Escreveu o investigador local Carlos Caetano, no mais recente número, o 48, de 2025, da Praça Velha, a revista cultural da cidade da Guarda, que o concelho de Valhelhas foi um dos mais antigos não só das Beiras como de Portugal, pois que a Carta de Foral foi dada «vobis homines de Valielias» – ‘a vós, homens de Valielias’ – por el-rei D. Sancho I, em Agosto de 1188, ou seja, 11 anos antes de idêntico documento de alforria ter sido atribuído à cidade da Guarda!
E aponta Carlos Caetano como justificação dessa primazia «factores como a localização do termo e a da própria vila de Valhelhas, nas margens do Alto Zêzere, um e outra pontos de passagem de vias seculares, senão milenares e, por outro lado, a necessidade de atrair e fixar moradores num território tão debilmente povoado, que “ocupassem” o território do termo e cujos habitantes garantissem apoio e protecção a viandantes e peregrinos.
Na verdade, por aí haviam, séculos antes, andado romanos e deles se mostram, ainda hoje, desprotegidas das intempéries, duas inscrições, que, a seu tempo, D. Domingos de Pinho Brandão estudou, juntamente com o saudoso Adriano Vasco Rodrigues († 22-01-2025). Foi D. Domingos ilustrado bispo de Leiria e, depois, do Porto, e por essas antigas pedras com letras deveras se interessou.

Chegaram estas a seu conhecimento e não hesitou em as estudar, até porque uma delas vem justamente ao encontro do que se acaba de referir. Trata-se de um miliário, isto é, marco que os Romanos colocavam nas zonas principais das vias para informação de distâncias.
Foi achado no Galrado, cerca do Zêzere, segundo informação que, a seu tempo, obteve dos moradores da quinta com esse nome. Aliás, acrescentou D. Domingos que lhe terão dito aparecerem no mesmo local muitos vestígios da época romana. Daí foi levado para junto da porta do lado esquerdo do templo, à esquerda de quem entra. Porventura, não sem antes ter servido de pia de água benta, como o sugere, escreve D. Domingos, uma cavidade que existe no cimo.

Dado que a superfície epigrafada sofreu escoriações múltiplas, já não foi possível aos dois investigadores declararem o texto completo em seis linhas aí gravado. Concluíram, todavia, perante o que lograram ler, que aí poderia ter havido referência a dois imperadores que governaram em conjunto, Diocleciano e Maximiano, e, porventura também aos dois césares que os acompanharam, os «fortíssimos» Constâncio e Maximino Daia. Apontam, pois, para uma datação dos anos 305 / 306.
Registe-se, a título de curiosidade, que as dificuldades de leitura deste marco não têm aliciado os estudiosos, porque – que se anote – mais nenhuma tentativa de leitura foi feita.
Diversa é, no entanto, a outra pedra com letras que lhe faz companhia. Trata-se do epitáfio mandado lavrar por Proculino e para as suas esposas, modelos de piedade: uma foi Valéria; a outra teve Amabilis como nome. E bem amável deveria ter sido, pois que Proculino a apresenta como nutrix – a ama de leite dos seus filhos!

Cremos que ainda terá havido uma tentativa de avivar as letras do epitáfio; mas como com mortos se não deve brincar, o perigoso pinta-paredes terá dado dois passos atrás.
O certo é que, para além dos perversos avivamentos de que já aqui se falou, há mais dois a juntar agora ao rol das suas façanhas por Valhelhas andou à solta.
Aqui está a fotografia das outras pedras avivadas. Na inscrição de cima, sob uma cruz, o conhecido cristograma:as siglas IHS aludem às três primeiras letras do nome de Jesus em grego: iota-eta-sigma (ΙΗΣΟΥΣ), siglas que passaram para latim como sendo da afirmação Iesus Hominum Salvator, «Jesus Salvador dos Homens».
Vem de seguida Afº MIᴣ | o fez. Será Afonso Martins. Noutra pedra em baixo. Era 1674.

Que o «pintor de paredes» valhelhense se tenha basto divertido somos capazes, até, de acreditar. Que, apesar dos gatafunhos com que nos brindou, acabou por também nos divertir disso não há dúvidas também.
Restam, porém, dois apelos finais: não o deixem à rédea solta; e, sobretudo, resguardem num museu, quanto antes, as duas inscrições romanas. A do Proculino que deseja ser sepultado com as duas esposas não é um mimo a mui respeitosamente admirar?




De: Céu Morais
5 de maio de 2026 11:22
Muito obrigada pela deliciosa informação.
Adorei.
Vou partilhar com o meu primo que vive na Guarda.
De: Fernando Mendes
5 de maio de 2026 11:34
Muito delicioso. Parabéns!
De: Elisabete Rodrigues
5 de maio de 2026 15:41
Este Proculino era um romântico…
De: maria helena coelho
5 de maio de 2026 17:15
Este Proculino devia mesmo ser um homem sensível!…
José Azevedo Silva
5 de maio de 2026 19:30
Uma vez mais as pedras que falam, neste caso por terras da Guarda, Valhelhas.
Valhelhas, na Cova da Beira, nas margens do Alto Zêzere, terá também beneficiado da proximidade das Termas de Manteigas, com águas a 42º, sinalizadas e fruídas pelos romanos.
Maria de Fátima Meneses
7 de maio de 2026 11:41
Muito interessante este teu artigo!
Bjs
É comovente, o gesto de Proculino.
Qual seria a relação dele com Amabilis, ama-de-leite dos filhos? Era uma missão entregue às escravas, em tempos idos…
Se as crianças ainda precisavam de ser amamentadas (por ela) também ela devia ter sido mãe há pouco tempo. Se foi sua outra mulher, talvez fosse mãe de filhos dele, irmãos colaços dos de Valéria, nascidos pela mesma altura.
Sim, sei que se pode desarmar a conjectura que acabo de fazer (só vejo uma forma) mas parece bem razoável justificar o epitáfio com o amor dedicado às duas mulheres de que ele não se queria apartar na vida como na morte.
Tudo isto a propósito de Valhelhas, onde vagueia o aviva paredes antigas.
Um abraço, José d’Encarnação.