Há um casal que o faz de forma natural em DOIS POETAS SOBRE O ESPELHO, caminhando lado-a-lado com essa cumplicidade poética, conjugando a diversidade das suas aptidões numa harmoniosa e empenhada colaboração capaz de mitigar vendavais.
Isso pressupõe que, de forma natural, cumpriram um treinamento no íntimo aconchego do lirismo polissémico (ela) ou na disciplina literária da Poesia mais realista (ele) em ambos os casos manifestações da mesma forma de mitigar longos e vazios discursos, na retórica falácia dos subterfúgios sociais e políticos.
A Poesia é, toda ela, um tratado de bem viver em sociedade, qualquer que seja o preço para atravessar os desertos que a vida fabricou.
Pilar Sastre Tarduchy, responsável máxima pelas Edições El Búho Búcaro “Poesia e Dança Espanhola”, é Professora, Editora, Poeta premiada e Gestora Cutural com um doutorameno Honoris Causa pela Universidade de Westerbrook USA. Conhece bem alguns desses desertos, mas soprada a poeira dos momentos duros, recolhe e afaga os grãos de luz que povoam a sua Poesia amadurecida, exemplarmente burilada até à perfeição estilística.
São composições livres de amarras discursivas, textualmente estruturadas com elegância. Reflectem instantâneos da sua alma que vão fluindo como um rio semântico no caudal das emoções. Escolho o poema paradigmático de Pilar, Márgenes de Algodón e fixo-me na densidade dramática da sua organização, percebendo, até nessa complexidade, que a beleza natural do seu talento se afirma. O mesmo poderia dizer de Miedo Azul: “Estoy en un cuerpo/que no me corresponde/atrapada en sus limites./Solo guardo piel amarga/de llanto invisible y miedo azul./No sé si el tiempo/pertenece o sólo es una ilusión/siento el asombro de las manos”.
As estrofes nunca perdem sonoridade musical, têm a graciosiade de uma escultura de palavras ondulando ao ritmo envolvente da leitura. Nem a plurissignificação dos versos, servida por belas metáforas, deixa de congregar leitores de diferentes sensibilidades presos à beleza descritiva dos estados de alma de Pilar S. Tarduchy.
Só lendo as suas composições e trabalhos premiados, se poderão avaliar melhor esses raios de luz, lenitivo para a obscuridade (palavra recorrente na sua obra) tão injustamente presente na existência deste ser humano de eleição.
Óscar Ródrigañez Flores, médico osteopata, licenciado em Estudos de Comércio Internacional e Aduaneiro pela Universidade Autónoma de Madrid, director técnico, poeta e também editor de El Búho Búcaro Poesia, partilha com Pilar Tarduchy cumplicidades condensadas nesta linguagem em que poucas palavras codificadas bastam para o entendimento e para a superação dos problemas.
Em DOIS POETAS SOBRE O ESPELHO, que já vai na terceira edição, temos 14 composições de cada um, como se ambos se desdobrassem em sonetos reflexivos e dialogantes que nos levam até onde, dos escombros da existência, se levantam sobreviventes em reconstrução de moradas semânticas, camada por camada, verso a verso. Dele escolho o poema Tacto de Algodón, para justificar a sintonia entre ambos e reproduzo Única igualdad: “Nunca hay dos besos iguales/ni dos caricias amargas/veo igual a las mujeres/veo igual a los hombres/y nadie es igual// Sabrifico mi percepción/y disimulo cuando te veo/intento ser igual a otros/esos que nunca lo son// Muero en vida/y entre medias de ti/reconozco que hay algo igual/tú, muerte/dulce compañera de la igualdad/y de la liberación.
Como vemos, a Poesia de Óscar Flores é, também ela, erguida sobre fundações linguísticas sólidas, num discurso sem vacilações, habituado à disciplina formal desta linguagem purificadora, livre de asperezas, mas capaz de as enunciar sem receio. E ambos se completam, se amparam, nessa aventura poética de se mirarem a um espelho que ora conta a verdade, ora a consegue alterar em signos que estabelecem a dulcificação do menos bom, numa experiência de vida de grande riqueza exploratória.
Em DOIS POETAS SOBRE O ESPELHO, Pilar Sastre Traduchy e Óscar Rodrigáñez Flores passam a ser um só corpo com que partilham estratégias de vida e ideias redendoras e por elas sobrevivem aos rios caudalosos que todos somos obrigados a atravessar na vida. É o milagre da metamorfose.

A rotina diária é pesada. A conjuntura mundial assustadora, mas encontrada a equação que alimenta a epifania de um poema alta madrugada, vale a pena abrir a janela, deixar entrar a pureza do amanhecer e soltar as emoções como pássaros migratórios. É uma forma de viver num retiro conceptual feito de versos, estrofes, composições livres.
Como não saudar a Poesia, ponto de encontro, permanência e relicário de afectos?
Pilar S. Tarduchy e Óscar Ródrigáñez Flores são essenciais a essa linguagem de entendimento na sua persistente sementeira de beleza que dará frutos saborosos. Um poema, vários poemas, sempre rendem bem-estar sem obrigação do pagamento de impostos, nem perda de identidade.






Mas que linda crónica sobre poesia mesmo não conhecendo o trabalho destes dois autores espanhóis só podemos concluir que devem ser de grande nível literário até pelos poemas selecionados.
Estamos habituados a crónicas diferentes e mais dentro da atualidade agressiva de modo que sabe bem este texto tão lúcido sobre uma matéria que atravessa todos os tempos e que dá serenidade à alma.
Bom pretexto, este, caríssima Helena, para um hino à Poesia, em jeito de mui seguro refúgio entre os baldões da vida própria e os das actuais convulsões. Recorto: «A Poesia é, toda ela, um tratado de bem viver em sociedade, qualquer que seja o preço para atravessar os desertos que a vida fabricou». Lindo! Aliás, se a crónica se assume como recensão crítica do volume dos dois poetas vizinhos, ela própria rescende o mui agradável estro poético de Helena (aqui) comentadora em estreita comunhão com o que leu. Vale a pena reler.