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A VONTADE FABRICA E A IMAGINAÇÃO GOVERNA

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Recentemente, o programa televisivo público ZDF-heute journal alemão, custeado pelos cidadãos, exibiu vídeos gerados por inteligência artificial, retratando operações brutais da agência ICE nos Estados Unidos contra migrantes. O detalhe mais inquietante não foi a existência dessas imagens, mas o facto de terem sido transmitidas sem serem identificadas como artificiais, como se a própria ilusão pudesse vestir a máscara do acontecimento.

O presidente regional da Renânia-Palatinado exigiu “máxima transparência”. Mas este episódio não é um acidente isolado, porque usado tanto nos media tradicionais como nas redes sociais. É antes de tudo um sintoma, uma rachadura visível na estrutura do nosso tempo que mostra apenas a ponta visível de um icebergue muito mais vasto e que atravessa a Europa considerada séria.

Havia um tempo em que as imagens apenas mostravam, hoje, porém as imagens muitas vezes já não mostram mas substituem e encobrem.

O mundo moderno entrou num território estranho, onde o real se dissolve lentamente na espuma de uma fantasia tecnicamente produzida. Vivemos entre dois pólos, ou seja, o da realidade vivida e o da realidade criada, como quem caminha sobre uma ponte suspensa entre a experiência e a invenção.

A simulação como novo mundo

O que foi mostrado não foi o que aconteceu. Foi uma simulação. Uma fantasia gerada por uma máquina ao serviço de interesses movidos pela vontade humana.

A técnica, que deveria ser instrumento, torna-se demiurgo: cria realidades paralelas, molda emoções, orienta indignações. Já não se trata de informar, mas de fabricar percepções.

A imagem deixa de ser janela e torna-se espelho deformante. E o espectador, sem o saber, começa a habitar um mundo de sombras cuidadosamente desenhadas.

O pós-factual e a moral tardia

Chegámos ao tempo em que a pergunta decisiva já não é se é verdade, mas se serve.

Num mundo pós-factual, a moral surge depois da utilidade. O que conta é que a história transmitida seja “adequada”, que se ajuste ao clima ideológico e aos interesses dominantes, económicos, políticos ou institucionais.  O verdadeiro e o falso perdem peso porque a mensagem se torna mais importante do que a realidade. A moral vem depois. A realidade torna-se secundária diante da mensagem. E o ser humano, privado do chão firme dos factos, flutua num relativismo onde tudo pode ser ajustado, recortado, encenado no sentido de servir a narrativa, o interesse e a vontade institucional.

Critica-se a manipulação em regimes distantes, mas tolera-se uma manipulação subtil em casa, normalizando-se assim uma forma de fabricação da realidade em democracias mediáticas que se apresentam com um rosto civilizado e uma linguagem correcta.

A tentação universal de distorcer o real

É certo que cada indivíduo carrega dentro de si a tentação de construir um mundo à medida das suas convicções. O que não se encaixa é ignorado e o que incomoda é distorcido.

Quando essa tentação se instala nos meios que deveriam servir a verdade pública, o perigo torna-se estrutural.

As estações públicas, os grandes canais da informação, parecem por vezes ajustar as velas ao vento das forças gerentes, para que o barco da narrativa não vire. A verdade factual, incómoda, é lançada ao mar para aligeirar a viagem e assim ajustar o relato ao “politicamente correto” dominante evitando assim o peso incómodo da verdade factual.

A destruição da confiança e o vazio interior

Assim se destrói lentamente a confiança e com ela, destrói-se a comunidade.

Quando já nada é seguro, quando tudo pode ser simulação, a pessoa perde orientação. E uma sociedade sem verdade partilhada torna-se um conjunto de ilhas desconfiadas, presas entre rebeldia e desespero.

Paradoxalmente, enquanto se afirma o globalismo económico, dissolve-se a identidade cultural, desfazem-se colunas antigas, desintegram-se estruturas interiores transmissoras da identidade necessária. O ser humano fica suspenso num mundo sem raízes, sem realismo, sem consciência da sua própria limitação e a consequência é uma sensação de guerra difusa entre cidadãos e instituições.

O que não aparece no ecrã não existe

A nova metafísica do nosso tempo é simples e brutal e resume-se nisto: o que não passa no ecrã, nem no enquadramento mediático, não existe e o que passa no ecrã, existe, mesmo que nunca tenha acontecido.

A realidade torna-se aquilo que é exibido e o invisível desaparece, é lançado ao mar como se nunca tivesse sido para que a narrativa criada navegue sem turbulência.

