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GAIOLA-DE-BRUXA

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– Quem me dera, Professor, ter um jardim!… e uma romãzeira!… – respondeu-me a Isabel, quando lhe mostrei a romãzeira já em flor.

Bem diferente foi, contudo, a reacção de Maria, octogenária, que tem uma quinta e sabe ler as nuvens e quando devem podar-se as videiras e qual a altura melhor para semear griséus… Comentou:

– Alguma razão assiste também ao teu Joaquim, porque, na verdade, os botões da romãzeira não deveriam estar tão desenvolvidos no começo de Maio. Devia o homem alegrar-se, como alegres estão, neste ano, os cultivadores de cerejeiras no Douro? Talvez, é o copo meio cheio, mas ele bem sabe que, para lá das mudanças ocasionais do tempo, como dantes soía num ou outro ano, elas se tornaram agora uma assustadora constante. Este ano, o calor típico de Maio sucedeu em Abril e as águas mil, acompanhadas de chuva e granizo, estão a mimosear os agricultores em Maio. É tão duro viver do trabalho da terra, admiráveis combatentes os que resistem, numa luta que é aceitação da conjugação de elementos que os ultrapassa.

E é bem verdade! Ingénuo e egoísta fui eu, ao não ver além do visível, a não ter aproveitado o ensejo para uma mensagem de solidariedade.

Aceito, porém, que jardim constitua, como sonha a Isabel, fonte de serenidade, na contemplação do crescimento das folhas, do desdobrar das flores… Agradável e sempre surpreendente fonte de aprendizagem também, não nó por dispormos hoje de aplicações informáticas susceptíveis de, rapidamente, nos identificarem as plantas derredor, mas também porque o apoio amigo do botânico nos dá a oportunidade de enriquecer conhecimentos.

Assim aconteceu.

Intrigara-me aquela coisa, espécie de fungo ou estranho cogumelo que me aparecia, já não era a primeira vez, entre as pedras e junto às plantas, pelos buracos. Erva ruim, pensei. Massacrei-a. Outra me apareceu, dias depois, mais à frente. Matei-a. À terceira, parei. Preciso de saber o que isto é. Esta espécie de armadilha laranja, sem olhos, reticulada, a lembrar o muselet, aquela ‘gaiola’ de arame que prende a rolha do champanhe.

Não hesitei – e mandei mensagem ao João Monjardino, com fotografia.

Veio pronta a resposta:

– Gaiola-de-bruxa! Aparece no jardim pelo Outono, tem vida efémera e exala um odor forte que atrai os insectos de que se alimenta, porque eles entram lá, ficam presos e ela delicia-se com tal manjar, além de eles colaborarem na sua reprodução, espalhando os esporos (com dimensões de 5–6 x 1,7–2 µm )…

Interroguei também a «inteligência artificial» que me explicou:

«Gaiola-de-bruxa (Clathrus ruber) é um fungo notável pelo seu aspeto de rede esférica vermelha ou alaranjada, semelhante a uma gaiola, comum em solos ricos, hortas e florestas. Conhecido pelo odor intenso a carne podre que atrai insetos para dispersar esporos, não é comestível e pode causar distúrbios gastrointestinais».

Não voltei a destruir as gaiolas-de-bruxa. Dão um ar de graça no meio do verde e… deram-me excelente lição de vida!

A RESISTÊNCIA DO JORNALISMO INDEPENDENTE NO ESPAÇO DIGITAL*

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Em maio de 2020, o panorama mediático português via nascer mais uma proposta no ambiente digital: o Duas Linhas.

Fundado e coordenado pelo jornalista Carlos Narciso, o projeto surgiu como um manifesto de desobediência aos algoritmos que condicionam e limitam a distribuição da informação nas redes sociais. Volvidos exatamente seis anos de atividade ininterrupta, o balanço consolida a premissa inicial de que o jornalismo livre encontra sempre o seu caminho direto até ao leitor.

VÍDEO

A LINHA DE RUMO: INFORMAÇÃO SEM FILTROS OCULTOS

O percurso do Duas Linhas ao longo desta mais de meia década destaca-se pela fidelidade ao compromisso editorial estabelecido no seu manifesto de fundação. Num ecossistema digital saturado por conteúdos efémeros e dependente de visualizações fáceis, o portal tem garantido uma dinâmica de atualização diária baseada no rigor, no pensamento crítico e na análise ponderada da atualidade nacional e internacional.

