Não se contentou em avivar, como muito bem lhe pareceu, a inscrição da porta da igreja de Valhelhas – de que já se falou antes – deu cabo de mais duas!
Foi-se à inscrição do campanário e – como já Filipa Avelar escrevia em 2003, na ficha do SIPA (Sistema de Informação para o Património Arquitectónico) – «também alguns sulcos desta inscrição foram pintados a preto, mas mais uma vez mal interpretados originando dificuldades na leitura da palavra “campanário”».
Prometêramos voltar a Valhelhas para dar conta do terceiro crime de leso património, perpretado na inscrição encrustada na parede de um edifício localizado no Largo Santa Maria Maior, fronteiro à porta principal da igreja matriz.

Como que para eventual preservação de pedras com letras e como também por ali havia um brasão em relevo, alguém, um dia, agarrou em tudo e pespegou nessa parede, onde não faz nenhum sentido, a não ser esse, o de os guardar, a desafiar os estudiosos da heráldica e também os epigrafistas.


A inscrição poderá ter sido partida em duas para se ajustar ao enquadramento, como que para emoldurar o brasão. Foi de tal modo grosseiramente avivada que mal se percebe o que poderia lá ter estado escrito anteriormente. Porventura, haverá aí alusão a um sargento-mor – vê-se CARgE/NTO MAOR – precedido, na 1ª linha, por MEII PINtoR (o N invertido): será Manuel pintor? E filho (vê-se fo Do) do sargento? Quem adivinha? Se a inscrição sob o brasão é continuação da de cima, seria esse o autor da obra, porque se lê bem: MANDA fAZE|R ⸳ ESTA oBRA. Segue-se a data: 1693. Desconhece-se o que significa AS.
Está bem preservado o brasão, que os heraldistas saberão descrever a rigor.
Diremos que, debaixo de um capacete redondo, de abas a terminar em voluta, há um motivo floral horizontal. O escudo central em V mostra uma leoa apoiada sobre as patas traseiras, que assentam, por sua vez, sobre cinco traços horizontais (a simbolizar propriedades fundiárias, será?); há pendentes, lateralmente, ramagens que poderão ser ramos de hera.


Haveria a tentação de considerar este um brasão dos Castros, na medida em que, na citada ficha do SIPA, se diz que «no ático do retábulo-mor de talha dourada surge o escudo da família de D. Rodrigo de Castro». De resto, também no ângulo do norte do campanário estão as armas dos Castros bastardos (os das seis arruelas), o que parece provar que estes Castros possuíam, no século XVII, o senhorio de Valhelhas e a alcadaria norte do seu castelo, como sugere Pinho Leal (vol. X 1873, p. 159, do seu Portugal Antigo e Moderno).
Sobre os Castros, de Valhelhas, mas num registo mais recente, sabe-se que José (Augusto Soares Ribeiro) de Castro, advogado de prestígio, jornalista, fundador, em 1 de novembro de 1882 do jornal O Povo Português, o primeiro jornal republicano da Guarda e, mais tarde, a 24 de Fevereiro de 1878, diretor de um outro jornal, o Districto da Guarda, ativo entre 1878 e 1938, grão-mestre da Maçonaria, republicano profundo, nasceu em Valhelhas, a 7 de Abril de 1848, pai do major Álvaro Xavier de Castro (1878-1928), nascido na Guarda quando o pai era aqui advogado, também ele republicano e ministro em 1920. Serão descendentes do Senhor de Valhelhas, D. Rodrigo de Castro, filho do I Conde de Monsanto, D. Álvaro de Castro? É bem possível!
E acrescentar-se-á, a talhe de foice, que essas mesmas armas, com as seis arruelas, se mantêm num dos panos da muralha do antigo castelo de Cascais.

O primeiro Conde de Monsanto por carta régia de 1460, outorgada por D.Afonso V, foi D.Álvaro de Castro, «neste Reino grande Senhor pela representação da Casa de Castro e outras prerrrogativas que concorriam na sua pessoa», como se lê na p. 474 do volume XI da História Genealógica da Casa Real Portugueza, de António Caetano de Sousa (1745). Morreu a 24 de Agosto de 1471, na tomada de Arzila, quando defendia o castelo cuja guarda lhe estava confiada: «Sua morte (escreveu Rui de Pina) foi muito sentida, porque no campo e na corte, na paz e na guerra, era por seu siso, discrição e esforço, homem mui principal».
Pois a um dos seus descendentes houvemos de nos referir agora, devido a mui singelo baixo-relevo, perdido nos confins da Beira Alta, quem diria? Não sabemos quem foi; mas uma certeza nos resta: o brasão que está nesta parede não é de Castro nenhum, nem dos da boa estirpe nem dos bastardos que Pinho Leal mencionou.
(crónica em parceria com Dulce Borges)






