Boa parte das dificuldades da sua interpretação resultam do ‘crime’ de se tentarem avivar as letras com tinta. Normalmente, é operação levada a cabo por quem não percebe o que lá está escrito e pinta como lhe parece bem. Aliás, o procedimento a ter seria, sim, de limpar suavemente a superfície epigrafada e fazer diversas fotos com diferentes ângulos de luz, para que os sulcos de letras bem se evidenciassem. Nada de sugerir letras que, amiúde, lá se não encontram e tudo isso causa confusão.
Veja-se a inscrição que ocupa a arquivolta do portal ocidental da igreja matriz de Santa Maria Maior, de Valhelhas.

É um texto em latim, cheio, porém, de siglas e de abreviaturas, que, para mais, tendo sido pintadas, dificultam a interpretação.
Os caracteres apresentam bem grosseira mescla de módulos capitais e cursivos e dá-nos a impressão de que o letreiro até terá sido mui atabalhoadamente gravado, já estando no sítio os blocos da arquivolta. E mais atabalhoadamente foi avivado. Veja-se, a título de exemplo, o gracioso M inicial, a contrastar com o outro que significa ‘mil’ e tem por cima o sinal ondulado a explicar que se deve ler como sigla também.

Lemos:

Bem visto o cuidado de se dever interpretar a data como pertencendo à era de César, pois que será apenas por carta régia d’el-rei D. João I, datada de 2 de agosto de 1422, que em Portugal se adoptará a era cristã. Assim, 1222 corresponde a 1184, ano em que ainda reinava D. Afonso Henriques, que viria a falecer no ano seguinte. Estamos, consequentemente, perante um templo primitivamente românico, mesmo dos primórdios da nacionalidade.
Magius (por Maius) é forma do latim popular. De certeza que não terá sido gravado o 2 em algarismo árabe antes do X, afigurando-se curioso que assim se possa ter querido informar que se devem ler duas vezes a letra X. Alicia-nos, claro, a ideia de, em vez de dois X, o artista se haja divertido como que a esclarecer «olhem que são dois X!». Merece-nos atenção a grafia da palavra ecclesia, porque nos parece haver um anexo alto LE e o actual rabisco poderá corresponder a um A bem cursivo ou às três letras SAI, que se não tenham conseguido ler.
Também o final causou dificuldade ao pintor. Crê-se que a palavra correcta seria SACRATA, para dizer que a igreja fora ‘sagrada’, ‘consagrada’. O que, todavia, se lê é são e do, havendo a possibilidade de o d ser ct – o que daria sancto (por sancta).

Anotem-se, por conseguinte, as interpretações que diferem da que estamos a propor.
Escreveu Alípio Rocha a Monografia de Valhelhas (Coimbra, 1962). Na página 171, copia do Portugal Antigo e Moderno, de Pinho Leal (volume X, 1873, p. 159), a seguinte leitura:

Copia também a tradução: «Esta igreja foi sagrada no mês de março de 1200». E faz-se eco da explicação dada por Pinho Leal: «Esta data deve ser do ano do nascimento de Jesus Cristo; e não da era de César, que então correspondia ao ano de 1162, época em que esta terra estava despovoada».
Ana Penisga e Cláudia Pinto, da empresa Clay Arqueologia, no artigo intitulado «Uma intervenção em Valhelhas e o seu enquadramento geral na prática da Arqueologia Preventiva» (Praça Velha 48, 2025, pp. 251-267), lêem, na pág. 257:

Traduzem: «(Esta igreja foi sagrada no mês de Maio de 1224)». Acrescentam que «esta data referir-se-ia, possivelmente, ao ano do nascimento de Cristo e não à era de César, que corresponderia ao ano de 1224».
Enfim, o que estes “crimes de leso património letreiro” nos encanzinam!…
Mas sem problema: o recado está dado e, mal ou bem, é perceptível: foi no mês de Maio do ano 1222 da era de César (1184 da era cristã) que o primitivo templo em honra de Santa Maria Maior abriu as suas portas ao culto. O que depois, ao longo dos séculos, ali se passou, é outra história para contar, até porque outra inscrição, também ela avivada a tinta, está numa parede lateral à nossa espera!
(em colaboração com José d’Encarnação)



