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MILITARIZAÇÃO EM CURSO EM UNIVERSIDADES ALEMÃS

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Há cidades cuja geografia é marcada pelo rio, pela serra ou pelo mar. Kassel, no coração da Alemanha, também tem o rio Fulda, mas nela vê-se a marca da cinza. Quem percorre as suas ruas da cidade baixa, mesmo nas manhãs mais límpidas, sente um peso na terra um eco subterrâneo de 1943, quando 75% da cidade ruíram sob o fogo dos Aliados, pagando o preço de ser, já nessa altura, um bastião da indústria bélica. Hoje, as chaminés da Rheinmetall e da KNDS Deutschland não fumegam pólvora, mas exalam o aço frio dos tanques e das munições que a Europa novamente reclama. E é precisamente nesta cidade, tão linda e com tantos parques, onde a História parece ter-se esquecido de sarar, que se trava uma batalha silenciosa, mas fundamental, pelo futuro da razão académica.

Em causa está a revogação da chamada «Zivilkausel», a cláusula civil de paz, na Universidade de Kassel. Setenta instituições de ensino superior alemãs subscreveram, outrora, o compromisso de que a investigação científica se consagraria, exclusivamente, a fins pacíficos. Kassel era uma dessas vozes éticas no deserto do progresso técnico. Contudo, a nova vaga de rearmamento que varre a Alemanha, esse Zeitenwende que tantos aplaudem como necessidade geopolítica, ameaça agora transformar os laboratórios em extensões dos quartéis. A ciência, que deveria ser o farol da humanidade, corre o risco de se tornar a bússola da artilharia.

O problema não reside na pureza abstrata da investigação, sabemos que o conhecimento é, por natureza, ambivalente e que os frutos da física podem alimentar hospitais ou mísseis. A questão crucial é a intencionalidade e a influência. Quando a maior concentração de indústria armamentista do país se instala à porta da universidade, abolir a cláusula de paz não é um gesto de transparência; é um convite aberto para que o dinheiro sujo da guerra dite as prioridades científicas. E a tragédia anuncia-se em dois atos: em primeiro lugar, os fundos públicos, que deveriam nutrir o espírito crítico e a coesão social, poderiam ser desviados para financiar a morte. Em segundo lugar, e mais sinistro, a universidade deixaria de ser o templo do debate para se tornar o escritório de projetos das multinacionais do aço.

Perante este cenário, o Senado da Universidade hesita. Composto por apenas três estudantes, nove professores, três académicos e dois administrativos, este órgão reflete um desequilíbrio de poder gritante, a voz dos que aprendem é abafada pelos que já decidiram. Após três horas de discussão, o Conselho Académico adiou a decisão. Mas o adiamento, longe de ser uma vitória, cheira a tática de dilação. A sugestão de criar uma comissão de ética é, no limite, uma manobra burocrática, uma cortina de fumo para ganhar tempo e esvaziar a resistência que, entretanto, se ergue com cartazes e gritos do lado de fora do campus. A ASTA, representação estudantil, apela a uma votação geral, um gesto democrático que a razão louva, mas que a urgência do momento condena – porque, enquanto se contam votos, os canhões continuam a ser forjados.

Mas o que está em jogo transcende as fronteiras do estado do Hesse. A Alemanha, pela sua força económica e moral, é um modelo. E quando a Alemanha se militariza, todo o continente estremece. Países como Portugal, situados na margem atlântica, sentem a pressão tectónica deste rearmamento. Num país que deveria semear o espírito social, a cultura de paz e a resiliência comunitária, a onda belicista germânica ameaça impor uma lógica de subalternidade: “Se a Alemanha se rearma, nós também temos de o fazer.” Mas esta é uma falácia perigosa. A Europa não precisa de mais exércitos; precisa de mais pedagogia. Precisa de dominar a arte da diplomacia e da fraternidade, em vez de competir na corrida ao armamento.

A vontade militar e o delírio belicista avançam a passos largos na sociedade germânica, infiltrando o discurso político, a imprensa e agora a academia. Para onde caminha a Alemanha dos nobres poetas e dos pensadores? Mas as universidades devem ser os baluartes contra essa maré. Criar espaços de guerra dentro dos muros onde se cultiva o saber é uma contradição tão absurda como cultivar espinhos num jardim de flores. O exército já tem os seus quartéis onde pode ter os seus laboratórios; a ciência deve ter os seus laboratórios de paz.

