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O DEBATE SOBRE O ESTADO DA NAÇÃO

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montagem fotográfica

O País era governado pela segunda maioria absoluta do PSD, sendo primeiro-ministro Cavaco Silva. Alguns dirigentes daquele partido entendiam que era necessário dar um forte impulso à liderança e à imagem do governo. Pacheco Pereira, segundo consta, terá sugerido a criação do debate sobre o Estado da Nação. Pretendia dar-se uma imagem diferente da tradicional austeridade de Cavaco Silva. Simultaneamente, o primeiro-ministro, no final da sessão legislativa, elencaria os feitos de um ano de trabalho e perspetivava o novo ano político. A ideia de Pacheco Pereira, era criar um momento semelhante ao discurso do trono, do Parlamento do Reino Unido.

De acordo com a letra da Lei, já na versão actual, o debate sobre o Estado da Nação na Assembleia da República tem como objetivos principais: prestar contas sobre a acção governativa, avaliar as políticas públicas e os resultados económicos, discutir os desafios do país e definir prioridades para o futuro.

A verdade é que, por falta de cultura democrática e de tradição, nunca os objectivos foram cumpridos e, ao longo dos anos, foi-se degradando e perdeu, por completo, o fim que se pretendia alcançar.

A responsabilidade pelo falhanço cabe aos governos e aos partidos da oposição que, por oportunismo político, na procura de um sound bite para a época estival, nunca entenderam o alcance desta iniciativa, rapidamente transformado num debate quinzenal, igual a tantos outros.

E chegámos ao último debate sobre o Estado da Nação, que foi confrangedor.

O governo e os partidos da oposição entretiveram-se a discutir a incompetência do ministro da Educação e as trapalhadas da Administração Interna. O debate foi um repositório de insultos, sem qualquer proposta para o País.  O confronto apenas teve por objectivo obter alguns ganhos políticos para alimentar os media e as redes socias.

ministro da Educação
ministro da Administração Interna

A incompetência do ministro da Educação deve ser escrutinada, as trapalhadas que envolveram o ministro da Administração Interna, que tem o pecado original de afrontar os sectores mais radicais da política portuguesa, devem igualmente ser escrutinadas. Mas, para isso, existem os mecanismos próprios, previstos no Regimento da AR. Usar aquele tempo no Parlamento para discutir aqueles dois temas, sem a preocupação de fazer a autópsia do cadáver ambulante em que se transformou este governo, é uma perda de tempo. O debate sobre o Estado da Nação é mais do que isto. E, enquanto os partidos não entenderem esta realidade, a democracia sai prejudicada.

DIREITOS HUMANOS OU CONTA BANCÁRIA?

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A 2 de junho de 2026, o Tribunal Central Criminal de Lisboa determinou a suspensão da pena única de 13 anos de prisão aplicada a Ricardo
Salgado em cúmulo jurídico (referente às condenações nos processos EDP e Operação Marquês). Esta decisão foi tomada após ter sido dado como provado que o ex-banqueiro sofre de doença de Alzheimer e de uma “anomalia psíquica”, o que o impede de compreender o alcance da pena.

A suspensão da execução da pena está sujeita à apresentação de relatórios médicos semestrais que documentem a evolução da sua condição. Esta decisão resultou do cúmulo jurídico que englobou as condenações anteriores (6 anos e 3 meses no caso EDP e 8 anos na Operação Marquês).

Este é o teor de uma notícia, veiculada por toda a Comunicação Social e recebida com espanto e muitas reservas. Desde logo porque falamos de casos relacionados com a insolvência de um Banco com administração presidida, com mão de ferro, por este condenado e que causou prejuízos de vários milhares de milhões de euros. Há quem diga que os números ultrapassam o valor dos crimes cometidos por todos os reclusos nas nossas 49 cadeias.
Depois porque as penas só podem ser suspensas quando não ultrapassarem os cinco anos. E treze quase triplicam esse número. A decisão, segundo os juízes, baseia-se no agravamento da doença de Alzheimer do ex-banqueiro, concluindo o tribunal que este não tem capacidade para compreender o alcance da pena. Uma decisão que se baseia na defesa dos Direitos Humanos, o que qualquer cidadão deve apoiar sem reservas.
A pena de prisão tem como base a reabilitação do condenado e a sua punição. Num país onde não há prisão perpétua nem, muito menos, pena de morte, a reabilitação tem de ter o papel principal para se assegurar que o condenado sairá da prisão se não totalmente recuperado pelo menos melhor do que quando entrou.

