O MÉRITO NUMA SOCIEDADE DE APARÊNCIAS

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Há uma pergunta que talvez Portugal evite fazer com demasiada frequência: Quem somos nós?
Não quem fomos. Não aquilo que gostaríamos de parecer. Não aquilo que os outros dizem de nós. Mas quem somos hoje, depois de tudo aquilo que vivemos, de tudo aquilo que construímos e também de tudo aquilo que ainda não conseguimos transformar?
A pergunta parece simples. Não é.
Porque um país não é apenas um território, uma bandeira, uma língua ou uma história. Um país é também uma maneira de olhar o mundo. É aquilo que transmite de geração em geração. São os seus medos e as suas ambições, os seus hábitos, os seus preconceitos, as suas virtudes e as suas contradições. E Portugal tem muitas.

Somos um povo que atravessou oceanos e, ao mesmo tempo, muitas vezes parece ter medo de atravessar a rua para enfrentar o desconhecido.
Fomos capazes de partir para o mundo quando quase nada tínhamos. Mas continuamos, por vezes, a desconfiar de quem quer fazer diferente dentro das nossas próprias fronteiras.
Inventámos caminhos. E tantas vezes preferimos seguir os já conhecidos.
É nesta contradição que talvez devamos procurar uma parte da resposta.

O país que herdámos

Portugal recebeu uma herança extraordinária. Recebeu séculos de história, uma língua falada por milhões de pessoas, uma cultura profundamente marcada pelo encontro entre povos, uma extraordinária capacidade de adaptação e uma experiência que nenhum manual consegue reproduzir.
Mas recebeu também hábitos. E nem todos os hábitos são virtudes. Há tradições que devemos preservar porque nos explicam. Há outras que devemos questionar porque nos limitam.
E existe uma diferença fundamental entre respeitar o passado e ficar prisioneiro dele.
Talvez uma das grandes tarefas do Portugal contemporâneo seja precisamente esta: aprender a separar aquilo que merece ser preservado daquilo que precisa de ser transformado.

Não é uma tarefa fácil. Porque há sempre quem confunda mudança com desrespeito pela tradição. E há também quem confunda tradição com verdade.
Nenhum dos extremos nos serve.

O conservadorismo que não tem idade

Há conservadorismos que vêm da direita. Outros vêm da esquerda. Há conservadorismos políticos, económicos, culturais e sociais.
Mas há também um conservadorismo muito mais profundo, que não pertence a nenhuma ideologia. É o conservadorismo do “sempre foi assim”. Essa talvez seja uma das frases mais perigosas de qualquer sociedade. Porque encerra uma pergunta antes de ela ser feita.
Sempre foi assim. Porquê? Quem decidiu? Quando? E sobretudo: tem de continuar a ser assim?
Uma sociedade que nunca faz estas perguntas acaba por transformar os seus hábitos em leis e as suas limitações em destino.
Portugal não pode ter medo de se questionar. Questionar não é destruir. É amadurecer.

O mérito e o berço

Durante muito tempo, o lugar de uma pessoa na sociedade esteve demasiado ligado ao lugar onde nasceu.
O apelido.
A família.
A profissão dos pais.
A fortuna.
As relações.
O acesso a determinados círculos.
Hoje somos, felizmente, uma sociedade muito diferente. Mas algumas dessas marcas não desapareceram completamente. Mudaram de forma. Hoje pode valer mais uma rede de contactos do que uma competência. Uma presença pública mais do que uma obra. Um currículo bem apresentado mais do que aquilo que efectivamente se fez. Um número de seguidores mais do que uma ideia. Uma fotografia mais do que uma vida.
É aqui que a discussão sobre o mérito se torna essencial. Porque o mérito deveria ser uma das grandes ferramentas de democratização de uma sociedade. Não deveria importar tanto saber de onde alguém veio. Deveria importar aquilo que conseguiu fazer. O que aprendeu. O que criou. O que resolveu. O que ofereceu aos outros.

