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O REGRESSO FALHADO

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Se dúvidas havia, elas ficaram claras. Passos Coelho não tem ideias, melhor dizendo, tem muitas ideias ao estilo da Chef Noélia do 24 Kitchen, que passa o tempo a gritar ‘tragam pão’, ‘tragam pão’. Ele passa o tempo a gritar ‘reformas, é preciso reformas’. Mas de reformas nada diz, porque nada tem para dizer. E, se o disser, sabe que, além de erráticas, irão merecer o repúdio da generalidade dos portugueses. De resto, enquanto foi chefe do governo mostrou algumas das suas, poucas, ideias para reformar o País. A maior de todas era empobrecer os pobres como castigo punitivo. A punição seria encarada como uma fase redentora para o futuro. Quem sobrevivesse mereceria viver. Outra é a de aliviar a carga fiscal das grandes empresas porque, segundo ele, esse alívio fiscal seria gerador de riqueza. Claro que sim, para os accionistas dessas empresas. Na ‘conversa’, avançou apenas uma ideia, a de reformar o SNS. Ideias brilhante, de resto, e que deverá merecer o apoio dos grandes grupos económicos da saúde, a privatização do SNS.

Mas, voltando à questão principal, o que pretende Passos Coelho? A resposta é relativamente simples, apesar de poder ser decomposta em quatro fases. A primeira é a de derrubar Luís Montenegro que, para ele, não passa de uma obediente líder parlamentar e nada mais do que isso. A segunda é a de levar o Chega para o poder, partindo o PSD e abrindo o caminho para um grande partido de direita. A terceira é a de ser o próximo Presidente da República, na convicção de que, com o Chega, conseguirá uma maioria, um governo, um Presidente. A quarta é a de mudar o regime, para um sistema presidencial.

Passos Coelho vive na ideia de ser o ‘salvador da Pátria’, ideia que é alimentada pelos seus próximos e por alguns meios de comunicação social. A realidade é que, por muito que lhe custe, a maioria dos portugueses não pensa o mesmo e, no panorama político, a direita que se revia nele, já tem um líder, André Ventura, que ele criou e que, por muitas juras de amor que faça, apenas o quer usar como meio para cimentar a sua liderança.

Passos Coelho veio fazer prova de vida, na convicção de que o governo da AD está em decomposição e que este seria o tempo ideal para aparecer e marcar a sua posição. Na Europa assiste-se a um crescimento das forças de extrema-direita. Passos Coelho ambiciona liderar um projecto de direita radical, de pendor presidencialista, para o qual quer levar o PSD, que ainda está com ele, em coligação com o Chega. Ainda não interiorizou que André Ventura não quer partilhar o poder, mas apenas usá-lo para atingir os seus objectivos.

A ‘conversa’, levada a cabo por Maria João Avilez, que não é jornalista, acabou por ser um acto falhado e um frete da SIC que apenas entusiasmou alguns crentes.

