Início Site Página 2

O MOINHO DA “TIA MICAS MOLEIRA”

0
Moinho da Tia Micas

Corria à beira de Viseu uma ribeira a que alguns chamavam rio e ao qual deram o nome de Pavia. Chegava à cidade quase seco no Verão e os camponeses com hortas na Ribeira desviavam com açudes a água para as hortas, impedindo assim os moinhos que ficavam a jusante de moer o pão de milho de que a cidade carecia. Travaram-se de lutas, moleiros e camponeses, sem que entre eles dirimissem a questão.

Diz a lenda que os moleiros levaram suas queixas ao Tribunal do Rei e que, ao tempo, fizeram a promessa a S. João de que fariam anualmente uma romagem à sua Capela da Carreira, nas margens de Viseu, caso o Rei decidisse a seu favor. E o Rei, ouvidas as partes, decidiu a seu favor.

Nasceram, deste modo, as Cavalhadas do dia de São João, o dito Santo Precursor, como chamam ali, ao padroeiro. E o Moinho da Tia Micas Moleira, que é agora uma “casa de memória”, é o sítio certo para o contar desta história. E de todas as histórias da gente de Vildemoinhos.

Dos cesteiros, dos canastreiros, das tecedeiras das colchas e dos graciosos tapetes de lã. E dos seareiros que lavravam a terra para a semente crescer. E de tantas mais histórias de moleiros. E de padeiras. E de forneiros. E essa história linda do fazer do pão – a “broa” de milho, a broa trambela, que era o pão do dia-a-dia que as padeiras iam vender à praça de Viseu.

Histórias do peneirar do pão, do amassar da farinha, do lento levedar da massa na masseira, do aquecimento do forno com lenha de pinheiro, da broa a ganhar, dentro do forno, a cor do ouro e, depois, a encher de poesia o tabuleiro. E a festa que era cada refeição!… O velho Moinho da Tia Micas Moleira, à beirinha do rio, é agora o fiel contador destas histórias, da gente, do rio, da terra e do trabalho. É viva memória. Um património. Um museu.

O moinho da “Tia Micas Moleira”, antes de ser, como agora é, um contador de histórias, era um moinho como os outros. À beirinha do rio, dois “caboucos” onde a água saltava batida pelas penas do rodízio que girava e que através de um veio fazia girar a mó andadeira sobre o “pé”, que era a mó dormente.

O nome verdadeiro da Tia Micas Moleira era Maria de Jesus Ferreira (1915-1994). Nasceu em Órgens e casou em Vildemoinhos com o senhor Francisco Cândido. Ele era filho de moleiros. Ela não. Mas aprendeu. Ficou moleira.

Habitaram a casinha, que ficava por cima do moinho. Francisco Cândido trabalhava de canteiro. Saía de madrugada. Deixava a moega carregada com 200 kg de milho. Tia Micas vigiava o cantar das mós. Esperava os fregueses. Recebia o grão. E entregava a farinha. Como paga, tirava a “maquia”. Era séria, alegre e bondosa. E chamaram-na Tia Micas, Tia Micas Moleira, como se fosse da família. Nasceram os filhos. E, para eles adormecerem, as mós passavam a noite a cantar. À noite, o moleiro enchia a moega. Nem havia tempo para a mó descansar. E velavam. Não fosse a água faltar, não fosse o grão deixar de saltar.

Um dia, a Tia Micas Moleira ficou viúva. E permaneceu moleira. Servia os fregueses. Até que ficou cansada. Fechou as cales, parou o rodízio. Quedaram-se as mós. Os filhos da Tia Micas Moleira não quiseram ser moleiros. E já não havia fregueses nas aldeias. A farinha, à cidade, chegava de outros mercados.

Mas teve sorte, o moinho. Um genro da Tia Micas, o Firmino Toipa, que é um filho de adopção, aprendeu a arte, recuperou o moinho e fez dele um MUSEU.

Firmino Toipa
Escolas visitam o moinho-museu
O museu

LADRÃO RICO, MALVADO POBRE

0
Ricardo Salgado em Cascais, Evaristo Martinho na prisão

O contraste é tremendo. Ao lado de Ricardo Salgado escolhemos o caso de Evaristo Martinho. Comparar estes dois é perceber como funciona a justiça portuguesa quando a velhice entra num tribunal. Um banqueiro octogenário condenado por crimes financeiros relacionados com o desvio de milhões é considerado incapaz de cumprir pena devido a uma doença degenerativa. Um reformado de 76 anos, condenado pelo homicídio racista de Bruno Candé, não deverá ter tempo de vida para sair pelo seu pé da prisão.