UMA COMUNIDADE DE IDEIAS E PLURALIDADE

A longevidade e a relevância do projeto encontram o seu porto seguro na qualidade do corpo de colunistas. Com o passar do tempo, o grupo tem sido renovado, dos fundadores já poucos sobram. Com o passar do tempo, o Duas Linhas consolidou-se como fórum plural de debate de ideias, reunindo sempre um painel de colaboradores que trazem a sua expertise setorial e regional para as páginas do site.

Hoje, vozes assíduas como as de José d’Encarnação na arqueologia e nas histórias sobre Cascais, Alberto Correia através das suas detalhadas crónicas de província, Margarida Maria, Helena Ventura Pereira, Vítor Martins, Vítor Fonseca na análise de atualidade, ou as crónicas de viagem de Vanda Narciso, ilustram na perfeição o ecletismo e a profundidade de pensamento que o site oferece aos seus leitores.

O FUTURO ESCREVE-SE EM ACESSO DIRETO

Ao celebrar este sexto aniversário, o Duas Linhas prova que a autonomia face às grandes plataformas de distribuição é um modelo necessário. A viabilidade depende da habituação do público em procurar informação diretamente na barra do navegador.  

A equipa que faz o Duas Linhas resgatou o valor da ligação direta, transparente e sem intermediários entre quem escreve e quem lê. Que venham os próximos capítulos desta resistência em forma de palavra digital.

*título atribuído igualmente pela IA do Google

ARDINGA

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desenho com recurso a IA

Ardinga é tão jovem ainda!…

Ardinga tem o sangue da gente mais de sul, cresceu na orla do deserto, a ama-de-leite contou-lhe na tenda as mil e uma histórias do velho conto das mil e uma noites. Histórias quentes de amor lhe contava no calor da tenda, enquanto o pai recrutava guerreiros entre os pastores.

O frade imaginoso trouxe para o seu livro, de entre as muitas histórias, a história de Ardinga que veio com seu pai e os guerreiros mouros que ocuparam Lamego nos finais do século X.

Era tão jovem ainda, Ardinga!…

Já conhecia as histórias todas das mil e uma noites. E outras histórias que contavam os pastores do deserto. O seu pai saía agora com os pastores feitos guerreiros para as batalhas, muitas vezes para além da montanha. Ardinga adivinhava histórias que aconteciam para além dos montes de onde chegavam soldados feridos. E os soldados contavam-lhe histórias da valentia dos cristãos. E do temor de um Cavaleiro-Negro – D. Tedon – que, sozinho, se atirava contra os soldados.

Ardinga gostava de escutar as histórias dos soldados que iam chegando lá de longe. E foi seguindo os passos do Cavaleiro-Negro e aprendeu no contar dos soldados o caminho que a levaria ao herói.

Ninguém sabia o que se passava no peito de Ardinga. E, um dia, a princesa, que era ainda quase menina, ilude a guarda e segue um caminho como quem sabe para onde vai.

Há pousos de sentinelas cristãs que não se atrevem a prender a donzela estrangeira. E levam-na junto de um monge que curava aos soldados as feridas do corpo e da alma. E o monge Gelásio, que assim se chamava, fez nascer no coração da donzela moura o amor do seu deus. E abrigou-a no seu eremitério, a que as águias que, às vezes, o sobrevoavam fizeram dar o nome de S. Pedro das Águias. Eram Terras de Tabuaço.

Que se passava agora que nunca mais chegava o Cavaleiro-Negro, D. Tedon, por quem Ardinga suspirava?!…

Soube o Rei, ao chegar aos seus Paços, a história de Ardinga, que, um dia, o abandonara. Irado com o que lhe contaram, chama os melhores soldados e corre ao lugar onde Ardinga se demorava. E é ela a primeira quem vê assomar no alto dos cerros, de alfange em punho, os soldados de seu pai.

Tardou tanto o Cavaleiro-Negro!…

E Ardinga morreu primeiro de amor antes de morrer sob o golpe cruel do alfange de seu pai. Quando o Cavaleiro-Negro chegou à boca do eremitério, a fronte banhada ainda no sangue da luta, conheceu então a história de Ardinga e só teve tempo de descer ao rio que ali perto corria e de trazer para terra o corpo frio de Ardinga de cuja memória haveria de fazer o seu amor até à morte.