A punição servirá para que este e a comunidade percebam que não se sai incólume de um crime. Porém, como reabilitar um recluso que não tem noção do local onde se encontra, não percebe o que faz num local que lhe é estranho, não tem, sequer, noção de que está a ser punido por delitos cometidos e que não recorda? Qualquer defensor do respeito pelos Direitos Humanos, como é o meu caso, estará de acordo com esta decisão.

Mas…
E os juízes do Colectivo que o julgou, estarão? A pergunta parece descabida porque foram estes que a tomaram mesmo sabendo que seria, por muitos, contestada. No entanto eu tenho essa dúvida. Porquê só agora, porquê só neste caso, porquê só com este arguido? Nas nossas cadeias há centenas e centenas de reclusos condenados por delitos de muito menor importância, muitos deles a menos de treze anos, muitos deles com penas inferiores a cinco anos (o que permitiria que a pena fosse suspensa sem qualquer reserva) com doença idêntica à de Ricardo Salgado e alguns com situação clínica incomparavelmente mais grave.

Porquê, então, esta preocupação com os Direitos Humanos num único caso? Será para servir de exemplo e levar os Tribunais de Execução de Penas a analisar os casos de reclusos com Alzheimer e cancro, por exemplo, muitos em estado terminal, para que as suas penas passem a suspensas ou, no mínimo, a prisão domiciliária?
E os inimputáveis que estão nas nossas prisões, sem fazerem noção de onde se encontram? Serão mandados para casa, ou para hospitais indicados para a sua doença?
O que levou, realmente, à decisão no Acórdão de Sentença de que estou a falar? Ricardo Salgado ficou livre da cadeia pelo respeito aos Direitos Humanos ou pelo saldo das suas contas bancárias? Penso ser uma pergunta legítima e não sou eu a ter de lhe dar resposta.

CONTRA A GUERRA: GREVE DE SEXO

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fotomontagem

De facto, qualificar de ‘linda’ uma peça teatral sugere algo de «vistoso», quiçá «espampanante», a arriscar que só a aparência seja tida em consideração. Arrisco. É que esta versão de uma comédia milenar, do tempo da guerra entre Atenas e Esparta, na Grécia Antiga, surpreendente versão dramatúrgica de Miguel Graça, é bonita de se ver, sim, mas constitui, sobretudo, o que de mais genuinamente experimental uma companhia experimental poderia apresentar.

Tem roupagens (cenográficas, por exemplo, para já não falar do apropriado guarda-roupa) da “revista à portuguesa”, certo; a Voz (Ana Ester Neves) até pode assumir o papel do compère; mas a sábia adaptação a uma Prova de Aptidão Profissional seduz.  Na verdade, importava que cada um dos finalistas da Escola Profissional de Teatro de Cascais fosse, de per si, posto à prova em todos os itens: movimentação, gesto, expressão corporal, voz… E, quando a Voz (à maneira dos antigos coros gregos, misteriosa como eles…) o chama pelo número – «Corpo nº X» – no início de cada cena, o actor sabe que é a sua vez de mostrar o que vale, olhos e ouvidos estão inteiramente postados nele. Actuação individual aí; actuação em conjunto, a maior parte das vezes, no decorrer da acção, cantando, bailando em sincronizado movimento.

Para a beleza contribui – pode parecer mentira… – a habitual nudez do ambiente criado, justamente pelo contraste, acentuado pela diversidade, exuberância e originalidade dos figurinos (desenhados por Fernando Alvarez, executados por Rosário Balbi). À plataforma elevada, ao fundo,(a «Acrópole», se acede por uma rampa, dum lado, e por uma escada, do outro. Aos lados, esquemáticas ‘casas’ para onde os actores de vez em quando se retiram.

