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A ROMARIA DE SANTO ANTÓNIO DOS CABAÇOS

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Mangualde. S. Gosmado. Capela de Santo António dos Cabaços. (Séc. XVIII)

Na planura austera da Serra dos Cabaços, onde assenta o pequeno povoado de S. Gosmado, do Município de Mangualde, lá onde já ninguém corta lenhas de lareira nem vagabundeiam gados como antigamente, levantou o pároco José Rebelo de Mesquita – que, à data de 9 de Junho de 1758, assinava o texto das Memórias Paroquiais, que o Marquês de Pombal, através de circular enviada ao seu bispo, lhe solicitara – uma pequena capela de planta sextavada ao jeito do barroco então em moda.

E é esse solícito pastor de almas, que não de rebanhos, quem nos fala da importância do lugar no longo texto que assina:

À ermida de Santo António de Cabaços acodem muitos fiéis cristãos em romaria todos os dias do ano, e nos dias santos em maior número, oferecendo ao mesmo santo muitas ofertas de dinheiro, trigo, centeio, milho, feijões, borregos, porcos vivos e muitas cabeças de carne de porco, ovos, mel, azeite, cera, e mortalhas, tudo com grande abundância.

Nesse caminho de transumância, que levava os rebanhos à Serra do Montemuro e, hoje, apenas se percorre e celebra como festa, se instituíra, decerto, uma espontânea prática devocional a Santo António, que o povo tomara como patrono dos seus gados e animais domésticos e que o atento pároco oficialmente sacraliza com o levantamento da capela, que se tornou local de devoção popular.

Mangualde. S. Gosmado. Capela de Santo António dos Cabaços. Romaria dos gados. (volta no sentido sinistrorsum)

No dia 13 de Junho de cada ano, o dia que o calendário dedica a Santo António, ali vem o povo de uma larga redondeza, cumprindo votos ou tão só atraídos pela mística do lugar. E ali vêm, de há séculos, agora mantendo a tradição, os pastores que ainda resistem.

Vestem com os tradicionais enfeites de festa, cores garridas e lãs de cores, chocalhos que impressionam pela grandeza e pelo soar festivo, o rebanho que conduzem, como promessa antiga, o velho cão por companheiro e, à meia tarde, sob os curiosos olhares da gente, inicia-se a tradicional romaria de cada um dos rebanhos à volta da popular ermida.

Evocando velha tradição, a primeira volta conduzida à volta da capela faz-se no sentido sinistrorsum, mágico caminho que prevenirá potencial desgraça que possa acontecer ao rebanho. E, só depois da primeira volta completa, o rebanho retorna, caminhando no sentido dextrorsum, uma e outra vez, dando depois lugar ao rebanho seguinte.

E o voto fica cumprido com a oferta de um cordeiro ao santo tutelar. O sacerdote fará depois, de acordo com o texto do ritual, a bênção dos rebanhos, que voltarão à sua serra.

Ao findar da tarde, de sob as tendas montadas onde se partilharam merendas e conversas, despedem-se os romeiros. Muitos deles prometerão voltar.

Festa de Santo António dos Cabaços (procissão)

A “SORTE AO JOGO” NÃO É PARA TODOS

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A velocidade com que a engrenagem institucional se move depende, quase sempre, de quem está na mira. Em meados de julho de 2026, a Casa Branca agiu com uma rapidez cirúrgica para afastar Gabriel Perez, o operador de teleponto que utilizou o acesso privilegiado aos discursos de Donald Trump para lucrar cerca de 100 mil dólares na plataforma de apostas Kalshi. O erro de Perez foi tratar a política como um casino de cartas marcadas. Mas o verdadeiro escândalo não é o que o operador fez no ponto eletrónico; é o que a família presidencial e os seus aliados fazem, à luz do dia, nos mercados financeiros globais.

O “Pequeno Delito” de 100 Mil Dólares

O caso de Perez é inacreditável. Durante meses, o técnico apostou na bolsa pelo que lia nos discursos do Presidente, antes de serem públicos. Chegava a corrigir as suas apostas em tempo real quando Trump decidia improvisar a meio do discurso. Foi travado pela própria plataforma de apostas. A casa Branca disse que se tratava de “uma vergonha”. A mensagem foi clara: usar informação confidencial para ganho pessoal é intolerável. Pelo menos, para os funcionários do escalão inferior.