Entre lucidez e abismo

A tarefa do cidadão moderno não é cair na revolta cega, nem no desespero estéril. A sua tarefa é outra, muito mais difícil. Para tal é preciso empregar o crivo mais fino da inteligência, distinguir entre realidade vivida e realidade criada e reconhecer que realidade vivida e realidade criada coexistem e que a liberdade interior depende dessa distinção.

Pelo que se observa depois das guerras mundiais e em especial depois da queda da União Soviética, o mundo futuro poderá não ser dominado por quem controla as armas, mas por quem controla as imagens.

Quando a imaginação técnica substitui a verdade, resta ao homem a coragem silenciosa de mesmo assim procurar o real.

(nota da redação: a reportagem em questão foi, entretanto, eliminada)

A CONSTITUIÇÃO É PARA LEVAR A SÉRIO

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O Chega não respeita a Constituição e, portanto, deve ser extinto. Quem o diz é o  advogado António Garcia Pereira que apresentou um requerimento na Procuradoria-Geral da República pedindo que o Ministério Público promova, junto do Tribunal Constitucional, a extinção do Chega. Não é uma provocação política nem um gesto simbólico. É um pedido formal sustentado em fundamentos jurídicos concretos.

A questão que coloca é simples e desconfortável: se a Constituição proíbe organizações racistas ou que perfilhem ideologia fascista, e se a Lei dos Partidos prevê a extinção de formações que violem disposições imperativas, o que impede o Ministério Público de agir?

O requerimento assenta em três pilares.

O primeiro é jurídico-formal. O Chega não terá apresentado, durante mais de seis anos, lista atualizada de dirigentes nacionais regularmente eleitos, em violação do disposto na Lei Orgânica n.º 2/2003. Trata-se de uma causa de extinção expressamente prevista na lei. Não estamos perante uma nuance técnica. Estamos perante uma obrigação legal clara. Se partidos de menor dimensão já foram extintos por incumprimentos formais (exemplo do Ergue-te) por que motivo não se aplica o mesmo critério aqui? A lei é igual para todos ou apenas para os irrelevantes?

O segundo pilar é substancial: a natureza racista do discurso e da prática política do partido. Durante a pandemia, André Ventura defendeu um confinamento específico para comunidades ciganas. Não para zonas geográficas com maior incidência epidemiológica, mas para um grupo étnico. A proposta não era sanitária; era identitária.

Mais recentemente, na campanha presidencial, cartazes com a frase “os ciganos têm de cumprir a lei” espalharam-se pelo país. Uma decisão judicial determinou a sua retirada, considerando que a mensagem ultrapassava os limites do debate democrático e fomentava discriminação.

O padrão é consistente: imigrantes apresentados como ameaça; muçulmanos demonizados; ciganos retratados como problema sistemático. Segundo Garcia Pereira, o Chega  dedica-se à construção sistemática de um inimigo social, definido pela etnia ou religião. É isso que configura o racismo político moderno, um discurso mais  sofisticado na forma, brutal no efeito.

O terceiro pilar é ideológico. O requerimento descreve os traços clássicos do fascismo: nacionalismo exacerbado, culto do líder, desvalorização das garantias individuais, legitimação da violência estatal, demonização permanente do adversário.

O discurso recorrente contra “os últimos 50 anos”, isto é, contra o período democrático não é inocente. A referência elogiosa a Salazar, a defesa de soluções penais extremas, a retórica de “limpeza” moral do sistema, a invocação permanente de “Deus, Pátria e Família” compõem um imaginário político que não nasceu ontem.

Por fim, a promiscuidade com meios neonazis. O grupo 1143, dirigido por Mário Machado, surgiu em investigações recentes relacionadas com atividades extremistas, de índole terrorista. O requerimento realça as ligações públicas, os apoios declarados e as presenças cruzadas em manifestações. Não é necessário que exista fusão orgânica para que exista afinidade política operacional. A história europeia ensina que partidos institucionalizados e milícias radicais muitas vezes caminham lado a lado antes de formalizarem qualquer união.

Ninguém duvida que será preciso coragem para decidir a extinção de um partido com a dimensão eleitoral do Chega. Talvez seja menos difícil esquecer a Constituição da República Portuguesa que proíbe partidos armados ou conspirativos, organizações racistas e fascistas.

O requerimento de Garcia Pereira não é ideológico; é jurídico. O Ministério Público tem de executar a lei. Não pode escolher quando aplica a lei. Ou se a aplica dependendo da dimensão eleitoral do visado.