A memória de Kassel, essa cidade arrasada até aos alicerces, deve servir de advertência. Os fantasmas de 1943 não pedem vingança; pedem memória. Revogar a cláusula de paz agora, quando o dinheiro manda e a Europa rearma, não é apenas um precedente perigoso para outras universidades que observam este caso; é uma traição àqueles que, sobre os escombros, juraram que nunca mais.

Apelamos, pois, à razão e ao coração de cada cidadão europeu. A razão diz-nos que a investigação civil e a ética não são obstáculos ao progresso, mas a sua única garantia de sustentabilidade. O coração diz-nos que os jovens que hoje protestam em Kassel são a consciência viva de um continente que já se despedaçou duas vezes. Não os deixemos sós. Que a Europa não se deixe cegar pelo brilho efémero do aço. Que a cláusula de paz não seja um papel rasgado ao vento, mas o alicerce sobre o qual construímos, finalmente, uma cultura de paz duradoura. Porque, se a universidade deixar de ser o lugar onde se sonha com um mundo melhor, quem o fará por nós?

O KARMA É LIXADO!…

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A divulgação sistemática de informações que deveriam estar no segredo de Justiça, não só para garantir que a investigação possa prosseguir sem alertar os possíveis infractores, mas também, e principalmente, para que estes não possam ser incriminados pela população antes de julgados, e condenados, não é um problema exclusivo dos portugueses. Acontece um pouco por todo o mundo, mas obviamente com mais frequência nos países latinos e de terceiro mundo.

A diferença, em Portugal, é que estas informações são cirurgicamente usadas para atacar e destruir adversários ou derrubar um concorrente directo quer na política quer na profissão. E são conseguidas com uma facilidade que nos deveria preocupar.

Todos vimos, já, nos diversos canais de televisão, as gravações da audição de arguidos, em primeiro interrogatório pelo Ministério Público, por vezes na presença do Juiz. O caso do ex-Primeiro Ministro José Sócrates é um desses exemplos.

É rara a semana sem “fuga de informações em segredo de Justiça”, que serão amplamente usadas pela Comunicação Social. Não havendo qualquer preocupação dos responsáveis no sentido de detectar os autores desse crime. Porque é um crime.

A verdade é que esta realidade é da conveniência de muitos. A acusação deixa passar as informações que lhe interessam sejam conhecidas, de modo que a “opinião publicada” influencie a opinião pública condenando, antecipadamente, os arguidos. Principalmente aqueles contra os quais não haja provas concludentes da sua culpabilidade.

Isto porque, se o arguido chegar ao Tribunal fragilizado “pela certeza absoluta da sua culpabilidade” por parte dos seus conterrâneos, envenenados durante meses e meses com informações falsas, ou deturpadas, ou incompletas (o que acaba por dar no mesmo) as probabilidades de dali sair absolvido são mínimas.

E nas poucas vezes em que tal acontece continuará a ser, para a imensa maioria da população, culpado (como aconteceu no caso recente do desaparecimento de uma mulher grávida, na Murtosa, com o homem acusado de a ter assassinado apesar de ter sido absolvido por um Tribunal de Júri e pelo Tribunal da Relação).

E porquê? Porque sim. Porque toda a gente sabe o que os jornais, as estações de rádio e os canais de televisão disseram. Porque toda a gente ouviu os ilustres comentadores a garantir essa culpabilidade. Para a comunicação social estas fugas são um maná. O aumento de vendas de jornais e de audiências nas rádios e televisões é, atualmente, para muitos desses órgãos, o grande objectivo. Maior do que escrever textos isentos.

Também por isso, o grande poder em Portugal pertence, hoje, aos representantes da justiça. Os magistrados e autoridades policiais têm mais força e influência do que qualquer político porque este estará, a qualquer momento, sujeito a uma devassa total à sua vida incluindo escutas telefónicas que podem durar anos.