O “Grande Negócio” de Milhões

Enquanto Perez foi despedido e corre o risco de vir a ser julgado e condenado, pouco antes deste escândalo, o próprio Donald Trump admitiu publicamente que os seus filhos tiveram “informações internas” ao negociar ações impactadas por decisões da Casa Branca.

A escala aqui é incomparável. Investigações da BBC e relatórios do Comité Judiciário da Câmara revelaram mais de 3.600 transações financeiras suspeitas em Wall Street, realizadas minutos antes de anúncios presidenciais sobre tarifas ou decretos económicos. A isto somam-se centenas de milhões de dólares gerados pela família Trump no setor das criptomoedas, coincidindo com decisões da administração para travar investigações federais contra empresas do setor.

A Blindagem do Poder

Quando o próprio presidente utiliza a rede Truth Social para escrever “ESTA É UMA EXCELENTE ALTURA PARA COMPRAR!!!” mesmo antes de assinar isenções fiscais para essas mesmas empresas, a barreira entre a governação e o insider trading deixa de existir.

Juridicamente, Perez é um alvo fácil. É um pequeno funcionário público que violou regras contratuais e do mercado regulado. Já o presidente e a sua família movem-se numa zona cinzenta onde as leis de insider trading são historicamente difíceis de aplicar a cargos políticos eletivos, especialmente quando a própria administração luta nos tribunais para desregulamentar e centralizar o controlo destas plataformas.

O caso do operador de teleponto e as suspeitas sobre a família Trump expõem a anatomia da ética na política atual em Washington. Um funcionário é suspenso por ganhar 100 mil dólares ao ler antecipadamente um discurso. Entretanto, movimentações de milhões de dólares que moldam o mercado financeiro com base em decretos presidenciais são tratadas como mero “instinto empresarial”. No teatro do poder, Perez foi punido por ler o guião mais cedo, mas os autores do guião continuam a lucrar em grande.

A MÁSCARA DO OPORTUNISMO

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montagem fotográfica

O excerto de Repensar Portugal, da autoria do Padre Manuel Antunes, constitui uma das críticas mais acutilantes e intemporais à futilidade do oportunismo político e à fragilidade das convicções democráticas na história do pensamento português contemporâneo. Escrita num período de profunda transição e instabilidade ideológica, a obra disseca com precisão cirúrgica a fauna política que se alimenta das crises nacionais. O autor expõe a hipocrisia de agentes que instrumentalizam causas nobres para benefício estritamente pessoal, transformando a governação e o debate público num palco de vaidades e de usurpação de poder.

(…) E ainda hoje. Demasiado bem conhece o País os “socialistas” eletivos dos próprios interesses, os zelotes de si mesmos, os saduceus da própria pátria a pretexto de um futuro melhor, de uma ideologia ” universalista” e terrorista. Como demasiado bem conhece os democratas provisórios de todas as bandas que apenas o são enquanto não conseguem impor a própria ditadura. Como demasiado bem conhece os oportunistas de todas as cores, do negro ao vermelho, que não perdem ocasião para se locupletarem com as desgraças da Pátria. (…)

Manuel Antunes In – Repensar Portugal

No primeiro plano da sua denúncia, Manuel Antunes foca-se nos “socialistas” eletivos, indivíduos que adotam o rótulo do progresso social apenas como uma máscara para salvaguardar os seus próprios privilégios. Ao apelidá-los de “zelotes de si mesmos” e “saduceus da própria pátria”, o pensador estabelece uma analogia com figuras bíblicas associadas ao fanatismo cego e ao legalismo hipócrita. O texto alerta para o perigo das ideologias que se vendem como “universalistas”, mas que escondem uma matriz terrorista e dogmática, sacrificando a realidade concreta e o bem-estar dos cidadãos em nome de uma utopia abstrata e impositiva.

