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EM DEFESA DO MAIO

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Amanhece. Sobre a mesa da casa de jantar, uma toalha de renda desenha penas de pavão. A mesa foi posta de véspera. Medronho. Folar. Bolo de laranja. Figos secos. Pratos antigos e cálices de vidro muito fino. Ao centro, uma jarra vazia aguarda que a encha de maios e calças de cuco. É, por isso, hora de ir até ao mato colher as flores. A família não tarda a despertar e há que atacar o Maio de imediato.

Caminho um pouco por entre os pinheiros e encontro uma mulher que traz um molho na mão.

– Tem chovido bem. Está tudo verde. Há muitos anos que não via tantos maios. Olhe ali. Maios e calças de cuco com fartura. – diz.

Também eu estou espantada com tamanha abundância de flores. Ficamos à conversa. Talvez já não haja tanta gente a apanhá-los. Talvez o hábito de pôr a mesa para atacar o Maio se esteja a perder. Rimos do facto de ambas termos bebido um copo de medronho mal acordámos. Não fosse o Maio entrar… Há que jogar pelo seguro.

– Tenho 94 anos. Se é para afastar o bicho, tanto vale o comprimido para o colesterol como um copinho de medronho. A Fátima é que já não vou, que fico cansada. Mas ainda cá quero andar mais uns dias. – afirma, divertida.

Pergunto-lhe se conhece as rolhas de maio. Se se faziam na sua infância. Nunca ouviu falar. “Em moça”, medronho e figos secos. Folar, mais tarde. Nos bons tempos. Em criança, nada. Explica-me que a tradição só existia para os ricos. A vida foi melhorando, mas até casar não se lembra de tal coisa. Os figos eram a refeição que levava para o trabalho. Não se podiam desperdiçar. E, enquanto vamos caminhando pelo mato e compondo os nossos molhos, entra por uma fabulosa viagem no tempo. Recorda sem qualquer esforço outros Dias de Maio. A comparação surge com naturalidade: o antigamente e o agora. Percebo que, quando se tem 94 anos, o agora pode ter 50.

– Naquele tempo, era tudo uma barrigada de fome. Esses “moce pequenes” que andam pr’aí a dizer que antigamente é que era bom, era dar-lhes com um pano encharcado nas ventas. – diz com rispidez. O ar de brincadeira e a leveza da conversa desaparecem. Mostra-se incomodada. Zangada. Só volta a sorrir quando nos despedimos.

Regresso a casa. Entro de ramo na mão. Acerto os caules e encho a jarra. Um volumoso molho de maios lilases salpicado pelo rosa vivo das calças de cuco. Ficou lindo. Sinto uma felicidade quase pueril. A mesa está finalmente pronta. Iniciamos o ataque com um brinde. Narizes franzidos. Os rapazes, ainda ensonados, fazem caretas. Engolir medronho em jejum não é para fracos. Como todos os anos, eu explico o que está na mesa. Lembro como se fazia em casa dos meus bisavós, avós e pais. Não o digo abertamente. Mas, o que realmente pretendo é que estes momentos fiquem gravados na memória dos meus filhos. Que registem todos os pormenores e não deixem que se perca o ritual algarvio.

A família dispersa-se pela casa e eu sento-me, então, a escrever esta crónica. Hesito em usar a expressão da senhora a propósito dos que têm tantas saudades de outros tempos. Dou voltas ao texto. Procuro alternativas mais poéticas. Menos gráficas. Sinónimos. Eufemismos. E decido que ficará exatamente como me foi dito.

Pela minha parte, rabisco este texto que poderão sempre imprimir e encharcar, dando-lhe depois bom uso, em defesa deste e dos Maios que virão.

PONTAPÉS E MARRETADAS, JUDEUS ATACAM CRISTÃOS

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É verdade que uma imagem pode valer mais que um discurso palavroso e, neste caso, um vídeo que se tornou viral nas redes sociais está a provocar mais engulhos ao Governo de Israel do que seria de esperar.

O vídeo mostra um ataque a uma freira católica francesa (também investigadora arqueológica) em Jerusalém. Trata-se de uma freira católica, branca, de nacionalidade francesa, arqueóloga reconhecida pelos seus pares. Ou seja, o agressor não podia ter escolhido pior alvo.