A democracia não é um regime suicidário obrigado a tolerar quem trabalha sistematicamente para a sua deslegitimação. A questão, no fundo, não é gostar ou não gostar do Chega. É saber se as regras constitucionais são aplicáveis a todos. Se a lei só vale quando não cria embaraços políticos, então deixamos de ter um Estado de Direito para passar a ter um Estado de conveniência.

O MAIOR CAROÇO DO MUNDO

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Jorge Paiva realça, mui sabiamente, a narrativa de viagem de Vasco da Gama à Índia, explicando, por exemplo, o significado das palavras aí consignadas relativas a plantas.

Que os deuses gostavam de determinadas plantas e flores já nós tínhamos uma ideia, porque as narrativas mitológicas gregas e romanas no-lo haviam contado. Agora que, estando no Oriente, um se tenha querido ‘vestir’ de uma planta que é da Europa… isso, se calhar, ainda se não havia pensado.

Esse foi o enorme e deveras cativante trabalho a que Jorge Paiva lançou mãos: miudamente anotar esses dados, para que nos consciencializemos, de vez, da enorme capacidade que o poeta tinha de mostrar o seu saber “de experiências feito”.

Jorge Paiva, no deserto de Namibe 08.08.2007

De alguns animais se diz, por vezes, que tudo se aproveita: a carne, a pele, os ossos, os chifres, a bexiga, as tripas… Agora, idêntico aproveitamento total em relação a uma planta quiçá não seja tão comum. Por isso me seduziu particularmente o que Jorge Paiva conta, em pormenor, acerca do coco-do-mar ou coco-das-maldivas, “pomo” lhe chama Camões no canto X d’Os Lusíadas, quando trata da Ilha dos Amores, porque se lhe dão atributos afrodisíacos.

«Fruto de uma palmeira endémica do Arquipélago das Seychelles e não das Maldivas»,  tem um caroço que lembra a zona púbica da mulher, sendo, por isso, também designado coco-das-nádegas e coco-indecente.

Acrescenta Jorge Paiva: «É o maior caroço (30-50 por 25-28 cm) e mais pesado (15-20 kg) que se conhece. Tem uma só semente que também é a maior e mais pesada semente conhecida».

Quando seco e perde a semente, pode flutuar e facilmente as correntes marítimas o levam mar afora até às Maldivas e ao Oriente; por esse motivo, os navegadores europeus, quando por essas paragens o viram, lhe chamaram também coco-das-maldivas e chegou mesmo a pensar-se que, devido ao seu invulgar tamanho, era de uma palmeira que vegetava no oceano profundo.

Ora acontece que esse coco assumiu tal importância que, nas Maldivas, «o direito de propriedade de todos os cocos-do-mar que apareciam nas praias eram pertença dos soberanos das mesmas e qualquer pessoa que não entregasse algum desses achados era condenada à morte ou era-lhe decretada a ablação das mãos».

Sabe-se que «a Rainha Catarina da Áustria tinha vários desses cocos, alguns deles encastoados em peças de metais preciosos; em museus europeus existem alguns cobertos a ouro ou prata e ornamentados exteriormente com figuras decorativas, que serviam, geralmente, de vasilhas ou copos».

E porque é que se começou a falar dos animais de que tudo se aproveita? É que isso mesmo acontece com esta verdadeiramente extraordinária planta!

De facto, conta Jorge Paiva, que, para além da sua fama afrodisíaca e virtudes medicinais e místicas, «o grande limbo flabeliforme das folhas é utilizado para cobertura de habitações, para fabrico de esteiras, leques, cestos, caixas, estojos, chapéus, ramos de noiva e outros artigos de artesanato; a madeira e pecíolos foliares, para tabiques, paliçadas e bebedouros para o gado; os caroços para pratos, vasilhas, copos, caixas, artigos de adorno e produção de marfim vegetal; os pêlos da parte inferior dos pecíolos das folhas jovens para encher almofadas e travesseiros».

Dir-se-á, ainda, que a amêndoa (a semente) é normalmente congelada, para depois ser servida «aos turistas como guloseima e, até, para produzirem uma bebida alcoólica, licorosa, que, como não podia deixar de ser, tem a designação de licor de coco d’amour, vendida em garrafas com a forma sugestiva do caroço».

Quem diria?