A análise estende-se depois aos “democratas provisórios”, uma categoria política cuja atualidade permanece assustadora. Trata-se daqueles que defendem as regras da liberdade e do pluralismo apenas enquanto estas servem de veículo para alcançar o poder. Manuel Antunes desmascara a volatilidade deste compromisso cívico, sublinhando que tais atores políticos abandonam a postura democrática no instante em que reúnem as condições necessárias para edificar a sua própria ditadura. A democracia surge aqui não como um valor absoluto, mas como uma mera conveniência tática e transitória.

A abrangência da crítica atinge o seu zénite quando o autor aborda o espetro dos oportunistas “de todas as cores, do negro ao vermelho”. Com esta expressão, o ensaísta recusa fixar a corrupção moral a apenas uma fação partidária, demonstrando que o aproveitamento sem escrúpulos cruza todo o arco ideológico, dos extremismos de direita aos de esquerda. O oportunismo político surge como uma patologia transversal, onde a retórica serve apenas para camuflar o desejo primordial de enriquecimento, influência e autopromoção à custa do erário público e do sacrifício coletivo.

Em suma, este fragmento de Repensar Portugal transcende o seu contexto histórico original para se assumir como um tratado de ética política universal. Manuel Antunes não se limita a constatar a degradação do debate público, mas convoca o País a uma vigilância cívica permanente contra aqueles que se “locupletam com as desgraças da Pátria”. O texto permanece um aviso solene de que a sobrevivência de uma comunidade livre e justa depende da capacidade dos seus cidadãos distinguirem o verdadeiro serviço público da demagogia egoísta e parasitária.

Padre Manuel Antunes

O REBENTO

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Filho de um industrial do calçado, o Vicente cresceu num mundo erguido pela fortuna que o pai construíra ao longo de cinquenta anos de trabalho árduo, couro curtido e pele de vaca. Estudou nos melhores colégios e universidades internacionais, frequentou os mais exclusivos círculos da elite económica, política e cultural. O dinheiro era-lhe tão natural quanto a própria existência. Vivia sem amarras de espécie alguma.

Um dia, porém, o pai anunciou que chegara a altura de assumir responsabilidades na empresa.

— O Homem não nasceu para ser escravo — respondeu o Vicente. — Nasceu para despertar.

O pai ficou uns instantes em silêncio. Depois perguntou:

— E quem paga esse despertar?

O Vicente sorriu. Como podia o pai compreender? Vivia naquela fábrica. Trabalho, tabalho, trabalho. Nunca fizera outra coisa. Faltava-lhe mundo.

Meses mais tarde, enviou-me uma fotografia diante de uma autocaravana verde-musgo. A legenda dizia apenas: “Finalmente livre!”

Seguiram-se os anos da conversão. Nepal, Índia, Butão, Tailândia, Costa Rica, Brasil, Bali. Ecovilas. Comunidades regenerativas. Retiros de silêncio. Meditação. Jejuns. Roupas de algodão orgânico que pareciam encontradas num contentor. Gurus com quem aprendeu a desconfiar do açúcar, do glúten, da lactose e, sobretudo, de quem persistia em cometer o ato selvagem de os consumir. Pecados modernos.

Em contrapartida, confiava plenamente em si próprio. Não no Vicente, personagem ultrapassada, mas em Bodhin.

— Agora sou Bodhin. Significa “aquele que despertou” — esclareceu quando nos reencontrámos anos mais tarde.

Aconteceu num festival de verão. Bodhin descera do seu retiro perdido na serra para dar uma oficina sobre escrita intuitiva: “Os teus sentimentos e emoções interessam”, intitulava-se. Um sucesso, tal como o eram os 32 títulos publicados e assinados por Mestre Bodhin.

Convidou-me para almoçar. Aceitei. Tinha saudades do Vicente: das férias no iate ao largo da Costa Amalfitana e das ilhas gregas, das noites de festa em Ibiza e Las Vegas e, quem diria agora, das viagens para conhecer as melhores churrascarias da Argentina, do Brasil e dos Estados Unidos.

Pediu por mim. Há hábitos que não desaparecem facilmente. Uma salada com ar refrescante mas de pouco sustento. Pedi que acrescentassem ovo cozido.

Bodhin não disse nada. Limitou-se a olhar com ar de reprovação.

— É das minhas galinhas — disse imediatamente a senhora. — Andam completamente à solta. São galinhas felizes.