Mas o mérito não nasce sozinho Também aqui precisamos de honestidade. Não basta dizer a alguém: “Se te esforçares, conseguirás.”
Nem todos começam da mesma linha de partida.
Há crianças que crescem rodeadas de livros e outras que crescem sem um único livro em casa. Há jovens que podem estudar e outros que começam a trabalhar cedo. Há quem tenha família para apoiar, contactos para abrir portas e segurança para errar. E há quem não tenha nada disso. Por isso, falar de mérito sem falar de igualdade de oportunidades é uma meia verdade.

O Estado, a escola, a família e a sociedade têm uma responsabilidade enorme: criar condições para que o talento possa aparecer onde quer que esteja. Porque o maior desperdício de um país não é apenas o dinheiro que perde. É o talento que nunca chega a descobrir-se.
Quantos futuros professores ficaram pelo caminho?
Quantos cientistas?
Quantos artistas?
Quantos empresários?
Quantos escritores?
Quantas pessoas extraordinárias nunca tiveram a oportunidade de descobrir aquilo que poderiam ter sido?
Essa é uma pergunta que Portugal devia fazer a si próprio.

O problema não é a aparência Vivemos numa sociedade visual. Isso não é necessariamente mau. A imagem comunica. A apresentação importa. A capacidade de comunicar é uma competência.
O problema surge quando a embalagem passa a valer mais do que o conteúdo. Quando começamos a avaliar uma pessoa pela forma como se apresenta antes de procurarmos saber aquilo que sabe. Quando o discurso substitui a competência. Quando a notoriedade substitui o trabalho. Quando a opinião substitui o conhecimento. Quando a velocidade de resposta substitui a capacidade de pensar.
E talvez aqui esteja uma das grandes armadilhas do nosso tempo: estamos a confundir informação com conhecimento e exposição com reconhecimento. Ter acesso a milhões de informações não nos torna necessariamente mais sábios.
Falar para milhares de pessoas não nos torna necessariamente mais importantes. E ter uma opinião sobre tudo não significa compreender alguma coisa.

Portugal tem de voltar a gostar de aprender
Talvez seja esta uma das maiores revoluções de que precisamos.
Voltar a gostar de aprender. Aprender sem vergonha. Perguntar sem medo de parecer ignorante. Mudar de opinião sem sentir que perdemos. Admitir que alguém sabe mais do que nós. Ouvir quem tem experiência. Ouvir também quem ainda está a começar.
Uma sociedade inteligente não é aquela onde todos sabem tudo. É aquela onde ninguém tem vergonha de dizer “não sei”. E onde o “não sei” pode ser o princípio de uma pergunta.

Os mais velhos não são passado

Há outra mudança de mentalidade que Portugal precisa de fazer.
Precisamos de deixar de olhar para o envelhecimento apenas como um problema. Uma pessoa que chega aos 70, 80 ou 90 anos não transporta apenas idade. Transporta memória. Experiência. Erros. Conhecimento. Histórias. Capacidade de comparação. E, sobretudo, uma coisa que nenhuma inteligência artificial, nenhum algoritmo e nenhuma aplicação consegue reproduzir integralmente: uma vida vivida.
Mas isso não significa que os mais velhos tenham sempre razão.
Ser mais velho não é ter razão. Tal como ser jovem não é estar errado. E talvez esta seja precisamente a ponte de que precisamos. Respeitar a experiência sem a transformar em autoridade absoluta. E acolher a novidade sem a confundir com superioridade.O futuro não pertence aos jovens contra os velhos. Pertence aos jovens com os velhos.

