de água a ferver num canto de lareira que perto se inventava despejava-se a água, sobre a cinza, até vê-la, demorada, a sair pela base do cesto ou do caixote. Ali dormia depois, a roupa humedecida até à madrugada quando a dona vinha para a levar ao ribeiro e a estender ao sol antes de na arca a guardar.

Lavadeira entrega a roupa lavada, Avenida da Liberdade, Lisboa (1906)

“Povo que lavas no rio”!… Como é fácil lembrar o magnífico poema de Pedro Homem de Melo que a sentida voz de Amália transfigura ao deixar-nos suspensos do drama que a sua voz canta!… Como é fácil lembrar o ecoar da voz de Gracinda (Beatriz Costa) nas alegres cenas do filme “Aldeia da Roupa branca”, de Chianca de Garcia, desenroladas em terra saloia e essa heroica viagem das carroças carregadas com a roupa lavada que haverá de vestir os senhores da cidade!… Como é fácil lembrar as cenas campestres dos romances de Júlio Dinis ou as poderosas imagens carregadas de cor que José Malhoa nos deixou, de lavadeiras!…

Povo que lavas no rio!… Memória. A poesia, neste caso, em boa hora trocada pela mecânica máquina de lavar!…

OS BOTÕES DA ROMÃZEIRA

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8 de Maio. O dia entardecera fusco, nublado, breve aragem anunciava súbito abaixamento da temperatura. Maria fora, após o almoço, dar mui breve caminhada com o cão, simultaneamente para ele próprio também desentorpecer as pernas e satisfazer as suas habituais necessidades.

Ao regressar, passou resvés ao muro do jardim. A romãzeira começava a sorrir-lhe, com uma porção de botões em flor. Por sinal, a marota, do lado de fora do jardim.

– Olha, Joaquim! – disse-lhe, ao entrar em casa. – Este ano, a romãzeira vai mangar de nós e põe as romãs do lado de fora! Já começou a florir.

– Bom tempo está, de facto, para flores agora! – resmungou Joaquim.

Maria nem comentou. Deu o miminho ao cão e aprestou-se para os habituais 30 minutos de pausa sob o caramanchão, após o almoço. Desta feita, porém, não conseguiu pregar olho. Não só porque uma amiga lhe telefonara a querer saber dela, mas também uma outra, inesperadamente, sua prima, fizera videochamada:

– Olha, fui operada. Correu bem. Tive alta agora, minha filha vem buscar-me. Vamos lá ver como é que isto vai correr agora!…

Desconhecia Maria que a prima estivesse doente e procurou animá-la, como sempre costumava fazer, incitando-a a ter pensamentos positivos.

Por isso, num ápice, deu consigo a pensar o que era, de facto, isso de «pensamento positivo». E bem depressa se consciencializou não ser atitude de “atar e pôr ao fumeiro”. Tem de vir de dentro. Tem de ser prática quotidiana. À custa de introspecção pela manhã e, sobretudo, no final da jornada.

O seu Joaquim, por exemplo, quando lhe respondeu assim, nem sequer imaginou ser a prontíssima reacção que tivera a prova cabal de que, no íntimo, a sua normal tendência é sempre para o pior. Não conseguia ver, como sói amiúde dizer-se, «o copo meio cheio»…

Tantos livros e tantos artigos se escrevem sobre isto. No fundo, porém, uma introspeção atenta, ao final do dia, é susceptível de mostrar o evidente. Quando, após o almoço, me apressei a comentar que não estava tempo para a romãzeira florir, poderia ter-me, ao invés, regozijado, por depois de a termos cortado tanto, ser bem auspicioso os botões estarem agora já a aparecer!…

CEM ANOS ?

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fotomontagem

Estou “apaixonada” por si desde uma altura especial que não vai adivinhar, já a minha admiração estava sedimentada por anos de visionamento de documentários seus. Deitada no chão da sala, de cotovelos fincados no tapete e mãos a segurarem o rosto, acabava sempre por hesitar entre escolher a peculiar voz do radialista, o encanto do jovem que ousava interagir com os gorilas no Ruanda, ou a coragem do naturalista que viajava até aos confins do mapa para contar a mais bela história do mundo até então desconhecido.