O Vicente teria dado uma gargalhada. Bodhin limitou-se a escutar, com serenidade e compaixão. A mais absoluta superioridade moral.

Quando o prato chegou, o meu ovo vinha coberto de pequenos rebentos que não consegui identificar. Perguntei se eram de soja. Na verdade, era-me indiferente. Estava apenas a fazer conversa. Bodhin sorriu. Escolheu cuidadosamente um único rebento. Cheirou-o. Observou-o contra a luz. Depois mastigou-o lentamente.

— Não é soja. Feijão-mungo é mais crocante. A rúcula tem um toque amargo.

O veredito:

— É alfafa.

E, não fosse eu ficar com dúvidas do seu conhecimento, puxou do telemóvel topo de gama e mostrou-me as imagens que o comprovavam. No final, pediu kombucha para ambos. Nem me atrevi a sugerir um café, receando cometer alguma heresia gastronómica.

Acompanhei-o depois até à sua nova casa. O Ferrari das autocaravanas.

— Consome menos. Passo muito tempo isolado, longe de tudo. Tenho de ter frigorífico, computador, rede. Os meus alunos. Os seguidores. Os editores…

Vicente e Bodhin eram afinal a mesma planta. O rebento apenas mudara de vaso.

PORTUGAL NO TABULEIRO DA GUERRA OU NO PALCO DA LUSOFONIA?

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Com um orgulho que quase faz esquecer as listas de espera das urgências hospitalares, o Estado anunciou que atingimos finalmente a meta sagrada da NATO que é destinar 2% do nosso Produto Interno Bruto (PIB) para as despesas militares. Na atual cimeira da NATO em Ancara Portugal afirmou que o ano passado e de acordo com os padrões NATO, os 2,01 por cento do PIB, o equivalente a 6 mil milhões de euros foram atingidos.

É um feito extraordinário para um país onde o maior perigo costeiro costuma ser a erosão das praias ou o preço do peixe fresco. Enquanto os cofres públicos se abrem com uma fluidez invejável para enviar milhões em assistência militar para o leste europeu, o cidadão comum assiste a um espetáculo de ilusionismo orçamental. Para a Defesa e para os blindados que alimentam a forte e próspera indústria metalúrgica de Berlim ou Paris, há sempre linhas de crédito sem burocracia. Já para o Serviço Nacional de Saúde, para os reformados que tentam esticar pensões de miséria até ao final do mês, ou para os sem-abrigo que multiplicam as suas tendas pelas capitais lusas, a resposta estatal é a clássica melodia da austeridade e da “escassez de recursos”.

A engrenagem de Berlim e a nossa “austeridade atlântica”

Há uma ironia profunda na forma como o dinheiro dos impostos portugueses é canalizado para esta cruzada moderna. Sob o pretexto de proteger os valores democráticos, o erário público financia indiretamente um complexo industrial-militar que serve, prioritariamente, os grandes interesses do E3 (Portugal serve mais as agendas da França, Alemanha e Reino Unido e do complexo industrial-militar do que a proteção real do cidadão comum). É reconfortante saber que, enquanto um idoso em Portugal escolhe entre comprar medicamentos ou pagar o aquecimento, algures num escritório em Frankfurt se celebram os dividendos da indústria pesada!

Filosoficamente, a paz ocidental foi reduzida a um paradoxo romano: si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara a guerra). O Estado português adoptou esta máxima com o fervor dos convertidos, esquecendo-se de que a verdadeira paz não se constrói empilhando munições, mas sim edificando dignidade social. Uma sociedade que investe mais voluntariamente na engenharia da destruição externa do que na saúde e no bem-estar interno padece de uma inversão crónica de valores. A segurança de uma nação mede-se pela robustez do seu tecido social e não pelo calibre dos seus obuses.

Da trincheira europeia ao abraço lusófono

Se o destino dos nossos impostos é expandir a nossa influência e garantir a estabilidade, por que motivo o Estado insiste em olhar para o mundo através da mira de uma espingarda apontada ao leste, em vez de olhar através da luneta da nossa própria história? Portugal possui uma plataforma diplomática, cultural e económica única que não necessita de tanques para se impor e que é a Lusofonia.