E Ardinga era tão jovem ainda!…

Castelo de Lamego

A FOME DÁ QUE PENSAR

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O Prémio ENSA-Arte é uma antiga e, dizem, prestigiada iniciativa de valorização das artes plásticas em Angola. Num país onde o Estado não perde tempo nem investe recursos na promoção ou valorização do meio artístico, o Prémio Ensa-Arte existe porque tem tido um patrocinador rico. Como o nome indica, esse patrocinador é a companhia de seguros Ensa. De dois em dois anos, a empresa fica bem na fotografia e atribui os prémios às obras que um juri designou.

O prémio é monetário e de valor significativo. Por exemplo, na 18.ª edição em 2026, o primeiro classificado em cada modalidade recebe 6 milhões de kwanzas, um pouco mais de 5 mil e 500 euros, enquanto o segundo lugar é distinguido com 3 milhões de kwanzas.

Também por isso, é um prémio bastante disputado. Começou por ser apenas um concurso de pintura, mas agora engloba escultura e performance artística, também.

Este ano, na categoria de Pintura, Adriano João Gaspar conquistou o 1.º lugar com a obra “Mujikulu”.

Com a pintura “Mujikulu”, Adriano João Gaspar retrata as preocupações que sobrecarregam o povo, no dia-a-dia. A mulher que pensa, dolorosamente, com a mão sobre a cabeça, transmite-nos angústia.

Na escultura, Maiomona Vua destacou-se com a peça “Bocas Abertas, Protestos Sobre a Fome”.

Preocupações sociais, um povo que sofre, arte premiada que contribui para dar voz aos mais desfavorecidos.

Na categoria de Performance Artística, venceu Domingos Miguel “Mussunda”, com uma apresentação intitulada “Currulo-Currulo”, da qual não temos imagens.

ÁFRICA NÃO PODE CONTINUAR À PORTA DA HISTÓRIA

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A recente posição assumida pelo Secretário-Geral da ONU, António Guterres, ao defender a presença permanente de países africanos no Conselho de Segurança das Nações Unidas, não constitui apenas uma declaração diplomática. Trata-se de um reconhecimento histórico tardio de uma profunda injustiça política internacional que dura desde 1945. África já não pode continuar a ser o único grande bloco civilizacional do planeta excluído do núcleo duro da governação mundial.

O atual Conselho de Segurança da ONU nasceu num contexto geopolítico completamente diferente do mundo contemporâneo. Foi concebido após a Segunda Guerra Mundial, num período em que grande parte de África ainda estava sob ocupação colonial. Os vencedores da guerra desenharam uma arquitetura internacional baseada nos seus interesses estratégicos e militares, ignorando por completo centenas de milhões de africanos que nem sequer tinham direito à autodeterminação.

Passaram mais de oitenta anos. Hoje, África representa mais de 1,4 mil milhões de habitantes, possui 54 Estados soberanos, detém enormes reservas minerais, energéticas e ambientais estratégicas, dispõe da população mais jovem do mundo e tornou-se um dos espaços centrais da disputa económica e geopolítica internacional. Ainda assim, continua sem um único assento permanente no Conselho de Segurança. Esta realidade tornou-se moralmente insustentável e politicamente indefensável.

Como pode a ONU falar de democracia global, equilíbrio internacional ou legitimidade multilateral quando todo um continente continua excluído das decisões permanentes sobre paz, segurança e guerra? Como pode o Conselho de Segurança decidir sobre conflitos africanos sem representação africana permanente? Quantas vezes tropas africanas morreram em missões internacionais decididas por potências que jamais aceitariam semelhante exclusão sobre os seus próprios destinos? A verdade é simples: o atual modelo tornou-se obsoleto.

A posição de António Guterres revela lucidez política e consciência histórica. Guterres compreendeu que a ONU corre sérios riscos de perder legitimidade internacional caso continue presa às estruturas herdadas do pós-guerra. O mundo tornou-se multipolar. A distribuição do poder internacional mudou. As economias emergentes ganharam peso. Novos centros de influência surgiram. África deixou de ser apenas objeto da política internacional para se transformar progressivamente num sujeito incontornável das grandes decisões globais. Mais do que nunca, a reforma do Conselho de Segurança tornou-se uma necessidade estratégica para salvar a credibilidade da própria ONU.