O tema – sabe-se! – é bem dramático: os horrores da guerra, a inutilidade dos conflitos armados. Ontem e hoje! Assim, pois, como quem não quer a coisa, fixando a atenção num “pormenor”, que, afinal, não será assim tanto de somenos como pode dar-se a entender: a natural necessidade de satisfação sexual tanto do homem como da mulher, devida à longa ausência do parceiro nas lides guerreiras. Plenamente justificada a ‘greve’ feminina proposta por Lisístrata e aceite pelas atenienses: nada de sexo, enquanto a Paz definitivamente se não firmar!…

Muito gostaríamos nós que, rapidamente, a deposição das armas se concretizasse para dar lugar a uma paz duradoura. Lisístrata e as mulheres venceram, a «guerra do sexo» venceu a das armas.

Escreve Miguel Graça no seu bem elucidativo texto da folha de apoio:

“A Voz não parece ter autoridade por mérito, tem-na porque alguém a colocou numa situação de poder. Observa, convoca, distribui instruções, corrige, interrompe e classifica. Trata o espectáculo como se fosse uma audição ou uma experiência de laboratório. […] Tem uma linguagem fria, técnica e quase administrativa. […] Limita-se a definir o que deve acontecer e as condições em que cada corpo pode existir.

Antes de serem personagens, os actores são, por isso, chamados Corpos. […] No entanto, aos poucos, aquilo que parece ser apenas um exercício começa a transformar-se. Os Corpos ganham voz, relação, conflito, desejo e capacidade de agir […].”

É essa passagem que organiza esta versão cénica: do campo observado ao actor em acção. Lisístrata continua a ser uma peça sobre mulheres que obrigam os homens a parar a guerra, mas torna-se também, aqui, uma peça sobre jovens actores que aprendem a falar, a falhar e a descobrir uma vontade própria.

Talvez a Comédia sirva ainda para isso: mostrar que nenhuma autoridade é tão sólida como parece quando encontra diante de si corpos vivos, capazes de rir, de desejar e de desobedecer a uma ordem que os quer cada vez mais formatados, previsíveis, inofensivos e iguais».

Esta 192ª produção do Teatro Experimental de Cascais teve encenação de Manuela Couto, assistida por Rodrigo Aleixo. A azougada coreografia é de Rita Speider. A bem adequada música é agradável original de Tomás Alves.

Além dos 24 alunos finalistas da EPTC, temos em cena actores da Companhia: Teresa Côrte-Real (a consubstanciar aqui, como mulher de limpeza, a memória do Teatro, do ‘seu teatro’), Luiz Rizo e Sérgio Silva.

Em cena, no Teatro Municipal Mirita Casimiro (Monte Estoril), de terça a sábado às 21 horas e ao domingo às 16. Até dia 26.

É habitual dizer-se: «A não perder!». Repito: é mesmo a não perder. E até me atrevo a acrescentar mais uma razão: porque esta versão da Lisístrata, peça apresentada pela primeira vez em 411 a. C. (isto é, há 2500 anos!…), mostra à evidência que o Teatro jamais pode morrer!  

A BANDEIRA E O SILÊNCIO

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Cada um tem o direito de escolher as suas causas. Mas quem escolhe o silêncio também faz uma escolha. E quando esse silêncio vem de quem tem centenas de milhões de seguidores nas redes sociais, deixa de ser apenas uma opção pessoal: transforma-se numa posição com inevitável significado político.

Foi um jovem de 19 anos quem decidiu lembrar ao mundo que o futebol também pode ter consciência. Fê-lo erguendo a bandeira da Palestina e usando um keffiyeh, não para dividir, mas para chamar a atenção para um povo massacrado, há décadas sujeito a bombardeamentos, fome, deslocações forçadas, destruição, genocídio.

Erguer a bandeira da Palestina não é apenas erguer uma bandeira. É um gesto de humanidade. Não se pode negar que, perante uma das maiores tragédias humanitárias do nosso tempo, a neutralidade não é neutra e o silêncio é cúmplice.

O futebol nunca andou longe da política ao contrário do que alguns dizem. Os campeonatos do mundo servem para projetar países, líderes, marcas e interesses. Às vezes também servem para lembrar que ainda existem jogadores dispostos a usar a visibilidade para algo mais do que vender botas ou bebidas energéticas.