O QUE FAZER DA NOSSA HISTÓRIA

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Há países que conhecem a sua História.
Há países que a celebram.
E há países que, para além de a conhecerem e celebrarem, sabem o que fazer com ela. Talvez seja esta última pergunta que devêssemos colocar a nós próprios.
Não apenas: o que aconteceu?
Mas: o que fizemos daquilo que nos aconteceu?
Porque a História não é um armazém de datas, de nomes, de batalhas, de reis, de revoluções e de acontecimentos que aprendemos na escola e depois esquecemos. A História é a matéria de que uma comunidade constrói a consciência de si própria.
Um povo sem memória pode continuar a existir.
Mas terá muito mais dificuldade em saber quem é. E talvez Portugal esteja hoje a atravessar precisamente esse território incerto: sabemos muitas coisas sobre o nosso passado, mas nem sempre sabemos o que o nosso passado significa para o nosso presente.
Não se trata de viver virado para trás. Trata-se de não caminhar para diante como se tivéssemos nascido ontem.
Portugal tem uma História demasiado longa para caber numa narrativa única.
É uma História feita de grandeza e de fracassos, de coragem e de medo, de descoberta e de perda, de abertura ao mundo e de momentos de fechamento sobre nós próprios.
Uma História de partidas e de regressos.
De emigração e de acolhimento.
De império e de descolonização.
De pobreza e de extraordinária capacidade de sobrevivência.
De ditadura e de liberdade.
De silêncio e de palavra.
De isolamento e de pertença europeia.
Uma História, enfim, profundamente humana — e, por isso mesmo, contraditória.
É precisamente essa contradição que devemos aceitar.
Um país não se torna maior por esconder aquilo de que não gosta na sua História.
Torna-se maior quando consegue olhar para ela sem medo.
A maturidade histórica começa quando deixamos de precisar de uma História perfeita para podermos gostar do país que somos.
Durante demasiado tempo, tivemos tendência para oscilar entre dois extremos.
De um lado, a nostalgia.
Do outro, o esquecimento.
A nostalgia transforma o passado numa espécie de idade de ouro onde tudo parece ter sido melhor.
O esquecimento faz exactamente o contrário: considera que tudo o que passou deixou de ter importância.
Ambas as atitudes são perigosas.
A primeira porque transforma a História em mito.
A segunda porque transforma o presente em amnésia.
E entre o mito e a amnésia fica aquilo que realmente precisamos: a memória.
Memória não é saudade.
Memória é conhecimento.
É capacidade de compreender.
É a possibilidade de reconhecer de onde viemos para podermos decidir, com maior liberdade, para onde queremos ir.
O 25 de Abril é talvez o exemplo mais evidente daquilo que uma sociedade pode fazer com a sua História.
Em 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas derrubou o regime autoritário do Estado Novo e abriu o caminho para a democratização do país.
Nos dois anos seguintes, Portugal atravessou um processo político profundamente intenso, que conduziu às eleições para a Assembleia Constituinte, à elaboração da Constituição e à institucionalização da democracia.
Mas o significado do 25 de Abril não pode ficar reduzido a uma cerimónia anual.
Não pode ser apenas uma fotografia a preto e branco.
Nem uma canção.
Nem uma frase.
Nem sequer uma data.
O 25 de Abril é, sobretudo, uma pergunta permanente sobre a liberdade.
O que fizemos da liberdade que recebemos?
O que fizemos da possibilidade de falar?
O que fizemos da possibilidade de discordar?
O que fizemos do direito de escolher?
O que fizemos da possibilidade de construir uma sociedade diferente?
A Constituição da República Portuguesa consagrou os princípios fundamentais do novo regime democrático e estabeleceu um quadro de direitos, liberdades e garantias que permanece central na vida colectiva portuguesa. Mas nenhuma Constituição, por mais importante que seja, consegue garantir sozinha a qualidade de uma democracia.
A democracia não vive apenas nas instituições.
Vive também nas pessoas.
Na forma como ouvimos quem pensa diferente.
Na maneira como usamos a liberdade.
Na responsabilidade com que falamos.
Na coragem de perguntar.
Na capacidade de discordar sem transformar o outro num inimigo.
E aqui regressamos àquilo que temos vindo a discutir: uma sociedade começa a empobrecer quando perde a qualidade da sua palavra e do seu pensamento.
Talvez tenhamos cometido outro erro.
Transformámos demasiadas vezes a História numa disputa sobre quem tem razão.
Em vez de procurarmos compreender, procuramos julgar.
Em vez de interrogarmos os acontecimentos, escolhemos rapidamente os nossos heróis e os nossos culpados.
E depois construímos narrativas confortáveis.
A História fica assim dividida entre bons e maus, vencedores e vencidos, heróis e vilões.
Mas a verdadeira História é quase sempre mais difícil.
É feita de pessoas.
E as pessoas são contraditórias.
Tomam decisões certas por razões erradas.
Tomam decisões erradas por razões que, naquele momento, lhes pareciam certas.
Mudam.
Hesitam.
Resistem.
Cedem.
Recomeçam.
Por isso, conhecer a História não deveria servir para fabricar absolvições nem condenações eternas.
Deveria servir para compreender a complexidade das escolhas humanas.
Há ainda uma outra dimensão da nossa História que raramente discutimos com a profundidade necessária: a História que desapareceu.
A História das pessoas anónimas.
Dos que partiram.
Dos que ficaram.
Dos que trabalharam.
Dos que emigraram.
Dos que combateram.
Dos que sofreram.
Dos que educaram filhos em circunstâncias difíceis.
Dos que fizeram Portugal sem nunca aparecerem nos livros.
Um país não é apenas aquilo que fizeram os seus governantes, os seus escritores, os seus militares, os seus empresários ou os seus intelectuais.
É também aquilo que fizeram milhões de homens e mulheres comuns.
São eles que dão espessura humana ao tempo.
E talvez seja por isso que uma das maiores tarefas de uma sociedade moderna seja recuperar a memória não como monumento, mas como experiência colectiva.
Hoje, quando tantas imagens chegam até nós instantaneamente, quando uma notícia pode desaparecer em minutos e quando as novas tecnologias permitem que uma pessoa produza e consuma mais informação num dia do que outras gerações poderiam imaginar numa vida inteira, corremos um risco novo.
Não é apenas o de esquecer.
É o de confundir informação com memória.
Podemos saber tudo e compreender quase nada.
Podemos ter acesso a milhões de documentos e perder a capacidade de distinguir o essencial do acessório.
Podemos conhecer a data de um acontecimento e ignorar aquilo que ele mudou.
Podemos reproduzir uma fotografia histórica e não compreender o olhar de quem nela está.
É aqui que a História volta a encontrar o pensamento.
Porque recordar não é armazenar.
Recordar é interpretar.
E interpretar exige tempo.
Exige conhecimento.
Exige comparação.
Exige dúvida.
Exige inteligência.
Talvez por isso a História seja tão importante num tempo dominado pela velocidade.
Ela obriga-nos a parar.
Há uma pergunta que deveríamos fazer com mais frequência aos nossos filhos e aos nossos netos:
O que sabem eles sobre o país que existia antes de eles nascerem?
Não para lhes impor uma memória.
Mas para lhes oferecer uma.
Porque ninguém é verdadeiramente livre se não conhecer as possibilidades e os erros daqueles que vieram antes.
Uma geração que não conhece a História fica mais dependente das narrativas que outros lhe oferecem.
E isso é particularmente importante numa época em que a informação circula com uma velocidade extraordinária e em que a fronteira entre conhecimento, opinião, entretenimento e manipulação pode tornar-se cada vez mais difícil de reconhecer.
A História pode ser uma espécie de bússola.
Não nos diz para onde devemos ir.
Mas ajuda-nos a perceber onde estamos.
Talvez seja este o grande equívoco da relação portuguesa com a História:
pensamos que ela é passado.
Não é.
A História é presente acumulado.
Está nas cidades.
Está na língua.
Está nos livros.
Está nas famílias.
Está nos hábitos.
Está na arquitectura.
Está na maneira como nos relacionamos com o poder.
Está na nossa relação com o mar.
Está na nossa relação com a Europa.
Está na nossa relação com os outros povos.
Está até na forma como nos vemos a nós próprios.
Somos, sem o sabermos muitas vezes, herdeiros de decisões tomadas há séculos.
E somos também responsáveis pelas decisões que deixarão de ser nossas para passarem a ser daqueles que vierem depois.
É por isso que pensar Portugal implica necessariamente pensar a sua História.
Não para regressar a ela.
Mas para não desperdiçar o que ela nos ensinou.
Há mais de meio século, Portugal iniciou uma nova etapa da sua História democrática.
A Constituição de 1976 consagrou os princípios fundamentais do novo Estado democrático e permanece como uma das referências institucionais centrais da nossa vida colectiva.
Mas a História não termina quando se escreve uma Constituição.
Nem quando se ganha uma eleição.
Nem quando se derruba uma ditadura.
A História continua.
Continua todos os dias.
E talvez seja essa a maior responsabilidade de uma geração: perceber que recebe um país que não começou consigo e que entregará esse país a outros.
Entre uma coisa e outra, existe a nossa passagem.
É aí que reside a responsabilidade.
Talvez seja essa a pergunta que a História nos deixa — e que nenhuma geração pode evitar:
que faremos, a partir daqui, com aquilo que recebemos?
Porque não somos apenas herdeiros de Portugal.
Somos, durante o breve intervalo da nossa existência, depositários de Portugal.
Recebemos uma língua que outros fizeram crescer, uma memória que outros viveram, uma cultura que outros criaram, uma liberdade que outros conquistaram e uma democracia que outros ajudaram a construir.
Recebemos também erros, omissões, desigualdades, feridas e contradições que não escolhemos, mas que temos a responsabilidade de compreender.
Nada disso nos pertence inteiramente.
Passa por nós.
E é precisamente por isso que cada geração tem perante a História uma obrigação que não está escrita em nenhuma lei:
não entregar às gerações seguintes um país mais pobre de consciência do que aquele que recebeu.
O futuro de Portugal não será decidido apenas nos grandes acontecimentos que um dia entrarão nos livros de História.
Será decidido também nas pequenas escolhas que fazemos quando ninguém está a escrever sobre nós.
Na educação que damos.
Na cultura que defendemos.
Na maneira como tratamos os outros.
Na qualidade da palavra que usamos.
Na exigência que colocamos no trabalho.
Na liberdade que sabemos exercer.
Na memória que escolhemos preservar.
E naquilo que recusamos esquecer.
Talvez seja esta a verdadeira dimensão do tempo histórico: cada um de nós é apenas um instante na vida de um país, mas nenhum de nós é dispensado da responsabilidade pelo instante que lhe coube viver.
É por isso que olhar para trás não deve ser um exercício de nostalgia.
Deve ser um exercício de responsabilidade.
Porque o passado já não podemos modificá-lo.
O presente, esse, ainda nos pertence.
E o futuro — esse território que parece tão distante e que, no entanto, começa todos os dias — será aquilo que formos capazes de fazer dele.
Portugal não precisa de uma nova História.
Precisa talvez de uma nova consciência da História que já tem.
Uma consciência suficientemente adulta para não esconder o que nos envergonha, suficientemente lúcida para não exagerar aquilo de que nos orgulhamos e suficientemente livre para compreender que nenhum povo está condenado a repetir eternamente os seus próprios erros.
A História não nos diz quem teremos de ser.
Mas diz-nos que já fomos muitas coisas.
E essa é uma das maiores razões para não desistirmos de ser melhores.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido de pensar Portugal.
Não procurar uma resposta definitiva para aquilo que somos.
Mas assumir a responsabilidade pela pergunta:
Que Portugal queremos deixar quando já não estivermos cá para o pensar?
Essa pergunta não pertence aos políticos.
Não pertence aos intelectuais.
Não pertence às instituições.
Pertence a todos nós.
Porque o país que amanhã chamaremos Portugal começará a ser construído hoje — nas nossas escolhas, nas nossas palavras, na nossa cultura, na educação dos nossos filhos, na memória que transmitirmos aos nossos netos e na coragem com que formos capazes de olhar para o futuro.
E talvez seja essa a mais profunda lição que a História nos oferece: nenhuma geração recebe o futuro pronto.
Cada geração recebe apenas uma parte do caminho.
E tem de decidir o que fará com ela.
É essa a nossa vez.