Em vez de subsidiar os interesses geoestratégicos da Europa Central, os recursos nacionais colheriam muito melhor proveito se fossem direcionados para empreendimentos de cooperação cultural, científica e económica dentro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Financiar infraestruturas de saúde partilhadas, investir na transição energética em parceria com Moçambique ou Angola, ou criar fundos de apoio social e de habitação que dignifiquem os povos que partilham a nossa língua seriam verdadeiros investimentos numa cultura de paz. Faz muito mais sentido construir pontes com quem partilha o nosso idioma do que cavar trincheiras para agradar a Berlim e a Bruxelas.

Trocar o fardamento cinzento da NATO pela diplomacia cultural do mar não é apenas uma escolha moral pois corresponde a uma urgência prática. Afinal, para um país plantado à beira-mar, faz muito mais sentido construir pontes de desenvolvimento com quem partilha o nosso idioma do que cavar trincheiras para sustentar o grande capital europeu. Resta saber se o Terreiro do Paço prefere continuar a ser o bom aluno de Berlim ou voltar a ser o coração do seu próprio mundo.

O DEBATE SOBRE O ESTADO DA NAÇÃO

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O País era governado pela segunda maioria absoluta do PSD, sendo primeiro-ministro Cavaco Silva. Alguns dirigentes daquele partido entendiam que era necessário dar um forte impulso à liderança e à imagem do governo. Pacheco Pereira, segundo consta, terá sugerido a criação do debate sobre o Estado da Nação. Pretendia dar-se uma imagem diferente da tradicional austeridade de Cavaco Silva. Simultaneamente, o primeiro-ministro, no final da sessão legislativa, elencaria os feitos de um ano de trabalho e perspetivava o novo ano político. A ideia de Pacheco Pereira, era criar um momento semelhante ao discurso do trono, do Parlamento do Reino Unido.

De acordo com a letra da Lei, já na versão actual, o debate sobre o Estado da Nação na Assembleia da República tem como objetivos principais: prestar contas sobre a acção governativa, avaliar as políticas públicas e os resultados económicos, discutir os desafios do país e definir prioridades para o futuro.

A verdade é que, por falta de cultura democrática e de tradição, nunca os objectivos foram cumpridos e, ao longo dos anos, foi-se degradando e perdeu, por completo, o fim que se pretendia alcançar.

A responsabilidade pelo falhanço cabe aos governos e aos partidos da oposição que, por oportunismo político, na procura de um sound bite para a época estival, nunca entenderam o alcance desta iniciativa, rapidamente transformado num debate quinzenal, igual a tantos outros.

E chegámos ao último debate sobre o Estado da Nação, que foi confrangedor.

O governo e os partidos da oposição entretiveram-se a discutir a incompetência do ministro da Educação e as trapalhadas da Administração Interna. O debate foi um repositório de insultos, sem qualquer proposta para o País.  O confronto apenas teve por objectivo obter alguns ganhos políticos para alimentar os media e as redes socias.

ministro da Educação
ministro da Administração Interna

A incompetência do ministro da Educação deve ser escrutinada, as trapalhadas que envolveram o ministro da Administração Interna, que tem o pecado original de afrontar os sectores mais radicais da política portuguesa, devem igualmente ser escrutinadas. Mas, para isso, existem os mecanismos próprios, previstos no Regimento da AR. Usar aquele tempo no Parlamento para discutir aqueles dois temas, sem a preocupação de fazer a autópsia do cadáver ambulante em que se transformou este governo, é uma perda de tempo. O debate sobre o Estado da Nação é mais do que isto. E, enquanto os partidos não entenderem esta realidade, a democracia sai prejudicada.

DIREITOS HUMANOS OU CONTA BANCÁRIA?

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A 2 de junho de 2026, o Tribunal Central Criminal de Lisboa determinou a suspensão da pena única de 13 anos de prisão aplicada a Ricardo
Salgado em cúmulo jurídico (referente às condenações nos processos EDP e Operação Marquês). Esta decisão foi tomada após ter sido dado como provado que o ex-banqueiro sofre de doença de Alzheimer e de uma “anomalia psíquica”, o que o impede de compreender o alcance da pena.