Ganhou o inteligente produtor da BBC em séries que acumulavam audiências, ou o biólogo que deu a conhecer espécies novas e ensinou que todas precisam de afecto e interacção? Engana-se, muito estimado Sir David Attenborough. Ganhou aquele explorador de jeans esfiapados nas bainhas, que pediu uma tesousa à equipa e em segundos, arrimando uma perna de cada vez a uma rocha, cortava duas barras do mesmo tamanho, direitinhas, e ficava com umas calças novas.

Que homem, pensava eu arrebatada nos meus vinte e poucos anos! Inteligente, culto, destemido, prático. E terminado o encantamento da transmissão, percorria o seu trajecto de vida desde o nascimento em Londres até à criaçao em Leicester, depois a formação em Cambridge e de novo em Londres onde tudo recomeçaria. Sem esquecer o menino do meio de três rapazes que colecionava fósseis e pedras, estimulado pela peça de âmbar oferecida por uma das duas irmãs adoptivas, antes órfã da I Grande Guerra.

Parabéns pelos 100 anos, querido Sir David Attenborough, ainda não tinha dito.

A julgar pelo pensamento do seu adorado Darwin, tem-se revelado um dos mais aptos para resistir e manter tão saudável e frutuosa longevidade. Talvez pelo seu amor à Natureza, que em algumas latitudes ainda terá a marca das suas pegadas. Talvez pela superior humanidade que tanto vaticinou o declínio do planeta pelas más escolhas dos líderes.

Da minha admiração crescente e dos seus ensinamentos, fazia eco até outros que viriam a conhecer os mares, a explorar o mundo natural em caminhadas e fotografias de animais em liberdade, a promover discussões sobre o destino desta Casa chamada Terra, tão maltratada pela avidez ignorante de uns quantos, muitos…

Sedentos do lucro fácil e imediato, esquecem o futuro de gerações jovens que podem ser os seus filhos. E aposto que, se os questionassem sobre o assunto, eles haviam de afirmar que preferiam poder respirar em paz, a gastar o dinheiro sujo em unidades de saúde para tentarem sobreviver a doenças causadas pelo envenenamento do planeta. E para quê, se como dizia Sir David a Anderson Cooper numa entrevista da série 60 Minutos, o homem dispõe de infinitas fontes de energia que chegam para todos? Tantas advertências certeiras de que caminhávamos para o declínio. E caminhamos… ou talvez não, porque teremos de confiar: por nós, pelas crianças e jovens que precisam de solidariedade.

Hoje não tenho bolo de chocolate para lhe oferecer, nem o aroma de bacon acabado de fritar, nem bolachas de manteiga ainda quentes para acompanharem um chá. Tenho a certeza de que não haveria vontade para saborear tantas calorias, nem lhe chegaria o tempo para ler mensagens de todo o mundo que acompanhassem guloseimas, ainda que  envolvidas as primeiras em papel de Amor, Admiração e Respeito.

Como prenda sem enfeites lembro-lhe o registo de memórias ao longo de uma vida de aventura na Terra e no Mar, mais de setenta anos, que nos têm sido oferecidas em livro e em imagens…O som das vagas dos oceanos que admirava, a quebrarem nas praias onde auscultava a pujança dessa força…Intervalos de silêncio em observação reverente a ínfimos seres que na sua mão pareciam ter alma.

Retenho o seu sorriso a partilhar empatia com espécies ditas perigosas, ou acariciando seres vivos raros como se acariciasse crianças.  Guardo a sua imagem a mergulhar junto aos recifes de coral na Austrália, antes e depois da acção nociva do homem. Admiro e guardo como relíquia a sua forma de sorver a vida em gargalhadas sonoras. 

Lembra-se de uma conversa da série A Vida no Nosso Planeta, no seu jardim com Sir Michael Palin? Falavamdas jovens que o reconheceram na base do Monte Kinabalu, em Bornéu e da que, levantando a saia, lhe mostrou a coxa tatuada com o seu rosto, acabando ambos, e os espectadores em minha casa, em gargalhadas irreprimíveis.

O meu, o nosso presente aqui deste canto de Portugal, Sir David Attenborough, é a certeza de que a sua mensagem é uma caixa de ressonância que, de vez em quando, soa dentro da nossa consciência de seres ínfimos no grande rio do Universo. Basta folhear um livro seu, rever um vídeo…

Parabéns. Saúde e Alegria bastantes para ouvir o coro do mundo, quase em uníssono, num cântico de AGRADECIMENTO.