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Encurralados pela repulsa generalizada que as imagens causaram, o Governo de Israel apressou-se a declarar o “ato vergonhoso”, numa declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Há dias, outro vídeo mostrou um soldado israelita a estilhaçar uma estátua de Cristo crucificado. Foi no sul do Líbano, onde Israel avança com uma operação de limpeza étnica semelhante à que executou na Faixa de Gaza. Neste outro ataque à liberdade religiosa, dois militares (o da marreta e o que gravou as imagens) foram condenados a 30 dias de prisão. O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, disse ter ficado “chocado e entristecido” com o incidente.

No ataque em Jerusalém, a freira sofreu escoriações no rosto, cabeça e outras partes do corpo, depois de ter sido pontapeada quando estava caída, mas os ferimentos não foram considerados graves. Sendo assim, o agressor não irá sofrer consequências de maior, a não ser que venha a ser acusado de tentativa de homicídio, o que é pouco provável.

O ataque ocorreu no Monte Sião, perto de locais venerados por judeus e cristãos: o túmulo do rei David, e o Cenáculo, onde se acredita que aconteceu a Última Ceia de Cristo com os 12 apóstolos.

A Universidade Hebraica de Jerusalém afirmou: “Este não é um incidente isolado, mas parte de um padrão preocupante de crescente hostilidade em relação à comunidade cristã e aos seus símbolos.” A instituição assinalou que a vítima era uma “parceira académica estimada na descoberta do património arqueológico”.

Nada que incomode a coligação governamental no poder, que tem fomentado o crescimento do nacionalismo religioso israelita. À conta disso, as comunidades cristãs palestinianas na Cisjordânia, algumas das mais antigas do mundo, têm sido alvo de assédio crescente por parte de colonos israelitas. Quanto aos palestinianos muçulmanos, tem sido o inferno.

O Centro de Dados sobre Liberdade Religiosa (RFDC), uma rede de voluntários israelitas, registou 31 incidentes de assédio contra cristãos nos primeiros três meses deste ano. A maioria desses incidentes envolve cuspir ou vandalizar propriedades da Igreja, sendo o ataque violento desta semana considerado invulgar. No entanto, o RFDC afirmou que os seus números subestimam a dimensão do problema, já que as congregações ortodoxas tendem a não reportar os incidentes. Este organismo não divulgou dados sobre ataques de judeus contra mesquitas e comunidades muçulmanas.

MESTRE DE GERAÇÕES

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Gosto do atributo – MESTRE – sobejamente justificado.

Nesta homenagem, a peça A Estrela Titó, texto e encenação de Marco Medeiros, superiormente representada por Romeu Vala e Rita Tristão, actores agora do Palco 13.

Na assistência, poucos terão sido os olhos que se não humedeceram. Todos nos sentimos retratados naqueles evocados instantâneos de uma vivência em pleno, desde miúdos, em comunhão com a delícia da avó Titó. Fomos nós, aqui, ali, neste pormenor, naquele gesto, naquele saborear de bolo, naquele dia da partida, naquele… naquele… Peça a dever ser representada por toda a parte, em todas as escolas, para todos os públicos… Lágrimas, sentidas, molharam muitos rostos. E isso é teatro. É vida! Como Carlos Avilez o que concebia. E foi bom vivê-la assim, quase em intimidade, no auditório que tem o seu nome.

FF, formado na Escola Profissional de Teatro de Cascais, cativou, acompanhado ao piano por Tiago Machado, com o enorme virtuosismo que o caracteriza e que nunca é demais aplaudir e sublinhar.

Concorrida, muito concorrida mesmo, foi depois a cerimónia oficial do descerramento da placa toponímica pelos presidentes do Município e da Junta de Freguesia, com emotivos discursos de ocasião – pelo presidente da Junta, por Fernando  Alvarez (atual director do Teatro Experimental de Cascais), por Ricardo Machado (sobrinho de Carlos Avilez), ciclo encerrado pelo presidente da Câmara, a solenemente garantir que o legado do Mestre será honrado. Amigos, colegas, antigos alunos, irmanados todos na mesma vontade de jamais deixar esquecer a mensagem:

«O Teatro é revolucionário, grita contra a opressão e resiste sempre. O seu espírito a tudo sobrevive: às guerras e conflitos, à repressão e à censura. Consegue sempre renascer, mesmo nas circunstâncias mais adversas».