“FICHEIROS EPSTEIN” SÃO CORTINA DE FUMO

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O que está solidamente estabelecido é isto: Jeffrey Epstein foi condenado em 2008 por crimes relacionados com prostituição envolvendo uma menina menor, beneficiou de um acordo judicial extraordinariamente favorável e, anos depois, voltou a ser detido sob acusação federal de tráfico sexual de menores. Morreu numa prisão federal em 2019, oficialmente por suicídio. A sua colaboradora próxima, Ghislaine Maxwell, foi condenada por tráfico sexual de menores e cumpre pena neste momento.

Estes são factos judiciais. O resto move-se num território mais ambíguo.

Epstein, proxeneta e pedófilo, cultivou durante décadas uma rede social composta por políticos, empresários, académicos e celebridades. Fotografias ao lado de figuras públicas, registos de presença em eventos ou mesmo nomes inscritos em agendas não equivalem, por si, a prova de envolvimento criminal. No universo das elites globais a que chamamos “jet7”, o convívio faz  parte dos negócios, tal como o sexo, mas isso não significa que a proximidade social seja sinal de cumplicidade em crimes.

Dois nomes surgem repetidamente no debate público: Donald Trump e Prince Andrew. No caso do príncipe britânico houve um acordo extrajudicial com uma das vítimas, sem admissão formal de culpa.

O príncipe André com a menor de idade Virginia Giuffre e Ghislaine Maxwell em 2001. Fonte:US Department of Justice/PA

No caso de Trump existem registos de convivência social, mas até ao momento não houve acusação criminal relacionada com o processo Epstein.

Mas é claro que as percepções tambem contam. E toda a gente estranha que um esquema de prostituição de menores desta dimensão a funcionar durante anos, num meio saturado de poder político e financeiro, tenha sido ocultado tão eficazmente. A indulgência judicial de 2008, a continuidade das relações sociais após a primeira condenação e as falhas graves na vigilância prisional em 2019 são elementos que alimentam teorias e justificariam escrutínio sério.

O que os “ficheiros” divulgados até agora mostram é que Epstein conhecia meio mundo. Mas nada prova a existência de uma conspiração generalizada. Isso não significa que cúmplices não existam. Existem, certamente, mas a sua identificação exige provas. Tudo indica que existem vídeos e fotografias comprometedoras, mas ainda ninguém viu esses documentos fora do círculo de juristas e de políticos que controlam a investigação.

O que está a acontecer, provavelmente de forma planeada, é a transformação de um escândalo real numa névoa onde tudo parece possível e nada é demonstrável. Ergueram uma cortina de fumo. Ninguém pode ser acusado de ocultação, mas a saturação informativa impede distinguir a responsabilidade concreta entre os que, por diferentes razões, estiveram junto de Epstein ao longo dos anos.

SOBRE O GOLPE DE 26 DE NOVEMBRO

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A análise da crise na Guiné-Bissau não pode ser feita de forma seletiva. O 26 de Novembro de 2025 não surgiu no vazio. Foi precedido por um clima político altamente inflamado, por discursos de crescente radicalização identitária e por uma polarização que ameaçava transbordar para além do plano institucional.

Um país à beira da fratura

A Guiné-Bissau não vive apenas crises políticas; vive crises acumuladas de legitimidade institucional. No período pré-eleitoral observavam-se sinais claros de instrumentalização de fatores étnicos e religiosos, com tentativas evidentes de mobilização segmentada no seio das Forças de Defesa e Segurança.

Num país onde a classe castrense sempre teve peso estrutural, qualquer sinal de alinhamento político identitário dentro dos quartéis constitui fator de risco sistémico. Ignorar este contexto é produzir uma leitura incompleta da realidade.

A estratégia de polarização

Não se pode escamotear que setores ligados a Domingos Simões Pereira e a Fernando Dias foram acusados de recorrer a uma narrativa identitária como instrumento de mobilização política.

A tentativa de transformar maiorias sociológicas em maiorias militares teria consequências imprevisíveis. A história recente da Guiné-Bissau demonstra que fraturas dentro das Forças Armadas raramente terminam de forma pacífica. O risco de confrontação era real.

Suspeitas que agravaram o ambiente

Circularam amplamente imagens e relatos associando figuras da campanha da oposição a indivíduos referenciados em investigações sobre narcotráfico. Não cabe aqui substituir tribunais. Contudo, num Estado frágil, a perceção pública de infiltração criminosa no processo político agrava exponencialmente a instabilidade.

O silêncio sobre estes elementos distorce o debate.