É evidente que os crimes não são comparáveis. Um matou um homem. O outro participou no colapso financeiro de um banco que arrasou com milhares de vidas. Mas o debate não está nos tipos de crime que foram cometidos. O debate está na forma como o sistema escolhe reconhecer, ou ignorar, a degradação mental dos arguidos idosos.

Bruno Candé, assassinado por Evaristo Martinho
Ricardo Salgado não irá cumprir pena na prisão

No caso de Evaristo Martinho, quem avaliou verdadeiramente a condição neuropsiquiátrica dele? Quem procurou sinais de demência, deterioração cognitiva ou incapacidade de discernimento? Aos 76 anos, essas hipóteses não são extravagantes. São banais. O tribunal concluiu que o homicídio foi premeditado, maturado, executado com consciência. E talvez tenha sido. Mas também ninguém quis descobrir mais.

Já no caso de Ricardo Salgado, o país assistiu a uma sucessão de perícias, relatórios médicos, pareceres especializados e avaliações clínicas minuciosas. O sistema judicial mobilizou toda a sua sofisticação para determinar se o antigo banqueiro compreendia o alcance da pena que lhe era aplicada.

O que se passa com o caso de Ricardo Salgado raia a obscenidade. Afinal, sempre existe uma justiça para ricos e outra para pobres. O pobre é julgado pelo que fez. O rico também é julgado pelo que sente, pelo que recorda, pelo que consegue compreender, pelas limitações da sua mente envelhecida. Um banqueiro doente é vulnerável. Um homem pobre entra num tribunal como criminoso. Um homem rico entra como paciente.

É verdade que a pena pressupõe consciência, compreensão do castigo. Se alguém perdeu essa capacidade, a prisão transforma-se em mera gestão biológica de corpos envelhecidos.

Mas também há qualquer coisa de profundamente ofensivo na ideia de um homem condenado por crimes financeiros milionários terminar os seus dias numa mansão confortável, rodeado de cuidados privados, enquanto centenas de idosos anónimos envelhecem e morrem nas cadeias portuguesas.

Os números mostram que Portugal tem uma das populações prisionais mais envelhecidas da Europa. Existem mais de 2.500 reclusos entre os 50 e os 64 anos e mais de 500 acima dos 65. Muitos terão patologias neurológicas. Muitos estarão doentes. Muitos serão pobres. Quase nenhum terá equipas de advogados capazes de transformar fragilidade clínica em estratégia jurídica eficaz.

No fundo, o sistema penal português criou duas velhices diferentes. Há a velhice dos que apodrecem discretamente na prisão. E há a velhice dos que juridicamente adoecem a tempo de evitar a cela. A lei continua a afirmar que todos são iguais perante a justiça, mas não é verdade.

DEIXAM-NOS DOENTES DE ANSIEDADE

0

Todos os anos, o guião repete-se com uma precisão cirúrgica. Surge uma manchete em letras garrafais na barra do telemóvel: “Alerta global: vírus mortal sem vacina nem tratamento”.

O coração acelera, a memória recente de 2020 desperta e o leitor clica, partilha e consome o pânico. Dias depois, descobre que se tratava de um surto isolado de Ébola numa aldeia remota da República Democrática do Congo, contido eficazmente pelas equipas locais. Passaram semanas, a calamidade prometida não aconteceu, mas o lucro do clique já entrou na conta do órgão de comunicação. Vivendo na ressaca psicológica da COVID-19, o jornalismo moderno descobriu uma mina de ouro: o clickbait sanitário.

O CICLO INFINITO DO MEDO

Estamos reféns de uma engrenagem mediática que se alimenta da nossa vulnerabilidade. Do Norovírus ao Hantavírus, passando pelas recorrentes vagas de Gripe Aviária, qualquer mutação biológica de rotina é tratada pelas redações como o prenúncio do fim do mundo.

O caso do Ébola é o exemplo mais flagrante de amnésia coletiva planeada. Cientificamente, sabemos que o vírus se transmite por fluidos corporais, o que limita de forma drástica o seu potencial de contágio. No entanto, vende-se o Ébola como se fosse uma peste aérea iminente.

O Hantavírus segue a mesma cartilha. Esconde-se o facto de que a transmissão entre humanos é uma raridade biológica e que o risco real advém do contacto com roedores, tudo em prol de um título vago e assustador.

A verdade económica por trás destas manchetes é simples: o medo é o algoritmo mais rentável da internet. Na atual economia da atenção, as plataformas digitais e os meios de comunicação não são pagos pela qualidade da informação, mas sim pelo volume de interações. Um relatório técnico da OMS sobre uma “variante sob monitorização”, algo perfeitamente normal na ciência, transforma-se em “ameaça mortal” porque a moderação e o rigor não geram scroll infinito nem receita publicitária. O jornalismo de saúde foi substituído pela gestão do susto.