E neste contexto, ganha enorme relevância a possibilidade de o antigo Presidente do Senegal, Macky Sall, poder vir a assumir futuramente funções de Secretário-Geral das Nações Unidas. A eventual ascensão de um líder africano experiente à liderança da ONU teria um profundo significado político e simbólico. O Senegal sempre ocupou uma posição diplomática respeitada no espaço africano e internacional, sendo reconhecido pela estabilidade institucional relativa, tradição diplomática e capacidade de diálogo.

Mas a questão central ultrapassa nomes ou nacionalidades. O verdadeiro debate é civilizacional. O século XXI não poderá continuar organizado segundo os equilíbrios de poder do século XX.

África já não aceita ser apenas fornecedora de matérias-primas, palco de conflitos geopolíticos externos ou simples mercado consumidor das grandes potências. O continente quer participar na definição das regras internacionais, na construção das soluções globais e na arquitetura da paz mundial. E isso é legítimo.

Nenhuma reforma séria da governação global será sustentável sem África. Nenhuma estratégia internacional sobre clima, migração, terrorismo, segurança alimentar, minerais estratégicos, energia ou crescimento demográfico poderá funcionar ignorando o continente africano.

As grandes potências sabem disso. Os Estados Unidos sabem disso. A China sabe disso. A Rússia sabe disso. A União Europeia sabe disso. Por isso, a disputa pela influência em África tornou-se hoje uma das principais batalhas geopolíticas do planeta.

A ONU precisa agora de demonstrar coragem política para adaptar-se ao novo mundo que emerge. A entrada de países africanos como membros permanentes do Conselho de Segurança não deve ser encarada como um favor diplomático, mas sim como uma reparação histórica e uma necessidade de equilíbrio global.

O continente africano exige respeito político. Exige representação. Exige justiça histórica. E, acima de tudo, exige que o futuro da humanidade deixe finalmente de ser decidido sem África sentada à mesa principal das grandes decisões mundiais.

500 ANOS DO CASAMENTO DA INFANTA D. ISABEL

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As celebrações focaram-se no Itinerário da Infanta Isabel, refazendo os passos da comitiva real que, no início de 1526, partiu de Lisboa (local de nascimento da princesa) em direção a Espanha, onde se casou com o Imperador Carlos V. Um encontro de linhagens que foi desenhado muito antes de se realizar.

De facto, pressentindo o fim da vida, D. Manuel I acrescentou ao seu testamento (1521) um codicilo com uma tarefa imperativa para o príncipe D. João: “Item muito rogo e encomendo ao dito Príncipe meu filho, que tome grande e especial lembrança e cuidado de se acabar o cazamento da infante D. Izabel sua Irmaã com o Emperador no qual elle sabe quanto tenho athe aqui trabalhado, e quanto o dezejo […]” Mais do que uma aliança afetiva, tratava-se de um movimento estratégico para consolidar a hegemonia das coroas ibéricas num mundo em expansão.

Em 1526, a promessa cumpriu-se. Após o casamento por procuração no Paço Real de Almeirim, Isabel iniciou a sua jornada rumo à fronteira. O itinerário – que passou por Torres Novas, Chamusca, Ponte de Sor, Alter do Chão e Monforte – culminou em Elvas, o último solo português que a Infanta pisaria antes de se tornar Imperatriz. Foi ali, sob o olhar das muralhas que vigiam a fronteira, que a Infanta se despediu do reino do seu irmão D. João III.

No passado dia 19 de abril, Elvas recuou no tempo para homenagear este legado. As celebrações incluíram recriações históricas com trajes de época, banquetes e danças de corte, evocando a opulência da comitiva original que impressionou as crónicas do século XVI. O som das gaitas de foles, o restolhar dos trajes de seda e o bater dos cascos dos cavalos no empedrado anunciaram a recriação do cortejo da Infanta.

O momento simbólico da “Entrega da Infanta” – a transição formal para o séquito espanhol – foi encenado na ponte sobre o Rio Caia e em Badajoz, evocando o ato diplomático que selou o destino de Isabel.

Ao casar em Sevilha, a 11 de março de 1526, Isabel não foi apenas uma rainha consorte; foi a alma do Império. Inteligente e sensível, governou como Regente de Castela durante as longas ausências do marido, a quem escrevia incansavelmente, provando que a sua educação humanista a preparara para os mais altos voos da governação. O ambiente poliglota em que viviam não era apenas um reflexo da árvore genealógica, mas uma ferramenta essencial de governação. Isabel, educada na corte de D. Manuel I, cresceu num Portugal que era o centro de um império global, dominando o português e o castelhano, além do latim. Já Carlos V, embora fosse o monarca mais poderoso da cristandade, teve de aprender a equilibrar o seu francês nativo com o neerlandês, o alemão e, mais tarde, o castelhano, que se tornaria a língua do coração do casal.