Entre a Academia das Artes do Estoril e o Teatro Mirita Casimiro.

A multidão a pouco foi dispersando, em custosa despedida. Na promessa íntima, de cada um: sim, Mestre, esta mensagem não a vamos esquecer!

QUEM ESTRAGA UMA PEDRA GRAVADA, ESTRAGA DUAS OU TRÊS…

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Não se hesitou a barafustar contra o senhor de mãos leves que avivara, a trouxe-mouxe, o letreiro patente nas aduelas do portal lateral norte da igreja matriz de Valhelhas, freguesia do concelho da Guarda: https://duaslinhas.pt/2026/03/crime-de-lesa-patrimonio/

Avivar com tinta uma inscrição – embora possa ser, à partida, uma louvável atitude – é gesto que implica conhecimento rigoroso do que, primitivamente, ali fora gravado, a fim de não se cometerem erros.

Em Epigrafia (a ciência que estuda os letreiros gravados na pedra) considera-se esse um estratagema condenável. E compreende-se porquê. É que a incidência da luz (solar ou artificial) pode realçar uns traços e ocultar outros. Pior ainda – como se documenta na foto em anexo – se o estudioso, para mostrar que a sua leitura é que está certa, pega numa caneta de feltro e pinta o texto na própria foto!…

Voltando a Valhelhas, importa corrigir o que se escreveu nessa crónica do dia 25 de Março  acerca da data da consagração do templo. O letreiro fora, de facto, já estudado por Mário Barroca na sua monumental obra Epigrafia Medieval Portuguesa, datada do ano 2000.

O conceituado epigrafista explicou-nos:

1º) O que fora lido como um 2, era, afinal, um L (dito ‘uncial’, em linguagem técnica).

2º) O “sinal ondulado” parecido com um til não passava da forma como, no século XII, se desenhava o «a» aberto, «forma medieval de indicar o género feminino do numeral e, por isso, surge por cima do M, dos CC, do LX e do XII, para ser lido como ‘era milésima ducentésima sexagésima décima segunda’.

3º) Finalmente, é normal, no século XIII, utilizar-se uma forma de M para indicar o numeral na menção da era, e outra forma em texto corrido. Vá lá entender-se estes antigos!…

Em conclusão: deve ler-se «era de 1262», isto é, ano da era de César, o que corresponde a 1224 da era cristã. Portanto, nos primórdios do reinado de el-rei D. Sancho II, «O Piedoso».

nota da redação:

No decorrer das várias publicações sobre este assunto, tentámos “calçar os sapatos” do pintor de letreiros antigos gravados na pedra. Alguma razão deve haver para que, em Valhelhas, quase todas as pedras gravadas tenham sido tratadas desta maneira. Parece-nos evidente que a principal preocupação foi tentar mostrar o que estava escrito.

Provavelmente, alguém da Junta de Freguesia deve ter pensado que, tal como estavam, ninguém entendia o que tinha sido escrito naquelas pedras. É latim, mas podia ser mandarim. Ninguém percebia os riscos, e o pintor que se prestou ao serviço também não. E o problema é mesmo esse. Os epigrafistas clamam contra o crime cometido, porque agora ninguém percebe o que lá escreveram, mas já ninguém percebia…

Os escritos não são compreensíveis para o comum dos mortais e os epigrafistas funcionam em circuito fechado, é um trabalho que não costuma sair do meio académico. E assim se perdeu a oportunidade de ser um epigrafista a “avivar” os vários letreiros medievais de Valhelhas.

Capela de Santo Antão, em Valhelhas, também tem um letreiro avivado com tinta preta

TRADIÇÃO DA MAIA

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Lagos é das zonas onde a tradição tem mais impacto e isso vê-se pela imensa participação de toda a comunidade que não deixa morrer este ritual.

A Festa da Maia, celebrada em várias regiões de Portugal na noite de 30 de abril para 1 de maio, é uma dessas tradições em que o tempo parece sobrepor camadas de sentido, pagão, cristão, rural, sem nunca perder o seu caráter profundamente comunitário e simbólico.