O mais recente sobressalto, à data em que escrevo este artigo, foi este:

publicado em 20 de maio no portal Notícias ao Minuto

O EFEITO “PEDRO E O LOBO”

Este alarmismo injustificado gera uma ansiedade social desnecessária. Mas, ao banalizar o estado de emergência para faturar com o Norovírus, os média provocam uma fadiga de alerta na população. Quando um patógeno verdadeiramente perigoso e com potencial pandémico real emergir, o público poderá simplesmente encolher os ombros, anestesiado por anos de falsos apocalipses mediáticos.

Não podemos vacinar-nos contra todos os vírus da natureza, mas podemos e devemos vacinar-nos contra o clickbait sanitário. Afinal, a pior epidemia que enfrentamos hoje não é biológica, é editorial.

Esta espécie de febre noticiosa pode estar relacionada com o Tratado Pandémico adotado formalmente a 20 de maio de 2025, durante a 78ª Assembleia Mundial da Saúde realizada em Genebra, na Suíça.

OS NEGÓCIOS DO COSTUME

O texto político está aprovado, mas a parte técnico-científica ainda não. Falta conciliar interesses muito divergentes dos diferentes blocos geopolíticos, organizações de saúde e setores industriais, cada um motivado por interesses estratégicos distintos.

Por exemplo, Estados Unidos e Reino Unido recusam assinar cláusulas que obriguem à quebra de patentes ou à partilha forçada de tecnologia. O interesse deste bloco é puramente focado na vigilância epidemiológica global, salvaguardando a propriedade intelectual das suas farmacêuticas.

Gigantes farmacêuticas (como a Pfizer, Moderna, AstraZeneca e Roche) e as suas associações setoriais são os atores privados mais influentes no processo. Eles querem produzir medicamentos para os vender, ponto. Para isso, não prescindem dos seus direitos de propriedade intelectual (patentes). A indústria argumenta que a quebra de patentes destrói o incentivo financeiro para investir milhares de milhões em investigação e desenvolvimento de novos fármacos. Dito de outra forma, estraga-lhes o negócio.

Lembremo-nos ainda como foi que as vacinas anti-covid produzidas por laboratórios residentes em outros blocos geopolíticos foram menosprezadas pelos governos ocidentais. Afinal, essas vacinas produzidas na China, na Rússia ou na Índia funcionaram tão bem ou tão mal como as dos laboratórios ocidentais.

Chegados a este ponto, falta dizer que a eclosão de uma nova crise pandémica funcionaria como um potenciador imediato para a ratificação célere do tratado. O medo de um novo colapso económico e hospitalar destruiria a inércia burocrática atual. Os Estados seriam pressionados a assinar qualquer mecanismo global de proteção imediata.

Nos últimos 20 anos, a Repúblic Democrática do Congo já teve 17 surtos de ébola
Um surto do vírus nipah aconteceu em janeiro de 2026, no Estado de Bengala Ocidental, na Índia.

PORTUGAL RECONHECE OS COMBATENTES AFRICANOS QUE SERVIRAM A SUA BANDEIRA

1

Hoje, mais de cinquenta anos depois, com a promulgação pelo Presidente da República Portuguesa de um regime especial de acesso à nacionalidade para antigos combatentes africanos , assistimos não apenas a uma decisão jurídica, mas sobretudo um acto histórico de reconhecimento moral, político e humano.

Trata-se de uma medida tardia, mas profundamente simbólica. Portugal demorou meio século para admitir, de forma clara, que aqueles homens africanos não eram simples auxiliares descartáveis da máquina colonial. Foram soldados ao serviço do Estado português. Vestiram a farda portuguesa. Defenderam posições militares portuguesas. Muitos derramaram sangue por uma pátria que, após as independências, rapidamente os esqueceu.

A nova lei vem, finalmente, reparar, ainda que parcialmente, uma injustiça histórica. Não estamos perante um favor político nem perante um gesto de caridade administrativa. Estamos perante o reconhecimento de uma dívida histórica acumulada ao longo de décadas. O serviço militar prestado por estes africanos não pode ser apagado da memória colectiva nem reduzido a uma nota de rodapé da história colonial portuguesa.

A decisão possui igualmente uma forte dimensão ética. Pela primeira vez, o Estado português aceita que o vínculo criado pelo serviço militar pode fundamentar um direito especial à nacionalidade, dispensando exigências normalmente impostas a estrangeiros comuns, como longos anos de residência ou provas complexas de integração. O princípio é simples, justo e civilizacional: quem serviu o Estado português em armas merece reconhecimento do próprio Estado português.