O 26 de Novembro como contenção

É legítimo defender que a democracia se constrói com eleições. Contudo, eleições realizadas num ambiente de fratura institucional profunda podem funcionar como detonador, e não como solução. Para muitos setores da sociedade, o 26 de Novembro representou uma contenção de emergência destinada a evitar um confronto aberto entre fações políticas e segmentos armados. A alternativa poderia ter sido um cenário de violência generalizada, com consequências catastróficas.

O processo interrompido

Sob a liderança de Umaro Sissoco Embaló, o país registava sinais de reorganização institucional e de afirmação diplomática externa. Havia desafios estruturais, sem dúvida. Mas também existia um processo de estabilização em curso. A disputa eleitoral radicalizada ameaçava comprometer esse percurso.

O verdadeiro desafio

A questão central não é glorificar soluções de exceção. Nenhum patriota deseja que intervenções militares se tornem norma política.

O desafio consiste em transformar o episódio de 26 de Novembro numa oportunidade de auditoria transparente ao processo eleitoral, esclarecimento das alegações de instrumentalização identitária, garantias públicas de neutralidade das Forças Armadas, compromisso formal de todas as forças políticas com a paz civil e construção de um pacto republicano duradouro.

Sem resolver as causas estruturais da instabilidade, novas eleições poderão apenas reproduzir as mesmas tensões. A Guiné-Bissau esteve perigosamente próxima de uma fratura interna profunda. Reduzir o 26 de Novembro a uma leitura simplista ignora os fatores que precipitaram a crise.

A democracia exige mais do que eleições; exige instituições sólidas, cultura republicana e responsabilidade coletiva. O momento atual não deve ser explorado para polarizações adicionais, mas para uma reconstrução séria do consenso nacional.

O país precisa menos de narrativas parciais e mais de compromisso histórico. A alternativa é regressar ao ciclo vicioso que todos afirmam querer evitar.

FUTEBOL PAIXÃO E VIOLÊNCIA POLÍTICA

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Há cerca de 42 anos fui com a minha filha assistir, no velho Estádio de Alvalade, a um jogo do SCP e o comentário mais violento que se ouviu – e que a minha filha ainda hoje recorda – foi a de um adepto do SCP chamar ao fiscal de linha ‘aeroporto de moscas’, pois ele era calvo com dois tufos de cabelo a enquadrar a careca.

Este texto, que será sobre a violência no futebol, ou melhor sobre a violência à margem do futebol, começa por dois fait-divers, sendo um deles o mais importante, a ‘sessão de Carnaval’ da reunião do Conselho da Paz com a presença de Infantino, porque, na verdade, é esta estrutura do poder que reúne autocratas e líderes mundiais, subservientes a um poder que se quer transformar numa autocracia, que nos pode ajudar a perceber os movimentos dos chamados ultras ou casuals (a sub-secção dos hooligans, que teve origem, no final dos anos 70, no Reino Unido, e conhecidos por usarem roupas de griffe, por forma a não serem reconhecidos como adeptos de um clube).

No Reino Unido colocaram na ordem esta gente – cheguei a assistir, para aí em 1976, à forma dura e eficaz como a polícia os identificava e os impedia de actuar.

A extrema-direita viu nestes grupos e nas claques de futebol um campo fértil para captar adeptos e não a desperdiçou.  Há mais de 20 anos que grupos neonazis espanhóis aliciavam jovens das claques dos clubes portugueses para se inscreverem nesses movimentos. A Polícia Judiciária e o SIS têm conhecimento desses movimentos e vão monitorizando a sua actuação, embora seja cada vez mais difícil, porque aumentou o grau de violência e o número de membros dessas organizações terroristas.

Sabemos que o futebol gera paixões, emoções descontroladas e irracionais. Mas aquilo a que estamos a assistir é mais do que esse exacerbamento da paixão clubista, é um claro crescendo da violência que se instalou na sociedade, que se agravou com a radicalização de grupos ligados à extrema-direita, com um único objectivo: causar perturbação social e lançar o caos.

Cunha Rodrigues, ex-PGR, escrevia, há uns 15 anos, que a ‘sociedade estava doente’, e a verdade é que não só está doente como foi tomada de assalto por radicais de direita, que apenas pretendem causar perturbação social com o objectivo de justificar a necessidade de um aparelho repressivo, liderado, claro, por essas forças políticas.