As suas origens perdem-se em tempos remotos, muito anteriores à cristianização da Península Ibérica. A Maia está intimamente ligada aos antigos rituais de celebração da primavera, marcando a renovação da vida, o despertar da terra e a promessa de fertilidade. Tal como outras festividades europeias associadas ao mês de maio, evoca a transição do inverno para uma estação de abundância, luz e crescimento. O próprio nome poderá estar associado à deusa Maia da tradição clássica, símbolo de fecundidade, ou simplesmente ao mês que anuncia a plenitude da natureza.

Em Almada, celebração de boas-vindas ao bom tempo é organizada desde 1992 e tem como ponto central a construção da “Maia” – uma boneca de palha vestida de branco e enfeitada com flores e espigas

Com a expansão do cristianismo, estas práticas não desapareceram, mas foram reinterpretadas. A tradição popular portuguesa integrou elementos cristãos, dando-lhes novos significados. Uma das narrativas mais difundidas,  como bem recordo da minha memória de infância em Arouca, associa as “maias” à proteção da Sagrada Família durante a fuga para o Egipto. Segundo a crença, a colocação de ramos de giesta amarela (ou outras flores silvestres) nas portas e janelas serviria para enganar ou afastar perseguidores, impedindo-os de identificar a casa onde Jesus se teria escondido. Assim, um gesto de origem agrária e simbólica passou a ser também um ato de devoção e proteção.

Nos Açores, concurso de Maios (bonecos de palha) no município da Lagoa

No entanto, para além desta leitura cristã, persistem traços claros de antigas superstições. A noite de 30 de abril era vista como um momento liminar, carregado de forças invisíveis. Acreditava-se que espíritos malignos, bruxas ou energias negativas vagueavam nesse período de transição. As maias,  especialmente a giesta, funcionavam então como um amuleto protetor, afastando o mal e garantindo saúde, prosperidade e fertilidade para o lar e para os campos.

A escolha da giesta não é inocente. A sua cor amarela intensa evoca o sol e a luz, símbolos universais de vida e proteção. Além disso, floresce precisamente nesta época do ano, tornando-se um elemento natural acessível e carregado de significado. Em muitas aldeias, era comum também enfeitar fontes, currais e campos, num gesto que transcendia o espaço doméstico e abarcava toda a comunidade.

Em Beja, a comemoração das Maias é um dos rituais mais expressivos do ponto de vista da história religiosa antiga na região

A Festa da Maia é, assim, um testemunho vivo da capacidade das tradições populares de integrar diferentes camadas culturais. Entre a devoção cristã e os rituais ancestrais da fertilidade, entre a memória coletiva e a experiência individual, mantém-se como um elo com a terra, com o ciclo das estações e com um imaginário onde o sagrado e o mágico coexistem naturalmente.

Hoje, mesmo com a vida moderna a afastar-nos dos ritmos rurais, o simples gesto de colocar uma maia à porta continua a carregar esse património invisível,  um sinal de proteção, um eco da primavera, uma ponte entre o passado e o presente que nos transmite a alegria e uma oportunidade de festejar!

CALDEIRADA DO 1º DE MAIO

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Não se quer perder tal tradição vetusta, que remontará a meados do século passado, quando o trabalho da pedra constituía, a par da lavoura, uma das atividades dominantes no concelho de Cascais.

Ia-se, manhã cedo, para a orla marítima do Guincho. A Marinha ainda era só pinhal aberto. Arrumava-se aí um recanto para o fogo. Uns tratavam dos ingredientes; outros, cana de pesca na mão, tinham a certeza de que o peixe picaria e caldeirada a preceito haveria de se saborear.

Jornada de convívio, dia de folga, dia de reivindicação pela dignidade do trabalho.

Atingiu a meia centena o número de convivas deste ano, a não haver mais sítio no barracão do Carlos, no coração de Trajouce. Já a muito custo se ouviria o coaxar das rãs na Ribeira ao lado (por limpar).

A caldeirada bem saborosa estava. Temperada a preceito. Regada com tinto de lavra particular.

Tempo houve, porém, enquanto o bolo se não partia e as rifas para o troféu anual se compravam.

Carlos Sabido exibe o trofeu deste ano

Tempo houve para dar uma vista de olhos nas prateleiras derredor, pejadas de antiguidades que Carlos Sabido vai recebendo. Um mundo! Máquinas fotográficas, telefonias, esculturas, lustres…

E, este ano, lugar de relevo para as ferramentas de canteiro, onde não faltou a vassourinha de palma com que se ia limpando o pó de um peitoril ou de uma faixa.