Mas esta medida levanta também uma reflexão mais profunda sobre memória histórica e reconciliação. Durante muito tempo, os antigos combatentes africanos viveram numa espécie de limbo político. Em muitos países africanos independentes, eram vistos com desconfiança por terem combatido ao lado da administração colonial. Em Portugal, foram praticamente esquecidos pelas instituições que serviram. Ficaram entre dois mundos. Sem reconhecimento pleno de um lado nem do outro.

Por isso, esta lei ultrapassa a simples dimensão burocrática da nacionalidade. Ela toca directamente na dignidade humana de milhares de famílias africanas que viveram décadas de silêncio e invisibilidade.

Na Guiné-Bissau, esta questão possui uma carga emocional e histórica particularmente sensível. A guerra de libertação foi uma das mais intensas do antigo império português. Muitos guineenses combateram pela independência no PAIGC, enquanto outros integraram as forças portuguesas, por múltiplas razões: sobrevivência, circunstâncias locais, alianças tradicionais, convicções pessoais ou simples imposição histórica.

A reconciliação nacional exige maturidade suficiente para compreender que a História raramente é linear ou absoluta. Reconhecer direitos a antigos combatentes africanos não diminui a legitimidade das lutas de libertação nacional. Pelo contrário. Demonstra maturidade democrática e capacidade de enfrentar a História com serenidade e verdade.

Importa agora garantir que esta lei não fique apenas no plano simbólico. O verdadeiro desafio começa na sua aplicação prática. Muitos antigos combatentes enfrentam enormes dificuldades documentais: arquivos militares incompletos; cadernetas desaparecidas; diferenças de nomes; registos destruídos pelo tempo e pela guerra.

Sem mecanismos flexíveis de prova, muitos dos verdadeiros beneficiários poderão continuar excluídos. Portugal deve, por isso, assegurar acesso facilitado aos arquivos militares, cooperação consular eficaz, assistência administrativa simplificada e reconhecimento de testemunhos complementares quando os documentos oficiais forem insuficientes.

Seria igualmente desejável que as autoridades portuguesas trabalhassem em articulação com associações de antigos combatentes africanos, que conhecem profundamente a realidade social destas famílias e podem ajudar a identificar beneficiários legítimos. Neste contexto, merece referência o trabalho desenvolvido pela ANACHEP – Associação Nacional de Apoios aos Combatentes Heróis da Pátria, que poderá desempenhar um importante papel de orientação, apoio documental e acompanhamento dos processos junto dos interessados.

No fundo, esta nova lei portuguesa lança uma mensagem importante ao mundo lusófono: os laços da História não desaparecem apenas porque o tempo passou. Há feridas históricas que exigem reconhecimento. Há homens que envelheceram esperando apenas uma palavra de dignidade institucional.

Demorou cinquenta anos. Mas chegou finalmente o momento de Portugal dizer, oficialmente, a milhares de africanos: “Nós lembramo-nos do vosso serviço.”

CABO VERDE E A ESPERANÇA DEMOCRÁTICA PARA A GUINÉ-BISSAU

0

As recentes eleições legislativas em Cabo Verde não representam apenas uma vitória da democracia cabo-verdiana. Representam também uma poderosa mensagem de esperança para países africanos que atravessaram períodos de elevada tensão política, institucional e até risco real de fragmentação nacional.

A Guiné-Bissau é um desses países. Durante largos meses, o país viveu sob um ambiente de forte crispação política, institucional e social. Muitos temiam que as tensões acumuladas pudessem degenerar em conflitos internos de natureza perigosa, misturando rivalidades políticas com  antagonismos étnicos, regionais e religiosos, um cenário explosivo que poderia empurrar a Guiné-Bissau para uma crise de consequências imprevisíveis.

Foi precisamente neste contexto delicado que a intervenção de 26 de Novembro pelo Alto Comando Militar acabou por travar uma escalada que muitos receavam poder conduzir o país ao caos institucional e mesmo à violência generalizada.

Independentemente das leituras políticas que cada um possa fazer sobre esses acontecimentos, existe hoje um facto difícil de negar: a Guiné-Bissau escapou a uma situação potencialmente devastadora para a sua unidade nacional.

Mas evitar o pior não basta. Os povos não vivem eternamente em estado de sobrevivência política. As Nações precisam de horizonte. Precisam de instituições credíveis. Precisam de esperança democrática. É precisamente aqui que o exemplo de Cabo Verde ganha uma dimensão profundamente inspiradora para os guineenses.