A suspensão da execução da pena está sujeita à apresentação de relatórios médicos semestrais que documentem a evolução da sua condição. Esta decisão resultou do cúmulo jurídico que englobou as condenações anteriores (6 anos e 3 meses no caso EDP e 8 anos na Operação Marquês).

Este é o teor de uma notícia, veiculada por toda a Comunicação Social e recebida com espanto e muitas reservas. Desde logo porque falamos de casos relacionados com a insolvência de um Banco com administração presidida, com mão de ferro, por este condenado e que causou prejuízos de vários milhares de milhões de euros. Há quem diga que os números ultrapassam o valor dos crimes cometidos por todos os reclusos nas nossas 49 cadeias.
Depois porque as penas só podem ser suspensas quando não ultrapassarem os cinco anos. E treze quase triplicam esse número. A decisão, segundo os juízes, baseia-se no agravamento da doença de Alzheimer do ex-banqueiro, concluindo o tribunal que este não tem capacidade para compreender o alcance da pena. Uma decisão que se baseia na defesa dos Direitos Humanos, o que qualquer cidadão deve apoiar sem reservas.
A pena de prisão tem como base a reabilitação do condenado e a sua punição. Num país onde não há prisão perpétua nem, muito menos, pena de morte, a reabilitação tem de ter o papel principal para se assegurar que o condenado sairá da prisão se não totalmente recuperado pelo menos melhor do que quando entrou.

A punição servirá para que este e a comunidade percebam que não se sai incólume de um crime. Porém, como reabilitar um recluso que não tem noção do local onde se encontra, não percebe o que faz num local que lhe é estranho, não tem, sequer, noção de que está a ser punido por delitos cometidos e que não recorda? Qualquer defensor do respeito pelos Direitos Humanos, como é o meu caso, estará de acordo com esta decisão.

Mas…
E os juízes do Colectivo que o julgou, estarão? A pergunta parece descabida porque foram estes que a tomaram mesmo sabendo que seria, por muitos, contestada. No entanto eu tenho essa dúvida. Porquê só agora, porquê só neste caso, porquê só com este arguido? Nas nossas cadeias há centenas e centenas de reclusos condenados por delitos de muito menor importância, muitos deles a menos de treze anos, muitos deles com penas inferiores a cinco anos (o que permitiria que a pena fosse suspensa sem qualquer reserva) com doença idêntica à de Ricardo Salgado e alguns com situação clínica incomparavelmente mais grave.

Porquê, então, esta preocupação com os Direitos Humanos num único caso? Será para servir de exemplo e levar os Tribunais de Execução de Penas a analisar os casos de reclusos com Alzheimer e cancro, por exemplo, muitos em estado terminal, para que as suas penas passem a suspensas ou, no mínimo, a prisão domiciliária?
E os inimputáveis que estão nas nossas prisões, sem fazerem noção de onde se encontram? Serão mandados para casa, ou para hospitais indicados para a sua doença?
O que levou, realmente, à decisão no Acórdão de Sentença de que estou a falar? Ricardo Salgado ficou livre da cadeia pelo respeito aos Direitos Humanos ou pelo saldo das suas contas bancárias? Penso ser uma pergunta legítima e não sou eu a ter de lhe dar resposta.

CONTRA A GUERRA: GREVE DE SEXO

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De facto, qualificar de ‘linda’ uma peça teatral sugere algo de «vistoso», quiçá «espampanante», a arriscar que só a aparência seja tida em consideração. Arrisco. É que esta versão de uma comédia milenar, do tempo da guerra entre Atenas e Esparta, na Grécia Antiga, surpreendente versão dramatúrgica de Miguel Graça, é bonita de se ver, sim, mas constitui, sobretudo, o que de mais genuinamente experimental uma companhia experimental poderia apresentar.

Tem roupagens (cenográficas, por exemplo, para já não falar do apropriado guarda-roupa) da “revista à portuguesa”, certo; a Voz (Ana Ester Neves) até pode assumir o papel do compère; mas a sábia adaptação a uma Prova de Aptidão Profissional seduz.  Na verdade, importava que cada um dos finalistas da Escola Profissional de Teatro de Cascais fosse, de per si, posto à prova em todos os itens: movimentação, gesto, expressão corporal, voz… E, quando a Voz (à maneira dos antigos coros gregos, misteriosa como eles…) o chama pelo número – «Corpo nº X» – no início de cada cena, o actor sabe que é a sua vez de mostrar o que vale, olhos e ouvidos estão inteiramente postados nele. Actuação individual aí; actuação em conjunto, a maior parte das vezes, no decorrer da acção, cantando, bailando em sincronizado movimento.

