O claustro da catedral, esse multifuncional corpo que se ergue a sul, entre o braço do transepto e os pés da nave correspondente desta peculiar igreja-salão, dimensionado à extensão da nave lateral, deve compreender-se como um corpo orgânico que responde a usuais práticas de culto, funcional espaço que medeia a intimidade da relação do homem com o divino, que se cumprirá por inteiro na atmosfera silenciosa do templo recoberto pela Abóbada dos Nós.
Acresce que a sua materialidade carreia um profundo simbolismo, explicado pela circularidade de um percurso sobre esse chão empedrado, que se torna metáfora da humana presença, num tempo concreto de vida, que haverá de soltar-se, como as colunatas que se elevam para esse espaço aberto sobre o azul que metáfora é da cúpula ampla do Céu, que destino pode tornar-se.
A edificação que, ao presente, se nos oferece, ambicioso projecto de um bispo iluminado por uma ampla cultura bebida em Paris e nos círculos humanísticos de Roma – quando, ao tempo, se elevava a portentosa edificação da Basílica de S. Pedro, protótipo, em Portugal, de um Renascimento embrionário – deve-se ao inspirado génio do bispo D. Miguel da Silva, que governa a Diocese de 1526 a 1540, fâmulo da Corte de D. João III e da Corte Papal de Paulo III, que fará dele Cardeal.


D. Miguel da Silva deixará, em Viseu, inapagável rasto, que perdura materializado nas Tábuas de Grão Vasco, no Cadeiral do Coro Alto encomendado a partir de Roma, na transfiguração dos Paços, ao Fontelo, para cuja áulica Capela de Santa Marta Gaspar Vaz terá encomenda do especioso painel que rememora a visita de Cristo a Casa de Lázaro, Marta e de Maria, lá onde lhe deixará retrato e na figuração dos intimistas jardins e do arvoredo, que povoou de gaiolas, onde as aves cantavam e onde havia o rumorejar das fontes.
De Roma arrastará consigo o arquitecto Francisco de Cremona (c. 1480-1550?), treinado nos estaleiros do Vaticano, e será este – obreiro que terá sido, em Viseu, do risco da Casa do Miradoiro, encomenda do Deão Fernão Ortiz de Vilhegas – quem irá traçar o inspirado desenho do Claustro da Catedral (1528-1534), obra primeira do Renascimento português, onde salta à vista o harmonioso perfil das colunas jónicas, suportadas por um desusado murete, e a complexidade dos capitéis, onde se encontra referência às clássicas ordens coríntia e compósita e de onde se levanta a arquitectura das abóbadas, que irão suportar, no século XVIII, a construção do amplo espaço que hoje se abre para o Museu de Arte Sacra, lá onde se evoca a velha morada do Prior S. Teotónio.