Cabo Verde mostrou que é possível construir um Estado africano onde as eleições não sejam motivo de medo, a oposição não seja tratada como inimiga, os tribunais funcionem, as instituições eleitorais mereçam confiança, a alternância política seja encarada como normalidade democrática e não como ameaça existencial.

Esse é o verdadeiro desafio que se coloca hoje à Guiné-Bissau. O país precisa urgentemente de transformar a estabilidade provisória em estabilidade institucional duradoura. E isso só será possível através de eleições credíveis, instituições fortes, respeito pela Constituição, justiça independente, forças armadas republicanas e diálogo político sério entre os principais actores nacionais.

A Guiné-Bissau possui recursos humanos, inteligência política, experiência histórica e maturidade social suficientes para trilhar esse caminho. O povo guineense já demonstrou inúmeras vezes uma extraordinária capacidade de convivência entre etnias, religiões e sensibilidades políticas diferentes. Apesar de todas as crises, o país nunca mergulhou numa guerra civil étnica ou religiosa como aconteceu noutras regiões do continente. Isso não é um detalhe menor. É um património nacional precioso que precisa de ser protegido.

Mas proteger essa convivência exige responsabilidade política. Os líderes nacionais devem compreender que nenhum projecto pessoal de poder vale mais do que a paz social, a unidade nacional e o futuro das próximas gerações.

Cabo Verde ensina hoje uma lição simples, mas poderosa: a estabilidade verdadeira não nasce do medo. Nasce da confiança dos cidadãos nas instituições.

Nenhum país consegue construir desenvolvimento sustentável quando cada processo eleitoral é encarado como uma batalha de sobrevivência.

Nenhuma democracia amadurece quando o Estado se transforma permanentemente num campo de confrontação total.

A Guiné-Bissau precisa agora de entrar numa nova etapa da sua história: a etapa da consolidação institucional.

E talvez, paradoxalmente, as crises recentes tenham servido precisamente para mostrar aos guineenses até onde o país não pode voltar a caminhar.

O exemplo cabo-verdiano surge assim não como modelo perfeito ou cópia automática, mas como prova africana concreta de que: instituições fortes são possíveis; alternância democrática é possível; eleições credíveis são possíveis; e estabilidade política sem repressão também é possível em África. A esperança democrática voltou a respirar no continente.

E muitos guineenses começam novamente a acreditar que a Guiné-Bissau também pode um dia tornar-se um exemplo positivo de maturidade democrática, estabilidade institucional e convivência republicana em África Ocidental. O futuro ainda está em aberto. Mas hoje existe novamente algo fundamental: esperança.

O EFEITO TRUMP NO COMENTÁRIO POLÍTICO

0

À moda de Trump, apresenta-se uma teoria simplista e coloca-se alguns comentadores a replicar a mesma, para ver se pega. Defender que o Chega e o Partido Socialista são, no essencial, a mesma coisa constitui uma simplificação abusiva e, em termos argumentativos, uma falácia. Essa tese ignora, objetivamente, diferenças estruturais de matriz ideológica, de prioridades programáticas e de linguagem política. Embora em democracia possa haver convergências ocasionais em votos, medidas avulsas ou táticas parlamentares, isso não basta para concluir que dois partidos são equivalentes. Confundir coincidências pontuais com identidade política é apagar aquilo que realmente distingue projetos partidários: a forma como encaram o Estado, a economia, a comunidade nacional, os direitos sociais e o lugar de Portugal no mundo.

As diferenças entre ambos são evidentes, desde logo na visão do Estado e da sociedade. O Partido Socialista inscreve-se, historicamente, numa tradição social-democrata e reformista, defendendo um Estado social forte, a protecção dos serviços públicos e uma lógica de redistribuição com preocupação de coesão social, como se reflecte na valorização do SNS, da escola pública e da segurança social no seu programa eleitoral de 2025. Já o Chega apresenta-se como uma força de rutura com o chamado ‘sistema’, combinando propostas de endurecimento penal, discurso securitário, controlo mais restritivo da imigração e uma retórica de confronto com instituições e elites políticas; o seu programa de 2025 enfatiza precisamente uma justiça mais punitiva, imigração controlada, soberania nacional e reforço da autoridade do Estado. Mesmo quando ambos falam de crescimento económico, fazem-no a partir de pressupostos distintos: o PS tende a articular competitividade com proteção social, enquanto o Chega procura associar a crítica fiscal e burocrática a uma narrativa de ordem, identidade e combate à corrupção.