Lamine Yamal fê-lo. Cristiano Ronaldo não. Yamal celebrou com a bandeira da Palestina no mesmo espaço onde se encontrava Donald Trump, um dos mais firmes aliados da política israelita. Há pouco tempo, Cristiano Ronaldo confessou a sua grande admiração pelo Presidente dos EUA. Há um abismo entre eles.

OS INVISÍVEIS INDISPENSÁVEIS DO SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE

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Ao longo dos últimos anos, estes trabalhadores assistiram a sucessivas alterações da sua designação profissional. Foram Auxiliares de Ação Médica, passaram a Assistentes Operacionais e, desde a publicação do Decreto-Lei n.º 120/2023, integram a carreira especial de Técnico Auxiliar de Saúde. Muitos esperavam que esta mudança significasse uma verdadeira valorização da profissão. Contudo, segundo inúmeros testemunhos, a realidade quotidiana pouco mudou.

Continuam a desempenhar funções indispensáveis junto dos doentes, garantindo a higiene, o conforto, o transporte de pessoas vulneráveis, a preparação de materiais e espaços clínicos, a colaboração com médicos e enfermeiros e inúmeras outras tarefas essenciais para que os cuidados de saúde possam ser prestados com segurança e dignidade. Sem o seu trabalho silencioso, o funcionamento das instituições de saúde seria impossível.

Apesar disso, muitos destes profissionais afirmam sentir-se desvalorizados. Denunciam a escassez de recursos humanos, equipas insuficientes para responder ao crescente grau de dependência dos doentes, horários exigentes, desgaste físico e emocional e remunerações que consideram desproporcionadas face às responsabilidades assumidas.

A sua missão não termina nos momentos de esperança. São também eles que acompanham os doentes nas horas mais difíceis, prestam apoio às famílias, colaboram na preparação dos corpos após a morte e realizam tarefas que poucos querem ver, mas que todos reconhecem como necessárias. Trata-se de um serviço profundamente humano, exigente e marcado por uma enorme carga emocional. Também eles precisam do sol que afague a sua vida para o poderem transmitir melhor em rostos ensombrados pelas circunstâncias.

É legítimo perguntar se uma profissão com estas características não merece um estatuto mais digno, melhores condições de trabalho, oportunidades reais de progressão na carreira, reconhecimento do desgaste inerente às suas funções e formação contínua devidamente valorizada.

Não se trata de estabelecer hierarquias entre profissionais de saúde. Médicos, enfermeiros, técnicos superiores, assistentes técnicos e técnicos auxiliares formam uma única equipa, onde cada elemento é indispensável. A qualidade dos cuidados depende precisamente dessa cooperação.

Uma sociedade mede-se também pela forma como trata aqueles que trabalham diariamente ao serviço dos mais frágeis. Os Técnicos Auxiliares de Saúde não pedem privilégios. Pedem respeito, valorização e condições que lhes permitam exercer a sua missão com dignidade.

Talvez tenha chegado o momento de deixar de falar apenas dos protagonistas mais visíveis do Serviço Nacional de Saúde e dar voz àqueles que, discretamente, sustentam uma parte essencial do sistema. Porque os invisíveis indispensáveis merecem, finalmente, ser vistos e mais reconhecidos pela política, pelo sistema e pelo público.

RISINHOS E PALMATÓRIAS

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Luís Montenegro na Escola Secundária Afonso Domingues, montagem fotográfica

A minha perplexidade mais recente foi ver o debate sobre o Estado da Nação, na semana passada. Quando se discutia Educação e outras matérias importantes, vejo o primeiro-ministro, em lugar de estar a ouvir os deputados, a rir para um lado e outro. Comentava, em segredinhos e risadinhas, sabe-se lá o quê, mas que não seria, certamente, o Estado da Nação. Esse, de facto, não tem graça nenhuma. Portanto, tudo lhe valeu risinhos, alguns cínicos, e segredinhos, tal como terá feito na escola primária com os coleguinhas de carteira. Pena foi não estar ali uma mestre-escola das antigas que lhe atirasse a ‘menina de cinco olhos’…

Entretanto, os factos revelaram que o Estado da Nação no que se refere à Educação é caótico, em todos os níveis. O futuro do próximo ano escolar está seriamente comprometido, mas parece que o governo ainda não entendeu isso. Caótica é também a situação do ministro da Administração Interna. O silêncio, aqui, é o pior. Se há explicações a dar no que respeita a eventuais crimes, que elas sejam dadas. Luís Neves merece que as ouçamos e nós precisamos de o ouvir.

