Há qualquer coisa de profundamente enganadora na forma como hoje nos relacionamos com a informação. Nunca vimos tanto e, ainda assim, raramente compreendemos o suficiente.
Não é uma questão de falta. É precisamente o contrário.
Vivemos numa lógica em que a informação deixou de ser apenas isso e passou a ser consumo. Circula, acumula-se, substitui-se. Como tudo o resto. Não há tempo para fixar, porque tudo foi desenhado para não ficar.
O gesto é sempre o mesmo: deslizar.
E, nesse movimento contínuo, instala-se uma ideia confortável, a de que estamos atentos ao mundo. Que sabemos. Que acompanhamos. Mas aquilo a que chamamos ver é, muitas vezes, apenas reconhecer fragmentos que nos são servidos de forma rápida, organizada e, acima de tudo, selecionada.
Porque esta ilusão de totalidade não é neutra.
Vivemos numa estrutura onde a própria circulação da informação está integrada numa lógica económica, uma lógica que transforma tudo em conteúdo, tudo em fluxo, tudo em algo passível de ser consumido. Até o sofrimento. Até a injustiça. Até a urgência política.
E é precisamente aqui que importa ser claro: nunca tivemos tanta liberdade de acesso à informação, nem tanta possibilidade de participação. Hoje, qualquer pessoa pode falar, publicar, mostrar. Isso é, em si, profundamente transformador e deve ser defendido.
Mas essa liberdade não existe fora de um contexto. E é esse contexto que importa olhar.
Porque aquilo que parece abertura total é, muitas vezes, uma circulação orientada. O que vemos, quando vemos, como vemos, tudo isso acontece dentro de uma dinâmica que privilegia velocidade, impacto e retenção, não necessariamente compreensão.
E quanto mais participamos nesse fluxo, mais ele se intensifica.
Este excesso, que à primeira vista se apresenta como emancipador, funciona também como um mecanismo de alienação. Não porque nos esconda o mundo, mas porque o transforma numa sequência contínua de estímulos que não se deixam aprofundar.

Sem tempo, não há pensamento. Há reação.
Saltamos de tragédia em tragédia, de indignação em indignação, com a sensação de que estamos politicamente despertos, atentos, envolvidos. Vemos guerras, crises, violência, tudo à distância de um gesto. Tudo reduzido à mesma superfície.
E é importante ver. Não se trata de defender ignorância, nem de propor qualquer tipo de proteção face ao real. O problema não está no acesso, está na forma como esse acesso é estruturado.
Porque este modelo não aprofunda a consciência. Muitas vezes, dilui-a.
Quando tudo é urgente, nada permanece. Quando tudo nos chega, nada se organiza.
Há uma espécie de anestesia que se instala, não por falta de sensibilidade, mas por excesso de exposição. Como se o mundo inteiro passasse por nós sem realmente nos atravessar.
E, ao mesmo tempo, confundimos cada vez mais informação com entretenimento, como se fossem coisas distintas.
Mas talvez nunca tenham sido.
Há sempre uma mediação. Uma escolha. Um enquadramento invisível que decide o que aparece, em que ordem, com que intensidade. Mesmo aquilo que nos parece caótico já foi organizado antes de chegar até nós.
E é aqui que a fronteira se dissolve, aquilo que consumimos para nos distrair é, muitas vezes, o mesmo mecanismo que estrutura aquilo que pensamos saber sobre o mundo.
Não é novo, é apenas mais sofisticado.
Mudam os formatos, mantém-se a lógica: captar atenção, reter atenção, orientar atenção. Do espetáculo coletivo às formas mais íntimas de consumo individual, há sempre uma dimensão de direção. Uma narrativa implícita.
E isto não significa que não mereçamos leveza, descanso, alegria. Significa apenas que nada disto existe fora de relações de poder.
A televisão não desapareceu, fragmentou-se. As redes sociais não são uma rutura, são uma intensificação. O ecrã mudou de forma, mas a lógica permanece.
E, no meio disso, vamos acreditando que escolhemos tudo. Que vemos tudo. Que sabemos.
Mas talvez estejamos apenas a percorrer, vezes sem conta, os limites de um mesmo circuito.
E talvez seja por isso que a contradição se torna cada vez mais evidente: acreditamos que estamos mais informados do que nunca, quando, na prática, estamos cada vez mais afastados de qualquer entendimento sólido.
Saber exige outra coisa. Exige tempo, contexto, continuidade. Exige conflito com aquilo que lemos. Exige parar.
E parar, hoje, é quase um gesto político.
Talvez por isso faça sentido regressar, não por nostalgia, mas por necessidade, a formas mais lentas de informação. Ao que não é imediatamente substituível. Ao que foi pensado para durar mais do que alguns segundos de atenção.

Porque no momento em que tudo se torna consumível, até a informação, até a dor, até o próprio posicionamento político, também nós entramos nessa lógica. Consumimos o mundo enquanto nos distraímos com ele, convencidos de que estamos a compreendê-lo.
Mas não estamos.
Estamos, muitas vezes, apenas a assistir à sua versão mais circulável.
E essa pode ser a forma mais eficaz de alienação: aquela que se apresenta como consciência.
Porque ver não é saber.
E estar exposto a tudo não é o mesmo que estar verdadeiramente atento ao mundo.




Recortei duas passagens das muitas – quiçá o texto todo! – que poderia selecionar, tão fecunda é a análise que Leonor Freitas nos apresenta:
«Quando tudo é urgente, nada permanece. Quando tudo nos chega, nada se organiza».
«Saber exige outra coisa. Exige tempo, contexto, continuidade. Exige conflito com aquilo que lemos. Exige parar.
E parar, hoje, é quase um gesto político».
Tudo exige pressa e tudo deveria exigir serenidade!
Bem haja, Leonor! Continue nessa cruzada!
SIM
“Que gente é esta que permite a normalização da barbárie?”
Meu Deus tem compaixão de tantas criancinhas inocentes, velhinhos e doentes, milhares e milhares de mártires.
NÃO À GUERRA.
SIM À PAZ.
SANTA QUARESMA.
Tempo de dizer não à indiferença.
Recolhimento e reflexão a respeito dos nossos caminhos espirituais e de vida.
Com a devida vénia, vou partilhar.