Também no plano discursivo a distância é significativa. O PS usa, em regra, uma linguagem institucional, moderada e centrada na administração gradual das políticas públicas; o Chega mobiliza uma retórica mais polarizadora, assente na denúncia, na dramatização do conflito e na oposição entre ‘povo’ e ‘sistema’. Por isso, dizer que são iguais não é uma análise séria, mas antes uma forma de desvalorizar distinções fundamentais do debate democrático. Pode ser legítimo criticar ambos, apontar incoerências ou denunciar aproximações pontuais em certos momentos. O que não é intelectualmente rigoroso é apagar as diferenças de orientação ideológica, programática e retórica que os separam. Se a discussão quiser ser honesta, deve começar justamente por dissecar essas diferenças, e não por anulá-las numa equivalência apressada.

AS SAUDADES

0
imagem gerada com recurso a IA

Como talvez tenham notado, a Inteligência Artificial da Google construiu um texto engraçado sobre os seis anos do site Duas Linhas. A parte que mais nos tocou foi quando o texto diz que somos “uma comunidade de ideias e pluralidade” e que “a longevidade e a relevância do projeto encontram o seu porto seguro na qualidade do corpo de colunistas”, lembrando que “o Duas Linhas consolidou-se como fórum plural de debate de ideias, reunindo sempre um painel de colaboradores que trazem a sua expertise setorial e regional para as páginas do site.

Hoje, vozes assíduas como as de José d’Encarnação na arqueologia e nas histórias sobre Cascais, Alberto Correia através das suas detalhadas crónicas de província, Margarida MariaHelena Ventura PereiraVítor MartinsVítor Fonseca na análise de atualidade, ou as crónicas de viagem de Vanda Narciso, ilustram na perfeição o ecletismo e a profundidade de pensamento que o site oferece aos seus leitores.” Ficámos vaidosos.

Mas o que a IA da Google não sabe é das saudades que nos assaltam frequentemente. Saudades de notáveis articulistas como, por exemplo, a Alice Marques e o Cândido Ferreira, infelizmente já falecidos. Mas, também, saudades de outros que continuam bem vivos e que esperamos que, um dia, voltem a bater na nossa porta. Falamos do Waldemar Abreu e das suas brilhantes crónicas sobre televisão, da Faty Laouini, do Hélder de Sousa, da Ana Catarina Rocha, do Rui Naldinho, da Sónia Andrade, do querido amigo Vítor Ilharco, entre muitos outros, numa lista de mais de 80 pessoas que já passaram por aqui nestes seis anos.

GOVERNO A PÉ E TRABALHADORES DE CARRO

0

A ministra da Energia, Maria da Graça Carvalho, saiu-se a dizer que ‘há muitas formas de chegar ao trabalho’, para rejeitar a recomendação de teletrabalho devido à crise de petróleo. E até acrescentou que a questão não está ‘sequer’ em discussão no governo. Pessoalmente, nem sou favorável ao teletrabalho. Penso que os trabalhadores, enquanto vão e vêm, falam com colegas e convivem com outras pessoas, ficam, mentalmente, mais sãos, como, aliás, provam análises e estatísticas.

Também não está à vista a redução das viagens de avião para diminuir a procura, e o executivo afirma que há combustível da aviação até ao fim de Agosto. Refira-se que estas duas recomendações são da Agência Internacional de Energia.

Para a ministra, seguramente mais preocupada com o turismo e outros ‘lucros’, as ‘pessoas têm o direito às suas férias e às viagens’, com a época que se aproxima, em que muitos portugueses querem vir ao seu país e outros que pretendem visitar familiares.

‘Temos uma grande diáspora que tem direito a ver a família e gosta de regressar a Portugal […] e o turismo é 15 por cento do nosso PIB, mas também individualmente, as pessoas gostam de viajar, faz parte de aumentar a sua cultura, e eu não queria estar aqui a fazer uma recomendação a evitar, para já’, disse a ministra.

Não vou aqui contar tudo o que disse a governante. Mas julgo que nos deveríamos ater ao facto de ser claro que as classes mais baixas não irão de férias e as um pouquinho mais altas (que têm vindo a ‘descer’ permanentemente) talvez também não. O aumento brutal do custo de vida, as rendas impossíveis de pagar (em que o primeiro-ministro entende que 2.300 euros é uma renda moderada) e os combustíveis (além do aumento exponencial do preço das viagens de avião), certamente travarão muitos projectos.

Já quanto às ‘muitas formas de chegar ao trabalho’, a ministra acertou. Vemos autocarros cheios, trabalhadores desesperados a chamarem táxis e TVDE porque os transportes públicos não andam a horas. Por exemplo, a Carris, em Lisboa, está numa desorganização tal que passam três autocarros seguidos com o mesmo número, indo os dois últimos vazios, enquanto escasseiam outros com destinos diferentes. Os comboios, nem é bom falar: a abarrotarem de gente e geralmente atrasados.