Diz-se, inclusive, que a relação entre ambos foi uma das raras exceções de afeto real genuíno na época, e a língua terá sido a ponte para essa união num império onde, como Carlos dizia, “o sol nunca se punha”.

Apesar de ter desempenhado de forma exemplar os papéis de mulher, mãe e soberana, a morte colheu-a precocemente aos 36 anos, mergulhando o seu nome num esquecimento de séculos, guardado apenas pela lenda e pela arte. Hoje, o seu olhar sobrevive na obra-prima de Ticiano, a imagem que o Imperador, apaixonado, contemplou até ao fim dos seus dias.

Retrato da Infanta D.Isabel por Ticiano, 1548 – Museu do Prado

PORTUGAL: TORTURA E ASSASSINATOS EXTRAJUDICIAIS

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Em síntese, a parte dedicada a Portugal no relatório anual da Amnistia Internacional traça um retrato bastante crítico da situação dos direitos humanos no país, centrado sobretudo em seis eixos: violência policial e discriminação racial; maus-tratos nas prisões; restrições ao direito de manifestação; aumento dos crimes de ódio; persistência da violência de género; dificuldades no acesso ao aborto.

O relatório destaca particularmente investigações sobre alegados homicídios de pessoas racializadas por agentes policiais e novos indícios de maus-tratos no sistema prisional. Refere ainda preocupações com o crescimento do discurso e dos crimes de ódio num contexto político marcado pela subida da extrema-direita e do partido Chega.

Claro que no resto do mundo há situações verdadeiramente calamitosas, no que diz respeito aos direitos humanos. Hoje assistimos à complacência das democracias perante um Estado genocida, à perseguição judicial dos que continuam a procurar justiça, igualdade, democracia no concerto das nações. Agora, domina a guerra e não a diplomacia. Domina a mentira e o fingimento nas relações entre Estados.

Israel executa um genocídio contra os palestinianos, invade e bombardeia países vizinhos, ocupa territórios que pretende colonizar. A Rússia e a Ucrânia continuam uma guerra de destruição mútua. Os EUA envolvem-se em assassinatos extraterritoriais extrajudiciais e ataques ilegais à Venezuela, ao Irão e ameaças de invadir Cuba e Gronelândia.  Vivemos num mundo sem moral.

É neste enquadramento que foi publicado o relatório da Amnistia Internacional, um rol de atrocidades e injustiças praticadas em todo o mundo por quase todos. E é lamentável que Portugal esteja incluído.

Este relatório é baseado em investigações sectoriais feitas por organismos internacionais independentes e em relatos jornalísticos sobre investigações de “casos de polícia” e que incluem depoimentos de vítimas.

fonte Relatório Anual 2025/26: Estados devem impedir nova ordem anti direitos – Amnistia Internacional Portugal

SEGUROS PARA NADA

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fotomontagem,composição gráfica

Se algumas pessoas foram ressarcidas pelas suas companhias de seguros devido aos danos causados com as sucessivas intempéries, muitas outras houve que não tiveram a mesma sorte, apesar da contestação das peritagens e de terem desenvolvido todas as diligências para que tal fosse possível. Portanto, seguros para quê?

Mesmo das zonas mais afectadas, vêem-se e ouvem-se todos os dias notícias de queixas, sem que ninguém resolva os problemas.

O primeiro-ministro Montenegro, com o Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR), resolveu criar um novo modelo de resposta a catástrofes, com a criação de um fundo de catástrofes naturais e sísmicas e a implementação de um sistema de seguros obrigatórios para habitação e infraestruturas empresariais. Assim, cria-se a obrigatoriedade de ter mais um seguro, desta vez ainda em habitações e empresas para suportar o tal fundo de catástrofes naturais e sísmicas que, entre outras coisas, vai, naturalmente, fazer aumentar as rendas e os preços das casas.

O plano prevê, ainda, diz Montenegro, mecanismos de apoio público para assegurar que as famílias com menores rendimentos consigam aceder ao sistema, garantindo uma dimensão de solidariedade social. A realidade é que os seguros não têm funcionado na globalidade para os mais necessitados. Por isso, pague-se mais…

Claro que as reacções a esta medida foram más. É que, por um lado, as freguesias pedem também financiamento para equipamentos de desobstrução das vias e, por outro, os municípios querem clarificar o financiamento e quem faz o quê.