Isso mesmo é reconhecido, e aceite, por todos. Como se prova pelo facto de os magistrados auferirem ordenados muito superiores aos principais políticos do país. É rara a semana em que um destes não seja alvo de ataques, vindos muitas vezes de quem menos esperam.

O mais recente exemplo (ia escrevendo “o último exemplo”, mas corrigi a tempo) é o do actual Ministro da Administração Interna, Dr. Luís Neves, que deixou o cargo de Director-Nacional da Polícia Judiciária, onde tinha feito um trabalho por muitos elogiado.

Acusam-no, poucos meses depois de tomar posse, de tirar proveito da ligação com um empreiteiro (e divulgam gravações telefónicas entre ambos), que teria conseguido dez por cento de todas as obras levadas a cabo por aquela polícia, quando dos seus mandatos, para conseguir, posteriormente, algum proveito em obras numa (ou duas) casa(s) sua(s) num monte alentejano. E colocam em causa a legitimidade nalgumas daquelas empreitadas pagas pela Polícia Judiciária.

Divulgam, agora. Agora que já não é o Director-Nacional da Polícia Judiciária. Agora que é Ministro. Agora que é político. A imensa maioria das pessoas que conheço poem as mãos no fogo pela honestidade e integridade do Dr. Luís Neves. Nem me atrevo a duvidar da mesma. Todavia… o Karma é lixado.

Fosse hoje e talvez tivesse, no seu antigo posto, lutado com mais convicção contra aqueles que beneficiam deste nojo que são as fugas de informação.

A SOLIDÃO DOS COMPETENTES

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fotografia e grafismo

Ao longo da vida, algumas pessoas acumulam conhecimento, experiência, capacidade de análise e sentido de responsabilidade. Aprendem a resolver problemas, a antecipar dificuldades, a tomar decisões em momentos complexos e a assumir consequências. Esse percurso não acontece de um dia para o outro. É construído através de anos de trabalho, de erros corrigidos, de sucessos alcançados e de fracassos superados. Mas existe um momento em que muitos desses homens e mulheres descobrem algo inesperado. Quanto mais sabem, menos são ouvidos. Quanto mais experiência acumulam, menos espaço lhes é concedido para a utilizar.

A sociedade contemporânea valoriza frequentemente a novidade acima da profundidade. O imediato acima do duradouro. A aparência da inovação acima da substância do conhecimento.
Quem alerta para os riscos é muitas vezes visto como pessimista. Quem recorda experiências anteriores é acusado de estar preso ao passado. Quem procura ponderação é considerado lento num mundo que vive obcecado pela velocidade.

Muitos profissionais experientes conhecem bem esta realidade. São chamados para cerimónias, homenagens e discursos. Mas raramente são integrados nos processos onde poderiam continuar a contribuir. São respeitados simbolicamente, mas ignorados na prática. É uma forma subtil de exclusão.

A competência continua a ser reconhecida. O problema é que deixou de ser utilizada. E quando isso acontece surge uma sensação difícil de explicar. A pessoa continua capaz. Continua lúcida. Continua disponível. Mas percebe que o seu conhecimento deixou de ser procurado. Não porque tenha perdido valor. Mas porque a sociedade se habituou a procurar respostas rápidas em vez de reflexão aprofundada.

Esta solidão não afeta apenas os mais velhos. Também atinge profissionais de diferentes idades que recusam o facilitismo, que procuram fazer bem o seu trabalho e que mantêm um forte sentido de exigência consigo próprios. Em muitos ambientes, a competência pode tornar-se desconfortável. Porque questiona. Porque exige rigor. Porque desmonta ilusões. Porque lembra que os resultados dependem de esforço, preparação e responsabilidade. Por isso, os competentes encontram-se frequentemente isolados. Não por escolha. Mas porque a mediocridade organizada tende a proteger-se de quem expõe as suas fragilidades.

A história mostra, contudo, que as sociedades avançam graças a pessoas que persistem apesar desse isolamento. Investigadores, professores, médicos, engenheiros, artistas, empresários, trabalhadores anónimos e cidadãos comuns que continuaram a fazer o que acreditavam ser correto, mesmo quando o reconhecimento tardava. A verdadeira competência raramente é ruidosa. Não procura aplausos permanentes. Procura utilidade. Procura contribuir. Procura deixar algo melhor do que encontrou.

