PULHÍTICOS
Ide-vos foder
pela vossa ideação que é nada,
um vácuo ornado de fausto e de gravata,
onde o pensamento morre antes da rima
e a ética é uma velha que vos chateia a lata.
Por sigma de tudo o que dizeis soberano
— esse cálculo frio de quem subtrai o humano —
ide-vos foder, sim, mas com decoro,
para que o vosso brio não manche o vosso tesouro.
Deixem, porém, o estigma da República intacto,
essa ferida aberta que é o nosso único pacto.
E de acto instado, sem demora ou prece,
ide-vos foder antes que o sol arrefeça.
Acometam minorias com o vosso desprezo eleito,
e maiorias com o pão que lhes tirais do peito.
Diverti-vos no circo que vós mesmos montais,
onde o palhaço é o povo e os donos são os animais.
Congeminem leis, parideiras de nenhures,
para que a grei se perca em labirintos escuros,
entre cortes de verbas e recortes de jornais,
onde a verdade é o que menos nos dizeis, ou jamais.
Ó vós, arquitetos do lodo e do engodo,
que pensais que o mundo é o vosso prato de lodo!
Se a ontologia vos desse um espelho de frente,
veríeis apenas o verso de um ente ausente.
Filosofais sobre o bem enquanto o mal vos assiste,
numa dialética de dar dó, de tão triste.
É o ser contra o parecer, o nada contra a massa,
e no intervalo do vosso ego, a decência passa.
Fazei das vossas sedes catedrais do vazio,
onde a honra naufraga num copo de rio.
Mas deixem o estigma da República intacto,
não por respeito, que isso é termo abstrato,
mas porque até o parasita precisa do hospedeiro,
e sem a república, não sois mais que o nevoeiro.
Ide-vos foder, então, com a vossa retórica oca,
onde a mentira é a língua que vos move a boca.
Mas ide-vos foder com a consciência (se houver)
de que a História vos cospe quando vos vê passar, ou sequer.



