ELOGIO DA MAÇÃ E DA CASTANHA

HOMENAGEM A DUAS CONFRARIAS IRMÃS

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Começo por citar pequeno parágrafo de um bonito texto de Sophia de Melo Breyner Andresen: A coisa mais antiga de que me lembro é de um quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima de uma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, una e inteira.

Permito-me parafrasear o texto de Sophia. E dizer que, das imagens mais antigas de que me lembro, não é a do mar, que conheci muito tarde, é a do pequeno horizonte da quinta do meu pai, vestido, ao longe, por uma singular mancha de castanheiros antigos, muitos deles seculares, debruado junto aos ribeiros, que regavam a pequena quinta por renques de macieiras, de que evoco a cor vibrante das maçãs Bravo de Esmolfe, a luzidia cor das maçãs camoesas, o delicioso sabor acre das maçãs reinetas, que aprendi a dizer cabaçais, e eu, como Sofia, nessas poéticas tardes de outono, ali encontrava a felicidade perfeita. Ali, em Sernancelhe.

Nesse vizinho chão, onde teve seu berço a Confraria da Maçã Portuguesa, a maçã, seu emblemático fruto, é designada como “fruto da terra, das raízes e da luz”.

Singulares estes apelativos de profundo significado.

Fruto da terra, deste chão que vem sendo povoado desde o Neolítico, como atesta esse alfobre de monumentos dolménicos, que hoje são cartaz ao longo dos trilhos que atravessam a serra de Leomil ou da Lapa; este chão que foi romano, foi godo, mouro e cristão; este chão que pertenceu ao rei; que pertenceu a senhorios laicos e eclesiásticos, onde habitaram lavradores livres e jornaleiros sujeitos; este chão onde os homens agora se igualam em seus direitos, onde labutam ainda com algum suor.

Chão de húmus propício, no aconchego do vale, onde correm ribeiros e o Rio Távora e onde nasce o rio Vouga.

Chão de encostas soalheiras, onde os frutos ganham os distintivos da cor e do sabor, que, ao despertar o outono, se soltam, agora, sobre as modernas paletes que os levarão aos quatro cantos do mundo.

Fruto da terra!…

Fruto das raízes e da luz!…

Fruto das raízes. Quer dizer que vem de longe, do princípio, de um tempo que mal pode chamar-se assim, porque ainda não existia a história.

A maçã vem do tempo em que Javé, o mundo já criado, vinha passear com Eva e Adão nesse Jardim que lhes talhara, o místico Jardim de Éden de que nos conta o Génesis, ao descrever os mitos fundadores da nossa cultura judaico-cristã.

Por esse mito, escrito em livro santo, sabemos que Javé ali fizera desabrochar as macieiras e uma delas havia, preciosa, que estava no meio do Jardim, de que Eva e Adão não poderiam recolher frutos.

Seduzida pela cor, pelo perfume, num outono qualquer, Eva colheu uma maçã e deu outra a Adão.

Adão e Eva de Tiziano Vecelli –1550

E, pela vez primeira neles, se gerou o verdadeiro conhecimento, isso que fora atribuição divina até ali. Maçã, fruto da luz. Eva e Adão reconheceram que estavam nus. Conheceram a sua desobediência. E deixaram a seus filhos, mais tarde, nós, essa capacidade de conhecer, de distinguir, o livre arbítrio que nos faz homens.

Maçã, fruto da terra, das raízes e da luz.

Fruto do Paraíso, o primeiro fruto que teve nome na nossa história, na nossa cultura.

Da castanha não nos fala o Livro do Génesis.

Mas ei-la, logo ali.

Eva e Adão, fechadas as portas do Éden, caminharam sobre uma terra ainda vazia, abrindo os primeiros caminhos. Javé deu-lhes por agasalho, era outono, tempo das maçãs maduras, uma túnica de cordeiro. Não lhes encheu o bornal da merenda.

E Eva e Adão, os primeiros viventes nesta terra dos homens que agora é nossa, encontraram o primeiro alimento nas castanhas que, nesse virginal outono, se despejavam pelo chão, por onde abriam caminho. Foram eles quem primeiro as conheceu. E chamaram pão às castanhas que comeram. Fruta-pão, nome que nossos avós, seus filhos, mantiveram e Árvore-do-pão chamaram aos castanheiros.

E eis-nos celebrando, hoje, estes dois frutos. São ambos antigos. Desse princípio de mundo. Basta ver alguns troncos de castanheiros vizinhos, que têm mais de mil anos. Vieram, as árvores-mãe de ambos os frutos desse Oriente longínquo, onde o Éden pousara.

Cobrem hoje a nossa terra. Os frutos multiplicaram-se em variedades, a maçã e a castanha, como as raças dos homens.

Ambos se tornaram pão. Ambos foram indispensáveis ao longo da nossa história. Manjares do povo. De reis e senhores. Manjares da gente do trabalho. Manjares de cerimónia operados em cenóbios antigos.

Magníficos frutos celebrados por poetas, por ilustres pintores do tempo de Grão Vasco ou pelos naturalistas do século XIX, que todos deixaram em museus singulares representações.

Maçã e castanha, que estas Confrarias irmãs celebram, ano a ano, e permanentemente os celebram junto de quantos, lavradores diligentes, empresários activos, autarquias empenhadas, que, nestes tempos de globalização, com empenho, com suor, com alegria, com muito trabalho, muita dedicação, com a luz do sol dos verões das Terras do Demo e os frios benfazejos, com as águas de outono, dádiva da Mãe-Natureza, bênção que se tornará propiciadora da colheita que se espera generosa.

Frutos de esperança, nestas terras, a maçã e a castanha.

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