O RIO QUE DESFAZ A MARGEM

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composição gráfica

Joaquim estacou a poucos passos da água. O rio deitava um cheiro denso a sal, a lodo e a viagens antigas. Na escuridão daquela noite escura, sem estrelas, a outra margem era só uma hipótese. Três ou quatro pontos de luz a piscar lá longe, quase engolidos pelo nevoeiro. Aquela imensidão líquida calava o barulho todo da cidade. Era o tempo a passar, sem relógios.

— Olha para lá daquela linha escura, Fernando — murmurou Joaquim, apontando com o queixo para o breu do Mar de Palha.

— O que é que nos espera quando a cabeça falhar de vez? Passamos a vida a polir disfarces, a discutir o carácter, o fingimento…, mas a verdade da morte está nesta água que desfaz tudo. Haverá um “além-rio” onde as nossas poucas palavras ganham sentido? Ou a morte é só este silêncio a apagar a memória da luz?

Joaquim respirou fundo, o ar frio a queimar-lhe o peito.

— Tenho medo que a limpeza seja total. Que nem o arrependimento fique. Se calhar, esta nossa pressa em procurar um sentido é só uma rasteira da natureza. Aprendemos a falar, mas não sabemos o que dizer.

Pessoa deu um passo em frente. Parou mesmo no limite do último degrau seco. A água lambia o mármore, a dois dedos da sola dos sapatos pretos. O poeta não olhava para a outra margem. Olhava para baixo. Para o reflexo partido dos candeeiros da praça a boiar na água como moedas de ouro falso. Tesouros de trazer por casa que a corrente desfazia e refazia a cada segundo.

— O teu erro, meu caro Joaquim — disse Pessoa, sem desviar os olhos da água —, é essa mania do olhar geográfico. — Procuras um “além” como se procurasses uma rota nova para as Índias — disse Pessoa.

— Uma paragem onde os homens se desdobram e recebem um prémio ou um castigo. Mas a morte não é a outra margem, Joaquim. A morte é o rio. É deixares de precisar de uma margem.

O poeta manteve os olhos fixos na água preta.

— O além não tem cenários novos. É só o fim da distância entre quem olha e o que é olhado. Quando morreres, não vais cruzar o Tejo para ver Lisboa de longe. Vais virar água. Vais virar nevoeiro. Vais ser o esquecimento total desta forma que usaste na terra. A margem é só vaidade. O rio é que é a verdade. Querer guardar a identidade depois de morrer é palermice. É querer que o fumo fique com a forma do cigarro depois de se espalhar no ar.

— Mas essa limpeza total… isso não é negar o que somos? — atirou Joaquim.

Sentiu uma vertigem física. Deu um passo atrás, afastando-se da água. O rio puxava por ele.

— Se viramos água… se a dor, a cabeça e este bocadinho de tempo se desfazem na indiferença do mundo, então andamos aqui a brincar ao teatro — disse Joaquim.

— Para que serviu carregar o peso do mundo nas costas? O fim de quem pensou e de quem não quis saber é o mesmo. Fica tudo reduzido a pedra. Estar acordado perde o sentido se o vácuo final for igual para o sábio e para o ignorante.

Pessoa voltou-se para ele. A luz fraca da noite deixou-lhe o rosto lívido, quase imóvel.

— E porque é que a nossa humanidade havia de ter um privilégio no universo, Joaquim? — perguntou Pessoa.

— A utilidade é uma treta. Um conceito de merceeiro que nós inventámos para aguentar o tédio daqueles escritórios na Rua dos Douradores. O universo não cria coisas para ter lucro. Cria pelo puro prazer de mudar. De variar. A utilidade de teres pensado não estava no fim da viagem. Estava no facto de teres estado acordado enquanto caminhavas.