Portanto, para a ministra e para o governo está tudo bem. Na verdade, eu só vinha aqui sugerir que, à semelhança do que fazem outros governantes europeus, Montenegro, Rangel, e todos os outros, sobretudo a ministra da Energia, deixassem de usar os carros do Estado (pagos por todos nós) e passassem a utilizar os transportes públicos. Na verdade, com o tanto trabalho que desenvolvem (ao contrário dos outros trabalhadores) seria provável que ninguém se importasse que chegassem atrasados. E, quanto às férias, utilizem os tais planos B e C, façam férias cá dentro e conheçam o tal país real.

A CNN E O JORNALISMO DE REFERÊNCIA

0

A CNN Internacional sempre ficou associada à figura do seu fundador, Ted Turner. Mas, na verdade, Turner vendeu a CNN em 1996. Tudo o que se passou depois com a CNN não foi da sua responsabilidade.

Seja como for, Ted Turner é considerado o “pai” dos canais temáticos de informação. Dar notícias 24 horas por dia foi uma ideia que, talvez, nunca tenha ocorrido antes a alguém, mas Turner foi o que fez.

Ted Turner, 1980

A CNN foi copiada e franchisada por todo o mundo. Em Portugal surgiram primeiro as imitações SIC Notícias e TVI24, mas tarde surgiu a CNN Portugal, como em muitos outros países. As empresas de comunicação locais compram os direitos de utilização do nome CNN. Em Portugal, essa licença pertence à Media Capital. É um negócio para a Warner Bros Discovery, a empresa proprietária da marca CNN. Esses canais transmitem informação 24 horas por dia, mas boa parte do tempo de antena é ocupado com a chamada “televisão barata” (de baixo custo), programas de estúdio, onde campeiam opinadores, experts de tudo e mais um par de botas. Mas notícias, notícias, nem sempre são muitas e reportagens ainda menos.

Turner morreu em 6 de maio, vítima de uma doença degenerativa de funções cognitivas. Tinha 87 anos. Nas últimas décadas de vida dedicou-se a coisas muito diferentes dos média. Multimilionário, escolheu investir o seu dinheiro no conservacionismo e na defesa dos direitos humanos.

Ted Turner

Na hora da sua morte, as notícias que dele fizeram, davam conta de inúmeros elogios fúnebres. O Presidente dos EUA também fez o seu. Nem sempre os elogios fúnebres são sinceros. Não estou a ver o atual presidente dos EUA a apreciar um defensor da natureza e dos direitos humanos…

Na rede Truth Social, Trump escreveu que Turner foi “um dos maiores de todos os tempos” e um grande amigo pessoal. O Presidente dos EUA contornou as óbvias incompatibilidades ideológicas com o defunto. No elogio, disse que a sua antipatia pela CNN só aconteceu depois de Turner ter vendido a empresa, ignorou que o fundador da CNN era historicamente um liberal progressista e que defendia abertamente o sistema de saúde universal, o desarmamento nuclear, o ambientalismo, que nunca foi seu apoiante político, aliás, chegou mesmo a apoiar Hillary Clinton na campanha de 2016.

UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL

Cruzei-me com jornalistas da CNN algumas vezes, normalmente em locais de conflito onde os americanos tinham empenhamento militar. Esta história passou-se na Somália.

Cheguei a Mogadíscio em finais de Novembro de 1992. Fiquei lá até ao Natal. Foi um mês completamente louco.

Naquele tempo, a Somália devia ser o sítio mais perigoso do Mundo. Sem governo, a população combatia na mais estranha guerra civil que já vi. Vários clãs matavam-se entre si, numa demência de todos contra todos.

A avioneta alugada em Nairobi aterrou no aeródromo central de Mogadíscio, precisamente no momento em que aquela parcela de chão estava a ser disputada entre duas das facções em conflito. Como não havia comunicação via rádio com alguém em terra, o piloto (e nós) só se apercebeu que havia balas a voar, além do avião, quando já não conseguiu abortar a aterragem. O avião bateu no chão e foi rapidamente conduzido para trás de uma parede, onde sempre havia alguma protecção. Assim que o tiroteio teve uma pausa, o piloto levantou voo e nós ficamos. Eu, um fotógrafo americano e dois tipos alemães da televisão ZDF. A SIC tinha-me enviado sozinho para ali. Eu deveria procurar a equipa da Reuters e trabalhar com eles. Não há nada pior que ir para um sítio destes sem um companheiro.