Fotos de Guilherme Cardoso

Após a foto do grupo, o voto: que todos aqui possamos voltar pró ano!

                                                          

A LISBOA ‘chic saloia’ DO MOEDAS

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Carlos Moedas foi o pior que poderia ter acontecido a Lisboa. Aconteceu duas vezes, por sucessivos erros do Partido Socialista e por opção de uma parte dos eleitores.
Em 2021, ganhou por três mil votos uma eleição que, aparentemente, estava ganha por Fernando Medina, mas que os erros cometidos, em campanha, levaram à derrota.
Em 2025 ganhou as eleições por 20 mil votos, uma vitória fácil, pois o PS voltou a cometer um erro de palmatória ao integrar uma coligação com um partido moribundo.

Carlos Moedas, apesar destas vitórias, da responsabilidade de quem o elegeu, vai deixar um rasto de destruição na cidade, que levará anos a recompor-se e, pelo meio, comprova a sua vertente ‘chic-saloia’, de cidadão do mundo. Para alcançar este objectivo, oblitera os sem
abrigo que se recolhem nas arcadas da Av. da Liberdade, em conluio com Gonçalo Castel-Branco, produtor de eventos (autor, por exemplo, do Chefs on Fire) seu apoiante e que trabalhou pró-bono na sua campanha. Na verdade, verifica-se que era um adjudicatário a trabalhar para a vitória de um futuro adjudicante. E, sem passar um ano, com descaramento e sem vergonha, o Presidente da Câmara de Lisboa ‘ofereceu’, por um pseudo ajuste directo, à LOHAD, uma empresa de Gonçalo Castel-Branco, 75 mil euros, para apoiar um evento no parque Eduardo VII no dia 3 de Maio, o Domingo na Avenida, promovida como ‘um chic-nic elegante no coração de Lisboa’.

A coberto de uma manifestação de novo-riquismo, Gonçalo Castel-Branco organiza um pic-nic, com preços entre os €150 a €300, os quais configuram dois tipos de ‘experiência’: Bilhete Experiência 2 Pessoas por 150€:, com acesso ao recinto, aos 10 pratos exclusivos, a uma garrafa de vinho e aos concertos musicais. O cesto de piquenique não está incluído, mas pode ser adquirido no local. Bilhete Premium com Cesto (300 €) que inclui experiência completa para duas pessoas, com a diferença de que já oferece o cesto de piquenique.

Num País em crise, com o agravamento do custo de vida, em que a classe média e média baixa tem dificuldades em ter dinheiro até ao final do mês, o ‘novo rico’ Carlos Moedas, com o seu amigo Gonçalo Castel-Branco, organizam, à custa do Município de Lisboa, uma festa para brincar às ‘tias’, oferecendo, hipocritamente, ao povo, a possibilidade de assistir, longe dos lugares VIP, a um concerto do David Fonseca e da Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Já agora, poderia organizar, para estes novos-ricos, um passeio pelas arcadas da Av. da Liberdade, onde dezenas de sem abrigo se recolhem e ali fazem a ‘sua casa’.

Triste País que tem um dirigente destes que, ainda por cima, anda perdidamente ansioso por ser primeiro- ministro…

O ‘CRIMINOSO’ ATACOU TRÊS VEZES

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Não se contentou em avivar, como muito bem lhe pareceu, a inscrição da porta da igreja de Valhelhas – de que já se falou antes – deu cabo de mais duas!

Foi-se à inscrição do campanário e – como já Filipa Avelar escrevia em 2003, na ficha do SIPA (Sistema de Informação para o Património Arquitectónico) – «também alguns sulcos desta inscrição foram pintados a preto, mas mais uma vez mal interpretados originando dificuldades na leitura da palavra “campanário”».

Prometêramos voltar a Valhelhas para dar conta do terceiro crime de leso património, perpretado na inscrição encrustada na parede de um edifício localizado no  Largo Santa Maria Maior, fronteiro à porta principal da igreja matriz.

Como que para eventual preservação de pedras com letras e como também por ali havia um brasão em relevo, alguém, um dia, agarrou em tudo e pespegou nessa parede, onde não faz nenhum sentido, a não ser esse, o de os guardar,  a desafiar os estudiosos da heráldica e também os epigrafistas.