O que se passou, há dias, à porta do Pavilhão João Rocha não foi um mero confronto entre adeptos, mas sim um confronto entre grupos terroristas, que têm de ser tratados como aquilo que são, sem receio de ‘chamar os bois pelos nomes’, terroristas à ordem de organizações de extrema-direita, com o objectivo de causar a desordem e o medo. 

CEIREIROS, A ARTE DE TRABALHAR A JUNÇA

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A Beselga, freguesia do concelho de Penedono, é hoje, como as demais freguesias que a envolvem numas poucas léguas de distância, uma aldeia cativa desse funesto destino que foi a emigração, de que retorno se não apercebe e o abandono se revela no casario fechado, nos chãos abandonados de onde vinha, antigamente, o pão que os lavradores carreavam para as eiras, pão de centeio na fartura das eiras ou de milho maís que alegrava a gente com as desfolhadas. Abandono que se sente, ao olhar os alpendres desertos, as ruas sem caminheiros, as lameiras sem gado, sem cantos de lavadeiras as margens da ribeira.

Pão que, verdadeiramente, não era bastante para matar a fome da gente, fome de pão que traçou um novo destino para tanta, tanta gente!…

Da terra vinha esse pão de um tempo de memória, do centeio, de algum trigo, do milhão, do linho, da castanha, do feijão, que assim ditam os corógrafos antigos, o Padre Manuel de Azevedo que escreve em 1758 e D. Joaquim de Azevedo, um pouco mais de cem anos mais tarde.

O primeiro, no relatório que integra as Memórias Paroquiais de 1758, não fala das ceiras, essa “indústria” caseira a que D. Joaquim de Azevedo, na História Eclesiástica da Cidade e Bispado de Lamego, datada de 1877, dá relevo maior:

«Tem fábrica de esteiras de esparto, ceirões e outras obras, que vendem para os engenhos de azeite e para esteirar as casas, ou para assentos, o que tem grande consumo nos lugares da comarca”.

Nessa época, e vai mais de um século e meio, os ceireiros moviam-se já por léguas, que iam do Minho à Estremadura, com seus burricos carregados de ceiras para as azenhas das redondezas e os demais artefactos com que se esteiravam chãos de cozinha, lojas de serão, capachos de alindar soleiras de porta de lavrador ou mais fidalgas, frios soalhos de quartos de dormir, bancos de igreja, assentos de confessor.

Voltavam, depois da carga vendida, avaras moedas e, algumas vezes, o pagamento em frutos da terra, medidas de milho ou de feijão.

Trabalhar a junça ainda hoje é um saber que resiste aos tempos, em Beselga, Penedono.

É por essa época, com o ofício já enraizado, que o bom do Padre Cristóvão de Nossa Senhora do Patrocínio, a aceitarmos a legenda, introduz na Beselga o culto de Nosso Senhor dos Passos, devoto desse Senhor da Paixão assim invocado, e estabelece-o na antiga Capela da Senhora da Encarnação ou da Lameira, a um tiro de pedra do centro da aldeia, como se dizia e daí se enraíza, como o ofício, a devoção.

Os passos dos ceireiros alargavam-se, entretanto, para além da comarca. Machitos tropeteiros, como o do Malhadinhas, lá arcavam com a carga. Azenhas apetrechadas, pregões à boca de uma rua, uma porteira aberta sobre o entardecer, o machito acolhido em casa de lavrador conhecido, a manjedoura com feno, duas mantas no cabanal, a malga de caldo, pão e vinho que trouxe a lavradeira, e a rota batida ao outro dia, até poder regressar, montado agora no machito.

E a mulher, que ficara rezando com os filhos pequenos, sobre a noite vazia – “Senhor dos Passos te guie!…”. E a promessa de fazer, de joelhos, as voltas à capela, verão findo e o óbolo na bandeja, que o ceireiro regressara em paz, duas moedas que foram juntando para comprar um chão, levantar sobrado. Esquecidos, por um tempo, os passos sofridos, feridas saradas, as da saudade e tantas outras, quem sabe!…

Talvez o ceireiro, mais esses vagamundos de caminho vário, sentissem o Senhor dos Passos como seu irmão. Feridas que demoravam a sarar, suor de sangue, as quedas repetidas, um cireneu que sempre há, uma promessa que Ele ouvia, a mão estendida sobre a mão calejada do irmão.

Talvez se tenham afeiçoado assim, os ceireiros e o Senhor dos Passos; talvez, por isso, o carreguem agora no andor, em procissão, poupando-lhe assim algumas dores.