— O facto de um homem ter olhado para o Tejo nesta noite de 1926 e ter sentido o peso da sua própria estranheza… isso é um acontecimento absoluto. A água que nos desfaz não apaga o facto de termos estado aqui. Só nos liberta do cansaço. O esquecimento não é perder, Joaquim. É um descanso. A trégua que a matéria dá ao espírito que se fartou de fingir.

(continua)

“NÃO DÁ MAIS PARA VIVER ASSIM” E A ACAMPADA MADRILENA

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Manifestação em Lisboa

Os manifestantes não eram apenas jovens, havia muitos trintões, quarentões e outros ainda mais velhos. Uns protestavam porque não conseguiam sair de casa dos pais, outros protestavam porque continuavam a a não ver futuro para os filhos.

Os protestos foram organizados pela plataforma “Não dá mais para viver assim”, que pode reclamar uma vitória pela dimensão que as manifestações atingiram, Falta, agora, ver se o Governo ouviu o clamor das multidões.

manifestação no Porto

O país está cada vez pior e agora é preciso sair de casa e ir para a rua gritar como fizeram os espanhóis, terão pensado os manifestantes, depois de verem nas redes sociais o sucesso político alcançado pelos manifestantes que, em Espanha, com reivindicações semelhantes, já conseguiram alterações legislativas na lei dos arrendamentos.

acampada de Madrid, 9 de outubro de 2026
acampada de Madrid, 9 de outubro de 2026

Em Espanha, os protestos foram despoletados pelo despejo de uma senhora com 87 anos, da casa onde vivia há mais de 60. O formato do protesto espanhol derivou das marchas para uma “acampada” bem no centro de Madrid, onde duas semanas depois ainda se concentram milhares de manifestantes que passaram a viver em tendas montadas em plena via pública.

O que começou como uma demonstração de apoio a Maricarmen – a senhora de 87 anos despejada de casa – continua agora como protesto contra a lei que permite que esse tipo de situações se repita. Maricarmen morreu poucos dias depois do despejo.

acampada de Madrid, 9 de outubro de 2026

É bom não fazer confusões. Tanto em Portugal como em Espanha, são as organizações de esquerda que lutam pelos direitos dos inquilinos e contra o custo de vida. São da esquerda os partidos que apoiam os protestos, não são o VOX, o Chega, o Partido Popular ou o PSD.

A CRUELDADE COMO ESPECTÁCULO

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Há momentos na História em que a humanidade parece recuar não porque lhe faltem os instrumentos do progresso, mas porque decide colocá-los ao serviço dos seus instintos mais primitivos. O nosso tempo conhece um desses momentos. Possuímos tecnologias capazes de aproximar continentes, difundir conhecimento, salvar vidas e tornar visível o sofrimento que outrora permanecia escondido. E, no entanto, podemos estar a preparar-nos para utilizar esses mesmos instrumentos para transmitir, em direto, a morte de um homem executado pelo Estado.

O Pentágono anunciou que a execução de Nidal Malik Hasan, antigo major do Exército norte-americano condenado pelo massacre de Fort Hood, será transmitida em direto. A execução está prevista para 3 de dezembro. O anúncio, por si só, levanta uma questão que ultrapassa largamente o caso individual, a natureza do crime cometido ou a legitimidade da pena de morte. A questão é esta: o que acontece a uma sociedade quando a morte deixa de ser apenas uma decisão do poder e passa a ser também um acontecimento destinado a ser visto?

Não estamos perante um episódio isolado de violência. Estamos perante a possibilidade de uma violência institucionalizada que procura na exposição pública uma parte do seu significado. O castigo já não se limita a retirar a liberdade ou a vida ao condenado. Pretende ser visto. Pretende produzir uma imagem. Pretende comunicar uma mensagem através do corpo daquele que vai morrer.
É aqui que começa o problema moral mais profundo.

Durante séculos, as execuções públicas fizeram parte da vida de numerosas sociedades. A praça era o lugar do castigo, a multidão constituía a audiência e a morte do condenado servia para afirmar a autoridade de quem governava. A exposição do sofrimento deveria intimidar os vivos, confirmar a força do poder e estabelecer, através do medo, as fronteiras da obediência.

A modernidade pareceu afastar-se dessa tradição. Não porque a violência tivesse desaparecido, nem porque os Estados tivessem deixado de matar, mas porque se consolidou a ideia de que a justiça não necessita da humilhação pública para afirmar a sua autoridade. A execução foi sendo retirada do espaço da representação coletiva, envolvida em procedimentos reservados, submetida a limites jurídicos e morais que procuravam impedir que o castigo se transformasse num espectáculo.

A transmissão em direto ameaça inverter esse percurso. Recupera uma lógica antiga através de uma tecnologia nova. A praça pública regressa, desta vez sem fronteiras físicas, instalada nos ecrãs, acessível a uma audiência potencialmente planetária.
O que mudou foi o meio. O que está em causa é a concepção de humanidade que esse meio pode servir.

Importa reconhecer, sem qualquer ambiguidade, a gravidade do crime cometido em Fort Hood. Treze pessoas foram assassinadas e outras ficaram feridas. As vítimas, as suas famílias e todos aqueles que sobreviveram ao massacre têm direito à memória, à justiça e ao reconhecimento da sua dor. Seria moralmente intolerável que a reflexão sobre a execução apagasse o sofrimento daqueles que foram atingidos pelo crime.

Mas é precisamente porque o crime foi tão grave que a resposta do Estado deve ser submetida a um escrutínio exigente. A justiça não se distingue da vingança apenas pela identidade de quem exerce a força. Distingue-se, sobretudo, pelos limites que reconhece a si própria.
Um Estado democrático não demonstra a sua superioridade moral reproduzindo a lógica da crueldade que condena. Demonstra-a quando, mesmo perante crimes terríveis, se recusa a transformar a punição numa ocasião de exaltação coletiva.

A transmissão de uma execução coloca-nos, por isso, diante de uma contradição inquietante. Em nome da gravidade de um crime, pretende-se tornar pública a morte de quem o cometeu. Mas que espécie de lição se procura transmitir? Que matar é condenável, desde que seja o Estado a fazê-lo? Que a vida humana possui um valor absoluto até ao momento em que uma autoridade decide que esse valor deixou de existir? Ou que a violência se torna moralmente aceitável quando é praticada em nome da justiça e acompanhada pela aprovação de uma audiência? Não são perguntas retóricas sem consequências. São perguntas sobre os fundamentos da vida coletiva.