Talvez por isso a sociedade tenha o dever de prestar mais atenção aos seus competentes. Não para os transformar em figuras intocáveis.
Mas para aproveitar aquilo que sabem. Porque quando os competentes se calam, perde-se mais do que conhecimento. Perde-se discernimento. Perde-se memória. Perde-se capacidade de antecipar erros. Perde-se inteligência coletiva.

Uma sociedade que afasta os seus competentes não os torna menos competentes. Torna-se apenas mais pobre. E talvez uma das grandes tarefas do nosso tempo seja precisamente esta: criar condições para que o conhecimento, a experiência e a competência continuem a ter voz. Porque o futuro constrói-se com inovação. Mas sustenta-se sempre sobre aquilo que os competentes aprenderam antes de nós.


GUINÉ-BISSAU, A NOVA CONSTITUIÇÃO

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Há uma nova Constituição da Guiné-Bissau. O texto foi aprovado pelo Conselho de Transição e criticado pela oposição. Os principais argumentos para a condenação é que a nova Constituição muda o sistema de governo, instituindo um regime presidencialista e que se trata de uma Constituição aprovada quando o Estado tem um Governo saído de um golpe de estado e subalternizado a um grupo de militares.

A Deutsch Welle ouviu a opinião do constitucionalista português Jorge Bacelar Gouveia. Em síntese, Bacelar Gouveia diz que se a nova Constituição for referendada pelo povo, em caso de vitória ganhará legitimidade e nega que o texto institui um regime presidencialista.

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A ROMARIA DE NOSSO SENHOR DOS CAMINHOS

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Ano a ano, quando era criança, no último dia de Maio, eu ia com meus pais, todos os anos, à romaria de Nosso Senhor dos Caminhos, que tinha a sua Capela nas Rãs, uma pequena povoação do concelho do Sátão a que se associam hoje as povoações de Romãs e Decermilo. Beira Alta plena.

Partíamos às seis horas, ainda manhã alta e sonolenta, na camioneta da carreira e, trinta quilómetros andados, estávamos nas Rãs. Descíamos agora a pé, meia hora a bom andar, até ao Santuário do Senhor dos Caminhos, levantado num chão com cercania de pinheiros, não longe do curso do rio Vouga, que tem nascente perto, a dois passos da Senhora da Lapa e que ali corre ainda devagar.

Havia já tendas armadas no lugar, ouvia-se o bru-á-á da gente em rodopio, romeiros que, de joelhos, davam voltas à capela e outros, como nós, entrando na capela, davam as três voltas rituais em redor do altar-mor, que isso permitia a arquitectura do lugar. Meu pai entregava umas moedas, por esmola, ao mordomo sentado numa mesa ali ao pé e trazia para casa o “registo” do Senhor dos Caminhos no seu altar, impresso em cor azul que minha mãe, ao chegar a casa, colava no frontal com massa de pão e ali ficava até à próxima romaria.

A procissão vinha da aldeia, Santo Lenho sob o pálio, a banda seguindo a tocar, foguetes no ar a estralejar, anjinhos no seu lento caminhar, um mar de gente e os andores com imagens que pareciam naturais e que contavam a caminhada de Cristo para o Calvário, imagens de uma cenografia exemplar a deslumbrar meus olhos de criança. Havia, depois, aquela longa cerimónia, a missa e o sermão, missa cantada com a banda a acompanhar. Gente apertada na capela. Incenso perfumando o ar. Ao findar da cerimónia, meio-dia já passado, voltava o alegre vozear da gente.

A gente sentava-se numa mesa de taberna improvisada. Cheirava bem, ao abrir-se uma bolsa de retalhos, onde vinha o galo assado, o salpicão, pastéis de bacalhau e as fritas que hoje chamamos rabanadas. Comprava-se ao vendeiro o vinho que (supostamente) era do Dão e os pães de trigo de quatro quartos, que, ainda hoje, comprados na Lapa, sabem bem.