Helena

O QUE ISRAEL PERDE

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Saif Abukeshek e Tiago Ávila detidos em Israel

Israel mantém detido o brasileiro Tiago Ávila, ativista pró-Palestina, depois de este ter sido capturado por militares israelitas em águas internacionais, ao largo da Grécia. Inicialmente, foram detidos 180 ativistas que seguiam a bordo de vários barcos da Flotilha Global Sumud. Todos acabaram libertados, excepto Tiago e Saif Abukeshek, um palestiniano com nacionalidade espanhola.

O assalto aos barcos da flotilha configura, inequivocamente, um acto de pirataria. A detenção destes activistas é manifestamente ilegal e, segundo relatam várias crónicas jornalísticas, ambos apresentam sinais de agressões sofridas na prisão. Há, aliás, testemunhos de outros activistas entretanto libertados que denunciam espancamentos e tortura durante o período de detenção.

Não se percebe qual é o objectivo de Israel ao manter presos Tiago e Saif. Está apenas a transformá-los em rostos da causa palestiniana, em símbolos vivos da luta pela existência de um Estado da Palestina.

A imagem de Israel já não beneficia de qualquer margem de disfarce. A destruição da Faixa de Gaza, as centenas de milhares de mortos e feridos palestinianos, a ocupação continuada de territórios, os ataques ao Líbano e a percepção internacional de que a guerra com o Irão aconteceu porque Israel quis empurrar os Estados Unidos para esse confronto, nada disso desaparece quando Tiago e Saif forem libertados.

Mas há uma diferença importante: onde antes existia apenas a massa anónima de cadáveres produzida pela máquina de guerra israelita, existem agora dois nomes, duas faces, duas histórias concretas. E os símbolos, quando ganham rosto humano, tornam-se sempre mais difíceis de apagar.

Tiago Àvila e Saif Abukeshek, homens de coragem

AS GALEGAS E AS MAÇANILHAS

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Resolvi enveredar por uma “investigação caseira” sobre a azeitona. É isso mesmo. E o que descobri? Dezenas de nutrientes para a protecção da saúde têm sido referenciadas nas azeitonas e estudos, mais ou menos recentes, versam ainda as variedades e o respectivo processamento do azeite. A conclusão, a partir desses estudos, é interessante para quem gosta de azeitonas… (Não conseguem ver o meu sorriso, pois não?…) de todas as variedades.

As “gregas” são, predominantemente, pretas; as “espanholas” são verdes… As nativas no nosso país são pretas; as verdes, predominantes no Sul, não são “naturais”, ou seja, não pertenciam a este nosso solo, até que…

A azeitona ajuda a aumentar o colesterol bom, a regular o intestino e a prevenir o envelhecimento precoce, por ser muito rica em nutrientes.

De acordo com a nutricionista Fabiane Veltrini, (li e anotei) “as azeitonas têm alto teor de gorduras monoinsaturadas, que ajudam a combater o nível de colesterol mau no sangue”.

Ricas em ácidos gordos monoinsaturados, como o ácido oleico, vitaminas e antioxidantes, ajudam a combater as doenças crónico-degenerativas, como o cancro, e a reduzir o colesterol “mau” (LDL) e a aumentar o “bom” (HDL).

Possuem uma acção antioxidante, porque contêm polifenóis e vitamina E, que combatem radicais livres e previnem o envelhecimento precoce das células e ajudam na regulação intestinal, porque possuem fibras e gorduras que auxiliam o bom funcionamento do trânsito intestinal. 

Em práticas tradicionais de “medicina de ervas”, as preparações de azeitonas e as folhas de oliveira têm sido muitas vezes utilizadas no tratamento de problemas inflamatórios, alergias, sabemos disso até pela tradição. As novas pesquisas apenas confirmam o saber tradicional. Com os extractos de azeitona, demonstrou-se que funcionam como anti-histamínicos ao nível celular.

As azeitonas têm, então, um papel especial a desempenhar como parte de uma dieta antialérgica em geral. Também li, em documentos credíveis, fornecidos por “jornais científicos”, que quando as dietas baixas em gordura monoinsaturada são alteradas para aumentar o teor de gordura monoinsaturada (sem se tornar demasiado alta em gordura total), essas mudanças diminuem o risco de doença cardíaca.