A inscrição poderá ter sido partida em duas para se ajustar ao enquadramento, como que para emoldurar o brasão. Foi de tal modo grosseiramente avivada que mal se percebe o que poderia lá ter estado escrito anteriormente. Porventura, haverá aí alusão a um sargento-mor – vê-se CARgE/NTO MAOR – precedido, na 1ª linha, por MEII PINtoR (o N invertido): será Manuel pintor? E filho (vê-se fo Do) do sargento? Quem adivinha? Se a inscrição sob o brasão é continuação da de cima, seria esse o autor da obra, porque se lê bem: MANDA fAZE|R ⸳ ESTA oBRA. Segue-se a data: 1693. Desconhece-se o que significa AS.

Está bem preservado o brasão, que os heraldistas saberão descrever a rigor.

Diremos que, debaixo de um capacete redondo, de abas a terminar em voluta, há um motivo floral horizontal. O escudo central em V mostra uma leoa apoiada sobre as patas traseiras, que assentam, por sua vez, sobre cinco traços horizontais (a simbolizar propriedades fundiárias, será?); há pendentes, lateralmente, ramagens que poderão ser ramos de hera.

Haveria a tentação de considerar este um brasão dos Castros, na medida em que, na citada ficha do SIPA, se diz que «no ático do retábulo-mor de talha dourada surge o escudo da família de D. Rodrigo de Castro». De resto, também no ângulo do norte do campanário estão as armas dos Castros bastardos (os das seis arruelas), o que parece provar que estes Castros possuíam, no século XVII, o senhorio de Valhelhas e a alcadaria norte do seu castelo, como sugere Pinho Leal (vol. X 1873, p. 159, do seu Portugal Antigo e Moderno).

Sobre os Castros, de Valhelhas, mas num registo mais recente, sabe-se que José (Augusto Soares Ribeiro) de Castro, advogado de prestígio, jornalista, fundador, em 1 de novembro de 1882 do jornal O Povo Português, o primeiro jornal republicano da Guarda e, mais tarde, a 24 de Fevereiro de 1878, diretor de um outro jornal, o Districto da Guarda, ativo entre 1878 e 1938, grão-mestre da Maçonaria, republicano profundo, nasceu em Valhelhas, a 7 de Abril de 1848, pai do major Álvaro Xavier de Castro (1878-1928), nascido na Guarda quando o pai era aqui advogado, também ele republicano e ministro em 1920. Serão descendentes do Senhor de Valhelhas, D. Rodrigo de Castro, filho do I Conde de Monsanto, D. Álvaro de Castro? É bem possível!

E acrescentar-se-á, a talhe de foice, que essas mesmas armas, com as seis arruelas, se mantêm num dos panos da muralha do antigo castelo de Cascais.

Escudo dos Castros no castelo de Cascais

O primeiro Conde de Monsanto por carta régia de 1460, outorgada por D.Afonso V, foi D.Álvaro de Castro, «neste Reino grande Senhor pela representação da Casa de Castro e outras prerrrogativas que concorriam na sua pessoa», como se lê na p. 474 do volume XI da História Genealógica da Casa Real Portugueza, de António Caetano de Sousa (1745). Morreu a 24 de Agosto de 1471, na tomada de Arzila, quando defendia o castelo cuja guarda lhe estava confiada: «Sua morte (escreveu Rui de Pina) foi muito sentida, porque no campo e na corte, na paz e na guerra, era por seu siso, discrição e esforço, homem mui principal».

Pois a um dos seus descendentes houvemos de nos referir agora, devido a mui singelo baixo-relevo, perdido nos confins da Beira Alta, quem diria? Não sabemos quem foi; mas uma certeza nos resta: o brasão que está nesta parede não é de Castro nenhum, nem dos da boa estirpe nem dos bastardos que Pinho Leal mencionou.

(crónica em parceria com Dulce Borges)

IMPALA VAI SER COLÉGIO PARA JUDEUS

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Peritos em escombros, os sionistas viram ali uma oportunidade. Os compradores são a Yael Foundation, referenciada como organização filantrópica internacional. Com o edifício dizem querer transformá-lo em colégio judaico. Uma espécie de madrassa só para judeus.