A crueldade não consiste apenas em provocar sofrimento. Pode também consistir em organizar as condições para que o sofrimento seja contemplado, em fazer dele uma demonstração de poder, em retirar à vítima a última reserva de dignidade que lhe poderia ser reconhecida. Quando a morte é anunciada como espectáculo, existe o risco de o condenado deixar de ser visto como um ser humano, ainda que culpado de um crime monstruoso, para passar a funcionar como instrumento de uma mensagem política.

E quando isso acontece, a sociedade não se limita a assistir. É convocada a participar simbolicamente no acto, através do olhar.
Não é necessário que todos os espectadores sintam prazer na violência. Muitos poderão assistir por curiosidade, outros por indignação, outros ainda por acreditarem que a transmissão constitui uma forma legítima de transparência. Mas a intenção individual de cada espectador não elimina a questão central: quem decidiu que a morte de um homem deve ser convertida num acontecimento público? Com que finalidade? E que responsabilidade cabe às instituições que organizam essa exposição?

A tecnologia não é moralmente neutra quando a sua utilização é determinada por escolhas políticas e institucionais. Uma câmara pode documentar uma violação de direitos humanos e contribuir para a sua denúncia. Pode também servir para ampliar a humilhação, normalizar a violência ou transformar a punição numa representação destinada a produzir medo. A diferença não está na câmara. Está no propósito, no contexto e na concepção de dignidade que orientam o seu uso.

É por isso que seria insuficiente atribuir este episódio apenas à personalidade de Donald Trump ou à orientação de uma administração. A responsabilidade política concreta tem de ser identificada, mas o problema é mais vasto. Interroga a relação entre o poder e a imagem, entre a justiça e a vingança, entre a violência e a sua comercialização simbólica. Interroga, sobretudo, uma cultura pública em que a visibilidade parece ter adquirido um valor próprio, independentemente daquilo que se torna visível.

Vivemos numa época em que quase tudo pode ser transformado em conteúdo. O sofrimento chega aos nossos ecrãs juntamente com a publicidade, o entretenimento, a informação e as distrações quotidianas. Imagens de guerras, cadáveres, crianças feridas e cidades destruídas sucedem-se com uma velocidade que mal permite a compreensão do que vemos. A repetição pode produzir consciência, mas também pode gerar habituação. O horror, quando se torna permanente, corre o risco de perder a capacidade de nos horrorizar.

Não devemos confundir a exposição à violência com a compreensão da violência. Ver mais não significa necessariamente compreender melhor. E assistir a um acto extremo não significa adquirir maior consciência moral. Podemos contemplar o sofrimento alheio sem nos aproximarmos dele; podemos conhecer os factos sem reconhecermos a humanidade daqueles que os protagonizam.

É este o perigo da banalização: não que todos nos tornemos cruéis de um dia para o outro, mas que a crueldade deixe progressivamente de nos parecer intolerável. A barbárie contemporânea não precisa de regressar com as formas exteriores do passado. Pode apresentar-se com linguagem administrativa, enquadramento jurídico, dispositivos tecnológicos e uma sofisticada estratégia de comunicação. Pode ser anunciada em conferências de imprensa, justificada como demonstração de autoridade e transmitida por meios que representam o culminar do desenvolvimento técnico. A aparência de modernidade não garante a existência de progresso moral. Talvez seja essa uma das contradições fundamentais do nosso tempo: nunca tivemos tantos meios para comunicar e nunca foi tão necessário perguntar o que estamos, afinal, a comunicar.

Não se trata de negar a justiça, de diminuir a responsabilidade dos criminosos ou de esquecer as vítimas. Trata-se de recusar que a justiça se converta numa encenação da crueldade. Trata-se de defender a ideia de que existem limites que o poder não deve ultrapassar, mesmo quando dispõe da força necessária para os ultrapassar.

A dignidade humana não pode depender da simpatia que sentimos por alguém, da sua inocência ou da repulsa que nos provoca o crime que cometeu. Se a dignidade só for reconhecida a quem consideramos merecedor dela, deixa de constituir um princípio universal e transforma-se num privilégio concedido pelos mais fortes.

É fácil defender a humanidade de quem amamos, de quem sofre injustamente ou de quem partilha os nossos valores. A verdadeira prova de uma civilização começa quando somos confrontados com alguém que nos repugna, que condenamos e cuja conduta consideramos imperdoável. É então que se revela se os nossos princípios são realmente princípios ou apenas expressões das nossas preferências.
A recusa da crueldade não absolve o criminoso. Impede que a nossa resposta ao crime destrua os limites morais em nome dos quais o condenamos.

Não sabemos ainda como se concretizará a transmissão anunciada, nem qual será a dimensão da audiência que a acompanhará. Mas o simples anúncio já nos obriga a pensar no tipo de sociedade que estamos a construir. Uma sociedade não se define apenas pelas leis que aprova, pelas tecnologias que desenvolve ou pelo poder que exerce. Define-se também pelas coisas que aceita transformar em espectáculo e pelos limites que decide preservar.

Talvez não estejamos perante um apocalipse iminente. A História conheceu horrores incomparavelmente vastos, guerras devastadoras e formas de extermínio que ultrapassam qualquer descrição. Mas não precisamos de proclamar o fim do mundo para reconhecer os sinais de uma regressão moral. Basta perceber que certas conquistas da civilização não são irreversíveis e que nenhuma sociedade está definitivamente protegida contra a tentação da barbárie.

O PSICODRAMA DO PÁTIO

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A França continuava a arder. A Europa está à beira do precipício, mas nós, por cá, estamos a viver o psicodrama do choque entre dois egos exacerbados. Os portugueses dividem-se, as televisões dedicam horas a este confronto, o racional perde para a emoção, o insulto entre pessoas cordatas passou a ser o ‘novo normal’. Passamos os olhos pelas redes sociais e os demónios soltaram-se, cada um de nós tem a sua verdade. E, às tantas, a questão ultrapassa o campo do futebol para se tornar num vendaval de purificação de um povo.

Desde já assumo: sou adepto do SCP, gosto de futebol e nunca fui grande fã da seleção nacional, com excepção da campanha de 1966. A seleção era, então, dirigida por dois grandes senhores do futebol: Manuel da Luz Afonso e Otto Glória, o brasileiro mais português que passou pelo futebol nacional. Foi treinador do SLB, do SCP, do Belenenses e do FCP e quem levou Portugal ao Mundial de 1966. Eusébio, que já tinha contribuído para o segundo título europeu do SLB, foi consagrado, no Mundial de 1966, como um dos grandes jogadores do Mundo e transformado, pelo regime de Salazar, num dos símbolos do País. Era o tempo do ‘fado, futebol e Fátima’.