O melhor de nós ainda está cá

Portugal tem defeitos. Muitos. Mas também tem qualidades que por vezes esquecemos. Tem uma extraordinária capacidade de adaptação. Tem criatividade. Tem talento. Tem cultura. Tem gente que trabalha muito e bem. Tem investigadores reconhecidos internacionalmente. Tem artistas. Tem empreendedores. Tem professores que continuam a ensinar apesar das dificuldades. Tem profissionais de saúde que continuam a cuidar. Tem pequenas empresas que sobrevivem com uma coragem admirável. Tem pessoas que, sem qualquer notoriedade, sustentam todos os dias aquilo a que chamamos sociedade.

Talvez o problema seja que o melhor de Portugal raramente faz tanto barulho como o pior.
O que é extraordinário nem sempre é notícia. O que é competente nem sempre é viral. O que é sério raramente é escandaloso.
E aquilo que é construído ao longo de vinte anos não cabe facilmente num vídeo de trinta segundos.

Precisamos de limpar as nossas mentes

Talvez esta seja uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo. Não destruir valores. Não negar a história. Não ridicularizar tradições. Não desrespeitar quem pensa de maneira diferente. Mas limpar a nossa cabeça de ideias que herdámos sem nunca termos perguntado se ainda fazem sentido.
Há preconceitos que sobrevivem apenas porque ninguém os questiona. Há hierarquias que persistem porque sempre existiram. Há profissões que ainda são consideradas mais importantes do que outras. Há pessoas que são ouvidas apenas pelo cargo que ocupam. E há outras que, apesar de terem muito para dizer, continuam invisíveis.
Uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela onde todos pensam da mesma maneira. É aquela onde ninguém é impedido de pensar de maneira diferente.

Afinal, o que é o mérito?
Talvez o mérito não seja apenas chegar mais alto. Talvez seja também chegar mais longe sem deixar ninguém para trás. Talvez seja fazer bem o nosso trabalho quando ninguém está a olhar. Cumprir uma promessa. Assumir um erro. Voltar a começar. Ensinar aquilo que aprendemos. Abrir uma porta a quem vem depois de nós. Ter coragem para mudar de opinião. E, sobretudo, não utilizar aquilo que conquistámos para impedir que outros conquistem também.
O verdadeiro mérito talvez não esteja apenas naquilo que recebemos. Está também naquilo que deixamos.

Um país não pode viver de aparência

Portugal não precisa de parecer melhor. Precisa de ser melhor.
Não precisa de produzir apenas discursos sobre inovação. Precisa de criar condições para inovar.
Não precisa de falar permanentemente de juventude. Precisa de dar futuro aos jovens.
Não precisa de elogiar os mais velhos. Precisa de aproveitar a sua experiência.
Não precisa de proclamar que valoriza o mérito. Precisa de o reconhecer.
E não precisa de escolher entre tradição e mudança. Precisa de aprender a fazer aquilo que os povos mais inteligentes sempre fizeram: guardar o que merece ser guardado e mudar aquilo que precisa de mudar.
Talvez seja esse o nosso verdadeiro desafio. Encontrar o nosso berço sem ficar presos ao berço. Conhecer a nossa história sem viver dentro dela. Respeitar aquilo que fomos sem impedir aquilo que podemos ser.
Porque Portugal não é apenas aquilo que recebeu. É também aquilo que decidir fazer com o que recebeu.
E talvez seja aí que esteja a resposta à pergunta inicial.
Quem somos nós?
Somos um país pequeno que já fez coisas enormes.
Um país envelhecido que ainda precisa de aprender a olhar para o futuro.
Um país tradicional que precisa de continuar a renovar-se.
Um país com talento que nem sempre sabe reconhecê-lo.
Um país que já atravessou fronteiras e que ainda precisa de ultrapassar algumas dentro de si próprio.
Mas somos também uma possibilidade. E essa possibilidade permanece aberta. Talvez o melhor de Portugal não esteja atrás de nós. Talvez esteja à nossa frente. E talvez a nossa maior responsabilidade seja não deixar que o medo de mudar nos impeça de o encontrar.

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