Ah, mas “fazem mal a isto e aquilo, não comas muitas…?”. Bom, a moderação é a prática a seguir. No entanto, quando temperadas com um fio de azeite extra-virgem, muito alho picadinho e muitos orégãos… Ai, mãezinha!… Vai lá dizer que fazem mal! Por favor, calem-se e saboreiem!

DE COIMBRA COM AMOR

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Encostava a porta do quarto depois do pequeno-almoço e descia, decidida a deambular pelas ruas estreitas da cidade velha, onde os meus trisavós tinham morado.

A Igreja de S. Bartolomeu, que a todos vira baptizar, continuava fechada e triste. Antes de cruzar o portão, virava à esquerda para o beco da espesssura de um risco que levava ao Largo do Romal a ser requalificado.

Igreja de S. Bartolomeu e Largo do Romal

Lá estava, no topo do edifício ainda de pé, a janela onde o velho José Maria cofiava o bigode e namorava, por gestos e piscadelas de olhos, todas as senhoras das casas vizinhas sem que a mulher reparasse, julgava ele…

Tinha-lhe uma estima respeitosa. Era ela quem sustentava a família de seis filhos com ajuda de uma empregada de meia-idade, em negócios inovadores das sete da manhã às Trindades. Até cambiava dinheiro numa banca colocada junto à Igreja de Santa Cuz!

A empregada ia ajudá-la a montar a mesa articulada, ajoelhava a pedir ajuda aos santos e voltava para trás, ligeira. Tinha que abrir a loja de doces na Praça Velha, feitos por ambas até de madrugada. Ao almoço ia apanhá-la para voltarem à loja, abrirem o cesto da refeição improvisada pela filhaTeresa e terminarem com um doce, para repor calorias…

Em casa ficavam as raparigas a organizar as divisões do r/chão, com o cubículo dos banhos, até às águas furtadas. Os três rapazes, todos com nomes bíblicos, trabalhavam e tiravam o 5º. ano, porque o fermento da instrução, dizia a mãe, faria levedar o futuro alimento da alma. Só o marido era deixado à vontade: cofiava o bigode hirsuto, amolecia as nádegas no cadeirão de verga, lia os jornais ilustrados que os filhos, a mulher e os clientes residuais lhe traziam. E namorava.

Alfaiate de prestígio, passava a costureiro por determinação da sua Emília Benedita, mulher alta, bela e sábia que devia ter sido ministra… O que ele acabara de arranjar por ser madraço! Levava tanto dinheiro aos maiorais da cidade, que um dia se via sem clientes, como afinal era a secreta intenção. Estava farto de dores nas cruzes, dizia, curvado a riscar o tecido caro dos fatos na mesa onde todos cabiam. Só não contava que a mulher lhe traçasse o plano de vida mais depressa do que ele riscava um fato.

Obrigações determinadas naquela manhã de domingo: fazer a roupa toda de homens e mulheres da casa, mas como a ocupação não lhe traria rendimento, tinha que dar lições da sua arte duas vezes por semana. Sem protestos. Um dos aprendizes era o poeta Adelino Veiga, já latoeiro de profissão e morador numa rua próxima hoje com o seu nome.

Esse acabaria por não pagar. Era Amigo do filho Benjamim e ambos animavam os arraiais no Romal com poesia depois musicada. Está registado esse feito, como estava o do velho José Maria em ceroulas a despejar, altas horas, o vaso da urina e mais…na latrina pública ali perto, por continuar namoradeiro. Nem a filha Isabel conseguiria evitar a humilhação!

Depois da breve conversa com uma moradora local, que fixava o meu rosto à procura de vestígios do passado, que obrigações me prendiam ali que não me deixassem livre para fazer o que queria? E continuava a explorar a Praça Velha, hoje chamada do Comércio, que tantas histórias antigas de família me fazia evocar.

Igreja de Santiago (foto da Wikipédia)

A veneranda Igreja de Santiago, passagem obrigatória para Compostela, ainda se mantinha como bastião do Românico. Mutilada para alargar a Rua Visconde da Luz ao cimo da escadaria lateral, teve como decisor da obra António Agusto Gonçalves, mais preocupado com as ameaças ao estilo. O tio Benjamim e o irmão, meu bisavô Adriano, já trabalhavam com ele na recuperação de alguns monumentos, todos mentores da criação da Escola Livre das Artes do Desenho (ELAD) para aperfeiçoamento artístico e a funcionar na Torre da Almedina. O meu bisavô chegaria a membro da Comissão Directora.