Eusébio da Silva Ferreira, natural de Lourenço Marques, Moçambique, uma das colónias portuguesas, representava a força do império colonial e o Portugal uno e indivisível, aquém e além-mar. Desejado em Itália, foi impedido de se transferir para o Inter de Milão, pois o regime considerava-o ‘património nacional’. Terminou a carreira futebolística no União de Tomar, sem honra, nem glória. Muito mais tarde, o SLB e a seleção nacional deram-lhe um lugar honorífico, que não apagou a indigência para que o remeteram.

 Após esse Mundial, desinteressei-me da seleção nacional. Vinte anos depois, em 1986, em Saltillo, no México, ocorreu uma das maiores vergonhas do futebol português. Os jogadores sublevaram-se e acabaram por ser expulsos da seleção. Ao longo dos anos, até 2004, Portugal apenas esteve presente, esporadicamente, em fases finais dos Europeus ou dos Mundiais. A partir de 2004, manteve uma presença contínua, em todas as finais dos Europeus e dos Mundiais, tendo ganhado o Europeu em França em 2016. Ao longo dos últimos 20 anos, houve um denominador comum na seleção nacional, Cristiano Ronaldo. Para o mal e para o bem, creio que foi o único jogador português que esteve presente em todos esses momentos. Idolatrado por uns, odiado por outros, na velha tradição portuguesa, Ronaldo fez o seu percurso recheado de conquistas pessoais e colectivas.

O último título da seleção nacional, a Liga das Nações, em 2024/2025, deveria ter marcado o fim de ciclo para Ronaldo. A sua continuidade como jogador constituiu um erro, dele e da FPF. Erro que se repetiu com a convocatória para esta nova fase da seleção. Por dois motivos, já não tem condição física para ser útil à equipa e porque o seleccionador tem um ego igual ao dele. Porém, havia um problema a resolver. Como acabar com o ‘mito’ Ronaldo e dar espaço ao ego de Jorge Jesus? Estávamos perante um drama freudiano. Como matar o ‘pai’ Ronaldo e dar espaço ao ‘filho’ Jesus?

Acabou por ser fácil. Após sair do SLB para o SCP, numa rutura atribulada com Luís Filipe Vieira, Jesus manteve comunicação regular com o antigo dirigente durante todo o contrato com o novo clube. O treinador, que todos consideram ser um homem explosivo e emotivo, é um mestre da dissimulação. Com mestria, armadilhou a relação com Ronaldo e empurrou-o borda fora. Ainda para mais a equipa portuguesa começou a somar vitórias, o que o deixou, na óptica do adepto, em estado de graça.

Morto o ‘pai’, a questão estava aparentemente resolvida. Mas faltava um toque final, a humilhação. Porque um drama só se conclui com a humilhação do derrotado e Jorge Jesus, na sua soberba e no seu narcisismo, tinha de humilhar o vencido, outro narciso como ele.

Sem dó, nem piedade, com frieza, humilhou o seu opositor: na conferência de imprensa, após o jogo na Noruega, e na atribuição da camisola com o número 7 a outro jogador. Contrariamente ao que se imaginava, tudo foi executado seguindo o guião da Guerra do Tronos. Para adensar o psicodrama, abriu-se uma nova frente de confronto entre a CNN de Mário Ferreira e a Media Livre, vulgo CMTV, que tem como um dos maiores accionistas Cristiano Ronaldo, o outro interveniente na trama.

Durante dias, os comentadores dos dois lados trocaram insultos e críticas, difundiram notícias inventadas e acusaram o presidente da FPF de ter cedido perante Ronaldo. O espaço televisivo transformou-se, assim, num campo de batalha. A coisa continua mas, por aqui só me apetece imitar o Bugs Bunny do Walt Disney; That’s all, folks!

NOTA: No meio de todo este psicodrama, seria útil que alguém explicasse aos portugueses o que estavam a fazer, em Malmo, os vice-presidentes da FPF, principescamente pagos, com um vencimento inversamente proporcional à sua competência.

O ÁBACO MEDIÁTICO: ENSAIO SOBRE A REDUÇÃO DO MUNDO A FEIJÕES

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A televisão contemporânea em Portugal operou um milagre alquímico inverso ao transformar a complexidade da geopolítica e da governação numa mercearia de pacotilha. No centro desta operação, que coloniza os blocos de horário nobre da SIC Notícias, da RTP-3 e da CNN Portugal, encontram-se os comentadores residentes. Esta casta intocável de ex-governantes, advogados de grandes causas e analistas encartados moldou a sua função social à imagem e semelhança dos antigos contadores de feijões.

O erro do cidadão comum é acreditar que as crises na saúde, as maratonas orçamentais ou as recentes campanhas das Eleições Presidenciais de 2026 são feitas de substância real. O comentador de estúdio sabe perfeitamente que tudo se reduz a unidades contabilísticas discretas. Perante um sobressalto no Parlamento ou uma alteração nas lideranças partidárias, a mente destes analistas não processa o impacto estrutural no país profundo; processa aritmética pura de sobrevivência e tática de bastidores. Cada rutura ou aliança é apenas um bago lançado para cima da mesa de debate, onde o comentador não procura compreender a raiz do problema, mas sim empilhar os grãos em colunas previsíveis de “spin”, ganhos de imagem, perdas de capital político e danos colaterais na próxima sondagem.

A realidade do país deixa de ser um rio caudaloso e passa a ser um saco de feijão-frade que se despeja sofismadamente diante de um pivot acenando com acabeça. Quando o comentador se senta perante o ecrã tático – a célebre Magic Wall que as televisões importaram para simular modernidade tecnológica -, a obsessão assume contornos cirúrgicos. Munidos de percentagens ao milímetro, eles discutem décimas com a gravidade de quem decide o futuro da pátria, usando expressões como “centralidade do espetro”, “geometria variável” ou “narrativa desgastada” como um ruído de fundo que impede o espectador de perceber que o ábaco está, na verdade, completamente vazio.