Talvez por isso o tenham escolhido para patrono. Que ninguém mais os compreenderia assim!…

Procissão do Senhor dos Passos em Beselga, Penedono

TER LIBERDADE

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Neste meu entardecer, não é definido nenhum grau para a minha liberdade, mas devo dizer que não foi sempre assim; passou algum tempo por mim, até descobrir que a espera pela liberdade não era justificada, afinal, descobri-a por tê-la dentro de mim. Todos a temos, mais ou menos oculta. É só querer e sobretudo, ter a vivência suficiente para detectar a sua porta de entrada.

A liberdade, tal como a concebo, é conferir a outra pessoa, o direito de escolher um percurso, connosco, ou não, dentro dos nossos ideais, das nossas escolhas, ou não. Ao respeitarmos a escolha dessa pessoa, estamos a fruir plenamente da nossa liberdade interior e a garantir que ninguém nos poderá acusar de subjugarmos esse alguém.

Fui sempre pensador livre, que não diz tudo que pensa, mas sempre pensei, seguramente, em tudo que digo, porque aqui, a nossa maior liberdade, é sermos nós. Em tempos, essa forma de ser livre, custou-me a mudança de “arma”, de Engenharia para Infantaria. Malhas que o império tecia. Alguns querem esses tempos de volta…

Sempre chorei, sorri, libertei e liberto uma gargalhada franca, de coração livre e o pensamento cheio de paixão de viver. A liberdade, a minha, tem asas e o seu voo não entra em rota de colisão com nenhuma das outras que ao redor e ao largo de mim, se espraiam. Nunca fui atrás de um poder qualquer, para ter que perder a liberdade, porque o poder cerceia a liberdade.

Assim, possuir a liberdade como eu a entendo, não é viver subjugado ao dinheiro, escravo de opiniões, de comunhões clubistas ou a não ajuda ao nosso semelhante. É sim, continuar a luta pelos nossos sonhos sem colidir com os dos outros, sempre que possível, “voar” em conjunto, cada um com as suas asas. Também é pela luta que se aprende onde estão as portas do nosso interior, as que dão entrada na liberdade. 

Ser livre, então, é poder escolher o que interessa a um conjunto de pessoas que vivem numa rua, num bairro, numa vila, numa cidade, num distrito, ou num ermo…

Ser livre não é sorrir sobre o que outros nos informaram estar correcto sem verificar primeiro. Ser livre não é bater palmas a atitudes governativas que acabaram por não beneficiar o que quer e quem quer que seja, e foi, simplesmente um nada, dito tudo, para resolver problemas na comunidade.

Ser livre não é deixar de cumprir a obrigação de escolher quem melhor nos representa.

Ser livre é analisar, estudar, reconhecer que ditadores são os que sujeitam milhões de pessoas aos seus “instintos”, subordinando-os a seres que começaram a perder a dignidade de humanos, sem o saberem. Sofrem da síndrome do “sequestrador”. Destes, 99% estão convencidos que a verdade desses governantes, será sempre a sua bandeira. Seres que podiam, livremente, viajar por todo o planeta, viver uma vida digna e conviver com todos os seres humanos livres, estão condenados a viver numa mentira que não os dignifica e os leva a concordar com atitudes assassinas. Incrível, mas os ditadores, disfarçados, é o que fazem à liberdade dos povos que dirigem.

Apetece-me gritar: “Acordemos! Sejamos livres”! Sejamos sempre livres! Vamos em frente. É o momento para uma análise definitiva sobre o que é ser povo: “donde se vem, o que se é e o que se tem, e definitivamente, o que queremos ser, e ter.

PROIBIDO DE PASSEAR EM SINTRA

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Durante sete anos, um homem sem casa permaneceu num largo de Sintra com cartazes na mão. Não bloqueava a passagem, não liderava multidões, não incendiava nada. Estava ali. Todos os dias. Sentado num muro. À vista de todos. À vista do poder.

Chama-se Manuel Ildefonso. Protestava contra a autarquia porque entendia ter direito a habitação social. Pedia ajuda. Não a teve. Ficou. Foi pressionado a acabar com o protesto. Foi levado para para esquadras, muitas vezes algemado, magoado. Resistiu e voltou sempre para prosseguir o protesto.

Sete anos depois, a resposta do Estado não foi uma casa, foi uma condenação penal e uma ordem: não pode aproximar-se num raio de 1,5 quilómetros da Câmara Municipal. Formalmente, tudo parece encaixar nos códigos. Houve resistência à autoridade. Houve o que consideraram ter sido desobediência. Houve confrontos (nunca iniciados por Ildefonso). A lei prevê consequências, está tudo escrito. O tribunal aplicou-as.

