CABO VERDE E A ESPERANÇA DEMOCRÁTICA PARA A GUINÉ-BISSAU

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As recentes eleições legislativas em Cabo Verde não representam apenas uma vitória da democracia cabo-verdiana. Representam também uma poderosa mensagem de esperança para países africanos que atravessaram períodos de elevada tensão política, institucional e até risco real de fragmentação nacional.

A Guiné-Bissau é um desses países. Durante largos meses, o país viveu sob um ambiente de forte crispação política, institucional e social. Muitos temiam que as tensões acumuladas pudessem degenerar em conflitos internos de natureza perigosa, misturando rivalidades políticas com  antagonismos étnicos, regionais e religiosos, um cenário explosivo que poderia empurrar a Guiné-Bissau para uma crise de consequências imprevisíveis.

Foi precisamente neste contexto delicado que a intervenção de 26 de Novembro pelo Alto Comando Militar acabou por travar uma escalada que muitos receavam poder conduzir o país ao caos institucional e mesmo à violência generalizada.

Independentemente das leituras políticas que cada um possa fazer sobre esses acontecimentos, existe hoje um facto difícil de negar: a Guiné-Bissau escapou a uma situação potencialmente devastadora para a sua unidade nacional.

Mas evitar o pior não basta. Os povos não vivem eternamente em estado de sobrevivência política. As Nações precisam de horizonte. Precisam de instituições credíveis. Precisam de esperança democrática. É precisamente aqui que o exemplo de Cabo Verde ganha uma dimensão profundamente inspiradora para os guineenses.

Cabo Verde mostrou que é possível construir um Estado africano onde as eleições não sejam motivo de medo, a oposição não seja tratada como inimiga, os tribunais funcionem, as instituições eleitorais mereçam confiança, a alternância política seja encarada como normalidade democrática e não como ameaça existencial.

Esse é o verdadeiro desafio que se coloca hoje à Guiné-Bissau. O país precisa urgentemente de transformar a estabilidade provisória em estabilidade institucional duradoura. E isso só será possível através de eleições credíveis, instituições fortes, respeito pela Constituição, justiça independente, forças armadas republicanas e diálogo político sério entre os principais actores nacionais.

A Guiné-Bissau possui recursos humanos, inteligência política, experiência histórica e maturidade social suficientes para trilhar esse caminho. O povo guineense já demonstrou inúmeras vezes uma extraordinária capacidade de convivência entre etnias, religiões e sensibilidades políticas diferentes. Apesar de todas as crises, o país nunca mergulhou numa guerra civil étnica ou religiosa como aconteceu noutras regiões do continente. Isso não é um detalhe menor. É um património nacional precioso que precisa de ser protegido.

Mas proteger essa convivência exige responsabilidade política. Os líderes nacionais devem compreender que nenhum projecto pessoal de poder vale mais do que a paz social, a unidade nacional e o futuro das próximas gerações.

Cabo Verde ensina hoje uma lição simples, mas poderosa: a estabilidade verdadeira não nasce do medo. Nasce da confiança dos cidadãos nas instituições.

Nenhum país consegue construir desenvolvimento sustentável quando cada processo eleitoral é encarado como uma batalha de sobrevivência.

Nenhuma democracia amadurece quando o Estado se transforma permanentemente num campo de confrontação total.

A Guiné-Bissau precisa agora de entrar numa nova etapa da sua história: a etapa da consolidação institucional.

E talvez, paradoxalmente, as crises recentes tenham servido precisamente para mostrar aos guineenses até onde o país não pode voltar a caminhar.

O exemplo cabo-verdiano surge assim não como modelo perfeito ou cópia automática, mas como prova africana concreta de que: instituições fortes são possíveis; alternância democrática é possível; eleições credíveis são possíveis; e estabilidade política sem repressão também é possível em África. A esperança democrática voltou a respirar no continente.

E muitos guineenses começam novamente a acreditar que a Guiné-Bissau também pode um dia tornar-se um exemplo positivo de maturidade democrática, estabilidade institucional e convivência republicana em África Ocidental. O futuro ainda está em aberto. Mas hoje existe novamente algo fundamental: esperança.

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