Demorava-se a gente no terreiro. Encontravam-se por lá amigos certos com os quais os adultos se entretinham a falar. Armados numa vara, um homem circulava vendendo os eternos “moinhos de papel”, de cores vistosas, que nós chamávamos “ventoinhas” e que uma brisa leve fazia rodopiar. Em tendas pequeninas, que os mordomos deixavam armar em lugar já marcado por velha tradição, as doceiras vendiam confeitos e beijinhos, rebuçados, doce da Teixeira, cavacas e santinhas doces com imagem de papel.

E, quando a tarde caía, demorada, subíamos a ladeira por onde toda a gente vinha a pé e esperávamos, na estrada, a meio da aldeia, a paragem da camioneta que vinha de Viseu e nos levava.

Santuário de Nosso Senhor dos Caminhos. Rãs. Sátão.
Santuário de Nosso Senhor dos Caminhos (1905). Rãs. Sátão. A colunata visível, à esquerda, construída em desconhecida data para abrigo de romeiros, roubada a cobertura, nunca chegou a ser utilizada como tal. Permanece como poética memória na paisagem.

O PAÍS ENCALHADO

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Os países que lideram o desenvolvimento científico e industrial não afastam investigadores nem atrasam pagamentos aos bolseiros da investigação…

Mas Portugal continua a privilegiar o sector do turismo e dos serviços, como se daí conseguissemos dar emprego decente aos nossos jovens.

O que dizem as parangonas sobre o nosso crescimento do PIB, não nos leva para perto, sequer, dos parceiros europeus. É um crescimento sempre abaixo dos 70% da média europeia.

A nossa dívida externa, que não é para pagar mas para gerir (ouvi dizer), esmaga a  possibilidade de subirmos no ranking europeu. O tecido empresarial é maioritariamente de micro, pequenas e médias empresas e quase todas viradas para os serviços e para o turismo.

Produz-se pouco e estamos sempre, mas sempre, dependentes dos fundos estruturais.

O investimento externo não vem, porque a justiça é lenta e o fisco injusto. O que vemos é um marcar passo permanente porque continuamos com mão de obra de baixos salários, tão baixos que nem servem para animar o mercado interno.

Como é que se passa para uma economia que tem a sua estrutura no conhecimento e inovação, se se aposta no imobiliário, turismo, serviços…?

Pagamos caro as formações dos nossos jovens e eles, findo os cursos, não vêm hipótese nenhuma em conseguir empregos capazes por cá. Emigram para os países que não gastaram um cêntimo nessas formações.

Mas que atraso de vida.

E a música deste fado que não nos larga:

O VÍCIO DA GUERRA

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imagem descritiva alterada com grafismo

Os americanos viciaram-se na guerra. O que temos visto é a aplicação do método negocial com a pistola apontada à cabeça do interlocutor. Foi assim com o Irão. Enquanto decorriam negociações, choveram bombas. Agora, durante um cessar-fogo criado precisamente para negociar a paz, voltaram os bombardeamentos. A guerra interrompe as negociações; as negociações servem apenas para preparar o ataque seguinte.

Em Gaza, a farsa é ainda mais obscena. Washington financia, arma, abastece e protege diplomaticamente o exército israelita. Diz querer a paz enquanto garante que nunca faltam bombas para os israelitas prosseguirem com o plano genocida de limpeza étnica de extermínio dos palestinianos.

Os Estados Unidos já nem escondem a lógica que orienta a sua política externa. Não procuram compromissos. Procuram obediência. Não querem adversários convencidos. Querem adversários vencidos.

A negociação deixou de ser um instrumento para evitar a guerra. Tornou-se uma arma da própria guerra: ganha tempo, desorienta o adversário, cria ilusões, divide opiniões públicas e permite preparar o ataque seguinte, dá tempo para as fábricas de armamento e munições reporem os arsenais gastos.

Quem continua a acreditar que Washington negoceia para alcançar a paz talvez devesse perguntar por que razão os bombardeamentos surgem tantas vezes antes de a tinta secar nos comunicados sobre o diálogo.

Não há paz possível quando uma das partes fala através de ultimatos e mísseis. Não há boa-fé quando os bombardeiros mantêm os motores ligados e os porta-aviões permanecem em posição.

A história recente mostra-nos que para os Estados Unidos o que eles chamam de paz é apenas mais um caminho para a subjugação de outros povos.