Para a beleza contribui – pode parecer mentira… – a habitual nudez do ambiente criado, justamente pelo contraste, acentuado pela diversidade, exuberância e originalidade dos figurinos (desenhados por Fernando Alvarez, executados por Rosário Balbi). À plataforma elevada, ao fundo,(a «Acrópole», se acede por uma rampa, dum lado, e por uma escada, do outro. Aos lados, esquemáticas ‘casas’ para onde os actores de vez em quando se retiram.

O tema – sabe-se! – é bem dramático: os horrores da guerra, a inutilidade dos conflitos armados. Ontem e hoje! Assim, pois, como quem não quer a coisa, fixando a atenção num “pormenor”, que, afinal, não será assim tanto de somenos como pode dar-se a entender: a natural necessidade de satisfação sexual tanto do homem como da mulher, devida à longa ausência do parceiro nas lides guerreiras. Plenamente justificada a ‘greve’ feminina proposta por Lisístrata e aceite pelas atenienses: nada de sexo, enquanto a Paz definitivamente se não firmar!…

Muito gostaríamos nós que, rapidamente, a deposição das armas se concretizasse para dar lugar a uma paz duradoura. Lisístrata e as mulheres venceram, a «guerra do sexo» venceu a das armas.

Escreve Miguel Graça no seu bem elucidativo texto da folha de apoio:

“A Voz não parece ter autoridade por mérito, tem-na porque alguém a colocou numa situação de poder. Observa, convoca, distribui instruções, corrige, interrompe e classifica. Trata o espectáculo como se fosse uma audição ou uma experiência de laboratório. […] Tem uma linguagem fria, técnica e quase administrativa. […] Limita-se a definir o que deve acontecer e as condições em que cada corpo pode existir.

Antes de serem personagens, os actores são, por isso, chamados Corpos. […] No entanto, aos poucos, aquilo que parece ser apenas um exercício começa a transformar-se. Os Corpos ganham voz, relação, conflito, desejo e capacidade de agir […].”

É essa passagem que organiza esta versão cénica: do campo observado ao actor em acção. Lisístrata continua a ser uma peça sobre mulheres que obrigam os homens a parar a guerra, mas torna-se também, aqui, uma peça sobre jovens actores que aprendem a falar, a falhar e a descobrir uma vontade própria.

Talvez a Comédia sirva ainda para isso: mostrar que nenhuma autoridade é tão sólida como parece quando encontra diante de si corpos vivos, capazes de rir, de desejar e de desobedecer a uma ordem que os quer cada vez mais formatados, previsíveis, inofensivos e iguais».

Esta 192ª produção do Teatro Experimental de Cascais teve encenação de Manuela Couto, assistida por Rodrigo Aleixo. A azougada coreografia é de Rita Speider. A bem adequada música é agradável original de Tomás Alves.

Além dos 24 alunos finalistas da EPTC, temos em cena actores da Companhia: Teresa Côrte-Real (a consubstanciar aqui, como mulher de limpeza, a memória do Teatro, do ‘seu teatro’), Luiz Rizo e Sérgio Silva.

Em cena, no Teatro Municipal Mirita Casimiro (Monte Estoril), de terça a sábado às 21 horas e ao domingo às 16. Até dia 26.

É habitual dizer-se: «A não perder!». Repito: é mesmo a não perder. E até me atrevo a acrescentar mais uma razão: porque esta versão da Lisístrata, peça apresentada pela primeira vez em 411 a. C. (isto é, há 2500 anos!…), mostra à evidência que o Teatro jamais pode morrer!  

A BANDEIRA E O SILÊNCIO

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Cada um tem o direito de escolher as suas causas. Mas quem escolhe o silêncio também faz uma escolha. E quando esse silêncio vem de quem tem centenas de milhões de seguidores nas redes sociais, deixa de ser apenas uma opção pessoal: transforma-se numa posição com inevitável significado político.