A Yael Foundation foi fundada e é gerida pelo casal Uri e Yael Poliavich. Uri Poliavich é o fundador e CEO da Soft2Bet, uma empresa global de jogos online e apostas desportivas. Gozam da fama de filantropos, mas talvez não passem de sionistas que angariam fundos e quadros para sustentar o Estado de Israel.

Não foi possível encontrar declarações deles sobre o genocídio do povo palestiniano ou qualquer crítica quanto às anexações da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. O silêncio tem a sua eloquência.

Uri Poliavich

Após os acontecimentos do dia 7 de Outubro de 2023, Uri Poliavich falou repetidamente em “ataques ao Estado judeu”, referiu “inimigos que visam Israel e os judeus globalmente” e deu ênfase à necessidade de fortalecimento identitário da sociedad israelita. No fundo, aproveitou as circunstâncias para promover o seu negócio.Descreveu a educação judaica como uma espécie de “Iron Dome comunitário”.

Este tipo de discurso coloca Israel e as comunidades judaicas numa lógica de defesa civilizacional contra ameaças externas, uma narrativa central no discurso político sionista.

Imagens e mensagens da propaganda da Yael Foundation na sua página do Facebook

São estes os tipos que compraram o edifício Impala. E não deixaram os créditos por mãos alheias, fizeram um bom negócio. Oito milhões de euros é um bocado de dinheiro, mas tratando-se de um espaço de 15 mil metros quadrados, cinco pisos, com equipamentos já instalados (cozinha, refeitório, estacionamento automóvel, etc.), foi um bom negócio do ponto de vista do comprador. A coisa valeria mais alguns milhões, aos preços do metro quadrado do imobiliário na zona de Sintra, com acessibilidades fáceis para Cascais e Lisboa.

QUANDO O CRIME COMPENSA

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Jacques Rodrigues é, talvez, o último dos dinossauros da imprensa portuguesa. Construiu (e deixou cair) um império de média com o grupo Impala que detinha dezenas de títulos, entre eles alguns campeões de vendas como foi o caso da revista Maria.

É, também, provavelmente, o mais odiado patrão do setor. Há centenas de trabalhadores lesados, despedidos ilegalmente sem as indemnizações a que tinham direito, assim como fornecedores com dívidas por cobrar há largos anos.

Quando já só esperávamos a notícia de que tinha morrido, finalmente, e que a terra lhe iria ser pesada, chega-nos a notícia de que, afinal, o homem ainda mexe. Trata-se de uma notícia sobre a decisão do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa que julgou “totalmente improcedente” o processo interposto pelo empresário, na sequência de uma notícia publicada pelo jornal online Esquerda sobre a luta dos trabalhadores para recuperarem os créditos de insolvência da Descobrirpress (uma das empresas de Jacques). Nada que nos admire. Jacques continua a ter os advogados de que precisa para tentar castigar os que o criticam. Raramente tem conseguido, mas a teimosia corre-lhe nas veias.

Já que falamos nele, convém lembrar que Jacques Rodrigues ainda não se livrou das investigações judiciais que o indiciam pelos crimes de insolvência dolosa agravada, por ter provocado a falência das empresas do grupo de forma intencional, transferindo bens e dinheiro para o Brasil, burla qualificada pela utilização de esquemas de “falsos PER” (Processos Especiais de Revitalização), onde terá  apresentado credores fictícios de modo a enganar credores verdadeiros, tribunais e o Estado, entre outros crimes.

A ser verdade tudo isto, o homem é um aldrabão de grande gabarito. Porém, apesar dos indícios não tem, de momento, nenhuma medida de coação que lhe atrapalhe a vida confortável que construiu. É verdade que está considerado insolvente, o que apenas quer dizer que é incapaz de pagar pessoalmente as dívidas que acumulou e que ascendem a mais de 100 milhões de euros. Mas está longe de ser um pobrezinho sem-abrigo.

No Brasil, continua dono e senhor de hotéis de luxo e de enormes propriedades agrícolas, mais do que suficientes para manter uma vida de nababo, a ele e ao seu séquito familiar. Já os trabalhadores a quem ele deve dinheiro, passados anos ainda andam às voltas com o Fundo de Garantia Salarial, a ver se recebem uma parte do que lhes devia ter sido pago.