Para o cidadão pagador, a situação só piora. Levam-se anos e anos a pagar seguros que, na hora da verdade, não funcionam, nem que seja com a velhinha desculpa de ‘não ter as coberturas certas’. E, agora, acresce-se mais um seguro obrigatório para, segundo o primeiro-ministro, garantir uma resposta mais rápida e previsível em situações de crise, reduzindo a dependência da intervenção do Estado.

Montenegro entende que assim se exige um equilíbrio entre o papel do Estado e a responsabilidade coletiva. ‘Não podemos transmitir à sociedade a ideia de que o Estado pode pagar tudo a todos, a todo o tempo’.

A justificação do primeiro-ministro é deveras interessante. Levamos anos a pagar seguros obrigatórios que, na prática, não servem para nada e agora temos mais um porque ‘o Estado não pode pagar tudo a todos’. Estou parcialmente de acordo porque o Estado somos todos nós. Mas, já agora (e gostaria de referir que sou das pessoas que lêem as letras pequenas, os orçamentos sejam do que forem, os contractos e outras ‘minudências’), com todos os impostos a aumentarem, bem como custo de vida e a inflação, sem que as migalhas da baixa do IRS consigam cobrir as despesas, vamos ainda contribuir para ‘engordar’ mais as seguradoras? Montenegro só se esquece de exigir às companhias de seguros que cumpram com as suas responsabilidades.

Só mesmo das cabeças deste (des)governo.

FALAR DE CASSINGA

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Nos anos 70, a Namíbia era ainda um território ocupado pela África do Sul, governada por um regime branco racista que reprimia a maioria negra da população. O apartheid sul-africano, hoje frequentemente evocado quando se analisam outras realidades contemporâneas, era então um sistema internacionalmente isolado, apoiado apenas por alguns aliados estratégicos ocidentais e, até 1974, também pela ditadura portuguesa.

No dia 4 de maio de 1978, em Angola, tropas paraquedistas sul-africanas atacaram em Cassinga a base da SWAPO, o movimento de libertação que combatia a ocupação sul-africana da Namíbia. Depois da independência de Angola, em 1975, e da chegada do MPLA ao poder, a SWAPO encontrou em território angolano um espaço de retaguarda relativamente seguro para instalar bases, treinar combatentes e acolher refugiados.

Cassinga era um desses locais. Funcionava simultaneamente como base militar e campo de acolhimento civil, albergando também população não combatente ligada etnicamente e politicamente à SWAPO. Situada a centenas de quilómetros da fronteira namibiana, Cassinga parecia suficientemente distante para escapar à guerra. A distância, contudo, não impediu o ataque sul-africano, que acabaria por transformar-se num massacre com centenas de mortos entre guerrilheiros e civis.

Paraquedistas sul-africanos atacam Cassinga, Angola

A operação foi também um prenúncio do que viria depois. Nos anos seguintes, a África do Sul aprofundaria a intervenção militar em território angolano, procurando derrubar o MPLA e impedir que Angola se transformasse numa plataforma de apoio aos movimentos de libertação da região. Para Pretória, a sobrevivência do apartheid passava pelo controlo estratégico da Namíbia e pela contenção dos movimentos revolucionários internos. O apartheid sul-africano está hoje a ser replicado noutras geografias, mais uma vez com a complacência dos governos europeus e dos EUA.

Paraquedistas sul-africanos atacam Cassinga, Huambo, Angola

A intervenção cubana foi decisiva para impedir a queda do MPLA e alterar o equilíbrio militar regional. Também em Cassinga, o contra-ataque às forças sul-africanas contou com tropas cubanas estacionadas em Angola. Os militares sul-africanos acabariam por retirar, evitando prolongar um confronto que poderia provocar perdas significativas num exército dependente de uma minoria branca relativamente reduzida.

As fotografias da época mostram sem filtro o horror da guerra: centenas de corpos amontoados, entre eles mulheres e crianças. A imprensa sul-africana, submetida à censura militar do regime, procurou enquadrar o massacre como uma vitória legítima contra “terroristas”, insistindo que a maioria dos mortos seriam homens adultos e, portanto, combatentes, mesmo quando muitos não usavam uniforme.