A maior vantagem desta contagem de feijões em sinal aberto ou no cabo é a sua total imunidade e irresponsabilidade histórica. Ao contrário de um merceeiro de bairro que sofre prejuízos se errar o stock, o comentador televisivo goza de uma infalibilidade divinal: o erro factual cometido no domingo anterior é reciclado na terça-feira seguinte como uma “inevitabilidade de conjuntura”. O contador nunca perde o tacho nem o púlpito porque o público, anestesiado pelo ritmo frenético dos comentadores encartados, esquece a semente da semana passada e aceita que o debate democrático seja reduzido a uma contabilidade aborrecida gerida por especialistas em cenografia política.

Em última análise, ao transformarem a vida pública num jogo mecânico de pequenos grãos partidários, estes analistas garantem que os feijões voltem para o saco no final da emissão, deixando o país exatamente na mesma e provando que a única coisa que realmente se cozinha sob as luzes da ribalta televisiva é o ordenado de quem comenta.

É DIFÍCIL SABER QUEM DECIDE SE VAMOS PARA A GUERRA

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O labirinto burocrático é grande. A Comissão propõe, o Conselho Europeu define orientações, o Conselho da UE e o Parlamento aprovam, os governos nacionais participam. No fim, todos têm uma parcela de responsabilidade e, paradoxalmente, ninguém parece ser inteiramente responsável. Nesta cadeia de comando, apenas os eurodeputados foram eleitos.

O problema torna-se particularmente evidente quando estão em causa decisões de enorme dimensão. Um governo nacional eleito recebe legitimidade para governar, mas uma eleição não é um cheque em branco para todas as escolhas que possam surgir durante a legislatura. Há decisões que, pelas suas consequências e pelo seu alcance, deveriam exigir um mandato político específico. Deveriam ser apresentadas aos eleitores durante uma campanha eleitoral ou, quando a sua dimensão o justificasse, submetidas a referendo. Deveria haver um mecanismo referendário obrigatório para esse tipo de decisões, no âmbito europeu. Não havendo, a decisão de enviar tropas europeias para um cenário de guerra declarada depende, como já vimos, de uma cadeia de comando difusa e fora do alcance da censura eficaz da opinião pública, permanentemente alvo de campanhas de (des)informação onde não existe contraditório possível e onde a culpa da escalada militar é sempre dos outros. No exemplo que apresento agora, a pergunta formulada no documento da UE é meramente retórica. A culpa é dos russos, claro.

O rearmamento europeu é um exemplo evidente das decisões tomadas em nome dos europeus sem que nenhum de nós tenha sido consultado. A União decidiu aumentar substancialmente a despesa militar e a capacidade de produção de armamento. A justificação oficial é a dissuasão: uma Europa militarmente mais forte evitaria um eventual conflito. Mas também é legítimo vê-lo como preparação material para um conflito armado. Seja qual for a interpretação, estamos perante uma mudança estratégica de enorme alcance, com consequências financeiras e políticas que se prolongarão por décadas.

A questão não é saber se a União Europeia tem instituições com competência jurídica para tomar essa decisão. É saber onde receberam o mandato político para a tomar. Nenhum eleitor europeu foi às urnas para escolher entre uma Europa que reforçasse radicalmente a sua capacidade militar e uma Europa que procurasse outra estratégia de segurança. Essa escolha foi feita posteriormente, em nome da União Europeia e dos Estados-membros, com governos eleitos com programas que não colocavam essa questão aos cidadãos.

Esta é uma das zonas mais cinzentas da democracia: decisões que não foram votadas pelos cidadãos podem ser apresentadas como democraticamente legitimadas porque foram tomadas por pessoas que, em algum momento anterior, foram eleitas. A eleição passa assim de mandato para governar a autorização genérica para decidir tudo. Claro que os governos não têm de referendar tudo e mais um par de botas. Mas há decisões que deviam obrigatoriamente passar pelo crivo do voto popular. Há escolhas que não deviam ser legitimadas apenas pela assinatura de quem foi eleito para fazer outras escolhas.

CPLP, UMA COMUNIDADE DE LÍNGUA E DE FUTURO

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Trinta anos depois da sua criação, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa encontra-se perante uma responsabilidade que ultrapassa a celebração do seu aniversário: demonstrar que a língua que aproxima os nossos povos pode também ajudar a construir um futuro de paz, conhecimento, dignidade e desenvolvimento.

O colóquio «CPLP 30 anos – Uma Comunidade de Língua e de Futuro», ofereceu uma oportunidade para essa reflexão. Os seus três painéis — construção política e diplomática, língua portuguesa como activo global e futuro num mundo fragmentado — colocam em debate questões essenciais: o que construímos, como valorizamos aquilo que partilhamos e que Comunidade queremos deixar às próximas gerações.

Criada em Lisboa, em 17 de julho de 1996, a CPLP contou com a Guiné-Bissau entre os seus sete Estados fundadores. Essa participação constitui uma responsabilidade histórica e uma oportunidade que devemos continuar a valorizar.

Para nós, guineenses, este aniversário deve ser ocasião de reconhecimento, mas também de exigência. Pertencer à CPLP deve significar acesso a uma cooperação capaz de produzir mudanças concretas na vida das populações.

Uma construção diplomática que precisa de chegar aos cidadãos

Construir uma organização entre países com percursos históricos, dimensões económicas e prioridades diferentes exige perseverança. A língua facilita o entendimento, mas a cooperação depende de vontade política, instituições funcionais e compromissos cumpridos.

O balanço dos trinta anos deve, por isso, incluir uma pergunta concreta: em que medida a existência da CPLP melhorou as oportunidades de quem estuda, trabalha, investiga, produz ou procura cuidados de saúde?

Uma Comunidade torna-se mais próxima quando um estudante consegue concluir a sua formação, quando um professor recebe instrumentos para ensinar melhor, quando um profissional encontra condições para partilhar conhecimentos e quando uma instituição pública melhora a qualidade dos serviços que presta. É nesse terreno que a diplomacia ganha sentido para o cidadão.

A CPLP assume entre os seus princípios a paz, a democracia, o Estado de direito, os direitos humanos e a justiça social. Esses valores devem orientar uma actuação coerente, através do diálogo, da prevenção de crises e do apoio ao fortalecimento das instituições dos seus membros.

O respeito pela soberania e a solidariedade entre Estados devem favorecer uma cooperação responsável, com capacidade para escutar, compreender e contribuir para soluções duradouras.

