Oriunda de uma família numerosa e pobre de pescadores, mandaram-na ainda criança para casa da irmã mais velha, em Lisboa, onde enfrentou maus-tratos. Com apenas 12 anos, tomou uma decisão ousada: cortou o cabelo, vestiu-se de rapaz e partiu em busca de um destino diferente. No movimentado cais da Ribeira lisboeta, conseguiu convencer o mestre da caravela Nossa Senhora do Socorro a levá-la como grumete, embarcando numa viagem que transportava trigo até Mazagão, atual El-Jadida, na costa de Marrocos.
Mal chegou, Antónia (usando o nome de António Rodrigues) denunciou irregularidades no carregamento dos cereais na caravela, chamando a atenção das autoridades. Impressionado com a sua inteligência, o governador Diogo Lopes de Carvalho decidiu mantê-la na praça e alistá-la como soldado.
Mazagão era uma praça-forte estratégica do império português: uma cidade totalmente fortificada, com muralhas renascentistas preparadas para resistir a ataques constantes. Funcionava como um ponto de apoio às rotas marítimas e como bastião da presença portuguesa em África. No seu interior, vivia uma pequena comunidade de militares, famílias e comerciantes, organizada segundo modelos europeus.
Foi nesse cenário que o cavaleiro António construiu a sua reputação. Durante vários anos, participou na defesa da cidade contra os ataques dos mouros, distinguindo-se pela coragem. Tornou-se conhecido como um dos mais destemidos combatentes de Mazagão, ganhando o apelido de “jovem fronteiro de África”, sem que ninguém suspeitasse da sua verdadeira identidade feminina.
Vivendo entre soldados, António partilhava a rotina militar, mantendo sempre o cuidado de preservar o seu segredo. No entanto, a sua crescente reputação levou-a a frequentar os círculos sociais mais nobres da praça, onde despertou a atenção de várias jovens mulheres. Entre elas, Beatriz, a filha de um cavaleiro local, apaixonou-se perdidamente por António Rodrigues, ao ponto de cair de cama doente.
A insistência num possível casamento colocou Antónia numa situação insustentável. Temendo ser descoberta, decidiu confessar a verdade ao padre de Mazagão. A revelação espalhou-se rapidamente, obrigando-a a assumir-se finalmente como mulher…
Apesar do choque inicial, a sua coragem e os feitos militares foram reconhecidos e o governador perdoou-lhe a “mentira”. O facto de ser mulher redobrou-lhe a fama; todos queriam conhecer “a Cavaleira”. Acabou por casar-se com um dos seus antigos companheiros de armas e mudou-se para Lisboa.
A sua história tornou-se lendária. Em 1619, o rei Filipe II de Portugal quis conhecê-la pessoalmente, aumentando a sua pensão anual em reconhecimento pelos serviços prestados ao reino e distinguindo também o seu único filho com o cargo de moço da Real Câmara.