Assinatura de Adriano Ventura em documento da Comissão Directora da Escola Livre das Artes do Desenho (ELAD)

O Mestre e lente viria a ser padrinho do meu primo Plínio Ventura, filho de Benjamim, que havia de integrar o 23 de Infantaria de Coimbra no CEP – Corpo Expedicionário Português – na Iª. Grande Guerra como tenente médico. Voltaria pouco são, mas salvo, para alegria de pais e irmãs, para desolação da mulher que nunca gostara dele. E amava ele tanto a sua Esther!

A manhã estava fresca. As ruas pedonais davam espaço de sobra aos transeuntes. À falta de outros planos, voltava atrás à Ferreira Borges junto ao Arco da Almedina, confundia a sapataria António com a antiga Romeu no bom gosto e elevado preço, mas não tinha reparado naquela loja moderna, quase em frente, cheia de chocolates e torrão de Alicante onde, à entrada, uma das sócias jovens fazia experiências que ia oferecendo aos clientes.

Sim, eu era uma potencial cliente a pedir uma barra de torrão menos duro para o caminho, ainda que o pequeno-almoço tivesse sido consistente. Sabores a España, um espaço a visitar sempre que for a Coimbra e passar na Ferreira Borges. Nem preciso de atravessar a fronteira para trazer sucedâneos. Ali há qualidade garantida e moderado preço.

esplanada do Café Santa Cruz

Descia depois a Visconde da Luz até à esplanada do Café Santa Cruz, parte do Mosteiro feminino de S. João das Donas. Subia a Rua das Figueirinhas para captar o edifício pelas traseiras, como dantes, mas as memórias pregavam-me ao chão da infância. Ali ainda soavam ecos da voz de uma mulher de cabeleira farta e negra, a cantar dramas minuciados na gazeta tipo Borda d’Água, enquanto o marido vendia a banha da cobra.

Com um breve adeus à Saudade, passava ao lado dos Correios para entrar no Mercado D. Pedro V. Poucas coisas, mas todas a pedirem um almoço com legumes frescos, cebolinho miúdo e verde, tomates carnudos sem herbicidas. A carne dos talhos laterais só podia ser nacional. Cada um tinha uma cadeira do lado de fora para o cliente esperar. Havia escadas rolantes até ao andar de cima, rumo à peixaria de pescado vivo. Não fora o cheiro das caras de bacalhau em salmoura, antes de entrar, e apetecia um grelhador ali mesmo.

Ainda percorria parte da Sá da Bandeira à procura, do outro lado, daquele portão que dava entrada à casa de planta em L onde os meus bisavós tinham morrido. Nada…O Teatro Avenida, onde a prima Marly tocara piano com16 anos para uma plateia encantada (diziam, porque eu tinha menos 12) lá permanecia ao lado, muito decadente por fora.

Real República dos Corsários das Ilhas

E voltava atrás para subir o funicular e fazer a imagem já publicada, até percorrer a Rua Padre António Vieira e encontrar, no ponto onde desagua a Couraça dos Apóstolos, a Real República dos Corsários das Ilhas, a lembrar o 25 de Abril daí a dias. Até que entrava no Pátio das Escolas, tirava mais uma fotografia à estátua de D. João III a olhar o Paço que cedera para transferência da Universidade. E chegada ao varandim de ferro, registava um trecho lindo do meu Mondego por sobre os telhados do casario.

rio Mondego

Regressava então quase ao ponto de partida à procura do Rui Manel dos Ossos onde comia como um trolha, ou um académico com igual apetite: ossos cozidos temperados divinamente, acompanhados de batata salteada e couve cozida. Por sobremesa mousse de amêndoa no ponto, antes do café de boa qualidade.

Não, não mostro os ossos. Mostro a casa com abundância de escolhas e recomendo uma visita! Vão! E não se esqueçam de tomar o lanche na Briosa, ao largo da Portagem, mesmo pegada à Bertrand. É lá que podem encontrar os melhores pastéis de Tentúgal, de Coimbra, de Portugal e do Mundo.

É verdade…não sabia que ainda tantos laços me prendiam à minha cidade e que bem podia voltar a morar por ali, agora até ao final dos tempos.