Por outro lado, ouvi falar, da parte do governo, das ‘maravilhas’ operadas nos últimos anos. ‘Maravilhas’ que se confrontam com a dura realidade do dia-a-dia: pessoas sem casa e que não são os tradicionais sem-abrigo, pais com filhos adultos, que não podem casar e ter filhos, desempregos de longa duração, ordenados de miséria e impostos que não param de subir.

A novidade da Lei das Rendas que torna os despejos mais céleres e os aumentos mais frequentes. Uma festa, portanto, para este governo que se traduz na cada vez maior descrença do povo português.

Para aproveitar a boleia do governo, o presidente da Câmara de Lisboa não hesitou: deu duas semanas a pessoas sem-abrigo para abandonarem escola onde vai acontecer o Festival Iminente. São seis os habitantes da antiga Escola Industrial Afonso Domingues, que ali vivem há vários anos e agora souberam que têm de sair até 31 de Julho, dado que o festival de arte urbana é em Setembro. A organização do certame, por seu turno, diz que resposta social compete à câmara. Não deixa de ter razão. A questão é se esta câmara existe mesmo…

Uma equipa de técnicos foi comunicar o despejo aos sem-abrigo, mas não foi tratar do seu alojamento futuro. É a tal câmara que não se percebe se existe…

Em todo o caso, este despejo contraria as declarações de Juliana Almeida, diretora e porta-voz do Festival Iminente, ao Observador, no final de Abril. O jornal publicou uma reportagem que explicava que as pessoas que ali viviam receavam ser forçadas a sair do espaço, na sequência da colocação de uma placa da autarquia a anunciar o encerramento das vias de acesso à escola. A responsável pelo festival garantiu, então, que o plano ideal era integrar as pessoas ali residentes, admitindo mesmo a ‘possibilidade’ de fazer o festival com pessoas a viver naquele lugar.

Aliás, em declarações ao mesmo jornal, a responsável acentuou que ‘da parte do Iminente, a posição não mudou. Nunca exigimos, nem exigimos agora, que estas pessoas saiam’, referiu. E acrescentou que ‘a realização do festival não depende da desocupação do edifício, e o projeto de implantação está a ser preparado de forma a não ocupar os espaços onde estas pessoas vivem, nem perturbar o seu quotidiano’.

Juliana Almeida afirmou também que ‘as decisões sobre o imóvel e sobre o alojamento cabem à Câmara e às entidades sociais competentes. O nosso compromisso é o mesmo desde o primeiro dia: ninguém sai por causa do festival sem uma alternativa digna e individual, que possam conhecer e avaliar antes de decidirem’.

E sublinhou: ‘o festival não condicionou a realização do evento à saída de quem ali vive, nem teria poder para o fazer: o edifício é público, pertence ao Estado, esteve cerca de dezasseis anos ao abandono e está destinado à demolição no âmbito dos acessos à Terceira Travessia do Tejo. Não somos proprietários do espaço e não desalojamos, nem podíamos desalojar, quem quer que seja’.

Agora pergunto: percebe-se o que é um governo que não existe? E uma câmara que, se dúvidas houvesse quando se olha para Lisboa, também não?