O TALISMÃ VOADOR

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adaptação de um cartoon de Hélder Dias

Houve quem dissesse que Luís Montenegro era um talismã da seleção nacional. Não deixa de ser uma ideia simpática, própria das páginas de desporto, mas agora há que reconhecer que não resultou.

O primeiro-ministro assistiu presencialmente a três jogos de Portugal no Mundial. Para lá e para cá, atravessou seis vezes o oceano Atlântico. A primeira viagem teve o carácter de visita oficial aos Estados Unidos. As outras já não. Foi como “adepto talismã”. A pergunta não é se um chefe de Governo pode assistir a um jogo da seleção. Pode. A pergunta é outra: precisava de assistir a três? E se Portugal tivesse passado, a quantos jogos Montenegro teria ido?

Governar um país não é acompanhar uma equipa em digressão. O primeiro-ministro não é o décimo segundo jogador, nem um amuleto institucional que tenha de ocupar um lugar na tribuna para que Portugal marque golos.

Cada uma destas viagens mobilizou inevitavelmente recursos públicos. Se foram utilizados voos comerciais, acompanhados por uma comitiva de segurança e assessoria, uma estimativa prudente aponta para um custo global entre 120 mil e 185 mil euros. Se, como é perfeitamente plausível, foi utilizado um avião da Força Aérea Portuguesa (solução mais compatível com a flexibilidade exigida à agenda de um chefe de Governo), o custo total poderá situar-se entre 300 mil e 500 mil euros. São estimativas, não números oficiais.

Dir-se-á que são valores irrelevantes perante um Orçamento do Estado de dezenas de milhares de milhões de euros. Talvez. Mas a ética na gestão do dinheiro público nunca começou pelos grandes números. Começa pelos pequenos gestos e pelo exemplo de quem governa.

Se Montenegro é realmente um talismã, talvez valha a pena levá-lo também para as listas de espera do SNS, para os atrasos na Justiça ou para as crises da habitação. Aí, o país agradecer-lhe-ia muito mais a presença do que numa bancada de um Mundial.

Um primeiro-ministro pode gostar de futebol. O que não deve fazer é dar a ideia de que confunde representação institucional com lugar cativo na tribuna.

cartoon original de Hélder Dias

ABRAM ALAS PARA A VERDADE NUA E CRUA DO NOSSO PORTUGAL!

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Vejam bem esta loucura total que é a nossa maravilhosa e esquizofrénica existência:

A LOUCURA DOS DOIS MUNDOS!

A Batalha do Relógio!

Na Vida Social: “Chego num minutinho!” Tradução: ainda estou em cuecas a escolher a camisa! O atraso crónico é o nosso oxigénio!

No Futebol: Às 20h15 é o apito inicial. Às 19h00 já o adepto está alapado na cadeira, com o cachecol esticado e o coração a bater a duzentos à hora. Ai do árbitro que atrase o jogo trinta segundos! É uma ofensa nacional!

O Grito de Revolta!

Na Vida Social: Hospitais sem médicos, escolas sem professores, comboios que nunca passam. O português suspira, bebe uma bica, come um pastel de nata e diz: “Olha, é o país que temos…” É uma paz de alma que até assusta!

No Futebol: O lateral-esquerdo falhou um passe de dois metros? REVOLUÇÃO! Convocam-se assembleias gerais extraordinárias, exige-se a demissão do presidente, queima-se o carro do treinador e pede-se a intervenção das Nações Unidas antes que chegue a terça-feira!

O Milagre Financeiro!

Na Vida Social: O azeite está a preço de ouro! O combustível é um assalto! Choramos, gritamos e fazemos contas à vida por causa de três cêntimos no quilo do arroz!

No Futebol: Cento e cinquenta euros por uma camisola de plástico que diz “Emirates” no peito? Oitenta euros por um bilhete para apanhar pneumonia na bancada superior norte? “DÁ-ME DOIS, QUE O DINHEIRO NÃO SE LEVA PARA A COVA!” É a terapia do povo!

A União que Move Montanhas!

Na Vida Social: Uma manifestação para exigir melhores salários junta o organizador, a mãe do organizador e um cão vadio que passava por ali.