A língua portuguesa como instrumento de conhecimento e oportunidade

Este tema recorda-nos que uma língua vive também da imaginação, da memória e da liberdade de contar o mundo. Cada povo acrescenta à língua portuguesa experiências, palavras, sensibilidades e formas próprias de expressão. Essa pluralidade constitui uma riqueza que a CPLP deve preservar.

Na Guiné-Bissau, a valorização do português deve caminhar com o respeito pelo crioulo guineense e pelas demais línguas nacionais. É através delas que muitas crianças descobrem o mundo e que as comunidades transmitem conhecimentos, afectos e valores.

Uma política educativa eficaz deve reconhecer essa realidade e criar pontes pedagógicas que facilitem a aprendizagem. O domínio do português pode ampliar o acesso ao ensino superior, à ciência, à administração e à comunicação internacional, enquanto as línguas nacionais mantêm o seu lugar na identidade e na vida colectiva.

Para transformar esse potencial em oportunidades, precisamos de professores bem preparados, materiais escolares adequados, bibliotecas acessíveis e cooperação universitária continuada. Precisamos também de conteúdos científicos e tecnológicos em português e de maior presença das nossas culturas no espaço digital.

Uma língua comum deve ajudar a reduzir desigualdades no acesso ao conhecimento. O seu valor mede-se também pela capacidade de abrir caminhos a quem dispõe de menos recursos.

O futuro num mundo fragmentado

O papel da CPLP num mundo marcado por tensões, conflitos e interesses cada vez mais difíceis de conciliar. A Comunidade dispõe de uma oportunidade singular de aproximação entre diferentes regiões. Para a aproveitar, deverá reforçar a concertação diplomática e identificar áreas em que a cooperação produza benefícios partilhados.

A segurança alimentar, a saúde pública, a educação, a protecção dos oceanos, a formação profissional e a transição digital oferecem possibilidades concretas de trabalho conjunto.

Para a Guiné-Bissau, essa agenda pode traduzir-se em apoio à produção e transformação agrícola, formação de profissionais de saúde, capacitação de professores, investigação marinha e melhoria da administração pública.

O princípio deve ser claro: cada iniciativa precisa de objectivos definidos, recursos identificados, responsabilidades assumidas e resultados avaliáveis.

Importa também promover uma cooperação económica que ajude os países a produzir mais e melhor, criar emprego e acrescentar valor aos seus recursos. A circulação de conhecimento, tecnologia e investimento deve fortalecer capacidades locais e abrir espaço às pequenas empresas, aos jovens e às mulheres.

A mobilidade merece igualmente atenção. Uma Comunidade aproxima-se dos seus cidadãos quando facilita percursos de estudo, intercâmbio científico e actividade profissional, com procedimentos claros, segurança jurídica e respeito pela dignidade das pessoas.

A perspectiva guineense e a responsabilidade do futuro

A Guiné-Bissau deve participar nesta reflexão com consciência do seu percurso e confiança naquilo que pode oferecer. Temos uma história de luta pela liberdade, uma diversidade cultural valiosa e um património natural que merece protecção e conhecimento. Esses elementos podem alimentar uma participação mais activa na cooperação cultural, científica, educativa e económica da CPLP. Mas essa participação exige também trabalho interno: instituições mais capazes, continuidade nas políticas públicas e melhor preparação para conceber e executar projectos.

A cooperação produz resultados mais sólidos quando encontra prioridades nacionais claras. Cabe-nos identificar o que precisamos, apresentar propostas consistentes e acompanhar a sua realização.

A próxima etapa da CPLP deverá ser construída com maior participação dos cidadãos. Professores, escritores, investigadores, empresários, trabalhadores, jovens e organizações sociais têm experiências e propostas que podem enriquecer o projecto comum.

Trinta anos depois, a língua continua a oferecer-nos um espaço de encontro. Cabe aos nossos países transformar esse encontro em confiança, cooperação e oportunidades.

O futuro da CPLP dependerá da sua capacidade de fazer com que a pertença à Comunidade seja sentida na vida das pessoas. Uma língua partilhada ganha força quando ajuda a construir um futuro igualmente partilhado.

fotografias disponibilizadas no site da Presidência da República portuguesa

TRÊS ANOS DEPOIS

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Gaza, 7 outubro de 2026

Três anos depois, já ninguém pode dizer que não sabe. Israel deixou cair a máscara da “única democracia do Médio Oriente” e mostrou aquilo que durante décadas muitos preferiram não ver: um Estado assente na ocupação, no apartheid e na violência sistemática contra os palestinianos. Em Gaza, o genocídio prossegue diante dos olhos do mundo. A contabilidade oficial dos mortos, já na ordem das dezenas de milhares, é provavelmente muito inferior à realidade de uma destruição que transformou cidades inteiras em ruínas.

O mistério já não é Israel. O mistério são as democracias que continuam a assistir. Estados que fizeram do direito internacional uma bandeira continuam a manter relações políticas, económicas e militares com um Estado que ocupa territórios, promove colonatos ilegais e destrói sistematicamente um povo. Falam de diálogo, de negociações e de uma futura solução política como se ainda estivéssemos perante um conflito convencional entre duas partes equivalentes. Como se fosse possível negociar com quem transforma a destruição do território e a expulsão da sua população num instrumento político.

As sanções são poucas, tardias e quase caricaturais. Incidem sobretudo sobre produtos provenientes dos colonatos ilegais e, mesmo essas medidas mínimas, são recusadas ou adiadas por vários países. É a maneira encontrada pelas democracias para parecerem indignadas sem correrem o risco de incomodar demasiado Israel.

Gaza vai desaparecendo do discurso

O território foi devastado. Casas, hospitais, escolas, ruas, bairros inteiros deixaram de existir. Milhares de pessoas continuam feridas, sem tratamento adequado. Há fome, sede, frio, calor e doenças. Há famílias inteiras a viver em tendas rasgadas, entre escombros, sem saber se terão comida no dia seguinte. E continuam a morrer pessoas.

Mas o mundo parece ter decidido esperar. Esperar por uma solução razoável. Esperar por um novo processo de paz. Esperar talvez que os escombros desapareçam da televisão e que Gaza deixe de incomodar.

Só que Gaza não desapareceu. Continua ali. E cada dia que passa sem uma ação política à altura da dimensão da tragédia transforma a neutralidade em cumplicidade.

Três anos depois, já não há grande coisa para compreender sobre Israel. Falta compreender as democracias que continuam a assistir aos crimes que Israel repete, agora, no Líbano e na Cisjordânia.

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