Ao menos, nas telenovelas turcas só há uma pessoa malvada. É certo que condiciona a vida de muitos e transforma alguns bonzinhos. Mas o enredo, no essencial, é sempre o mesmo. Por isso, vou continuar a ver as ditas séries e deixar os noticiários onde só há mauzinhos.

vídeo sobre a Escola Secundária Afonso Domingues

A DITADURA DO SILÊNCIO PRODUTIVO

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A suspensão entre o produzir e o respirar surge aqui como o drama supremo. A paz anuncia-se como um “aroma de incenso biológico num espaço aberto (openspace)”, uma espécie de óleo essencial caro que os Recursos Humanos borrifaram no corredor, mas cuja fragrância não apaga o odor a desespero do prazo que termina às seis da tarde. Movido por uma “vontade de desempenho”, o nosso herói não quer apenas trabalhar (o que seria demasiado vulgar); ele quer “cocriar sinergias com o universo”. Quer chegar onde? Ao “centro do foco”. Há uma glorificação da resiliência como detergente do cansaço humano, transformando a exaustão num troféu de pureza profissional. O colapso nervoso deixa de ser uma crise médica e passa a ser um manifesto estético no LinkedIn.

O ruído é o mestre. Existe um medo terrível do silêncio, ou seja, o pavor de que, ao desligar as notificações, o mistério da sua relevância social se revele apenas um e-mail vazio ou falta de reuniões que podiam ter sido um memorando. O executivo quer ser um espelho de águas calmas, mas apenas se puder monitorizar os batimentos cardíacos no relógio inteligente. É a recusa deliberada da simplicidade; afinal, se a agenda estivesse limpa, ver-se-iam os dias pequenos e a irrelevância comum das tarefas diárias. O sujeito prefere a névoa dos conceitos em inglês, a ruína dos fins de semana e a certeza de que é indispensável. Há um fetiche aristocrático na urgência: “estou sem tempo”. O trânsito, a biologia e a velhice encarregar-se-ão de o travar, sem necessidade de tanta aplicação de meditação.

No final, resta o “puído ecrã dos domingos à noite”. O tempo passa pelo sujeito como se ele fosse um gráfico de barras numa apresentação, uma queixa existencial clássica contra a inteligência artificial que, teimosamente, recusa reconhecer a superioridade do sofrimento humano. Mas no crepúsculo da semana, antes que a inércia vença, há a “audácia do retiro espiritual”. A inscrição num workshop de silêncio para encontrar a alma do “líder interior” e transformá-la num “abismo partilhado” de mentoria — o que soa perigosamente a cobrar dois mil euros a alguém para partilhar o mesmo nível de perplexidade face à vida.

A grande revelação filosófica surge na avaliação de desempenho, num golpe de mestre que anula todo o misticismo anterior. A ilha prometida, o equilíbrio perfeito entre a vida pessoal e profissional nunca esteve longe. Descobrimos, após meses de sumos verdes, banhos gelados e aplicações de produtividade, que o sujeito esteve apenas a fazer marcha no mesmo lugar. A odisseia da evolução pessoal reduz-se ao sublime ato de organizar meticulosamente a lista de tarefas que nunca vai realizar, fingindo que a pressa é o infinito.

Caos Cooperativo (Criação ChatGPT)

DE FÉRIAS NO ALGARVE

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Passeia-se o jovem envergando a camisola número 7 do RONALDO, embora não seja português; o senhor acolá vestiu hoje a de MESSI; aqueloutro tem a NEWMAN JR 10; mais adiante, CURRY 30 (número da camisola do base dos Golden State Warriors, o considerado o melhor atirador da história da NBA); GARRO 10 é do renomado jogador do Corinthians. Camisolas, aliás, há-as de todas as cores e feitios, com os mais díspares e desconcertantes dizeres gravados; a maior parte claro, aparente ou realmente adquiridas em viagem a destino turístico estrangeiro de renome, a denunciar ser viajado o seu possuidor. Uma senhora encorpada mostra «Lost in Río», seguramente a sugerir romance (compreende-se) inexistente, porque não só a senhora se não perdera no Rio de Janeiro, como também, se aí a comprara (mau gosto do vendedor) não estaria perdida mesmo.

De interesse sociológico para o cronista se revela o despistar das nacionalidades. Só autorizada consulta ao rol dos hóspedes podia dar, em cada dia, o requerido panorama. A preguiça sugere, porém, que tente descobrir por si, embora também os membros da «Animação» não estejam com meias-medidas: é português e em inglês as línguas em que se exprimem e quem não entender que reclame. Mas, aqui, português é só de quando em quando que se ouve entre os veraneantes. De vez em quando, para jubilo do cronista, octogenário com 5 anos de Francês na Escola Secundária, lá se topa família francesa. Numa delas, porém, a senhora mais idosa envergava camisola com o dístico «From Paris with love»! Ora toma!

