A COIMBRA DOUTRAS ERAS

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Nado e criado em Coimbra – onde, de resto, sempre tem vivido – o Professor Jorge de Alarcão nutre pela sua cidade amor incondicional, consubstanciado, por exemplo, na vontade, amiúde declarada, de ver, um dia, escrita sobre ela uma monografia tão monumental quanto as sempre célebres ‘escadas monumentais’ de acesso à cidade universitária.

Tem-na estudado aos poucos, essa história, em publicações pontuais, mas sempre na mira de que haja equipa disposta a lançar ombros ao vasto empreendimento, não isento de dificuldades, bem se sabe,

Desta feita, o historiador escolheu o tempo em que, em Coimbra, viveram três vultos da nossa literatura: Antero de Quental, Eça de Queiroz e Teófilo Braga, ou seja, de 1856 a 1867: Coimbra no Tempo de Antero, Eça e Teófilo Braga, Coimbra, Lápis de Memórias,  2026.

Escreve, na Apresentação, que se trata de um «período em que a encantada e quase fantástica Coimbra viveu numa grande actividade» (pág. 10).

Não é minha intenção – aqui e agora – dar miúda conta do que ali se narra ou ou deixa por narrar; apenas catar duas passagens, para mostrar quanto serão agradáveis de ler, e até passíveis de reflexão, as muitas outras páginas (são, no total, quase 200) que o volume contém.

Direi apenas de dois casos que mais me prenderam a atenção.

Levei anos a, semanalmente, ir e vir de Coimbra. de comboio. Agradava-me sobremaneira (não o posso negar!) o trajeto Coimbra B (em que o B significa ‘bifurcação’ o que muita gente ignora) e Coimbra-Cidade (amiúde erradamente chamada de Coimbra-A), pois que, nessa altura eu ou estava a chegar ou estava a sair da cidade onde trabalhava. Por isso, a descrição da cena da chegada de visitantes à cidade, no século XIX, foi das que mais me seduziu. Uma das muitas e bem oportunas citações que Jorge Alarcão faz neste livro, tornando-o assim bem fecundo manancial de histórias.

Não resisto, portanto, a referir-me a uma passagem da descrição que Lady Jackson faz da sua chegada à estação de Coimbra, em 1873, livro que Camilo Castelo Branco traduzirá (A Formosa Lusitânia, Porto: Livraria Portuense, 1977).

Explica a Lady que, não havendo carregadores, as bagagens eram postas sobre um balcão «com uma corja de garotos atrás da gente para se agarrarem a elas». Competia aos hotéis disponibilizarem coches, fora da estação, a aliciarem clientes, que eram “desabridamente disputados”. Conta a Lady que, tendo escolhido um hotel, logo as bagagens foram passadas para o carro desse, «de má-vontade, murmurando, e invetivando contra estrangeiros, franceses, espanhóis, ingleses, tudo com epítetos de escárnio que nos dirigiam» (p. 45) Boa gente, essa, então!

E se, hoje, ainda em alguns aspectos, nomeadamente culturais e linguísticos, surgem, de quanto em vez, picardias entre Lisboa e Coimbra, recorto a frase (é o segundo caso) com que Jaime Batalha Reis se refere à escola de Coimbra do século XIX, na introdução que escreveu para as Prosas Bárbaras, de Eça de Queiroz, academia aí classificada (pág. 99) como «centro literário e filosófico que se supunha dedicado a escrever de modo sistematicamente ininteligível»!

Quem há aí que se não pele, então, por uma boa polémica?!…

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