Esvoaçam pardais por entre as mesas e mesmo na esplanada das piscinas em busca de cibo. Ao final da tarde, sem gente, vão à beirinha, onde a água escorre para as grades, dessedentam-se. As gaivotas, essas, têm medo dos fios de nylon que cruzam o ar sobre o empreendimento, brilham vistos de cima – e têm medo. Uma que outra, mais timorata, ao final da tarde também ousa vir beber.
Programara levar para férias Eça e Camilo. Uma forma de enriquecer o meu léxico e de mergulhar nesse intrigante final do século XIX, de que ainda hoje haverá reminiscências e, porventura, comportamentos – às ocultas ou às claras – de veras semelhantes.
Enganei-me. Quando, depois de ter sublinhado A Mulher Fatal, de Camilo, abri A Tragédia, tive a surpresa escarrapachada a lápis logo na 1ª página em branco: «Lido 13/10/1983».
Desisti, pois, da leitura completa, embora (confesso), mais de 40 anos passados, pormenores do enredo já se esvaíram por completo. Tenho, porém, o costume, incutido pelos meus mestres, de assinalar no livro as passagens mais interessantes. Por isso, agora, fui à cata delas, na certeza de que, muito provavelmente, 40 anos não teriam passado em vão.
Permita-se-me, por conseguinte, que de algumas me faça eco agora. Nada de crítica literária, nada de recensão bibliográfica, apenas curiosidades.
Claro, o que mais nitidamente transparece é a então dependência cultural de França, o que se compreende e decerto os historiadores que dessa época trataram bem o terão assinalado:
1º) Porque chegara o comboio: o Sud-Express, pela primeira vez, em 1887, com a sua viagem inaugural, a 4 de novembro, a ligar Lisboa a Paris e Calais. Pelo caminho-de-ferro vêm pessoas, vêm ideias, vêm os livros franceses.
2º) Porque a atitude dos nossos “aliados” ingleses em relação aos territórios africanos não merecia aprovação nacional.
Para além dessa visível ‘subordinação’ a França e aos seus costumes, valerá a pena referir passagens onde, requintadamente, poderemos apreciar o bom recorte da frase, o fino humor, a descrição inesperada e acutilante (as páginas são da edição de Livros de Bolso de Publicações Europa-América):
«A Condessa era, é ainda, como um prato de mesa redonda: o que a recebe do seu vizinho da direita, serve-se e passa-a ao seu vizinho da esquerda» (p. 20).
«[…] No palco, cinco mulheres enxovalhadas, de cabelos ignobilmente riçados, com decotes lassos que descobriam clavículas necessitadas, cantavam em linha, com tons agudos, num ritmo pulante» (p. 21).
«E ele achava Lisboa uma cidade interessante. Quereria publicar um poema, ou ser aplaudido num teatro, e ser na cidade uma pessoa essencial» (p. 25).
«[…] um secretário-geral da Índia, sujeito pacífico que compunha odes e sofria dos intestinos» (p. 26).
« […] Gouveia Teles, um velho viúvo retirado, em Almada, onde fazia caridade e lia Horácio» (pág. 34).
«E tudo tinha um ar sujo e íntimo, um aspecto desordenado, duma vida brusca e confusa e de obras começadas com impaciência e abandonadas com desconsolação» (p. 93).
«Gorjão fazia arte […]. Faria escola, encheria os museus de quadros sublimes e viveria na posterioridade. Para isso, lia todas as críticas, todas as estéticas. E, muito impressionável, dominado sempre pela última leitura, passava de um sistema a outro, como um cometa errante, iluminando-se de todas as opiniões que atravessava» (p. 94).
Era assim Eça: de uma ironia fina, mormente para os pretensos poetas e pintores, para a nobreza balofa. A usar inesperados contrastes, envoltos num halo impregnado de ridículo: imagina-se lá o burocrata na Índia a escrever odes e, simultaneamente (parece) a sofrer dos intestinos! Ou o viúvo entregue à caridade e ao poeta Horácio! E o que será um «ar sujo e íntimo»?!…
Era assim. E não vale mesmo a pena lê-lo de supetão. Há de se parar aqui e acolá, a saborear as palavras.




De: Dora Barradas
30 de julho de 2026 14:14
Amigo
Obrigada ! …porque já me abriu (mais ) o apetite para as leituras de verão!
De: Elisa Silva
30 de julho de 2026 14:08
[…] Agradeço também “A tragédia…” Mas, é assim: para além desta boa análise, basta dizer que ” Eça é só um!” Ao longo da história da nossa literatura, vários, muitos, inúmeros valores tivemos, infelizmente nem todos devidamente apreciados.
De: Editorial Blau
30 de julho de 2026 13:30
Olá José
Gostei de tudo, mas sobretudo muito da frase do Camilo de se ser velho aos 45 anos e da velhice dos 40,
De: Virgílio Martins
31 de julho de 2026 12:13
Se bem me lembro, li pela primeira vez “O Primo Basílio”, “O Crime do Padre Amaro” e “A Tragédia da Rua das Flores” quando andava no Liceu de Faro.Leituras não aconselhadas a menores, ou mesmo proibidas, já não me recordo bem, costumava ir comprar os livros “fora do mercado” a um livreiro que as guardava num móvel fechado debaixo da caixa registadora. O dinheiro era o que os meus pais me davam para pagar a viagem na “camioneta”, mas conseguia poupar viajando “à boleia”. Alguns também conseguia que me fossem “facilitados” pelo responsável da biblioteca itinerante da Gulbenkian que passava por São Brás, creio que à sexta-feira. Por vezes, dizia-me que não eram próprios para mim, e lá ia eu à Luso Espanhola (era essa a livraria de Faro). Belos tempos!
De: Maria José Matos
30 de julho de 2026 22:35
Boas leituras! Com Eça sempre!
Infelizmente, a cultura francesa evaporou-se das referências literárias dos nossos autores contemporâneos, que só falam inglês!
Regina Anacleto
31 de julho de 2026 21:27
Boas leituras, saboreadas e calmamente mastigadas!
De: Luis Torgal
30 de julho de 2026 16:47
Caro Amigo
Obrigado pelo teu comentário a Eça e à Tragédia da Rua das Flores. Como sabes, o verdadeiro assassino da esposa, em que se inspirou Eça de Queiroz, foi Vieira de Castro, amigo de Camilo e que participou no movimento académico Sociedade do Raio. E ainda teu confrade na Academia das Ciências (a referência, verdadeira, é apenas uma brincadeira minha, sem qualquer outro sentido). É interessante como voltamos sempre a Eça. Curiosamente ando agora a reler A Ilustre Casa de Ramires, por ser o romance de que menos me lembrava.
Sílvia Quinteiro
30 de julho de 2026 12:58
É sempre tão bom regressar aos grandes escritores. Nunca param de nos deliciar.
Bela crónica. Parabéns.
De: Maria Mota Almeida
1 de agosto de 2026 17:46
Mais um testemunho admirável.