Temos ainda outros indicadores, para além do linguajar. Assim, aquele senhor avantajado, a comer, ao pequeno-almoço, quatro ovos estrelados só pode ser norte-americano!…

Dos empregados há seguramente em todo o lado, para a área das limpezas, uma maioria africana das ex-colónias. Nos serviços de mesa e balcão, o pessoal de Leste, (permita-se-me a expressão): romenos, moldavos, ucranianos, croatas… Boa parte deles já a pronunciarem bem o português, a anunciar não apenas a vontade de ficar, mas também a compreensão de que poderá ser a melhor hipótese.

Ia-me esquecendo dos brasileiros. Compreende-se, por se estar já dentro da paisagem normal. A mim, nesse âmbito, como epigrafista – a quem naturalmente o fenómeno da identificação não pode deixar indiferente – o que me espanta é a facilidade com que. no país irmão, se admitam nomes tão estranhos, boa parte das vezes resultantes não apenas da má compreensão oral. Saúdo aí a adopção de antropónimos clássicos, ainda que inusuais no dia a dia: Arquimedes, Sófocles, Aristóteles… Um hino, assim, à prístina identidade clássica. Veja-se, porém, em contrapartida: Janaina Claret (do Rio de Janeiro), Dieniffe Chaves (de Minas), Gerci Inácio (de Minas também)… Perdem-se identidades.

Há os letreiros. Frases lapidares, duas ou três palavras, mensagem curta em letras capitais, a facilitar a leitura e a compreensão; por isso, em suporte rígido: uma placa, uma parede… Sempre em português e em inglês. Hoje, porém, numa estância balnear, há letreiros nos corpos humanos. E, aí, as tatuagens não são apenas desenhos, figuras; no caso da escrita, há de tudo: datas, antropónimos, frases célebres e até, ao que parece, fragmentos de poemas em zonas do corpo apenas visíveis em biquíni, no quotidiano bem escondidas.

A ECONOMIA DA EXPERIÊNCIA

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Durante décadas, um profissional aprende a decidir, a resolver problemas, a lidar com crises, a compreender pessoas e a distinguir o essencial do acessório. Esse património não consta dos balanços das empresas nem das contas nacionais, mas representa uma riqueza incalculável. É um capital construído ao longo de uma vida inteira.

Quando uma sociedade afasta sistematicamente os seus cidadãos mais experientes apenas porque atingiram determinada idade, não está apenas a cometer uma injustiça social. Está a praticar um enorme desperdício económico.
Formar um bom médico, um professor competente, um engenheiro, um gestor, um jornalista ou um técnico especializado exige anos de investimento público e privado. Porém, quando esses profissionais atingem a idade da reforma, o sistema comporta-se como se todo esse investimento deixasse, de repente, de ter valor. É uma lógica difícil de compreender.
Nenhuma empresa sensata destruiria deliberadamente uma máquina ainda perfeitamente operacional. Nenhum agricultor arrancaria uma árvore que continua a dar bons frutos. No entanto, fazemos exatamente isso com milhares de pessoas que continuam plenamente capazes de ensinar, aconselhar, criar e produzir.

A experiência reduz erros, evita riscos desnecessários e melhora a qualidade das decisões. Não substitui a energia dos mais jovens, tal como a juventude não substitui a sabedoria adquirida. Ambas são indispensáveis. A verdadeira inteligência organizacional nasce da colaboração entre gerações, e não da substituição de umas pelas outras.

Os países que aprenderem a aproveitar este património humano estarão melhor preparados para enfrentar os desafios do envelhecimento demográfico, da escassez de mão de obra qualificada e da crescente complexidade das decisões económicas e sociais.
Talvez tenha chegado o momento de deixarmos de olhar para a idade apenas como um indicador estatístico e começarmos a vê-la como um indicador de capital acumulado.
A experiência não pesa nas contas públicas. Pelo contrário: pode representar uma das maiores fontes de riqueza de uma sociedade madura.
A economia do futuro não será apenas a economia da tecnologia ou da inteligência artificial. Será também a economia da inteligência humana acumulada. E essa inteligência não desaparece com a idade. Pelo contrário, aperfeiçoa-se com ela.