O Tribunal da Relação confirmou a sentença da 1ª instância, incluindo a proibição de circular num raio de 1500 metros à volta do Largo Virgílio Horta.

Mas a justiça não se esgota na legalidade. O que está em causa não é apenas a mera transposição de normas. O que deveria ter sido importante seria ter definido que conflito estava realmente ali a ser julgado. Isso não foi feito, mesmo se um juiz pode, querendo, não se limitar a aplicar as normas.

Um sem-abrigo que protesta persistentemente contra o poder local é um criminoso reincidente, ou é um cidadão desesperado cuja única arma é a presença incómoda?

A força pública confrontou-o repetidamente. Ele resistiu. Durante anos. A narrativa judicial lê essa persistência como afronta à autoridade. Outra leitura possível é ver nisto teimosia cívica, talvez imprudente, talvez excessiva, mas nascida de exclusão social.

A lei é cega, repete-se muitas vezes como se fosse virtude. Mas quando a cegueira impede ver a desproporção de forças entre um aparelho municipal e um homem que dorme na rua, a neutralidade transforma-se em indiferença. Há quem diga que passa a ser obediência.

Um raio de 1500 metros não é apenas uma medida técnica. É uma expulsão do centro político da vila. É a mensagem de que certos protestos deixam de ser toleráveis quando se tornam persistentes.

O Estado tem o dever de manter a ordem pública. Mas também tem o dever de suportar o incómodo do dissenso, sobretudo quando esse dissenso vem de quem nada tem. Numa democracia madura, o poder deve ser suficientemente robusto para tolerar um homem com cartazes à porta. Quando deixa de o ser, o problema já não é o protesto. É a fragilidade do poder perante a crítica.

E quando a resposta a um pedido de habitação social acaba num afastamento judicial do espaço público, convém perguntar se a lei serviu para proteger a comunidade, ou para proteger o conforto do Presidente da Câmara. Serviu, pelo menos, para impedir uma manifestação de protesto.

Entretanto, há um novo Presidente de Câmara. Antes de ser eleito, foi um apoiante do direito de Ildefonso a protestar. Criticou de viva voz, mais de uma vez, o comportamento da Polícia Municipal e do anterior autarca. Há, portanto, uma esperança.

VIOLÊNCIA CONTRA PROFISSIONAIS DE SAÚDE

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A violência física e verbal contra médicos e enfermeiros está a aumentar de forma preocupante na Alemanha. De acordo com um recente inquérito do Jornal Médico Alemão, dois terços dos médicos inquiridos reportaram já ter sido vítimas ou assistido a violência física ou verbal, no local de trabalho. Os episódios são particularmente frequentes em serviços de urgência e consultórios, tornando-se um risco ocupacional crescente. A crise no sistema de saúde e degradação do tecido social são apontadas como causas.

Especialistas vinculam este surto de agressividade a frustrações profundas no sistema de saúde. Pacientes enfrentam dificuldades para marcar consultas, seja com médicos gerais ou especialistas como ortopedistas e cardiologistas, sendo a situação mais crítica nas urgências. A percepção de que utentes particulares têm acesso facilitado agrava a sensação de desigualdade e desamparo entre a população geral.

O problema, no entanto, parece refletir uma erosão mais ampla do respeito na sociedade. Num país que faz propaganda da guerra, procurando tornar pessoas ‘aptas para a guerra’, o aumento significativo da disponibilidade para usar violência é uma consequência visível. O clima de agressão aumenta especialmente em relação a empregados do serviço público. O assassinato de um revisor de comboios perto de Kaiserslautern é um exemplo extremo desta tendência.

A mentalidade do “é meu direito”, aliada a uma crescente impaciência e a uma resistência diminuída em procurar ajuda de forma civilizada, está a colocar em risco os profissionais na linha da frente. Numa sociedade em que as pessoas são vistas mais como objetos funcionais, o respeito diminui e a violência aumenta, também como efeitos negativos de certas políticas se fazem sentir na base da sociedade.

A combinação fatal de um sistema de saúde sob pressão, com longas esperas e escassez de profissionais e um clima social onde a coesão se degrada, está a criar um ambiente perigoso para quem trabalha no setor e em outros sectores públicos. As associações médicas alertam para a necessidade urgente de medidas que protejam os seus profissionais e que ataquem as causas de fundo desta crise, que é tanto de saúde pública como social.