Arranjar alojamento foi o primeiro tormento. Os tipos da ZDF tinham um contrato com a CNN e iam ficar na casa que a televisão americana tinha comprado. Eles são assim, chegam e compram! Decidi ir com eles, quem sabia se não poderia lá ficar também…

Chegámos às instalações da CNN já de noite. O anchor preparava um directo, com cenário montado. Quando digo cenário, não estou a brincar com as palavras. Era mesmo um cenário, onde figuravam duas pick-up Toyota de caixa aberta, equipadas com metralhadoras pesadas, e vários somalis em pose de rambo… e o anchor americano dizia, no seu directo, “estamos na frente de batalha, atrás de mim os guerrilheiros de Aidid…”, blá blá blá blá… bullshit como se diz na China. Armar aos heróis, a grandes repórteres, dentro dos muros protegidos por guardas privados e com figurantes pagos… e eram aqueles tipos a referência mundial do jornalismo televisivo.

OS PACOTES BRASILEIRO E PORTUGUÊS

0

Quando em Portugal o Governo teve a iniciativa de propôr uma reforma da legislação laboral para facilitar a vida ao patronato mais explorador, aquele que não gosta de pagar horas extraordinárias nem trabalho prestado em dias de folga ou feriados, do outro lado do Atlântico acontece um conflito laboral semelhante.

A diferença é que no Brasil a iniciativa do Governo federal é de aliviar a carga horária dos trabalhadores e institucionalizar dois dias de folga semanais. Neste momento, os trabalhadores brasileiros trabalham seis dias por semana, com uma carga de 44 horas semanais. Contra a mudança está uma parte do patronato.

Lá como cá, também há imprensa alinhada com os pontos de vista dos patrões, até porque a imprensa brasileira também é maioritáriamente de iniciativa privada.

Por exemplo, o jornal O Globo publicou há dias um editorial em que acusa de “oportunismo” a iniciativa dos deputados federais que pretendem legislar no sentido de passar a carga de trabalho de 44 para 36 horas semanais. O editorial diz ainda que essa redução seria “nefasta para a economia brasileira”.

“No atual nível de desenvolvimento do Brasil, a jornada deveria ser maior, não menor”. Esse é apenas um dos trechos em que o editorial do jornal O Globo, ataca as propostas que pretendem acabar com a semana de seis dias de trabalho e de redução da carga horária.

É sempre a mesma lenga-lenga, desde que foi abolida a escravatura, a cada direito trabalhista conquistado corresponde uma alegada ameaça à sobrevivência das empresas que nunca se confirmou.

“Embaraçosa”, “ingênua”, “irrealista”, “distorcida” e “falácia” são algumas das outras palavras usadas pelo Globo para descrever a proposta de alteração da lei laboral.

Enquanto parte da imprensa se empenha em combater a proposta de leis laborais menos penalizantes, economistas e sindicalistas brasileiros garantem que a redução da jornada de 44 para 36 horas poderia criar até 4,5 milhões de empregos e aumentar a produtividade em cerca de 4%.

Se a memória não nos falha, tivemos há alguns anos uma discussão política semelhante, quando o governo de António Costa iniciou a subida anual do salário mínimo. Também os patrões diziam que não iriam aguentar, que as falências estavam ao virar da esquina. Mas não estavam.

No Brasil, não só a imprensa ignora os estudos favoráveis à reforma laboral como se dedica a espalhar mentiras: “Em comparação com o resto do mundo, o brasileiro não trabalha muito. Nem pode ser considerado particularmente esforçado”, publicou recentemente o jornal Folha de S.Paulo.

“É um absurdo o governo encarar o assunto como prioritário”, lamenta-se numa crónica de opinião no jornal Estadão, onde o opinador dizia que em vez de diminuir, a jornada de trabalho deveria ser aumentada.

Em Portugal, o pacote laboral foi rejeitado pelas centrais sindicais mas  o governo insiste nas alterações e será na Assembleia da República que o projeto vai ser discutido e votado. Na imprensa iremos ter a oportunidade de ver copiadas algumas destas ideias mais retrógadas.

Em Portugal, o que o Governo decidiu levar à discussão na Assembleia da República são as seguintes alterações da lei laboral: para contratos a prazo, o Governo quer subir a duração máxima de dois para três anos; passar a ser permitido outsourcing para qualquer área da empresa sem ter de esperar um ano após um despedimento coletivo; reintrodução do banco de horas individual para obrigar o trabalhador a fazer até duas horas a mais por dia sem ser pago; mesmo em caso de despedimento ilícito, a empresa deixa de ter obrigação de reintegrar o trabalhador.

Se toda a direita parlamentar votar a favor, estas medidas serão implementadas. O prejuízo para os trabalhadores é evidente. Tal como no Brasil, também em Portugal há imprensa que dá especial atenção e difusão às posições do Governo e da direita política.