As sociedades verdadeiramente inteligentes serão aquelas que compreenderem que o conhecimento adquirido ao longo de uma vida não é um custo a suportar, mas um património a preservar. Porque a experiência, quando é reconhecida e colocada ao serviço dos outros, transforma-se na forma mais nobre e mais rentável de capital

TRUMP FALOU DE INTERFERÊNCIAS DA CHINA E DA RÚSSIA NAS ELEIÇÕES AMERICANAS

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grafismo e montagem fotográfica

As palavras importam. Entre uma campanha de propaganda nas redes sociais e a adulteração de votos existe um abismo. Chamar ‘interferência’ às duas coisas sem as distinguir pode ser uma forma de confundir os cidadãos e de os preparar para aceitar mudanças profundas nas regras do jogo eleitoral.

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Antes de tudo, talvez convenha colocar a questão da forma mais simples possível. Trump anunciou documentos que, segundo afirma, provarão interferências da China, da Rússia e do Irão nas eleições americanas. Mas a primeira pergunta não é se esses documentos existem. A primeira pergunta é outra: de que interferência está Trump a falar? Porque “interferência” pode significar muitas coisas.

Quando ouvimos o Presidente dos Estados Unidos afirmar que potências estrangeiras interferiram nas eleições, é natural imaginar o pior: urnas adulteradas, votos alterados, máquinas eletrónicas manipuladas, resultados falsificados. Seria um atentado direto à democracia.

Mas será disso que se trata? Até hoje, não foram apresentadas provas públicas de que qualquer potência estrangeira tenha alterado a contagem de votos numa eleição presidencial norte-americana. Nem a Rússia, nem a China, nem o Irão. Nem ninguém.

O que as agências de informação americanas têm descrito ao longo dos últimos anos é algo diferente: campanhas de influência. Contas falsas nas redes sociais, bots, publicidade dirigida, desinformação, divulgação de documentos obtidos por meios ilícitos, amplificação de temas que dividem a sociedade americana. Em suma, tentativas de influenciar a opinião pública. É uma diferença fundamental, até porque não será preciso vir um chinês para fazer esse tipo de ações políticas. Influenciar um eleitor não é o mesmo que manipular o seu voto.

Caso contrário, seria necessário concluir que todos os dias há interferências nas eleições americanas: pela Fox News, pela CNN, pelos grandes grupos económicos, pelas plataformas digitais, pelos sindicatos, pelas igrejas, pelas universidades, pelos milionários que financiam campanhas eleitorais e pelos próprios partidos políticos.

E há uma ironia difícil de ignorar. Os Estados Unidos acusam frequentemente outros países de procurarem moldar a opinião pública americana. Ao mesmo tempo, Washington investe há décadas milhões de dólares em programas de “promoção da democracia”, apoio a meios de comunicação, organizações não-governamentais, fundações e projetos políticos espalhados pelo mundo. Uns chamar-lhe-ão diplomacia. Outros chamar-lhe-ão influência política. Em muitos países, chamar-lhe-ão ingerência.

É por isso que os documentos prometidos por Trump terão de ser lidos com extremo cuidado. Se neles estiver escrito que a China desenvolveu campanhas de influência nas redes sociais, isso não equivale a dizer que a China alterou o resultado das eleições. Se neles constarem operações de propaganda atribuídas à Rússia, isso não significa que a Rússia tenha manipulado urnas ou contado votos.

Antes de aceitar conclusões bombásticas, talvez valha a pena exigir respostas a perguntas muito simples: quem ordenou esta investigação? Que tipo de interferência procurava? Que metodologia foi utilizada? E, sobretudo, estamos perante provas de fraude eleitoral ou apenas perante evidências de operações de influência, algo que, em maior ou menor escala, faz hoje parte da disputa geopolítica entre as grandes potências?

Tudo isto pode ser um mero jogo de palavras. Neste tipo de política, a verdade pouco importa.