No Futebol: O autocarro do clube vai passar numa rotunda à meia-noite, debaixo de um dilúvio bíblico? MIL E POUCAS ALMAS de tronco nu, a acender fachos vermelhos ou verdes, a chorar baba e ranho por onze milionários que nem sabem o nome deles! É épico! É poético! É absurdo!

A Justiça Divina!

Na Vida Social: Fugir ao fisco? Coisa linda. Estacionar o jipe em cima da passadeira para ir buscar o pão? Desenrasque! Subornar o primo da junta? Inteligência!

No Futebol: Um fora de jogo de dois milímetros que o VAR não viu no canal 11? É uma cabala! É corrupção ao mais alto nível! É a Maçonaria a tentar destruir as fundações da nossa região! Queremos sangue!

O VEREDICTO FINAL!

Nós somos brilhantes! Nós temos uma energia que podia colonizar Marte! Só que escolhemos gastá-la toda a insultar homens de preto que correm de apito na boca! Viva o futebol, que nos salva de ter de resolver a nossa própria vida!

A MESMA HISTÓRIA, VERSÃO BD

OBRIGADO CAPITÃO!

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fotomontagem

Ao contrário de muitos não vejo que se possa dizer que esta seleção tem os melhores jogadores que disputaram fases finais do Mundial por Portugal. Tem um bom guarda-redes mas Portugal já teve bem melhor: Vitor Baía, Vitor Damas e Bento, por exemplo e para não ser exaustivo. Dos defesas só Nuno Mendes se destaca. Os nossos centrais estão a anos luz de dezenas de outros que passaram pela Selecção: Humberto Coelho, Jorge Costa, Fernando Couto, Ricardo Carvalho, Pepe, Bruno Alves, por exemplo. O nosso meio campo de “sonho” fracassou completamente e só João Neves mostrou alguma classe.

Bruno Fernandes foi de novo, na Selecção, o que há de pior num jogador de equipa: querer destacar-se não pelo mérito, mas prejudicando quem lhe é superior. O campeão das assistências no Campeonato Inglês não fez UMA durante esta fase final do Mundial, não fosse ajudar CR7 a marcar um golo.

Vitinha e Bernardo Silva, em quem depositava enormes esperanças, foram uma desilusão. Mais de sessenta jogos nas pernas poderão ajudar a perceber o fracasso, mas esse era um problema de muitos.

A verdade é que adjectivámos, ao longo dos últimos tempos, alguns bons jogadores como “super” jogadores. E não são.

Já tivemos muito melhor: Figo e Deco foram médios excepcionais, Paulo Sousa, Rui Costa, André, Coluna e Sérgio Conceição deixariam os actuais titulares no banco de suplentes.

No ataque temos, hoje, alguns razoáveis jogadores: João Félix, Rafael Leão, Gonçalo Ramos e Gonçalo Guedes. Jogadores vulgarissimos como: Conceição, Trincão e Pedro Neto.

E temos Cristiano Ronaldo que, aos 41 anos, é a grande referência da equipa. Para se perceber o problema basta dizer que a Ronaldo só Eusébio se pode comparar.

Depois recordo alguns dos avançados que passaram pela nossa Selecção e que seriam titulares na actual, ao lado de CR7, mesmo que estivessem a jogar a 50% das suas capacidades: Quaresma, Hugo Almeida, Pauleta, Paulo Futre, Fernando Gomes, João Pinto e Postiga.

Portugal fez o seu Campeonato. Ao contrário de muitos sempre disse que a nossa Selecção não podia ser considerada candidata a Campeã do Mundo.

Com a saída de Ronaldo vai passar a ter enormes dificuldades em se classificar para as fases finais. Os extraordinários sucessos dos últimos anos têm um único responsável: CRISTIANO RONALDO. Foi ele quem carregou a equipa às costas. Só um Povo habituado a denegrir os seus melhores não reconhecerá isto.

Por todos os sucessos conseguidos nos Estádios onde espalhou magia, por tudo o que fez pelo meu País, pela sua história de vida (criança a viver abaixo do nível de pobreza, que vem aos dez anos para o Continente, sozinho, longe da Família e se torna numa Figura Mundial, unicamente com o seu talento e esforço) o meu sincero e emocionado: OBRIGADO CR7.

OBRIGADO CAPITÃO!