Foi um jovem de 19 anos quem decidiu lembrar ao mundo que o futebol também pode ter consciência. Fê-lo erguendo a bandeira da Palestina e usando um keffiyeh, não para dividir, mas para chamar a atenção para um povo massacrado, há décadas sujeito a bombardeamentos, fome, deslocações forçadas, destruição, genocídio.

Erguer a bandeira da Palestina não é apenas erguer uma bandeira. É um gesto de humanidade. Não se pode negar que, perante uma das maiores tragédias humanitárias do nosso tempo, a neutralidade não é neutra e o silêncio é cúmplice.

O futebol nunca andou longe da política ao contrário do que alguns dizem. Os campeonatos do mundo servem para projetar países, líderes, marcas e interesses. Às vezes também servem para lembrar que ainda existem jogadores dispostos a usar a visibilidade para algo mais do que vender botas ou bebidas energéticas.

Lamine Yamal fê-lo. Cristiano Ronaldo não. Yamal celebrou com a bandeira da Palestina no mesmo espaço onde se encontrava Donald Trump, um dos mais firmes aliados da política israelita. Há pouco tempo, Cristiano Ronaldo confessou a sua grande admiração pelo Presidente dos EUA. Há um abismo entre eles.

OS INVISÍVEIS INDISPENSÁVEIS DO SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE

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Ao longo dos últimos anos, estes trabalhadores assistiram a sucessivas alterações da sua designação profissional. Foram Auxiliares de Ação Médica, passaram a Assistentes Operacionais e, desde a publicação do Decreto-Lei n.º 120/2023, integram a carreira especial de Técnico Auxiliar de Saúde. Muitos esperavam que esta mudança significasse uma verdadeira valorização da profissão. Contudo, segundo inúmeros testemunhos, a realidade quotidiana pouco mudou.

Continuam a desempenhar funções indispensáveis junto dos doentes, garantindo a higiene, o conforto, o transporte de pessoas vulneráveis, a preparação de materiais e espaços clínicos, a colaboração com médicos e enfermeiros e inúmeras outras tarefas essenciais para que os cuidados de saúde possam ser prestados com segurança e dignidade. Sem o seu trabalho silencioso, o funcionamento das instituições de saúde seria impossível.

Apesar disso, muitos destes profissionais afirmam sentir-se desvalorizados. Denunciam a escassez de recursos humanos, equipas insuficientes para responder ao crescente grau de dependência dos doentes, horários exigentes, desgaste físico e emocional e remunerações que consideram desproporcionadas face às responsabilidades assumidas.

A sua missão não termina nos momentos de esperança. São também eles que acompanham os doentes nas horas mais difíceis, prestam apoio às famílias, colaboram na preparação dos corpos após a morte e realizam tarefas que poucos querem ver, mas que todos reconhecem como necessárias. Trata-se de um serviço profundamente humano, exigente e marcado por uma enorme carga emocional. Também eles precisam do sol que afague a sua vida para o poderem transmitir melhor em rostos ensombrados pelas circunstâncias.

É legítimo perguntar se uma profissão com estas características não merece um estatuto mais digno, melhores condições de trabalho, oportunidades reais de progressão na carreira, reconhecimento do desgaste inerente às suas funções e formação contínua devidamente valorizada.

Não se trata de estabelecer hierarquias entre profissionais de saúde. Médicos, enfermeiros, técnicos superiores, assistentes técnicos e técnicos auxiliares formam uma única equipa, onde cada elemento é indispensável. A qualidade dos cuidados depende precisamente dessa cooperação.

Uma sociedade mede-se também pela forma como trata aqueles que trabalham diariamente ao serviço dos mais frágeis. Os Técnicos Auxiliares de Saúde não pedem privilégios. Pedem respeito, valorização e condições que lhes permitam exercer a sua missão com dignidade.

Talvez tenha chegado o momento de deixar de falar apenas dos protagonistas mais visíveis do Serviço Nacional de Saúde e dar voz àqueles que, discretamente, sustentam uma parte essencial do sistema. Porque os invisíveis indispensáveis merecem, finalmente, ser vistos e mais reconhecidos pela política, pelo sistema e pelo público.