Existem igualmente imagens que comprovam a presença militar da SWAPO em Cassinga, com desfiles, treinos e cerimónias militares. Esse facto continua a ser usado para justificar o ataque, embora nunca tenha eliminado a controvérsia sobre a dimensão da matança de civis.

Parada militar da SWAPO em Cassinga
armamento soviético colocado em Cassinga

Em março de 1990, a Namíbia tornou-se independente e a SWAPO assumiu o poder. Poucos anos depois, em 1994, o apartheid sul-africano desaparecia ingloriamente com a chegada do Nelson Mandela à presidência. Na África Austral, movimentos apoiados pela URSS – como o MPLA, a SWAPO e o ANC – alcançaram o poder político, embora cada um tenha seguido trajetórias próprias, marcadas tanto pela Guerra Fria como pelas realidades internas dos seus países.

Cassinga e os que ali foram martirizados foram tabuleiro e peões, respetivamente, de uma guerra entre potências que nunca se importaram com o sofrimento humano que os seus jogos de guerra provocavam.

VIAGEM A LISBOA E CONFRONTO COM A REALIDADE

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Um destes dias tive de me deslocar de Santa Comba Dão a Lisboa para tratar de alguns assuntos particulares. Na A1, entre Fátima e Santarém, a minha viatura colapsou totalmente, o que me aconteceu pela primeira vez em mais de 50 anos e fiquei parado na berma da auto-estrada. Dentro da viatura, um erro que assumo desde já, fiz um telefonema para o ACP, a fim conseguir apoio para um reboque e transporte para Lisboa. Saí do automóvel, encostei-me ao separador e fiquei a ver passar os camiões pesados, em elevada velocidade, tentando não ter receio de que alguma coisa corresse mal.

Passada meia-hora, apareceu uma Brigada da GNR que, de forma gentil e extremamente correcta, veio saber o que se passava. Aconselhou-me a passar para o outro lado do separador, por uma questão de segurança, e, após saberem que eu já tinha solicitado a assistência, foram embora. Dei comigo a pensar que, afinal, ainda podemos ter esperança nas forças policiais, apesar do que, segundo a acusação do Ministério Público, se passou, em Lisboa, com alguns agentes da PSP, suspeitos das maiores barbaridades e violação dos mais elementares direitos dos cidadãos. Esclareço que, até ao trânsito em julgado da decisão judicial são, nos termos da CRP, presumidamente inocentes.

Dois dias em Lisboa confirmaram o que me vinham dizendo, uma cidade cada vez mais caótica, suja, desmazelada, dois anos após ter saído da capital. Fiquei em choque com o estado a que um mau autarca pode conduzir uma cidade, a minha cidade, transformando-a numa enxovia.

Regressei a casa no Inter Cidades, que saiu à hora certa da Gare do Oriente. A carruagem estava cheia, com todos os passageiros agarrados aos telemóveis. Um homem, com cerca de 50 anos, passou toda a viagem, até ao seu destino a ver tik-tok. Uma mulher, com cerca de 40 anos, após a saída do passageiro que estava no lugar ao lado, esticou-se no banco e colocou os pés em cima do assento. Enfim, mergulhei neste admirável mundo novo da sociedade portuguesa.

Quando cheguei ao destino já passava das 21 horas e pedi a um amigo para me ir buscar, porque já não havia táxis, num concelho em que a Presidente da Câmara, em recente entrevista a um canal televisivo, garantia querer transformar o município num destino aprazível para o turismo, reforçando, deste modo, a economia local. 

Nos dias seguintes os acontecimentos de que tomei nota não me alegraram. A ex-chanceler Merkel, a principal responsável pela situação de degradação da Europa, esteve em Lisboa, possivelmente para ver os ‘pacóvios’ do sul, que ela tentou esmagar, mas não prescindiu de ir aos fados, beber um bom vinho e comer da boa comida portuguesa. Descobri que o ‘encantador de burros’, é a versão portuguesa do TACO, ao admitir que, afinal, a descida da idade da reforma – uma imbecilidade total, de resto, saída da cabeça de um homem desesperado – não é uma exigência para a aprovação das alterações à legislação laboral. E, por último, para o governo existem dois tipos de percepção, uma correcta, a de que existe uma sensação de insegurança, e outra incorrecta, a de que o SNS está um caos, pois o executivo  assegura que o SNS está bem e recomenda-se, os portugueses, madraços, é que têm a percepção que está um caos.