Em tempos, passei junto da Ópera de Milão, no momento em que chegavam – de lamborghini, ferrari, porsches… – damas de longos vestidos, cavalheiros de fato escuro e papillon. Saíam os motoristas numa pressa, para escancararem as portas de trás. Uma suave atmosfera de outro mundo, ou melhor, deste nosso, prosaico, a penetrar noutro universo, dignando-se a descer ao comum dos mortais…
Na noite do passado dia 5, mui diferente foi a entrada para o hall do Casino Estoril, agora longo tapete estendido a sedutoras máquinas de jogo… Bem acolhedor se quis mostrar o glorioso Salão Preto e Prata, sem milanesas pretensões – que tal não era o objectivo.
Esperava-nos Verdi. Ia mostrar-nos uma Aïda, serva, a morrer de paixão por Radamés, o filho do faraó. Mútua era essa paixão. Sim, tudo se passava noutro tempo, em que havia hieróglifos sem Pedra de Roseta capaz de os decifrar.
Encenação de Ignacio García e Aurora Cano; discreta também a cenografia, de Alejandro Contreras, mais a sugerir do que a mostrar. Em pano de fundo, enorme painel de hieróglifos, de enigmática mensagem. Figurinos de Ana Ramos, igualmente sem escusadas ostentações, ligeiro apontamento egípcio antigo. A Hesperian Symphony Orchestra, dirigida por Antonio Ariza Momblant, a não ocupar o papel preponderante, mas apenas a sublinhar a acção, ora em lírica suavidade ora, qual sonora trombeta, forte dramaticidade.
Invocaram-se Ísis e Osíris, porque aos humanos nem tudo corre bem – ou nada mesmo – sem o conluio dos deuses, num lima de guerra entre povos vizinhos: Etíopes dum lado (o povo de Aïda), Egípcios do outro. Agora invadidos, daqui a pouco invasores…
E o Amor acaba por vencer. Acaba – embora trágico – por falar mais alto do que o fragor metálico das espadas e punhais.

Mais uma louvável iniciativa do Grupo Chiado para trazer a ópera ao quotidiano. Bem hajam! Gratos estamos, também, pela gentil cedência de imagens. Gratos a: María Ruiz e Lucía Tavira, no difícil e muito bem desempenhado papel de Aïda; a Eduardo Sandoval e Enrique Ferrer, elegantes figuras de Radamés. María Luisa Corbacho incarnou bem Amneris, a princesa despeitada; Manuel Mas foi o vingativo Monasro, rei da Etiópia, pai da protagonista; Jordi Serrano, o faraó, soberano; Ramfis,·Antonio Alonso, por seu turno, altivo no papel de Sumo Sacerdote, a autoridade religiosa e política, a voz do poder dos deuses e da segurança do Estado.
E não faltou o coro, aquela anónima «voz do Povo», a tudo comentar, como se fora de cena estivesse e jamais pudesse calar-se. Feminino e masculino – porque, em tragédias assim, há sempre as duas perspectivas a ter em conta.

Acrescente-se que foi na véspera de Natal de 1871 que o espectáculo subiu à cena, pela primeira vez, na Ópera do Cairo, capital do Egipto. No palco do Salão Preto e Prata, os quatro actos seguiram o libreto que António Ghislanzoni (1824–1893) escreveu para Giuseppe Verdi (este, o trabalho que tornou Ghislanzoni mais famoso como libretista), preparado com a colaboração do francês Camille du Locle (1832–1903) e do egiptólogo e arqueólogo Auguste Mariette (1821–1881). Bem diversificada equipa, portanto.
A apresentação no Estoril foi a primeira das quatro previstas para esta digressão em Portugal, que vai terminar em Lisboa, depois de passar por Braga e Águeda.



